Em 2022 o scouting do Benfica identificou, e a SAD contratou, Bah, Aursnes, Enzo Fernandez e David Neres. Poucos meses depois trouxe um ainda imberbe Schjelderup.
Não sei, não sei mesmo (e ninguém me paga para pesquisar) quem eram os scouters, ou como funcionava o departamento nessa altura. A verdade é que o Benfica foi campeão e encheu-se de dinheiro com uma grande Liga dos Campeões e com a venda milionária de Enzo ao Chelsea.
No Verão seguinte, o clube apostou em Kokçu e Arthur Cabral. O rival de Alvalade fui buscar, para as mesmas posições,, e com menos dinheiro, Hjulmand e Gyokeres. Sobretudo este último originou uma novela de algumas semanas, ao longo das quais a contratação esteve em risco e à mercê de uma interferência hábil que pudesse desviar o atleta da rota de Alvalade. Sabemos o que aconteceu depois. No plano desportivo, dois títulos para o Sporting, nenhum para o Benfica. No plano financeiro, a dupla custou ao Sporting 38M (18+20) e foi vendida por 105M (40+65 sem contar bónus). Kokçu e Cabral custaram ao Benfica 45M (25+20) e valeram 37M (25+12). Contas de merceeiro, o Sporting ganhou títulos e dinheiro (67M), o Benfica perdeu títulos e dinheiro (-8M).
Podia ter sido ocasional - um mercado que correra mal e que fosse corrigido depois. A verdade é que a tendência se acentuou nos anos seguintes.
A exibição de Kaminski diante do St.Gallen torna-se preocupante à luz desta tendência recente. É verdade que nem todos os jogadores se adaptam, nem todos rendem de imediato (e se nos lembrarmos de Luisão, David Luíz, Carreras ou o próprio Schjelderup, já aqui mencionado, percebemos que nem sempre as primeiras impressões se confirmam). Mas a prestação do polaco foi tão fraca, que acaba por levantar desde já fantasmas com os de Juracek, Obrador e afins (custo a resistir a incluir Sudakov neste lote).
Paralelamente vemos o Benfica insistir na contratação de nomes sonantes (Lenglet, Durán, como no passado recente, o referido Kokçu, Rios, Belotti e outros). Ora para isso não era preciso haver scouting. Bastaria um de nós perder umas horas no ZeroZero ou no Transfermarkt para encontrar jogadores conhecidos, mais ou menos disponíveis, e arriscar na sua contratação a ver o que dava. Durán ainda não jogou, mas Lenglet mostrou-se, para já, bastante abaixo da expectativa. E ao contrário de Bá, é um jogador cuja carreira está em trajectória descendente.
É fácil, a partir daqui, querer deitar tudo abaixo, demitir toda a gente, dizer que está tudo mal. Nos tempos que vivemos, é assim que funcionam as coisas, no futebol e não só.
Não acho que esteja tudo mal do Benfica. O clube mantém uma situação económica sólida, uma formação invejável, modalidades ganhadoras e domínio total no desporto feminino. Viu-se livre da camada de processos judiciais que esta direcção herdou. E mesmo no futebol, na época passada ganhou a Supertaça, teve uma prestação internacional razoável, e não perdeu nenhum jogo no Campeonato.
Mas há coisas que estão muito mal no Benfica. E o scouting parece-me ser uma delas.
Nem sei quem são as pessoas. Nem se o problema é de pessoas, de organização, de meios, seja lá o que for. Que não está a funcionar, não está.
Oxalá as próximas semanas possam desmentir-me. Neste momento, sinto um arrepio na espinha quando o Sporting contrata alguém, temendo um novo Gyokeres, um novo Hjulmand, um novo Suarez ou um novo Araújo. E uma sensação de vazio quando, para o Benfica, se fala de João Félix, de Thiago Almada, de Weghorst, de Rodrigo Zalazar, e depois vem Sudakov, vem Kaminski, e vem outro e vem outro e mais outro, como dizia o Bruno Lage.
Resta o mês para tudo isto se inverter. As pré-eliminatórias valem o que valem (e já estou por tudo), mas o Campeonato não pode, de modo algum ser igual ao anterior.