BATE CORAÇÃO
Não se esperava outra coisa. O jogo de Coimbra traduziu-se numa tarde de dificuldade, tensão e sofrimento.À medida que o campeonato caminha para o fim, à medida que cada ponto ganho ou perdido assume peso de decisão, os corações palpitam nas bancadas e as almas sofrem como nunca. A glória está próxima, todas as probabilidades jogam a favor, mas enquanto a porta da gaiola não se fechar, enquanto subsistir o risco do pássaro se escapulir, enquanto a terrível hipótese de morrer na praia permanecer ameaçadora, esta angústia vai acompanhar o mundo benfiquista. Vai valendo que, em campo, os jogadores encarnados não dão mostras de grandes tremeliques, e, uma vez mais, tudo acabou em bem.
Tal como tudo começara bem, pois um golo aos dois minutos poderia até indiciar uma vitória tranquila. Sobretudo pela forma afirmativa como o Benfica entrou em campo, dominando completamente as operações, conquistando a bola em zonas adiantadas, pressionando muito, flanqueando o jogo, fazendo, enfim, aquilo que tem feito ao longo dos melhores momentos da sua temporada. Um eventual segundo golo poderia ter transportado a partida para outra dimensão (uma goleada?), mas o que é certo é que, apesar de terem existido oportunidades para tal, foi a Académica a marcar, num lance fortuito…e irregular.
Fazendo o 1-1 os estudantes cresceram muito. O restabelecer do empate era a prova de que podiam efectivamente responder ao futebol benfiquista, e disputar-lhe os pontos. Passaram a deter a bola muito mais tempo, trocando-a como é raro ver-se a uma equipa da cauda da tabela classificativa. E na área encarnada a ausência de Luisão fazia-se notar, quer ao nível do futebol aéreo, quer no apoio normalmente dado às iniciativas ofensivas de David Luíz (que voltou a manifestar alguma displicência nas saídas da zona de perigo).
Não há campeões sem sorte, e o momento em que o Benfica marcou o seu segundo golo (à beira do intervalo) não podia ter sido mais favorável. Foi novamente Weldon o protagonista, mostrando a enorme utilidade da sua presença no plantel – com 5 golos valeu já 6 pontos, exactamente os que o Benfica tem de vantagem sobre o segundo classificado.
Após o intervalo sentia-se que, ou o Benfica marcava o terceiro, ou ver-se-ia em apuros para, na ponta final do jogo, segurar a vantagem. A Académica ameaçava lances de perigo a cada vez que dispunha da posse de bola (ou será a minha ansiedade a falar por mim?), e o resultado tangencial conferia-lhe o tónico psicológico necessário para continuar a lutar bravamente pelos pontos.
A sorte foi que o terceiro golo apareceu mesmo. Marcou Ruben Amorim, mas coube a Di Maria a maior fatia do mérito. Após algumas oportunidades desperdiçadas, o Benfica pensava ver sorrir-lhe a tranquilidade. Debalde. Com poucos minutos para jogar, um pontapé de Tiero, e uma desatenção de Quim, recolocaram a equipa de Villas-Boas na discussão do jogo. O tempo que faltava jogar-se foi aflitivo, até porque Carlos Xistra insistia em assinalar faltas inexistentes contra os encarnados, empurrando-os para a sua zona defensiva.Soou enfim o apito final. Soou como música celestial aos ouvidos de milhões. O Benfica ganhou, com justiça, um jogo que poderia ter corrido mal. Superando o indisfarçável cansaço, as ausências de Luisão e Saviola, a debilidade física de Cardozo, a arbitragem hostil, e um adversário forte, organizado e empenhado, pode ter sido dado em Coimbra o passo decisivo para o título.



Suplantando, com classe, um dos mais fortes adversários que o calendário lhe punha por diante, não há como negar que o Benfica deu esta noite um passo muito largo rumo ao título. Não o definitivo (uma eventual derrota em Coimbra, e tudo se complicará de novo), mas um passo firme, capaz de empolgar a equipa e o seu mar de adeptos – que ontem, diga-se, deram mais uma demonstração de que, no nosso país, ninguém sequer se assemelha à sua força vibrante e entusiástica.
Estava no banco a solução para os problemas do Benfica. A entrada de Aimar ao intervalo, virou o jogo do avesso, desequilibrou todos os exercícios de contenção que o Sporting havia conseguido impor até aí, e desbravou os caminhos para a vitória encarnada. Logo no primeiro lance da segunda parte isso se fez sentir de forma clara. Logo aí o Benfica se voltou a parecer consigo próprio.
Olhando para as estatísticas da prova, o Benfica detém o melhor marcador, o líder das assistências, e também do número de remates, posições que pode perfeitamente manter até final. Também nas estatísticas colectivas a equipa encarnada aparece invariavelmente nos primeiros lugares, sendo claramente uma das principais animadoras da competição.
Lastimando, uma vez mais, o mal fadado sorteio que interpôs o Liverpool no caminho da glória, há ainda assim bastos motivos para erguer a cabeça e o orgulho benfiquista. Não pôde ser uma temporada europeia histórica (sê-lo-ia se o clube chegasse à sua nona final), mas foi seguramente uma temporada europeia à altura da história.
Acabou-se.
Júlio César foi a personificação da infelicidade, como fora Costa Pereira em 1965, como fora Bento em 1984. Ramires, Aimar, Sidnei, Javi Garcia, e mesmo Cardozo (apesar do golo), estiveram também, todos eles, muito abaixo daquilo que os temos visto fazer ao longo da temporada. Ainda assim o Benfica, que até entrou muito bem no jogo, discutiu a eliminatória palmo a palmo até oito minutos do seu final, o que, diante de tão poderoso adversário, não deixa de ser meritório. Balanceado no ataque, com ambição de marcar e discutir o resultado, a equipa portuguesa acabou traída pelo fortíssimo e eficaz contra-ataque contrário, motivo pelo qual o resultado se tornou tão pesado (e exagerado) – os terceiro e quarto golo ilustram-no na perfeição.
Falo de nomes como Júlio César, Ramires, Sidnei, Fábio Coentrão, Carlos Martins e Pablo Aimar, que, ou não jogaram, ou saltaram do banco, ou foram substituídos a meio da segunda parte. Ainda assim a época já vai longa, as frentes de combate têm sido várias, e os homens não são máquinas. Esta será seguramente uma das chaves do jogo de amanhã.


Feito que está o desabafo, direi então que a partir do 2-0, espicaçado pelo naufrágio inicial, o Benfica voltou a mostrar-se igual a si próprio. Contou para isso com a inspiração de um herói pouco provável (Weldon: o melhor em campo), mas que uma vez mais deu pontos á equipa, marcando os golos com que o jogo readquiriu a sua normalidade. E ele bem merecia uma noite destas. Caso a reacção benfiquista não tivesse dado frutos imediatos, as coisas complicar-se-iam muito. Felizmente a bola entrou uma, duas e três vezes, e quando os jogadores saíram para as cabines, já a vantagem no marcador era uma realidade. Imagino que mesmo assim não se tenham livrado de uma boa reprimenda de Jorge Jesus (e eu, a vontade que tinha era de lhes bater), pois a abordagem à segunda parte, mesmo em vantagem no marcador, nada teria que ver com aquela entrada inicial em falso.
Com a expulsão de Babel tudo mudou. Rafa Benitez não fez qualquer substituição, mas alterou radicalmente o seu modelo táctico, transformando um trio de ataque, com alas bem abertos, numa dupla ofensiva (Kuyt-Torres) sem extremos. Era o que o Benfica mais podia desejar, pois residiam precisamente nas alas todas as suas dificuldades nessa fase inicial da partida.
Individualmente gostaria de destacar Cardozo, que mesmo desperdiçando várias situações de perigo, acabou por se tornar no pai desta vitória; e também Fábio Coentrão, que realizou mais uma grande exibição. O papel dos centrais fica marcado pelo golo sofrido, mas daí para a frente, tanto Luisão, como, sobretudo, David Luíz estiveram em plano elevadíssimo. Javi Garcia também foi dos melhores, tal como Di Maria, que no entanto insistiu demasiado em iniciativas individuais, mesmo quando elas não se justificavam. Em sentido contrário há que referir que Maxi Pereira, Carlos Martins, Aimar e Ramires ficaram longe daquilo que têm feito durante a época.









Favoritismo sim, vitória antecipada, nem pouco mais ou menos. Este é um jogo tremendamente difícil, que deve ser encarado como uma final, ou mesmo como a final. Ganhando-a, o Benfica ficará perto do título. Não a ganhando, ficará mais longe do que, por agora, possa parecer.Creio também que os adeptos que vão encher as bancadas irão ter um papel particularmente importante no desfecho da partida. Por muito que tentem aliviar a pressão, os jogadores do Sp.Braga (ao contrário de FC Porto, Sporting ou grandes equipas europeias) não estão habituados a estes momentos, nem têm, na sua maioria, a experiência de jogar com 65 mil pessoas contra eles. Não querendo ser confundido com um qualquer Salema Garção, não propondo, nem aceitando, qualquer tipo de violência, devo dizer contudo que um clima de grande pressão (falo sobretudo de barulho) vindo das bancadas pode, nesta ocasião em particular, revelar-se decisivo.Mesmo que o jogo não esteja a correr bem, é imprescindível que o apoio seja incessante até ao último minuto dos descontos. Uma falha, ou até um golo sofrido, não podem fazer calar o Inferno da Luz, que tem aqui, porventura, a sua mais importante tarefa dos últimos anos.
Se o Benfica marcar primeiro, terá metade do caminho percorrido. Um grande Benfica, um Benfica ao seu melhor nível, contando com um ambiente infernal em seu redor, vencerá seguramente a partida. É preciso que o espírito seja esse, o qual não permite qualquer espécie de triunfalismo.
