O QUE DIZ NORONHA

Não tive oportunidade para ler a entrevista ao "Record". Li superficialmente a que deu à "Bola". Gostei de algumas coisas, menos de outras.
Já aqui afirmei, noutra ocasião, que nada me move contra João Noronha Lopes. Pelo contrário. É da minha terra, e apesar de nunca ter tido ocasião de falar com ele, temos amigos em comum. Fui colega de escola de um irmão dele (com quem, entretanto, fui perdendo o contacto, tal como aconteceu com tantos outros), e fui aluno de um tio dele. Sei que se trata de uma pessoa honesta, oriunda de uma família honesta, muito respeitada na cidade. Sei também que tem uma vida pessoal e profissional bastante confortável, pelo que não precisa do Benfica para nada. Tem experiência de liderança e de gestão. Candidata-se de boa fé, e não à procura de protagonismo ou publicidade. Se um dia for presidente do Benfica, não deixarei de dormir descansado. Sei que não se trata de um Damásio, e muito menos de um Vale e Azevedo. E é bom aparecerem candidatos como ele, pois a democracia faz-se de boas alternativas.
Dito isto, importar perceber que, tal como o próprio afirma, não basta ser benfiquista para ser um bom presidente do Benfica. Eu acrescentaria que não basta ser honesto, nem bem intencionado ou até mesmo bom gestor. E, tanto quanto me parece, se Noronha Lopes poderia apresentar algumas mais-valias para o clube no plano financeiro, no plano comercial ou institucional, temo que lhe falte o mais importante: o conhecimento da verdadeira área de negócio, o futebol.
Recordo que alguns dos presidentes que passaram, por exemplo, pelo Sporting, tinham extraordinárias experiências de gestão ao mais alto nível. Eram honestos e bem intencionados. Eram ferrenhos sportinguistas. Foram maus presidentes. Falo de José Eduardo Bettencourt, Godinho Lopes ou mesmo José Roquette. E se não falo do FC Porto é porque conheci (conhecemos) apenas um - que não era honesto, não tinha boas experiências de gestão, nem era bem intencionado, mas ganhou tudo. 
Não me interpretem mal. Jamais defenderia um Pinto da Costa para o Benfica. E entendo que Vieira, e o seu estilo, também tiveram o seu tempo. Mas o desporto, o futebol em particular, é um meio tão específico, com tantos alçapões, que não é nada fácil de gerir, mesmo para quem vem de grandes empresas.
Noronha Lopes merece que leia e escute aquilo que ele quer dizer. Assim o faço. Mas até agora, apesar de manifestar excelentes intenções (com excepção do fim a Taça da Liga, que o Benfica venceu tantas vezes, e devia ser o clube mais interessado em defendê-la), ainda não me convenceu de que as coisas sejam tão fáceis de fazer como ele parece acreditar. Ou se quiserem, ainda não estou convencido de que Rui Costa, porventura mais bem acompanhado, não venha a ser um melhor presidente do que Noronha, e um melhor presidente do que ele próprio tem sido até aqui.

PS: Entretanto vi a apresentação da candidatura. Foi um espectáculo cenicamente bonito e carregado de mística. Não restam dúvidas de que o homem tem nível e tem carisma. Tem dinheiro (já sabia) e tem apoios de peso. Acredito que possa mesmo ganhar as eleições (nem sei, com franqueza, se Rui Costa se recandidata...). Mas, confesso, não pude deixar de me lembrar do "meu" manifesto eleitoral aqui publicado em jeito de ironia. Que o Benfica tem de ganhar mais vezes, todos sabemos. Não sabemos é como. Que gostávamos de manter o João Neves e todos os craques que formamos, também é verdade. Mas, vamos recusar, em Portugal, 65 milhões de euros por um jogador, seja ele qual for? Como pagar-lhe um milhão limpo por mês, que é o que ele aufere em Paris? Ou seja, as intenções são boas, mas são as de qualquer adepto. E propostas concretas não vejo. Primeiro passo: era imprescindível ter apresentado já um diretor desportivo convincente. 

APESAR DE MARTINEZ

Apesar de um seleccionador que a continua a torturar, a equipa nacional, repleta de individualidades de altíssimo quilate, venceu a Alemanha e está na final da Nations League.
Quando vi o onze inicial, pensei que Martinez queria mesmo era ser despedido já hoje. Dispondo daquela que é, seguramente, uma dos melhores, senão a melhor, dupla de centro-campistas da Europa (Vitinha e João Neves), o seleccionador entendeu colocar um a suplente e outro a lateral-direito (com Dalot e Semedo no banco). Depois há o caso Ronaldo, do qual já falei abundantemente, e que me parece uma questão de âmbito comercial, que começa a tornar-se penosa.
A equipa é uma espécie de frankenstein táctico que visa ajudar CR7 a alcançar os seus recordes. E assim se tem perdido uma verdadeira geração de Ouro, um plantel com muitas e boas opções para todos os lugares e para todos os sistemas.
Graças aos grandes jogadores que a compõem, a Selecção pode até ganhar esta Liga. Oxalá o consiga. Mas custa-me a aceitar que uma equipa que podia perfeitamente bater-se pelo triunfo no próximo Mundial, o vá disputar comandada por um homem que votou em Brozovic para Bola de Ouro, e cujas opções técnico-tácticas ninguém percebe.


DISSERTAÇÃO SOBRE O ERRO

Diz-se, e bem, que errar é humano. Mas para os presidentes do Benfica a velha máxima não se aplica. Sobretudo para os dois últimos, porque dos restantes, ou o conhecimento histórico escasseia, ou a memória se desvaneceu.
Sinal dos tempos. Sinal de uma ou duas gerações mimadas, que só sabem exigir. Que não sabem contextualizar. Que desprezam o conhecimento histórico. E até mesmo os factos. Que, por ignorância, se julgam donos da verdade. Que cedem ao imenso ruído decorrente da hemorragia comunicacional em que vivemos. A informação é muita, verdadeira e falsa; a inteligência, porém, manteve-se como dantes (pouca ou alguma, conforme a distribuição que Deus faz). O resultado é dramático, como se vê em vários planos da vida colectiva - não só no futebol, nem principalmente no futebol.
Na minha vida conheci dez presidentes do Benfica. Um número redondo e que dá para todos os gostos. E todos eles cometeram erros, uns mais graves que outros, uns mais marcantes que outros. Não há presidentes perfeitos. Não há mandatos perfeitos. E se já não os havia no mundo pré redes sociais estupidificantes, agora muito menos - ou julgam que o Noronha, o Manteigas, ou seja quem for que se seguir a Rui Costa, não vai ser igualmente triturado pelos que agora pedem a cabeça de toda a gente? Será uma questão de tempo, à semelhança do que antes já acontecia com os treinadores. O país e o mundo estão a ficar ao nível da taberna. E o Benfica, como clube popular, é uma vítima perfeita.

BORGES COUTINHO: Apanhei-o na infância, quando as estrelas eram os jogadores, e os dirigentes (que poucos conheciam) serviam apenas para ir à secretaria ao fim da tarde assinar cheques. Era um cavalheiro, com sólida formação. É apresentado muitas vezes como um exemplo. Mas, ainda assim, mesmo com Eusébio, mesmo com a grande equipa que herdou, nunca chegou a uma final europeia. No seu tempo, também não havia FC Porto, e o contexto não é negligenciável. Na festa de homenagem ao "King" desautorizou Jimmy Hagan, treinador tri-campeão. Este demitiu-se, o que possibilitou ao Sporting chegar ao título e impedir um até então inédito "Tetra". Erro histórico? Certamente.
Em 1975 desmantelou as equipas de Ciclismo e Hóquei em Patins, numa fase em que o profissionalismo tinha má fama. Livramento acabou no Sporting, onde foi campeão europeu. No balanço final, por culpas próprias ou alheias, deixou um Benfica globalmente mais frágil do que aquele que encontrou.

FERREIRA QUEIMADO: Entrou numa fase difícil, para juntar os cacos. Em 1977 teve oportunidade de resgatar Jordão (então emigrado em Espanha). Por meia dúzia de tostões e muita teimosia, permitiu que ele fosse para o Sporting - à semelhança, aliás, de Artur Correia. Na época seguinte a equipa não perdeu jogos, quase não sofreu golos, mas também poucos marcou (sem ...Jordão e com um Vítor Baptista totalmente alheado da realidade). Com demasiados empates 0-0, acabou por falhar mais uma vez o "Tetra", e permitir ao FC Porto recuperar de um jejum de 19 anos. Ficou três épocas sem ser campeão, algo que não acontecia desde o tempo dos "Cinco Violinos".

FERNANDO MARTINS: Outra figura glorificada como exemplo. O seu maior feito foi ter contratado Eriksson - que na altura chegou como ilustre desconhecido, e revolucionou o futebol encarnado. Mas depois... Em 1984 decidiu vender Chalana e Stromberg (nesse tempo sim, era decisão livre do clube manter os seu principais jogadores), para aumentar a lotação do estádio. O que é certo é que, menos de uma década depois, a generalização das transmissões televisivas transformou o novo terceiro anel num elefante branco quase sempre vazio. Nos anos noventa, chegou a haver jogos oficiais com apenas 5 mil pessoas - ou seja, com 115 mil lugares vagos. E a equipa nunca mais foi a mesma.
Teve uma relação de grande amizade com Pinto da Costa (ainda hoje o FC Porto fica no hotel da família sempre que se desloca a Lisboa), que foi bastante útil... para aquele. Foi com Fernando Martins que o FC Porto ascendeu ao topo do futebol português, no campo e fora dele. Foi também com Fernando Martins, lembremos, que o Benfica levou 7-1 em Alvalade - a sua maior derrota de sempre em jogos com rivais.

JOÃO SANTOS: Prometia um Benfica Europeu, e a verdade é que quase o conseguiu. Os encarnados voltaram, vinte anos depois (em 1988), à final da Taça dos Campeões, embora com um percurso açucarado, repetindo a façanha em 1990. Hoje seria criticado por perder ambas as finais. Enfim. Na altura o problema foi o preço a que isso ficou. João Santos gastou o que havia e o que não havia, e foram esses gastos faraónicos a originar a crise que se seguiu. Ainda assim, deixou sair Rui Águas para o FC Porto, o que, na altura, foi uma faca cravada na alma dos adeptos (eu ainda a sinto). Rompera relações com os portistas por causa de...Ademir Alcântara, fazendo lembrar que o Benfica pôs fim à política de não contratar estrangeiros para trazer...Jorge Gomes.

JORGE DE BRITO: Se o princípio do fim começou com os gastos sumptuosos de João Santos, com Jorge de Brito o Benfica caiu no abismo. Dizia o próprio, já em desespero, que não conhecia a situação financeira do clube. Estranho para quem enriquecera a especular na bolsa. Pelos vistos, havia quem, no clube, lhe escondesse a realidade. Quem o enganasse. Hoje chamavam-lhe, pelo menos, "Banana". Desviou João Pinto e Futre da rota do Sporting, o que valeu o súbito entusiasmo dos adeptos - mas, no segundo caso, uma polémica tremenda que atingiu o nível político, dado o facto de ter sido um adiantamento da RTP a financiar a contratação. Os salários? Logo se via. O resultado foi a falência do clube, os pagamentos em atraso durante meses a fio, e o famoso "Verão Quente", em que Paulo Sousa e Pacheco rescindiram unilateralmente os contratos (João Pinto ainda foi resgatado a tempo, e Rui Costa recusou a proposta), naquilo que foi uma das maiores humilhações da história do Benfica. Títulos? Uma Taça de Portugal, com um plantel de luxo, mas que não recebia salários havia meses. O clube entrava na sua pior fase de sempre.

MANUEL DAMÁSIO: Herdou um clube completamente descapitalizado, descaracterizado, desorganizado, e conseguiu... fazer ainda pior. Acredito na honestidade da pessoa, mas a sua candura e total incompetência, não só desmantelaram o Benfica, como colocaram o futebol português definitivamente nas mãos de Pinto da Costa - que chegou a presidir à Liga e, com o Benfica a dormir, pôde completar o puzzle que lhe permitiu dominar tudo e todos (árbitros, dirigentes, adversários, etc), de modo a que só a bola permanecesse redonda. Os erros sucederam-se. Primeiro demitiu Toni (que havia ganhado um campeonato com os jogadores sem receber) para trazer um Artur Jorge totalmente desfasado da filosofia do clube. De seguida, não só manteve Artur Jorge após uma época desastrosa, como o deixou fazer, com total liberdade, uma limpeza de balneário que deitou fora nomes como Neno, Veloso, Mozer, Paulo Madeira, William, Abel Xavier, Vitor Paneira, Isaías e César Brito (o que, para além das vendas de Rui Costa e Schwarz, e das dispensas dos russos Kulkov e Yuran, deixou o plantel quase a zeros). Depois... demitiu o treinador logo após a terceira jornada da época seguinte. Ou seja, ficou sem jogadores, sem o treinador que os dispensou, e sem dinheiro para refazer a equipa. Uma tempestade perfeita. O Benfica entrava definitivamente no seu "Vietname", abrindo caminho ao populismo.

VALE E AZEVEDO: A lição que devemos aprender é que quando as coisas estão muito mal é sempre possível ficarem ainda pior. Sobre Vale e Azevedo não há muito a dizer. O seu nome diz tudo. Tenho a consciência tranquila de ter votado sempre contra ele, e de ter ido, pela primeira vez, a Assembleias Gerais, apenas para votar contra as suas propostas - mesmo com o pavilhão cheio de gorilas à lá Macaco, e cabeças partidas à saída. Obviamente o Benfica não ganhou nada, levou 7-0 em Vigo, viu serem desmanteladas modalidades, viu ser vendido património ao desbarato (com as comissões a voarem para o bolso do presidente), viu o seu nome manchado no mercado internacional por não pagar as transferências, teve seis treinadores em três anos, dispensou João Pinto a custo zero. Enfim, o Benfica bateu no fundo, e nessa altura lembro-me de me questionar se alguma vez poderia voltar a conquistar títulos, ou se, como temia, se iria transformar numa espécie de Belenenses.

MANUEL VILARINHO: Ninguém lhe tira o mérito de salvar o clube das mãos do vigarista que lhe antecedeu, nem de o ter credibilizado aos olhos dos inúmeros credores que batiam à porta da Luz a solicitar o dinheiro que lhes era devido. Numa parceria com o BES (na altura o dono daquilo tudo), pagou dívidas, abriu espaço para a construção do novo Estádio, coisa em que, na altura, poucos acreditavam, mas fica ligado às piores classificações de sempre da equipa de futebol - que em duas épocas consecutivas (6º e 4º) nem sequer se apurou para a Taça UEFA - bem como a uma vergonhosa eliminação na Taça de Portugal, em casa, aos pés do Gondomar. É claro que, naquele contexto, a prioridade não podia ser desportiva. Mas não era preciso descer tão baixo, até porque o treinador que lá estava era...José Mourinho, o efeito começava a sentir-se (aqueles 3-0 ao Sporting...), e foi Vilarinho que o despediu para trazer Toni - que mais tarde despediu também. 

LUÍS FILIPE VIEIRA: Um dia será possível fazer um balanço definitivo da presidência de Vieira. Esse dia só acontecerá quando se provar, ou não, em sede da Justiça, as práticas lesivas de que é suspeito. Mas se isso entra, ou não, no seu passivo, o seu activo está repleto de obras e conquistas que ninguém pode apagar. É o presidente que mais títulos conquistou, que mais campeonatos venceu, sendo juntamente com Adolfo Vieira de Brito e João Santos um dos que mais finais europeias disputou (duas, ainda que, no seu caso, apenas na Liga Europa). Nas modalidades não tem paralelo com mais ninguém: campeão europeu de Futsal, duas vezes campeão europeu de Hóquei em Patins, finais europeias em Andebol e Voleibol, domínio nacional absoluto do Basquetebol, várias medalhas olímpicas, entrada esmagadora no desporto feminino com títulos atrás de títulos em todas as modalidades. Insistiu numa aposta na formação de jogadores em dimensão e amplitude nunca vistas em toda a história do clube (hoje a base da Selecção Nacional), e que valeu vendas milionárias que tornaram o Benfica o clube mais rico do país. Contratou alguns dos maiores jogadores que alguma vez vestiram o "Manto Sagrado", como Simão, regresso de Rui Costa, Aimar, Saviola, Di Maria, Oblak, Ederson, Cardozo, David Luíz, Matic, Luisão, Jonas, Fejsa, Garay, Salvio, Gaitán, Gimaldo, Darwin entre outros. Quanto a obras: Estádio, Centro de Estágio, Museu, Pavilhões. Profissionalizou da gestão do clube e da SAD, em linha com aquilo que já acontecia nos principais emblemas europeus. Revitalizou o Jornal, criou a BTV e o Site. Obteve patrocínios sem paralelo face aos outros clubes portugueses e face ao passado do próprio clube. Aumentou exponencialmente o número de sócios. Inverteu o ciclo de poder nos bastidores do futebol português. Conquistou um inédito Tetra, chegou a ter o Benfica em 5º lugar no ranking da UEFA. Foi Vieira que nos devolveu o orgulho de ser benfiquistas, bastante abalado na década que o precedeu. Pena, de facto, que no último mandato estivesse mais preocupado com a sua própria pele do que com o clube que conduzira até então, deixando uma imagem final pouco compatível com o seu imponente legado.

RUI COSTA: Herdou o clube na crise institucional decorrente dos factos ocorridos no último mandato de Vieira, e dividido entre os leais ao antigo presidente, aqueles que queriam mudar alguma coisa e os que queriam deitar tudo abaixo. Entrou com força e dinamismo, devolveu o Benfica aos títulos e às boas prestações internacionais. Contratou com maior assertividade (Trubin, Bah, Enzo, Aursnes, Neres, Carreras, Di Maria, Kokçu, Akturkoglu, Pavlidis), embora no mercado do verão de 2023 tenha falhado em dois casos flagrantes  (Jurasek e Arthur Cabral), com custos desportivos inegáveis.
Manteve a aposta na formação (conquistou a Youth League) e reforçou-a nas modalidades, obtendo o maior triunfo da história do Andebol português (European League).
Pecou por candura quanto às arbitragens, ignorando os primeiros sinais de perigo. E nas estruturas internas do clube podia, e devia, ter mexido mais, não permitindo algum aburguesamento de quem o rodeava.
Em 2022-23 teve uma época imaculada. Em 2023-24, aqueles erros na abordagem ao mercado (sobretudo se pensarmos que o Sporting foi buscar o tanque sueco) terão custado o campeonato. E nesta última temporada, além das influências exteriores, também não teve sorte.
Pagou ainda o preço de um novo tempo, no futebol, no desporto, no país, e no mundo. Um tempo extremamente polarizado, em que qualquer poder encontra imensa dificuldade em resistir ao ataque brutal de um negativismo quase patológico, potenciado por ferramentas de partilha que o elevam da tasca a discurso dominante.
Ainda tem trabalho a fazer, e não só não tenho motivos para não acreditar que o faça, como não vejo, por agora, ninguém que o possa fazer melhor.

CONCLUSÃO
Enfim, estas são algumas notas sobre os últimos presidentes do Benfica. Pedaços de história que vão desde a década de setenta até hoje. Como se percebe, todos eles tiveram os seus momentos menos felizes. Ninguém acertou sempre. Alguns erraram mesmo muito. Até demasiado. O passado é muitas vezes trazido sob o manto do mito e da nostalgia. Quando vamos a factos, nem tudo é tão reluzente como alguns (curiosamente, mais aqueles que não o viveram) querem agora fazer crer. O que significa que o presente também não é assim tão negro.
Isto serve para defender Rui Costa, como poderá servir para defender um outro presidente que lhe venha a suceder. O problema não está no Benfica, nem na direcção do Benfica. Nem sequer no futebol ou no desporto. O maior problema está na sociedade que (sobretudo) algumas gerações estão a alimentar, e que caminha toda ela para o abismo, de mão dada com as redes sociais, a ignorância, a estupidez e os populismos.

MANIFESTO ELEITORAL

- Um Benfica ganhador, que vença, pelo menos, metade dos campeonatos nacionais;
- Um Benfica europeu, que chegue sempre, pelo menos, aos Oitavos-de-Final da Liga dos Campeões ;
- Um Benfica que aposte na Formação e retenha as suas pérolas durante mais tempo;
- Um Benfica que privilegie a vertente desportiva sem descurar a sustentabilidade financeira;
- Um Benfica eclético, que seja dominador nas modalidades;
- Um Benfica que lidere o processo de centralização de direitos televisivos;
- Um Benfica influente junto dos poderes do futebol português;
-Um Benfica dos sócios, onde estes sejam voz activa em todos os momentos determinantes para o clube;
- Mais algumas banalidades que a imaginação (ou falta dela) possa produzir, concluindo talvez com um estrondoso "Benfica à Benfica".

Não, não me vou candidatar à presidência do Benfica. Ao contrário de outros, tenho noção das minhas limitações, não preciso de publicidade e tenho mais que fazer.
Mas, como qualquer indivíduo com a 4ª classe, também sei escrever manifestos eleitorais demagógicos, lembrando-me de alguém que, na vida política, chegou a fazer manifestações contra a ...corrupção, e até mesmo contra a...pedofilia (essa prática lúdica que divide os portugueses entre os que são a favor e os que, sabe-se lá porquê, são contra).
Manifestar intenções é fácil. Sobretudo quando são as intenções de todos, das quais ninguém discorda. É como aquelas músicas que entram logo no ouvido, mas depressa cansam.
Por isso, qualquer candidato que venha com conversas deste género, merecerá de imediato a minha total reprovação. Merecerá um carimbo de demagogia e populismo barato.
Não me interessa nada saber o que os candidatos pretendem para o Benfica. Se forem pessoas honestas, todos pretendem o mesmo: ganhar. Se forem vigaristas, talvez pretendam outras coisas - embora não as enunciem. Também não me interessa elencar erros cometidos no passado, pois Totobolas à segunda-feira também eu faço. 
O que eu quero saber de quem se candidata não é o que pretende para o futuro. É sim, de que forma, por que vias, e com que alternativas, o vai conseguir. E aí tem de haver detalhe, não bastando disparar para o ar meia dúzia de quimeras semanticamente aperaltadas. 
De Rui Costa sei que, em quatro anos, ganhou um Campeonato, uma Taça da Liga e uma Supertaça. Sei também (sabemos todos, não é?) como perdeu o último Campeonato e a última Taça de Portugal. No plano internacional foi duas vezes aos Quartos-de-Final da Champions, uma aos Oitavos, e na outra temporada foi eliminado por penáltis nos Quartos-de-Final da Liga Europa. Neste período, o Benfica venceu 25 jogos internacionais (a ainda falta o Mundial), mais do que em toda a década de setenta. E está no top 15 do ranking da UEFA, tendo por isso acesso ao Mundial de Clubes. Nas cinco principais modalidades masculinas ganhou sete Campeonatos, e mais 17 troféus (entre os quais a maior conquista de sempre do Andebol português: a European League). Nas cinco modalidades femininas, mais o futebol feminino, ganhou 18 Campeonatos e outros 44 troféus. No futebol formação ganhou seis dos dez Campeonatos que disputou, e ainda venceu a Youth League e a Intercontinental.
Quanto a contratações, temos, entre outros, Trubin, Bah, Carreras, Enzo Fernandez, Aursnes, Neres, Di Maria, Pavlidis, Kokçu, Akturkoglu, Manu Silva, Marcos Leonardo, Schjelderup, Prestianni, Dahl, Barreiro, Amdouni, Gonçalo Guedes. Também houve tiros ao lado. Alguns por lesão (Draxler, Bernat e Renato), outros porque as apostas nem sempre rendem o esperado, como em qualquer clube.
Enfim, Rui Costa tem isto para mostrar. Se alguém me garantisse que faria melhor, e mostrasse cabalmente como, teria o meu apoio. Vou esperar sentado até Outubro.

GÉNIO INCOMPREENDIDO

32 golos e 21 assistências em duas temporadas. Seis dos golos foram anotados nas competições europeias. Quatro frente ao FC Porto. Faltou marcar ao Sporting (se o murro no Pote não contar).
Estes são os números do regresso de Di Maria ao Benfica, os quais reflectem, desde logo, a importância que o mago argentino teve na equipa.
Os melhores momentos dos encarnados nas últimas duas temporadas tiveram quase sempre a assinatura de Di Maria. Quando ele estava bem, a equipa brilhava. Quando decaía, o Benfica decaía com ele. Foi assim desde o Verão de 2023.
No dérbi do Campeonato, saiu ao intervalo depois de ter feito os dois únicos remates perigosos da primeira parte, o Benfica empatou. No dérbi da Taça entrou tarde demais, o Benfica perdeu. Nas partidas com o FC Porto foi ele o dono do jogo. Assim como na goleada ao Atlético de Madrid.
Dele se dizia que não defende. Ora Messi e Ronaldo também nunca defenderam. E um dos lances capitais do Campeonato, em que um extremo não defendeu, foi protagonizado por...Schjelderup, no jogo com o Arouca.
No futebol do meu tempo seria um ídolo - como foi Fernando Chalana, também genial, também propenso a lesões, também de rendimento nem sempre regular. No futebol "moderno", ou no Benfica "moderno" ou no país "moderno", ou na sociedade "moderna", há que vergastar tudo e todos. Tornou-se moda dizer mal até dos nossos. Espalhar ódio nas redes sociais. Insultar, quando não agredir. Vale tudo para chegar ninguém sabe onde.
Neste triste tempo, Di Maria foi vítima das circunstâncias. Embora já tivesse sido campeão pelo Benfica, foi vítima de não ganhar estes dois Campeonatos (Chalana perdeu quatro, João Pinto só ganhou um em oito, Simão um em seis, e Poborsky ou Preud'Homme não venceram nenhum...). Foi insultado, desrespeitado, incompreendido. Sem ter em conta que só após a lesão o seu rendimento baixou.
Uma coisa é entendermos que talvez seja este o momento certo para partir. Talvez seja. Outra é culpá-lo do que quer que for, e desrespeitar o seu desempenho, a sua classe e a forma como lutou pelo Benfica sempre que esteve em campo. Nunca o fiz. Nunca o farei.
Vou ter saudades. E temo que muitos dos que tanto o criticaram, também.

NÃO À CENTRALIZAÇÃO!

Se a bárbara agressão de Matheus Reis na Final da Taça servir de argumento, pois que sirva. Mas o Benfica não pode deixar-se levar por um processo que visa, basicamente, retirar dinheiro dos bolsos dos seus sócios e adeptos para o distribuir por meia dúzia de indivíduos com propósitos pouco claros.
Digo mais: Sporting e FC Porto deviam opor-se também a esse caminho. Deixar de lado as rivalidades, e perceber que o futebol português tem um clube gigante (Benfica), dois grandes (os seus rivais), dois médios (Braga e Guimarães), e três ou quatro pequenos. O resto é... lixo, que deve ser despejado nos caixotes das divisões secundárias.
A centralização implicará retirar meios àqueles que competem na UEFA, que conquistam pontos para o ranking, que conquistam receitas para o país, e que, no caso dos três grandes (sobretudo o Benfica) fazem girar toda a máquina mediática em redor do futebol, com o que isso significa em termos de patrocinadores, vendas e audiências.
Admitiria uma centralização de direitos televisivos se fosse acompanhada de uma drástica redução dos clubes na Liga. Um campeonato a dez ou a doze (por mim, oito chegavam), com concentração de recursos nesses participantes, não apenas melhorava a sua qualidade (equilibrando-o), como reforçava a sua sustentabilidade. Nesse caso, podia fazer algum sentido centralizar receitas, e assim avançarmos para uma Liga à altura do talento dos nossos jogadores e treinadores. De caminho, obrigar também os clubes a investir fortemente na Formação e na vertente Feminina. E exigir instalações decentes.
Para tal, seria necessária uma intervenção do governo. Sendo o futebol autorregulado, a maioria das SAD jamais irá votar a favor da sua própria irrelevância. Quererão manter-se à tona da água, como entidades fantasma, sem estádios dignos (que em alguns casos envergonham o país, e em outros...nem existem), sem adeptos (assistências incrivelmente baixas, bancadas sempre vazias), e com planteis carregados de jogadores dos mais variados países, que apenas servem para fazer girar dinheiro entre vários bolsos, através de negócios transcontinentais alicerçados predominantemente em praças offshore. Enfim, gente obscura empenhada em sugar o que pode.
Não havendo essa intervenção do Estado, resta o Benfica opor-se por todos os meios a esse processo. E Sporting e Porto deviam acompanhá-lo, pois embora em menor grau, também serão vítimas de uma redistribuição injusta e parcial das verbas geradas quase integralmente pelos três emblemas históricos.
A solidariedade é devida a pessoas e famílias. Não a Sociedades Anónimas fantasma, geridas através de dinheiro com origem sabe-se lá onde, e com destino sabe-se lá qual.
Se querem mudar alguma coisa, se querem equilibrar alguma coisa, pensem naquilo que tem acontecido a clubes históricos (esses sim, verdadeiros clubes), como o Belenenses, o Vitória de Setúbal, a Académica ou o Marítimo, e agora também o Boavista a caminhar para o abismo. Pensem também no desequilíbrio do Litoral face ao Interior - que não tem um único clube na divisão principal. Pensem no desequilíbrio que faz com que só o distrito de Braga disponha de seis (!!!!!!) equipas, e a sul do Tejo não haja nenhuma. Isso sim, seria matéria para reflectir. 
Se é para equilibrar, há muita coisa a fazer. Esta centralização, nos termos que aparenta, não equilibra nada. E não é apenas um erro: é um crime, é um roubo.

DOIS PESOS

Existem duas formas de olhar para a derrota do Benfica na Taça de Portugal. Ou escolhemos uma, ou escolhemos outra. As duas são incompatíveis.
Ou culpamos a arbitragem (e acho que há todos os motivos para isso), ou culpamos o treinador e a equipa.
Dizer-se que o Benfica perdeu porque a arbitragem foi tendenciosa - entre outras coisas anulou um golo por uma faltinha, e não quis ver uma faltona que originaria a expulsão de um jogador do Sporting já nos descontos quando o resultado era 1-0, para além do amarelo a Dahl, da cotovelada de Harder, etc -, não permite dizer, ao mesmo tempo, que o Benfica fracassou, que o treinador preparou mal o jogo, ou que os jogadores não se empenharam. O mesmo vale, de alguma forma, para todo o campeonato.
A verdade é que até aquele momento o Benfica ganhava por 1-0, e na minha opinião devia até estar a ganhar por 2-0. E então? Em que ficamos? Os jogadores não prestam? O treinador é fraco? Ou fizeram o que tinham a fazer para vencer um jogo que lhes foi sonegado por terceiros?
Ok, concordo que Rui Costa devia ter falado mais cedo, nomeadamente quando se percebeu que isto podia acontecer (e eu colocaria a estaca na 29ª jornada, a do Benfica-Arouca e do Santa Clara-Sporting). Mas também me parece injusto crucificá-lo por tentar levar as coisas com fair-play até ao fim e contribuir para que o clima em redor do futebol português fosse mais arejado nos últimos meses. Não merecia esta, digamos, traição, na última partida da temporada nacional.
A sua postura (e, sejamos justos, também a de Varandas) permitiram que a Final decorresse sem problemas de violência. Quem conhece o Jamor sabe como qualquer rastilho podia ter efeitos explosivos.
É claro que os adeptos querem sempre ver sangue. Mas a mim não me ouvirão condenar ninguém por ter fair-play. Mesmo sabendo que ele não rende títulos, num país demasiado marcado por rivalidades doentias.
A verdade é que o Benfica fez o que tinha a fazer para ganhar o jogo. Jogadores que correram e lutaram, e uma estratégia táctica que anulou o Sporting durante 99 minutos, a qual, em condições normais, valeria uma Taça de Portugal.
É com esses olhos que olho para os jogadores e para o treinador. E, já agora, também para o presidente.

O PAI DA BESTA

Matheus Reis (que, lembremo-nos, já agredira uma criança no Estádio do Dragão), Nuno Santos, Pedro Gonçalves, Morita, Maxi Araújo, Harder. Meia dúzia de exemplos do jogadores que, uns mais outros menos, têm tido frequentes comportamentos anti-desportivos, e fazem da provocação, da simulação e, como se viu, da agressão, formas de disputar os jogos e de os tentar vencer a qualquer preço.
De há uns tempos para cá, o Sporting, sobretudo em campo, "portizou-se". E não me digam que é por isso que tem ganhado mais: a brutalidade de Matheus Reis aconteceu com o Benfica em vantagem já nos descontos, e bastava o VAR ter feito o que devia, que as consequência daquela atitude ditariam uma mais que provável derrota da sua equipa.
Ora, como diria o Secretário Geral da ONU, isto não nasceu no vácuo. Tem um responsável, e já aqui falei disso noutros momentos - designadamente aquando de algumas das deslocações dos leões à Luz.
Este tipo de comportamentos, este tipo de postura (como a provocação de Harder aos adeptos do Benfica após marcar) foi adoptado desde que Ruben Amorim chegou ao clube, e lá permaneceu.
Não sei se bebem alguma coisa antes dos jogos, se foram escolhidos a dedo os (foi ele que disse) "ranhosos", ou foram objecto de lavagens cerebrais para a porcaria. O que é certo é que o plantel do Sporting reflecte hoje, e desde 2020, nojo dentro do campo, e mau perder e mau ganhar após os jogos -  bem longe do clube de cavalheiros que muitos afirmam ser.
Há um antes e um depois. E será preocupante (para o futebol, não para o Benfica) se acharem que as vitórias decorrem da javardice. Não é assim que ganham as maiores equipas da Europa. Talvez em Manchester já tenham percebido isso.

REPUGNANTE

A atitude de Matheus Reis em campo já foi o que foi, e o país desportivo ainda está chocado com o facto de não ter sido sancionada pela equipa de arbitragem. Mas, que dizer do vídeo que surgiu depois nas redes sociais, em que vários jogadores do Sporting (não só o brasileiro, e incluindo o capitão de equipa) ainda gozam com a situação?
Tenho respeito por Frederico Varandas. E por isso, ainda espero uma palavra do presidente do Sporting sobre o assunto - que mais não sendo, lamentando-o.
Durante décadas convivemos com este tipo de atitudes por parte de outro clube, que também nunca soube ganhar. Ultimamente parece que alguém lhe está a apanhar os tiques.
PS: Depois admiram-se de certas atitudes das claques.

CRUELDADE, INJUSTIÇA E VAR

A final da Taça de Portugal foi, de algum modo, o espelho da época do Benfica. Momentos de bom futebol, domínio do jogo, incapacidade de o matar, arbitragem tendenciosa, e golos sofridos nos últimos segundos a deitarem por terra tudo o que até então havia sido feito.
Não contem comigo para crucificar jogadores, treinador ou presidente. O Benfica jogou melhor e merecia vencer a Taça. Não teve sorte nenhuma, e foi vítima de uma arbitragem, e de uma videoarbitragem, absolutamente tendenciosas - que interferiram directamente no desfecho da partida. 
Confesso que ainda não entendi o protocolo do VAR. Na versão que sempre ouvi, só se anulavam golos com faltas evidentes e grosseiras. Não creio que seja o caso do golo de Bruma. Já vou precisando de óculos, mas nas várias repetições que vi do lance, encontro um contacto, sim, mas longe de ser uma falta evidente, capaz de anular um golo bastante bonito.
Falta evidente houve, mas no pisão na cabeça de Belotti. Não sei como o italiano não ficou em pior estado. Aquilo foi uma selvajaria, que deixaria o Sporting a jogar com dez. Provavelmente já nem marcava, mas ainda que o fizesse, tinha mais trinta minutos de inferioridade numérica.
Até esse momento, como disse, o Benfica tinha sido melhor. Já na primeira parte o fora, e no início da segunda chegou mesmo a empolgar.
É claro que a frustação com o resultado deixa os adeptos desolados, e permeáveis a todo o tipo de pensamentos negativos: sobre o treinador, sobre o presidente, sobre os jogadores, sobre o árbitro, sobre a meteorologia. A verdade é que o Benfica esteve a segundos de conquistar a Taça de Portugal, e esteve a detalhes de ser campeão nacional. Se isso não consola ninguém, não pode deixar de ser levado em conta na análise fria que se faz ao jogo e à época.
Digo-o desde já: por mim Bruno Lage será o treinador do Benfica na próxima temporada. Como não acredito e bruxas nem em pés frios, o azar não durará para sempre, e o bom futebol da equipa acabará por ser premiado com títulos. Assim as arbitragens o permitam. Assim o permitam os adeptos, sempre tão sedentos de sangue e de ver cabeças rolar.
Hoje lembrei-me bastante de 2013. Também então o Benfica perdeu o campeonato na última jornada, também então perdeu a Taça com golos sofridos nos últimos minutos, também o treinador foi insultado e o autocarro perseguido por "adeptos" em fúria - os mesmos de sempre, os que querem trazer Alcochete para a Luz, os que, esses sim, querem sportinguizar o Benfica, não lhe dando espaço de reflexão, não lhe dando tempo para decisões ponderadas, desestabilizando reiteradamente como se isso ajudasse a ganhar.
Espero que Rui Costa tenha a mesma clarividência do presidente de então. Em 2014, mantendo o treinador, o Benfica ganhou tudo em Portugal, e só perdeu a Liga Europa por penáltis. Vencer ou não vencer, muitas vezes é apenas... futebol. Há que estar sempre perto de vencer, e chegar às decisões. A sorte e o azar não são eternos. E se há alguma coisa que Rui Costa tem de mudar, é adoptar um discurso muito mais duro face às arbitragens, que ao longo desta temporada estiveram francamente mal, lesando gravemente o Benfica em períodos decisivos, e com consequências no balanço definitivo.

ACABAR COM A FESTA...DOS OUTROS

Com a perda do Campeonato o Benfica está obrigado a vencer a Taça. Terminando a temporada com dois troféus, uma boa prestação na Champions, e (espera-se) outra no Mundial, haverá condições para abordar a próxima época com alguma serenidade. Caso contrário, caso perca no Jamor, a vida do clube nos próximos meses não vai ser fácil. E até Bruno Lage poderá ser posto em causa - ele que, quanto a mim, foi, e é, o melhor treinador da Liga Portuguesa.
Se me questionarem porque coloco Di Maria no onze, a resposta está na exibição de Schjelderup em Braga. Com o norueguês assim, mais vale um argentino que, a qualquer momento, com um passe magistral, com um remate inesperado, pode resolver o jogo. Não defende? Schjelderup também não, e foi aliás uma falha sua que permitiu o segundo golo do Arouca na Luz, determinante no desfecho do Campeonato.
O Sporting, entre bebida, ressaca, entrevistas e passeio de barco, passou a semana a festejar. Espero que o Benfica tenha estado, silenciosamente, a trabalhar. Até por isso, tem de ganhar esta Taça. Não se admite outra coisa.

FINAIS À BENFICA

No total de 18 finais entre Benfica e Sporting, o Benfica venceu onze, e o Sporting levou a melhor em sete ocasiões. De Rogério Pipi a João Vieira Pinto, passando por Eusébio e Diamantino, muitos são os nomes ligados a estas conquistas.
Para Domingo, não se exige nada menos: uma vitória! Seja quem for o herói.
Seis triunfos em oito finais da Taça de Portugal é um registo "à Benfica". Também na Taça da Liga os encarnados levam vantagem: duas finais a uma. Já na Supertaça há um empate dois a dois, bem como no Campeonato de Portugal, neste caso com uma vitória para cada lado.
Vejamos aqui as últimas quatro Taças de Portugal ganhas ao Sporting no Jamor:

1970

1972

1987

1996

OBVIAMENTE QUE ESTIVE A TORCER PELO TOTTENHAM

PARABÉNS AO SPORTING

O campeonato teve um justo vencedor. O Benfica tinha o melhor plantel, teve momentos de brilhantismo, mas não mostrou a regularidade e a consistência que se exigiam a um campeão. O Sporting, pelo contrário, e com excepção do período João Pereira, acabou por ser mais regular. Mesmo com a ajuda pontual de uma ou outra arbitragem, ainda que sem grande brilhantismo, ganha com justiça. Manda a honestidade reconhecê-lo. 
As várias abertas que deu ao longo da época, não foram aproveitadas pelo Benfica - que tem de trabalhar a forma como defende em campo, mas, sobretudo, a debilidade psicológica fora dele, que o impede frequentemente de transformar as circunstâncias a seu favor.
O golo sofrido com o Arouca (em vantagem mínima,  em casa, aos 95 minutos, em contra-ataque!?!), deu vitalidade à equipa leonina numa altura em que, depois de ter perdido a liderança, começava a tremer. 
O golo sofrido aos quatro minutos do dérbi eliminou o efeito ambiente, e ofereceu ao rival a serenidade que desejava para enfrentar o jogo do título. 
Hoje, em Braga, mais uma vez, a equipa encarnada pareceu ignorar que, se entrasse a matar e marcasse cedo, criaria alguma ansiedade em Alvalade. E só jogando com isso podia ainda esperar um milagre. Contra dez, com muito tempo para jogar, também não conseguiu afirmar superioridade.
Pode dizer-se que tudo é futebol. Mas há aqui um padrão que, diga-se, já vem de anos anteriores, e tem de ser analisado e corrigido. Entre inúmeras vias sinuosas essa era, reconheça-se, uma grande virtude do Porto dos seus melhores tempos. Infelizmente o Benfica nunca conseguiu implementar essa mentalidade guerrilheira, e esse espírito matador (de campeão), o que o deixa muitas vezes ao sabor de situações adversas, sem as saber reverter e/ou aproveitar. 
Falta disputar a Taça. E só então se poderá fazer um balanço rigoroso e frio da temporada, não esquecendo que de um dos lados da balança está ainda uma excelente Liga dos Campeões, duas goleadas históricas ao Porto, uma Taça da Liga e.. o que mais vier do Jamor.
Perdendo o campeonato, tudo será insuficiente para deixar os benfiquistas felizes. Mas o balanço do trabalho do treinador não pode ser feito apenas em função do bom humor dos adeptos. Terá de ser frio, objectivo, e ponderar que se o remate ao poste no dérbi tivesse sido cinco centímetros para dentro, estávamos agora todos no Marquês. Ou que desde Janeiro o Benfica só perdeu com o Barcelona. 
Não contem, pois, comigo para deitar tudo abaixo. Muito menos a quente, e quando a época ainda não terminou. 
Há que colocar o foco na Taça, terminar com dois troféus,  lograr uma participação prestigiante no Mundial, e depois se verá o que dizer.

O MEU VOTO



O ONZE DA ESPERANÇA

Não é preciso ganhar por doze. Não é preciso o Sporting perder por cinco. Não é preciso haver uma combinação de quatro resultados diferentes. Não se trata, pois, de uma quimera matemática.
E "apenas" necessário que Sporting não vença o Vitória de Guimarães. E, claro, que o Benfica cumpra a sua obrigação em Braga, perante uma equipa já sem objectivos.
É fácil? Não! É provável? Também não se pode dizer que seja. É possível? Sim! Absolutamente!
Há que acreditar até ao último suspiro. Este campeonato já deu várias cambalhotas, e pode muito bem dar uma última. Ao Benfica compete vencer o seu jogo - e será imperdoável que assim não seja. Depois? Confiar no destino, pois Deus não se mete em futebóis.

INSPIRAÇÕES

LA LIGA 1992 E 1993
 
LA LIGA 1994

EREDIVISIE 2016

BUNDESLIGA 2023

PS: O Ajax, que estava comodamente instalado na liderança da Eredivisie com nove pontos de vantagem a cinco jornadas do fim, perdeu dez pontos em quatro jogos, e agora entra na última ronda em segundo lugar depois de, esta noite, sofrer um golo do Groningen aos 99 minutos. O futebol é um lugar estranho, onde tudo pode acontecer. Até a Grécia ser campeã da Europa e o Leicester vencer a Premier League.

EMPATE AMARGO

Um jogo com esta importância podia decidir-se em detalhes. Um golo marcado no primeiro remate por uma equipa a quem já bastava o empate retirou pressão ao Sporting e adicionou-a ao Benfica - que durante todo o resto da primeira parte acusou o momento.
Na segunda parte a equipa de Bruno Lage apareceu com outra alma, e fez o que pôde para alterar o rumo dos acontecimentos. Dominou totalmente a partida, embora nunca deixasse de revelar dificuldades em penetrar na bem oleada linha defensiva sportinguista.
O golo de Akturkoglu, após lance magistral de Pavlidis, parecia ainda chegar a tempo de uma eventual reviravolta. Todo o estádio acreditou, e a bola no poste tinha ares de prenúncio. 
Porém, foi a altura do Sporting aplicar a receita que tanto se viu com Amorim, e que terá deixando sementes: quebrar o ritmo, acumular paragens, impedir que se jogasse futebol - com a natural complacência de João Pinheiro. 
O apito final foi naturalmente de desilusão. Mas há que dizer que não foi neste dérbi que o Benfica comprometeu o campeonato. Famalicão, Moreirense, Aves, Casa Pia e Arouca tiraram 12 pontos aos encarnados. E particularmente aquele golo do Arouca na Luz, em contra-ataque (!?!), no último lance de um jogo que o Benfica tinha na mão, custou um preço demasiado alto.
Resta agora esperar um milagre. Mas para ele acontecer é imperioso, antes de mais, vencer em Braga.
Ficou uma grande penalidade por marcar sobre Otamendi. O critério do árbitro foi largo, e esse lance não terá cabido na sua análise. Exigia-se mais ao VAR. 
Houve situações piores ao longo da temporada, e isso não pode deixar de ser lembrado, sobretudo num campeonato em que os dois primeiros poderão terminar com os mesmos pontos.
Mas também não pode deixar de entrar na análise, a frio, que se faça ao trabalho de Bruno Lage que, não esqueçamos, pegou na equipa já com uma desvantagem pontual significativa. 

O JOGO DA DÉCADA

Luisão 2005
Kelvin 2013
?? 2025
Não. Não é só um dérbi. Nem decide apenas um campeonato. Para além dos milhões da Champions (onde só um terá entrada direta), o jogo de sábado pode marcar uma era. 
O FC Porto mergulhou numa crise de onde não vai sair depressa. E os grandes de Lisboa têm diante de si o arranque para uma fase de domínio - que pode cair para um lado ou para o outro. 
Creio que o desfecho desta partida pode começar a definir esse lado.
Não me peçam prognósticos. Tenho apenas fé. 
Força Trubin, Tomás, António, Nico, Carreras, Tino, Kokçu, Aursnes, Kerem, Pavlidis e Fideo.

CONTRA 12 OU 13 OU MAIS ALGUNS

A segunda parte do Benfica foi demasiado fraca, e por via disso este jogo da Amoreira podia ter corrido muito mal. E algumas fragilidades defensivas, mais uma vez manifestadas, são algo assustadoras quando se vai ter pela frente o melhor avançado do campeonato.
Mas nada disso deve branquear mais uma arbitragem (e vídeoarbitragem) tremendamente tendenciosa, algo que com este CA se está tornar um hábito. 
É preciso, mesmo com três pontos conquistados, não deixar passar em claro mais este assalto, sob pena de não ser Gyokeres a maior ameaça da próxima jornada.
Quanto ao plantel e ao treinador, o foco tem de ser absoluto naquele a que podemos chamar o jogo da década. 

A FESTA DO GOLO

Mesmo com uma goleada das antigas, mesmo com uma grande exibição, a verdade é que esta jornada não dissipou ainda totalmente o efeito Arouca.
No Benfica, o mesmo fez-se sentir pela positiva: desta vez a equipa entrou a matar e não deu hipóteses ao adversário de sonhar com pontos. Como deveria ter feito há duas semanas atrás.
O problema é que no Sporting, aquele golpe de infortúnio (ou de inépcia, como se queira) aos 95 minutos do Benfica-Arouca, serviu para dar vida, motivação e serenidade a Gyokeres e companhia. Se estivessem dois pontos atrás e com toda a pressão do mundo em cima de si, estou em crer que os leões não lograriam prestações tão autoritárias como a que tiveram no Bessa.
Resumindo, o Benfica, para ser campeão, tem mesmo de vencer o dérbi. E se o vencer por margem mínima, ainda tem de, pelo menos, empatar em Braga - bem como, claro, vencer no Estoril.
Mesmo jogando bem, mesmo goleando, há ainda uma montanha par subir. A favor tem o melhor plantel, a melhor equipa e o melhor treinador. Contra, o melhor jogador que me recordo de ver no Sporting, e que vai ser muito difícil de parar na Luz, para mais tendo o Benfica de assumir os riscos do jogo e os espaços atrás que isso implica.
Sobre o jogo com o Avs (?!) diga-se ainda que o árbitro conseguiu ser protagonista, o que numa partida com 6-0 é notável. Não sei de onde surgiu a peça, mas os sinais dados pelo CA não são nada bons.
Quanto aos jogadores encarnados, gostei particularmente dos dois turcos. Quando é para elogiar Kokçu, também o tenho de fazer.
Segue-se mais uma final. E o Estoril não me traz boas memórias.

UM BOM TREINO

Não se esperava outra coisa.
Enquanto o Tirsense teve forças, foi conseguindo evitar a goleada. Não esquecendo que para a maioria dos seus jogadores, este era o jogo de uma carreira. 
O Benfica foi fazendo tranquilamente o que lhe competia, sem forçar, sem desgaste, sem risco de lesões, e quando teve de ser lá marcou, acabando a golear com naturalidade. Desde o sorteio que o Jamor nunca esteve em causa, e após a primeira-mão nem sequer carecia de esforço, pelo que o objectivo desta partida era treinar, rodar, preferencialmente sem passar vergonhas. Tudo foi conseguido.
Neste tipo de partida, não esperando grande qualidade colectiva de um onze alternativo, interessa-me sobretudo ver as individualidades - principalmente aquelas que aparecem menos. Nesse particular são de sublinhar mais três estreias na equipa principal, mas, sobretudo, mais uma entrada vistosa de Prestianni.
Não vejo os treinos, não conheço o jovem. Para não jogar, Bruno Lage tem certamente razões que os adeptos desconhecem. Do que se vê em campo, Prestianni merecia claramente mais minutos. Recordemos que realizou uma extraordinária pré-temporada, e foi titular nas primeiras jornadas, ainda com Roger Schmidt. Talento não lhe falta. 


ONZE PARA RODAR

Este é, provavelmente, o jogo oficial mais fácil da história recente do Benfica. Já o seria em qualquer circunstância. Com os 0-5 da primeira mão, transformou-se num mero passeio.
Com o campeonato a escaldar, e a presença no Jamor mais do que assegurada, a ocasião serve para dar ritmo aos menos utilizados. O onze que proponho podia ser qualquer outro - a equipa B, os Sub 19, ou, quem sabe, até um grupo de onze adeptos bem escolhidos na bancada. Optaria por dar minutos a todos aqueles que não tem sido regularmente titulares. Sobram ainda, para a segunda parte, André Gomes, Leandro Santos, João Rêgo, Nuno Félix e Arthur Cabral.
Venha o AFS (Avs, Aves ou lá como se chama a coisa).

UMA PERDA PARA A HUMANIDADE

Foi com enorme tristeza que tomei conhecimento da morte do Papa Francisco.
Independentemente das convicções religiosas de cada um, trata-se de uma perda para a humanidade. O seu legado e a sua intervenção está, e esteve, muito para além do plano estritamente espiritual. A sua mensagem de paz e de tolerância toca a tudo e a todos, sejam ou não crentes.
Espero que um novo Papa possa continuar o seu trabalho, no sentido de tornar a igreja mais virada para fora, mais agregadora e mais focada nos verdadeiros problemas do mundo - o que a tornará certamente muito mais relevante e também mais atractiva para os jovens (de idade e/ou de espírito).
Além de tudo o mais, Francisco era também (como qualquer argentino) um grande adepto do futebol, e, em particular, do seu San Lorenzo.
Curvo-me perante a memória de um grande Homem.
Paz à sua Alma.

ESTRELINHA E NÃO SÓ

Tendo um guarda redes a altíssimo nível e um ponta-de-lança letal, não se poderá falar apenas de sorte.
O Benfica esteve longe de fazer um grande jogo. Mas fez um grande resultado - que é a única coisa que importa.
Podemos pois, agora, fazer de conta que se ganhou ao Arouca, e se empatou em Guimarães. Era mais normal e aceitável. Tudo estaria bem.
Enfim, três preciosos pontos, boa gestão dos cartões e retoma dos niveis de confiança. 
Segue-se o Tirsense, partida em que até com onze adeptos bem escolhidos na bancada o Benfica passaria a eliminatória. Boa oportunidade para rodar o plantel e pensar no Aves.
A luta continua.

NOMEAÇÕES PROVOCATÓRIAS

Fábio Veríssimo a apitar o Sporting, e Manuel Oliveira no VAR do Guimarães-Benfica, são nomeações provocatórias e quase insultuosas depois do que aconteceu na semana passada.
Alguém quer dar o campeonato ao Sporting. Se assim é, entregue-se já o troféu e escusamos de perder tempo e paciência.
A atitude de total afronta que António Nobre manifestou na Luz, ao insistir numa grande penalidade que toda a gente (incluindo o VAR e ele próprio) viu não existir; um penálti claro por assinalar nos Açores; e agora estas nomeações, levam-me a esperar o pior nas próximas jornadas.
É verdade que o Benfica deu margem para que isto estivesse a acontecer. Tinha de ter ganhado ao Famalicão, ao Moreirense, ao Aves, ao Casa Pia e ao Arouca. Ou ao menos, não podia ter perdido pontos com todos eles - como de facto aconteceu. Mas o Benfica, e qualquer outra equipa, tem de ganhar ou perder dentro do campo. Temo que este campeonato esteja a ser cozinhado fora dele.

ESTÁ AQUI TUDO

Nem sempre estive de acordo com ele, mas ultimamente tem acontecido com alguma frequência. Além da assinalável qualidade dos textos, coisa cada vez menos comum nos jornais desportivos:

."Longe vão os tempos em que o VAR era tido por muitos como uma refrescante novidade, talvez a fundamental mudança necessária a um futebol envolto em desconfiança. Os anos passaram e o VAR — ideia esplendorosa se mantida no campo teórico em que devia ter permanecido — conseguiu o desfecho mais provável: acrescentou uma camada de suspeição a um processo já de si pouco fiável. Tudo somado, o VAR deu-nos mais ângulos de câmara para constatarmos que tudo ficou essencialmente na mesma.
A tecnologia tem destas coisas. Compraram o hardware com pompa e circunstância, mas esqueceram-se de atualizar o software da arbitragem para incluir competência, transparência ou um critério de decisão que desarmasse qualquer dúvida e descansasse a maioria dos adeptos. Se o leitor chega a esta passagem do texto convicto da utilidade do VAR tal como o conhecemos, isso é aquilo a que a arbitragem chama um lance de interpretação, com a diferença de que neste caso não teremos de aguardar 10 minutos enquanto alguém procura forma de justificar uma decisão errada.
Por lance de interpretação entenda-se um recurso linguístico utilizado para explicar aos plebeus (nós) que aquilo que estamos a ver não possui características objetivas. Como tal, o lance pode levar a conclusões diametralmente opostas segundo as quais aquilo que para mim é amarelo poderá ser cinzento aos olhos de outra pessoa. Para alguns é a magia do futebol. Eu vejo nisso uma morte lenta.
Acontece por vezes que alguns lances de interpretação são de tal forma flagrantes que toda a gente concorda que uma coisa amarela não pode mesmo ser cinzenta, ou que várias coisas amarelas não são definitivamente cinzentas, nem mesmo quando alguns dos que ajuizam são cinzentos desde pequeninos. É extraordinário e aconteceu este fim de semana na liga portuguesa, com uma sequência de decisões erradas que poderão determinar o vencedor de um troféu que garante uma premiação direta, por via da Liga dos Campeões, na ordem das dezenas de milhões de euros, e uma valorização dos ativos envolvidos nessa conquista, cujo impacto pode salvar ou destruir uma política desportiva e os seus responsáveis. Coisa pouca.
A successão de decisões inexplicáveis deste fim de semana acontece, por improvável coincidência, depois de uma mão cheia de outras que bafejaram a mesma equipa presa por pontas e contribuíram de forma decisiva para que, à data em que escrevo este texto, a poucas semanas do fim da época, essa equipa continue na Taça de Portugal e permaneça em primeiro lugar no campeonato. O mistério adensa-se quando notamos que tudo isto acontece depois de os responsáveis por essa equipa, nomeadamente o seu treinador e o presidente, terem utilizado os meios de comunicação ao dispor para um choro convulsivo destinado a restaurar a justiça nas decisões arbitrais, assim equilibrando a balança em seu favor.
A estratégia foi bem sucedida, tal é o rol de coincidências infelizes a que vamos assistindo. Surpreendentemente, descobrimos que o principal reforço do Sporting nesta recta final da temporada não passou os últimos meses lesionado. Afinal esteve sempre apto, à espera que o chamassem para ir a jogo.
Aqui chegados, há uma conclusão a tirar: o VAR perdeu toda e qualquer réstia de credibilidade para aquilo que falta deste campeonato ou dos próximos. É um instrumento entregue às mesmas suspeições de sempre, alicerçadas num misto de incompetência e protagonismo que se impõe ao jogo jogado. O problema irá agravar-se de forma profunda se as entidades responsáveis não fizerem um esforço profundo para a reabilitação.
E o momento para começar é agora. Desconheço se esse desígnio guia as novas lideranças da Liga e da FPF, mas aproveito os novos recomeços para sugerir uma coisa simples: instalada a mais que legítima desconfiança no VAR e em árbitros de campo que rejeitam as evidências, tornem as próximas semanais mais reputáveis. Em primeiro lugar, reconheçam em tempo útil os erros clamorosos cometidos pelos árbitros ao longo das últimas semanas. Em segundo lugar, nomeiem equipas de arbitragem estrangeiras, seguramente mais imunes às circunstâncias internas.
Se esta proposta parece extremista e uma desqualificação dos árbitros portugueses, não é porque quem escreve isto seja dado a extremismos. É porque os árbitros portugueses se colocaram nesta situação. E é por isso que as palavras oficiais do clube deveriam ter sido mais duras. É possível reconhecer que o nosso clube já foi beneficiado por decisões de arbitragem sem que nos comportemos como cadastrados que não somos. É importante que se seja mais incisivo e representativo do sentimento dos adeptos, porque são eles que representamos. É fundamental que se exija maior rigor e correção nas decisões quando estas se tornam tão escandalosamente enviesadas, se possível sem parecer que estamos a pedir por favor. Digo isto independentemente de acreditar que a direção, a equipa técnica e os jogadores farão tudo dentro de campo para nos dar a felicidade dos dois títulos em disputa até final da época.
Nisto, há quem gabe a coragem dos árbitros e apouque os atores principais. Munidos de um cinismo assinalável, tentam resumir a contenda a insuficiências do jogo jogado — esse que, já percebemos, poderá não garantir a vantagem num final previsto em photo finish. No entretanto, enquanto alguns nos tratam por tolos, deixou de ser certo para o comum adepto de futebol que as pessoas nomeadas semanalmente para apitar jogos em Portugal saibam traçar linhas paralelas à linha de cabeceira ou que tenham a objetividade e a competência necessárias para medir rigorosamente meia dúzia de centímetros de uma posição irregular que nenhum outro ser humano conseguiria descortinar. Coisa pouca.
O pressuposto do velho novo advento da tecnologia na arbitragem era o mesmo que já tinha falido no futebol português. A relação dos adeptos com uma nova forma de burocracia baseava-se na confiança, num sentido partilhado de que as decisões melhorariam com o VAR. Uma espécie de arco-íris em modo vai ficar tudo bem, só que não. Na verdade, o benefício da dúvida dado pelos adeptos foi desperdiçado de forma grosseira e o último fim de semana tornou evidente quem mais sairá beneficiado pelos erros cometidos, porque infelizmente nada se pode fazer em relação aos pontos já conquistados. Resta aceitar, mas aceitar o quê? Que a vida é mesmo assim e não podemos confiar na arbitragem, acenando resignadamente com a cabeça perante a influência direta na potencial decisão de um campeonato e respetivo acesso direto à Liga dos Campeões? Pergunto isto, porque o inverso — confiar sem reservas — pelo caminho se tornou impossível.
Não espero que a minha recomendação de árbitros estrangeiros seja bem recebida, mas aqui fica um repto cansado. Será da mais elementar prudência que, a partir daqui, com duas equipas no primeiro lugar em igualdade pontual a cinco jornadas do final, os responsáveis pela integridade das competições façam todos os possíveis para que, no final, possamos dar os parabéns à melhor equipa e à que mais tem feito para conquistar o primeiro lugar, e não à que chorou mais oportunamente. Aquilo que fizeram até agora não chega. Em rigor, dispenso ouvir o árbitro falar ao microfone enquanto insulta a minha inteligência. Fazê-lo sob um pretenso manto de coragem é, isso sim, um exercício de maquilhagem. Não nos enganem com essa verdade."
VASCO MENDONÇA em "A Bola"

ROUBO EM DOSE DUPLA

Podia vir aqui dizer que o Benfica tinha obrigação de chegar ao intervalo em vantagem. Que se pôs a jeito de ser surpreendido. Que no último minuto não conseguiu (uma vez mais) segurar o resultado. Que a goleada no Porto talvez tenha gerado algum triunfalismo. Mas não. Não foi por nada disso que o Benfica perdeu pontos. Na verdade, os encarnados marcaram dois golos e o adversário apenas um. O outro fica por conta de António Nobre que, mesmo após a devida intervenção do VAR, insistiu no absurdo de uma grande penalidade que toda a gente (incluindo ele próprio) viu não existir. 
Já na véspera, nos Açores, tinha havido outro assalto - com um penálti claro, cometido por Quaresma, que neste caso o VAR Hélder Malheiro entendeu ignorar, oferecendo assim os três pontos ao Sporting.
Já há muito tempo que não se via nada como isto. Destas, só me recordo nos anos noventa, em tempos de Apito Dourado. Tem havido erros, alguns incompreensíveis, mas não desta dimensão e logo em dose dupla - parecendo apontar para a existência de uma qualquer força oculta a querer impedir o Benfica de ser campeão.
Espero que as mudanças na FPF e na Liga não tenham nada a ver com isto. Se tiverem, o caso é ainda mais grave. Gostava de pensar que se tratou de mera coincidência. Não sei. Uma piada de mau gosto? Talvez.
No futebol português - talvez fosse mais adequado dizer, em Portugal - já não acredito em nada nem ninguém.
Mas se isto for para continuar até ao fim, então mais vale entregar já o troféu ao Sporting e escusamos de perder tempo a fingir que é tudo normal. Afinal de contas, o futebol vale o que vale. E assim, não vale nada.

NATURALMENTE, O ONZE DE GALA

A cinco vitórias do título, cada jogo é uma final. Seja contra quem for, terá de ser jogado como tal. Com o Arouca vai ser o "jogo do ano" - em que, qualquer perda de pontos pode ser fatal, e, acima de tudo, será inaceitável. O Benfica ainda tem de ir a Guimarães, a Braga e receber o Sporting. Não pode, de todo, ceder pontos ao Arouca. Há que entrar com tudo e marcar rapidamente. Quando, e se, estiver 3-0, então logo se faz a gestão dos cansaços.

UM BOM TREINO

Nem seria de esperar outra coisa. O Tirsense era, à partida, um adversário demasiado frágil para criar qualquer problema ao Benfica, e desde a vitória frente ao SC Braga que a equipa de Bruno Lage estava já, virtualmente, no Jamor.
A ocasião serviu para rodar alguns jogadores menos utilizados, e nessa medida correu muito bem. João Rêgo estreou-se a marcar e teve mais alguns bons detalhes, Schjelderup marcou, assistiu e mostrou ser merecedor de mais minutos (haverá motivos que desconhecemos para tal não estar a acontecer), e, sobretudo, Prestianni entrou a todo o vapor, e no pouco tempo que teve brilhou a alto nível.
Já na pré-temporada tinha gostado bastante do jovem argentino. Aliás, foi essa pré-temporada que o levou à titularidade, ainda com Roger Schmidt: parece que aconteceu há anos, mas Prestianni foi titular nas quatro primeiras jornadas deste campeonato, e suplente utilizado nas três seguintes, até se lesionar. Depois parece ter caído num buraco negro e nunca mais ninguém o viu.
Pelo que mostra em campo, seria jogador para actuar com muito mais frequência. Fora de campo, não sabemos. E se há coisa que Bruno Lage sempre soube fazer é lidar com jovens.
Seja como for, está ali um potencial craque. Tem tudo: muita técnica, velocidade, intensidade, e tanto marca belos golos, como faz assistências primorosas, como recupera bolas no seu meio-campo. Presumo que precise de uma maior maturidade, e acredito que não tenha ainda encontrado o rigor necessário nos processos de treino. Tem 18 anos e está bem a tempo. Terá de ser humilde e fazer todos os possíveis para não desperdiçar o enorme talento que tem.
Notas ainda para o regresso de Arthur Cabral aos relvados e aos golos, para o regresso de Tiago Gouveia à competição na equipa principal (e a bom nível, embora este adversário não o testasse no plano defensivo) e para a estreia de mais um jovem da equipa B, Wynder.
A segunda mão será mais um treino, e mais uma ocasião para dar ritmo a toda esta gente - que a qualquer momento pode fazer falta no campeonato.
Nota final para o Tirsense. Teria sido um adversário simpático e respeitável não fosse o caso de alguns dos seus jogadores, à falta de outros argumentos, vestirem a pele de carniceiros, e entrarem com demasiada violência e frequência às canelas dos jogadores do Benfica. Percebo que era o jogo das suas vidas, mas há formas muito melhores e mais dignas de brilhar. Não queriam com certeza passar a eliminatória. O que queriam então?

RESPEITO

Um parênteses para lamentar a perda de um Homem que, trabalhando a vida toda num clube rival, soube merecer o carinho e a admiração de todos. Naturalmente o Sport Lisboa e Benfica emitiu uma nota de condolências como, estou certo, o fará sempre que se trate de alguém que tenha dignificado o desporto, seja qual for a cor da camisola. Também eu me curvo perante a memória de Aurélio Pereira.

ONZE PARA BARCELOS

Acredito que seja suficiente para resolver já a eliminatória. Por muito respeito que mereça, o Tirsense é do 4º escalão...
 

5 x 3

Até parece pouco, mas ainda é demasiado para entrar em euforias precipitadas. Limitemo-nos à matemática: se o Benfica vencer estes cinco jogos será campeão. 
São cinco finais que, em caso de pleno de vitórias, podem vir a dispensar a última, e bastante difícil - em Braga. Sobretudo, creio que é extremamente importante chegar ao "Dérbi" em vantagem.
Acho que já será praticamente unânime que o Benfica tem o melhor plantel, e que tem o melhor treinador do campeonato. Consequentemente, tem a melhor equipa. Do outro lado está fundamentalmente um jogador - uma máquina de ataque e de golos na qual assenta todo o futebol do Sporting, e que é capaz de ganhar, sozinho, seja a quem for. 
Benfica vs Gyokeres é a história desta fase final de temporada, senão mesmo de toda a temporada. Veremos quem leva a melhor.

NOVA ORDEM

Dos últimos sete "Clássicos", o Benfica venceu cinco. Marcou treze golos e sofreu nove (cinco deles no mesmo triste jogo). Há pois uma clara tendência de mudança nos jogos entre Benfica e FC Porto. O medo cénico vai passando para o lado de lá. Mesmo nas partidas fora de casa, onde me recordo, por exemplo, de um período três longas décadas (de 1976 a 2006) com apenas uma vitória (a do César Brito), os encarnados têm vindo a equilibrar as contas. Nos últimos onze anos de Dragão para o campeonato: quatro vitórias, três empates e quatro derrotas.

AMASSO HISTÓRICO

É difícil encontrar adjectivos para a estrondosa exibição que o Benfica fez no Porto, sem dúvida a melhor de que me lembro em "Clássicos", e uma das melhores no campeonato desde os famosos 3-6 em Alvalade.
Para definir o que aconteceu bastará dizer que o resultado foi escasso face à produção da equipa. Além dos quatro golos, lembro-me de três bolas no mesmo poste ainda na primeira parte, duas grandes defesas de Diogo Costa uma em cada parte, e de remates de Di Maria e Schjelderup a rasar a baliza na segunda. Quase uma dúzia de ocasiões flagrantes de golo, perante um FC Porto que não é o que já foi, mas também não é a doçura em que agora o querem transformar. Aliás, durante alguns períodos da primeira parte (mormente os primeiros trinta minutos), com o resultado ainda tangencial, a equipa portista teve mais posse de bola, conseguiu dominar o meio-campo, sendo então difícil de imaginar o que aconteceria depois. Tal como me parecera na primeira volta, este FC Porto tem bons jogadores do meio-campo para a frente, tem um grande guarda-redes, mas uma linha defensiva a léguas de outros tempos. Bruno Lage soube aproveitar muito bem essa fragilidade, como já o soubera na Luz.
Foi de facto o Benfica, com os seus raides venenosos, que, nesse período, foi colocando o FC Porto em sentido. Foi o Benfica que se impôs, pela sua força, pela sua clarividência, face a um FC Porto que não estava para facilitar e queria mesmo fazer deste o jogo da época. Um golo a abrir e outro a fechar a primeira parte deram a confiança necessária para entrar com tudo após o intervalo, e, aí sim, espezinhar por completo o adversário.
Um lance de perigo após o 1-3 ainda assustou ligeiramente. O golo de Otamendi repôs alguma justiça numa partida que, sem margem para dúvida, merecia a goleada que teve.
Individualmente o destaque vai como é óbvio para Pavlidis (dez golos nas últimas nove jornadas). Quem frequenta este espaço saberá que sempre o defendi - mesmo num período em que, ou a bola batia na barra, ou obrigava os guarda-redes adversários a grandes intervenções, ou lhe era assinalado offside, ou acabava por ser atribuído autogolo (de repente lembro-me de dois, um deles justamente com o FC Porto na Luz). Diga-se que Pavlidis é muito mais do que um matador. Sabe movimentar-se, tem escola, ganha bolas, ganha espaços, assiste e marca. É o ponta-de-lança completo que faltou ao Benfica, por exemplo, na temporada passada. E que diferença faz ter um bom ponta-de-lança...
Também Akturkoglu fez uma grande exibição. Aursnes foi o pêndulo habitual. E Di Maria apareceu num momento de génio, criando, com uma assistência primorosa, o golo que de alguma forma, naquela altura, garantia a vitória. A defesa esteve bem quando foi preciso (mas, atenção, Dahl é médio, jamais lateral direito...).
Sobre João Pinheiro não há muito a dizer: é o melhor árbitro português da actualidade. Em terra de cegos quem tem um olho é rei, mas uma boa arbitragem também é de sublinhar, ainda que tenha ficado um cartão amarelo por mostrar a João Mário, um pontapé de canto por assinalar, e o fiscal-de-linha que na primeira parte acompanhou o Benfica se tivesse equivocado em dois lances - um deles o do primeiro golo, sancionado pelo VAR.
E pronto. Foi ultrapassado um obstáculo difícil. Foi-o com brilhantismo. É uma demonstração de força. É a quinta vitória do Benfica nos últimos sete "Cássicos" (a melhor série desde Eriksson). Vai reforçar a confiança. Mas só valeu três pontos, tantos como o jogo com o Farense, e, espera-se, o jogo com o Arouca da próxima semana. Pelo meio há Tirsense, que permitirá manter em acção os menos utilizados.
É por jogos como este que adoro futebol e adoro o meu clube. O Benfica ajuda-me a ser mais feliz. Por isso deixem-me terminar dizendo: "Obrigado Benfica!"

ONZE PARA O DRAGÃO

Que seja um bom espectáculo, que ganhe o Benfica, e que o resultado não seja decidido pelo árbitro ou pelo VAR. Se houver penáltis (como o sobre António Silva com o Farense) que sejam assinalados. Se houver simulações (como a de Catamo no jogo com o Rio Ave) que sejam revertidas. E que não sejam anulados golos por foras-de-jogo de 3 centímetros - como também já aconteceu em "Clássicos".

SOFRIMENTO DESNECESSÁRIO

Não é a primeira vez, nem a segunda, que, nesta temporada, o Benfica entra forte, marca, parece dominar por completo os jogos, e depois acaba com um futebol indigente e o credo na boca para segurar o resultado.  Vila das Aves e Rio Maior são os piores exemplos de partidas que pareciam dominadas e ditaram a perda de cinco preciosos pontos. Com o Farense acabou por correr bem, mas fica a sensação que, pelo menos no plano defensivo, a equipa (que no ataque consegue, por vezes, ser empolgante) ainda está longe de dar garantias de solidez. E revela uma gritante incapacidade de controlar os ritmos dos jogos e segurar vantagens.
Antes do "Clássico" não esperava, naturalmente, uma grande exibição. Mas esperava a segurança e a consistência suficientes para não dar tantas vidas a um adversário que está no fundo da tabela e tem a sua sentença de descida quase ditada. O Benfica facilitou, e ficou à beira de um precipício que, nesta altura da época, teria consequências dramáticas.
Também houve coisas boas. Akturkoglu está de regresso aos seus melhores dias, e, com dois golos e uma assistência, foi claramente o homem do jogo. No Dragão será ele e mais dez. Di Maria não jogou nada, mas é uma boa notícia perceber que está fisicamente recuperado. E Aursnes está em excelente forma.
Não vi ainda imagens televisivas, mas dizem-me haver um penálti sobre António Silva. De resto, o árbitro pareceu-me fraquinho.
Segue-se aquele que é, pela história, pela tradição, pelos factos e pelas circunstâncias, o jogo mais difícil do campeonato. Acredito que, em caso de vitória, o Benfica embalará para o título. Mas um empate também não seria dramático, tendo em conta que ainda haverá um "Dérbi" na Luz, na penúltima jornada.

ONZE PARA O FARENSE

Três pontos imperiosos. A jogar bem ou a jogar mal, tanto faz.