QUER SAIR? COMO ASSIM?

A serem verdadeiras as notícias que dão conta que António Silva quer sair do Benfica, não posso deixar de expressar a minha enorme desilusão.
Sei que o futebol profissional é o que é - e quando penso a fundo no que é, dá-me vontade de não querer saber dele para nada -, mas António Silva, um menino que chegou ao clube ainda criança, e que não se cansava de afirmar o seu benfiquismo (e o do irmão, e o da família toda, e o do cão e do gato), independentemente da avaliação técnica que se pudesse fazer, era um daqueles jogadores que eu gostava de ver no plantel durante anos. Escrevi sobre isso, pedindo a renovação, e esperando ver ali um futuro capitão de equipa - nem que fosse só no balneário.
Ao que sei, o Benfica fez-lhe uma excelente proposta de renovação, com um valor bastante acima do contrato actual. Mas ele...quer sair, como se fosse um Schjelderup qualquer.
Tem cometido erros primários, perdeu a titularidade para Tomás Araújo (que partia bastante atrás), e nem sequer foi chamado à Selecção. Ainda assim, o clube queria pagar-lhe mais do que aufere. 
Tratasse-se de um craque com propostas de muitos milhões (João Neves, Gonçalo Ramos etc), eu percebia a vontade de conquistar a sua independência financeira, e a oportunidade de a agarrar. Que propostas milionárias terá António Silva? Fico curioso de saber o seu futuro, para onde o vão levar, onde vai acabar, quanto vai ganhar, se vai ou não jogar, sendo que o futebol está de tal modo que não me admirava que quem o leva também tenha poderes para fazer dele titular de um qualquer clube onde haja um treinador amestrado.
Situações como esta reforçam a minha convicção de que os ídolos são apenas as camisolas. Quem circunstancialmente as veste, não merece sequer um aplauso, quanto mais qualquer tipo de carinho. 
Bernardo Silva também queria vir para o Benfica, mas só quando...já não prestar para nada (assim também eu). Nélson Semedo preferiu a Turquia, onde não paga impostos. João Félix queria o Benfica, até aparecer a Arábia Saudita, onde fica fora dos holofotes mas marca golos como o Ronaldo. João Cancelo diz que aceitava baixar o salário para jogar no Benfica, mas não agora. Por acaso são todos do mesmo empresário - que também é empresário do actual treinador do Benfica (como dos dois anteriores treinadores). Mesmo aqueles que já são ricos, mesmo aqueles que, em campo, estão longe de serem o que foram, não mostram um pingo de vontade em regressar ao país e ao clube que fez deles o que um dia chegaram a ser (e onde também não iriam certamente jogar de borla). E ainda dizem mal do Rafa...(que por acaso é agenciado por outro empresário).
Mais vale fazerem como o Ruben Dias - está-se ostensivamente a borrifar para o Benfica, como para tudo o que não seja ganhar mais dinheiro. Ao menos não finge que sente alguma coisa. Ao menos não faz juras de amor eterno. Antes isso do que hipocrisias.
Os adeptos não precisam do futebol para nada. Os jogadores, os treinadores, e os empresários é que precisam dos adeptos, sem os quais não haveria receitas que pagassem as suas vidas de luxo. Já estive mais longe que querer ver tudo isto pelas costas, e dedicar-me apenas aos livros, aos filmes e à música, que me enriquecem enquanto ser humano, e não me dão este tipo de desilusões, sendo, como tal, bastante mais compensadores.
Ainda bem que, quando eu era criança, tinha como ídolo Fernando Chalana. Fosse eu criança nos dias de hoje, o desencantamento do mundo (como dizia Max Weber) tomaria conta de mim bem mais cedo, e mais cedo ficaria imune a esta doença infantil e irracional que é o futebol. Sobretudo este futebol.
Quanto ao António Silva, que seja feliz lá longe, onde ele quiser. Por mim, a saír, a porta ficaria fechada para sempre.

O MEU PLANTEL


Emprestar: Rui Silva, João Veloso, João Rêgo e Miguel Figueiredo
Vender: Dedic (15M), Barrenechea (15M), Lukebakio (20M), Ivanovic (25M) e Schjelderup (40M)

VALE O QUE VALE

A nota de maior destaque no jogo com o Flamengo é que não é aconselhável voltar a agendar amigáveis de pré-época com equipas sul-americanas.
A postura dos brasileiros não é aceitável e não se reproduz no futebol europeu. Atiraram para fora do campo o jovem Umeh, e foi uma sorte não terem feito mais vítimas.
De resto, para primeiro jogo, e diante de uma equipa num patamar físico totalmente diferente (a meio da sua temporada), não é dramático perder. Noutro comtexto, duvido que o Flamengo acabasse com onze, e isso podia pesar. E até nem desgostei da dinâmica com que os encarnados terminaram a partida - por cima do adversário e em busca do empate.
O trabalho vai continuar, e só mais tarde se perceberá a força deste Benfica. Por agora, faltam jogadores, faltam rotinas, falta tempo.

ONZE PARA O FLAMENGO

 ...e já como base para as pré-eliminatórias, ainda sem "mundialistas":
Trubin, Bah, A.Silva, Lenglet, Dahl, Enzo, Barreiro, Sudakov, Rafa, Pavlidis e Kaminski.

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

O castigo de um jogo à porta fechada aplicado ao Benfica era algo que, mais tarde ou mais cedo, iria fatalmente acontecer. Não obstante os constantes avisos, a pirotecnia nunca deixou de ser utilizada, e face ao que se passou em alguns estádios, nomeadamente, que me lembre, em San Sebastian e San Siro, espanta-me que a UEFA não tenha também perdido a paciência.
Dito isto, o que se vê nos jogos do Benfica não é muito diferente do que se vê nos jogos de outros clubes portugueses. E quando não há moralidade, ou comem todos, ou temos o caldo entornado.
Ora o caldo está a entornar-se sempre para o mesmo lado. Todas as autoridades que, de uma forma directa ou indirecta, tutelam o futebol português, parecem ter o Benfica sempre em ponto de mira.
Tal como acontecia com o FC Porto nos tempor áureos de Pinto da Costa, há hoje um clube que controla a arbitragem, a justiça, a disciplina, outras autoridades, e a propria comunicação social - algo que nem o FCP alguma vez conseguiu controlar. 

APENAS SIMPÁTICO

Roberto Martinez despertou-me sentimentos ambivalentes. Por um lado, pareceu sempre uma pessoa estimável, bastante educada e afável, que dava vontade de apreciar. Por outro, quando via a equipa jogar, desconfiava bastante da sua competência técnico-táctica. Sobre este último aspecto, o Mundial tirou todas as dúvidas: era treinador de menos para aquele plantel.
Scolari também não era um mago da táctica, mas soube, não só construir um grupo à prova de bala e cativar o povo português em seu redor, como também aproveitar inteligentemente o trabalho de terceiros, designadamente quando percebeu que o FC Porto de Mourinho, campeão europeu em 2004 com bastantes portugueses no onze titular, tinha obviamente que ser a base da selecção nacional. Não venceu, mas ficou lá perto.
Com Martinez no banco, Portugal precisava, pelo menos, da sorte que Fernando Santos (outro homem estimável, outro treinador mediano) teve em 2016, tanto nos jogos, como no emparelhamento das equipas até à final. Acontece que tamanha fortuna só cai do céu uma vez na vida, e a nossa selecção esgotou todo o seu plafond nessa competição - ao longo da qual, lembremo-nos, apenas venceu uma das sete partidas dentro dos 90 minutos e acabou campeão.
O técnico espanhol sempre foi difícil de decifrar. As suas convocatórias foram por vezes estranhas, e não esqueço que, para Bola de Ouro, uma vez votou em...Brozovic (!?!). Vendo a equipa jogar mal, ainda pensei, num benefício da dúvida que levei até onde pude, que a estivesse a preparar para grandes confrontos de "mata-mata", em que era preciso especular, defender, arrastar o jogo e procurar o erro contrário. A realidade mostrou que o erro não era contrário, e estava em todo o lado, que a equipa defendia mal, não se mexia, não evidenciava qualquer tipo de organização, e apostava apenas no factor sorte. E era preciso muita.
E chegamos a Cristiano Ronaldo. Depois de Fernando Santos o ter colocado no banco, em 2022, e, acto contínuo, ser despedido, a primeira coisa que Martinez fez quando foi contratado foi visitar CR7 na Arábia Saudita - decerto para lhe dizer que a selecção ia ser ele e mais dez, fazendo também a vontade a uma FPF que tem lucrado milhões com a imagem do antigo Bola de Ouro. Não sei, e talvez nunca venhamos a saber, se o espanhol foi de algum modo coagido a utilizar Ronaldo (em nome das receitas comerciais), ou se tinha mesmo a convicção da sua utilizade no onze titular. O que é certo é que, não só insistiu até à náusea num avançado que já não consegue correr nem saltar, como resistiu sempre a tirá-lo de campo, que mais não fosse para lhe poupar algumas energias na ponta final de certas partidas - contra tudo aquilo que era óbvio para quem visse os jogos. E se a presença de Ronaldo na selecção ainda divide os portugueses, para além dele próprio, da mãe e das irmãs, não haverá mais ninguém que ache que, aos 41 anos, deva realizar todos os minutos de todos os jogos. Por dever, ou por falta de coragem, Martinez seguiu pelo caminho mais fácil, o de agradar ao dono disto tudo, e assim comprar uma paz de balneário que, desconfio, seja mais podre do que aparenta. Caiu com estrondo.
Roberto Martinez não deixa, pois, quaisquer saudades. Deixa sim uma interrogação: porque motivo foi contratado?
Venha o senhor que se segue. Toda a gente que visita este espaço sabe o que penso de Jorge Jesus: um extraordinário treinador, que põe equipas a jogar e a ganhar. Isso aconteceu em quase todos os clubes por onde passou. Não tenho a certeza que o papel de seleccionador lhe assente assim tão bem. Sem tempo para treinar, com jogos de tempos a tempos, tem pela frente um desafio muito diferente de qualquer outro que teve até agora. Não terá, certamente, a diplomacia de Martinez ou Fernando Santos, coisa que não é despicienda num cargo como este. Enfim, vamos esperar para ver.
A curiosidade maior, o elefante na sala, é perceber se Cristiano Ronaldo se mantém na equipa, e se a continua a bloquear com a sua omnipresença. Se CR7 tivesse decidido abandonar a selecção, pelo seu pé, há quatro anos atrás, seria digno do meu aplauso. Se a abandonar agora, apenas merece o meu registo e o meu alívio. Se não tomar essa decisão, veremos que força será dada a Jorge Jesus para ser ele a fazê-lo.
Há jogos já em Setembro. Não temos de esperar muito para saber.
Quanto a Roberto Martinez, que seja feliz. 

CR 0

Crónica de uma morte anunciada. Podia ser este o título do texto, roubado a Gabriel Garcia Marquez, pois a eliminação de Portugal, deste Portugal, adivinhava-se pelo menos desde que o Mundial começou. Sobretudo quando se expoôs a jogar com a Espanha logo nesta fase, fruto de um segundo lugar no seu grupo - já ele consequência dos mesmos problemas e dos mesmos erros que agora ditaram a eliminação. 
O maior de todos eles é tão grande como foi, no passado, a carreira de um jogador que merecia ter sabido sair de cena no tempo certo. Não soube. E Martinez nunca mostrou qualquer pingo de coragem em fazê-lo perceber. Aliás, nunca mostrou absolutamente nada que um qualquer professor Neca não fosse capaz de superar.
Foi penoso ver toda uma geração brilhante de jogadores arrastada para a banalidade, por uma teimosia, por um capricho, por um treinador medíocre que não quis ou não soube contrariar o ego do seu capitão da equipa.
Foi penoso, substituição após substituição, ver a equipa torturada pela "necessidade" de manter em campo, por mais noventa minutos completos, um jogador estático, sem ritmo, sem velocidade, sem agressividade,  sem capacidade física para oferecer o que quer que fosse ao jogo. Uma estátua castradora do potencial dos seus colegas. Com o Uzbequistão foi mais fácil.  Com a Espanha torna-se impossível. 
O que dirá Gonçalo Ramos? Não às televisões, nem aos jornais - em Portugal toda a gente tem medo de dizer a verdade. À família, aos amigos. A quem diga o que lhe vai na alma.
O que dirão Vitinha, Bernardo, Bruno, João, Rafael, Pedro, Nuno, Ruben, Diogo? Tenho pena deles, obrigados a ser figurantes  de uma farsa, que se não fosse desportivamente tragica, era decididamente cómica.
Enfim, talvez eu não devesse sofrer tanto com isto. Mas gosto da Selecção, e acho que tinha aqui, nesta geração, uma oportunidade para voar alto.
Martinez? Obviamente demitam-no! Além de um discurso conrtês, não trouxe nada de positivo à equipa portuguesa. Limitou-a. Descaracterizou-a. Só para se manter nas boas graças de alguém a quem, desde cedo, se subordinou.
Ronaldo? Espero nunca mais o ver com esta camisola. Que fique a bater os seus records lá longe, nas arábias ou onde lhe pagarem mais. Não soube sair pela porta que a sua carreira justificava. Sai pela janela dos fundos, a rastejar pelos relvados, e a comprometer os sonhos de todo um povo. 
Portugal foi campeão europeu quando ele se lesionou. Tornou-se absurdamente rico à conta da paixão dos adeptos. Afinal, o que lhe devemos?

UM JOGO COM HISTÓRIA

41 jogos, 7 vitórias,  16 empattes e 18 derrotas. É este o registo histórico global do Portugal-Espanha, o confronto mais vezes repetido no historial da "Equipa das Quinas". No século XXI, 12 jogos, 3 vitórias, 5 empates e 4 derrotas. Em Mundiais, um empate e uma derrota, nas únicas duas ocasiões em que os dois países ibéricos se defrontaram.

Viajando no tempo, recordemos, com algumas fotografias, a primeira partida, em 1921



...e aquela que foi a primeira vitória sobre os espanhóis, no Jamor, em 1947:



Para hoje: Diogo Costa, Cancelo, Ruben Dias, Renato Veiga, Nuno Mendes, Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Gonçalo Ramos e Rafael leão.

JÁ ESTAVA A ESTRANHAR

O Mundial estava a correr bem demais.
Estádios cheios, bons jogos, emoção, as principais estrelas a brilharem, nada de violência, e até a meteorologia tem ajudado - pelo menos nos estádios onde não existe cobertura.
Eis que surge, como um murro na tromba desse optimismo, o caso Balogun. E se é o que parece, nunca a FIFA tinha descido tão baixo.
Da administração Trump espera-se tudo e o seu contrário. Que Infantino o tenha bajulado antes da competição para garantir que as coisas corriam bem, enfim, poderia até chamar-lhe, de forma benevolente, realpolitik. Que continue a satisfazer os seus ignóbeis caprichos, adulterando sem vergonha a verdade desportiva, é algo que de modo algum poderá ser tolerado.
Surpreende? Não. Mas não deixa de ser grave, e de abrir um precedente perigosíssimo.
Tal como a política, também no futebol a verdade passou a existir, apenas, quando um homem quiser.

VAREU!

Ufa... Já não sofria tanto com a Selecção há bastante tempo. 
Depois de uma primeira parte enfadonha, uma segunda em que aconteceu de tudo, e terminou à filme - com o VAR a salvar Portugal...
A equipa continua com problemas por resolver, e a Espanha não é a Croácia. Mas hoje a noite é de festa. Ou pelo menos de sono tranquilo e saboroso, como será o meu caso.
Ainda há Mundial. 

O MEU PAÍS

Não. Não é Pedro Proença que vai jogar. Não é sequer a FPF que jogará. Aos olhos do mundo, o nome que irá constar dos noticiários é apenas um: Portugal, selecção que já existia antes do presidente da FPF e CR7 terem nascido, que existe há mais de 100 anos, representando um país que existe há quase 900.
Este seria o meu onze para vencer a Croácia: Diogo Costa, João Cancelo, Ruben Dias, Renato Veiga, Nuno Mendes, Vitinha, João Never, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Gonçalo Ramos e Pedro Neto.

REPARAR O ERRO

O maior erro de Rui Costa enquanto presidente do Benfica foi, seguramente, dar apoio a Pedro Proença na corrida à presidência da FPF. Percebo que, naquele momento, o qual sem algumas figuras do passado (leia-se, Pinto da Costa) parecia de pacificação, Rui Costa procurasse seguir na carruagem que se sabia vencedora. Percebo também que, no contexto de vários processos judiciais a correrem contra o clube, o seu presidente se sentisse de algum modo limitado nas acções de bastidores. E a verdade é que se o Benfica não lhe tivesse dado o seu apoio, Proença ganharia igualmente, e estaria lá agora, tal como está - porventura ainda mais hostil e vaidoso do que já é.
Ninguém está isento de erros, embora nos dias de hoje pareça ser isso que se espera de presidentes de clube, de ministros, de autarcas e de toda a gente que, no fundo, tenha de tomar decisões em cenários de incerteza. Rui Costa errou, e estou convencido de que o próprio reconhecerá que errou.
Para grandes males, grandes remédios. E chegou o momento de poder corrigir o erro.
A convulsão provocada no Conselho de Arbitragem, com a saída e as denúncias de Duarte Gomes, veio oferecer ao Benfica a possibilidade de dar um verdadeiro murro na mesa. Não na mesa da AG do clube, nem na mesa de uma conferência de imprensa qualquer, mas na mesa da FPF.
Por mim, a questão era simples: ou Pedro Proença retirava de imediato (vá lá, amanhã, depois do jogo da selecção) a confiança no ainda presidente do CA, ou esta seria a ocasião para ser o Benfica a retirar a confiança no próprio Pedro Proença. Com este CA, com esta arbitragem, só um super Benfica poderá ser campeão. Mais do que contratações de jogadores ou de treinador, é na arbitragem que é preciso mexer, para a tornar minimamente isenta e credível. 
Talvez Rui Costa não possa encetar este caminho sozinho. Mas tenho a certeza que, bem negociado, André Villas-Boas ajudaria a dar o empurrão que falta para o futebol português se ver livre do cancro Luciano Gonçalves. Também ele o tem criticado com veemência. Também ele percebe o que se está a passar. Aliás, toda a gente percebe o que se está a passar, ou não fosse Frederico Varandas o único a defender o Conselho de Arbitragem, os árbitros, e a pedir castigos mais duros para quem os critique - numa espécie de bico calado e cara alegre que continue a favorecer o Sporting eterna e escandalosamente em todos os campeonatos e taças.
Na paixão do adepto, o FC Porto é tão ou mais rival do que o Sporting. Na realpolitik do futebol português, o Benfica precisa de um aliado forte. Neste contexto, esse aliado só pode ser o FC Porto. A reboque virão outros clubes médios e pequenos. E só assim se muda alguma coisa. O Benfica é muito grande, mas, ao contrário do que supõem alguns optimistas mais crédulos, não é suficientemente grande para enfrentar todo um edifício do futebol português que se auto-regula, e cujas votações não são feitas pelos adeptos, mas por presidentes de clubes grandes médios e pequenos, associações e representantes diversos, todos com interesses cruzados - quando não obscuros.
Esta é pois, à entrada de uma nova época, a ocasião para dar uma varridela na podridão que grassa na arbitragem portuguesa. Talvez não haja outra tão depressa. É uma espécie de penálti aos 95 minutos que não pode ser desperdiçado.
Fica o desafio.

CA(SA) A ARDER

A demissão, com estrondo, de Duarte Gomes, promete agitar o Conselho de Arbitragem. Aliás, já está a agitar.
Entre Duarte Gomes e Luciano Gonçalves, não tenho a menor dúvida em quem mais confiar, ou, sendo mais rigoroso, de quem menos desconfiar. O presidente do CA é um gangster, que fez a arbitragem portuguesa regredir trinta anos. É o rosto da pior temporada da arbitragem portuguesa desde os tenebrosos tempos do "Apito Dourado".
Quando um árbitro beneficia grosseiramente o Sporting e na jornada seguinte vai dirigir o FC Porto, e quando o mesmo árbitro apita um jogo em que o Sporting perde (e queixa-se), e na jornada seguinte fica na jarra, está dado o sinal. Quando um árbitro prejudica escandalosamente o Benfica numa partida da primeira volta, e é nomeado para um jogo decisivo do Benfica na parte final do campeonato (em que volta a prejudicá-lo de forma grosseira), temos a confirmação. E o VAR, criado para defender a verdade desportiva, tornou-se um instrumento adicional de manipulação, fruto de interpretações criativas e avulsas do protocolo, feitas sempre com a mesma tendência.
Não é preciso haver malas com dinheiro. Não é preciso haver mensagens encriptadas. Nem sequer troca de palavras. Hoje, na arbitragem portuguesa, quem prejudica o Benfica (ou beneficia o Sporting) sabe que, mais tarde ou mais cedo, será premiado; e os poucos que têm a coragem de tomar alguma decisão em contramão, são, mais tarde ou mais cedo, directa ou indirectamene, punidos. Isso está no ar que se respira. Sente-se. E os tempos do amadorismo na arbitragem, para o bem e para o mal, já vão longe. Há que alimentar as famílias, e chegar ou não a internacional, ser ou não nomeado, para a primeira ou para a segunda liga, não é indiferente.
É o sistema. Um novo sistema, agora pintado a verde e branco. Edificado na sombra, enquanto o Benfica se debatia com inúmeros problemas judiciais e o FC Porto se debatia com graves problemas financeiros - ambos, de algum modo, limitados durante anos na sua capacidade de intervenção.
Quando eu era criança, fazia campeonatos de caricas. Levava a coisa a sério, mas no fim ganhava o Benfica. A arbitragem portuguesa, transformada em marioneta, faz-me lembrar esses tempos, e esses "campeonatos". Não ganha sempre o Sporting - há jogos em que nem os árbitros fazem milagres. Mas lá que tentam, tentam. E pelo menos uma Taça de Portugal e cinquenta milhões de euros já estão a crédito do clube do Dr. Varandas. Para 16 meses deste CA em funções, não é coisa pouca.