RESISTIR

Estamos a 31 de Janeiro, e até às doze badaladas da meia-noite, a angústia ocupará os nossos espíritos. Alguém deixará o plantel? Como ficará a equipa? Como ficarão os adversários? Quem sairá mais enfraquecido desta espécie de roleta de Inverno? E a Turquia? E a Rússia? E os árabes? Ainda estarão abertos a negócios? Até quando? Porquê? Não me recordo de quem partiu a infeliz ideia de abrir o mercado de transferências de jogadores em plena competição. Mas partiu, seguramente, de alguém que gostava pouco de futebol. Se o calendário de Verão já oferece muitas dúvidas (sobretudo pelo seu encerramento tardio), esta “janela” de Janeiro é uma verdadeira monstruosidade. Porém, ela existe, pelo menos até ao dia em que, para além de recolher os ovos de ouro, os agentes interessados se lembrem também de cuidar da galinha que os põe. Entretanto, e com o entusiástico suporte da comunicação social, assistimos, durante semanas a fio, a uma hemorragia noticiosa – coberta de falsidades, pressões, interesses, e jogadas de bastidores típicas desta espécie de off-shore global em que se transformou o mundo da bola - que deixa as equipas expostas à incerteza, quando não a vulnerabilidades desportivas inesperadas, justamente na fase da temporada em que a estabilidade tem um preço mais elevado. É injusto pedir a qualquer treinador que forme um conjunto, mantenha automatismos, e incremente uma dinâmica ganhadora, quando, num ápice, em momento chave, vê sair porta fora alguns dos mais valiosos elementos da sua equipa. E, pior que isso, vê outros permanecer contrariados, perante o aceno de agentes parasitários, para quem o futebol se tornou terreno fértil para dinheiro fácil. Poucos estão a salvo. Apenas os financeiramente mais poderosos, sendo aqui o futebol uma perfeita metáfora da própria vida. Situado num país periférico, o Benfica não escapa a estas ameaças. É forçado a enfrentá-las, e por vezes a ceder-lhes. Que a meia-noite chegue depressa. Que o mercado feche a porta. Que o futebol resista.

À HORA CERTA

Sou do tempo em que as tardes de domingo eram sinónimo de futebol. A jornada começava integralmente às 15.00 horas, e terminava às 17.00 horas. No horário de Verão, acrescentava-se uma hora. À noite viam-se os resumos, já no conforto do lar, preparando uma semana de trabalho ou de escola, conforme o caso. A partir da década de noventa, as transmissões televisivas foram afastando o futebol do seu horário natural, afastando, com isso, o povo dos estádios. Talvez fosse esse o intuito daqueles a quem convinha que a estrutura de receitas dos clubes ficasse cada vez mais dependente do cachet televisivo, tolhendo-lhes assim a capacidade negocial, numa relação de poder que se foi tornando cada vez mais assimétrica. Ao passo que nas principais ligas europeias continuámos a ver as principais partidas disputadas à luz do dia, em Portugal quase todos os jogos foram progressivamente empurrados para horário nocturno - por vezes aos sábados, mas também aos domingos, e até às segunda-feiras. Lá fora, estádios cheios. Cá dentro, bancadas tristes e despidas. Lá fora, sustentabilidade financeira. Cá dentro, operadores televisivos ricos e clubes falidos. No caso do Benfica, tratando-se de um emblema com implantação de norte a sul do país, parte significativa dos sócios e adeptos viu-se impedida de se deslocar à Luz. Para quem resida, por exemplo, em Viseu, Guarda, Bragança ou Faro, sair do estádio às 23.00 horas, e ainda ter de suportar uma longa viagem, não pode deixar de ser um exercício penoso, sobretudo se no dia seguinte houver que trabalhar bem cedo. O regresso do futebol às tardes de domingo (ou de sábado) é pois uma excelente notícia que esta temporada trouxe aos benfiquistas. Principalmente àqueles que vivem fora de Lisboa, e para quem ao próprio jogo há que acrescentar a duração da viagem de regresso a casa. Vicissitudes várias talvez ainda não tenham permitido que tal se reflicta com firmeza no número de espectadores no estádio. Mas o tempo irá seguramente dar razão a esta aposta.

DESTE MUNDO E DO OUTRO

1. Eusébio merecia. O Benfica, e os benfiquistas, estiveram à altura da ocasião. Não terá sido uma partida excepcional sob o ponto de vista técnico, mas foi uma grande tarde de futebol, com estádio cheio, muito entusiasmo, emoção a rodos, bons golos, desportivismo dentro e fora do campo, e uma grande vitória do Glorioso. É justo dizer-se que também os adeptos do clube rival, na sua maioria, souberam comportar-se com dignidade, respeitando a memória do Rei, e contribuindo para a fantástica atmosfera que este jogo – devolvido ao horário nobre do futebol – proporcionou. A nossa vitória foi justíssima. Podia até ter sido mais ampla, dada a demonstração de superioridade que o conjunto encarnado foi capaz de exibir ao longo dos noventa minutos. Não enchendo o olho, o Benfica deixou claro que tem a melhor equipa do panorama nacional, sendo, nesta altura, o mais forte candidato ao título. Conquistámos apenas três pontos. Na tarde do próximo domingo estarão em jogo mais três. Faltam ainda quinze finais, e em cada uma delas será necessário repetir o empenho dentro do campo, e o apoio nas bancadas. Se tal acontecer, em Maio a festa será nossa. 2. Cristiano Ronaldo venceu a Bola de Ouro da FIFA pela segunda vez. Trata-se de um reconhecimento justo pelo seu desempenho ao longo do ano de 2013, em que foi efectivamente o melhor. As comparações com Eusébio são dispensáveis, pois não acrescentam nada a um ou a outro - ambos estrelas planetárias, cada qual a seu tempo. Bom seria, isso sim, que noutros sectores de actividade o nosso país mostrasse ao mundo tão eloquentes representantes. Eusébio no Benfica, Cristiano Ronaldo no Manchester United e no Real Madrid, ambos na Selecção Nacional, alcançaram um nível apenas ao alcance de um estrito lote de predestinados. Juntamente com Di Stefano, Pele, Maradona, Cruyff e Messi, fazem parte integrante da história do futebol. Oxalá o Mundial do Brasil consagre definitivamente Ronaldo, tal como o Mundial de Inglaterra consagrou Eusébio.

O NOSSO REI

Sabíamos que um dia teria de acontecer. Porém, nunca estamos devidamente preparados para ver partir aqueles que nos são queridos. Achamos sempre cedo demais, mesmo quando o tempo vivido foi suficiente para deixar uma marca profunda. Eusébio deixou uma marca profundíssima, quer no Benfica, quer no país. Pelo talento que fez dele um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, e também pela dimensão humana que sempre soube aliar ao sucesso que atingiu. Foi a conjugação dessas duas vertentes que o transformou numa lenda. É esse traço incomum que não deixa espaço a quaisquer comparações, podendo, e devendo, servir de exemplo a todos – dentro ou fora do desporto. Eusébio é Benfica escrito com sete letras diferentes. É, e sempre será, o nosso supremo Rei. Não foi ele que criou o clube, mas foi ele que criou o clube grandioso que a minha geração herdou. Um mero olhar estatístico permite facilmente reconhecer um Benfica antes, e outro depois, do Pantera Negra. Infelizmente, já não cheguei a tempo de o ver jogar ao vivo. É algo que lastimo, e que, confesso, me faz sentir de certa forma amputado no meu benfiquismo. Também não privei com ele. Deu-me um inesquecível autógrafo em 1983, à porta do antigo Estádio da Luz; e apertei-lhe a mão, bastantes anos mais tarde, numa ocasião de circunstância. Mas não é preciso muito para se conhecer Eusébio, tal o seu gigantismo, tal a sua transparência, tal a sua simplicidade. O King foi, é, e continuará a ser, demasiado grande (e para se ser tão simples é preciso ser mesmo muito grande), como jogador, e como figura histórica nacional e internacional. Sobrepôs-se ao país. Sobrepôs-se até ao próprio Benfica. Foi único. É único. Muitas palavras têm sido ditas, e escritas, nos últimos dias, a seu respeito. Dir-se-ão, e escrever-se-ão, muitas outras. Mas todas elas serão sempre insuficientes para traduzir fielmente o seu legado. A fasquia que Eusébio nos deixa é altíssima. Teremos agora de saber estar à altura da sua memória. É esse o nosso desafio.

CLÍNICA DA LUZ

Artur, Siqueira, Sílvio, Fejsa, Matic, Salvio, Enzo Perez, Ruben Amorim, Sulejmani, Cardozo e Markovic. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma proposta de “onze” apontada aos próximos jogos. Trata-se, sim, da longa lista de ausências (a maioria por lesão, algumas também por castigo) que afligiram o Benfica nesta primeira fase de temporada. Para completar o inusitado cenário, resta acrescentar o próprio treinador Jorge Jesus - também ele ausente por castigo durante várias semanas. Salvio, que havia estado em destaque na pré-temporada, lesionou-se à 3ª ronda, para não mais voltar a jogar. Amorim, que se fixou como titular em Atenas, permitindo então a adopção de um novo sistema táctico, lesionou-se no jogo seguinte. Cardozo, que depois da novela de início de época recuperara a sua melhor forma, e mostrava pontaria mais afinada do que nunca, também ficou no estaleiro, onde se mantém. Siqueira, que aparentava ter condições para resolver o velho problema da ala esquerda da defesa, rapidamente se viu, também ele, impedido de jogar. Matic e Enzo foram castigados à vez, inviabilizando, durante duas jornadas, a construção do melhor meio-campo encarnado. Sílvio só em Outubro pôde discutir um lugar. Fejsa lesionou-se em Paris. Markovic em Lisboa. Sulejmani em Belgrado, e, por fim, Artur em Olhão. Quando um destes dias ouvia um comentador televisivo culpar Jesus pela indefinição do onze-base do Benfica, quase tive vontade de rir. É verdade que nem sempre os jogadores têm demonstrado a fibra de campeões que se vira, por exemplo, ao longo da maior parte da temporada passada. É também verdade que alguns dos reforços demoraram tempo demasiado a adaptar-se ao grau de exigência do clube. Mas, caramba, com tantos contratempos, manter ainda assim o 1ºlugar da tabela (embora de forma partilhada), é algo que deveria conferir algum pudor à crítica. Sejamos justos. O que seria dos nossos adversários directos caso padecessem de tão extenso rol de contrariedades? Estariam na luta?

UM ANO DURO

Não é fácil escrever sobre 2013. Andámos entre o céu e o inferno, passámos da euforia à depressão, tudo em apenas vinte dias. E ainda não nos recompusemos totalmente. No dia 6 de Maio estávamos, 23 anos depois, apurados para uma final europeia, e bastava-nos vencer Estoril, Moreirense e V.Guimarães para, 27 anos depois, voltar a conquistar a “dobradinha”. Vivíamos, então, às portas de uma das melhores épocas de sempre. No dia 26 de Maio, tínhamos perdido tudo. Os golpes foram fundos. Sobretudo o desferido por um tal Kelvin, cujo nome ainda me arrepia pronunciar, aos 92 minutos de um jogo cuja memória ainda me custa digerir. Na hora do balanço, não é justo, não pode ser justo, limitar o ponto de vista estritamente aos troféus que nos fugiram das mãos. Todo o percurso dos quatro primeiros meses do ano foi fantástico, e merece ser relevado. A chegada a uma final europeia não é, não pode ser, uma perda - entra para a história, como, por exemplo, a de 1983. A mágoa não tem de trazer indignação, agitação, nem qualquer caça às bruxas. O que não significa que descole facilmente das nossas almas, até porque a nova época ainda não nos deu motivos para esquecer a anterior. Para lá do Futebol, pode dizer-se, porém, que 2013 foi um ano de sucesso. À cabeça de uma lista de triunfos surge o Hóquei em Patins, com o inédito título europeu, conseguido em circunstâncias particularmente saborosas (de que, infelizmente, devido a um motivo familiar de força maior, não pude desfrutar) -, ao qual se seguiram, já na nova temporada, outras conquistas internacionais. Os campeonatos de Basquetebol e Voleibol também vestiram de vermelho. O Futebol Formação trouxe-nos títulos em duplicado (Juniores e Juvenis) o que não acontecia desde 1989. O impressionante Museu Cosme Damião foi inaugurado. A Benfica TV entrou numa nova fase da sua vida. 2014 está à porta. A serenidade e a união são as melhores chaves para o tornar melhor que 2013. Um desejo? Que a sorte nos devolva aquilo que nos retirou.

NESTA DATA QUERIDA

A Benfica TV festejou esta semana o seu quinto aniversário. E se há projectos com bastos motivos para festejos, este é seguramente um deles. Poucos acreditariam, em 2008, que tão ousada iniciativa redundasse no êxito que hoje se vê. Depois de um período de amadurecimento, a estação entrou numa nova era da sua existência quando, no último Verão, passou a transmitir os jogos da nossa equipa principal de futebol, juntando também à grelha de programação aquela que é, indiscutivelmente, a mais empolgante liga europeia da actualidade. Devo confessar que, durante algum tempo, duvidei que tal fosse possível. Parecia-me um sonho demasiado alto, e uma iniciativa demasiado arriscada, avançar para um canal de TV com as características daquele que temos hoje, e que faz as delícias de todos os benfiquistas. Tenho de dar a mão à palmatória. Assinante deste o primeiro momento, vejo a programação melhorar dia após dia, vejo os meios técnicos envolvidos trazerem qualidade superlativa às transmissões – não só do futebol, como também de todas as modalidades que compõem o puzzle do eclectismo encarnado. Vejo! Sobretudo vejo, com gosto, fervor clubista, mas também com a exigência de um telespectador atento, que aprecia o trabalho de profissionais de excelência, os quais, dia após dia, hora após hora, fazem o Benfica entrar-nos pela casa dentro. Não podemos adormecer à sombra do êxito conquistado. Há sempre espaço para melhorar, para inovar, e essa deve ser a matriz de pensamento daqueles que trabalham na casa. Mas o que foi feito nestes cinco anos constitui matéria suficiente para que todos os envolvidos estejam de parabéns. Deixando uma palavra especial para o Ricardo Palacin (profissional, benfiquista e, se me permitem, também amigo), e, nele, para todos os restantes colaboradores da Benfica TV, não posso deixar de saudar aquele que é o principal obreiro de todo o projecto: o Presidente Vieira, cuja sucessão de realizações vai tendo cada vez menos paralelo na história centenária do clube da Luz.

TUDO PELO TÍTULO

Decorridas onze jornadas da Liga, estamos finalmente no topo da classificação. A época iniciou-se aos soluços, mas, com o decorrer das semanas, e resistindo às contrariedades que nos surgiram por diante (de arbitragens altamente penalizadoras, a uma série interminável de lesões), lá chegámos ao lugar onde gostamos de estar. Independentemente da questão formal sobre quem lidera efectivamente a tabela, a verdade é que nenhum clube tem mais pontos que o Benfica, sendo que já defrontámos, fora de casa (empatando), aquele que figura a nosso lado. Não é preciso puxar muito pela memória para nos recordarmos quão precário pode ser um primeiro lugar antes do final da prova. Porém, para quem até há pouco mais de um mês andava por uma tristonha terceira posição, a cinco pontos da liderança e a três do segundo colocado, tomar a dianteira não pode deixar de constituir factor de motivação acrescida – até pelo simbolismo que tal representa, depois das especulações e desconfianças que acompanharam a equipa desde o inglório final da temporada anterior. Esse dossier, de resto, parece - agora sim - finalmente fechado. O que se passou por lá ficou, e o momento manda que nos unamos em torno dos objectivos que queremos, e podemos, alcançar. O principal de todos é precisamente este Campeonato, que tem, até ao Natal, três jogos fundamentais. Arouca, Olhanense e V.Setúbal são o tipo de partida em que é rigorosamente proibido vacilar, e onde o grande desafio se coloca no âmbito dos índices de concentração competitiva. Neste momento, nada - nem mesmo o sonho de um dificílimo apuramento europeu -, nos pode afastar da rota das vitórias domésticas. Os próximos nove pontos têm de ser nossos, de forma a entrarmos em Janeiro com a moral em alta, e recebermos, de peito feito, aquele que ainda considero tratar-se do principal opositor nesta luta. O Campeonato parece querer pôr-se a nosso jeito. Não podemos voltar a desperdiçá-lo. A hora é de união, e não permite hesitações: todos por um, e tudo pelo título!

O GOLO

Ao longo da partida do passado sábado, e mergulhado na ansiedade de ver o relógio correr sem que a bola entrasse na baliza do SC Braga, lembrei-me de Óscar Cardozo. É verdade que temos outros avançados de qualidade. Mas ninguém, como o paraguaio, é tão eloquentemente sinónimo de golo. E, por muito que nos esforcemos por encontrar motivos para ganhar ou perder um jogo de futebol, por mais sofisticadas que sejam as divagações tácticas, por muito que louvemos a segurança dos defesas, a regularidade e eficiência dos médios, a criatividade e velocidade dos extremos, são os golos que garantem as vitórias, e são os goleadores que normalmente os fazem. Daí a minha enorme admiração por eles. O que eu gosto no futebol é de golos. Confesso que não me impressionam particularmente fintas, toques de calcanhar, chicuelinas, rabonas ou outras demonstrações circenses, quando não têm a consequência devida. Sem a bola dentro da baliza, nada feito. Por via disso, são os pontas-de-lança, com a sua eficácia, com o seu sentido de desmarcação, com a arte de aparecer no momento e no local certos, com a capacidade de lutar duramente entre os centrais adversários, de ganhar duelos nas alturas, que merecem a minha maior dose de admiração. Sei que esta não será uma opinião partilhada por todo o “Terceiro Anel”. Lembro-me como Nené, Magnusson, Nuno Gomes, e o próprio Cardozo, foram, cada um a seu tempo, incompreendidos por parte significativa dos adeptos do Benfica. Porém, foram eles que mais vezes me fizeram levantar das bancadas, e soltar gritos de alegria. É a estes, e outros, que devo a minha paixão pelo jogo, e pelo nosso Glorioso clube. Também por isso, defendi neste espaço a importância da manutenção de Óscar Cardozo no plantel encarnado, quando muitos (com os nossos adversários à cabeça) o quereriam ver pelas costas. Um homem que marca quase 200 golos num clube não pode, jamais, ser descartável. É este o meu género de ponta-de-lança. E Eusébio, que sabe de golos como ninguém, também o diz.

MÚSICA DE FUNDO

Sem querer viajar até ao tempo dos penáltis à Jardel, e ignorando as incidências do empate de Setembro em Alvalade, as três únicas derrotas do Benfica ante o Sporting em oito anos, tiveram, todas elas, um ponto em comum: ficou sempre um penálti por marcar a nosso favor. Foi assim em 2008, com Jorge Sousa (3-5); foi assim em 2009, com Olegário Benquerença (2-3); e a história repetiu-se em 2012, com Artur Soares Dias (0-1). No primeiro caso ficou por sancionar um derrube a Luisão, no segundo um agarrão a Aimar, e no terceiro uma rasteira a Gaitán. Não obstante tudo isto, o nosso vizinho continua a vitimizar-se, à medida que as vitórias benfiquistas se vão sucedendo. Já não há dérbi que não venha acompanhado da habitual música dos dias seguintes - salvo quando o Sporting ganha, o que apenas aconteceu nas ocasiões mencionadas. Nessas, não houve “música”. Houve festa, do lado de lá, resignação do lado de cá, e silêncio generalizado nos media. Quando somos nós a vencer, pelo contrário, é o que se vê, e o que se ouve. A Taça da Liga de 2009 foi talvez o momento mais ilustrativo desta realidade. Um só lance, um só erro (que na altura permitiu apenas o empate), e logo um escândalo de que ainda hoje falam com a indignação de uma virgem ofendida. Os factos remetem-nos para um simples penálti mal assinalado. A lenda, para um roubo premeditado e aparatoso que subtraiu um troféu às vitrinas de Alvalade. Na época passada…mais do mesmo. Uma arbitragem que não marcou faltas a ninguém, em nenhum local do campo, foi o que bastou para descobrirem 2, 3, ou 4 penáltis, mais todos os que fossem necessários para justificar nova derrota. Com triunfo benfiquista, o último dérbi não poderia escapar ao folclore. No estádio ninguém viu nada. Algumas horas mais tarde, a narrativa estava já composta, com o ruído do costume. Passado tanto tempo, ainda perdura. As arbitragens portuguesas têm muito que se lhes diga. Mas para o Sporting, aconteça o que acontecer, se o Benfica ganha, a culpa é do árbitro.

SINAL DOS TEMPOS

Terminado o Dérbi do passado sábado, notava-se, entre os benfiquistas, um sentimento bastante contido de satisfação. Ou eram as bolas paradas – um problema a resolver -, ou era a recuperação consentida na segunda parte, ou era a fracassada expectativa de goleada que (confessem lá...) todos tínhamos ao intervalo, a verdade é que, descontada a beleza do espectáculo, ganhar ao Sporting de forma tão apertada já não nos deixa propriamente eufóricos, mas tão só com a sensação de dever cumprido. Paradoxalmente, do lado de lá, notava-se uma atmosfera bem positiva, de onde se depreendia um certo alívio por perderem por poucos (depois dos tais 3-1 ao intervalo), e até algum regozijo pela capacidade de discutirem o jogo até final. Aliás, já da recente derrota diante do FC Porto a generalidade dos sportinguistas havia saído de peito feito, como se estas vitórias morais (?) tivessem o condão de lhes devolver o estatuto de outrora. Diga-se que, entre estes dois estados de espírito, nem tudo é a preto e branco, ou, para ser mais exacto, a vermelho e verde. Vencer o Sporting, depois de uma roleta de emoções tão vibrante e arrebatadora, não pode deixar de nos encher a alma. É verdade que poderíamos ter goleado, é verdade que aquele golo ao minuto 92 nos fez reviver fantasmas de um passado recente, mas, caramba, ganhámos! E ganhámos bem, depois de uma grande partida de futebol, durante a qual fomos sempre superiores. Para o rival, contente ou não com isso, fica apenas mais uma derrota. A 11ª nos últimos 15 Dérbis. Compreende-se o esforço – e louve-se a eficácia - do seu aparelho de comunicação para não deixar estoirar o balão da euforia (semelhante ao que, não há muito tempo, encheu Domingos Paciência), procurando álibis na arbitragem. Mas não é preciso ter memória de elefante para recordar o jogo de Alvalade, já nesta mesma época, ou, indo um pouco mais atrás, um tristemente célebre empate a dois, na velha Luz, com este mesmo árbitro. Portanto, esta já tradicional gritaria não nos vai comover.

DO PAVILHÃO AOS RELVADOS

1. No passado sábado, a nossa equipa de Hóquei em Patins viveu mais um momento histórico, ao vencer, pela segunda vez, a Taça Continental. Em pouco mais de três anos, o hóquei encarnado conquistou oito troféus, quatro deles internacionais. A jóia da coroa foi, naturalmente, o triunfo no Dragão, que valeu uma inédita Liga dos Campeões, à qual a comunicação social nunca chegou a dar o devido destaque, preferindo então explorar até à náusea o alegado caso-Cardozo, ocorrido uma semana antes - sinal de uma confrangedora cultura desportiva, e de um sistema mediático que prefere remexer no lixo do que brindar a glória. Agora, perante os nossos olhos, com nota artística elevada e números eloquentes, o Benfica voltou a festejar, e a mostrar que, com arbitragens isentas, é uma das melhores equipas do mundo na modalidade. Apenas um pequeno reparo: é pena que a estas grandes conquistas não tenha ficado associada a tradicional camisola vermelha. As fotos ficariam muito mais bonitas. 2. Escrevo antes do jogo de Atenas. Espero que tudo tenha corrido bem, e, pelo menos, estejamos em posição de discutir o apuramento nas duas jornadas que restam. Como diz Jorge Jesus, na Champions, em qualquer partida, estamos sempre tão perto de ganhar como de perder. Uma vitória seria o ideal, mas um empate pode não ser totalmente negativo. A esta hora, o leitor já saberá. 3. Amanhã disputa-se mais um “Dérbi” lisboeta, prato sempre apetecível para os adeptos do futebol. Jogando em casa, teremos de assumir o favoritismo, embora sabendo que, neste tipo de jogo, a surpresa pode esperar-nos ao virar de qualquer esquina. Afinal de contas, Taça é Taça, e ainda em Maio passado nos confrontámos com essa verdade inelutável. A época futebolística não nos tem corrido de feição. O nosso rival, pelo contrário, está em alta. Juntando as situações, temos uma igualdade pontual na tabela classificativa. Agora, um dos dois terá necessariamente de ficar de fora. É altura de puxarmos dos galões, e mostrarmos quem é o melhor.

UM PRESIDENTE PARA A HISTÓRIA

Comemorámos, na passada semana, o décimo aniversário do nosso belo estádio. À sua construção não pode deixar de estar associado o nome de Luís Filipe Vieira - que dias depois tomou posse como Presidente do Benfica, transformando-o de alto a baixo, e erguendo-o até a um grau compatível com o seu glorioso passado. Terão faltado apenas mais um ou dois campeonatos de futebol para que Vieira fosse hoje unanimemente considerado o melhor presidente de sempre deste Clube. Faltou, por exemplo, que em Maio passado um remate de um tipo de crista tivesse embatido no poste, em vez de entrar na baliza de Artur. Faltou que, na temporada anterior, um fiscal-de-linha pouco atento tivesse visto um fora-de-jogo de Maicon, no lance que decidiu o título. Em suma, faltou sorte numas ocasiões, e verdade desportiva noutras, para alcançarmos os títulos que o trabalho realizado tanto justificava. São contingências, às quais não podemos também subtrair o facto de, ao longo desta década, termos enfrentado o mais forte rival de toda a nossa história. Em dez anos, o FC Porto conquistou três taças europeias, e nos últimos cem jogos de campeonato registou apenas uma derrota. Tem sido um opositor feroz, que, além de uma inegável capacidade desportiva, nunca hesitou em utilizar meios ilícitos para conseguir o que queria. É contra ele que nos temos batido, e, ainda assim, equilibrado os pratos de uma balança que em 2003 apresentava um claríssimo défice. Campeonatos à parte, seria fastidioso enunciar toda a obra de Luís Filipe Vieira. Do Estádio ao Centro de Estágio, da Benfica TV ao Museu, dos títulos nacionais e europeus nas modalidades ao sexto lugar no ranking da UEFA, do investimento na Formação ao incremento do número de sócios. Mas aquilo que, enquanto benfiquista, mais lhe agradeço, é ter-nos permitido voltar a acreditar no futuro. Em 2003, vencer era uma utopia. Hoje, ganhar ou perder depende de pequenos detalhes, e a nossa memória tem de ser suficientemente ampla para reconhecer a diferença.

A NOSSA CASA

Celebra-se hoje o décimo aniversário do nosso belo e grandioso Estádio. É o maior do país, já conquistou a sua identidade própria, sem deixar de honrar a memória da velha Luz, e terá, em Maio próximo, a prenda que merece: o jogo mais importante do ano em competições de clubes. Pois é. Já lá vai uma década desde o dia em que aquilo que parecia impossível se tornou realidade aos nossos olhos. Ao longo destes dez anos, muitos foram perdendo a memória desse tempo. É natural, e muito bom sinal que assim seja. Efectivamente, o Benfica de hoje nada tem a ver com aquele que Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira herdaram. Em 2003, estávamos em convalescença da mais grave doença de que padecemos num século inteiro de história. As inúmeras fragilidades que o nosso Clube revelava pareciam impedir-nos até de sonhar. Os que, como eu, ainda se recordam desses momentos, lembram-se também de quase se beliscarem para acreditar que, contra ventos e marés, contra o cepticismo e a angústia, tinham por diante uma obra capaz de tão bem emoldurar a nossa paixão. Nesta década, muitos foram os momentos de glória ali vividos. Poderíamos evocar o triunfo sobre o Sporting, em 2005, que praticamente valeu esse Campeonato; também a vitória sobre o Rio Ave em 2010, que lançou o país em festa; para além de grandiosas jornadas europeias, entre as quais dois Quartos-de-Final da Champions League, e duas Meias-Finais da Liga Europa (a última das quais selada com o acesso à Final). Grandes nomes do futebol mundial pisaram aquele relvado. Messi, todos os Ronaldos, Ibrahimovic, Iniesta, Zidane, Maldini, Pirlo, Kaká, Rooney, Robben, Del Piero ou Van Persie são apenas alguns. Do nosso lado, tivemos Di Maria, Aimar, Fábio Coentrão, Rui Costa, David Luíz, Ramires, Javi Garcia, Witsel, Miccoli, Nuno Gomes e Simão, para referir apenas figuras que já não constam do plantel actual. Mais décadas se seguirão. Mais vitórias também. Por tudo aquilo que representa, a Nova Catedral é um marco indelével na história do Benfica.

A NOSSA CHAMPIONS

Depois de uma eliminatória da Taça de Portugal diante do Cinfães, que se prevê tão tranquila quanto festiva, regressa, já na próxima semana, a sumptuosa Champions League, com todo o seu encanto, e grau de dificuldade máximo. Com uma vitória em casa, e uma derrota fora, pode dizer-se que o Benfica está perfeitamente dentro dos carris do apuramento, sendo provável que os próximos dois jogos, diante do Olympiacos, venham a determinar quem acompanha o PSG rumo à fase seguinte da competição. Ou seja, uma vitória na Luz frente aos gregos afigura-se fundamental nesta corrida, pois qualquer outro resultado, mesmo não nos eliminando sumariamente, deixará contas demasiado complicadas por fazer. Muito se tem discutido a hipótese de o nosso clube apostar mais ou menos na competição, e ter mais ou menos possibilidades de atingir a respectiva Final. Muitas vozes extrapolaram palavras do nosso Presidente, subvertendo-as, e transformando um sonho legítimo e saudável, numa exigência que jamais foi feita aos jogadores ou ao técnico. Há que dizer, com toda a clareza, que chegar à Final da Champions, no contexto actual do futebol português e europeu, pode obviamente ser um sonho (quem não o tem?), mas não poderá constituir um objectivo concreto, e muito menos uma exigência. As diferenças de orçamento face a “tubarões” como Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Chelsea, Juventus, Dortmund ou Bayern de Munique não deixam margem para grandes expectativas, seja onde for que se dispute a última partida da prova. O objectivo do Benfica para a Liga dos Campeões terá de ser, por enquanto, a passagem à fase seguinte. Isso sim, está de acordo com o poder financeiro e desportivo de que dispomos. Em termos realistas, as nossas exigências não deverão ir muito mais além, e o que vier a mais, bem-vindo será. É com esta humildade que devemos enfrentar os difíceis adversários que temos pela frente. E é com esta atitude que podemos, eventualmente, vir a superar aquilo que neste momento é expectável.

UM PRIMEIRO OLHAR

A pausa nas competições de clubes deixa espaço para uma primeira reflexão acerca do início da temporada futebolística da nossa equipa. Há que começar por dizer, sem subterfúgios, que o rendimento atingido tem estado aquém do esperado. E várias podem ser as explicações para tal. Em primeiro lugar, embora o mercado não nos tenha retirado nenhuma das principais figuras do onze, houve necessidade de integrar novos reforços, grande parte dos quais jovens com vincada qualidade, mas naturalmente sem identificação com os processos da equipa. Markovic, por exemplo, tem um talento que ninguém discutirá, mas que ainda não foi possível adaptar plenamente ao modelo de jogo encarnado. Djuricic será outro caso, ao qual as mesmas palavras poderiam encaixar na perfeição. E a articulação entre Fejsa e Matic está ainda longe de ser uma aposta ganha. As lesões de Gaitán, e sobretudo de Sálvio, obrigaram a apressar alguns destes processos, impondo indesejadas experiências em plena competição. Não podemos também ignorar o calendário que tivemos pela frente neste mês e meio. Deslocações à Madeira, Alvalade, Guimarães e Estoril, em apenas sete jornadas, eram algo que, à partida, seria sempre de impor respeito. Desses jogos, vencemos dois, empatamos um, e perdemos o outro. Não é um bom registo, mas está longe de ser uma catástrofe – e o pior resultado terá mesmo sido o empate caseiro com o Belenenses. Era também natural que, depois de um fim de temporada decepcionante, os níveis de confiança dos jogadores se ressentissem. Nova derrota a começar o Campeonato foi, nessa medida, o que de pior podia ter acontecido. Last but not least, as arbitragens têm tido, uma vez mais, um papel determinante. Cinco pontos surripiados não são coisa pouca, e não podem, de modo algum, deixar de figurar em qualquer ponderação deste tipo. Agora vamos olhar para a frente, e, unidos, serenos e determinados, recuperar à Benfica, partindo para uma época que nos devolva os sucessos que a infelicidade roubou há poucos meses atrás.

COROAS E CARAS

O passado fim-de-semana poderia ser evocado, simultaneamente, como paradigma do que de melhor e de pior tem para oferecer o desporto nacional. Do lado positivo, é de sublinhar o triunfo de Rui Costa em Florença, colocando-o na esteira de Agostinho como figura cimeira da nossa velocipedia. Quando, em 2008, saiu do Benfica para abraçar uma carreira internacional, poucos imaginariam que chegasse tão longe. Hoje é Campeão do Mundo com todo o mérito. Também João Sousa brilhou além-fronteiras, com uma conquista inédita para o Ténis luso. Ambos simbolizam o que de melhor existe neste país desportivo. Lamentavelmente, o futebol intra-muros não podia oferecer uma imagem mais contrastante com a que nos chega de tão cintilantes palcos. Arbitragens miseráveis, resultados falseados, anti-jogo, e uma terrível sensação de déjà-vu. É verdade que o Benfica, frente ao Belenenses, não esteve ao seu melhor nível. Mas o FC Porto, no seu compromisso doméstico, também não. A diferença é simples: nós vimos um fiscal-de-linha oferecer um golo ao adversário, enquanto o nosso rival nortenho viu Pedro Proença regalar-lhe uma grande penalidade providencial. Contas feitas, temos, à 6ª jornada, dois penáltis por marcar sobre Lima (no Funchal e em Guimarães), um sobre Cardozo (em Alvalade), e sofremos dois golos irregulares (em Alvalade e frente ao Belenenses). O FC Porto, por seu turno, venceu o V.Guimarães com um penálti inexistente (coisa que já ocorrera em Setúbal), e o P.Ferreira com um golo ilegal. Ao Benfica, os homens de negro subtraíram 5 pontos. Ao FC Porto acrescentaram 4 - já descontado um penálti da Amoreira. Tudo somado, eis uma enorme mentira na tabela classificativa. Também não posso deixar passar a pouco edificante atitude desportiva do Belenenses ao longo da partida da Luz, que de forma alguma homenageou o seu convalescente treinador. Tácticas defensivas são legítimas. Simulações e constante queima de tempo são “chico-espertices” que só a falta de categoria dos árbitros tornam possíveis.

PASSOS DE FONSECA

Em mais de trinta anos, poucos foram os treinadores do FC Porto que não se ajoelharam cobardemente aos ditames da casa, ou seja, à cultura guerrilheira e terrorista de Pinto da Costa e seus capangas. Assim de repente, recordo apenas Fernando Santos e Bobby Robson (ambos vencedores, diga-se), como excepções a uma regra que vergou dezenas de nomes, outrora mais ou menos prestigiados, e depois mais ou menos triturados por uma máquina capaz de enxovalhar a honra de qualquer incauto. Na última primavera, Paulo Fonseca usava orgulhosamente o boné do Paços de Ferreira, equipa sensação do Campeonato. Disputava-se a última jornada, e o FC Porto necessitava de vencer na casa do terceiro classificado, tarefa que, num país normal, não se afiguraria fácil. Estamos em Portugal, e, obviamente, não houve surpresas. Poucos dias depois, o homem aparecia sorridente ao lado do presidente portista, assinando o contrato que fazia dele substituto do treinador campeão. Desconheço se o resultado de tal jogo estava ou não contemplado no prémio de assinatura. Mas não esqueço as notícias de abordagens pouco inocentes a jogadores do Paços na semana anterior à partida, diligentemente desmentidas por…Paulo Fonseca. Daí para cá, jogadores do Paços para o Porto, do Porto para o Paços, do Paços para destinos simpáticos encontrados por empresários amigos, estádios emprestados para compromissos europeus, jogos nacionais em Felgueiras, e o total strip-tease de um clube outrora merecedor de algum respeito por parte dos adeptos do futebol digno. Têm o que merecem: sete derrotas consecutivas. Quanto a Fonseca, ao mínimo tropeção deixou cair o boné. Ora aí está ele, esquecido de onde veio, e porque veio, rosnando à voz do dono contra as arbitragens – que, em pouco tempo, já na nova cadeira, lhe haviam dado um penálti duvidoso em Setúbal, e um golo irregular em…Felgueiras. Ou me engano muito, ou um dia também ele terá o que merece: um qualquer Al-Ahly, onde o dinheiro cale o passado, e pague o esquecimento.

SOMBRAS E NEVOEIRO

1.Em Guimarães, neste domingo, o Benfica tem oportunidade de calar de vez todas as vozes que, ao primeiro percalço, logo se apressaram a antecipar o abismo. Ironicamente, teremos pela frente o mesmo adversário que, no último mês de Maio, nos lançou na amargura, abrindo espaço a todas as especulações e censuras – que foram alimentando um defeso jornalístico marcado pela ausência de grandes competições, e logo, de assuntos com que vender papel. Passados alguns meses, Jorge Jesus continua a treinar o Benfica, Cardozo continua na frente de ataque da equipa, nenhum dos titulares saiu, e recebemos vários reforços de nível internacional. Começámos mal o Campeonato, mas, se exceptuarmos a tristonha derrota no Funchal, tudo o resto se tem passado dentro da maior normalidade: duas vitórias nos dois jogos em casa, e empate no “Dérbi” de Alvalade perante um revigorado Sporting. Um triunfo em Guimarães poderá fechar de vez o ciclo, e recolocar o Benfica no rumo competitivo que, em finais de Abril, tanto nos empolgava. 2.Trata-se de uma velha estratégia: colar-nos à boca coisas que não dissemos, e utilizá-las depois como arma de arremesso. Recordo Vítor Pereira quando, há duas épocas, tanto falou de faixas, tendo sido ele próprio a encomendá-las, semanas antes, para um silencioso e prudente Benfica. O presidente Luís Filipe Vieira manifestou o sonho, legítimo, de ver o Benfica chegar à final da Champions League marcada para o Estádio da Luz. Daí até ter ouvido um comentador televisivo afirmar, abusivamente, que a fasquia do Benfica para a presente temporada era a vitória na Champions, foi um pequeno passo de mágica, e de mistificação. Percebe-se a intenção, mas não cola. Estamos sobejamente habituados. 3.Caso Cristiano Ronaldo se sagre melhor marcador do próximo Mundial no Brasil – …e oxalá o consiga -, poderemos então discutir se atinge, ou não, o estatuto de Eusébio. Até tal acontecer, contas bancárias à parte, continua a existir apenas um Rei, e, quando muito, um príncipe herdeiro.

MAIS DO MESMO

Seria preciso recuar até 2004 para encontrarmos uma vitória do Benfica em jogo de abertura do Campeonato. Daí para cá, pese embora algumas pré-temporadas bastante prometedoras, entrámos invariavelmente com o pé esquerdo – mesmo em 2009, quando, meses depois, viríamos a conquistar o título. Ao longo destes anos, nessas partidas iniciais, sofremos muitas vezes os efeitos de arbitragens habilidosas, mas também nos deparámos, com demasiada frequência, com jogadores ainda de chinelos e toalha de praia aos ombros, esperando que as camisolas do Benfica fossem suficientes para garantir os pontos. Pode dizer-se que no jogo da Madeira as duas situações se cruzaram, pelo que o resultado acaba por nem surpreender. Um penálti sobre Lima, nos instantes finais da partida, poderia ter-nos poupado à derrota. Mas a indolência revelada pela equipa durante longos minutos também nos deixou distantes da vitória. O valor do adversário fez o resto, cumprindo-se, pois, a negra tradição. Não acredito em gatos pretos, nem em gatos brancos, pelo que tento sempre encontrar uma razão para tudo. E, neste caso, talvez o calendário das competições ajude a explicar alguma coisa. Com o mercado em aberto, com jogadores a sair e a entrar, e muitos debaixo da ombreira da porta, é impossível manter uma equipa concentrada a cem por cento. A qualquer pessoa de bom senso parece absurdo iniciar um Campeonato nestas circunstâncias, e se os poderes internacionais insistem em colocar o Futebol ao serviço dos interesses parasitários de uns quantos agentes, a Liga Portuguesa, caso quisesse, teria um bom remédio: começar o Campeonato em Setembro, reservando o mês de Agosto, por exemplo, para a Taça da Liga. O que é certo é que ninguém dá o primeiro passo nesse sentido, e o Benfica parece sentir particular dificuldade em lidar com esta situação. Até porque outros, quando a sentem, têm uma mão protectora a impedi-los de cair – bastando lembrar os penáltis que deram ao FC Porto 3 vitórias nos últimos 4 começos de época.

FACES POUCO OCULTAS

O Campeonato só agora vai começar, mas há já muito que os nossos adversários o preparam a seu jeito. Não falo de jogadores e técnicos de outros clubes, nem mesmo daqueles que estavam (ou deveriam estar) de um lado no jogo decisivo da última jornada da época passada, e estão agora confortavelmente instalados na cadeira do lado oposto. Falo antes de todo um vasto “plantel” de tribunos que, com mais ou menos oratória, com mais ou menos verborreia, insistem em falar do que não sabem, escrever sobre o que não conhecem, sempre com o fim, mais ou menos explícito, de perturbar a estabilidade do nosso Clube. Ao fim e ao cabo, os mesmos que durante anos silenciaram tudo o que - então sim - sabiam acerca dos escândalos que as escutas do processo “Apito Dourado” deixaram a nu. Desde a Final da Taça de Portugal que não param de especular. Logo nessa tarde, e nos dias que a seguiram, o veredicto foi lançado: ou Jesus, ou Cardozo! Primeiro, tentaram empurrar o nosso treinador para a porta da saída. “Não ganhou nada”, diziam, omitindo alguns dos motivos pelos quais não venceu, e esquecendo toda a valorização desportiva e financeira que implementou na equipa encarnada – que a levou, por exemplo, a um brilhante sexto lugar do ranking da UEFA. Consumada a renovação de Jorge Jesus, os focos desestabilizadores viraram-se para Tacuára. Na impossibilidade de se verem livres do técnico que relançou o Benfica para a discussão de todos os títulos, tentaram então ver-se livres daquele que é o melhor goleador benfiquista deste século. E, ao verem-no desculpar-se perante as câmaras de televisão, o desespero lançou-os numa última empreitada, a de descredibilizar esse pedido de desculpas (claro que induzido pelo Clube, ou alguém esperaria outra coisa?). É fácil percebê-los. É fácil entender porque motivo querem Jesus e Cardozo longe da Luz. Mas não podemos deixar que nos enganem. O Benfica é dirigido desde dentro, e jamais andará a reboque de comentadores televisivos ou jornalistas de duvidosa isenção.

NOVES FORA NADA

Por maior que seja o prestígio que vai granjeando, por mais pesado que seja o nome que carrega, a Eusébio Cup não deixa de ser um troféu particular, e uma ocasião para preparar as competições que se avizinham - essas sim, a doer. Obviamente, é melhor ganhá-la do que perdê-la. Mas não será menos óbvio que uma derrota nesta altura traz com ela a virtude de ajudar a perceber aquilo de que a equipa necessita, expondo uma ou outra fragilidade a tempo de ser corrigida. Nessa medida, a derrota diante do São Paulo terá até sido útil. Ficaram por exemplo patentes algumas dificuldades na finalização, e alguma falta de peso perto da área adversária. Isso levou a que uma parte dos adeptos se lembrasse de quem não estava em campo. Já aqui escrevi sobre o caso-Cardozo. Já lembrei que, nem eu, nem qualquer outra pessoa fora da estrutura do nosso futebol, tem condições para avaliar devidamente o problema, e muito menos a forma de o solucionar. Enquanto adepto, gostava que Tacuára continuasse a marcar golos no Benfica. Acho que o seu valor de mercado é substancialmente inferior à importância que tem na equipa, e até na própria história do Clube. Temo, porém, que o equilíbrio entre a sua condenável atitude no Jamor, e a necessária preservação da saúde do balneário, possa sugerir outro tipo de decisão. Uma coisa é certa: chame-se Óscar ou não, o Benfica precisa de um “Cardozo”. E tem pouco tempo para o encontrar. Pontas-de-lança eficazes são uma espécie rara, e por isso tão valorizada. Tivéssemos por cá um Lewandowski, ou um Cavani, e a coisa resolvia-se. À nossa medida, Cardozo é um jogador com características incomuns, quer no último toque, quer na capacidade física com que aguenta a pressão dos centrais adversários. Todo o modelo de jogo encarnado assenta num finalizador com aquelas especificidades, e, sem ele, o nosso futebol ofensivo corre riscos de se esterilizar. Essa é a principal lição a extrair do último fim-de-semana, e não pode deixar de pesar na balança de qualquer decisão.

UM HOMEM PARA A HISTÓRIA

Quis o destino que apenas dois dias após a inauguração do nosso Museu, desaparecesse do mundo dos vivos um dos nomes que bastante contribuiu para a riqueza nele depositada. Fernando Martins assumiu a presidência do Sport Lisboa e Benfica em 1981, e esteve ligado a um dos períodos mais importantes da história do clube. Não só pelos títulos conquistados (dois Campeonatos, três Taças e uma Supertaça, para além da presença na final da Taça UEFA), mas sobretudo pelas bases estruturais deixadas, que pouco depois permitiriam o ansiado regresso à alta-roda do futebol internacional – arredia desde meados da década de sessenta. As finais europeias de Estugarda e Viena, pese embora se situem já fora do âmbito temporal dos seus mandatos, e sem retirar mérito à equipa directiva que lhe sucedeu, tiveram também o “dedo” de Fernando Martins. Foi a sua gestão criteriosa, e sempre pautada pela defesa intransigente dos interesses da instituição, que deixou o Benfica em condições de vencer em Portugal, e de se bater com os melhores fora de portas. Foi Fernando Martins que, por exemplo, trouxe Eriksson para o Benfica, numa aposta que teve tanto de ousada como de bem sucedida. Foi Fernando Martins que transformou o antigo Estádio da Luz no maior da Europa. Foi Fernando Martins que, depois de um período relativamente incaracterístico, marcado pelo fim da Era-Eusébio, devolveu a Mística aos benfiquistas, fazendo crescer o número de sócios, levando-os para o Estádio, e apaixonando-os pela equipa. Foi com Fernando Martins na presidência que, em 1986, me tornei sócio do Clube. Embora as palavras sejam muitas vezes menores do que os Homens, quem viveu esses anos sabe bem do que falo. Infelizmente, nem todos os sucessores estiveram à altura do seu legado. Porém, dada a vitalidade que o Clube tem demonstrado nesta última década – diga-se até que com algum paralelismo face ao seu tempo -, Fernando Martins terá certamente partido tranquilo quanto ao futuro do clube que tanto amou, e ao qual tanto deu.

DESONRA

No baú das muitas memórias que o Futebol já me vai deixando, tinha da Taça de Honra da AFL uma ideia longínqua, de quando, ainda criança, vivia cada jogo como se fosse o único, e cada Dérbi como se fosse o último. Lembro-me da alegria proporcionada por uma vitória nos penáltis sobre o Sporting (1978?, 1979?), a que correspondeu um desses troféus. Aconteceu numa pré-temporada, quando as saudades do Futebol mais apertavam. Jogavam Bento, Humberto, Shéu, Chalana e Nené. Foram tempos que me ajudaram a crescer, e me ensinaram a ser benfiquista. Com o passar dos anos, entre dificuldades de calendarização, e rotatividades de plantel, a Taça de Honra foi perdendo importância e interesse, definhando progressivamente até à morte. A ideia de a recuperar pareceu-me excelente. Adoro (vencer) o Campeonato, mas também a Taça de Portugal, a Taça da Liga, e até a Supertaça. Para quem o Futebol significa festa, quanto mais competições se disputarem, melhor. E gosto de comemorar todas elas, independentemente da importância relativa de cada uma. Com transmissão televisiva em canal aberto, em estação pública e horário nobre, sem outros jogos a atrapalhar, esperava, no passado Sábado, um Dérbi mais ou menos a sério, e uma competição mais ou menos oficial, que definisse, mais ou menos, um Campeão de Lisboa. Nada disso aconteceu. A verdade é que esta Taça de Honra foi um fiasco absoluto, e envergonhou aqueles que, ingenuamente, nela depositavam alguma expectativa. Não fui ao Estoril porque não pude, e só depois me apercebi do logro em que poderia ter embarcado. Talvez a AFL não merecesse muito mais. Mas também me custa a entender porque jogámos com todos os titulares frente ao Etoile Carouge, e nos expusemos, entre suplentes e juniores, a uma desnecessária derrota perante o Sporting - no qual, francamente, já custo a distinguir a equipa B da equipa A. Gostava de reviver as tais Taças de Honra do passado. Mas, a ser assim, bem pode a prova regressar lá para 2033, que não lhe sentirei a falta.

ROLA A BOLA

Parece que foi ontem. Mas já vai para dois meses que perdemos a Taça de Portugal no Jamor, e, com ela, a possibilidade de colorir com um troféu aquela que foi uma das temporadas mais entusiasmantes da história recente do Benfica. Talvez devido a esse entusiasmo - que foi elevando a fasquia das expectativas ao longo de vários meses -, quando voltei a ver os nossos jogadores entrar em campo para os primeiros compromissos de pré-época, senti-me perante um grupo de Campeões, mesmo sem que os livros de registos os tenham inscrito como tal. Reencontrei Artur, Luisão, Matic, Enzo, Lima, Sálvio, Gaitán, e outros, não como aqueles que perderam tudo, mas sim como aqueles que quase ganharam tudo. Não como os que me fizeram chorar, mas como os que me fizeram sonhar. Épocas houve em que a frustração da derrota trazia com ela uma indómita vontade de mudança. Neste caso, mesmo sem títulos, não é esse o sentimento generalizado. Pelo contrário, a grande preocupação dos benfiquistas prende-se justamente com os profissionais que iremos ter de perder em função dos ditames do impiedoso mercado, e das necessidades de equilíbrio que os cofres exigem. Isto porque existe a noção muito clara que em dez hipotéticas temporadas semelhantes à última, só numa delas terminaríamos de mãos vazias – logo por infelicidade aquela que, entre pontapés inesperados, e golos aos 92 minutos, nos calhou em sorte... É pois com confiança e optimismo que partimos para a nova época. Sabemos que jogando o mesmo futebol, a glória voltará a andar por perto. E o azar - tanto azar…- dificilmente se repetirá. Já percebemos também que há por ali bons reforços. Falta então saber quem sai, esperando que venham a partir apenas aqueles cujo encaixe financeiro se torne absolutamente impossível de negligenciar. Parece-me não ser o caso de Óscar Cardozo, de quem espero apenas um pedido de desculpas público aos sócios, aos colegas, ao treinador e ao presidente, para podermos voltar a festejar os seus golos durante mais alguns anos.

O CIRCO

Longe vão os tempos em que cada manhã de pré-temporada trazia com ela a sofreguidão de conhecer as capas dos jornais, para saber quem entrava, quem podia entrar, quem saía, ou quem podia sair, do plantel do Benfica.

Eram tempos em que a imprensa desportiva mantinha alguma respeitabilidade. E eram tempos em que as “notícias” encomendadas por “Agentes FIFA” (esses parasitas do Futebol) não tinham ainda tomado conta das páginas publicadas – que, pouco a pouco, se foram transformando numa plataforma de interesses negociais e especulações várias.
Hoje, uma espécie de casamento de conveniência entre esses interesses e a aflitiva necessidade de vender papel (agravada pela cruel crise económica em que vivemos), ditou uma verdadeira hemorragia especulativa, que primeiro perdeu a credibilidade, e depois perdeu a piada. Até porque a distância para a mentira mais desavergonhada passou a ser demasiado curta, e, consequentemente, mais fácil de ultrapassar.
Para este estado de coisas contribui também a gritante falta de cultura desportiva do nosso país - capaz de empurrar um Tour de France, um Wimbledon, uma Fórmula 1, um título europeu de Hóquei, um Mundial de Sub-20, ou até mesmo uma Final da Champions, para notas de rodapé face a um qualquer Herrera, Quintana ou Tejada, que ninguém conhece, que quer ir para onde lhe paguem mais, mas que é impingido como objecto jornalístico primário a um povo com coisas bem mais graves com que se preocupar.
Creio que esta lógica comunicacional tem os dias contados. Falando por mim, devo confessar que já nem compro diários desportivos. Leio apenas o nosso “O Benfica”, que além dos artigos de opinião dos meus ilustres parceiros, fornece informação sobre todas as modalidades e escalões de formação do Clube. De resto, procuro na Internet aquilo que me interessa, esperando pelo fim do defeso futebolístico para conhecer os plantéis definitivos. Isto, enquanto vou lamentando a morte anunciada de uma imprensa desportiva que, em tempos, me ajudou a crescer.

UM PASSO À FRENTE

A disponibilização da Benfica TV em novas plataformas, a sua evolução para canal Premium, a entrada na Alta Definição, e o pacote de transmissões prometido para as próximas temporadas desportivas, marcam um novo tempo na vida de um projecto nascido em 2008, do qual muitos duvidavam, e que, passados cinco anos, já é citado na imprensa internacional como ousado, corajoso e pioneiro.

O prato forte desta mudança é, naturalmente, a transmissão, em exclusivo, dos jogos da nossa equipa principal de futebol. Algo que, devo confessar, há pouco tempo atrás não me parecia possível, mas que neste momento é uma realidade que ninguém – dentro ou fora do Benfica – pode ignorar, ou desvalorizar.
O caminho escolhido pelos nossos dirigentes envolve riscos, como, aliás, acontece com qualquer projecto inovador. Numa primeira fase, será difícil obter as receitas que outras opções poderiam proporcionar. Mas - e isso sempre foi assumido -, as razões desta decisão vão muito para além do plano estritamente financeiro.
Por aquilo que tem sido a história recente do nosso Clube, pela espantosa recuperação estrutural e institucional da última década, a qual nos resgatou o grande Benfica do passado, pela força competitiva que nos devolveu o orgulho de lutar por todos os títulos (só pequenos detalhes nos impediram de consumar uma das melhores temporadas desportivas em mais de 100 anos de história), temos todos os motivos para crer que também este importante passo esteja criteriosamente calculado, e conduza efectivamente a uma mudança na correlação de forças que envolve os bastidores do desporto português.
Assim sendo, espera-se dos benfiquistas um envolvimento correspondente ao esforço que o Clube está a fazer. A situação do país leva, infelizmente, a que muitos não possam aderir. Mas aqueles que são hoje clientes de outros canais desportivos - por sinal, bem mais dispendiosos - não terão razões para ficar de fora. Este projecto está feito a contar connosco, e só depende de nós para ser bem sucedido.

UM ANO DE ECLECTISMO

Apesar de ter terminado com uma derrota (no Futsal), a temporada das modalidades benfiquistas terá de se considerar, uma vez mais, amplamente positiva.
Começámos com a inédita conquista de 5 Supertaças, todas as relativas às modalidades de pavilhão. Acrescentámos-lhes dois troféus oficiais de Basquetebol (António Pratas e Hugo dos Santos). Terminámos com a conquista dos títulos nacionais de Basquetebol, Voleibol e Atletismo, e com um improvável, saborosíssimo, e também inédito, título europeu de Hóquei. Em Futsal e Andebol fomos vice-campeões.
Feito o balanço, em número total de troféus ultrapassámos o já imponente pecúlio do ano anterior. Em termos de Campeonatos Nacionais obtivemos menos um (numa matemática simplista, Futsal pelo Voleibol, menos o Hóquei), mas “trocámo-lo” por uma importante Liga Europeia. Ou seja, se 2011-12 havia sido uma época histórica para o eclectismo encarnado, 2012-13 não lhe ficou atrás. Bem pelo contrário.
Na última meia-dúzia de anos o Benfica ganhou quase tudo o que havia para ganhar, em praticamente todas as principais modalidades em que participa. Foi Campeão Europeu em duas delas (Futsal e Hóquei), chegou a finais europeias noutras tantas (Andebol e Futebol). Foi Campeão Nacional em todas. Conquistou Taças e Supertaças. Trouxe adeptos aos pavilhões. Deu audiências televisivas.
Os tempos que se avizinham não são fáceis. A crise económica sente-se a todos os níveis, e o desinvestimento em algumas modalidades torna-se imperioso para salvaguardar o futuro das mesmas, e manter o Clube na rota que o fez sair do buraco em que se encontrava mergulhado há pouco mais de uma década.
Não seremos os únicos a fazê-lo: FC Portos, Sportingues, e, sobretudo, Ovarenses, Oliveirenses, ABC’s ou Espinhos, terão igualmente de reduzir custos. Talvez seja difícil repetirmos, no imediato, glórias internacionais como a do Atlântico, em 2010, ou a do Dragão, em 2013. Mas, por cá, certamente continuaremos a jogar e a vencer. Com menos meios, mas com a mesma Mística.

162 LAMENTOS

Golo do Benfica! Marcou, com o número sete, Óscar….,Óscar…”
Este é o som que nos habituámos a ouvir, com frequência, na instalação sonora do Estádio da Luz. Este é o som que tem acompanhado os nossos principais momentos de euforia. Segundo a imprensa, é possível que não o voltemos a ouvir.
Se muitos benfiquistas há que, com inteira justiça, lamentam a despedida de Aimar, permitir-me-ão que – caso venha a confirmar-se - lamente também eu a perda daquele que é, de longe, o maior goleador encarnado do Século XXI, e, seguramente, o jogador que mais vezes me fez levantar da cadeira ao longo dos últimos 6 anos.
Cardozo marcou 162 golos vestindo o Manto Sagrado (quase 200, se contarmos jogos particulares). É, na minha modesta opinião, o melhor ponta-de-lança do Benfica desde os tempos de Magnusson. Aos 30 anos, será doloroso vê-lo partir por uma simples e fria cotação de mercado – valor substancialmente abaixo daquilo que já representa na história desportiva do nosso Clube, e da importância que ainda tem para a equipa.
Dir-me-ão que foi ele próprio a abrir a porta da saída. É verdade. Não é aceitável que um profissional desrespeite a figura do seu líder. Mas devo também dizer que, enquanto adepto sofredor, engulo com maior dificuldade imagens de atletas sorridentes e passivos na hora da derrota, do que reacções a quente de quem não gosta de perder – afinal de contas semelhantes às de muitos benfiquistas que, naquela tarde, se deslocaram ao Jamor.
Nunca tive contacto directo com um balneário de uma equipa profissional de futebol. Não sei até que ponto tal tipo de atitude é tolerada na escuridão dos bastidores. Ainda menos se ela foi meramente extemporânea, ou antes corolário de algo já latente. Em suma, não consigo avaliar, com rigor, a gravidade do caso.
Mesmo sabendo que nem Eusébio foi insubstituível, espero e desejo, porém, que sejam esgotadas todas as hipóteses de manter um jogador que, juntamente com Luisão e Maxi, é uma das grandes referências do Benfica dos novos tempos.

HISTÓRIA E... HISTORIETAS

1. Por motivos de força maior, na passada semana não me foi possível partilhar este espaço com os estimados leitores. Nunca é tarde, porém, para relembrar, e enaltecer, a extraordinária conquista da Liga Europeia de Hóquei em Patins, ocorrida há quase quinze dias, mas ainda bem presente na nossa memória, e no nosso orgulho.
Tratou-se, porventura, do momento mais alto e significativo em mais de um século de eclectismo benfiquista. É verdade que também comemorámos um título europeu de Futsal, mas em Lisboa. É verdade que Nélson Évora foi campeão olímpico, mas vestindo as cores do país. No caso do Hóquei, fomos campeões contra todas as circunstâncias, contra todas as adversidades, contra todas as previsões, e em pleno recinto do nosso grande rival, numa histórica final entre clubes portugueses.
Tudo estava devidamente preparado para outros festejarem. Mas fomos nós, com crença, e, direi mesmo, com heroísmo, que trouxemos um troféu que ainda não constava na vasta colecção encarnada. Por variadíssimas razões, nunca esquecerei esta vitória, que leva o Benfica ao topo da Europa, numa modalidade que me é tão querida.
2. As últimas semanas foram também marcadas por definições no comando técnico das principais equipas portuguesas de futebol. No Benfica, saúde-se a coragem de Luís Filipe Vieira ao reconduzir um treinador que nada venceu, mas que tão bem trabalhou a equipa, e tão perto nos deixou da glória. É este o caminho certo, e não aquele para o qual certa comunicação social, sem pingo de inocência, nos queria empurrar. No FC Porto, anote-se a contratação do treinador que orientou o respectivo adversário, na partida que decidiu o título nacional. A tal, some-se a disponibilização do estádio a esse mesmo clube para os jogos internacionais, e a contratação de (pelo menos) um dos seus principais jogadores. Não são insinuações. São factos, que cada um poderá interpretar como muito bem entender. Espero, contudo, que, depois disto, não venham mais falar-nos de Jardéis ou Djaninys.

DECIDIR A FRIO

Na ressaca de três semanas terríveis para o futebol benfiquista, confesso que me é difícil expressar uma opinião que fuja à ligeireza para a qual a emoção nos remete. É assim o futebol. E são assim os adeptos que, como eu, sofrem apaixonadamente pelo seu clube.
Mas importa, neste caso, tentar estabelecer uma barreira clara entre a tristeza – comum a todos os benfiquistas, e perfeitamente natural face aos frustrantes resultados alcançados neste mês de Maio -, e o realismo com que deve ser analisado o trabalho desenvolvido ao longo de toda uma época.
O Benfica 2012-13 fez-nos sonhar. Fez-nos sonhar muito alto. Porém, devido a uma impressionante série de infelicidades, e devido, também, a alguns erros próprios e alheios, acabou sem os troféus que a qualidade do seu jogo justificava.
Se, na partida do Dragão, o pontapé de um tal Kelvin tem batido no poste, mais taça menos taça estaríamos agora em festa, e ninguém ousaria contestar os méritos daqueles que tudo fizeram para vencer. É preciso não esquecer, também, que não chegávamos a uma final europeia havia 23 anos, e não íamos ao Jamor havia oito. Somos cabeças-de-série na próxima Liga dos Campeões, e praticámos, amiúde, um futebol de altíssima qualidade, elogiado por todos, dentro e fora de fronteiras. Temos um plantel fortemente valorizado. E conseguimos no Campeonato, afinal de contas, mais pontos do que em qualquer um dos últimos 15 anos - incluindo aqueles em que fomos campeões.
É muito ténue, pois, a fronteira que separa os vencedores dos vencidos. É essa fronteira que atribui a glória a uns, deixando outros mergulhados no desalento. Não pode, todavia, ser esse exíguo fio a definir méritos e capacidades daqueles que trabalham para o sucesso, naquilo que, sendo um espectáculo, sendo um desporto, sendo até um combate, é também - e muitas vezes, principalmente – um simples jogo.
A crise que afecta muitos portugueses, e por consequência, muitos benfiquistas, deixa os ânimos mais quentes, e leva a atitudes nem sempre ponderadas. Infelizmente, também é normal que assim seja.
Cabe a quem decide triar todas essas pressões, resistir-lhes, separar o trigo do joio, ignorar estados de alma apressados, e pensar a frio naquilo que é efectivamente melhor para a estabilidade, competitividade e crescimento de um clube que, não há muitos anos atrás, ficava arredado dos títulos antes do Natal.

CAMPEONATO MIGUEL

Na antevisão à última jornada do Campeonato, tive oportunidade de dizer, na nossa Benfica TV, que para fundamentar a esperança na conquista do título, precisaria de ter a certeza de que nada de anormal se passaria no outro estádio onde se jogavam as grandes decisões. Não foi necessário esperar muito tempo para confirmar os meus piores receios.
Aos vinte minutos da partida da Mata Real, o mesmo indivíduo que na temporada passada, em Coimbra, transformara um claríssimo penálti sobre Aimar numa falta contra o Benfica, resolveu, desta vez, transformar um cartão amarelo por simulação de James Rodriguez fora da área, numa grande penalidade a favor do FC Porto, com expulsão do defesa pacense. Percebi, de imediato, que não valia a pena sonhar. A realidade mantinha-se, igual a si mesma, como há já muitos anos nos habituámos a ter de suportar.
Concluído o Campeonato, gostava, com sinceridade, de poder atribuir a perda do Título apenas ao mérito do adversário, ao cansaço dos jogadores do Benfica, ou simplesmente ao azar. Porém, ao lembrar-me de Carlos Xistra em Coimbra, de Pedro Proença na Choupana, e, sobretudo, deste Hugo Miguel em Paços de Ferreira, não sinto que o possa fazer. Este, para mim - que também tenho direito a usar alcunhas - ficará na memória como o Campeonato Miguel.
Depois de vermos fugir o Título deste modo, depois de perdermos a Liga Europa (essa sim, de forma limpa, honrada, mas meramente infeliz), resta-nos a Taça de Portugal. Não a encaro como um consolo, ou como um prémio menor. Pelo contrário, vejo-a como uma competição importante e bonita, que há muitos anos escapa ao Glorioso, e que quero fervorosamente vencer. Além de que, terminar a temporada com um troféu nas mãos, parece-me ser o mínimo que a justiça pode fazer ao brilhante futebol que a nossa grande equipa apresentou durante meses.
Esperemos que desta vez não haja Miguéis a condicionar o jogo, e que a grande festa do Jamor seja limpinha. Pois o Campeonato, depois de tanta conversa, acabou bem sujinho.

SER BENFIQUISTA

Escrevo antes da final de Amesterdão.
Não faço ideia daquilo que se passou na bela cidade holandesa, sabendo porém, de antemão, que a presença numa final da Liga Europa é, por si só, motivo de orgulho para qualquer clube, pelo que a campanha internacional desta temporada ficará necessariamente gravada na nossa história – ao menos na mesma medida em que ficou a de 1983, quando estivemos bem perto da glória.
Escrevo, todavia, depois de uma das derrotas mais cruéis dos últimos anos, consumada aos 91 minutos de uma partida que parecíamos já ter sob controlo, e que podia valer um Campeonato. É preciso dizer que ainda não o valeu, e da mesma forma que um Estoril nos fez cair das nuvens, também um Paços de Ferreira – que veste igualmente de amarelo - nos pode dar uma ajudinha que nos devolva aos céus.
Foi precisamente na difícil ressaca do FC Porto-Benfica que presenciei, e participei, numa das mais impressionantes manifestações de benfiquismo de que me recordo em tempos recentes.
Ainda a enxugar as lágrimas, e a digerir a frustração, parti para o Estádio da Luz com o objectivo de adquirir bilhetes para a festa do Jamor, que é como quem diz, para a Final da Taça de Portugal. Confesso que não esperava encontrar muitas pessoas, nem grande entusiasmo, pois o golpe sofrido na véspera havia sido duro, e não tinha passado o tempo suficiente para o luto de tão azedo momento.
A verdade é que quase me comovi ao ver o mar de gente que ali estava, triste como eu, a maioria certamente mal dormida, como eu, esperando várias horas de pé, e ao sol, mas comungando, de forma firme, daquela ardente paixão que não se consegue explicar por palavras, mas que todos sentimos lá bem no fundo da nossa alma: o benfiquismo.
Uma fila de espera é, por norma, aborrecida. Naquele domingo foi revigorante.
Já com os bilhetes na mão, fui para casa a pensar: afinal o que vale um golo de um tipo de penteado esquisito, perante esta imensidão de crença, de mística e de fé, que só o Benfica é capaz de proporcionar?

ACREDITAR

Não há que iludir a realidade: o empate frente ao Estoril foi um resultado decepcionante, que nos deixou angustiados, e que torna mais difícil o caminho que conduz ao título. Esperávamos chegar lá por uma larga avenida, mas teremos de fazer um desvio por uma estrada um pouco mais estreita. Não deixaremos, porém, de chegar ao destino.
O futebol é isto. Numa quinta-feira saímos do estádio em clima de justificada euforia, ao garantirmos presença numa final europeia, 23 anos depois da última vez em que tal aconteceu. Quatro dias volvidos saímos cabisbaixos, tristes, e com a sensação de termos desperdiçado uma oportunidade óbvia de quase garantir ali a conquista do Campeonato. Alegrias e tristezas. É precisamente o que o futebol oferece aos adeptos, e por isso cativa tanta gente com a sua magia.
Agora vamos a factos. O Benfica é líder isolado da classificação, e se vencer o próximo jogo sagra-se de imediato Campeão Nacional. Em caso de empate, deixa também o título muito bem encaminhado. Depois, na quarta-feira, em Amesterdão, poderá voltar a erguer um troféu europeu, 51 anos depois de - na mesma cidade - Eusébio e seus pares terem mostrado o Glorioso ao mundo. Dia 26, no Jamor, podemos também conquistar a Taça de Portugal, prova que nos escapa desde 2004. Ou seja, estamos, continuamos a estar, a três vitórias da melhor temporada de todos os tempos. E se nos dissessem, no início da época, que chegaríamos a esta data com tão grandes possibilidades de fazer história, tal seria suficiente para nos deixar empolgados, e ansiosos por cada um desses embates, por cada uma dessas finais.
A primeira é amanhã. Eu arriscaria a dizer que é a mais importante de todas. Depois de uma temporada brilhante, não ser Campeão seria, não só uma injustiça, como uma anormalidade. Perder no Dragão poderia também afectar o ânimo da equipa para as decisões seguintes. Por isso, estou convicto de que iremos ter em campo o melhor Benfica. E, a ser assim, as hipóteses de sucesso serão muitas. Serão todas!

PRAIA À VISTA

No momento em que esta edição chegar às bancas, já será conhecido o desfecho da Meia-Final da Liga Europa. Já saberemos se o Benfica regressou a uma Final, 23 anos depois de Viena, ou se, pelo contrário, se quedou por uma presença honrosa – que, em condições normais, será suficiente para na próxima temporada nos colocar como cabeças-de-série do sorteio da Fase de Grupos da Champions League, e como brilhantes sextos classificados no ranking da UEFA, apenas superados por Barcelona, Bayern de Munique, Real Madrid, Manchester United e Chelsea.
Independentemente do que a frente europeia nos tenha reservado, o principal objectivo da temporada (a conquista do Campeonato) está cada vez mais perto de ser atingido. Há umas semanas atrás, nestas mesmas páginas, referi ser minha convicção que cinco vitórias consecutivas seriam suficientes para, senão festejar o título, pelo menos encomendar as faixas. Essa série de cinco jogos termina justamente na próxima segunda-feira, quando, no nosso estádio, recebermos uma das grandes revelações da época: o Estoril-Praia.
Caso consigamos ultrapassar esta etapa – cuja dificuldade, para além do valor do adversário, encontrará razões no desgaste do jogo com o Fenerbahce, e de toda uma época cada vez mais longa -, entraremos no Estádio do Dragão com uma vantagem que nos põe a salvo, quer de uma noite menos conseguida, quer dos subterfúgios a que o FC Porto recorre quando vê as coisas escaparem ao seu controlo (chamem-se eles Proenças, Casagrandes ou bolas de golfe). Pelo contrário, uma escorregadela diante do Estoril deixar-nos-á à mercê de todos esses factores, podendo pois dizer-se que - segunda-feira sim - estamos perante “o” jogo do título.
Importa deste modo perceber a relevância da ocasião, e criar uma onda de apoio capaz de, a partir das bancadas, ajudar a equipa a chegar à vitória. Um estádio cheio será a força suplementar que, depois de tanto mar (como dizia Chico Buarque), nos conduzirá à terra prometida, e ao cheiroso alecrim da festa.

PÁTIO DAS CANTIGAS

Sempre que o Benfica se aproxima da conquista de um Campeonato, logo ouvimos os sons cacofónicos de uma orquestra que procura desvalorizar méritos, encontrar desculpas, e produzir ruídos. Tais ruídos não passam de arrotos causados por uma difícil digestão. Mas, de tão intensos, acabam por deixar que o embuste tome o lugar da realidade, num espaço mediático onde - graças a alianças nada santas - a proporção de forças surge quase sempre invertida face ao enorme peso popular do nosso Clube.
Foi assim em 2005, a propósito de um jogo disputado no Algarve. Foi assim em 2010, quando, no túnel da Luz, os agressores foram convertidos em vítimas, e a verdade convertida em mentira. Voltou a verificar-se o mesmo após o Dérbi do passado fim-de-semana, o qual deixou o FC Porto mais longe de alcançar o único objectivo que lhe resta na temporada, e o Sporting apeado daquela que seria a única ocasião capaz de proporcionar alegria aos seus adeptos (a de nos atrapalhar na corrida ao título).
Desde as bancadas do estádio, assistiu-se a um bom espectáculo, a um excelente golo (na primeira parte), e ao mais belo lance de toda a época futebolística nacional (na segunda). Viu-se também um Sporting motivado - o que não é notícia quando joga contra o seu invejado vizinho -, e feliz por ter evitado uma temida goleada. Presenciou-se uma vitória justa da melhor equipa, e uma arbitragem que, desde o primeiro instante, dentro e fora das áreas, dos dois lados do campo, adoptou um critério largo e equitativo, contribuindo para a fluidez do jogo como poucas vezes se vê em Portugal.
Cometeu erros? No estádio não dei por eles, embora a televisão demonstre um ou outro. Ficaram penáltis por marcar? Dentro do critério seguido pelo juiz, apenas um lance, aos 88 minutos, parece deixar dúvidas. Foi uma arbitragem perfeita? Não. Foi uma boa arbitragem? Sim.
A razão para tanto barulho é pois a mesma de sempre: a dificuldade em engolir os sucessos do Benfica, e em travar uma onda que nos vai tornando imparáveis.

15 DIAS À BENFICA

Passamos já o meio de Abril, e temos um mundo diante de nós.
Recordo-me como, não há muitos anos atrás, esta era normalmente uma fase de resignação, e de esperança…na temporada seguinte.
Neste momento, com nove jogos oficiais por disputar, podemos estar a caminho da melhor época de todos os tempos. Sim, de todos os tempos!
Esse sonho pode, porém, desmoronar-se num ápice. Como disse nestas páginas o meu amigo Pedro Ferreira, estamos entre um “quase tudo” e um “quase nada”, não sabendo ainda em que ponto exacto iremos terminar tão estimulante (e angustiante…) caminhada.
Estou convicto que os próximos quinze dias darão respostas mais conclusivas.
Acredito, por exemplo, que, ganhando ao Sporting na Luz, e ao Marítimo no Funchal, o Campeonato dificilmente nos irá escapar. Ultrapassando os turcos do Fenerbahce, voltaremos a uma Final Europeia - quase um quarto de Século depois da derrota de Viena ante o AC Milan de Gullit, Rijkaard e Van Basten -, na qual tudo será possível. Estes quatro jogos (a que devemos acrescentar um quinto: a recepção a um surpreendente Estoril-Praia), jogam-se em apenas quinze dias. Quinze loucos dias, que podem deixar-nos à beirinha do paraíso, mas, durante os quais, qualquer passo em falso nos fará cair no inferno, ou, pelo menos, num purgatório difícil de gerir e digerir.
Fui defendendo, ao longo da época, que, dada a aleatoriedade das provas europeias (decididas por detalhes), a prioridade deveria ser posta no Campeonato. Disse também que, eventualmente chegados a umas Meias-Finais, a equação poderia ter de ser reformulada. Ora aí estamos nós, com (os) três troféus para conquistar, e jogos decisivos atrás uns dos outros. Ninguém me peça agora para escolher. Quero ganhar tudo. Queremos ganhar tudo. E podemos ganhar tudo.
Acredito na equipa. Acredito no treinador. Acredito na estrutura. Só não sei como o meu coração irá resistir a cada jogo, a cada minuto e a cada lance, sabendo que de todos esses instantes dependerá este nosso encontro com a História.

FANTASIAS

Nada tenho contra o Boavista. Pelo contrário, creio que o Benfica teria a ganhar com a existência de um segundo clube na cidade do Porto, de forma a equilibrar os pratos de uma balança que tem em Lisboa um contra-peso a puxar-nos constantemente pelos calcanhares – e cujo fardo se faz sentir, não tanto nos relvados, mas principalmente no espaço mediático em redor dos mesmos.
Jogadores marcantes na história do Benfica, vieram do Boavista. Recordo-me, por exemplo, de João Pinto, Isaías ou Nuno Gomes.
Tive o privilégio de festejar um título (porventura o mais saboroso da minha vivência desportiva) nas bancadas do Bessa, sendo essa uma recordação que jamais irei esquecer.
Pese embora tudo isto, não posso estar de acordo com a recente decisão da Liga de Clubes, que não só aponta para a reintegração do Boavista no principal Campeonato, como, a reboque disso, impõe um alargamento suicida.
Deixo de lado o facto de tal decisão estar sustentada numa prescrição, que, pelo menos aos meus olhos, não inocenta ninguém. Detenho-me nos aspectos económicos.
A situação do país é conhecida. Os patrocinadores desaparecem como areia por entre os dedos. O flagelo dos salários em atraso atinge a maioria dos clubes. E, perante este panorama, eis que corremos o risco de ver um Campeonato inflacionado por equipas medíocres, com muito menor competitividade (e, esta época, à 25ª jornada, os dois primeiros ainda não perderam um só jogo), muito menos dinheiro para dividir, e, certamente, muito mais problemas, inclusive ao nível da verdade desportiva (ou da falta dela).
Defendo, há muito, uma Liga profissional com dez clubes (ou mesmo apenas oito), a quatro voltas, deixando tudo o resto por conta do amadorismo. Nem sei se uma II divisão fará sentido. Talvez apenas Campeonatos Regionais, com uma fase final para apurar uma equipa a promover. Tudo o resto é fantasia, de quem ainda não percebeu que o (nosso) mundo mudou, e que esta é uma actividade deficitária que poucos clubes têm condições para sustentar.

CUMPLICIDADES

Podemos acusar a Associação de Futebol do Porto de muita coisa. Podemos lembrar-nos de tudo o que aconteceu no dramático consulado de Lourenço Pinto no Conselho de Arbitragem da FPF. Podemos recordar escutas telefónicas, e fugas para a Galiza com avisos prévios. Mas há algo que todos temos de reconhecer àquela gente: a gratidão para com quem lhes presta bons serviços. Aliás, já vimos disto em filmes.
À Gala promovida pela referida Associação, e pelo seu sinistro presidente, não faltou ninguém. E, na maioria dos casos, não se pode dizer que não merecessem o convite. Falo, por exemplo, do impagável Pedro Proença.
Devo fazer, porém, um pequeno reparo. Achei algo injusto o lugar que lhe foi destinado na sala. O treinador André Villas-Boas, que deu somente um Campeonato Nacional ao FC Porto, tinha assento reservado na primeira fila, bem próximo de Pinto da Costa. Enquanto isso, o árbitro da brilhantina, que, com idêntico zelo, ofereceu, pelo menos, dois Campeonatos ao FC Porto - e nunca percebi se é o FC Porto o filiado na AF Porto, ou se, pelo contrário, é esta a funcionar como um mero departamento do clube -, ficava-se por uma modesta segunda linha, bem atrás daquilo que o seu protagonismo sempre fez por justificar. Pormenores à parte, há que dizer que o homem estava em família, e rodeado pela sua gente.
Não sei se, desta vez, houve lugar a prémios. Mais uma medalha, não lhe ficaria nada mal, embora fossem necessários muitos e muitos troféus para premiar todas e cada uma das ocasiões em que o juiz lisboeta ajudou os seus amigos.
Também desconheço quanto vale, nesta sombria contabilidade, uma final da Liga dos Campeões, e uma final de um Europeu. Saldo para um lado, ou saldo para o outro, o certo é que tanto a coluna do crédito, como a do débito, parecem neste caso muito bem preenchidas. Demasiado bem preenchidas.
Entre galas, relvados portugueses e nomeações internacionais, veremos como decorrem os próximos episódios desta saga, algures entre o romance e o “film noir”.

MULTI BENFICA

Quem tiver lido aquilo que escrevi, nesta mesma coluna, há uma semana atrás, percebeu ser minha convicção que cinco vitórias consecutivas do Benfica, nas próximas cinco jornadas da Liga de Futebol, representarão (com o devido respeito ao Moreirense) a conquista do respectivo título.
Para além dessa minha convicção pessoal – que, acredito, seja partilhada pela maioria dos benfiquistas, e também por muitos não benfiquistas -, está a matemática. Esta, mesmo com a implacável frieza dos seus cálculos, acrescenta apenas um número aos cinco triunfos que “pedi” aos jogadores encarnados. Ou seja, cinco vitórias mais uma, valem matematicamente o título, e aí não haverá Moreirenses que nos atrapalhem a vida.
As seis vitórias de que o nosso Futebol necessita para fazer a festa estendem-se, numa curiosa similitude, àquilo que se passa noutras modalidades.
Seis triunfos consecutivos garantem, também, a revalidação do título nacional de Hóquei em Patins, sendo que cinco deixarão as coisas praticamente à nossa mercê (tal como no Desporto-rei). Seis vitórias asseguram, igualmente, o título nacional de Andebol, que nos escapa há já alguns anos. Seis vitórias serão igualmente suficientes para erguer o ceptro de Voleibol, contando com os jogos que faltam da segunda fase, e com as duas primeiras partidas do Play-off final. Só o Basquetebol e o Futsal, dada a especificidade do formato dos respectivos Campeonatos, carecem de mais tempo, e mais vitórias, para renovar as conquistas do ano passado.
À semelhança do que sucede nos relvados, também nos pavilhões as próximas semanas serão decisivas. Elas determinarão até que ponto será possível repetir, ou (porque não?) superar, o feito histórico de 2011-2012, quando fomos vencendo sucessivamente Hóquei, Basquetebol e Futsal, acrescentando-lhes o Atletismo – que, também ele, tem somado títulos nos últimos tempos.
Isto sim, é Eclectismo com E grande. Não de palavreado (como se vê em alguns vizinhos invejosos), mas de competições, de vitórias, e de títulos.

VENHAM MAIS CINCO!

Rio Ave, Sporting e Estoril, na Luz. Deslocações a Olhão e aos Barreiros. São estas as cinco próximas jornadas do Campeonato. São estas, creio, as cinco vitórias que nos separam do título.
A semana passada correu particularmente bem ao futebol encarnado: apuramento europeu em Bordéus, e dilatar da vantagem doméstica em Guimarães, num jackpot de emoções que temos de saber gerir com entusiasmo, com confiança, mas de pés bem assentes no chão.
Se na frente internacional, com Chelsea, Tottenham e Lazio ainda em prova, o sonho de uma subida aos céus permanece mais distante do que aparenta, intramuros o Benfica depende agora apenas da sua concentração competitiva para alcançar o grande objectivo da temporada. É verdade que o pássaro europeu vai esvoaçando cada vez mais perto dos nossos olhos. Só que o de raça lusitana está já na nossa mão, e não o podemos deixar fugir.
Não é impossível vencer no Dragão na penúltima jornada. Muito menos trazer de lá um empate. Porém, nós sabemos, que eles sabem, que nós sabemos, que eles sabem, que nesta altura, ao contrário do que faria supor a mais inocente das matemáticas, a diferença entre quatro e três não é apenas um. Quatro pontos - estes mesmos que levamos de vantagem - podem dispensar uma decisão dramática, num terreno hostil, onde valerá quase tudo. Para nos salvaguardarmos dessa eventualidade, dispomos agora de um caminho alternativo. Ele passa por cinco vitórias, em cinco “finais” que terão de ser encaradas como os jogos das nossas vidas.
Há um Newcastle para ultrapassar, que acredito estar ao alcance de um bom Benfica - onde jogadores menos utilizados como Aimar, Carlos Martins, Rodrigo, Luisinho, ou os dois jovens Andrés, podem muito bem caber. Mas, mais do que nunca, julgo que a prioridade absoluta terá de ser o Campeonato, que no passado Domingo nos piscou ostensivamente o olho.
Quem tudo quer, tudo perde, diz o povo com sabedoria. Queiramos pois, com muita força, este 33º título. Se alguma coisa vier por acréscimo, tanto melhor.

HERÓIS DA LUZ

Se não estou errado, passaram já cerca de três meses desde a última vez que o Benfica jogou para o Campeonato em horários adequados. Leia-se, sem ser nas noites de Domingo.
É pois sem surpresa que se verifica um decréscimo de espectadores, facto a que, diga-se, também não será alheia a crise económica em que o país vive mergulhado - e, em menor medida, o rigoroso Inverno que a meteorologia nos destinou.
O clube vai fazendo os possíveis por chamar pessoas ao estádio. Quer dentro do campo, mantendo o 1º lugar, a invencibilidade, e a veia goleadora que tem caracterizado a era-Jesus; quer através da prática de preços convidativos, de que é exemplo o chamado “pacote-família”.
Não me parece fácil, porém, atrair multidões, quando sistematicamente se joga a horas em que quem ainda tem emprego (e pode pagar o bilhete) privilegia normalmente o conforto do lar. Acresce que, sendo o nosso Clube de matriz vincadamente nacional, e estando a maioria dos seus adeptos espalhada pelo país (ou pelo mundo), torna-se difícil encher a Luz apenas com benfiquistas de Lisboa. E não vejo como qualquer Casa do Minho, de Trás-os-Montes, ou da Beira Alta, possa organizar uma excursão apelativa em horários desta natureza.
Esta é uma das chagas do futebol português.
Em Inglaterra também há televisão, e quase todos os jogos se disputam de tarde. Em Itália também há televisão, e são poucas as partidas jogadas à noite (normalmente apenas uma por jornada). Na Alemanha também não há notícia de jogos nocturnos, excepto às sextas-feiras. Só em Espanha temos uma realidade mais parecida com a nossa, embora a capacidade desportiva e financeira dos principais clubes lhes permita encher os estádios, desde logo, com bilhetes de época.
Ir ao futebol no nosso país, em altura de austeridade, suportando viagens e bilhetes, apanhando frio e chuva, e regressando a casa a horas impróprias, é quase para heróis.
Espera-se que a Benfica TV ajude a resolver este problema nos próximos anos, devolvendo o futebol aos adeptos.

PRIMEIROS!

Com sorte, mas também com alma e capacidade de sofrimento, o Benfica saiu de Aveiro na liderança isolada da Liga Portuguesa de Futebol, acendendo as luzes da esperança na sua gigantesca massa adepta.
Faltam nove jogos, tudo continua por decidir, e a equipa dá mostras de não vacilar. A nota artística vai alternando, enquanto as vitórias se vão sucedendo, sendo necessário recuar quarenta anos na história para encontrarmos uma tão eficaz campanha.
É altura, pois, de recriarmos uma onda vermelha capaz de invadir as bancadas do nosso estádio, e percorrer todo o país, empurrando o Benfica rumo ao 33º título. É altura de entrarmos também nós em campo, para erguer a moldura que habitualmente enquadra os campeões.
Há quem fale de penáltis, atirando as razões da liderança benfiquista para as costas das arbitragens. Se nos lembrarmos das expulsões de Proença na Choupana, dos penáltis de Xistra em Coimbra, e das ”defesas” de Alex Sandro em vários locais, percebemos que tudo não passa de manobras de diversão de quem avista o perigo. Até porque as duas últimas grandes penalidades marcadas a nosso favor foram inequívocas, escapando a qualquer racionalidade as dúvidas levantadas por algumas vozes acerca delas.
Somos primeiros porque somos melhores, e não é só no Futebol que o Benfica mostra a sua força. Somos líderes também em Basquetebol, Hóquei em Patins, Voleibol e Andebol, mantendo todas as esperanças intactas no Futsal. Permanecemos nas Taças de Portugal de todas estas modalidades, com a excepção do Voleibol. Estamos entre os oito melhores da Europa do Hóquei. E como se tudo isto não bastasse, recebemos recentemente a doce notícia relativa à aquisição dos direitos de transmissão, para a Benfica Tv, da melhor e mais bonita liga nacional de todo o mundo - facto que traz dados novos ao mercado audiovisual português, e ao nosso posicionamento perante ele.
Tudo isto é Benfica. Tudo isto é, um grande Benfica. Acima de tudo e de todos, voando como uma águia que procura atingir os céus.

NÚMEROS HISTÓRICOS

Seria preciso recuarmos até 1984 para vermos um Benfica ainda mais forte nas primeiras vinte jornadas de um Campeonato Nacional de Futebol. Então, com Eriksson ao leme, e ainda com Bento, Humberto, Chalana e Nené na equipa, os encarnados chegaram a esta altura da prova sem qualquer derrota, mas apenas com dois empates consentidos (contra os quatro de 2012/13). Esse é, de resto, o único Campeonato do pós-Eusébio em que os números do Benfica se sobrepõem aos do actual. Diga-se, porém, que em 1983/84 já caíramos da Taça de Portugal, e agora estamos a um pequeno passo de chegar ao Jamor. Ou seja, olhando estritamente para os resultados, em cerca de quarenta anos é difícil encontrar paralelismo com a notável temporada que a nossa equipa está a realizar – sendo que, na frente externa, só uma estranha carambola de resultados nos impediu de prosseguir na Champions, e que, na Liga Europa, o primeiro e difícil obstáculo está já ultrapassado.
É certo que a competitividade deste Campeonato se resume aos dois principais emblemas, e que nem sempre assim foi. Havia Sporting, houve também, a seu tempo, Boavista, e do meio da tabela para baixo, a força da maioria das equipas era genericamente superior à que manifestam nos austeros tempos que vivemos.
Nada disto, nem o facto de (ainda) não estarmos em primeiro lugar, retira mérito ao trabalho destes jogadores, e, sobretudo, deste treinador. Recordemo-nos daquilo que se disse em Agosto, quando, por muitos milhões, Javi Garcia e Witsel partiram para outras paragens. Confesso que eu próprio duvidei, na altura, que tão rapidamente os esquecêssemos. Hoje vemos Matic (um dos melhores jogadores a actuar na nossa Liga), vemos Enzo Perez, e percebemos que mantemos uma “Senhora Equipa”, à qual Lima e Olá John também vieram acrescentar qualidade.
Ainda não ganhámos nada. Nem temos garantias de que o possamos fazer. Há muitas barreiras a transpor (equipas de futebol, e não só). Mas o caminho é este, e está a ser percorrido com eficácia e brilhantismo.

PRIORIDADES

Escrevo estas linhas antes da 2ªmão da eliminatória da Liga Europa. O resultado obtido na Alemanha deixou as coisas bem encaminhadas, mas neste tipo de competição, contra este tipo de adversário, não é possível cantar vitória antes do tempo.
O que quer que se diga aqui não perderá, porém, aplicabilidade. Nesta época (seria bom sinal), ou nas próximas, e sempre que nos virmos envolvidos em várias frentes, sabendo que dificilmente temos condições para triunfar em todas elas. Está em causa a dicotomia entre o sonho e a realidade, e a escolha entre o bom e o possível, sabendo que o óptimo tem poucos amigos.
Se alguém me perguntar se prefiro ganhar a Liga Europa ou o Campeonato, escolho, sem hesitações, a primeira hipótese. Avaliamos a dimensão histórica de cada conquista, e lembramo-nos que um título europeu é algo que nos escapa há mais de 50 anos. Sobretudo para a minha geração, que não viu José Águas erguer à Taça dos Campeões, seria muito importante ver Luisão com um troféu internacional nas mãos – e manda o pragmatismo perceber que só na Liga Europa tal sonho tem condições de se concretizar.
Mas este desejo não pode chocar com o grande desígnio estratégico do Benfica do presente, que passa por disputar a liderança do futebol português com o FC Porto. E sabemos que um plantel como o nosso terá dificuldades em aguentar a exigência de dois jogos de alta intensidade por semana, condição fundamental para conciliar o título nacional com uma grande prestação extramuros.
Creio, pois, que só um Campeonato prematuramente resolvido (a bem ou a mal, que é como quem diz, ganho ou perdido) permitiria apostar todas as fichas numa aventura europeia. No ponto em que estamos, onde cada jogo doméstico é absolutamente decisivo, não podemos levantar os pés do chão.
Se, com rotatividade e sorte, conseguíssemos porventura chegar a umas meias-finais, então seria de reequacionar prioridades. Até lá, não deve haver lugar a dúvidas. Nem na estrutura do clube, nem, sobretudo, na cabeça dos jogadores.

BASTA!

Já não há desculpas. Só é enganado quem quer.
Desde 2001 que ele anda por aí.
Teve tempo de resolver (pelo menos) dois Campeonatos, recebeu todas as insígnias que lhe deviam, não faltou às merecidas homenagens, e deixou cair todas as máscaras.
Começou por se auto-intitular “benfiquista”, certamente para dissimular vontades. Depois, sempre muito bem penteado, foi lançando as sementes de uma carreira frutuosa, que o levou Europa fora, até aos mais cintilantes palcos, para dirigir os mais importantes jogos, recebendo os louvores e prémios correspondentes.
Pelo meio, fez o que fazem aqueles que, nos meandros da arbitragem portuguesa, pretendem chegar longe: protegeu os poderes instalados, com o seu apito sempre afinado segundo a mesma escala, sem variações, sem uma só colcheia ou semi-fusa a destoar.
Não irei repetir-me. Não vou voltar a descrever todo o vasto e negro historial da criatura. Nem esta coluna daria para tanto.
Quero apenas manifestar o meu desejo, ou melhor, a minha exigência, de que isto não fique assim. Quero acreditar que a força social e institucional do meu Clube seja suficiente para impedir este indivíduo de continuar, época a época, a transformar jogos do Benfica num repetido Carnaval.
Não acredito em coincidências. Nem em azares – sobretudo quando se sucedem em série. E não duvido da sabedoria, da preparação nem da perspicácia de quem tão galardoado é. Sobram pois poucas hipóteses.
Achei graça a uma entrevista concedida nas vésperas do último Clássico. Diverti-me com as acrobacias retóricas de quem pretendia estar nesse jogo, certamente para fazer dele o que fez de outros. Mas esperava que o bom senso não permitisse voltar a vê-lo por perto.
Eis que regressou, em todo o seu esplendor, para dar mais um bailinho - agora na Madeira - a todos os que, ingenuamente, ainda crêem na sua isenção.
O homem continua a sua luta. Talvez queira tornar-se imortal. Talvez sonhe ser uma espécie de Calabote ao contrário. E enquanto o deixarem, enquanto o deixarmos, ele não irá parar.

PROENÇAMENTOS

A saborosa vitória em Braga significou um passo importante na luta pelo principal objectivo da época. Em teoria, tratava-se do segundo mais difícil compromisso do Campeonato, pelo que os três pontos alcançados não podem deixar de constituir um estímulo para jogadores, técnicos, dirigentes e adeptos, neste combate que se prevê renhido até final.
Com os dois “grandes” igualados na liderança, sem cederem pontos a ninguém, todo o país desportivo antevê uma penúltima jornada escaldante e decisiva, quando ambos se encontrarem frente a frente. E desde já se vai falando do nome do árbitro a escalar para a ocasião. Pedro Proença, com todos os galões regionais, nacionais e internacionais que alguém se encarregou de lhe conceder, é, obviamente, aquele que surge no horizonte dos que pretendem voltar a vencer um Campeonato à custa de lances irregulares – como o penálti de Lisandro em 2009, ou o golo de Maicon em 2012.
Não adianta recordar aqui o longo cadastro do homem, que começa no Bessa em 2002, passa por Penafiel em 2005, e, depois de muitos outros episódios, continua a deixar marcas, como se viu em Setúbal há pouco mais de uma semana.
Proença pode até ser considerado, por quem quiser, o melhor árbitro do universo. Por mim, sou livre de ter as minhas dúvidas de que seja o mais honesto; e o seu negro historial em jogos do Benfica demonstra que não é, seguramente, o mais imparcial.
Há já algum tempo escrevi que, por aquilo que me era dado a ver do mundo do futebol, o problema principal não estava na Liga, nem na FPF, nem no Gomes, nem no Pereira, nem na Olivedesportos. O grande vício residia nos próprios árbitros em pessoa, e, em particular, no grupo de internacionais que vai sendo homenageado, à vez, por Lourenço Pinto e amigos.
Os últimos tempos têm sedimentado essa ideia. E só espero que a recta final deste Campeonato não venha a confirmá-la de vez, com um qualquer fora-de-jogo a decidir o título, e um tipo de brilhantina a pedir desculpa em público, rindo-se de nós em privado.