Este espaço existe há já vinte anos. Era Ronald Koeman o treinador de um Benfica em fase de reconstrução após o negro "vietname". Ao longo do tempo, com altos e baixos, foi possível discutir futebol abertamente, com quem estava de acordo, com quem não estava, mas sempre de forma genuína, e na maioria das vezes educada. Aliás, a polarização mais encarniçada, quando existia, era com adeptos de clubes rivais que por aqui apareciam. À semelhança do que sempre sucedeu, e sucede ainda hoje, no mundo real.
Os tempos mudaram. Mudaram demasiado. Desconfio que neste abominávvel mundo novo, o das redes sociais, dos algorítmos, das polarizações e de todos os ressentimentos e rancores expressos através de um teclado, não seja possível discutir futebol na internet. Desconfio mesmo que não seja possível discutir assunto nenhum, sem um exército de trolls atacar com insistência até à náusea, sem nos depararmos com uma polarização absurdamente excessiva, por vezes quase ridícula, resultado dos algorítmos, mas, sobretudo, do anonimato - que transportou o discurso de tasca para o espaço público. Uma pessoa faz-se passar por várias. Umas poucas pessoas criam uma multidão, organizada ou espontânea, mas sempre virtual. E quando têm uma agenda definida, o ruído torna-se demasiado tóxico para se manter suportável. Escreve-se alhos, aparecem vinte respostas em bugalhos. Ninguém elogia nada (quando alguém elogia, é porque é avençado, ou tem tacho, ou é lambe-botas, ou é parvo). Tudo é para deitar abaixo. Tudo é péssimo. Toda a gente é corrupta (sejam presidentes de clubes, sejam ministros, sejam figuras de destaque em qualquer área da sociedade). O grau de exigência (para com os outros) é ilimitado e tende para infinito, como se a fasquia estivesse em Albert Einstein, ou na Madre Teresa, conforme se fale de capacidade ou honestidade. A tolerância ao erro (e ao outro) é abaixo de zero - sobretudo para gerações habituadas a todos os facilitismos, em casa, na escola e até à vida adulta, onde esbarram de frente com a realidade e, com isso, adensam frustrações. As caixas de comentários tornam-se uma teia que acaba por asfixiar qualquer discussão lúcida sobre qualquer tema. Interessa é gritar, fazer o maior ruído possível, para levar avante (ou destruir) um qualquer propósito, uma qualquer figura. E quem não concorda é porque é estúpido. Isso é bastante notório na vida política, em Portugal e não só. Não sei se, por cá, as redes sociais serão um dia capazes de eleger um presidente da república (como um dia Emídio Rangel disse a propósito das televisões). Para já ainda não, mas noutros quadrantes já o fizeram.
Quando me tornei benfiquista nem sabia quem era o presidente. Essa era uma figura burocrática que me foi sendo mais ou menos indiferente até chegar Vale e Azevedo - um criminoso, mais tarde condenado em tribunal por desviar dinheiro do clube para o seu próprio bolso. Aí, bati-me de forma veemente contra as suas propostas em Assembleias Gerais onde os seus capangas de serviço não me meteram medo. Quem lá esteve, e viu cabeças partidas, sabe do que estou a falar. O fulano ainda assim cumpriu o seu mandato. Depois, foi democraticamente corrido - nas urnas, pela maioria dos sócios (os que como eu nunca acreditaram nele, e aqueles que de início foram mais crédulos, mas depois deixaram também de acreditar num vendedor de ilusões e de mentiras).
Entretanto Pinto da Costa, e, depois, de certo modo também Luís Filipe Vieira, tornaram-se elementos centrais da vida dos clubes portugueses. A somar à volatilidade com que jogadores e treinadores entravam e saíam, a figura dos presidentes assumiu um peso desproporcional e nocivo no clubismo dos adeptos portugueses - a reboque de uma comunicação social em crise, ávida de sangue e de polémicas capazes de conferir audiências e receitas. Daí, a política interna dos clubes ter assumido, também ela, maior relevância e destaque (#varandasout, AVB traidor, etc).
No Benfica tudo é maior. Para o bem e para o mal, tudo é amplificado pela grandeza do clube.
Neste caldo cultural, as últimas eleicções tomaram uma dimensão histórica - desde logo pela mobilização record dos sócios, também pela mediatização que originaram. Assim sendo, era natural que um espaço como este, durante a pré-campanha e a campanha eleitoral, reflectisse essa mediatização. E esse fosse, durante o período em causa, o assunto dominante de comentários e discussões. Uns a favor, outros contra. Até aí, tudo normal.
O resultado claro e esmagador da ida às urnas deixou perplexos muitos daqueles que viam nas redes sociais e nas caixas de comentários (amplamente anti-Rui Costa), um barómetro credível do benfiquismo. Não o era, e não o é. Mal de nós se algum dia o for, independentemente de quem estiver na presidência. Mas pensava-se que, após a reeleição, para mais com números tão expressivos, o clima eleitoral se dissipasse. Que a partir daí só o Benfica contasse. Que só houvesse um Benfica, a fazer jus ao lema "E Pluribus Unum".
De facto, quem vá ao estádio, aos pavilhões, quem fale com gente nas ruas, nos cafés, percebe que, com mais ou menos críticas, com maior ou menor insatisfação, com maior ou menor tolerância ao erro, só há verdadeiramente um Benfica. Infelizmente, no mundo virtual, um grupo de viúvas de Outubro, que não aceita a democracia, que se julga uma vanguarda iluminada, que, sabe Deus porquê, acha que todos os outros são estúpidos (ou chalupas, ou lá o que lhes chamam), partiu, de forma sistematizada ou não (haverá um pouco de tudo), para uma violentíssima cruzada de ressabiamento, de vingança e em alguns casos, mesmo de ódio para com o presidente legitimameente eleito, e reeleito há poucos meses (ainda sem sequer uma época completa depois da esmagadora votação), bem como para todos os que assumiram apoiá-lo, pretendendo impôr aos outros (a todos) uma retórica de terraplanagem de tudo o que tenha a ver com o clube. A partir daí tentaram o espaço público com uma campanha negra, estéril e, a serem benfiquistas, autodestrutiva, que em nada ajuda o clube a resolver os seus problemas - apenas serve para aliviar rancores ou satisfazer egos.
Quem não soubesse mais nada e caísse aqui de paraquedas, seria levado a pensar que o autor do blogue segue sozinho, em contramão, e contra todas as evidências, num caminho quixotesco, nem sequer de apoio ao presidente do clube (do qual, desde as eleições, praticamente não voltou a falar), mas da sua, digamos, não hostilização, face a uma maioria quase total de "esclarecidos" que a ele se opõem de forma "lógica", dada a sua "óbvia" incompetência. Sabemos que isso não corresponde à realidade do benfiquismo. E que, na única caixa que efectivamernte interessa, não foi isso que se viu. Que mais não fosse, esse seria motivo suficiente para me manter firme na minha linha de apoio ao clube e a quem ligitimamente o representa (chame-se Rui, João, Manuel ou Francisco), sem me desviar um milímetro, ou muito menos deixar-se influenciar por quaisquer campanhas virtuais, independentemente da amplitude do ruído que consigam criar. Aliás, quem me conhece sabe que, comigo, isso até funciona ao contrário.
Sendo este um espaço criado por mim, tentei, até aos limites da paciência, para lá dos limites da boa vontade, absorver toda essa campanha na caixa de comentários. Diverti-me algumas vezes, confesso, a desmontar a sua argumentação. Ignorei insultos. Mas chegou-se a um limite em que, por um lado, sinto haver riscos de uma certa instrumentalização da caixa de comentários do VdB, e por outro, mais importante ainda, riscos de afastamento dos leitores mais antigos e tradicionais, afinal de contas aqueles com quem me dá prazer discutir futebol, independentemente de estarem de acordo ou não com aquilo que escrevo.
Isso obriga-me a tomar a decisão de filtrar a caixa de comentários, evitando uma toxicidade retórica que há muito se tornara excessiva e poluidora de um espaço que se pretende livre.
Naturalmente aceitarei todos os comentários feitos com elevação. Aceitarei críticas, por mais veementes que sejam. Mas não mais permitirei que este espaço sirva para campanhas negras, insultuosas e divisivas do Benfica, em que, a cada post, receba dezenas de comentários iguais (Rui Costa, 65%, chalupas etc), que francamente não me interessam nada, e de nada servem ao clube.
Estou certo que os verdadeiros leitores, os verdadeiros benfiquistas, continuarão a aparecer por aqui.
Obrigado a esses, e Viva o Benfica!