BRASIL 2014 - NOTAS FINAIS


Uma esplendorosa fase de grupos prometia mais, mas, ainda assim, assistimos a um excelente Mundial. Tivemos muitos e bons golos, grandes defesas, quebra de recordes, incerteza, emoção, e um campeão justo.
Messi não conseguiu ser Maradona, e, mesmo conquistando o prémio para o melhor jogador do torneio, esteve longe do brilhantismo evidenciado noutras alturas ao serviço do seu clube. Faltou esse toque de Midas para que a Argentina dos “nossos” Enzo Perez e Garay se sagrasse campeã.
Fazendo jus à velha máxima do futebol, no fim ganharam os alemães. E ganharam bem.
Entre todas as selecções, a “Mannschaft” foi a mais compacta, a mais empolgante, a mais refinada, e, sobretudo, a mais eficaz.
Juntamente com a detentora do título Espanha (precocemente afastada), o Brasil de Scolari foi quem mais desiludiu. Realizou um campeonato regular até às meias-finais, mas aí claudicou por completo, entrando para a história pela porta errada. É fácil criticar o antigo seleccionador nacional, e, por cá, muitos têm aproveitado a ocasião para ajustar velhas contas. Talvez seja justo lembrar neste momento que, com ele ao leme, a nossa selecção conseguiu os melhores resultados de sempre, e que, antes ainda, o mesmo técnico havia já sido campeão do mundo pelo seu país. Também me recordo de, com ele, Portugal vencer a Rússia pelos mesmos 7-1 que agora lhe acertaram em cheio. Não gosto de injustiças, nem de gente com memória curta, e ainda menos de lavagens de roupa suja – nas quais a comunicação social portuguesa é fértil.
Por falar em Portugal, talvez seja altura (agora sim) de avaliar a prestação do conjunto de Paulo Bento. Os 0-4 diante da campeã Alemanha parecem-nos hoje francamente mais aceitáveis. E o empate com os Estados Unidos terá sido, também, face a tudo o que se viu, um resultado normal. Podemos pois classificar a participação portuguesa dentro de parâmetros que ficam longe de corresponder à imagem negra que os media - sempre ávidos de sangue -procuraram passar ao longo destas semanas.

LENDAS E NARRATIVAS

1.Tudo indica que na próxima temporada o Benfica marque presença nas provas europeias de seis diferentes modalidades (Futebol, Hóquei em Patins, Basquetebol, Andebol, Voleibol e Atletismo). Relembre-se que o nosso clube é campeão em quatro delas. Ser a maior potência desportiva do país passa, muito provavelmente, por algo parecido com isto. Mas poderia também ser uma definição para o clube com maior número de sócios, para o que tem mais títulos, para o que tem melhores equipas, para o que tem maiores e melhores infraestruturas, etc. Não vejo é que este fato sirva a outro, sem que esse outro caia no ridículo.
2.Ao contrário do que sucede com as competições europeias, ou com as taças, em que podemos ver pela frente adversários distintos, o sorteio do campeonato tem pouca relevância. Os opositores são conhecidos à partida, havendo que jogar com todos, sendo apenas sorteada a ordem das jornadas.
Ainda assim, há que sublinhar o facto de não irmos ao Porto nas últimas rondas – a acontecer novamente, confesso que suspeitaria de fraude -, de iniciarmos a defesa do título em casa, e de recebermos o Sporting à terceira jornada, aspectos que nos são teoricamente favoráveis. Realce ainda para as dificuldades de Novembro e Dezembro, onde um ciclo de jogos terrível, com Champions pelo meio, irá por à prova o conjunto de Jesus.
Com o tempo, perceberemos se o calendário é bom o mau. Por agora, é apenas…um calendário.
3.Domingo disputa-se a Final do Mundial. Desde 1930 que a história do futebol é escrita, em larga medida, pela pena desta competição. Pelé, Maradona, Eusébio e Cruyff tiveram, cada um, o “seu” mundial. Ainda não se sabe de quem será este.  Sabe-se, sim, que assistiremos a uma partida histórica. E espera-se que de nível qualitativo condizente com as dezenas de jogos que nos deliciaram ao longo do mês. Que ganhe o melhor!
4.Alfredo Di Stefano era o ídolo de Eusébio, e isso, por si só, representa muito daquilo que o hispano-argentino foi no futebol internacional. Paz à sua alma.

O REGRESSO DOS CAMPEÕES

Mesmo com o Campeonato do Mundo ao rubro, o regresso ao trabalho do plantel benfiquista não pode deixar de figurar no topo na nossa agenda desportiva.
Os Campeões Nacionais estão de volta.
Alguns – precisamente devido ao Mundial – só mais tarde serão integrados. Outros não regressarão ao Seixal. Entretanto, umas quantas caras novas despertam a curiosidade.
É pena ver partir elementos que se destacaram no histórico “Triplete”. Mas as leis do mercado são incontornáveis, e não podemos escapar-lhes.
Convém lembrar que só pudemos dispor de jogadores da categoria de Garay, Matic ou Rodrigo, porque entretanto vendemos David Luíz, Javi Garcia ou Di Maria. Agora, com a saída de craques com a cotação em alta, há que desenvolver novos activos, alimentando assim a cadeia de negócio que salvaguarda o equilíbrio financeiro da SAD. Havendo competência para escolher, e depois para valorizar, o modelo funciona. E, como recentemente comprovámos, dá títulos.
Outro vetor base é o da formação. Não pode haver competitividade apenas com formação, mas, na conjuntura actual, também não poderá haver equipa sem formação. Neste sentido acredito que alguns elementos da equipa B sejam promovidos ao plantel principal, e possam mais tarde ascender à titularidade.
Julgo ser importante manter o maior número possível de jogadores campeões, e assim garantir um fio condutor de coesão e mística. Já que a algumas propostas não podemos dizer não, a outras - para aqueles cujo pico de mercado já tenha passado (casos de Maxi, Luisão ou Cardozo), ou, pelo contrário, para os que esse pico ainda esteja por chegar (casos de Oblak ou Markovic) -, parece-me prudente resistir. Para além dos aspectos técnicos, há que preservar todos os laços criados no grupo por via das conquistas.
O próximo Campeonato é decisivo para a afirmação de um novo ciclo no futebol português, e nada pode ser deixado ao acaso. A estrutura do Benfica já deu provas da sua competência, e é garante de que o Benfica se apresentará forte, rumo ao “Bi”.

MAIS MUNDIAL


No momento em que escrevo estas linhas, as hipóteses de Portugal prosseguir a sua caminhada no Campeonato do Mundo são mais ou menos iguais às das Honduras.
O saudoso José Torres, em situação semelhante, pediu um dia que o deixassem sonhar. É o que nos resta. Porém, quando esta edição chegar às mãos do estimado leitor, o mais provável é que todo o país já tenha acordado para uma realidade amarga – embora não de todo inesperada.
Mas há mais Mundial para além de Ronaldo, Paulo Bento e lesões musculares. Grandes jogos, golos espectaculares, defesas impossíveis, futebol de ataque, e tudo aquilo que gostamos de ver, tem acontecido quase diariamente no certame brasileiro. Até agora, poderia mesmo qualificar este campeonato como o de maior qualidade das últimas décadas. Porventura, desde os tempos em que o romantismo mágico de Zico, Sócrates e Falcão cedeu a vez ao cinismo calculista de Rossi, Conti e Gentile, num Brasil-Itália que marcou um antes e um depois na história do desporto-rei. Estávamos em 1982.
Se quanto à qualidade de futebol as coisas têm corrido bem, já quanto às arbitragens não podemos dizer o mesmo.
Nunca defendi a introdução de meios tecnológicos que pudessem perturbar o ritmo dos jogos com pausas indesejáveis. Depois do que tenho visto nestas semanas, talvez não mantenha a mesma opinião. Rara tem sido a partida sem erros grosseiros de arbitragem. Juízes da Nova Zelândia, Gambia, Guatemala, Uzbequistão, Tahiti ou El Salvador – sem experiência recomendável para uma competição desta natureza –, e sem falar de outros que infelizmente conhecemos mais de perto, têm desvirtuado, e em alguns casos arruinado, aquilo que os jogadores tanto se vão esforçando por fazer em campo. Há selecções eliminadas por erros de arbitragem. Há selecções qualificadas com erros de arbitragem. Com optimismo, esperemos que na fase eliminatória o panorama melhore substancialmente, pois o futebol praticado tem feito por merecer. Caso contrário, a FIFA não poderá continuar a assobiar para o ar.

DE OITOCENTOS A OITO

Um penálti forçado a abrir o marcador; uma expulsão tão imprudente quanto exagerada; duas substituições por lesão; um golo nos descontos à saída para o intervalo; uma falta clara por sancionar, dentro da área adversária; uma falha clamorosa do guarda-redes a fechar as contas. Tudo isto aconteceu à nossa Selecção, na sua estreia no Mundial. Tudo isto aconteceu diante de uma das mais fortes candidatas ao título, que naturalmente soube aproveitar as circunstâncias para construir um resultado robusto. A agravar, também o desfecho do outro jogo do grupo pareceu encomendado pelo diabo, com um golo contra-corrente, já perto do fim, a desfazer o que seria um simpático empate entre Gana e EUA, logo a favor da equipa que defronta a Mannschaft na última jornada – com esta já previsivelmente qualificada. Pior era impossível. Como sempre acontece nestas ocasiões, as facas rapidamente saíram das bainhas, e o clima de histeria colectiva em torno de Ronaldo e seus pajens depressa se transformou numa caça às bruxas tão ao gosto de alguns comentadores do espaço mediático luso. Nem oitocentos, nem oito. É importante dizer que a equipa nacional não é candidata a nada que não seja ultrapassar a fase de grupos. E é também importante lembrar que esse objectivo está ainda sobre a mesa. Na verdade, Portugal dispõe de um super-jogador, mas em redor dele gira uma equipa mediana, porventura a mais fraca das últimas duas décadas. E nem adianta questionar as opções técnicas, pois as eventuais alternativas também não escapam à mediocridade. Perder com a Alemanha é um resultado natural – embora os números tenham sido particularmente estrepitosos. Ganhar aos EUA e ao Gana é uma possibilidade, à qual a “Equipa das Quinas” terá de se agarrar com unhas e dentes. Se algo correr mal, o mundo não acaba. O futebol tem a virtude de permitir sempre redenção, como pudemos vivenciar no nosso clube de 2013 a 2014. Talvez por isso se diga que está para além da vida e da morte. E é seguramente por isso que tanto nos apaixona.

OS NOMES DO SUCESSO


Mesmo com um Mundial à porta, não há benfiquista que não guarde o doce sabor de uma temporada histórica, coroada com a conquista de três troféus, e abrilhantada pela presença numa final europeia.
Se no calor da euforia nem sempre é possível avaliar com precisão todos os aspectos que pesaram em tão triunfante caminhada, agora, a frio, com algum distanciamento a ajudar, torna-se mais fácil identificar as razões, os momentos, e, também, os heróis, de uma saga inesquecível. 
É preciso dizer que estamos perante, não uma, mas duas temporadas absolutamente excepcionais da nossa equipa de futebol. Terminaram de forma distinta, é certo, mas se a sorte ou o azar podem ditar o destino final de qualquer jogo (com um penálti falhado, um remate fortuito, ou um golo nos descontos), só a competência e o trabalho rigoroso permitem manter, durante meses, um elevado nível competitivo - capaz de pôr os adeptos a sonhar com este mundo e com o outro.
Foi essa ideia que levou o Presidente Luís Filipe Vieira – de forma tão lúcida quanto corajosa - a decidir manter uma equipa técnica sob contestação, e foi aí que a história do sucesso começou a ser escrita.
Houve, porém, um segundo momento, a partir do qual a equipa se uniu, e acreditou que tudo lhe era possível. Inspirada por Eusébio, a vitória sobre o FC Porto, no final da primeira volta, virou os pratos da balança definitivamente a nosso favor. Se a manutenção de Jesus criou condições objectivas para vencer, aquela semana de Janeiro deu a união e a crença que sempre acompanham os campeões.
Luís Filipe Vieira, num primeiro plano de análise, e Jorge Jesus, logo atrás, foram pois os obreiros deste sucesso. Mas há que distinguir também aqueles que, em campo, interpretaram tão bem a mística benfiquista, e concretizaram em títulos os anseios de milhões de portugueses. Enzo Perez e Gaitán foram, no meu ponto de vista, os jogadores que mais brilharam durante estes meses. Um a equilibrar, outro a desequilibrar, foram eles as estrelas do Benfica 2013-14.

NOVO CICLO


A questão divide opiniões: pode um simples título, ou uma só temporada, determinar o início de um novo ciclo no futebol português? A resposta não é fácil. E, na verdade, a pergunta também não pode ser formulada deste modo.
Olhando de relance para as oito décadas de história que leva o campeonato nacional, podemos identificar alguns ciclos bem definidos, a par de algumas fases híbridas, de domínio repartido entre dois ou mais clubes. É fácil associar o final da década de quarenta, e o início dos anos cinquenta, ao Sporting dos “Cinco Violinos”. É igualmente linear o amplo domínio do Benfica de Eusébio, entre 1961 e 1975. De 1995 até 2009, foi o FC Porto a manter a hegemonia, não cabendo aqui dissecar os métodos pelos quais a atingiu.
Porém, para o espaço de tempo decorrido entre esses períodos, ninguém poderá cantar superioridade absoluta. Por exemplo, entre 1975 e 1995, Benfica e FC Porto venceram nove campeonatos cada um (o Sporting conseguiu dois títulos). Nesses vinte anos, tivemos um ciclo repartido, que sucedeu a um domínio benfiquista, e antecedeu a hegemonia portista.
Ora, o que as últimas cinco temporadas têm demonstrado – não somente pelos títulos, mas também pela força relativa das equipas – é precisamente um reequilibrar dos pratos de uma balança que há pouco tempo atrás pendia claramente para um dos lados. Em cinco épocas, o Benfica venceu dois campeonatos e ficou três vezes em segundo lugar, ao passo que o FC Porto venceu três campeonatos, quedando-se em duas ocasiões pelo terceiro posto da tabela. Em número total de pontos, a diferença é escassa, a favor do FC Porto. Em número de jornadas na liderança, a vantagem, também escassa, é benfiquista. Pode, assim, falar-se de equilíbrio.
É prematuro afirmar que estamos perante a alvorada de um ciclo de domínio encarnado (só um segundo título consecutivo poderia apontar nesse sentido), mas é um dado insofismável que o domínio absoluto do FC Porto já não existe.
Estamos pois num novo ciclo. Por agora…de equilíbrio.

COROAS E CARAS


Depois do Tri(plete) no Futebol, tivemos mais um Tri(campeonato) no Basquetebol, consumando uma temporada extraordinária da equipa de Carlos Lisboa.
Não temos culpa que outros não vão a jogo. O Benfica foi, venceu, convenceu, e muitas vezes encantou. Ganhou tudo o que havia para ganhar, não poupando esforços para aliar as vitórias ao espectáculo. Junta-se ao Futebol e ao Voleibol, no lote dos campeões nacionais de 2013-14.
Também o Atletismo teve um fim-de-semana em alta, tornando-se vice-campeão europeu de clubes. Padecendo de várias ausências por lesão, fazer melhor era impossível. A secção está de parabéns.
Já do Andebol não pode dizer-se o mesmo.  Com um plantel recheado de nomes sonantes, não conseguiu intrometer-se na luta pelo título, deixando um rasto de fracasso em todas as competições em que participou. Não foi apenas uma má época, mas antes a confirmação de um ciclo negativo, que não pode deixar de ter consequências. Ficar em quarto lugar, com uma percentagem de vitórias abaixo dos 70%, não é aceitável, nem está dentro dos parâmetros de exigência de qualquer conjunto de atletas que envergue a camisola do Benfica. Para este nível de resultados, e caso não haja capacidade de investimento com vista à total reformulação do plantel, talvez seja de promover uma aposta mais vincada em jovens da formação.
O Hóquei ficou fora da luta pelo título, tendo agora a Taça de Portugal para conquistar. Do Futsal, espera-se que neste fim-de-semana dê a volta ao resultado negativo trazido do Fundão. Estas duas modalidades ainda podem terminar a temporada em festa. Vamos acreditar.
O fim-de-semana passado foi também marcado pela final da Champions League no nosso estádio. Sendo motivo de orgulho, é também de registar o montante entrado nos cofres do Benfica. Lamenta-se, porém, que um evento desta natureza tenha sido promovido de costas voltadas para os portugueses, que tiveram de vê-lo pela televisão, pois nem um só bilhete foi vendido no país (pelo menos em circuitos oficiais).

LIMPEZA

Um árbitro particularmente tendencioso, e um guarda-redes particularmente inspirado, impediram o Benfica de alcançar a glória europeia que tanto fez por merecer. Turim não nos trouxe felicidade, mas é preciso dizer que não nos feriu o orgulho. Quem chega a uma grande final jamais sai derrotado. São necessárias muitas alegrias para passar por uma tristeza assim. Tantas quantas as eliminatórias vencidas, algumas com o perfume de grandeza que nos define perante a história. A desolação é maior pela força do hábito. São já alguns anos a cheirar o troféu. Duas finais consecutivas, ambas perdidas por detalhes. Uma meia-final inglória, também. Tudo em apenas quatro temporadas. Pode falar-se de azar. Pode falar-se de desencanto. Até de maldições. Nunca de fracasso. Antes de força. A força que nos fez lá chegar, e que nos faz acreditar que podemos lá voltar. Tivemos pouco tempo para carpir mágoas. No domingo seguinte, no belo palco do Jamor, os nossos heróis voltaram aos triunfos, derrotando o cansaço, e arrecadando um inédito triplete. Uma, duas, três! Não só foi limpinho, como foi…uma limpeza. Deixámos poucos argumentos à oposição. Ainda assim, com a sua inesgotável criatividade, lá conseguiram apregoar que o Benfica tinha obrigação de vencer o Rio Ave e erguer a Taça; que o orçamento o obrigava desde logo a ser campeão; que a Taça da Liga não interessava nada; que a Liga Europa, essa sim, desenhava a fronteira do sucesso; que o objectivo era a final da Champions League; tudo isto até à espantosa conclusão de que a época benfiquista nem tinha sido nada de especial. Talvez mesmo um pouco decepcionante - ou qualquer que seja a palavra que a imaginação quiser utilizar. Veja-se até onde a inveja os leva. Veja-se o quanto ela nos pode divertir. Vozes que não chegam ao céu à parte, importa agora que façamos deste um ponto de partida, e não de chegada. “Para o ano há mais”, foi o último grito que se ouviu nas bancadas do Jamor. É esse que nos deve ficar no ouvido. 2014-2015 começa já.

HÁ FESTA NO JAMOR

Termina este domingo uma das temporadas futebolísticas mais empolgantes da história centenária do Sport Lisboa e Benfica. Independentemente do que possa ter sucedido em Turim (escrevo, carregado de ansiedade, antes de o saber), o Benfica entrará em campo, no Jamor, com a possibilidade de alcançar uma inédita “tripleta” de competições nacionais – Campeonato Nacional, Taça de Portugal e Taça da Liga -, à qual juntará, no mínimo, uma honrosa presença em final europeia pelo segundo ano consecutivo; e no máximo, a primeira Liga Europa do seu historial. Caso, como espero e desejo ardentemente, estas duas conquistas se concretizem, então estaremos a falar da melhor época de todos os tempos. Sim! De todos os tempos! No momento em que escrevo, as expectativas benfiquistas situam-se, pois, entre o muito bom (dois troféus, entre eles a prioridade número um), o excelente (três troféus), e o esplendoroso (poker de taças, com possibilidade de lhes juntar mais duas já em Agosto, e assim tocar nos céus). Neste contexto, a Final do Jamor é a ocasião magna para prestarmos tributo a uma fantástica equipa de futebol, que já na temporada anterior nos havia feito sonhar, e agora concretizou (pelo menos em parte, acredito que na totalidade) esses sonhos. A tradição que envolve esta prova, o seu belíssimo palco, e o facto de a mesma encerrar a época (a nível de clubes), são condimentos para um dia de festa, de fervor clubista, e, creio, também de absoluta glória. Nunca, nos meus 44 anos de vida, senti um Benfica tão forte e tão pujante em todas as suas vertentes. Falo de futebol, mas falo também de veículos de comunicação, de infra-estruturas, de formação, de eclectismo, de modernização empresarial e administrativa, de associativismo, de prestígio nacional e internacional, de respeito pela história… enfim, de tudo. Estamos num plano elevadíssimo, e é nele que gostamos de estar. Mas tenho a certeza que aqueles que nos conduziram até aqui, não vão querer parar. O céu é o limite. Vamos a isso!

O JOGO DA NOSSA VIDA

Não cheguei a tempo de ver Eusébio, Coluna ou José Águas. Nem a minha, nem as gerações posteriores – nem mesmo as imediatamente anteriores – viram o Benfica erguer um troféu europeu, excepto em fotografias ou vídeos, quase sempre a preto e branco. Recordo, sim, o amargo empate caseiro com o Anderlecht em 1983. Recordo, também, o fatídico penálti de Veloso, e as lágrimas incontidas em 1988. Recordo, ainda, o super-Milan de 1990, e o golo de Rijkaard que nos liquidou a esperança. Tenho bem presente o terrível Maio de 2013, que por enquanto ainda me vai atormentando a alma. De finais perdidas, penso já ter a minha conta. Na próxima quarta-feira, em Turim, o Benfica tem nova hipótese de desafiar a história, e de enterrar velhos fantasmas. Acredito que não seja a última. Mas esta tem a singularidade de nos fazer acompanhar de algum favoritismo. Ou, dito de outro modo, de participar numa final europeia, não para a jogar, mas sim para a ganhar. Ninguém pense, todavia, que as favas estão contadas, e os noventa minutos se resumem a uma formalidade prévia à entrega da taça. Lamento, mas é preciso lembrar que podemos perder. Trata-se de um jogo, contra uma excelente equipa, formatada à medida de uma das mais competitivas ligas do mundo, transportando um sonho igualzinho ao nosso. Também eles ficaram felizes ao ver a toda-poderosa Juventus eliminada da “sua” final. Também eles estarão optimistas. E, já agora, foram eles que venceram este mesmo troféu em 2006 e 2007. Tenho a certeza que os nossos profissionais estão despertos para toda a envolvência competitiva e emocional da ocasião. Sabem aquilo que ela representa, quer para eles, quer para o universo benfiquista. Conhecem os seus limites e as suas potencialidades. Precisamos também que a sorte - que tão mal nos tratou há um ano atrás - queira, desta vez, recompensar-nos com a dose que sempre alimenta os campeões. Se tal acontecer, far-se-á história. E 14 de Maio de 2014 será então o dia pelo qual esperámos uma vida inteira.

VERMELHO VIVO

A festa foi bonita. O 33º título de campeão nacional já consta do nosso palmarés, não havendo quem conteste a justiça do triunfo. O Campeonato Nacional foi sempre definido, e bem, como o principal objectivo da temporada. Por diferentes motivos, escapara-se-nos das mãos nas derradeiras curvas das duas épocas anteriores – na última das quais de forma particularmente dolorosa. Agora, somos Campeões. Por mérito próprio, com larga vantagem sobre a concorrência, e apesar de uma inusitada praga de lesões que foi afligindo o plantel do início ao fim da prova. Após três anos, o futebol fez justiça aquela que é, e tem sido, a melhor equipa portuguesa, pelo menos desde 2011. Nestes momentos, é oportuno identificar os principais obreiros da conquista. À cabeça de todos, há que destacar o Presidente Luís Filipe Vieira. A aposta na estabilidade, na ressaca de um mês de sucessivas e traumáticas derrotas, revela a capacidade de liderança daqueles que sabem ver para além da espuma dos dias. O nosso Presidente resistiu a todas as pressões, não cedendo um milímetro nas convicções que tinha acerca daquilo que entendia ser o melhor para o Clube. Saudei a sua decisão na altura. Já então me parecia ser a mais ajustada, após uma temporada que, mesmo carregada de tristeza, nos havia permitido sonhar tão alto. Será muito difícil vencer a Liga Europa. É certamente um sonho, até um objectivo, mas jamais poderá ser uma exigência. Entalada entre os jogos com a Juventus, encaro a meia-final da Taça da Liga com desejos de vitória (até pelo nome do adversário…), mas também com expectativas moderadas. Há porém um troféu que entendo não poder escapar-nos novamente: a Taça de Portugal. Só uma vitória no Jamor poderá enterrar definitivamente os fantasmas de há um ano atrás. Anseio por quatro troféus, e pela melhor época de sempre do Glorioso. Mas, enquanto sócio e adepto, apenas exijo a estes fantásticos jogadores uma vitória sobre o Rio Ave, e o erguer da taça que Eusébio e Coluna tantas vezes conquistaram.

ACENDA-SE A LUZ

Domingo de Páscoa pode trazer-nos a amêndoa mais desejada da temporada desportiva. Há já várias semanas que se anuncia. Mas agora sim. Agora o título está por perto, à distância de uma simples vitória, em nossa casa, perante o último classificado. Domingo pode, pois, ser o dia D. O dia da festa, mas também o dia que nos irá ressarcir do doloroso sofrimento vivido na época transacta, quando, estupidamente, nos vimos afastados da consagração que a nossa equipa já então fazia por merecer. Passou-se quase um ano. Estamos novamente a um pequeno passo do título nacional, e voltamos a viver um bonito sonho europeu. Aí, fora de portas, as coisas não são tão simples. Pela frente estará uma das melhores equipas do mundo da actualidade. Não temos a sorte de outros, que partilham finais europeias com Mónacos, Celtics ou Bragas – adversários contra os quais as finais são, efectivamente, para ganhar. Frente à “Vecchia Signora”, não somos favoritos. Porém, esperamos um Benfica confiante nas suas potencialidades, humilde mas não reverente, e entusiasta perante nova possibilidade de chegar aos céus. Eu acredito! Acreditemos todos! Independentemente do desfecho final, a nossa equipa de Juniores merece, também ela, destaque maior. Ser vice-campeão europeu não é para qualquer um. Ultrapassar Paris Saint-Germain, Manchester City e Real Madrid, também não. Aliás, é importante lembrar que o nosso futebol de formação comanda todos os campeonatos nacionais que disputa. O sucesso da formação já não é um monopólio dos nossos vizinhos e rivais. Tê-lo-á sido, no passado. Mas estou convicto que o futuro próximo virá pintado a vermelho e branco. Uma palavra final para o Hóquei em Patins, e a extraordinária remontada conseguida perante os espanhóis do Réus. Nova “Final-Four” atingida, e, quem sabe, a repetição de um grandioso triunfo internacional. Tudo é possível. Tanta coisa a aquecer-nos a alma benfiquista. Tantos pratos sobre a mesa. Comecemos já neste domingo. Luz para o título. Luz para a festa.

RUMO À GLÓRIA

Duas vitórias, seis pontos. É o que necessitamos para garantir o título. Parece pouco. Pode até ser pouco. Mas ainda falta esse “pouco” para soltarmos foguetes, e fazermos a tão desejada festa. O calendário é favorável? E que dizer da época passada, quando bastava vencer, na Luz, as duas equipas que haviam subido à 1ª Liga? Não é fácil lembrar, mas não podemos esquecer. Digamos que um Benfica à imagem daquele que temos visto nos últimos três meses (inspirado por Eusébio e Coluna), chegará, e sobrará, para ultrapassar os obstáculos que ainda tem por diante, alcançando com segurança o principal desiderato da temporada. Mas esse Benfica tem de se manter vigilante, tem de jogar, e tem de ganhar, sabendo que do outro lado estão conjuntos necessitados de pontos, e sabendo que um eventual percalço pode fazer ressuscitar velhos fantasmas - enervando os nossos, e estimulando rivais. Que temos a melhor equipa portuguesa, ninguém ousa negar. Aliás, já a tínhamos em 2011-12, e em 2012-13. Dos últimos sessenta jogos a contar para o Campeonato Nacional, apenas perdemos dois. Em toda a era Jorge Jesus, só em 2010-11 não fomos os melhores. Agora, além de melhores, temos de ser também primeiros. Temos de nos manter primeiros. No momento em que escrevo, desconheço o desfecho da eliminatória europeia. Hoje mesmo, será dia de sorteio. De uma, e de outro, dependerão as aspirações que ainda podemos ter fora de portas. Na quarta-feira joga-se a Taça – que nos foge desde 2004. Espera-se um Benfica à Benfica, capaz de ultrapassar um adversário revitalizado, e um resultado negativo trazido da 1ª mão. Estamos em dívida para com a Taça de Portugal. Precisamos de ir novamente ao Jamor, desta vez para empurrar a fatalidade, e trazer o troféu. E ainda há a Taça da Liga. Muita coisa está, pois, sobre a mesa. A época está longe de terminar. Queremos fazer mais onze jogos. Todos os jogos. Todas as finais. E ganhá-las. O grande Benfica que temos no presente, merece a glória que já teve no passado. E vai tê-la.

COMPETÊNCIA À PROVA DE TÍTULOS

Quando, em Maio do ano passado, contrariando opiniões oriundas dos mais diversos quadrantes internos e externos, bem ou mal intencionadas, Luís Filipe Vieira decidiu, convictamente, renovar contrato com o treinador Jorge Jesus, afirmou também que pretendia uma temporada igual à anterior, mudando apenas o desfecho final. É verdade que ainda não ganhámos nada. Mas estamos em pleno mês de Abril, e podemos já dizer que, independentemente do desfecho das várias competições que disputamos, a época 2013-14 está, de facto, a ser muito semelhante à anterior. Semelhante na força competitiva da equipa, semelhante na qualidade de futebol apresentado, semelhante nas esperanças que nos vai abrindo no horizonte. Estamos destacados na liderança da classificação, mantemo-nos firmes em todas as provas, sonhamos vencer tudo, ou quase tudo. Falta, “apenas”, o final diferente. É preciso dizer que, com Jorge Jesus ao leme, o Benfica realizou as melhores cinco temporadas das últimas décadas. Não se trata de uma opinião. São factos, que podemos comprovar olhando para a pontuação dos vários campeonatos desde o início dos anos noventa. Sem interferências externas em 2012, e com um pouco mais de sorte em 2013, estaríamos agora a bater-nos pelo “Tri”. O que, diga-se, faria justiça a todo um trabalho que começa nas condições criadas pela administração, acaba no valor e empenho dos jogadores, mas passa, também, pela indiscutível competência de um técnico nem sempre bem entendido por todos. Importa ainda lembrar que, em 2009, ocupávamos um discreto 23º lugar no ranking da UEFA, e neste momento estamos numa brilhante 6ª posição, apenas superados por Barcelona, Bayern, Real Madrid, Chelsea e Man.United. Nestas cinco temporadas chegámos sempre, pelo menos, aos quartos-de-final de uma prova europeia – sequência inédita na história internacional do clube Há momentos em que é fácil decidir. No rescaldo da dramática primavera de 2013 não o era. E é nas horas difíceis que se encontram os verdadeiros líderes.

A VOZ DA SERPENTE

“Águia voa para o título”, “Perto do Céu”, “Festa Rija”, “Campeão à vista”. Estes são alguns dos cabeçalhos que pudemos ler em diários desportivos nos últimos tempos. Paralelamente, nas televisões, comentadores mais ou menos isentos atribuem o Campeonato ao Benfica como se a respectiva conquista se tratasse de uma mera formalidade. A tal ponto que a partida entre Sporting e FC Porto foi abordada por muitos como uma simples luta pela segunda posição. Isto passa-se há já várias semanas. Porém, se o Benfica não tivesse ganho os jogos que entretanto foi disputando, nesta altura já nem sequer estaria no primeiro lugar da tabela classificativa. Provavelmente, era essa a intenção de tão vistoso foguetório. Não nos deixemos iludir. Juntamente com uma campanha de pressão, condicionamento e coacção de árbitros, existe uma outra que visa o adormecimento da nossa equipa. Sem ponta de inocência, os nossos adversários tentam, de uma penada, alimentar o deslumbramento da família benfiquista, e criar condições para, ao mais pequeno deslize, derramarem sobre nós o ónus desse mesmo deslumbramento – à semelhança do que fizeram na época passada, a propósito dos festejos de uma simples vitória no Funchal. Faltam seis jornadas para terminar o Campeonato Nacional, e, caso cheguemos às Finais de todas as provas em que estamos inseridos, faltarão ainda quinze jogos para concluir a temporada futebolística. Muitos jogos. Muitas dificuldades. Muitos perigos. Demasiados perigos! Em Maio do ano passado faltavam apenas três partidas para erguer três troféus. Sabemos o que aconteceu. Ninguém nos convencerá agora que, com quinze longas e duras batalhas pela frente, poderemos baixar as guardas e dar o sucesso por adquirido. Não! Ainda não ganhámos nada! E se pensarmos o contrário, corremos sérios riscos de repetir dramas passados, satisfazendo a ânsia dos rivais. A “guerra” trava-se jogo a jogo, e só no fim se fazem as contas. Até que a matemática dite leis, a mínima dose de triunfalismo poderá ser fatal.

OS BONS DA FITA

Nem um golo que ninguém viu, nem um penálti teatralizado por Capel (ambos no jogo de Setúbal), impediram as hostes sportinguistas de passar uma semana inteira a coagir os árbitros, vitimando-se até à náusea, numa prática que tem sido imagem de marca do clube de Alvalade. O folclore é habitual, mas já era tempo de todos os agentes (sobretudo árbitros, mas, também, comunicação social) o reconhecerem, reduzindo-o à sua real insignificância. Infelizmente, não só um corrupio de comentadores logo se dispôs a assegurar que sim – que o Sporting tem sido “o mais prejudicado” -, como as arbitragens da jornada seguinte vieram confirmar o velho ditado popular segundo o qual: “quem não chora, não mama”. Eis que o clube do luto, dos comunicados, dos movimentos “basta”, das montras de talho partidas, e dos depósitos na conta bancária de fiscais-de-linha, ganha com um golo irregular, vê um penálti por assinalar na sua área, e assiste à expulsão injusta de um jogador adversário - tudo compondo uma espécie de evangelho segundo Proença. No outro campo onde se jogava para o título, um árbitro que entretanto viu ameaçados os seus bens e a sua família, tendo sido ferozmente acusado de “benfiquismo” pelo próprio presidente do Sporting, rapidamente se apressou a demonstrar uma estranha “isenção”, assinalando um penálti inexistente aos cinco minutos de jogo, e poupando a expulsão de um jogador madeirense pouco tempo depois. Não sei como vai a contabilidade de Bruno Carvalho quanto a pontos ganhos e perdidos. Assim de repente, recordo-me do empate no “dérbi” da primeira volta com um golo em fora-de-jogo de Montero, e um penálti por marcar sobre Cardozo; de golos irregulares em Coimbra e em Olhão; de um penálti fora …do campo, contra o Belenenses; de outros penáltis inexistentes em Alvalade, contra V.Setúbal e Marítimo; para além dos já mencionados benefícios das duas últimas jornadas. Quantos pontos aqui vão? …é fazer as contas. Será que, perante tudo isto, não podemos também nós dizer “basta”?

AO RUBRO

A jornada deste fim-de-semana pode dizer muito acerca do futuro do Campeonato. Estamos na frente, e os dois principais perseguidores jogam entre si em Alvalade. Pelo menos um deles perderá pontos, mas isso só nos trará benefícios se vencermos a difícil batalha da Choupana. Difícil por várias razões: - Antes de mais, pelo valor do adversário, que é, indiscutivelmente, uma das melhores equipas da Liga, orientada por um técnico que, desde há largos anos, mantém uma certa rivalidade com o nosso; - A deslocação envolve uma sempre desgastante viagem de avião, tão só algumas horas depois de uma outra; - O estádio do Nacional é tradicionalmente difícil, quer pelas dimensões, quer pela altitude, quer pelo clima, e ainda na temporada passada lá deixámos dois pontos; - Não contaremos com Fejsa, elemento chave no meio-campo encarnado; - O jogo surge entalado a meio de uma muito exigente eliminatória europeia, e sabemos bem o quanto isso normalmente pesa nas pernas… e na cabeça, de alguns jogadores; - A vantagem pontual obtida nas anteriores jornadas é susceptível de causar algum deslumbramento; - Last but not least, veremos quem é, e como se comporta, o árbitro de uma tão importante partida. Se conseguirmos ultrapassar todos estes circunstancialismos, vencermos o Nacional, e, paralelamente, tivermos boas notícias de Alvalade (um empate?), não ficando o Campeonato desde logo resolvido, as contas do mesmo ficarão muito bem encaminhadas, e a vantagem pontual permitirá até algum risco, com vista a uma aposta forte nas outras provas que ainda disputamos. Ao invés, um resultado negativo na Choupana pode deixar-nos novamente à mercê do segundo classificado, sabendo-se que ainda temos deslocações a Braga e ao Porto, entre outros difíceis compromissos. Os dramas do ano passado ainda estão bem presentes na nossa memória. Só com o pássaro na mão poderemos cantar vitória. Mas é de jornadas com esta que a decisão final se alimenta. E isso terá de estar na mente de todos aqueles que entrarem em campo.

PARA ALÉM DO FUTEBOL

As modalidades do Benfica estão bem e recomendam-se. Decorrida parte significativa das temporadas regulares, todas elas se mantêm firmes na luta pelo topo das respectivas classificações, exibindo uma impressionante percentagem de vitórias (86%). A título de exemplo, e servindo de referência, poderemos aferir que a percentagem de triunfos no Futebol – também ele, como sabemos, a fazer uma excelente época – anda pelos 77%. Acresce que, quer Voleibol, quer Basquetebol, quer Atletismo, quer, sobretudo, Hóquei em Patins, já conquistaram troféus em 20013-2014. Certamente não serão os únicos, nem os últimos. Voleibol e Basquetebol são, de resto, aqueles que apresentam números mais significativos: além de liderarem, isolados os seus campeonatos (confirmando o favoritismo), somam, em conjunto, 48 vitórias em 51 partidas oficiais realizadas. O Hóquei, por seu lado, venceu dois importantes troféus internacionais, sagrando-se Campeão do Mundo. Enfrentou algumas dificuldades intra-muros, mas conseguiu manter as portas abertas para o título. Também na Euroliga tem dado cartas, vencendo facilmente o seu grupo, e tendo todas as possibilidades de chegar novamente à “Final-Four” da competição. O Andebol está apenas a um ponto do 1º lugar, à entrada para a segunda, e decisiva, fase do campeonato. É altura de mostrar a raça benfiquista, e recuperar um título que nos escapa desde 2008. Já o Futsal tem tido os altos e baixos que seriam de esperar numa temporada de transição, em que saíram e entraram vários jogadores. Tudo se decidirá no Play-Off, momento em que, certamente com a máquina já bem oleada, os encarnados estarão na luta pelo triunfo. Se, além de tudo isto, acrescentarmos que o nosso clube ainda se mantém em todas as cinco Taças de Portugal em questão, que o Atletismo já venceu Estrada e Pista Coberta, e que nos sectores feminino e de formação todas as ambições são ainda legítimas, podemos ter esperança numa grande temporada à Benfica, seja nos relvados, nos pavilhões, ou nas pistas.

PÉS NO CHÃO

Nenhum benfiquista esquecerá tão cedo aquele terrível mês de Maio de 2013, no qual, em poucos dias, perdemos tudo aquilo que ambicionávamos vencer, e que o futebol praticado pela equipa bem fizera por merecer. Na altura, bastava-nos ganhar na Luz às duas equipas provenientes do segundo escalão (Estoril e Moreirense), para matematicamente selar o título. Estávamos, vinte e três anos depois, numa final europeia. Estávamos, oito anos depois, numa final da Taça, para a qual éramos unanimemente considerados favoritos. Perdemos tudo. Com esta memória ainda bem viva, não serão certamente os cinco pontos de vantagem (cinco, e não sete…), a dez longas jornadas do fim do Campeonato (envolvendo deslocações à Choupana, a Braga e ao Dragão, por exemplo), que nos irão tirar o discernimento, ou fazer embandeirar em arco. Depois dos traumas da temporada anterior, só mesmo a matemática nos fará festejar. Até lá, há que manter a concentração, a união em torno da equipa e de todos os que a rodeiam, e a noção bem clara de que, em cada jogo, em cada treino, em cada disputa de bola, estará a chave que pode abrir as portas ao nosso sonho. O Benfica tem a melhor equipa? Claro que tem, tal como na época passada já tivera. O Benfica pratica o melhor futebol? Claro que pratica, tal como na época passada praticara. O Benfica merece ser campeão? Claro que merece, tal como na época passada merecera. Porém, todas estas evidências não valerão absolutamente nada se, à 30ª jornada, no dia 11 de Maio, não tivermos mais pontos que qualquer outra equipa na tabela classificativa. No Restelo, temos a primeira das dez finais ainda por disputar. Daqui em diante, a pressão vai crescer, o empolgamento dos adversários também, havendo que contar com as habituais influências externas - que sempre se fazem sentir nos momentos mais críticos. Teremos de estar preparados para tudo. O combate por este título é demasiado importante para permitir desatenções. Com confiança, mas sem triunfalismos: Todos por um! Todos pelo título!

ESCOLHAS

Não existem muitos clubes na Europa que, nesta altura da temporada, mantenham ambições em quatro frentes distintas. Ocorrem-me apenas Manchester City e FC Porto, sendo que nenhum deles lidera o respectivo campeonato. O Benfica, não só comanda o campeonato, como está presente nas meias-finais de Taça de Portugal e Taça da Liga, e ainda alimenta esperanças na Liga Europa. Isto constitui motivo de orgulho para todos nós, mas traz ao treinador um desafio suplementar: como gerir o plantel mantendo idêntico grau de competitividade em todas as partidas até final da época? É preciso lembrar alguns dos motivos que levaram o Benfica a perder os dois últimos campeonatos. Em 2011-12 tivemos razões de queixa da arbitragem, mas não foi por acaso que perdemos oito pontos entre os dois jogos da eliminatória com o Zenit, e perdemos mais cinco nas imediações do confronto com o Chelsea. Em 2012-13, entre a 2ª mão da meia-final com o Fenerbahce, e a final com o Chelsea, disputámos dois jogos intramuros, com Estoril e FC Porto, e com os resultados que ainda ninguém terá conseguido esquecer. Estes dados parecem suficientes para estabelecer um padrão. As boas caminhadas internacionais têm um preço bastante elevado em termos domésticos, e se o Benfica chegou ao sexto lugar do ranking da UEFA, há que dizer que o conseguiu à custa de derrapagens comprometedores na principal competição nacional. Noutras circunstâncias poderia até nem ser assim, mas neste momento penso que todas as energias devem estar concentradas num campeonato que não nos pode escapar. Deste modo, creio que a Liga Europa, pelo desgaste físico e emocional que acarreta, terá de ser disputada com ambições moderadas. André Almeida, Jardel, Sílvio, Sulejmani, Djuricic, Ivan Cavaleiro, Ruben Amorim ou André Gomes, são jogadores que dão garantias, merecem um palco digno, e deixarão tudo em campo a cada ronda europeia a que tivermos a felicidade de chegar. Às quintas-feiras jogamos o orgulho, mas aos domingos teremos de jogar a vida.

OS MEIOS E OS FINS

O futebol de Formação é um tema querido à generalidade dos benfiquistas. Estamos a falar de jovens, na sua maioria portugueses, que vivem o clube intensamente, e sonham vestir o Manto Sagrado nos principais palcos do futebol nacional e internacional. A paixão do seu sonho entrecruza-se com a própria paixão do adepto, o que estimula a nossa mais viva simpatia. Porém, independentemente dos votos de sucesso que façamos para as suas carreiras, importa sobretudo saber de que forma podem, ou devem, estes jovens alimentar a equipa principal. Ou seja, qual a estratégia capaz de maximizar resultados – em primeiro lugar desportivos, e depois financeiros (sendo que estes são função daqueles). Neste âmbito, há algo que nunca podemos perder de vista: o objectivo do Benfica é “apenas” conquistar títulos. Se, para isso, a Formação contribuir com alguns atletas, tanto melhor. Caso contrário, não podemos subverter prioridades, nem deixar de ser competitivos em função de qualquer idealismo ou utopia. Convém também lembrar que, desde os tempos de Rui Costa, não mais vimos qualquer produto das escolas encarnadas como titular indiscutível na equipa principal; e que, à excepção do Barcelona (cujo sumptuoso orçamento permite manter todas as estrelas que fabrica), não existe outro exemplo europeu de sucesso na correlação entre Formação e títulos ao mais alto nível. Até porque, por mais qualificado que seja trabalho desenvolvido nesta área, não havendo talentos… nada feito – e, há que o dizer também, a árvore do futebol português vive uma fase de muito poucos frutos. O futuro próximo, e as limitações financeiras que ameaçam todos os clubes, podem ditar a necessidade de uma aposta crescente na Formação, em detrimento do investimento exterior. Devemos, pois, estar preparados para enfrentar essa realidade. De resto, com essas ou outras imposições de contexto, jogue Markovic ou André Gomes, o que me interessa é que o Benfica seja campeão, e tenha a melhor equipa que as suas possibilidades permitam.

UM DÉRBI, DUAS DÚVIDAS

Domingo é dia de “Dérbi” lisboeta, e, à tradicional interrogação que a ocasião sempre colocou – quem irá vencer? -, os últimos anos têm trazido uma outra, capaz de despertar quase tanta curiosidade como o próprio resultado do jogo: que queixas irá o Sporting trazer em caso de derrota? Na verdade, nos tempos mais recentes, sendo difícil encontrarmos uma vitória do Sporting sobre o Benfica, é quase tão difícil recordarmos uma derrota leonina sem um consequente desfilar de acusações relativas à arbitragem, e a todos os aspectos paralelos que possam de algum modo servir de cortina de fumo, e impedir a atribuição de qualquer dose de mérito ao odiado rival. Por mais insignificante que seja, lá encontram sempre um motivo. De uma gota de água (que tanto pode ser um lançamento lateral com um piton milimetricamente acima da relva, como um relógio dois minutos atrasado, ou um alegado penálti que nem à sétima repetição televisiva parece claro), fazem uma tempestade, contando para isso com um alinhado exército de comentadores televisivos, e com a complacência de redacções simpáticas – que conferem ao Sporting um peso mediático que vai muito para além da sua real dimensão social. Não sei o que sucederia no país desportivo se, um dia, o Sporting perdesse um campeonato com um golo tão irregular como o que Maicon apontou na Luz há dois anos atrás. Ou sofresse, em jogo decisivo, um pénalti em lance idêntico ao de Yebda e Lisandro Lopez, em 2009 - ambas as situações tendo Pedro Proença como protagonista. Por muito menos, já vimos reacções absolutamente esquizofrénicas vindas dos lados de Alvalade. Bom seria que tão ruidoso folclore voltasse a animar jornais e televisões, pois seria sinal de estarmos perante mais uma vitória do Benfica, e correspondente azia sportinguista. O fim-de-semana passado foi muito duro. Mas nada como o velho “Dérbi” (e, já agora, com uma arbitragem melhorzinha que a da primeira volta) para resgatar o orgulho ferido por um maldito penálti desperdiçado aos 94 minutos.

RESISTIR

Estamos a 31 de Janeiro, e até às doze badaladas da meia-noite, a angústia ocupará os nossos espíritos. Alguém deixará o plantel? Como ficará a equipa? Como ficarão os adversários? Quem sairá mais enfraquecido desta espécie de roleta de Inverno? E a Turquia? E a Rússia? E os árabes? Ainda estarão abertos a negócios? Até quando? Porquê? Não me recordo de quem partiu a infeliz ideia de abrir o mercado de transferências de jogadores em plena competição. Mas partiu, seguramente, de alguém que gostava pouco de futebol. Se o calendário de Verão já oferece muitas dúvidas (sobretudo pelo seu encerramento tardio), esta “janela” de Janeiro é uma verdadeira monstruosidade. Porém, ela existe, pelo menos até ao dia em que, para além de recolher os ovos de ouro, os agentes interessados se lembrem também de cuidar da galinha que os põe. Entretanto, e com o entusiástico suporte da comunicação social, assistimos, durante semanas a fio, a uma hemorragia noticiosa – coberta de falsidades, pressões, interesses, e jogadas de bastidores típicas desta espécie de off-shore global em que se transformou o mundo da bola - que deixa as equipas expostas à incerteza, quando não a vulnerabilidades desportivas inesperadas, justamente na fase da temporada em que a estabilidade tem um preço mais elevado. É injusto pedir a qualquer treinador que forme um conjunto, mantenha automatismos, e incremente uma dinâmica ganhadora, quando, num ápice, em momento chave, vê sair porta fora alguns dos mais valiosos elementos da sua equipa. E, pior que isso, vê outros permanecer contrariados, perante o aceno de agentes parasitários, para quem o futebol se tornou terreno fértil para dinheiro fácil. Poucos estão a salvo. Apenas os financeiramente mais poderosos, sendo aqui o futebol uma perfeita metáfora da própria vida. Situado num país periférico, o Benfica não escapa a estas ameaças. É forçado a enfrentá-las, e por vezes a ceder-lhes. Que a meia-noite chegue depressa. Que o mercado feche a porta. Que o futebol resista.

À HORA CERTA

Sou do tempo em que as tardes de domingo eram sinónimo de futebol. A jornada começava integralmente às 15.00 horas, e terminava às 17.00 horas. No horário de Verão, acrescentava-se uma hora. À noite viam-se os resumos, já no conforto do lar, preparando uma semana de trabalho ou de escola, conforme o caso. A partir da década de noventa, as transmissões televisivas foram afastando o futebol do seu horário natural, afastando, com isso, o povo dos estádios. Talvez fosse esse o intuito daqueles a quem convinha que a estrutura de receitas dos clubes ficasse cada vez mais dependente do cachet televisivo, tolhendo-lhes assim a capacidade negocial, numa relação de poder que se foi tornando cada vez mais assimétrica. Ao passo que nas principais ligas europeias continuámos a ver as principais partidas disputadas à luz do dia, em Portugal quase todos os jogos foram progressivamente empurrados para horário nocturno - por vezes aos sábados, mas também aos domingos, e até às segunda-feiras. Lá fora, estádios cheios. Cá dentro, bancadas tristes e despidas. Lá fora, sustentabilidade financeira. Cá dentro, operadores televisivos ricos e clubes falidos. No caso do Benfica, tratando-se de um emblema com implantação de norte a sul do país, parte significativa dos sócios e adeptos viu-se impedida de se deslocar à Luz. Para quem resida, por exemplo, em Viseu, Guarda, Bragança ou Faro, sair do estádio às 23.00 horas, e ainda ter de suportar uma longa viagem, não pode deixar de ser um exercício penoso, sobretudo se no dia seguinte houver que trabalhar bem cedo. O regresso do futebol às tardes de domingo (ou de sábado) é pois uma excelente notícia que esta temporada trouxe aos benfiquistas. Principalmente àqueles que vivem fora de Lisboa, e para quem ao próprio jogo há que acrescentar a duração da viagem de regresso a casa. Vicissitudes várias talvez ainda não tenham permitido que tal se reflicta com firmeza no número de espectadores no estádio. Mas o tempo irá seguramente dar razão a esta aposta.

DESTE MUNDO E DO OUTRO

1. Eusébio merecia. O Benfica, e os benfiquistas, estiveram à altura da ocasião. Não terá sido uma partida excepcional sob o ponto de vista técnico, mas foi uma grande tarde de futebol, com estádio cheio, muito entusiasmo, emoção a rodos, bons golos, desportivismo dentro e fora do campo, e uma grande vitória do Glorioso. É justo dizer-se que também os adeptos do clube rival, na sua maioria, souberam comportar-se com dignidade, respeitando a memória do Rei, e contribuindo para a fantástica atmosfera que este jogo – devolvido ao horário nobre do futebol – proporcionou. A nossa vitória foi justíssima. Podia até ter sido mais ampla, dada a demonstração de superioridade que o conjunto encarnado foi capaz de exibir ao longo dos noventa minutos. Não enchendo o olho, o Benfica deixou claro que tem a melhor equipa do panorama nacional, sendo, nesta altura, o mais forte candidato ao título. Conquistámos apenas três pontos. Na tarde do próximo domingo estarão em jogo mais três. Faltam ainda quinze finais, e em cada uma delas será necessário repetir o empenho dentro do campo, e o apoio nas bancadas. Se tal acontecer, em Maio a festa será nossa. 2. Cristiano Ronaldo venceu a Bola de Ouro da FIFA pela segunda vez. Trata-se de um reconhecimento justo pelo seu desempenho ao longo do ano de 2013, em que foi efectivamente o melhor. As comparações com Eusébio são dispensáveis, pois não acrescentam nada a um ou a outro - ambos estrelas planetárias, cada qual a seu tempo. Bom seria, isso sim, que noutros sectores de actividade o nosso país mostrasse ao mundo tão eloquentes representantes. Eusébio no Benfica, Cristiano Ronaldo no Manchester United e no Real Madrid, ambos na Selecção Nacional, alcançaram um nível apenas ao alcance de um estrito lote de predestinados. Juntamente com Di Stefano, Pele, Maradona, Cruyff e Messi, fazem parte integrante da história do futebol. Oxalá o Mundial do Brasil consagre definitivamente Ronaldo, tal como o Mundial de Inglaterra consagrou Eusébio.

O NOSSO REI

Sabíamos que um dia teria de acontecer. Porém, nunca estamos devidamente preparados para ver partir aqueles que nos são queridos. Achamos sempre cedo demais, mesmo quando o tempo vivido foi suficiente para deixar uma marca profunda. Eusébio deixou uma marca profundíssima, quer no Benfica, quer no país. Pelo talento que fez dele um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, e também pela dimensão humana que sempre soube aliar ao sucesso que atingiu. Foi a conjugação dessas duas vertentes que o transformou numa lenda. É esse traço incomum que não deixa espaço a quaisquer comparações, podendo, e devendo, servir de exemplo a todos – dentro ou fora do desporto. Eusébio é Benfica escrito com sete letras diferentes. É, e sempre será, o nosso supremo Rei. Não foi ele que criou o clube, mas foi ele que criou o clube grandioso que a minha geração herdou. Um mero olhar estatístico permite facilmente reconhecer um Benfica antes, e outro depois, do Pantera Negra. Infelizmente, já não cheguei a tempo de o ver jogar ao vivo. É algo que lastimo, e que, confesso, me faz sentir de certa forma amputado no meu benfiquismo. Também não privei com ele. Deu-me um inesquecível autógrafo em 1983, à porta do antigo Estádio da Luz; e apertei-lhe a mão, bastantes anos mais tarde, numa ocasião de circunstância. Mas não é preciso muito para se conhecer Eusébio, tal o seu gigantismo, tal a sua transparência, tal a sua simplicidade. O King foi, é, e continuará a ser, demasiado grande (e para se ser tão simples é preciso ser mesmo muito grande), como jogador, e como figura histórica nacional e internacional. Sobrepôs-se ao país. Sobrepôs-se até ao próprio Benfica. Foi único. É único. Muitas palavras têm sido ditas, e escritas, nos últimos dias, a seu respeito. Dir-se-ão, e escrever-se-ão, muitas outras. Mas todas elas serão sempre insuficientes para traduzir fielmente o seu legado. A fasquia que Eusébio nos deixa é altíssima. Teremos agora de saber estar à altura da sua memória. É esse o nosso desafio.

CLÍNICA DA LUZ

Artur, Siqueira, Sílvio, Fejsa, Matic, Salvio, Enzo Perez, Ruben Amorim, Sulejmani, Cardozo e Markovic. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma proposta de “onze” apontada aos próximos jogos. Trata-se, sim, da longa lista de ausências (a maioria por lesão, algumas também por castigo) que afligiram o Benfica nesta primeira fase de temporada. Para completar o inusitado cenário, resta acrescentar o próprio treinador Jorge Jesus - também ele ausente por castigo durante várias semanas. Salvio, que havia estado em destaque na pré-temporada, lesionou-se à 3ª ronda, para não mais voltar a jogar. Amorim, que se fixou como titular em Atenas, permitindo então a adopção de um novo sistema táctico, lesionou-se no jogo seguinte. Cardozo, que depois da novela de início de época recuperara a sua melhor forma, e mostrava pontaria mais afinada do que nunca, também ficou no estaleiro, onde se mantém. Siqueira, que aparentava ter condições para resolver o velho problema da ala esquerda da defesa, rapidamente se viu, também ele, impedido de jogar. Matic e Enzo foram castigados à vez, inviabilizando, durante duas jornadas, a construção do melhor meio-campo encarnado. Sílvio só em Outubro pôde discutir um lugar. Fejsa lesionou-se em Paris. Markovic em Lisboa. Sulejmani em Belgrado, e, por fim, Artur em Olhão. Quando um destes dias ouvia um comentador televisivo culpar Jesus pela indefinição do onze-base do Benfica, quase tive vontade de rir. É verdade que nem sempre os jogadores têm demonstrado a fibra de campeões que se vira, por exemplo, ao longo da maior parte da temporada passada. É também verdade que alguns dos reforços demoraram tempo demasiado a adaptar-se ao grau de exigência do clube. Mas, caramba, com tantos contratempos, manter ainda assim o 1ºlugar da tabela (embora de forma partilhada), é algo que deveria conferir algum pudor à crítica. Sejamos justos. O que seria dos nossos adversários directos caso padecessem de tão extenso rol de contrariedades? Estariam na luta?

UM ANO DURO

Não é fácil escrever sobre 2013. Andámos entre o céu e o inferno, passámos da euforia à depressão, tudo em apenas vinte dias. E ainda não nos recompusemos totalmente. No dia 6 de Maio estávamos, 23 anos depois, apurados para uma final europeia, e bastava-nos vencer Estoril, Moreirense e V.Guimarães para, 27 anos depois, voltar a conquistar a “dobradinha”. Vivíamos, então, às portas de uma das melhores épocas de sempre. No dia 26 de Maio, tínhamos perdido tudo. Os golpes foram fundos. Sobretudo o desferido por um tal Kelvin, cujo nome ainda me arrepia pronunciar, aos 92 minutos de um jogo cuja memória ainda me custa digerir. Na hora do balanço, não é justo, não pode ser justo, limitar o ponto de vista estritamente aos troféus que nos fugiram das mãos. Todo o percurso dos quatro primeiros meses do ano foi fantástico, e merece ser relevado. A chegada a uma final europeia não é, não pode ser, uma perda - entra para a história, como, por exemplo, a de 1983. A mágoa não tem de trazer indignação, agitação, nem qualquer caça às bruxas. O que não significa que descole facilmente das nossas almas, até porque a nova época ainda não nos deu motivos para esquecer a anterior. Para lá do Futebol, pode dizer-se, porém, que 2013 foi um ano de sucesso. À cabeça de uma lista de triunfos surge o Hóquei em Patins, com o inédito título europeu, conseguido em circunstâncias particularmente saborosas (de que, infelizmente, devido a um motivo familiar de força maior, não pude desfrutar) -, ao qual se seguiram, já na nova temporada, outras conquistas internacionais. Os campeonatos de Basquetebol e Voleibol também vestiram de vermelho. O Futebol Formação trouxe-nos títulos em duplicado (Juniores e Juvenis) o que não acontecia desde 1989. O impressionante Museu Cosme Damião foi inaugurado. A Benfica TV entrou numa nova fase da sua vida. 2014 está à porta. A serenidade e a união são as melhores chaves para o tornar melhor que 2013. Um desejo? Que a sorte nos devolva aquilo que nos retirou.

NESTA DATA QUERIDA

A Benfica TV festejou esta semana o seu quinto aniversário. E se há projectos com bastos motivos para festejos, este é seguramente um deles. Poucos acreditariam, em 2008, que tão ousada iniciativa redundasse no êxito que hoje se vê. Depois de um período de amadurecimento, a estação entrou numa nova era da sua existência quando, no último Verão, passou a transmitir os jogos da nossa equipa principal de futebol, juntando também à grelha de programação aquela que é, indiscutivelmente, a mais empolgante liga europeia da actualidade. Devo confessar que, durante algum tempo, duvidei que tal fosse possível. Parecia-me um sonho demasiado alto, e uma iniciativa demasiado arriscada, avançar para um canal de TV com as características daquele que temos hoje, e que faz as delícias de todos os benfiquistas. Tenho de dar a mão à palmatória. Assinante deste o primeiro momento, vejo a programação melhorar dia após dia, vejo os meios técnicos envolvidos trazerem qualidade superlativa às transmissões – não só do futebol, como também de todas as modalidades que compõem o puzzle do eclectismo encarnado. Vejo! Sobretudo vejo, com gosto, fervor clubista, mas também com a exigência de um telespectador atento, que aprecia o trabalho de profissionais de excelência, os quais, dia após dia, hora após hora, fazem o Benfica entrar-nos pela casa dentro. Não podemos adormecer à sombra do êxito conquistado. Há sempre espaço para melhorar, para inovar, e essa deve ser a matriz de pensamento daqueles que trabalham na casa. Mas o que foi feito nestes cinco anos constitui matéria suficiente para que todos os envolvidos estejam de parabéns. Deixando uma palavra especial para o Ricardo Palacin (profissional, benfiquista e, se me permitem, também amigo), e, nele, para todos os restantes colaboradores da Benfica TV, não posso deixar de saudar aquele que é o principal obreiro de todo o projecto: o Presidente Vieira, cuja sucessão de realizações vai tendo cada vez menos paralelo na história centenária do clube da Luz.

TUDO PELO TÍTULO

Decorridas onze jornadas da Liga, estamos finalmente no topo da classificação. A época iniciou-se aos soluços, mas, com o decorrer das semanas, e resistindo às contrariedades que nos surgiram por diante (de arbitragens altamente penalizadoras, a uma série interminável de lesões), lá chegámos ao lugar onde gostamos de estar. Independentemente da questão formal sobre quem lidera efectivamente a tabela, a verdade é que nenhum clube tem mais pontos que o Benfica, sendo que já defrontámos, fora de casa (empatando), aquele que figura a nosso lado. Não é preciso puxar muito pela memória para nos recordarmos quão precário pode ser um primeiro lugar antes do final da prova. Porém, para quem até há pouco mais de um mês andava por uma tristonha terceira posição, a cinco pontos da liderança e a três do segundo colocado, tomar a dianteira não pode deixar de constituir factor de motivação acrescida – até pelo simbolismo que tal representa, depois das especulações e desconfianças que acompanharam a equipa desde o inglório final da temporada anterior. Esse dossier, de resto, parece - agora sim - finalmente fechado. O que se passou por lá ficou, e o momento manda que nos unamos em torno dos objectivos que queremos, e podemos, alcançar. O principal de todos é precisamente este Campeonato, que tem, até ao Natal, três jogos fundamentais. Arouca, Olhanense e V.Setúbal são o tipo de partida em que é rigorosamente proibido vacilar, e onde o grande desafio se coloca no âmbito dos índices de concentração competitiva. Neste momento, nada - nem mesmo o sonho de um dificílimo apuramento europeu -, nos pode afastar da rota das vitórias domésticas. Os próximos nove pontos têm de ser nossos, de forma a entrarmos em Janeiro com a moral em alta, e recebermos, de peito feito, aquele que ainda considero tratar-se do principal opositor nesta luta. O Campeonato parece querer pôr-se a nosso jeito. Não podemos voltar a desperdiçá-lo. A hora é de união, e não permite hesitações: todos por um, e tudo pelo título!

O GOLO

Ao longo da partida do passado sábado, e mergulhado na ansiedade de ver o relógio correr sem que a bola entrasse na baliza do SC Braga, lembrei-me de Óscar Cardozo. É verdade que temos outros avançados de qualidade. Mas ninguém, como o paraguaio, é tão eloquentemente sinónimo de golo. E, por muito que nos esforcemos por encontrar motivos para ganhar ou perder um jogo de futebol, por mais sofisticadas que sejam as divagações tácticas, por muito que louvemos a segurança dos defesas, a regularidade e eficiência dos médios, a criatividade e velocidade dos extremos, são os golos que garantem as vitórias, e são os goleadores que normalmente os fazem. Daí a minha enorme admiração por eles. O que eu gosto no futebol é de golos. Confesso que não me impressionam particularmente fintas, toques de calcanhar, chicuelinas, rabonas ou outras demonstrações circenses, quando não têm a consequência devida. Sem a bola dentro da baliza, nada feito. Por via disso, são os pontas-de-lança, com a sua eficácia, com o seu sentido de desmarcação, com a arte de aparecer no momento e no local certos, com a capacidade de lutar duramente entre os centrais adversários, de ganhar duelos nas alturas, que merecem a minha maior dose de admiração. Sei que esta não será uma opinião partilhada por todo o “Terceiro Anel”. Lembro-me como Nené, Magnusson, Nuno Gomes, e o próprio Cardozo, foram, cada um a seu tempo, incompreendidos por parte significativa dos adeptos do Benfica. Porém, foram eles que mais vezes me fizeram levantar das bancadas, e soltar gritos de alegria. É a estes, e outros, que devo a minha paixão pelo jogo, e pelo nosso Glorioso clube. Também por isso, defendi neste espaço a importância da manutenção de Óscar Cardozo no plantel encarnado, quando muitos (com os nossos adversários à cabeça) o quereriam ver pelas costas. Um homem que marca quase 200 golos num clube não pode, jamais, ser descartável. É este o meu género de ponta-de-lança. E Eusébio, que sabe de golos como ninguém, também o diz.

MÚSICA DE FUNDO

Sem querer viajar até ao tempo dos penáltis à Jardel, e ignorando as incidências do empate de Setembro em Alvalade, as três únicas derrotas do Benfica ante o Sporting em oito anos, tiveram, todas elas, um ponto em comum: ficou sempre um penálti por marcar a nosso favor. Foi assim em 2008, com Jorge Sousa (3-5); foi assim em 2009, com Olegário Benquerença (2-3); e a história repetiu-se em 2012, com Artur Soares Dias (0-1). No primeiro caso ficou por sancionar um derrube a Luisão, no segundo um agarrão a Aimar, e no terceiro uma rasteira a Gaitán. Não obstante tudo isto, o nosso vizinho continua a vitimizar-se, à medida que as vitórias benfiquistas se vão sucedendo. Já não há dérbi que não venha acompanhado da habitual música dos dias seguintes - salvo quando o Sporting ganha, o que apenas aconteceu nas ocasiões mencionadas. Nessas, não houve “música”. Houve festa, do lado de lá, resignação do lado de cá, e silêncio generalizado nos media. Quando somos nós a vencer, pelo contrário, é o que se vê, e o que se ouve. A Taça da Liga de 2009 foi talvez o momento mais ilustrativo desta realidade. Um só lance, um só erro (que na altura permitiu apenas o empate), e logo um escândalo de que ainda hoje falam com a indignação de uma virgem ofendida. Os factos remetem-nos para um simples penálti mal assinalado. A lenda, para um roubo premeditado e aparatoso que subtraiu um troféu às vitrinas de Alvalade. Na época passada…mais do mesmo. Uma arbitragem que não marcou faltas a ninguém, em nenhum local do campo, foi o que bastou para descobrirem 2, 3, ou 4 penáltis, mais todos os que fossem necessários para justificar nova derrota. Com triunfo benfiquista, o último dérbi não poderia escapar ao folclore. No estádio ninguém viu nada. Algumas horas mais tarde, a narrativa estava já composta, com o ruído do costume. Passado tanto tempo, ainda perdura. As arbitragens portuguesas têm muito que se lhes diga. Mas para o Sporting, aconteça o que acontecer, se o Benfica ganha, a culpa é do árbitro.

SINAL DOS TEMPOS

Terminado o Dérbi do passado sábado, notava-se, entre os benfiquistas, um sentimento bastante contido de satisfação. Ou eram as bolas paradas – um problema a resolver -, ou era a recuperação consentida na segunda parte, ou era a fracassada expectativa de goleada que (confessem lá...) todos tínhamos ao intervalo, a verdade é que, descontada a beleza do espectáculo, ganhar ao Sporting de forma tão apertada já não nos deixa propriamente eufóricos, mas tão só com a sensação de dever cumprido. Paradoxalmente, do lado de lá, notava-se uma atmosfera bem positiva, de onde se depreendia um certo alívio por perderem por poucos (depois dos tais 3-1 ao intervalo), e até algum regozijo pela capacidade de discutirem o jogo até final. Aliás, já da recente derrota diante do FC Porto a generalidade dos sportinguistas havia saído de peito feito, como se estas vitórias morais (?) tivessem o condão de lhes devolver o estatuto de outrora. Diga-se que, entre estes dois estados de espírito, nem tudo é a preto e branco, ou, para ser mais exacto, a vermelho e verde. Vencer o Sporting, depois de uma roleta de emoções tão vibrante e arrebatadora, não pode deixar de nos encher a alma. É verdade que poderíamos ter goleado, é verdade que aquele golo ao minuto 92 nos fez reviver fantasmas de um passado recente, mas, caramba, ganhámos! E ganhámos bem, depois de uma grande partida de futebol, durante a qual fomos sempre superiores. Para o rival, contente ou não com isso, fica apenas mais uma derrota. A 11ª nos últimos 15 Dérbis. Compreende-se o esforço – e louve-se a eficácia - do seu aparelho de comunicação para não deixar estoirar o balão da euforia (semelhante ao que, não há muito tempo, encheu Domingos Paciência), procurando álibis na arbitragem. Mas não é preciso ter memória de elefante para recordar o jogo de Alvalade, já nesta mesma época, ou, indo um pouco mais atrás, um tristemente célebre empate a dois, na velha Luz, com este mesmo árbitro. Portanto, esta já tradicional gritaria não nos vai comover.

DO PAVILHÃO AOS RELVADOS

1. No passado sábado, a nossa equipa de Hóquei em Patins viveu mais um momento histórico, ao vencer, pela segunda vez, a Taça Continental. Em pouco mais de três anos, o hóquei encarnado conquistou oito troféus, quatro deles internacionais. A jóia da coroa foi, naturalmente, o triunfo no Dragão, que valeu uma inédita Liga dos Campeões, à qual a comunicação social nunca chegou a dar o devido destaque, preferindo então explorar até à náusea o alegado caso-Cardozo, ocorrido uma semana antes - sinal de uma confrangedora cultura desportiva, e de um sistema mediático que prefere remexer no lixo do que brindar a glória. Agora, perante os nossos olhos, com nota artística elevada e números eloquentes, o Benfica voltou a festejar, e a mostrar que, com arbitragens isentas, é uma das melhores equipas do mundo na modalidade. Apenas um pequeno reparo: é pena que a estas grandes conquistas não tenha ficado associada a tradicional camisola vermelha. As fotos ficariam muito mais bonitas. 2. Escrevo antes do jogo de Atenas. Espero que tudo tenha corrido bem, e, pelo menos, estejamos em posição de discutir o apuramento nas duas jornadas que restam. Como diz Jorge Jesus, na Champions, em qualquer partida, estamos sempre tão perto de ganhar como de perder. Uma vitória seria o ideal, mas um empate pode não ser totalmente negativo. A esta hora, o leitor já saberá. 3. Amanhã disputa-se mais um “Dérbi” lisboeta, prato sempre apetecível para os adeptos do futebol. Jogando em casa, teremos de assumir o favoritismo, embora sabendo que, neste tipo de jogo, a surpresa pode esperar-nos ao virar de qualquer esquina. Afinal de contas, Taça é Taça, e ainda em Maio passado nos confrontámos com essa verdade inelutável. A época futebolística não nos tem corrido de feição. O nosso rival, pelo contrário, está em alta. Juntando as situações, temos uma igualdade pontual na tabela classificativa. Agora, um dos dois terá necessariamente de ficar de fora. É altura de puxarmos dos galões, e mostrarmos quem é o melhor.

UM PRESIDENTE PARA A HISTÓRIA

Comemorámos, na passada semana, o décimo aniversário do nosso belo estádio. À sua construção não pode deixar de estar associado o nome de Luís Filipe Vieira - que dias depois tomou posse como Presidente do Benfica, transformando-o de alto a baixo, e erguendo-o até a um grau compatível com o seu glorioso passado. Terão faltado apenas mais um ou dois campeonatos de futebol para que Vieira fosse hoje unanimemente considerado o melhor presidente de sempre deste Clube. Faltou, por exemplo, que em Maio passado um remate de um tipo de crista tivesse embatido no poste, em vez de entrar na baliza de Artur. Faltou que, na temporada anterior, um fiscal-de-linha pouco atento tivesse visto um fora-de-jogo de Maicon, no lance que decidiu o título. Em suma, faltou sorte numas ocasiões, e verdade desportiva noutras, para alcançarmos os títulos que o trabalho realizado tanto justificava. São contingências, às quais não podemos também subtrair o facto de, ao longo desta década, termos enfrentado o mais forte rival de toda a nossa história. Em dez anos, o FC Porto conquistou três taças europeias, e nos últimos cem jogos de campeonato registou apenas uma derrota. Tem sido um opositor feroz, que, além de uma inegável capacidade desportiva, nunca hesitou em utilizar meios ilícitos para conseguir o que queria. É contra ele que nos temos batido, e, ainda assim, equilibrado os pratos de uma balança que em 2003 apresentava um claríssimo défice. Campeonatos à parte, seria fastidioso enunciar toda a obra de Luís Filipe Vieira. Do Estádio ao Centro de Estágio, da Benfica TV ao Museu, dos títulos nacionais e europeus nas modalidades ao sexto lugar no ranking da UEFA, do investimento na Formação ao incremento do número de sócios. Mas aquilo que, enquanto benfiquista, mais lhe agradeço, é ter-nos permitido voltar a acreditar no futuro. Em 2003, vencer era uma utopia. Hoje, ganhar ou perder depende de pequenos detalhes, e a nossa memória tem de ser suficientemente ampla para reconhecer a diferença.

A NOSSA CASA

Celebra-se hoje o décimo aniversário do nosso belo e grandioso Estádio. É o maior do país, já conquistou a sua identidade própria, sem deixar de honrar a memória da velha Luz, e terá, em Maio próximo, a prenda que merece: o jogo mais importante do ano em competições de clubes. Pois é. Já lá vai uma década desde o dia em que aquilo que parecia impossível se tornou realidade aos nossos olhos. Ao longo destes dez anos, muitos foram perdendo a memória desse tempo. É natural, e muito bom sinal que assim seja. Efectivamente, o Benfica de hoje nada tem a ver com aquele que Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira herdaram. Em 2003, estávamos em convalescença da mais grave doença de que padecemos num século inteiro de história. As inúmeras fragilidades que o nosso Clube revelava pareciam impedir-nos até de sonhar. Os que, como eu, ainda se recordam desses momentos, lembram-se também de quase se beliscarem para acreditar que, contra ventos e marés, contra o cepticismo e a angústia, tinham por diante uma obra capaz de tão bem emoldurar a nossa paixão. Nesta década, muitos foram os momentos de glória ali vividos. Poderíamos evocar o triunfo sobre o Sporting, em 2005, que praticamente valeu esse Campeonato; também a vitória sobre o Rio Ave em 2010, que lançou o país em festa; para além de grandiosas jornadas europeias, entre as quais dois Quartos-de-Final da Champions League, e duas Meias-Finais da Liga Europa (a última das quais selada com o acesso à Final). Grandes nomes do futebol mundial pisaram aquele relvado. Messi, todos os Ronaldos, Ibrahimovic, Iniesta, Zidane, Maldini, Pirlo, Kaká, Rooney, Robben, Del Piero ou Van Persie são apenas alguns. Do nosso lado, tivemos Di Maria, Aimar, Fábio Coentrão, Rui Costa, David Luíz, Ramires, Javi Garcia, Witsel, Miccoli, Nuno Gomes e Simão, para referir apenas figuras que já não constam do plantel actual. Mais décadas se seguirão. Mais vitórias também. Por tudo aquilo que representa, a Nova Catedral é um marco indelével na história do Benfica.

A NOSSA CHAMPIONS

Depois de uma eliminatória da Taça de Portugal diante do Cinfães, que se prevê tão tranquila quanto festiva, regressa, já na próxima semana, a sumptuosa Champions League, com todo o seu encanto, e grau de dificuldade máximo. Com uma vitória em casa, e uma derrota fora, pode dizer-se que o Benfica está perfeitamente dentro dos carris do apuramento, sendo provável que os próximos dois jogos, diante do Olympiacos, venham a determinar quem acompanha o PSG rumo à fase seguinte da competição. Ou seja, uma vitória na Luz frente aos gregos afigura-se fundamental nesta corrida, pois qualquer outro resultado, mesmo não nos eliminando sumariamente, deixará contas demasiado complicadas por fazer. Muito se tem discutido a hipótese de o nosso clube apostar mais ou menos na competição, e ter mais ou menos possibilidades de atingir a respectiva Final. Muitas vozes extrapolaram palavras do nosso Presidente, subvertendo-as, e transformando um sonho legítimo e saudável, numa exigência que jamais foi feita aos jogadores ou ao técnico. Há que dizer, com toda a clareza, que chegar à Final da Champions, no contexto actual do futebol português e europeu, pode obviamente ser um sonho (quem não o tem?), mas não poderá constituir um objectivo concreto, e muito menos uma exigência. As diferenças de orçamento face a “tubarões” como Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Chelsea, Juventus, Dortmund ou Bayern de Munique não deixam margem para grandes expectativas, seja onde for que se dispute a última partida da prova. O objectivo do Benfica para a Liga dos Campeões terá de ser, por enquanto, a passagem à fase seguinte. Isso sim, está de acordo com o poder financeiro e desportivo de que dispomos. Em termos realistas, as nossas exigências não deverão ir muito mais além, e o que vier a mais, bem-vindo será. É com esta humildade que devemos enfrentar os difíceis adversários que temos pela frente. E é com esta atitude que podemos, eventualmente, vir a superar aquilo que neste momento é expectável.

UM PRIMEIRO OLHAR

A pausa nas competições de clubes deixa espaço para uma primeira reflexão acerca do início da temporada futebolística da nossa equipa. Há que começar por dizer, sem subterfúgios, que o rendimento atingido tem estado aquém do esperado. E várias podem ser as explicações para tal. Em primeiro lugar, embora o mercado não nos tenha retirado nenhuma das principais figuras do onze, houve necessidade de integrar novos reforços, grande parte dos quais jovens com vincada qualidade, mas naturalmente sem identificação com os processos da equipa. Markovic, por exemplo, tem um talento que ninguém discutirá, mas que ainda não foi possível adaptar plenamente ao modelo de jogo encarnado. Djuricic será outro caso, ao qual as mesmas palavras poderiam encaixar na perfeição. E a articulação entre Fejsa e Matic está ainda longe de ser uma aposta ganha. As lesões de Gaitán, e sobretudo de Sálvio, obrigaram a apressar alguns destes processos, impondo indesejadas experiências em plena competição. Não podemos também ignorar o calendário que tivemos pela frente neste mês e meio. Deslocações à Madeira, Alvalade, Guimarães e Estoril, em apenas sete jornadas, eram algo que, à partida, seria sempre de impor respeito. Desses jogos, vencemos dois, empatamos um, e perdemos o outro. Não é um bom registo, mas está longe de ser uma catástrofe – e o pior resultado terá mesmo sido o empate caseiro com o Belenenses. Era também natural que, depois de um fim de temporada decepcionante, os níveis de confiança dos jogadores se ressentissem. Nova derrota a começar o Campeonato foi, nessa medida, o que de pior podia ter acontecido. Last but not least, as arbitragens têm tido, uma vez mais, um papel determinante. Cinco pontos surripiados não são coisa pouca, e não podem, de modo algum, deixar de figurar em qualquer ponderação deste tipo. Agora vamos olhar para a frente, e, unidos, serenos e determinados, recuperar à Benfica, partindo para uma época que nos devolva os sucessos que a infelicidade roubou há poucos meses atrás.

COROAS E CARAS

O passado fim-de-semana poderia ser evocado, simultaneamente, como paradigma do que de melhor e de pior tem para oferecer o desporto nacional. Do lado positivo, é de sublinhar o triunfo de Rui Costa em Florença, colocando-o na esteira de Agostinho como figura cimeira da nossa velocipedia. Quando, em 2008, saiu do Benfica para abraçar uma carreira internacional, poucos imaginariam que chegasse tão longe. Hoje é Campeão do Mundo com todo o mérito. Também João Sousa brilhou além-fronteiras, com uma conquista inédita para o Ténis luso. Ambos simbolizam o que de melhor existe neste país desportivo. Lamentavelmente, o futebol intra-muros não podia oferecer uma imagem mais contrastante com a que nos chega de tão cintilantes palcos. Arbitragens miseráveis, resultados falseados, anti-jogo, e uma terrível sensação de déjà-vu. É verdade que o Benfica, frente ao Belenenses, não esteve ao seu melhor nível. Mas o FC Porto, no seu compromisso doméstico, também não. A diferença é simples: nós vimos um fiscal-de-linha oferecer um golo ao adversário, enquanto o nosso rival nortenho viu Pedro Proença regalar-lhe uma grande penalidade providencial. Contas feitas, temos, à 6ª jornada, dois penáltis por marcar sobre Lima (no Funchal e em Guimarães), um sobre Cardozo (em Alvalade), e sofremos dois golos irregulares (em Alvalade e frente ao Belenenses). O FC Porto, por seu turno, venceu o V.Guimarães com um penálti inexistente (coisa que já ocorrera em Setúbal), e o P.Ferreira com um golo ilegal. Ao Benfica, os homens de negro subtraíram 5 pontos. Ao FC Porto acrescentaram 4 - já descontado um penálti da Amoreira. Tudo somado, eis uma enorme mentira na tabela classificativa. Também não posso deixar passar a pouco edificante atitude desportiva do Belenenses ao longo da partida da Luz, que de forma alguma homenageou o seu convalescente treinador. Tácticas defensivas são legítimas. Simulações e constante queima de tempo são “chico-espertices” que só a falta de categoria dos árbitros tornam possíveis.

PASSOS DE FONSECA

Em mais de trinta anos, poucos foram os treinadores do FC Porto que não se ajoelharam cobardemente aos ditames da casa, ou seja, à cultura guerrilheira e terrorista de Pinto da Costa e seus capangas. Assim de repente, recordo apenas Fernando Santos e Bobby Robson (ambos vencedores, diga-se), como excepções a uma regra que vergou dezenas de nomes, outrora mais ou menos prestigiados, e depois mais ou menos triturados por uma máquina capaz de enxovalhar a honra de qualquer incauto. Na última primavera, Paulo Fonseca usava orgulhosamente o boné do Paços de Ferreira, equipa sensação do Campeonato. Disputava-se a última jornada, e o FC Porto necessitava de vencer na casa do terceiro classificado, tarefa que, num país normal, não se afiguraria fácil. Estamos em Portugal, e, obviamente, não houve surpresas. Poucos dias depois, o homem aparecia sorridente ao lado do presidente portista, assinando o contrato que fazia dele substituto do treinador campeão. Desconheço se o resultado de tal jogo estava ou não contemplado no prémio de assinatura. Mas não esqueço as notícias de abordagens pouco inocentes a jogadores do Paços na semana anterior à partida, diligentemente desmentidas por…Paulo Fonseca. Daí para cá, jogadores do Paços para o Porto, do Porto para o Paços, do Paços para destinos simpáticos encontrados por empresários amigos, estádios emprestados para compromissos europeus, jogos nacionais em Felgueiras, e o total strip-tease de um clube outrora merecedor de algum respeito por parte dos adeptos do futebol digno. Têm o que merecem: sete derrotas consecutivas. Quanto a Fonseca, ao mínimo tropeção deixou cair o boné. Ora aí está ele, esquecido de onde veio, e porque veio, rosnando à voz do dono contra as arbitragens – que, em pouco tempo, já na nova cadeira, lhe haviam dado um penálti duvidoso em Setúbal, e um golo irregular em…Felgueiras. Ou me engano muito, ou um dia também ele terá o que merece: um qualquer Al-Ahly, onde o dinheiro cale o passado, e pague o esquecimento.

SOMBRAS E NEVOEIRO

1.Em Guimarães, neste domingo, o Benfica tem oportunidade de calar de vez todas as vozes que, ao primeiro percalço, logo se apressaram a antecipar o abismo. Ironicamente, teremos pela frente o mesmo adversário que, no último mês de Maio, nos lançou na amargura, abrindo espaço a todas as especulações e censuras – que foram alimentando um defeso jornalístico marcado pela ausência de grandes competições, e logo, de assuntos com que vender papel. Passados alguns meses, Jorge Jesus continua a treinar o Benfica, Cardozo continua na frente de ataque da equipa, nenhum dos titulares saiu, e recebemos vários reforços de nível internacional. Começámos mal o Campeonato, mas, se exceptuarmos a tristonha derrota no Funchal, tudo o resto se tem passado dentro da maior normalidade: duas vitórias nos dois jogos em casa, e empate no “Dérbi” de Alvalade perante um revigorado Sporting. Um triunfo em Guimarães poderá fechar de vez o ciclo, e recolocar o Benfica no rumo competitivo que, em finais de Abril, tanto nos empolgava. 2.Trata-se de uma velha estratégia: colar-nos à boca coisas que não dissemos, e utilizá-las depois como arma de arremesso. Recordo Vítor Pereira quando, há duas épocas, tanto falou de faixas, tendo sido ele próprio a encomendá-las, semanas antes, para um silencioso e prudente Benfica. O presidente Luís Filipe Vieira manifestou o sonho, legítimo, de ver o Benfica chegar à final da Champions League marcada para o Estádio da Luz. Daí até ter ouvido um comentador televisivo afirmar, abusivamente, que a fasquia do Benfica para a presente temporada era a vitória na Champions, foi um pequeno passo de mágica, e de mistificação. Percebe-se a intenção, mas não cola. Estamos sobejamente habituados. 3.Caso Cristiano Ronaldo se sagre melhor marcador do próximo Mundial no Brasil – …e oxalá o consiga -, poderemos então discutir se atinge, ou não, o estatuto de Eusébio. Até tal acontecer, contas bancárias à parte, continua a existir apenas um Rei, e, quando muito, um príncipe herdeiro.

MAIS DO MESMO

Seria preciso recuar até 2004 para encontrarmos uma vitória do Benfica em jogo de abertura do Campeonato. Daí para cá, pese embora algumas pré-temporadas bastante prometedoras, entrámos invariavelmente com o pé esquerdo – mesmo em 2009, quando, meses depois, viríamos a conquistar o título. Ao longo destes anos, nessas partidas iniciais, sofremos muitas vezes os efeitos de arbitragens habilidosas, mas também nos deparámos, com demasiada frequência, com jogadores ainda de chinelos e toalha de praia aos ombros, esperando que as camisolas do Benfica fossem suficientes para garantir os pontos. Pode dizer-se que no jogo da Madeira as duas situações se cruzaram, pelo que o resultado acaba por nem surpreender. Um penálti sobre Lima, nos instantes finais da partida, poderia ter-nos poupado à derrota. Mas a indolência revelada pela equipa durante longos minutos também nos deixou distantes da vitória. O valor do adversário fez o resto, cumprindo-se, pois, a negra tradição. Não acredito em gatos pretos, nem em gatos brancos, pelo que tento sempre encontrar uma razão para tudo. E, neste caso, talvez o calendário das competições ajude a explicar alguma coisa. Com o mercado em aberto, com jogadores a sair e a entrar, e muitos debaixo da ombreira da porta, é impossível manter uma equipa concentrada a cem por cento. A qualquer pessoa de bom senso parece absurdo iniciar um Campeonato nestas circunstâncias, e se os poderes internacionais insistem em colocar o Futebol ao serviço dos interesses parasitários de uns quantos agentes, a Liga Portuguesa, caso quisesse, teria um bom remédio: começar o Campeonato em Setembro, reservando o mês de Agosto, por exemplo, para a Taça da Liga. O que é certo é que ninguém dá o primeiro passo nesse sentido, e o Benfica parece sentir particular dificuldade em lidar com esta situação. Até porque outros, quando a sentem, têm uma mão protectora a impedi-los de cair – bastando lembrar os penáltis que deram ao FC Porto 3 vitórias nos últimos 4 começos de época.

FACES POUCO OCULTAS

O Campeonato só agora vai começar, mas há já muito que os nossos adversários o preparam a seu jeito. Não falo de jogadores e técnicos de outros clubes, nem mesmo daqueles que estavam (ou deveriam estar) de um lado no jogo decisivo da última jornada da época passada, e estão agora confortavelmente instalados na cadeira do lado oposto. Falo antes de todo um vasto “plantel” de tribunos que, com mais ou menos oratória, com mais ou menos verborreia, insistem em falar do que não sabem, escrever sobre o que não conhecem, sempre com o fim, mais ou menos explícito, de perturbar a estabilidade do nosso Clube. Ao fim e ao cabo, os mesmos que durante anos silenciaram tudo o que - então sim - sabiam acerca dos escândalos que as escutas do processo “Apito Dourado” deixaram a nu. Desde a Final da Taça de Portugal que não param de especular. Logo nessa tarde, e nos dias que a seguiram, o veredicto foi lançado: ou Jesus, ou Cardozo! Primeiro, tentaram empurrar o nosso treinador para a porta da saída. “Não ganhou nada”, diziam, omitindo alguns dos motivos pelos quais não venceu, e esquecendo toda a valorização desportiva e financeira que implementou na equipa encarnada – que a levou, por exemplo, a um brilhante sexto lugar do ranking da UEFA. Consumada a renovação de Jorge Jesus, os focos desestabilizadores viraram-se para Tacuára. Na impossibilidade de se verem livres do técnico que relançou o Benfica para a discussão de todos os títulos, tentaram então ver-se livres daquele que é o melhor goleador benfiquista deste século. E, ao verem-no desculpar-se perante as câmaras de televisão, o desespero lançou-os numa última empreitada, a de descredibilizar esse pedido de desculpas (claro que induzido pelo Clube, ou alguém esperaria outra coisa?). É fácil percebê-los. É fácil entender porque motivo querem Jesus e Cardozo longe da Luz. Mas não podemos deixar que nos enganem. O Benfica é dirigido desde dentro, e jamais andará a reboque de comentadores televisivos ou jornalistas de duvidosa isenção.

NOVES FORA NADA

Por maior que seja o prestígio que vai granjeando, por mais pesado que seja o nome que carrega, a Eusébio Cup não deixa de ser um troféu particular, e uma ocasião para preparar as competições que se avizinham - essas sim, a doer. Obviamente, é melhor ganhá-la do que perdê-la. Mas não será menos óbvio que uma derrota nesta altura traz com ela a virtude de ajudar a perceber aquilo de que a equipa necessita, expondo uma ou outra fragilidade a tempo de ser corrigida. Nessa medida, a derrota diante do São Paulo terá até sido útil. Ficaram por exemplo patentes algumas dificuldades na finalização, e alguma falta de peso perto da área adversária. Isso levou a que uma parte dos adeptos se lembrasse de quem não estava em campo. Já aqui escrevi sobre o caso-Cardozo. Já lembrei que, nem eu, nem qualquer outra pessoa fora da estrutura do nosso futebol, tem condições para avaliar devidamente o problema, e muito menos a forma de o solucionar. Enquanto adepto, gostava que Tacuára continuasse a marcar golos no Benfica. Acho que o seu valor de mercado é substancialmente inferior à importância que tem na equipa, e até na própria história do Clube. Temo, porém, que o equilíbrio entre a sua condenável atitude no Jamor, e a necessária preservação da saúde do balneário, possa sugerir outro tipo de decisão. Uma coisa é certa: chame-se Óscar ou não, o Benfica precisa de um “Cardozo”. E tem pouco tempo para o encontrar. Pontas-de-lança eficazes são uma espécie rara, e por isso tão valorizada. Tivéssemos por cá um Lewandowski, ou um Cavani, e a coisa resolvia-se. À nossa medida, Cardozo é um jogador com características incomuns, quer no último toque, quer na capacidade física com que aguenta a pressão dos centrais adversários. Todo o modelo de jogo encarnado assenta num finalizador com aquelas especificidades, e, sem ele, o nosso futebol ofensivo corre riscos de se esterilizar. Essa é a principal lição a extrair do último fim-de-semana, e não pode deixar de pesar na balança de qualquer decisão.

UM HOMEM PARA A HISTÓRIA

Quis o destino que apenas dois dias após a inauguração do nosso Museu, desaparecesse do mundo dos vivos um dos nomes que bastante contribuiu para a riqueza nele depositada. Fernando Martins assumiu a presidência do Sport Lisboa e Benfica em 1981, e esteve ligado a um dos períodos mais importantes da história do clube. Não só pelos títulos conquistados (dois Campeonatos, três Taças e uma Supertaça, para além da presença na final da Taça UEFA), mas sobretudo pelas bases estruturais deixadas, que pouco depois permitiriam o ansiado regresso à alta-roda do futebol internacional – arredia desde meados da década de sessenta. As finais europeias de Estugarda e Viena, pese embora se situem já fora do âmbito temporal dos seus mandatos, e sem retirar mérito à equipa directiva que lhe sucedeu, tiveram também o “dedo” de Fernando Martins. Foi a sua gestão criteriosa, e sempre pautada pela defesa intransigente dos interesses da instituição, que deixou o Benfica em condições de vencer em Portugal, e de se bater com os melhores fora de portas. Foi Fernando Martins que, por exemplo, trouxe Eriksson para o Benfica, numa aposta que teve tanto de ousada como de bem sucedida. Foi Fernando Martins que transformou o antigo Estádio da Luz no maior da Europa. Foi Fernando Martins que, depois de um período relativamente incaracterístico, marcado pelo fim da Era-Eusébio, devolveu a Mística aos benfiquistas, fazendo crescer o número de sócios, levando-os para o Estádio, e apaixonando-os pela equipa. Foi com Fernando Martins na presidência que, em 1986, me tornei sócio do Clube. Embora as palavras sejam muitas vezes menores do que os Homens, quem viveu esses anos sabe bem do que falo. Infelizmente, nem todos os sucessores estiveram à altura do seu legado. Porém, dada a vitalidade que o Clube tem demonstrado nesta última década – diga-se até que com algum paralelismo face ao seu tempo -, Fernando Martins terá certamente partido tranquilo quanto ao futuro do clube que tanto amou, e ao qual tanto deu.

DESONRA

No baú das muitas memórias que o Futebol já me vai deixando, tinha da Taça de Honra da AFL uma ideia longínqua, de quando, ainda criança, vivia cada jogo como se fosse o único, e cada Dérbi como se fosse o último. Lembro-me da alegria proporcionada por uma vitória nos penáltis sobre o Sporting (1978?, 1979?), a que correspondeu um desses troféus. Aconteceu numa pré-temporada, quando as saudades do Futebol mais apertavam. Jogavam Bento, Humberto, Shéu, Chalana e Nené. Foram tempos que me ajudaram a crescer, e me ensinaram a ser benfiquista. Com o passar dos anos, entre dificuldades de calendarização, e rotatividades de plantel, a Taça de Honra foi perdendo importância e interesse, definhando progressivamente até à morte. A ideia de a recuperar pareceu-me excelente. Adoro (vencer) o Campeonato, mas também a Taça de Portugal, a Taça da Liga, e até a Supertaça. Para quem o Futebol significa festa, quanto mais competições se disputarem, melhor. E gosto de comemorar todas elas, independentemente da importância relativa de cada uma. Com transmissão televisiva em canal aberto, em estação pública e horário nobre, sem outros jogos a atrapalhar, esperava, no passado Sábado, um Dérbi mais ou menos a sério, e uma competição mais ou menos oficial, que definisse, mais ou menos, um Campeão de Lisboa. Nada disso aconteceu. A verdade é que esta Taça de Honra foi um fiasco absoluto, e envergonhou aqueles que, ingenuamente, nela depositavam alguma expectativa. Não fui ao Estoril porque não pude, e só depois me apercebi do logro em que poderia ter embarcado. Talvez a AFL não merecesse muito mais. Mas também me custa a entender porque jogámos com todos os titulares frente ao Etoile Carouge, e nos expusemos, entre suplentes e juniores, a uma desnecessária derrota perante o Sporting - no qual, francamente, já custo a distinguir a equipa B da equipa A. Gostava de reviver as tais Taças de Honra do passado. Mas, a ser assim, bem pode a prova regressar lá para 2033, que não lhe sentirei a falta.

ROLA A BOLA

Parece que foi ontem. Mas já vai para dois meses que perdemos a Taça de Portugal no Jamor, e, com ela, a possibilidade de colorir com um troféu aquela que foi uma das temporadas mais entusiasmantes da história recente do Benfica. Talvez devido a esse entusiasmo - que foi elevando a fasquia das expectativas ao longo de vários meses -, quando voltei a ver os nossos jogadores entrar em campo para os primeiros compromissos de pré-época, senti-me perante um grupo de Campeões, mesmo sem que os livros de registos os tenham inscrito como tal. Reencontrei Artur, Luisão, Matic, Enzo, Lima, Sálvio, Gaitán, e outros, não como aqueles que perderam tudo, mas sim como aqueles que quase ganharam tudo. Não como os que me fizeram chorar, mas como os que me fizeram sonhar. Épocas houve em que a frustração da derrota trazia com ela uma indómita vontade de mudança. Neste caso, mesmo sem títulos, não é esse o sentimento generalizado. Pelo contrário, a grande preocupação dos benfiquistas prende-se justamente com os profissionais que iremos ter de perder em função dos ditames do impiedoso mercado, e das necessidades de equilíbrio que os cofres exigem. Isto porque existe a noção muito clara que em dez hipotéticas temporadas semelhantes à última, só numa delas terminaríamos de mãos vazias – logo por infelicidade aquela que, entre pontapés inesperados, e golos aos 92 minutos, nos calhou em sorte... É pois com confiança e optimismo que partimos para a nova época. Sabemos que jogando o mesmo futebol, a glória voltará a andar por perto. E o azar - tanto azar…- dificilmente se repetirá. Já percebemos também que há por ali bons reforços. Falta então saber quem sai, esperando que venham a partir apenas aqueles cujo encaixe financeiro se torne absolutamente impossível de negligenciar. Parece-me não ser o caso de Óscar Cardozo, de quem espero apenas um pedido de desculpas público aos sócios, aos colegas, ao treinador e ao presidente, para podermos voltar a festejar os seus golos durante mais alguns anos.