O MESTRE

Di Maria, Ramires, David Luiz, Coentrão, Witsel, Javi, Matic, Oblak, Garay, Siqueira, Markovic, André Gomes, Rodrigo e Cardozo. Estes são os jogadores que o Benfica foi perdendo desde 2010, com os quais terá encaixado uma verba global próxima dos 250 milhões de euros (na maioria dos casos, fruto de uma valorização exponencial). Ao longo deste período, houve que refazer a equipa - ora parcial, ora quase totalmente, como neste último verão.
Os resultados foram: 2 Campeonatos, 1 Taça, 4 Taças da Liga, 1 Supertaça, 2 finais europeias, 5º lugar no ranking da UEFA, 4 apuramentos directos para a Champions, e apenas 3 derrotas nos últimos 70 jogos da Liga. Não fora um auxiliar de Proença em 2012, e uma profunda falta de sorte em 2013, e o Benfica seria tri-campeão. É “apenas” campeão, mas desde os anos 80 que não evidenciava tamanha competitividade em épocas sucessivas. E sem 6 titulares do “Triplete”, aí estamos nós, novamente na liderança, com 4 pontos de vantagem.
A estes números, podemos acrescentar um futebol exuberante, ofensivo e goleador, capaz de empolgar as exigentes bancadas da Luz.
Olhamos para o Benfica de Jorge Jesus, e para o Benfica anterior, e a diferença é abissal. Se Vieira trouxe a revolução institucional que resgatou o Benfica dos seus piores anos, Jesus somou a componente desportiva de que o nosso futebol carecia.
Pode mascar pastilhas elásticas, e dar pontapés na gramática. Pode até ser indelicado para alguns jornalistas mal habituados. Mas poucos no mundo perceberão de futebol como ele.
Segue as suas convicções, e não as pressões que pedem A por ser português, B por ser da formação, ou C por ter olhos azuis. Diz as verdades, mesmo quando nos custa ouvir que a Champions não pode ser objectivo imediato. E, mantendo uma equipa disciplinada, determinada e confiante, ganha jogos. Muitos jogos.
“Forever” é palavra perigosa. Mas, enquanto benfiquista, dormiria descansado com a garantia de que a dupla Vieira-Jesus se mantinha no Benfica, pelo menos, mais uma década.

IMPUNIDADE

Não confio na justiça.
Não necessariamente nos profissionais que a compõem, mas no sistema em si, que parece feito de encomenda para garantir impunidade à alta corrupção, e ao crime mais requintado.
Manobras dilatórias, incidentes processuais, recursos, contra-recursos, aclarações, nulidades, adiamentos, prescrições, e afins, constituem o labiríntico dicionário jurídico com que a verdade se confronta, ficando esta quase sempre a perder.
Não esperava, pois, que dos tribunais comuns resultasse nada de substantivo relativamente ao processo Apito Dourado, assim como não o espero de outros processos de grande dimensão e mediatismo – com as excepções que a regra normalmente concede.
Mas uma coisa é perceber, com maior ou menor resignação, que o ultra-garantismo do sistema judicial português promove a impunidade, outra, bem diferente, é dele inferir inocências que só por má fé, ou insulto, poderão ser alegadas. E é isso que tem sido feito, quer por agentes desportivos (nomeadamente os órgãos de justiça desportiva), quer por alguns comentadores, a propósito da absolvição de Pinto da Costa.
Todos sabem que só um mero artefacto, que considerou nulo o principal meio de prova, permitiu que o processo Apito Dourado tivesse um desfecho à revelia da verdade dos factos. Mas a justiça desportiva ignorou essa evidência, enveredando por um caminho de desresponsabilização e facilitismo, que, infelizmente, também não surpreende. Daí a lermos e ouvirmos comentários alarves, defendendo a candura do presidente do FC Porto, e pretendendo tomar-nos por idiotas, foi um pequeno passo.
Porém, as escutas existem. E tal como a Galileu, ninguém nos demoverá de as evocar, pelo menos enquanto muitos dos seus protagonistas continuarem por aí, a poluir o nosso futebol.
Já sofremos o suficiente com décadas de corrupção e falseamento de resultados desportivos pelas mais diversas vias. Não temos também de ficar condenados ao silêncio, perante uma verdade que foi ouvida, de viva voz, por quem a quis ouvir.

GUIADOS PELA JUSTIÇA


Seria difícil estabelecer um nexo de causalidade entre a liderança isolada do Benfica na classificação do Campeonato, e a maravilhosa atitude dos benfiquistas nos últimos minutos do jogo com o Zenit para a Liga dos Campeões. Mas uma coisa sucedeu à outra, como que premiando o trabalho, o esforço, a fé e o sentido de comunhão que haviam sido demonstrados dias antes, e constituem parte integrante da nossa matriz identitária.
O que se viu na partida internacional foi belo, e incomum em estádios portugueses. Algumas mentes mais empedernidas desdenharam daqueles aplausos, confundindo a satisfação por um resultado (e nenhum de nós saiu satisfeito da Luz nessa noite), com o reconhecimento do trabalho de profissionais que, perante múltiplas contrariedades, lutaram até à última gota de suor por um desfecho mais feliz. Participar naquele momento foi algo que me orgulhou enquanto benfiquista, enquanto apaixonado do futebol, e até enquanto português.
Como tantas vezes acontece, no futebol e na vida, justiça seguiu os seus próprios caminhos: no domingo, uma conjugação de resultados favoráveis guindou o Benfica à liderança da tabela classificativa, algo que afaga a moral da equipa e dos adeptos, e constitui precioso estímulo para os compromissos vindouros.
Vencer o Moreirense não foi tarefa fácil. Em primeiro lugar devido à organização colectiva que o conjunto minhoto apresentou, em segundo lugar devido ao anti-jogo que cedo começou a praticar, e em terceiro a um certo adormecimento do Benfica ao longo da primeira parte – o qual poderá ter a ver com o desgaste físico e anímico da partida anterior, mas que deverá servir de aviso para uma equipa que tem na conquista do Bi-Campeonato a sua grande prioridade.
Nos próximos dias, mais um duplo compromisso. E mais um desafio à concentração competitiva da nossa equipa. Todo o grupo de trabalho estará certamente desperto para a importância do jogo de Leverkusen. É muito importante que se mantenha ainda mais desperto para o jogo com o Estoril.

MAIS VITÓRIAS

1.A pré-temporada terminou há pouco mais de um mês, e esse foi o tempo suficiente para afastar os anátemas que alguns já haviam lançado sobre a nossa equipa do Futebol.
Luisão, Maxi Pereira, Enzo Perez e Nico Gaitán permaneceram por cá (ao contrário do que chegou a ser garantido por jornais e comentadores); os reforços são, afinal, acima de qualquer suspeita; e até o ponta-de-lança, que a dada altura parecia em falta, acabou por chegar, numa operação de mercado que não pode deixar de ser aplaudida.
À hora em que escrevo, desconheço o resultado do jogo europeu com o Zenit. Mas no plano nacional, quer resultados, quer exibições, têm mostrado um Benfica muito próximo dos níveis daquele que, há bem pouco tempo, alcançou o histórico “Triplete”.
2.O desporto feminino está em alta no nosso Clube. Com vários troféus conquistados no Hóquei em Patins, no Futsal, no Râguebi, e também no Basquetebol, as nossas meninas têm interpretado bem a mística benfiquista, mostrando ao país que a grandeza do Benfica não escolhe sexos. Trata-se de uma aposta certeira da Direcção encarnada, que vai de encontro à enorme margem de crescimento que o desporto feminino ainda possui. Não me admiraria que, dentro de alguns anos, a popularidade destas competições rivalizasse com as suas correspondentes do sector masculino, trazendo novos adeptos, e adeptas, aos pavilhões, enchendo-os de beleza e fervor clubista. O Futebol, com a sua especificidade, terá de esperar. Mas o Voleibol e o Andebol podem, e devem, ser apostas para breve.
3.Por falar em Andebol, há que lamentar mais uma derrota da equipa principal, por números claros, frente a um rival directo. Os treinadores passam, mas a secção tarda em encontrar o caminho de sucesso trilhado por todas as restantes modalidades do Clube. As condições proporcionadas pela Direcção mereciam outros resultados. A época ainda agora começou, mas a olhar pelo passado recente, um resultado como o do último fim-de-semana não pode deixar de acentuar a desconfiança.

A FORMAÇÃO

A indecorosa derrota da Selecção Nacional diante da Albânia acentuou o debate sobre a Formação.
Também no Benfica o tema tem sido recorrente, quer para aqueles que vêm nele a cura para todos os males, quer para os que olham com alguma prudência para tão grande optimismo (nos quais me incluo).
Desde logo, quando se fala em Formação, há que distinguir o interesse do futebol português, dos interesses dos clubes portugueses. Se a Selecção teria a ganhar com uma política desportiva que reforçasse a utilização de jovens jogadores portugueses nas principais equipas e nas principais competições, para os grandes clubes o compromisso é vencer, com ou sem juventude, com ou sem portugueses. Perante gerações bastante apagadas de futebolistas lusos, é natural que a aposta de quem busca títulos e presenças internacionais de relevo incida noutro perfil de jogador - mais agressivo, mais disponível, e mais resistente, que os mercados sul-americanos vão fornecendo.
Seria interessante perceber se esse apagamento é conjuntural, ou se, pelo contrário, se deve à agonia de um certo futebol de rua (que conferia criatividade e robustez aos Futres, aos Figos e aos Ronaldos), e ao recrudescimento das gerações “Play-Station” (mais acomodadas e sem grande capacidade de sofrimento), assumindo então uma matriz estrutural, logo mais difícil de inverter. A verdade é que, na última década, contam-se pelos dedos os jogadores de classe internacional que o futebol português produziu. Mau trabalho de base, ou inexistência de talento natural? Suspeito que a segunda hipótese também seja de considerar.
Sendo este um problema do âmbito da FPF, das selecções jovens, ou, no limite, da regulamentação desportiva, não me parece que o Benfica deva ter pruridos em recorrer aqueles que lhe dão mais garantias imediatas, independentemente de nomes, nacionalidades ou datas de nascimento. É verdade que existe, bem perto, quem alinhe com seis ou sete jogadores formados internamente. Mas…quantos títulos têm eles conquistado?

UM A UM

1-Um erro individual impediu o Benfica de alcançar a sétima vitória consecutiva em Dérbis para o Campeonato disputados em casa, permitindo ao Sporting voltar a marcar na Luz – algo que não sucedia desde 2006-07.
O espectáculo foi grandioso (dentro e fora das quatro linhas), e a nossa equipa mostrou fulgor. Mas em jogos desta natureza, um simples detalhe pode fazer a diferença. Não adianta crucificar Artur, que noutras ocasiões já foi herói. É manifesto o seu défice de confiança, e cabe-nos também a nós, adeptos, ajudá-lo a readquirir a tranquilidade necessária para superar este momento menos bom, e regressar aos níveis revelados em 2011 e 2012.
Em Alvalade, na segunda volta, com Artur ou sem Artur, recuperaremos os pontos agora perdidos.
2-Finalmente encerrou o “mercado”.
Dos últimos dias, uma nota de tranquilidade, e um motivo de preocupação.
A nota de tranquilidade prende-se com as permanências de Enzo Perez e Nico Gaitán, tão somente os dois melhores jogadores do último Campeonato. O Presidente prometeu que só sairiam pela cláusula de rescisão, e cumpriu a palavra dada. Como ninguém bateu as cláusulas, eles aí estão, incorporando a espinha dorsal do Campeão Nacional, e desmentindo as teses mais catastrofistas. Juntamente com Sálvio, formarão o núcleo duro do nosso futebol criativo. Continuaremos a ouvir Tango na Luz.
O motivo de preocupação reside no centro do ataque, onde me parece que as saídas de Cardozo e Rodrigo não ficaram devidamente colmatadas, e para onde se esperava um reforço de peso. É de realçar que nos quatro jogos oficiais já realizados (seis, se contarmos com a Taça de Honra), nenhum avançado benfiquista marcou qualquer golo. O futebol faz-se de golos, e sem eles não adianta jogar bonito ou empolgar plateias. Lima é um excelente ponta-de-lança, mas atinge normalmente os seus picos de forma em fases mais adiantadas das épocas (já foi assim no ano passado), e as alternativas não parecem à altura das exigências. Oxalá a realidade venha a dissipar este meu receio.

A GALINHA DOS OVOS DE OURO


Encerra no próximo dia 31 a pomposamente chamada “janela” de transferências.
Era suposto tratar-se de um período para ajustamento dos plantéis, para cobertura das necessidades desportivas das equipas, para colocação de excedentes, tudo na medida certa, e com uma calendarização compatível com a inteligência humana. E que não trouxesse nova investida em Janeiro, com mais uma violenta dose de mercantilismo, no que de pior a palavra pode conter.
Na verdade, estas “janelas” são períodos em que o futebol, a sua história, a sua cultura, a sua identidade, os seus adeptos, a sua alma, são deitados para o lixo, em nome da negociata, dos interesses, dos intermediários, dos agentes, da ganancia, dos fundos, das off-shores, e, muitas vezes, do mais puro banditismo. Tudo com as competições a decorrer.
A paixão que leva milhões de pessoas a amar um símbolo, a deslocar-se aos estádios, a pagar quotas e lugares cativos, não é compatível com situações completamente surrealistas, como as de um clube que vende Di Maria para comprar James Rodriguez, apenas – é a única razão que encontro – como forma de fazer circular dinheiro num e noutro sentido, fazendo pingar comissões, sabe-se lá para quem.
Noutros sectores, percebeu-se tarde demais o efeito de uma desregulação desenfreada. No futebol, há de se chegar lá. Provavelmente, também tarde demais, quando os estádios estiverem vazios, quando as transmissões televisivas valerem menos, quando as pessoas, enfim, se fartarem disto, e voltarem as costas a quem as usa como peças descartáveis de uma máquina de movimentar milhões.
Adoro futebol. Ou adorava. Já nem sei. O que tenho certo é que estes meses deprimem-me enquanto adepto, e enojam-me enquanto cidadão. Depois de um Mundial fantástico, nada pior do que este rodopio de notícias de jogadores que partem daqui, de jogadores que chegam dali, de traições, de vendilhões de todos os templos, a mostrar, com indiferente soberba, que o futebol se transformou num esgoto.
Por agora, está a acabar. Por agora…
 

TACUARA

Muitos motivos justificam a venda de Óscar Cardozo ao Trabzonspor: uma lesão grave nunca inteiramente debelada, e, porventura, de duvidosa reabilitação; o sub-rendimento quase penoso que a partir daí o jogador evidenciou; um salário elevado, acima das limitações colocadas pelos novos tempos, e acima daquilo que, neste momento, poderia acrescentar à equipa; e, talvez mais importante que tudo o resto, a parcela do passe afeta ao Benfica Stars Found, que obrigaria a SAD a desembolsar uma verba considerável (4 milhões?) caso tencionasse manter os serviços do goleador.
Tendo em conta estas circunstâncias, ninguém de bom senso poderia atar um jogador de 31 anos ao seu passado. Perante uma boa proposta (para ele e para o clube), havia que abrir a porta.
Dito isto, não posso deixar de manifestar a minha tristeza por ver partir o melhor, o mais eficaz, e o mais marcante ponta-de-lança do Benfica neste século XXI.
Cardozo nunca gerou unanimidades. Dele chegaram a dizer que “só” marcava golos. Coisa pouca, portanto.
Para quem, como eu, dispensa fintas, toques de calcanhar, malabarismos e números mais ou menos circenses, gostando antes de ver futebol prático, com remate pronto e certeiro para dentro das balizas, ele foi um ídolo. Era ele que me fazia levantar da cadeira. Foi ele, com os seus quase 200 golos, que mais alegrias me proporcionou ao longo destes anos.
Tacuára marcou 13 golos ao Sporting, 7 ao FC Porto, 34 nas competições europeias. Sai como o melhor marcador estrangeiro da história do clube, e um dos dez melhores em termos absolutos (emparceirando, na lista, com nomes como Eusébio, Águas, José Augusto, Arsénio, Julinho, Rogério, Nené ou Torres). Só o tempo fará perceber aos mais cépticos a importância e a dimensão histórica que um ponta-de-lança com estes números tem para um clube.
Teria de sair um dia. Esse dia chegou. Da minha parte, fica o eterno agradecimento por tudo quanto nos deu. E a esperança que consigamos rapidamente encontrar alguém capaz de o fazer esquecer.

INEVITÁVEL


Olhando friamente para o que foi sendo noticiado na imprensa relativamente a cada um dos casos, e deixando de lado os estados de alma originados por uma pré-época desoladora, é de concluir o seguinte:
Oblak saiu pela cláusula de rescisão, contra a vontade do clube, e com uma atitude pouco digna das qualidades que revela na baliza. Nada a fazer.
Siqueira terá sido convidado a ficar, colocando exigências salariais incompatíveis com o mercado português. É natural que preferisse actuar no vice-campeão europeu, numa liga com muito maior visibilidade. Pouco ou nada a fazer.
Garay tinha apenas mais um ano de contrato. Terá sido convidado a renovar, e não aceitou a proposta, pelo que, em breve, poderia sair a custo zero. Tinha um dos mais elevados salários do plantel. O Benfica detinha apenas metade do passe. Pouco ou nada havia a fazer.
André Gomes e Rodrigo haviam sido vendidos em Janeiro, num acto de gestão que então suscitou os mais rasgados elogios, e que permitiu ao Benfica encaixar uma verba considerável, contando ainda com os préstimos dos atletas na conquista dos títulos. A decisão havia sido tomada, e bem tomada.
Markovic saiu pela cláusula de rescisão. Apenas metade do passe pertencia ao Benfica, e a escolha não estaria na mão dos responsáveis encarnados. Nada a fazer.
Cardozo não chegou a recuperar do problema físico que o afectou há uns meses. Tinha um dos mais elevados salários do plantel. Com uma percentagem do passe alocada ao Fundo, a SAD estaria obrigada a desembolsar cerca de quatro milhões de euros para o manter. Decisão bem tomada.
Contas por alto, e juntando aqui Matic, o Benfica terá arrecadado nos últimos meses mais de cem milhões de euros, verba importantíssima para fazer face aos constrangimentos decorrentes de uma crescente dificuldade na obtenção de crédito – à qual não serão alheios os conhecidos acontecimentos num dos pilares do sistema bancário português.
Nada disto foram boas notícias. Mas todas foram notícias que o Benfica dificilmente poderia ter evitado.

É SÓ FUMAÇA

Há um ano atrás, o Benfica perdia a Taça de Honra, tal como agora, perdia a Eusébio Cup, tal como agora, e perdia em Nápoles, tal como agora perdeu com o Marselha. A moral dos adeptos estava em baixa, e a comunicação social colocava Jorge Jesus a caminho da porta da rua, antecipando o caos. Depois, partimos para a melhor temporada futebolística das últimas décadas, coroada com a conquista do inédito “Triplete”, e com a presença em mais uma final europeia.
Em sentido contrário, todos nos recordamos de pré-temporadas altamente festivas, com vários triunfos em torneios amigáveis, aquisições sonantes, e encómios na imprensa, que mais tarde se derreteram em finais de época deprimentes, e em dedos apontados muito a torto e pouco a direito.
Não é preciso puxar pela memória para verificarmos quão enganadoras se revelam tantas vezes estas pré-temporadas, tal a inconsistência das suas promessas e ameaças. São importantes para o treinador e para os jogadores, como fases de um trabalho de preparação física e táctica. Não têm importância para mais nada, salvo para a satisfação da natural curiosidade dos adeptos em ver as caras novas do plantel, ou tão somente em apreciar os novos equipamentos.
Dia 10, em Aveiro, então sim, começará o futebol a sério. E uma semana mais tarde, iniciaremos, no nosso estádio, a defesa do título nacional tão brilhantemente conquistado há poucos meses atrás – competição que uma vez mais não poderá deixar de ser tida como a grande prioridade de todo o universo benfiquista.
Até lá, vemos jogadores que partem, jogadores que chegam, jogos-treino mais ou menos exuberantes, mais ou menos enfadonhos, cheios de substituições e erros, a ritmo de sandália, dos quais não irá rezar a história. E vemos uma equipa a preparar-se para enfrentar os mais difíceis desafios, com outras caras e outros nomes, mas com a mesma ambição de sempre.
Ser campeão da pré-temporada é título que bem podemos dispensar para outros. Queremos ser campeões, sim, mas em Maio, onde o 34º nos espera.

SOMOS NÓS!


O futebol, tal como o mundo, está longe de ser aquilo que queríamos.
É o que é. E neste futebol, como neste mundo, há que fazer contas, pois os salários não se pagam com feijões, nem com juras de amor eterno.
Neste futebol ninguém joga pela camisola. Gente de diferentes latitudes procura que a cada passo na carreira corresponda gordura na conta bancária. Os empresários, os fundos e os passes repartidos, acrescentam vinagre a um prato já de si indigesto. E temos o mercado de transferências sobre a mesa. Temos o futebol moderno, de costas voltadas para tudo o que o popularizou. Lamento, mas não existe outro. Só há este, e, com os seus vícios e virtudes, continuamos a amá-lo. Por enquanto.
O Benfica não lhe está imune.
Terão sido cometidos erros nesta pré-temporada? Porventura sim, na forma de comunicar com uma massa adepta jovem, cada vez mais instruída, que exige perceber como, de que forma, e porque razão, são tomadas determinadas decisões.
De resto, lutar contra a voragem dos tempos, e dos dinheiros, é como lutar contra a chuva. Lamento, mas é esta a verdade.
Quanto a jogadores, prevalece a velha máxima segundo a qual só fazem falta os que cá estão. Já vimos sair Di Maria, David Luíz, Ramires, Fábio Coentrão, Witsel, Javi Garcia e Matic, todos eles, a seu tempo, insubstituíveis. Sem eles, em Maio ganhámos tudo. Agora sairão outros. Sem eles, teremos de voltar a ganhar. Iremos voltar a ganhar.
Insubstituíveis somos nós. E nós, sócios, jamais poderemos falhar com o apoio à equipa, ao clube, e a todos aqueles que o servem - compreendendo que é fácil criticar (a quem está de fora), sendo bem mais difícil decidir (a quem está de dentro).
No dia em que o Campeonato tiver início, entraremos em campo com onze jogadores. Essa será a nossa equipa. Com ela, faremos a longa caminhada até ao 34º título. Depois virão outros, e mais outros, e mais outros. Mas nós…, nós estaremos sempre cá. Nós é que somos o Benfica. E o Benfica será tão forte quanto a união que demonstrarmos em seu redor.

BRASIL 2014 - NOTAS FINAIS


Uma esplendorosa fase de grupos prometia mais, mas, ainda assim, assistimos a um excelente Mundial. Tivemos muitos e bons golos, grandes defesas, quebra de recordes, incerteza, emoção, e um campeão justo.
Messi não conseguiu ser Maradona, e, mesmo conquistando o prémio para o melhor jogador do torneio, esteve longe do brilhantismo evidenciado noutras alturas ao serviço do seu clube. Faltou esse toque de Midas para que a Argentina dos “nossos” Enzo Perez e Garay se sagrasse campeã.
Fazendo jus à velha máxima do futebol, no fim ganharam os alemães. E ganharam bem.
Entre todas as selecções, a “Mannschaft” foi a mais compacta, a mais empolgante, a mais refinada, e, sobretudo, a mais eficaz.
Juntamente com a detentora do título Espanha (precocemente afastada), o Brasil de Scolari foi quem mais desiludiu. Realizou um campeonato regular até às meias-finais, mas aí claudicou por completo, entrando para a história pela porta errada. É fácil criticar o antigo seleccionador nacional, e, por cá, muitos têm aproveitado a ocasião para ajustar velhas contas. Talvez seja justo lembrar neste momento que, com ele ao leme, a nossa selecção conseguiu os melhores resultados de sempre, e que, antes ainda, o mesmo técnico havia já sido campeão do mundo pelo seu país. Também me recordo de, com ele, Portugal vencer a Rússia pelos mesmos 7-1 que agora lhe acertaram em cheio. Não gosto de injustiças, nem de gente com memória curta, e ainda menos de lavagens de roupa suja – nas quais a comunicação social portuguesa é fértil.
Por falar em Portugal, talvez seja altura (agora sim) de avaliar a prestação do conjunto de Paulo Bento. Os 0-4 diante da campeã Alemanha parecem-nos hoje francamente mais aceitáveis. E o empate com os Estados Unidos terá sido, também, face a tudo o que se viu, um resultado normal. Podemos pois classificar a participação portuguesa dentro de parâmetros que ficam longe de corresponder à imagem negra que os media - sempre ávidos de sangue -procuraram passar ao longo destas semanas.

LENDAS E NARRATIVAS

1.Tudo indica que na próxima temporada o Benfica marque presença nas provas europeias de seis diferentes modalidades (Futebol, Hóquei em Patins, Basquetebol, Andebol, Voleibol e Atletismo). Relembre-se que o nosso clube é campeão em quatro delas. Ser a maior potência desportiva do país passa, muito provavelmente, por algo parecido com isto. Mas poderia também ser uma definição para o clube com maior número de sócios, para o que tem mais títulos, para o que tem melhores equipas, para o que tem maiores e melhores infraestruturas, etc. Não vejo é que este fato sirva a outro, sem que esse outro caia no ridículo.
2.Ao contrário do que sucede com as competições europeias, ou com as taças, em que podemos ver pela frente adversários distintos, o sorteio do campeonato tem pouca relevância. Os opositores são conhecidos à partida, havendo que jogar com todos, sendo apenas sorteada a ordem das jornadas.
Ainda assim, há que sublinhar o facto de não irmos ao Porto nas últimas rondas – a acontecer novamente, confesso que suspeitaria de fraude -, de iniciarmos a defesa do título em casa, e de recebermos o Sporting à terceira jornada, aspectos que nos são teoricamente favoráveis. Realce ainda para as dificuldades de Novembro e Dezembro, onde um ciclo de jogos terrível, com Champions pelo meio, irá por à prova o conjunto de Jesus.
Com o tempo, perceberemos se o calendário é bom o mau. Por agora, é apenas…um calendário.
3.Domingo disputa-se a Final do Mundial. Desde 1930 que a história do futebol é escrita, em larga medida, pela pena desta competição. Pelé, Maradona, Eusébio e Cruyff tiveram, cada um, o “seu” mundial. Ainda não se sabe de quem será este.  Sabe-se, sim, que assistiremos a uma partida histórica. E espera-se que de nível qualitativo condizente com as dezenas de jogos que nos deliciaram ao longo do mês. Que ganhe o melhor!
4.Alfredo Di Stefano era o ídolo de Eusébio, e isso, por si só, representa muito daquilo que o hispano-argentino foi no futebol internacional. Paz à sua alma.

O REGRESSO DOS CAMPEÕES

Mesmo com o Campeonato do Mundo ao rubro, o regresso ao trabalho do plantel benfiquista não pode deixar de figurar no topo na nossa agenda desportiva.
Os Campeões Nacionais estão de volta.
Alguns – precisamente devido ao Mundial – só mais tarde serão integrados. Outros não regressarão ao Seixal. Entretanto, umas quantas caras novas despertam a curiosidade.
É pena ver partir elementos que se destacaram no histórico “Triplete”. Mas as leis do mercado são incontornáveis, e não podemos escapar-lhes.
Convém lembrar que só pudemos dispor de jogadores da categoria de Garay, Matic ou Rodrigo, porque entretanto vendemos David Luíz, Javi Garcia ou Di Maria. Agora, com a saída de craques com a cotação em alta, há que desenvolver novos activos, alimentando assim a cadeia de negócio que salvaguarda o equilíbrio financeiro da SAD. Havendo competência para escolher, e depois para valorizar, o modelo funciona. E, como recentemente comprovámos, dá títulos.
Outro vetor base é o da formação. Não pode haver competitividade apenas com formação, mas, na conjuntura actual, também não poderá haver equipa sem formação. Neste sentido acredito que alguns elementos da equipa B sejam promovidos ao plantel principal, e possam mais tarde ascender à titularidade.
Julgo ser importante manter o maior número possível de jogadores campeões, e assim garantir um fio condutor de coesão e mística. Já que a algumas propostas não podemos dizer não, a outras - para aqueles cujo pico de mercado já tenha passado (casos de Maxi, Luisão ou Cardozo), ou, pelo contrário, para os que esse pico ainda esteja por chegar (casos de Oblak ou Markovic) -, parece-me prudente resistir. Para além dos aspectos técnicos, há que preservar todos os laços criados no grupo por via das conquistas.
O próximo Campeonato é decisivo para a afirmação de um novo ciclo no futebol português, e nada pode ser deixado ao acaso. A estrutura do Benfica já deu provas da sua competência, e é garante de que o Benfica se apresentará forte, rumo ao “Bi”.

MAIS MUNDIAL


No momento em que escrevo estas linhas, as hipóteses de Portugal prosseguir a sua caminhada no Campeonato do Mundo são mais ou menos iguais às das Honduras.
O saudoso José Torres, em situação semelhante, pediu um dia que o deixassem sonhar. É o que nos resta. Porém, quando esta edição chegar às mãos do estimado leitor, o mais provável é que todo o país já tenha acordado para uma realidade amarga – embora não de todo inesperada.
Mas há mais Mundial para além de Ronaldo, Paulo Bento e lesões musculares. Grandes jogos, golos espectaculares, defesas impossíveis, futebol de ataque, e tudo aquilo que gostamos de ver, tem acontecido quase diariamente no certame brasileiro. Até agora, poderia mesmo qualificar este campeonato como o de maior qualidade das últimas décadas. Porventura, desde os tempos em que o romantismo mágico de Zico, Sócrates e Falcão cedeu a vez ao cinismo calculista de Rossi, Conti e Gentile, num Brasil-Itália que marcou um antes e um depois na história do desporto-rei. Estávamos em 1982.
Se quanto à qualidade de futebol as coisas têm corrido bem, já quanto às arbitragens não podemos dizer o mesmo.
Nunca defendi a introdução de meios tecnológicos que pudessem perturbar o ritmo dos jogos com pausas indesejáveis. Depois do que tenho visto nestas semanas, talvez não mantenha a mesma opinião. Rara tem sido a partida sem erros grosseiros de arbitragem. Juízes da Nova Zelândia, Gambia, Guatemala, Uzbequistão, Tahiti ou El Salvador – sem experiência recomendável para uma competição desta natureza –, e sem falar de outros que infelizmente conhecemos mais de perto, têm desvirtuado, e em alguns casos arruinado, aquilo que os jogadores tanto se vão esforçando por fazer em campo. Há selecções eliminadas por erros de arbitragem. Há selecções qualificadas com erros de arbitragem. Com optimismo, esperemos que na fase eliminatória o panorama melhore substancialmente, pois o futebol praticado tem feito por merecer. Caso contrário, a FIFA não poderá continuar a assobiar para o ar.

DE OITOCENTOS A OITO

Um penálti forçado a abrir o marcador; uma expulsão tão imprudente quanto exagerada; duas substituições por lesão; um golo nos descontos à saída para o intervalo; uma falta clara por sancionar, dentro da área adversária; uma falha clamorosa do guarda-redes a fechar as contas. Tudo isto aconteceu à nossa Selecção, na sua estreia no Mundial. Tudo isto aconteceu diante de uma das mais fortes candidatas ao título, que naturalmente soube aproveitar as circunstâncias para construir um resultado robusto. A agravar, também o desfecho do outro jogo do grupo pareceu encomendado pelo diabo, com um golo contra-corrente, já perto do fim, a desfazer o que seria um simpático empate entre Gana e EUA, logo a favor da equipa que defronta a Mannschaft na última jornada – com esta já previsivelmente qualificada. Pior era impossível. Como sempre acontece nestas ocasiões, as facas rapidamente saíram das bainhas, e o clima de histeria colectiva em torno de Ronaldo e seus pajens depressa se transformou numa caça às bruxas tão ao gosto de alguns comentadores do espaço mediático luso. Nem oitocentos, nem oito. É importante dizer que a equipa nacional não é candidata a nada que não seja ultrapassar a fase de grupos. E é também importante lembrar que esse objectivo está ainda sobre a mesa. Na verdade, Portugal dispõe de um super-jogador, mas em redor dele gira uma equipa mediana, porventura a mais fraca das últimas duas décadas. E nem adianta questionar as opções técnicas, pois as eventuais alternativas também não escapam à mediocridade. Perder com a Alemanha é um resultado natural – embora os números tenham sido particularmente estrepitosos. Ganhar aos EUA e ao Gana é uma possibilidade, à qual a “Equipa das Quinas” terá de se agarrar com unhas e dentes. Se algo correr mal, o mundo não acaba. O futebol tem a virtude de permitir sempre redenção, como pudemos vivenciar no nosso clube de 2013 a 2014. Talvez por isso se diga que está para além da vida e da morte. E é seguramente por isso que tanto nos apaixona.

OS NOMES DO SUCESSO


Mesmo com um Mundial à porta, não há benfiquista que não guarde o doce sabor de uma temporada histórica, coroada com a conquista de três troféus, e abrilhantada pela presença numa final europeia.
Se no calor da euforia nem sempre é possível avaliar com precisão todos os aspectos que pesaram em tão triunfante caminhada, agora, a frio, com algum distanciamento a ajudar, torna-se mais fácil identificar as razões, os momentos, e, também, os heróis, de uma saga inesquecível. 
É preciso dizer que estamos perante, não uma, mas duas temporadas absolutamente excepcionais da nossa equipa de futebol. Terminaram de forma distinta, é certo, mas se a sorte ou o azar podem ditar o destino final de qualquer jogo (com um penálti falhado, um remate fortuito, ou um golo nos descontos), só a competência e o trabalho rigoroso permitem manter, durante meses, um elevado nível competitivo - capaz de pôr os adeptos a sonhar com este mundo e com o outro.
Foi essa ideia que levou o Presidente Luís Filipe Vieira – de forma tão lúcida quanto corajosa - a decidir manter uma equipa técnica sob contestação, e foi aí que a história do sucesso começou a ser escrita.
Houve, porém, um segundo momento, a partir do qual a equipa se uniu, e acreditou que tudo lhe era possível. Inspirada por Eusébio, a vitória sobre o FC Porto, no final da primeira volta, virou os pratos da balança definitivamente a nosso favor. Se a manutenção de Jesus criou condições objectivas para vencer, aquela semana de Janeiro deu a união e a crença que sempre acompanham os campeões.
Luís Filipe Vieira, num primeiro plano de análise, e Jorge Jesus, logo atrás, foram pois os obreiros deste sucesso. Mas há que distinguir também aqueles que, em campo, interpretaram tão bem a mística benfiquista, e concretizaram em títulos os anseios de milhões de portugueses. Enzo Perez e Gaitán foram, no meu ponto de vista, os jogadores que mais brilharam durante estes meses. Um a equilibrar, outro a desequilibrar, foram eles as estrelas do Benfica 2013-14.

NOVO CICLO


A questão divide opiniões: pode um simples título, ou uma só temporada, determinar o início de um novo ciclo no futebol português? A resposta não é fácil. E, na verdade, a pergunta também não pode ser formulada deste modo.
Olhando de relance para as oito décadas de história que leva o campeonato nacional, podemos identificar alguns ciclos bem definidos, a par de algumas fases híbridas, de domínio repartido entre dois ou mais clubes. É fácil associar o final da década de quarenta, e o início dos anos cinquenta, ao Sporting dos “Cinco Violinos”. É igualmente linear o amplo domínio do Benfica de Eusébio, entre 1961 e 1975. De 1995 até 2009, foi o FC Porto a manter a hegemonia, não cabendo aqui dissecar os métodos pelos quais a atingiu.
Porém, para o espaço de tempo decorrido entre esses períodos, ninguém poderá cantar superioridade absoluta. Por exemplo, entre 1975 e 1995, Benfica e FC Porto venceram nove campeonatos cada um (o Sporting conseguiu dois títulos). Nesses vinte anos, tivemos um ciclo repartido, que sucedeu a um domínio benfiquista, e antecedeu a hegemonia portista.
Ora, o que as últimas cinco temporadas têm demonstrado – não somente pelos títulos, mas também pela força relativa das equipas – é precisamente um reequilibrar dos pratos de uma balança que há pouco tempo atrás pendia claramente para um dos lados. Em cinco épocas, o Benfica venceu dois campeonatos e ficou três vezes em segundo lugar, ao passo que o FC Porto venceu três campeonatos, quedando-se em duas ocasiões pelo terceiro posto da tabela. Em número total de pontos, a diferença é escassa, a favor do FC Porto. Em número de jornadas na liderança, a vantagem, também escassa, é benfiquista. Pode, assim, falar-se de equilíbrio.
É prematuro afirmar que estamos perante a alvorada de um ciclo de domínio encarnado (só um segundo título consecutivo poderia apontar nesse sentido), mas é um dado insofismável que o domínio absoluto do FC Porto já não existe.
Estamos pois num novo ciclo. Por agora…de equilíbrio.

COROAS E CARAS


Depois do Tri(plete) no Futebol, tivemos mais um Tri(campeonato) no Basquetebol, consumando uma temporada extraordinária da equipa de Carlos Lisboa.
Não temos culpa que outros não vão a jogo. O Benfica foi, venceu, convenceu, e muitas vezes encantou. Ganhou tudo o que havia para ganhar, não poupando esforços para aliar as vitórias ao espectáculo. Junta-se ao Futebol e ao Voleibol, no lote dos campeões nacionais de 2013-14.
Também o Atletismo teve um fim-de-semana em alta, tornando-se vice-campeão europeu de clubes. Padecendo de várias ausências por lesão, fazer melhor era impossível. A secção está de parabéns.
Já do Andebol não pode dizer-se o mesmo.  Com um plantel recheado de nomes sonantes, não conseguiu intrometer-se na luta pelo título, deixando um rasto de fracasso em todas as competições em que participou. Não foi apenas uma má época, mas antes a confirmação de um ciclo negativo, que não pode deixar de ter consequências. Ficar em quarto lugar, com uma percentagem de vitórias abaixo dos 70%, não é aceitável, nem está dentro dos parâmetros de exigência de qualquer conjunto de atletas que envergue a camisola do Benfica. Para este nível de resultados, e caso não haja capacidade de investimento com vista à total reformulação do plantel, talvez seja de promover uma aposta mais vincada em jovens da formação.
O Hóquei ficou fora da luta pelo título, tendo agora a Taça de Portugal para conquistar. Do Futsal, espera-se que neste fim-de-semana dê a volta ao resultado negativo trazido do Fundão. Estas duas modalidades ainda podem terminar a temporada em festa. Vamos acreditar.
O fim-de-semana passado foi também marcado pela final da Champions League no nosso estádio. Sendo motivo de orgulho, é também de registar o montante entrado nos cofres do Benfica. Lamenta-se, porém, que um evento desta natureza tenha sido promovido de costas voltadas para os portugueses, que tiveram de vê-lo pela televisão, pois nem um só bilhete foi vendido no país (pelo menos em circuitos oficiais).

LIMPEZA

Um árbitro particularmente tendencioso, e um guarda-redes particularmente inspirado, impediram o Benfica de alcançar a glória europeia que tanto fez por merecer. Turim não nos trouxe felicidade, mas é preciso dizer que não nos feriu o orgulho. Quem chega a uma grande final jamais sai derrotado. São necessárias muitas alegrias para passar por uma tristeza assim. Tantas quantas as eliminatórias vencidas, algumas com o perfume de grandeza que nos define perante a história. A desolação é maior pela força do hábito. São já alguns anos a cheirar o troféu. Duas finais consecutivas, ambas perdidas por detalhes. Uma meia-final inglória, também. Tudo em apenas quatro temporadas. Pode falar-se de azar. Pode falar-se de desencanto. Até de maldições. Nunca de fracasso. Antes de força. A força que nos fez lá chegar, e que nos faz acreditar que podemos lá voltar. Tivemos pouco tempo para carpir mágoas. No domingo seguinte, no belo palco do Jamor, os nossos heróis voltaram aos triunfos, derrotando o cansaço, e arrecadando um inédito triplete. Uma, duas, três! Não só foi limpinho, como foi…uma limpeza. Deixámos poucos argumentos à oposição. Ainda assim, com a sua inesgotável criatividade, lá conseguiram apregoar que o Benfica tinha obrigação de vencer o Rio Ave e erguer a Taça; que o orçamento o obrigava desde logo a ser campeão; que a Taça da Liga não interessava nada; que a Liga Europa, essa sim, desenhava a fronteira do sucesso; que o objectivo era a final da Champions League; tudo isto até à espantosa conclusão de que a época benfiquista nem tinha sido nada de especial. Talvez mesmo um pouco decepcionante - ou qualquer que seja a palavra que a imaginação quiser utilizar. Veja-se até onde a inveja os leva. Veja-se o quanto ela nos pode divertir. Vozes que não chegam ao céu à parte, importa agora que façamos deste um ponto de partida, e não de chegada. “Para o ano há mais”, foi o último grito que se ouviu nas bancadas do Jamor. É esse que nos deve ficar no ouvido. 2014-2015 começa já.

HÁ FESTA NO JAMOR

Termina este domingo uma das temporadas futebolísticas mais empolgantes da história centenária do Sport Lisboa e Benfica. Independentemente do que possa ter sucedido em Turim (escrevo, carregado de ansiedade, antes de o saber), o Benfica entrará em campo, no Jamor, com a possibilidade de alcançar uma inédita “tripleta” de competições nacionais – Campeonato Nacional, Taça de Portugal e Taça da Liga -, à qual juntará, no mínimo, uma honrosa presença em final europeia pelo segundo ano consecutivo; e no máximo, a primeira Liga Europa do seu historial. Caso, como espero e desejo ardentemente, estas duas conquistas se concretizem, então estaremos a falar da melhor época de todos os tempos. Sim! De todos os tempos! No momento em que escrevo, as expectativas benfiquistas situam-se, pois, entre o muito bom (dois troféus, entre eles a prioridade número um), o excelente (três troféus), e o esplendoroso (poker de taças, com possibilidade de lhes juntar mais duas já em Agosto, e assim tocar nos céus). Neste contexto, a Final do Jamor é a ocasião magna para prestarmos tributo a uma fantástica equipa de futebol, que já na temporada anterior nos havia feito sonhar, e agora concretizou (pelo menos em parte, acredito que na totalidade) esses sonhos. A tradição que envolve esta prova, o seu belíssimo palco, e o facto de a mesma encerrar a época (a nível de clubes), são condimentos para um dia de festa, de fervor clubista, e, creio, também de absoluta glória. Nunca, nos meus 44 anos de vida, senti um Benfica tão forte e tão pujante em todas as suas vertentes. Falo de futebol, mas falo também de veículos de comunicação, de infra-estruturas, de formação, de eclectismo, de modernização empresarial e administrativa, de associativismo, de prestígio nacional e internacional, de respeito pela história… enfim, de tudo. Estamos num plano elevadíssimo, e é nele que gostamos de estar. Mas tenho a certeza que aqueles que nos conduziram até aqui, não vão querer parar. O céu é o limite. Vamos a isso!

O JOGO DA NOSSA VIDA

Não cheguei a tempo de ver Eusébio, Coluna ou José Águas. Nem a minha, nem as gerações posteriores – nem mesmo as imediatamente anteriores – viram o Benfica erguer um troféu europeu, excepto em fotografias ou vídeos, quase sempre a preto e branco. Recordo, sim, o amargo empate caseiro com o Anderlecht em 1983. Recordo, também, o fatídico penálti de Veloso, e as lágrimas incontidas em 1988. Recordo, ainda, o super-Milan de 1990, e o golo de Rijkaard que nos liquidou a esperança. Tenho bem presente o terrível Maio de 2013, que por enquanto ainda me vai atormentando a alma. De finais perdidas, penso já ter a minha conta. Na próxima quarta-feira, em Turim, o Benfica tem nova hipótese de desafiar a história, e de enterrar velhos fantasmas. Acredito que não seja a última. Mas esta tem a singularidade de nos fazer acompanhar de algum favoritismo. Ou, dito de outro modo, de participar numa final europeia, não para a jogar, mas sim para a ganhar. Ninguém pense, todavia, que as favas estão contadas, e os noventa minutos se resumem a uma formalidade prévia à entrega da taça. Lamento, mas é preciso lembrar que podemos perder. Trata-se de um jogo, contra uma excelente equipa, formatada à medida de uma das mais competitivas ligas do mundo, transportando um sonho igualzinho ao nosso. Também eles ficaram felizes ao ver a toda-poderosa Juventus eliminada da “sua” final. Também eles estarão optimistas. E, já agora, foram eles que venceram este mesmo troféu em 2006 e 2007. Tenho a certeza que os nossos profissionais estão despertos para toda a envolvência competitiva e emocional da ocasião. Sabem aquilo que ela representa, quer para eles, quer para o universo benfiquista. Conhecem os seus limites e as suas potencialidades. Precisamos também que a sorte - que tão mal nos tratou há um ano atrás - queira, desta vez, recompensar-nos com a dose que sempre alimenta os campeões. Se tal acontecer, far-se-á história. E 14 de Maio de 2014 será então o dia pelo qual esperámos uma vida inteira.

VERMELHO VIVO

A festa foi bonita. O 33º título de campeão nacional já consta do nosso palmarés, não havendo quem conteste a justiça do triunfo. O Campeonato Nacional foi sempre definido, e bem, como o principal objectivo da temporada. Por diferentes motivos, escapara-se-nos das mãos nas derradeiras curvas das duas épocas anteriores – na última das quais de forma particularmente dolorosa. Agora, somos Campeões. Por mérito próprio, com larga vantagem sobre a concorrência, e apesar de uma inusitada praga de lesões que foi afligindo o plantel do início ao fim da prova. Após três anos, o futebol fez justiça aquela que é, e tem sido, a melhor equipa portuguesa, pelo menos desde 2011. Nestes momentos, é oportuno identificar os principais obreiros da conquista. À cabeça de todos, há que destacar o Presidente Luís Filipe Vieira. A aposta na estabilidade, na ressaca de um mês de sucessivas e traumáticas derrotas, revela a capacidade de liderança daqueles que sabem ver para além da espuma dos dias. O nosso Presidente resistiu a todas as pressões, não cedendo um milímetro nas convicções que tinha acerca daquilo que entendia ser o melhor para o Clube. Saudei a sua decisão na altura. Já então me parecia ser a mais ajustada, após uma temporada que, mesmo carregada de tristeza, nos havia permitido sonhar tão alto. Será muito difícil vencer a Liga Europa. É certamente um sonho, até um objectivo, mas jamais poderá ser uma exigência. Entalada entre os jogos com a Juventus, encaro a meia-final da Taça da Liga com desejos de vitória (até pelo nome do adversário…), mas também com expectativas moderadas. Há porém um troféu que entendo não poder escapar-nos novamente: a Taça de Portugal. Só uma vitória no Jamor poderá enterrar definitivamente os fantasmas de há um ano atrás. Anseio por quatro troféus, e pela melhor época de sempre do Glorioso. Mas, enquanto sócio e adepto, apenas exijo a estes fantásticos jogadores uma vitória sobre o Rio Ave, e o erguer da taça que Eusébio e Coluna tantas vezes conquistaram.

ACENDA-SE A LUZ

Domingo de Páscoa pode trazer-nos a amêndoa mais desejada da temporada desportiva. Há já várias semanas que se anuncia. Mas agora sim. Agora o título está por perto, à distância de uma simples vitória, em nossa casa, perante o último classificado. Domingo pode, pois, ser o dia D. O dia da festa, mas também o dia que nos irá ressarcir do doloroso sofrimento vivido na época transacta, quando, estupidamente, nos vimos afastados da consagração que a nossa equipa já então fazia por merecer. Passou-se quase um ano. Estamos novamente a um pequeno passo do título nacional, e voltamos a viver um bonito sonho europeu. Aí, fora de portas, as coisas não são tão simples. Pela frente estará uma das melhores equipas do mundo da actualidade. Não temos a sorte de outros, que partilham finais europeias com Mónacos, Celtics ou Bragas – adversários contra os quais as finais são, efectivamente, para ganhar. Frente à “Vecchia Signora”, não somos favoritos. Porém, esperamos um Benfica confiante nas suas potencialidades, humilde mas não reverente, e entusiasta perante nova possibilidade de chegar aos céus. Eu acredito! Acreditemos todos! Independentemente do desfecho final, a nossa equipa de Juniores merece, também ela, destaque maior. Ser vice-campeão europeu não é para qualquer um. Ultrapassar Paris Saint-Germain, Manchester City e Real Madrid, também não. Aliás, é importante lembrar que o nosso futebol de formação comanda todos os campeonatos nacionais que disputa. O sucesso da formação já não é um monopólio dos nossos vizinhos e rivais. Tê-lo-á sido, no passado. Mas estou convicto que o futuro próximo virá pintado a vermelho e branco. Uma palavra final para o Hóquei em Patins, e a extraordinária remontada conseguida perante os espanhóis do Réus. Nova “Final-Four” atingida, e, quem sabe, a repetição de um grandioso triunfo internacional. Tudo é possível. Tanta coisa a aquecer-nos a alma benfiquista. Tantos pratos sobre a mesa. Comecemos já neste domingo. Luz para o título. Luz para a festa.

RUMO À GLÓRIA

Duas vitórias, seis pontos. É o que necessitamos para garantir o título. Parece pouco. Pode até ser pouco. Mas ainda falta esse “pouco” para soltarmos foguetes, e fazermos a tão desejada festa. O calendário é favorável? E que dizer da época passada, quando bastava vencer, na Luz, as duas equipas que haviam subido à 1ª Liga? Não é fácil lembrar, mas não podemos esquecer. Digamos que um Benfica à imagem daquele que temos visto nos últimos três meses (inspirado por Eusébio e Coluna), chegará, e sobrará, para ultrapassar os obstáculos que ainda tem por diante, alcançando com segurança o principal desiderato da temporada. Mas esse Benfica tem de se manter vigilante, tem de jogar, e tem de ganhar, sabendo que do outro lado estão conjuntos necessitados de pontos, e sabendo que um eventual percalço pode fazer ressuscitar velhos fantasmas - enervando os nossos, e estimulando rivais. Que temos a melhor equipa portuguesa, ninguém ousa negar. Aliás, já a tínhamos em 2011-12, e em 2012-13. Dos últimos sessenta jogos a contar para o Campeonato Nacional, apenas perdemos dois. Em toda a era Jorge Jesus, só em 2010-11 não fomos os melhores. Agora, além de melhores, temos de ser também primeiros. Temos de nos manter primeiros. No momento em que escrevo, desconheço o desfecho da eliminatória europeia. Hoje mesmo, será dia de sorteio. De uma, e de outro, dependerão as aspirações que ainda podemos ter fora de portas. Na quarta-feira joga-se a Taça – que nos foge desde 2004. Espera-se um Benfica à Benfica, capaz de ultrapassar um adversário revitalizado, e um resultado negativo trazido da 1ª mão. Estamos em dívida para com a Taça de Portugal. Precisamos de ir novamente ao Jamor, desta vez para empurrar a fatalidade, e trazer o troféu. E ainda há a Taça da Liga. Muita coisa está, pois, sobre a mesa. A época está longe de terminar. Queremos fazer mais onze jogos. Todos os jogos. Todas as finais. E ganhá-las. O grande Benfica que temos no presente, merece a glória que já teve no passado. E vai tê-la.

COMPETÊNCIA À PROVA DE TÍTULOS

Quando, em Maio do ano passado, contrariando opiniões oriundas dos mais diversos quadrantes internos e externos, bem ou mal intencionadas, Luís Filipe Vieira decidiu, convictamente, renovar contrato com o treinador Jorge Jesus, afirmou também que pretendia uma temporada igual à anterior, mudando apenas o desfecho final. É verdade que ainda não ganhámos nada. Mas estamos em pleno mês de Abril, e podemos já dizer que, independentemente do desfecho das várias competições que disputamos, a época 2013-14 está, de facto, a ser muito semelhante à anterior. Semelhante na força competitiva da equipa, semelhante na qualidade de futebol apresentado, semelhante nas esperanças que nos vai abrindo no horizonte. Estamos destacados na liderança da classificação, mantemo-nos firmes em todas as provas, sonhamos vencer tudo, ou quase tudo. Falta, “apenas”, o final diferente. É preciso dizer que, com Jorge Jesus ao leme, o Benfica realizou as melhores cinco temporadas das últimas décadas. Não se trata de uma opinião. São factos, que podemos comprovar olhando para a pontuação dos vários campeonatos desde o início dos anos noventa. Sem interferências externas em 2012, e com um pouco mais de sorte em 2013, estaríamos agora a bater-nos pelo “Tri”. O que, diga-se, faria justiça a todo um trabalho que começa nas condições criadas pela administração, acaba no valor e empenho dos jogadores, mas passa, também, pela indiscutível competência de um técnico nem sempre bem entendido por todos. Importa ainda lembrar que, em 2009, ocupávamos um discreto 23º lugar no ranking da UEFA, e neste momento estamos numa brilhante 6ª posição, apenas superados por Barcelona, Bayern, Real Madrid, Chelsea e Man.United. Nestas cinco temporadas chegámos sempre, pelo menos, aos quartos-de-final de uma prova europeia – sequência inédita na história internacional do clube Há momentos em que é fácil decidir. No rescaldo da dramática primavera de 2013 não o era. E é nas horas difíceis que se encontram os verdadeiros líderes.

A VOZ DA SERPENTE

“Águia voa para o título”, “Perto do Céu”, “Festa Rija”, “Campeão à vista”. Estes são alguns dos cabeçalhos que pudemos ler em diários desportivos nos últimos tempos. Paralelamente, nas televisões, comentadores mais ou menos isentos atribuem o Campeonato ao Benfica como se a respectiva conquista se tratasse de uma mera formalidade. A tal ponto que a partida entre Sporting e FC Porto foi abordada por muitos como uma simples luta pela segunda posição. Isto passa-se há já várias semanas. Porém, se o Benfica não tivesse ganho os jogos que entretanto foi disputando, nesta altura já nem sequer estaria no primeiro lugar da tabela classificativa. Provavelmente, era essa a intenção de tão vistoso foguetório. Não nos deixemos iludir. Juntamente com uma campanha de pressão, condicionamento e coacção de árbitros, existe uma outra que visa o adormecimento da nossa equipa. Sem ponta de inocência, os nossos adversários tentam, de uma penada, alimentar o deslumbramento da família benfiquista, e criar condições para, ao mais pequeno deslize, derramarem sobre nós o ónus desse mesmo deslumbramento – à semelhança do que fizeram na época passada, a propósito dos festejos de uma simples vitória no Funchal. Faltam seis jornadas para terminar o Campeonato Nacional, e, caso cheguemos às Finais de todas as provas em que estamos inseridos, faltarão ainda quinze jogos para concluir a temporada futebolística. Muitos jogos. Muitas dificuldades. Muitos perigos. Demasiados perigos! Em Maio do ano passado faltavam apenas três partidas para erguer três troféus. Sabemos o que aconteceu. Ninguém nos convencerá agora que, com quinze longas e duras batalhas pela frente, poderemos baixar as guardas e dar o sucesso por adquirido. Não! Ainda não ganhámos nada! E se pensarmos o contrário, corremos sérios riscos de repetir dramas passados, satisfazendo a ânsia dos rivais. A “guerra” trava-se jogo a jogo, e só no fim se fazem as contas. Até que a matemática dite leis, a mínima dose de triunfalismo poderá ser fatal.

OS BONS DA FITA

Nem um golo que ninguém viu, nem um penálti teatralizado por Capel (ambos no jogo de Setúbal), impediram as hostes sportinguistas de passar uma semana inteira a coagir os árbitros, vitimando-se até à náusea, numa prática que tem sido imagem de marca do clube de Alvalade. O folclore é habitual, mas já era tempo de todos os agentes (sobretudo árbitros, mas, também, comunicação social) o reconhecerem, reduzindo-o à sua real insignificância. Infelizmente, não só um corrupio de comentadores logo se dispôs a assegurar que sim – que o Sporting tem sido “o mais prejudicado” -, como as arbitragens da jornada seguinte vieram confirmar o velho ditado popular segundo o qual: “quem não chora, não mama”. Eis que o clube do luto, dos comunicados, dos movimentos “basta”, das montras de talho partidas, e dos depósitos na conta bancária de fiscais-de-linha, ganha com um golo irregular, vê um penálti por assinalar na sua área, e assiste à expulsão injusta de um jogador adversário - tudo compondo uma espécie de evangelho segundo Proença. No outro campo onde se jogava para o título, um árbitro que entretanto viu ameaçados os seus bens e a sua família, tendo sido ferozmente acusado de “benfiquismo” pelo próprio presidente do Sporting, rapidamente se apressou a demonstrar uma estranha “isenção”, assinalando um penálti inexistente aos cinco minutos de jogo, e poupando a expulsão de um jogador madeirense pouco tempo depois. Não sei como vai a contabilidade de Bruno Carvalho quanto a pontos ganhos e perdidos. Assim de repente, recordo-me do empate no “dérbi” da primeira volta com um golo em fora-de-jogo de Montero, e um penálti por marcar sobre Cardozo; de golos irregulares em Coimbra e em Olhão; de um penálti fora …do campo, contra o Belenenses; de outros penáltis inexistentes em Alvalade, contra V.Setúbal e Marítimo; para além dos já mencionados benefícios das duas últimas jornadas. Quantos pontos aqui vão? …é fazer as contas. Será que, perante tudo isto, não podemos também nós dizer “basta”?

AO RUBRO

A jornada deste fim-de-semana pode dizer muito acerca do futuro do Campeonato. Estamos na frente, e os dois principais perseguidores jogam entre si em Alvalade. Pelo menos um deles perderá pontos, mas isso só nos trará benefícios se vencermos a difícil batalha da Choupana. Difícil por várias razões: - Antes de mais, pelo valor do adversário, que é, indiscutivelmente, uma das melhores equipas da Liga, orientada por um técnico que, desde há largos anos, mantém uma certa rivalidade com o nosso; - A deslocação envolve uma sempre desgastante viagem de avião, tão só algumas horas depois de uma outra; - O estádio do Nacional é tradicionalmente difícil, quer pelas dimensões, quer pela altitude, quer pelo clima, e ainda na temporada passada lá deixámos dois pontos; - Não contaremos com Fejsa, elemento chave no meio-campo encarnado; - O jogo surge entalado a meio de uma muito exigente eliminatória europeia, e sabemos bem o quanto isso normalmente pesa nas pernas… e na cabeça, de alguns jogadores; - A vantagem pontual obtida nas anteriores jornadas é susceptível de causar algum deslumbramento; - Last but not least, veremos quem é, e como se comporta, o árbitro de uma tão importante partida. Se conseguirmos ultrapassar todos estes circunstancialismos, vencermos o Nacional, e, paralelamente, tivermos boas notícias de Alvalade (um empate?), não ficando o Campeonato desde logo resolvido, as contas do mesmo ficarão muito bem encaminhadas, e a vantagem pontual permitirá até algum risco, com vista a uma aposta forte nas outras provas que ainda disputamos. Ao invés, um resultado negativo na Choupana pode deixar-nos novamente à mercê do segundo classificado, sabendo-se que ainda temos deslocações a Braga e ao Porto, entre outros difíceis compromissos. Os dramas do ano passado ainda estão bem presentes na nossa memória. Só com o pássaro na mão poderemos cantar vitória. Mas é de jornadas com esta que a decisão final se alimenta. E isso terá de estar na mente de todos aqueles que entrarem em campo.

PARA ALÉM DO FUTEBOL

As modalidades do Benfica estão bem e recomendam-se. Decorrida parte significativa das temporadas regulares, todas elas se mantêm firmes na luta pelo topo das respectivas classificações, exibindo uma impressionante percentagem de vitórias (86%). A título de exemplo, e servindo de referência, poderemos aferir que a percentagem de triunfos no Futebol – também ele, como sabemos, a fazer uma excelente época – anda pelos 77%. Acresce que, quer Voleibol, quer Basquetebol, quer Atletismo, quer, sobretudo, Hóquei em Patins, já conquistaram troféus em 20013-2014. Certamente não serão os únicos, nem os últimos. Voleibol e Basquetebol são, de resto, aqueles que apresentam números mais significativos: além de liderarem, isolados os seus campeonatos (confirmando o favoritismo), somam, em conjunto, 48 vitórias em 51 partidas oficiais realizadas. O Hóquei, por seu lado, venceu dois importantes troféus internacionais, sagrando-se Campeão do Mundo. Enfrentou algumas dificuldades intra-muros, mas conseguiu manter as portas abertas para o título. Também na Euroliga tem dado cartas, vencendo facilmente o seu grupo, e tendo todas as possibilidades de chegar novamente à “Final-Four” da competição. O Andebol está apenas a um ponto do 1º lugar, à entrada para a segunda, e decisiva, fase do campeonato. É altura de mostrar a raça benfiquista, e recuperar um título que nos escapa desde 2008. Já o Futsal tem tido os altos e baixos que seriam de esperar numa temporada de transição, em que saíram e entraram vários jogadores. Tudo se decidirá no Play-Off, momento em que, certamente com a máquina já bem oleada, os encarnados estarão na luta pelo triunfo. Se, além de tudo isto, acrescentarmos que o nosso clube ainda se mantém em todas as cinco Taças de Portugal em questão, que o Atletismo já venceu Estrada e Pista Coberta, e que nos sectores feminino e de formação todas as ambições são ainda legítimas, podemos ter esperança numa grande temporada à Benfica, seja nos relvados, nos pavilhões, ou nas pistas.

PÉS NO CHÃO

Nenhum benfiquista esquecerá tão cedo aquele terrível mês de Maio de 2013, no qual, em poucos dias, perdemos tudo aquilo que ambicionávamos vencer, e que o futebol praticado pela equipa bem fizera por merecer. Na altura, bastava-nos ganhar na Luz às duas equipas provenientes do segundo escalão (Estoril e Moreirense), para matematicamente selar o título. Estávamos, vinte e três anos depois, numa final europeia. Estávamos, oito anos depois, numa final da Taça, para a qual éramos unanimemente considerados favoritos. Perdemos tudo. Com esta memória ainda bem viva, não serão certamente os cinco pontos de vantagem (cinco, e não sete…), a dez longas jornadas do fim do Campeonato (envolvendo deslocações à Choupana, a Braga e ao Dragão, por exemplo), que nos irão tirar o discernimento, ou fazer embandeirar em arco. Depois dos traumas da temporada anterior, só mesmo a matemática nos fará festejar. Até lá, há que manter a concentração, a união em torno da equipa e de todos os que a rodeiam, e a noção bem clara de que, em cada jogo, em cada treino, em cada disputa de bola, estará a chave que pode abrir as portas ao nosso sonho. O Benfica tem a melhor equipa? Claro que tem, tal como na época passada já tivera. O Benfica pratica o melhor futebol? Claro que pratica, tal como na época passada praticara. O Benfica merece ser campeão? Claro que merece, tal como na época passada merecera. Porém, todas estas evidências não valerão absolutamente nada se, à 30ª jornada, no dia 11 de Maio, não tivermos mais pontos que qualquer outra equipa na tabela classificativa. No Restelo, temos a primeira das dez finais ainda por disputar. Daqui em diante, a pressão vai crescer, o empolgamento dos adversários também, havendo que contar com as habituais influências externas - que sempre se fazem sentir nos momentos mais críticos. Teremos de estar preparados para tudo. O combate por este título é demasiado importante para permitir desatenções. Com confiança, mas sem triunfalismos: Todos por um! Todos pelo título!

ESCOLHAS

Não existem muitos clubes na Europa que, nesta altura da temporada, mantenham ambições em quatro frentes distintas. Ocorrem-me apenas Manchester City e FC Porto, sendo que nenhum deles lidera o respectivo campeonato. O Benfica, não só comanda o campeonato, como está presente nas meias-finais de Taça de Portugal e Taça da Liga, e ainda alimenta esperanças na Liga Europa. Isto constitui motivo de orgulho para todos nós, mas traz ao treinador um desafio suplementar: como gerir o plantel mantendo idêntico grau de competitividade em todas as partidas até final da época? É preciso lembrar alguns dos motivos que levaram o Benfica a perder os dois últimos campeonatos. Em 2011-12 tivemos razões de queixa da arbitragem, mas não foi por acaso que perdemos oito pontos entre os dois jogos da eliminatória com o Zenit, e perdemos mais cinco nas imediações do confronto com o Chelsea. Em 2012-13, entre a 2ª mão da meia-final com o Fenerbahce, e a final com o Chelsea, disputámos dois jogos intramuros, com Estoril e FC Porto, e com os resultados que ainda ninguém terá conseguido esquecer. Estes dados parecem suficientes para estabelecer um padrão. As boas caminhadas internacionais têm um preço bastante elevado em termos domésticos, e se o Benfica chegou ao sexto lugar do ranking da UEFA, há que dizer que o conseguiu à custa de derrapagens comprometedores na principal competição nacional. Noutras circunstâncias poderia até nem ser assim, mas neste momento penso que todas as energias devem estar concentradas num campeonato que não nos pode escapar. Deste modo, creio que a Liga Europa, pelo desgaste físico e emocional que acarreta, terá de ser disputada com ambições moderadas. André Almeida, Jardel, Sílvio, Sulejmani, Djuricic, Ivan Cavaleiro, Ruben Amorim ou André Gomes, são jogadores que dão garantias, merecem um palco digno, e deixarão tudo em campo a cada ronda europeia a que tivermos a felicidade de chegar. Às quintas-feiras jogamos o orgulho, mas aos domingos teremos de jogar a vida.

OS MEIOS E OS FINS

O futebol de Formação é um tema querido à generalidade dos benfiquistas. Estamos a falar de jovens, na sua maioria portugueses, que vivem o clube intensamente, e sonham vestir o Manto Sagrado nos principais palcos do futebol nacional e internacional. A paixão do seu sonho entrecruza-se com a própria paixão do adepto, o que estimula a nossa mais viva simpatia. Porém, independentemente dos votos de sucesso que façamos para as suas carreiras, importa sobretudo saber de que forma podem, ou devem, estes jovens alimentar a equipa principal. Ou seja, qual a estratégia capaz de maximizar resultados – em primeiro lugar desportivos, e depois financeiros (sendo que estes são função daqueles). Neste âmbito, há algo que nunca podemos perder de vista: o objectivo do Benfica é “apenas” conquistar títulos. Se, para isso, a Formação contribuir com alguns atletas, tanto melhor. Caso contrário, não podemos subverter prioridades, nem deixar de ser competitivos em função de qualquer idealismo ou utopia. Convém também lembrar que, desde os tempos de Rui Costa, não mais vimos qualquer produto das escolas encarnadas como titular indiscutível na equipa principal; e que, à excepção do Barcelona (cujo sumptuoso orçamento permite manter todas as estrelas que fabrica), não existe outro exemplo europeu de sucesso na correlação entre Formação e títulos ao mais alto nível. Até porque, por mais qualificado que seja trabalho desenvolvido nesta área, não havendo talentos… nada feito – e, há que o dizer também, a árvore do futebol português vive uma fase de muito poucos frutos. O futuro próximo, e as limitações financeiras que ameaçam todos os clubes, podem ditar a necessidade de uma aposta crescente na Formação, em detrimento do investimento exterior. Devemos, pois, estar preparados para enfrentar essa realidade. De resto, com essas ou outras imposições de contexto, jogue Markovic ou André Gomes, o que me interessa é que o Benfica seja campeão, e tenha a melhor equipa que as suas possibilidades permitam.

UM DÉRBI, DUAS DÚVIDAS

Domingo é dia de “Dérbi” lisboeta, e, à tradicional interrogação que a ocasião sempre colocou – quem irá vencer? -, os últimos anos têm trazido uma outra, capaz de despertar quase tanta curiosidade como o próprio resultado do jogo: que queixas irá o Sporting trazer em caso de derrota? Na verdade, nos tempos mais recentes, sendo difícil encontrarmos uma vitória do Sporting sobre o Benfica, é quase tão difícil recordarmos uma derrota leonina sem um consequente desfilar de acusações relativas à arbitragem, e a todos os aspectos paralelos que possam de algum modo servir de cortina de fumo, e impedir a atribuição de qualquer dose de mérito ao odiado rival. Por mais insignificante que seja, lá encontram sempre um motivo. De uma gota de água (que tanto pode ser um lançamento lateral com um piton milimetricamente acima da relva, como um relógio dois minutos atrasado, ou um alegado penálti que nem à sétima repetição televisiva parece claro), fazem uma tempestade, contando para isso com um alinhado exército de comentadores televisivos, e com a complacência de redacções simpáticas – que conferem ao Sporting um peso mediático que vai muito para além da sua real dimensão social. Não sei o que sucederia no país desportivo se, um dia, o Sporting perdesse um campeonato com um golo tão irregular como o que Maicon apontou na Luz há dois anos atrás. Ou sofresse, em jogo decisivo, um pénalti em lance idêntico ao de Yebda e Lisandro Lopez, em 2009 - ambas as situações tendo Pedro Proença como protagonista. Por muito menos, já vimos reacções absolutamente esquizofrénicas vindas dos lados de Alvalade. Bom seria que tão ruidoso folclore voltasse a animar jornais e televisões, pois seria sinal de estarmos perante mais uma vitória do Benfica, e correspondente azia sportinguista. O fim-de-semana passado foi muito duro. Mas nada como o velho “Dérbi” (e, já agora, com uma arbitragem melhorzinha que a da primeira volta) para resgatar o orgulho ferido por um maldito penálti desperdiçado aos 94 minutos.

RESISTIR

Estamos a 31 de Janeiro, e até às doze badaladas da meia-noite, a angústia ocupará os nossos espíritos. Alguém deixará o plantel? Como ficará a equipa? Como ficarão os adversários? Quem sairá mais enfraquecido desta espécie de roleta de Inverno? E a Turquia? E a Rússia? E os árabes? Ainda estarão abertos a negócios? Até quando? Porquê? Não me recordo de quem partiu a infeliz ideia de abrir o mercado de transferências de jogadores em plena competição. Mas partiu, seguramente, de alguém que gostava pouco de futebol. Se o calendário de Verão já oferece muitas dúvidas (sobretudo pelo seu encerramento tardio), esta “janela” de Janeiro é uma verdadeira monstruosidade. Porém, ela existe, pelo menos até ao dia em que, para além de recolher os ovos de ouro, os agentes interessados se lembrem também de cuidar da galinha que os põe. Entretanto, e com o entusiástico suporte da comunicação social, assistimos, durante semanas a fio, a uma hemorragia noticiosa – coberta de falsidades, pressões, interesses, e jogadas de bastidores típicas desta espécie de off-shore global em que se transformou o mundo da bola - que deixa as equipas expostas à incerteza, quando não a vulnerabilidades desportivas inesperadas, justamente na fase da temporada em que a estabilidade tem um preço mais elevado. É injusto pedir a qualquer treinador que forme um conjunto, mantenha automatismos, e incremente uma dinâmica ganhadora, quando, num ápice, em momento chave, vê sair porta fora alguns dos mais valiosos elementos da sua equipa. E, pior que isso, vê outros permanecer contrariados, perante o aceno de agentes parasitários, para quem o futebol se tornou terreno fértil para dinheiro fácil. Poucos estão a salvo. Apenas os financeiramente mais poderosos, sendo aqui o futebol uma perfeita metáfora da própria vida. Situado num país periférico, o Benfica não escapa a estas ameaças. É forçado a enfrentá-las, e por vezes a ceder-lhes. Que a meia-noite chegue depressa. Que o mercado feche a porta. Que o futebol resista.

À HORA CERTA

Sou do tempo em que as tardes de domingo eram sinónimo de futebol. A jornada começava integralmente às 15.00 horas, e terminava às 17.00 horas. No horário de Verão, acrescentava-se uma hora. À noite viam-se os resumos, já no conforto do lar, preparando uma semana de trabalho ou de escola, conforme o caso. A partir da década de noventa, as transmissões televisivas foram afastando o futebol do seu horário natural, afastando, com isso, o povo dos estádios. Talvez fosse esse o intuito daqueles a quem convinha que a estrutura de receitas dos clubes ficasse cada vez mais dependente do cachet televisivo, tolhendo-lhes assim a capacidade negocial, numa relação de poder que se foi tornando cada vez mais assimétrica. Ao passo que nas principais ligas europeias continuámos a ver as principais partidas disputadas à luz do dia, em Portugal quase todos os jogos foram progressivamente empurrados para horário nocturno - por vezes aos sábados, mas também aos domingos, e até às segunda-feiras. Lá fora, estádios cheios. Cá dentro, bancadas tristes e despidas. Lá fora, sustentabilidade financeira. Cá dentro, operadores televisivos ricos e clubes falidos. No caso do Benfica, tratando-se de um emblema com implantação de norte a sul do país, parte significativa dos sócios e adeptos viu-se impedida de se deslocar à Luz. Para quem resida, por exemplo, em Viseu, Guarda, Bragança ou Faro, sair do estádio às 23.00 horas, e ainda ter de suportar uma longa viagem, não pode deixar de ser um exercício penoso, sobretudo se no dia seguinte houver que trabalhar bem cedo. O regresso do futebol às tardes de domingo (ou de sábado) é pois uma excelente notícia que esta temporada trouxe aos benfiquistas. Principalmente àqueles que vivem fora de Lisboa, e para quem ao próprio jogo há que acrescentar a duração da viagem de regresso a casa. Vicissitudes várias talvez ainda não tenham permitido que tal se reflicta com firmeza no número de espectadores no estádio. Mas o tempo irá seguramente dar razão a esta aposta.

DESTE MUNDO E DO OUTRO

1. Eusébio merecia. O Benfica, e os benfiquistas, estiveram à altura da ocasião. Não terá sido uma partida excepcional sob o ponto de vista técnico, mas foi uma grande tarde de futebol, com estádio cheio, muito entusiasmo, emoção a rodos, bons golos, desportivismo dentro e fora do campo, e uma grande vitória do Glorioso. É justo dizer-se que também os adeptos do clube rival, na sua maioria, souberam comportar-se com dignidade, respeitando a memória do Rei, e contribuindo para a fantástica atmosfera que este jogo – devolvido ao horário nobre do futebol – proporcionou. A nossa vitória foi justíssima. Podia até ter sido mais ampla, dada a demonstração de superioridade que o conjunto encarnado foi capaz de exibir ao longo dos noventa minutos. Não enchendo o olho, o Benfica deixou claro que tem a melhor equipa do panorama nacional, sendo, nesta altura, o mais forte candidato ao título. Conquistámos apenas três pontos. Na tarde do próximo domingo estarão em jogo mais três. Faltam ainda quinze finais, e em cada uma delas será necessário repetir o empenho dentro do campo, e o apoio nas bancadas. Se tal acontecer, em Maio a festa será nossa. 2. Cristiano Ronaldo venceu a Bola de Ouro da FIFA pela segunda vez. Trata-se de um reconhecimento justo pelo seu desempenho ao longo do ano de 2013, em que foi efectivamente o melhor. As comparações com Eusébio são dispensáveis, pois não acrescentam nada a um ou a outro - ambos estrelas planetárias, cada qual a seu tempo. Bom seria, isso sim, que noutros sectores de actividade o nosso país mostrasse ao mundo tão eloquentes representantes. Eusébio no Benfica, Cristiano Ronaldo no Manchester United e no Real Madrid, ambos na Selecção Nacional, alcançaram um nível apenas ao alcance de um estrito lote de predestinados. Juntamente com Di Stefano, Pele, Maradona, Cruyff e Messi, fazem parte integrante da história do futebol. Oxalá o Mundial do Brasil consagre definitivamente Ronaldo, tal como o Mundial de Inglaterra consagrou Eusébio.

O NOSSO REI

Sabíamos que um dia teria de acontecer. Porém, nunca estamos devidamente preparados para ver partir aqueles que nos são queridos. Achamos sempre cedo demais, mesmo quando o tempo vivido foi suficiente para deixar uma marca profunda. Eusébio deixou uma marca profundíssima, quer no Benfica, quer no país. Pelo talento que fez dele um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, e também pela dimensão humana que sempre soube aliar ao sucesso que atingiu. Foi a conjugação dessas duas vertentes que o transformou numa lenda. É esse traço incomum que não deixa espaço a quaisquer comparações, podendo, e devendo, servir de exemplo a todos – dentro ou fora do desporto. Eusébio é Benfica escrito com sete letras diferentes. É, e sempre será, o nosso supremo Rei. Não foi ele que criou o clube, mas foi ele que criou o clube grandioso que a minha geração herdou. Um mero olhar estatístico permite facilmente reconhecer um Benfica antes, e outro depois, do Pantera Negra. Infelizmente, já não cheguei a tempo de o ver jogar ao vivo. É algo que lastimo, e que, confesso, me faz sentir de certa forma amputado no meu benfiquismo. Também não privei com ele. Deu-me um inesquecível autógrafo em 1983, à porta do antigo Estádio da Luz; e apertei-lhe a mão, bastantes anos mais tarde, numa ocasião de circunstância. Mas não é preciso muito para se conhecer Eusébio, tal o seu gigantismo, tal a sua transparência, tal a sua simplicidade. O King foi, é, e continuará a ser, demasiado grande (e para se ser tão simples é preciso ser mesmo muito grande), como jogador, e como figura histórica nacional e internacional. Sobrepôs-se ao país. Sobrepôs-se até ao próprio Benfica. Foi único. É único. Muitas palavras têm sido ditas, e escritas, nos últimos dias, a seu respeito. Dir-se-ão, e escrever-se-ão, muitas outras. Mas todas elas serão sempre insuficientes para traduzir fielmente o seu legado. A fasquia que Eusébio nos deixa é altíssima. Teremos agora de saber estar à altura da sua memória. É esse o nosso desafio.

CLÍNICA DA LUZ

Artur, Siqueira, Sílvio, Fejsa, Matic, Salvio, Enzo Perez, Ruben Amorim, Sulejmani, Cardozo e Markovic. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma proposta de “onze” apontada aos próximos jogos. Trata-se, sim, da longa lista de ausências (a maioria por lesão, algumas também por castigo) que afligiram o Benfica nesta primeira fase de temporada. Para completar o inusitado cenário, resta acrescentar o próprio treinador Jorge Jesus - também ele ausente por castigo durante várias semanas. Salvio, que havia estado em destaque na pré-temporada, lesionou-se à 3ª ronda, para não mais voltar a jogar. Amorim, que se fixou como titular em Atenas, permitindo então a adopção de um novo sistema táctico, lesionou-se no jogo seguinte. Cardozo, que depois da novela de início de época recuperara a sua melhor forma, e mostrava pontaria mais afinada do que nunca, também ficou no estaleiro, onde se mantém. Siqueira, que aparentava ter condições para resolver o velho problema da ala esquerda da defesa, rapidamente se viu, também ele, impedido de jogar. Matic e Enzo foram castigados à vez, inviabilizando, durante duas jornadas, a construção do melhor meio-campo encarnado. Sílvio só em Outubro pôde discutir um lugar. Fejsa lesionou-se em Paris. Markovic em Lisboa. Sulejmani em Belgrado, e, por fim, Artur em Olhão. Quando um destes dias ouvia um comentador televisivo culpar Jesus pela indefinição do onze-base do Benfica, quase tive vontade de rir. É verdade que nem sempre os jogadores têm demonstrado a fibra de campeões que se vira, por exemplo, ao longo da maior parte da temporada passada. É também verdade que alguns dos reforços demoraram tempo demasiado a adaptar-se ao grau de exigência do clube. Mas, caramba, com tantos contratempos, manter ainda assim o 1ºlugar da tabela (embora de forma partilhada), é algo que deveria conferir algum pudor à crítica. Sejamos justos. O que seria dos nossos adversários directos caso padecessem de tão extenso rol de contrariedades? Estariam na luta?

UM ANO DURO

Não é fácil escrever sobre 2013. Andámos entre o céu e o inferno, passámos da euforia à depressão, tudo em apenas vinte dias. E ainda não nos recompusemos totalmente. No dia 6 de Maio estávamos, 23 anos depois, apurados para uma final europeia, e bastava-nos vencer Estoril, Moreirense e V.Guimarães para, 27 anos depois, voltar a conquistar a “dobradinha”. Vivíamos, então, às portas de uma das melhores épocas de sempre. No dia 26 de Maio, tínhamos perdido tudo. Os golpes foram fundos. Sobretudo o desferido por um tal Kelvin, cujo nome ainda me arrepia pronunciar, aos 92 minutos de um jogo cuja memória ainda me custa digerir. Na hora do balanço, não é justo, não pode ser justo, limitar o ponto de vista estritamente aos troféus que nos fugiram das mãos. Todo o percurso dos quatro primeiros meses do ano foi fantástico, e merece ser relevado. A chegada a uma final europeia não é, não pode ser, uma perda - entra para a história, como, por exemplo, a de 1983. A mágoa não tem de trazer indignação, agitação, nem qualquer caça às bruxas. O que não significa que descole facilmente das nossas almas, até porque a nova época ainda não nos deu motivos para esquecer a anterior. Para lá do Futebol, pode dizer-se, porém, que 2013 foi um ano de sucesso. À cabeça de uma lista de triunfos surge o Hóquei em Patins, com o inédito título europeu, conseguido em circunstâncias particularmente saborosas (de que, infelizmente, devido a um motivo familiar de força maior, não pude desfrutar) -, ao qual se seguiram, já na nova temporada, outras conquistas internacionais. Os campeonatos de Basquetebol e Voleibol também vestiram de vermelho. O Futebol Formação trouxe-nos títulos em duplicado (Juniores e Juvenis) o que não acontecia desde 1989. O impressionante Museu Cosme Damião foi inaugurado. A Benfica TV entrou numa nova fase da sua vida. 2014 está à porta. A serenidade e a união são as melhores chaves para o tornar melhor que 2013. Um desejo? Que a sorte nos devolva aquilo que nos retirou.

NESTA DATA QUERIDA

A Benfica TV festejou esta semana o seu quinto aniversário. E se há projectos com bastos motivos para festejos, este é seguramente um deles. Poucos acreditariam, em 2008, que tão ousada iniciativa redundasse no êxito que hoje se vê. Depois de um período de amadurecimento, a estação entrou numa nova era da sua existência quando, no último Verão, passou a transmitir os jogos da nossa equipa principal de futebol, juntando também à grelha de programação aquela que é, indiscutivelmente, a mais empolgante liga europeia da actualidade. Devo confessar que, durante algum tempo, duvidei que tal fosse possível. Parecia-me um sonho demasiado alto, e uma iniciativa demasiado arriscada, avançar para um canal de TV com as características daquele que temos hoje, e que faz as delícias de todos os benfiquistas. Tenho de dar a mão à palmatória. Assinante deste o primeiro momento, vejo a programação melhorar dia após dia, vejo os meios técnicos envolvidos trazerem qualidade superlativa às transmissões – não só do futebol, como também de todas as modalidades que compõem o puzzle do eclectismo encarnado. Vejo! Sobretudo vejo, com gosto, fervor clubista, mas também com a exigência de um telespectador atento, que aprecia o trabalho de profissionais de excelência, os quais, dia após dia, hora após hora, fazem o Benfica entrar-nos pela casa dentro. Não podemos adormecer à sombra do êxito conquistado. Há sempre espaço para melhorar, para inovar, e essa deve ser a matriz de pensamento daqueles que trabalham na casa. Mas o que foi feito nestes cinco anos constitui matéria suficiente para que todos os envolvidos estejam de parabéns. Deixando uma palavra especial para o Ricardo Palacin (profissional, benfiquista e, se me permitem, também amigo), e, nele, para todos os restantes colaboradores da Benfica TV, não posso deixar de saudar aquele que é o principal obreiro de todo o projecto: o Presidente Vieira, cuja sucessão de realizações vai tendo cada vez menos paralelo na história centenária do clube da Luz.

TUDO PELO TÍTULO

Decorridas onze jornadas da Liga, estamos finalmente no topo da classificação. A época iniciou-se aos soluços, mas, com o decorrer das semanas, e resistindo às contrariedades que nos surgiram por diante (de arbitragens altamente penalizadoras, a uma série interminável de lesões), lá chegámos ao lugar onde gostamos de estar. Independentemente da questão formal sobre quem lidera efectivamente a tabela, a verdade é que nenhum clube tem mais pontos que o Benfica, sendo que já defrontámos, fora de casa (empatando), aquele que figura a nosso lado. Não é preciso puxar muito pela memória para nos recordarmos quão precário pode ser um primeiro lugar antes do final da prova. Porém, para quem até há pouco mais de um mês andava por uma tristonha terceira posição, a cinco pontos da liderança e a três do segundo colocado, tomar a dianteira não pode deixar de constituir factor de motivação acrescida – até pelo simbolismo que tal representa, depois das especulações e desconfianças que acompanharam a equipa desde o inglório final da temporada anterior. Esse dossier, de resto, parece - agora sim - finalmente fechado. O que se passou por lá ficou, e o momento manda que nos unamos em torno dos objectivos que queremos, e podemos, alcançar. O principal de todos é precisamente este Campeonato, que tem, até ao Natal, três jogos fundamentais. Arouca, Olhanense e V.Setúbal são o tipo de partida em que é rigorosamente proibido vacilar, e onde o grande desafio se coloca no âmbito dos índices de concentração competitiva. Neste momento, nada - nem mesmo o sonho de um dificílimo apuramento europeu -, nos pode afastar da rota das vitórias domésticas. Os próximos nove pontos têm de ser nossos, de forma a entrarmos em Janeiro com a moral em alta, e recebermos, de peito feito, aquele que ainda considero tratar-se do principal opositor nesta luta. O Campeonato parece querer pôr-se a nosso jeito. Não podemos voltar a desperdiçá-lo. A hora é de união, e não permite hesitações: todos por um, e tudo pelo título!

O GOLO

Ao longo da partida do passado sábado, e mergulhado na ansiedade de ver o relógio correr sem que a bola entrasse na baliza do SC Braga, lembrei-me de Óscar Cardozo. É verdade que temos outros avançados de qualidade. Mas ninguém, como o paraguaio, é tão eloquentemente sinónimo de golo. E, por muito que nos esforcemos por encontrar motivos para ganhar ou perder um jogo de futebol, por mais sofisticadas que sejam as divagações tácticas, por muito que louvemos a segurança dos defesas, a regularidade e eficiência dos médios, a criatividade e velocidade dos extremos, são os golos que garantem as vitórias, e são os goleadores que normalmente os fazem. Daí a minha enorme admiração por eles. O que eu gosto no futebol é de golos. Confesso que não me impressionam particularmente fintas, toques de calcanhar, chicuelinas, rabonas ou outras demonstrações circenses, quando não têm a consequência devida. Sem a bola dentro da baliza, nada feito. Por via disso, são os pontas-de-lança, com a sua eficácia, com o seu sentido de desmarcação, com a arte de aparecer no momento e no local certos, com a capacidade de lutar duramente entre os centrais adversários, de ganhar duelos nas alturas, que merecem a minha maior dose de admiração. Sei que esta não será uma opinião partilhada por todo o “Terceiro Anel”. Lembro-me como Nené, Magnusson, Nuno Gomes, e o próprio Cardozo, foram, cada um a seu tempo, incompreendidos por parte significativa dos adeptos do Benfica. Porém, foram eles que mais vezes me fizeram levantar das bancadas, e soltar gritos de alegria. É a estes, e outros, que devo a minha paixão pelo jogo, e pelo nosso Glorioso clube. Também por isso, defendi neste espaço a importância da manutenção de Óscar Cardozo no plantel encarnado, quando muitos (com os nossos adversários à cabeça) o quereriam ver pelas costas. Um homem que marca quase 200 golos num clube não pode, jamais, ser descartável. É este o meu género de ponta-de-lança. E Eusébio, que sabe de golos como ninguém, também o diz.