Depois de abrir uma melancia, é fácil dizer se é boa ou má. Quando se está a comprá-la, nem sempre a aparência corresponde à qualidade.
Com as contratações de futebolistas passa-se o mesmo. Quem diria que Jonas, dispensado pelo Valencia, já trintão, se tornaria (na minha opinião) o melhor jogador do Benfica deste século? Em sentido contrário, sei que nomes como Djuricic e Ola John eram referenciados por grandes cllubes europeus e não se afirmaram na Luz (nem em lado nenhum). Se andarmos mais para trás, os exemplos são imensos, no Benfica e em todos os clubes.
Agora é fácil dizer que a SAD encarnada se equivocou nas contratações do último mercado de Verão. Enfim, mesmo dando de barato que nenhum deles vai explodir no futuro e surpreender-nos como outros nomes que não se fixaram de imediato (assim de repente, nas últimas décadas, lembro-me de Di Maria, Luisão, Enzo Perez, Matic, David Luiz e do próprio Cardozo), a verdade é que seria possível construir, hoje, o melhor onze do Benfica desta temporada sem nenhuma das contratações (excepto, porventura, Dedic). Ou seja, gastando muito menos, a qualidade da equipa estaria quase igual. Conclusão: gastou-se mal.
Mas isso é aquilo que agora conseguimos perceber. No Verão passado, olhando para os nomes e curriculos contratados, estaríamos longe de achar que o Benfica estava a fazer um mau mercado. Quem achava que se acuse. Centremo-nos nos quatro jogadores mais caros, e que somam quase os 100 milhões de que tanto se falou e fala: Rios, Lukebakio, Sudakov e Ivanovic.
RICHARD RIOS 27M ex Palmeiras: Com 25 anos e 30 internacionalizações A pela Colombia, depois de um Mundial de clubes em que deu nas vistas, elemento estruturante no onze de Abel Ferreira, Rios parecia uma aquisição à prova de bala. Recordo-me de muitos comentadores afirmarem que o Benfica tinha conseguido trazer um grande jogador (que estaria também nos planos do FC Porto), o qual vinha dar ao meio-campo encarnado o músculo que Florentino e Kokçu não garantiam. O perfil, as estatísticas, as impressões eram de um craque. Infelizmente, isso só se tem visto a espaços, carecendo da regularidade que se exigia. É preciso notar também que o colombiano não desfruta da complacência de Hjullmand diante dos árbitros portugueses - factor que também tem comprometido a sua adaptação ao futebol europeu. Soma faltas e cartões com uma facilidade que não se vê, em situações semelhantes, no dinamarquês do Sporting.
DODY LUKEBAKIO 20M ex Sevilha: Com 27 anos e 30 internacionalizações A pela Bélgica, Lukebakio vinha substituir Akturkoglu (que entrara por 10 e saiu por 20, satisfazendo a sua própria vontade de regressar a casa). Olhando para um e para outro, não seria de supor uma perda desportiva acentuada. Com formação no Anderlecht, passagem pela Bundesliga, e depois pelo Sevilha (39 jogos e 11 golos na temporada anterior), o belga parecia, também ele, ser valor seguro. Deu um ar da sua graça nos primeiros jogos. Depois lesionou-se e não voltou a ser o mesmo. A afirmação de Prestianni na posição tornou-o algo redundante. Veremos se o Mundial ajuda a vendê-lo.
GEORGIY SUDAKOV 27M ex Shakhtar: Gorada a contratação de João Félix, por pouco mais de metade do valor, o Benfica trouxe um jovem ucraniano muito talentoso e prometedor. Chegou com apenas 22 anos e leva 34 jogos na selecção A da Ucrânia. Vinha do Shakhtar onde marcara 15 golos em 37 jogos, e era pretendido por outros clubes de primeira linha. Chegou num contexto pessoal muito complicado, com a mulher grávida e a casa da família bombardeada - algo cujas consequências psicológicas não consigo sequer imaginar. Está longe de ser um caso perdido, mas a verdade é que ainda não justificou, em campo, o elevado investimento. Mesmo um Rafa em sub-rendimento tirou-lhe a titularidade. A ausência do seu país no Mundial não ajudará a rentabilizá-lo. Enfim, vamos esperar para ver o que acontece, sendo que, quando chegou, trazia com ele a esperança de se tratar de uma grande contratação.
FRANJO IVANOVIC 23M ex St.Gilloise: Com apenas 21 anos foi um dos melhores marcadores da liga belga. Levando 9 jogos na selecção A da Croácia, veio para ser alternativa a Pavlidis. Começou razoavelmente, marcando golos quando era chamado. Fez um grande jogo com o Nápoles, mas a boa forma do grego (de facto, muito mais completo) até ao Natal, impediu a sua afirmação como titular. Ter-se-á desmotivado, o que fez com que quase deixasse de ser opção - passou a ser o jovem Anísio a somar alguns minutos e... alguns golos. Reapareceu num ou noutro momento (por exemplo no "Clássico" da Luz), mas ainda não justificou os 23M que custou. Nem com a quebra de rendimento de Pavlidis. Os pontas-de-lança são muito caros, e ele é muito jovem. Não o dou como perdido, e não há como negar que, à partida, parecia uma boa aposta.
Há várias semelhanças entre os quatro casos. Todos eles eram internacionais A por selecções de qualidade, todos eles vinham de realizar boas temporadas nos anteriores clubes. À excepção do ucraniano, todos eles apresentavam boa planta física. É fácil criticar depois. Agora são mais ou menos dispensáveis. Mas era muito difícil dizer, em Julho ou Agosto, que estes quatro nomes não eram reforços a sério, que não vinham tornar a equipa mais forte.
E até tenho a leve sensação que qualquer um deles, no Sporting de Varandas, brilharia a alto nível.