BATE CORAÇÃO

Não se esperava outra coisa. O jogo de Coimbra traduziu-se numa tarde de dificuldade, tensão e sofrimento.
À medida que o campeonato caminha para o fim, à medida que cada ponto ganho ou perdido assume peso de decisão, os corações palpitam nas bancadas e as almas sofrem como nunca. A glória está próxima, todas as probabilidades jogam a favor, mas enquanto a porta da gaiola não se fechar, enquanto subsistir o risco do pássaro se escapulir, enquanto a terrível hipótese de morrer na praia permanecer ameaçadora, esta angústia vai acompanhar o mundo benfiquista. Vai valendo que, em campo, os jogadores encarnados não dão mostras de grandes tremeliques, e, uma vez mais, tudo acabou em bem.
Tal como tudo começara bem, pois um golo aos dois minutos poderia até indiciar uma vitória tranquila. Sobretudo pela forma afirmativa como o Benfica entrou em campo, dominando completamente as operações, conquistando a bola em zonas adiantadas, pressionando muito, flanqueando o jogo, fazendo, enfim, aquilo que tem feito ao longo dos melhores momentos da sua temporada. Um eventual segundo golo poderia ter transportado a partida para outra dimensão (uma goleada?), mas o que é certo é que, apesar de terem existido oportunidades para tal, foi a Académica a marcar, num lance fortuito…e irregular.
Fazendo o 1-1 os estudantes cresceram muito. O restabelecer do empate era a prova de que podiam efectivamente responder ao futebol benfiquista, e disputar-lhe os pontos. Passaram a deter a bola muito mais tempo, trocando-a como é raro ver-se a uma equipa da cauda da tabela classificativa. E na área encarnada a ausência de Luisão fazia-se notar, quer ao nível do futebol aéreo, quer no apoio normalmente dado às iniciativas ofensivas de David Luíz (que voltou a manifestar alguma displicência nas saídas da zona de perigo).
Não há campeões sem sorte, e o momento em que o Benfica marcou o seu segundo golo (à beira do intervalo) não podia ter sido mais favorável. Foi novamente Weldon o protagonista, mostrando a enorme utilidade da sua presença no plantel – com 5 golos valeu já 6 pontos, exactamente os que o Benfica tem de vantagem sobre o segundo classificado.
Após o intervalo sentia-se que, ou o Benfica marcava o terceiro, ou ver-se-ia em apuros para, na ponta final do jogo, segurar a vantagem. A Académica ameaçava lances de perigo a cada vez que dispunha da posse de bola (ou será a minha ansiedade a falar por mim?), e o resultado tangencial conferia-lhe o tónico psicológico necessário para continuar a lutar bravamente pelos pontos.A sorte foi que o terceiro golo apareceu mesmo. Marcou Ruben Amorim, mas coube a Di Maria a maior fatia do mérito. Após algumas oportunidades desperdiçadas, o Benfica pensava ver sorrir-lhe a tranquilidade. Debalde. Com poucos minutos para jogar, um pontapé de Tiero, e uma desatenção de Quim, recolocaram a equipa de Villas-Boas na discussão do jogo. O tempo que faltava jogar-se foi aflitivo, até porque Carlos Xistra insistia em assinalar faltas inexistentes contra os encarnados, empurrando-os para a sua zona defensiva.
Soou enfim o apito final. Soou como música celestial aos ouvidos de milhões. O Benfica ganhou, com justiça, um jogo que poderia ter corrido mal. Superando o indisfarçável cansaço, as ausências de Luisão e Saviola, a debilidade física de Cardozo, a arbitragem hostil, e um adversário forte, organizado e empenhado, pode ter sido dado em Coimbra o passo decisivo para o título.
Mas…ainda faltam 4 pontos, e não será de garrafa de champanhe na mão que eles poderão ser conquistados.

CLASSIFICAÇÃO REAL

O derby ameaçava ser quente. Acabou por não o ser tanto como outros, ainda que Costinha o tenha tentado incendiar, numa patética declaração à imprensa que proferiu no final da partida.
Mais não fez, contudo, do que atirar umas lenhas para a fogueira onde, mais tarde ou mais cedo (aposto no mais cedo), ele próprio se irá queimar.
Afinal de contas, para se ser director-desportivo (ou “ministro”) é preciso muito mais do que atar uma gravata ao pescoço ou ter vivido em Monte Carlo.

U.LEIRIA-SP.BRAGA
Não vi o jogo (com o do V.Guimarães/Soares Dias fiquei vacinado até ao fim da época), e pelos resumos não me apercebi de nenhum lance polémico.
Resultado Real: 1-2

RIO AVE-FC PORTO
Também não vi o jogo – com um Real Madrid-Barcelona à mesma hora, só se fosse louco é que perdia tempo a ver Guarins e Alvaros Pereiras.
O único caso de que me apercebi foi um suposto empurrão a Falcão sobre a linha de grande área. Não me pareceu caso para penálti, mas até posso aceitar interpretação contrária.
Para ser franco, já tanto me dá que o FC Porto seja prejudicado ou beneficiado. Para mim passaram à história. Se forem prejudicados, melhor ainda – acho piada quando os vejo nervosos.
Resultado Real: 0-1, 0-2, ou aquilo que vocês quiserem…

BENFICA-SPORTING
Desde que foi apresentado como novo director-desportivo do Sporting, Costinha só tem feito, e dito, disparates. O caso Izmailov é o mais gritante, mas aquando do mais recente derby lisboeta tivemos novo exemplo da manifesta falta de preparação que o homem tem para o cargo que ocupa – coisa com a qual, devo dizer, durmo perfeitamente descansado.
Não se pode dizer que a sua declaração não tenha sido “à Sporting”, mas, pela desfaçatez, e pela inoportunidade, empobreceu a imagem do clube, e ridicularizou-o, sobretudo, a ele próprio. Até porque, dentro daquele registo, o Paulo Bento era bem mais divertido.
Tive pena de Carvalhal. O homem queria falar de futebol, queria justificar a derrota, mas viu-se forçado a falar de arbitragem na flash-interview, como quem paga uma promessa a um santo. Depois, foi cirurgicamente desviado da conferência de imprensa não fosse dar-se o caso de - em fim de contrato e já sem pruridos de agradar ao patrão - poder descair-se a dar os parabéns ao Benfica pela sua justa vitória.
Enfim, coisas a que já estamos habituados, e que me fazem lembrar o velho provérbio “os cães ladram, e a caravana passa”, sendo aqui a caravana, naturalmente, a do Benfica, a caminho do seu 32º título nacional.
Eis os casos do jogo:
- Dois penáltis por assinalar contra o Sporting: um por mão de Carriço, outro por pontapé de Grimi no tornozelo de Cardozo, que obrigou o paraguaio a sair lesionado. São penáltis televisivos (no estádio confesso que não me apercebi), mas são penáltis.
- Carga de ombro legal de David Luíz a João Pereira, em lance reclamado pelos leões.
- Expulsões perdoadas a João Moutinho, Miguel Veloso e Luisão por entradas violentas sobre Ramires, Alan Kardec e Liedson respectivamente.
Com tudo isto, dizer-se que o Benfica ganhou por causa do árbitro é, no mínimo, hilariante. Mas, tudo bem, sabemos que há que encontrar desculpas para os 26 pontos de atraso…Façam pois outra conferência de imprensa! Ou então vão de luto para o próximo jogo! A malta entende.
Resultado Real: 4-0

CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 72 (já consagrado campeão)
Sp.Braga 54
FC Porto 53
Sporting 43 (não eram 26, eram 29!)

45 MINUTOS DE TANGO

Suplantando, com classe, um dos mais fortes adversários que o calendário lhe punha por diante, não há como negar que o Benfica deu esta noite um passo muito largo rumo ao título. Não o definitivo (uma eventual derrota em Coimbra, e tudo se complicará de novo), mas um passo firme, capaz de empolgar a equipa e o seu mar de adeptos – que ontem, diga-se, deram mais uma demonstração de que, no nosso país, ninguém sequer se assemelha à sua força vibrante e entusiástica.
Como se previa, o jogo não foi fácil. O Sporting, talvez por ter pouco a perder, entrou muito bem na partida, e realizou uma primeira parte deveras interessante – não tanto pelas oportunidades criadas (que não foram muitas), mas mais pela forma como manietou o Benfica, e lhe atou quase todos os movimentos da sua fase de construção ofensiva.
Tapando os flancos, e pressionando com grande agressividade no corredor central, a equipa de Carvalhal teve o mérito de assumir, desde o início, que o adversário lhe era superior, e que, antes de qualquer outra coisa, seria necessário não deixar jogar. Sabe-se que, privilegiando o reforço do meio-campo (numa espécie de 4-2-3-1 já testado noutras ocasiões), Liedson acaba por ser o principal sacrificado, pois sem companhia, sem bola e sem oportunidades para alvejar a baliza, o levezinho perde preponderância, e, com isso, a capacidade ofensiva do Sporting esfuma-se quase por completo. Mas esta era a estratégia possível para uma equipa que, dando espaços ao rival, corria o sério risco de sair da Luz vergada a um resultado humilhante. Segurando a bola, o adversário e o jogo, fazendo correr os minutos, cortando espaços, o Sporting ia enervando o anfitrião, e até podia, num golpe de sorte, marcar o golo que lhe valesse um saboroso triunfo.
Do outro lado da barricada, Jorge Jesus optou surpreendentemente por Eder Luís como substituto do ausente Saviola, deixando Pablo Aimar no banco. Procurava assim aproximar, ao máximo, a sua equipa do modelo através do qual lhe tínhamos visto a sua mais bonita cara, evitando cair nos erros de Liverpool. Só que Eder Luís não é Saviola, e, com um futebol ainda demasiado abrasileirado, acabou por se tornar presa fácil para a pressão do meio-campo leonino (designadamente do experiente Pedro Mendes), deixando Cardozo sozinho na dura batalha com os centrais. Sem Saviola, com Aimar no banco e Di Maria desinspirado (e muito marcado), o poder criativo do Benfica ressentiu-se seriamente. Para além disso, a cada bola perdida, a cada passe transviado, recrudescia a tensão nervosa resultante da responsabilidade do jogo, e do perigo de uma eventual derrota.
Sem golos e com pouco futebol, as equipas regressaram aos balneários. E se naquela altura me vendessem o empate, confesso que, a avaliar pela forma acorrentada como decorria o jogo, tendo em conta o drama que uma derrota poderia trazer consigo, talvez o tivesse comprado. Seria, viu-se depois, uma precipitação.
Estava no banco a solução para os problemas do Benfica. A entrada de Aimar ao intervalo, virou o jogo do avesso, desequilibrou todos os exercícios de contenção que o Sporting havia conseguido impor até aí, e desbravou os caminhos para a vitória encarnada. Logo no primeiro lance da segunda parte isso se fez sentir de forma clara. Logo aí o Benfica se voltou a parecer consigo próprio.
O jogo passou a disputar-se muito mais perto da área de Rui Patrício, as faixas laterais começaram a abrir espaços, e a teia de marcações leoninas começou a ceder. O golo benfiquista passou a estar, senão iminente, pelo menos com sérias possibilidades de vir a acontecer. Seria Óscar Cardozo - em grandes dificuldades físicas, e com a substituição preparada - a dar à sua equipa aquilo de que precisava para, enfim, se assenhoriar por completo da partida. No contexto em que aconteceu, e da forma como aconteceu, o golo tornou-se demasiado pesado para um Sporting já de alguma forma desmontado pela criatividade trazida ao jogo por Aimar. Sentiu-se que o Benfica não mais perderia o jogo, e que muito provavelmente o ganharia. Sentiu-se, porque não dizê-lo, um cheirinho a título.
Foi o próprio Aimar a fechar as contas do resultado, num momento que a sua extraordinária exibição já fazia por merecer. O jogo acabou aí, e a única dúvida seria então a de se saber se o resultado se ficava pelos 2-0, ou subiria até números mais elevados – o que, a acontecer, teria sido demasiado penalizador para um Sporting honesto, humilde e que fez o que estava ao seu alcance para dar uma alegria (a alegria suprema) aos seus apaniguados.
Ficou 2-0, ficou o Benfica com os seus 6 pontos de avanço, ficou o Benfica mais perto do título. A margem é boa, dá confiança mas, por enquanto, ainda não é suficientemente tranquila para permitir um dia mau. Uma derrota num dos próximos dois jogos (Coimbra e Olhanense em casa) deixaria os encarnados dependentes do resultado do Dragão, o que poderia tornar-se extremamente perigoso. Por isso, não são aconselháveis grandes euforias. Haverá tempo para festejar.
João Ferreira cometeu dois erros graves. Não assinalou uma grande penalidade por corte com a mão de Carriço a remate de Carlos Martins ainda na primeira parte; e não expulsou Luisão num lance que, tal como é habitual em Alvalade, irá servir de cortina de fumo para uma derrota justa, lógica, natural e indiscutível.

O DERBY DE SEMPRE, MAIS DERBY QUE NUNCA

Não sei se alguma vez um derby lisboeta terá começado com uma diferença de 23 pontos entre as duas equipas. Contudo, nem por isso acredito que este venha a ser um jogo desequilibrado.
Afastado de todas as competições, com o quarto lugar destinado e assegurado, o Sporting tem nesta partida a hipótese de resgatar algum do seu orgulho perdido, fazendo aquilo que os seus adeptos normalmente mais apreciam: complicar a vida ao Benfica, e, se possível, contribuir para evitar que o odiado rival se sagre campeão. Esta é também a última chance para o seu treinador mostrar que tinha lugar no clube, e que os responsáveis leoninos estavam errados ao prescindir dos seus serviços. Mas este é, acima de tudo, um Benfica-Sporting, que ambos sempre querem ganhar, e que, sobretudo para os leões, significa o apogeu de qualquer época desportiva.
Ninguém tenha dúvidas: o Sporting de amanhã na Luz vai ser igual aos mais fortes Sportings da temporada (Everton, FC Porto, Fiorentina…), e não vai regatear esforços para levar um bom resultado da casa do rival. Motivação não lhe vai faltar, e, com tantos dias de descanso, disponibilidade física também não. Depois, não esquecer, há Liedson, com tudo o que isso significa.

O Benfica tem pela frente um desafio de grande responsabilidade. Após a vitória sobre o Sp.Braga muitos terão sido os que davam o campeonato por concluído. A verdade é que os minhotos não desarmam, a bem ou a mal venceram os dois mais difíceis jogos que o seu calendário lhes apresentava, e aí estão a discutir o título até ao fim. Tendo de visitar o Estádio do Dragão, o Benfica não pode deixar o seu destino entregue ao resultado desse jogo, o que lhe diminui substancialmente a margem de erro. Trocando isto por miúdos, nos quatro jogos que tem para além da deslocação ao Porto os encarnados não poderão ceder mais do que um mísero empate. E seria muito perigoso que o gastassem já.
Não me peçam prognósticos. Só no fim do jogo serei capaz de os fazer. Este tipo de jogos não permite previsão, e a história está aí para o confirmar.
Que dizer do golo de Sabry que estragou a festa do título aos leões em 1999-00? Ou do agora tão lembrado 1-2 de 1986 na Luz (o meu primeiro derby ao vivo) que entregou um campeonato ao FC Porto (que no ano seguinte viria a sagrar-se campeão europeu)? Para além desses momentos de decisão, onde o cenário de festa acabou dramaticamente desmontado, muitos foram os derbys em que o anunciado favoritismo de uns esbarrou na inspiração de outros. Até se diz que quem está pior ganha mais vezes, ainda que não exista qualquer elemento científico a sustentá-lo.
Apesar de tudo isto, acredito no Benfica, na sua melhor equipa, nos seus melhores jogadores, no seu melhor treinador, e nos 60 mil a vibrar nas bancadas. Não é um jogo absolutamente decisivo, mas, conforme disse, sobretudo em caso de derrota, a vida dos encarnados poderá complicar-se muito, pelo que todo o cuidado é pouco. Uma vitória será, ao invés, o retomar da dinâmica ganhadora posta em causa em Liverpool, e de tudo o que isso significa, até mesmo no estado anímico dos principais adversários.
Talvez seja este o verdadeiro jogo do título, talvez não. Amanhã à noite se saberá.
Para quem não leu, ficam aqui as minhas recordações de derbys do passado.

CONDIÇÕES NECESSÁRIAS

Com a lei Bosman as diferenças entre os campeonatos europeus acentuaram-se, e a vida tornou-se manifestamente mais difícil para os clubes de países semi-periféricos como Portugal.
Multinacionais riquíssimas, com planteis de luxo, passaram a discutir entre si o protagonismo internacional, e só episodicamente esse predomínio foi posto em causa. O FC Porto de Mourinho foi um exemplo, o Benfica de Jesus não o conseguiu ser. Duas grandes equipas, dois contextos diferentes.
Para um clube português (ou grego, ou turco, ou holandês) romper a hierarquia estabelecida, será necesário responder a quatro condições fundamentais:
1) ter uma grande equipa e um grande treinador;
2) ter sorte nos sorteios, evitando os mais perigosos adversários, e esperando que eles se eliminem entre si;
3) ter total disponibilidade física e anímica para enfrentar o desafio europeu, o que pressupõe a possibilidade de aligeirar a frente doméstica (quer fruto de uma larga vantagem pontual, quer, pelo contrário, por estar fora da respectiva corrida);
4) ter sorte nos momentos decisivos das partidas contra os mais difíceis adversários.
O FC Porto de José Mourinho dispôs de todas estas permissas a seu favor, o Benfica de Jorge Jesus só conseguiu a primeira. Um ganhou a Taça Uefa e a Liga dos Campeões, outro ficou, para já, pelos quartos-de-final da Liga Europa.

BALANÇO POSITIVO

Terminada a época internacional do Benfica, e passada a frustração da derrota de Liverpool, importa dizer que a participação encarnada nesta edição da Liga Europa foi um enorme êxito.
O objectivo inicial passava justamente pela chegada aos quartos-de-final (ouvi-o eu pessoalmente, em Agosto, da boca do próprio presidente Luís Filipe Vieira), e esse foi atingido. Ao longo da caminhada assistimos a grandes exibições, testemunhámos várias goleadas, e os principais jogadores do Benfica saíram largamente valorizados. As eliminatórias com Marselha e Liverpool foram particularmente intensas, originaram grandiosos espectáculos de futebol, e deram uma excelente embalagem á equipa de Jorge Jesus para a Liga dos Campeões da próxima época - onde tudo indica o Benfica possa marcar presença, e, se assim acontecer, tem assegurado lugar no pote 2 do sorteio dos grupos.
Olhando para as estatísticas da prova, o Benfica detém o melhor marcador, o líder das assistências, e também do número de remates, posições que pode perfeitamente manter até final. Também nas estatísticas colectivas a equipa encarnada aparece invariavelmente nos primeiros lugares, sendo claramente uma das principais animadoras da competição.
Mas onde se percebe melhor a qualidade da performance europeia agora concluída, é na comparação da mesma com o próprio historial do clube, de grande brilhantismo como todos sabemos. Pois esta época bateu os recordes de número de jogos, número de vitórias e número de golos marcados, superando – nomeadamente nos dois últimos casos - marcas que tinham quase cinquenta anos.Lastimando, uma vez mais, o mal fadado sorteio que interpôs o Liverpool no caminho da glória, há ainda assim bastos motivos para erguer a cabeça e o orgulho benfiquista. Não pôde ser uma temporada europeia histórica (sê-lo-ia se o clube chegasse à sua nona final), mas foi seguramente uma temporada europeia à altura da história.
Viva o Benfica!

QUATRO DOSES DE FATALIDADE

Acabou-se.
O futebol é imprevisível, mas há verdades que são difíceis de tornear. Como por exemplo a que nos diz que os chamados “big four” ingleses são claramente de outro campeonato, motivo pelo qual, desde a primeira hora, sempre me mostrei bastante céptico face a esta eliminatória.
O sonho europeu do Benfica caiu no momento em que, num sorteio onde estavam Fulham, Standard de Liége, Wolfsburgo, e mesmo Atlético de Madrid, lhe apareceu pela frente a mais poderosa das equipas em prova. Não fora assim e a presença numa final europeia era uma séria possibilidade, e poderia mesmo tornar-se numa aposta firme e empenhada de toda a estrutura do clube. Com Torres, Kuyt, Gerrard e companhia pela frente, restava esperar por pouco mais que um milagre, tentando ao mesmo tempo fazer da ocasião uma grandiosa festa – aspecto que o jogo da primeira-mão assegurou em pleno.
O milagre não aconteceu. Conforme o próprio Jesus previra, grande parte dos jogadores encarnados surgiu nesta partida em condições físicas muito débeis, e esse acabou por ser um dado determinante no seu desfecho final. Faltou também uma pontinha de sorte em momentos chave, como naquela oportunidade desperdiçada à beira do intervalo, como numa ou noutra bola perdida em lances de superioridade numérica. Creio mesmo que uma coisa estará intimamente ligada com a outra, pois o desgaste, mais do que nas pernas, nota-se sobretudo na cabeça.
Não adianta especular sobre o que poderia ter sido este jogo com Quim na baliza, e David Luíz no eixo central da defesa. Todas as críticas são legítimas, mas raia o absurdo apontar culpas às opções de um homem que, em apenas alguns meses, revolucionou o futebol do Benfica. Jorge Jesus merece todo o crédito, e decerto saberá porque motivo deixou Fábio Coentrão tanto tempo no banco, porque motivo substituiu Carlos Martins (que parecia um dos mais frescos), e porque não retirou um dos centrais (necessariamente Sidnei, sem ritmo) a partir do momento em que a eliminatória tomou tonalidades mais sombrias. Não percebi nenhuma dessas opções, mas ninguém me ouvirá uma palavra de desconfiança para com o extraordinário treinador que o Benfica em boa hora contratou.Júlio César foi a personificação da infelicidade, como fora Costa Pereira em 1965, como fora Bento em 1984. Ramires, Aimar, Sidnei, Javi Garcia, e mesmo Cardozo (apesar do golo), estiveram também, todos eles, muito abaixo daquilo que os temos visto fazer ao longo da temporada. Ainda assim o Benfica, que até entrou muito bem no jogo, discutiu a eliminatória palmo a palmo até oito minutos do seu final, o que, diante de tão poderoso adversário, não deixa de ser meritório. Balanceado no ataque, com ambição de marcar e discutir o resultado, a equipa portuguesa acabou traída pelo fortíssimo e eficaz contra-ataque contrário, motivo pelo qual o resultado se tornou tão pesado (e exagerado) – os terceiro e quarto golo ilustram-no na perfeição.
Esta é obviamente uma noite triste para todos os benfiquistas, mas nem por um segundo o orgulho nesta grande equipa deve ficar abalado. O melhor Benfica de que me recordo (1982-1984 com Eriksson e...Bento) perdeu também por 4-1 com o Liverpool, então em pleno Estádio da Luz, não deixando por isso de ficar na memória de todos, como este porventura também ficará.
O campeonato foi desde a primeira hora considerado pelo clube como a prioridade máxima, e olhando apenas e só para ele, esta até pode ter sido uma derrota útil, uma derrota dolorosamente útil. Há pois que olhar em frente, e mostrar, já na próxima terça-feira, que se na Europa há equipas melhores que o Benfica, em Portugal não as há.
A arbitragem foi confusa, mas não foi por ela que o Benfica saiu da prova.
PS: Inqualificáveis os comentários de David Borges no rescaldo do jogo. Não disfarçou alguma felicidade (alívio?), e aproveitou, alarvemente, para tentar deitar abaixo a equipa benfiquista.

O PALCO DO NOSSO SONHO

Força Benfica!

PREOCUPAÇÃO ACRESCIDA

- Jogam dois holandeses no Liverpool, e um deles foi expulso de forma polémica na primeira mão;
- No último Mundial, Portugal eliminou a Holanda num jogo marcado pela violência mútua, com várias expulsões e casos de arbitragem que quase desencadearam uma guerra entre as duas federações;
- Nos últimos jogos de equipas portuguesas arbitrados por holandeses, tem ficado patente o peso daquela memória;
- Na mesma altura foram despedidos de equipas portuguesas dois técnicos holandeses.
Não seriam motivos suficientes para escolher um árbitro de qualquer outro país?
As arbitragens da Liga Europa têm sido fraquíssimas. Esperemos que não seja um holandês praticamente desconhecido o protagonista da noite de Anfield Road.

ELE NÃO MERECIA...

...mas este Bayern, com Ribery e Robben em grande forma, justificou amplamente a passagem, recuperando espantosamente de um redondo 3-0.
Fica garantida uma final inédita, provavelmente entre esta equipa bávara e o todo-poderoso Barcelona de Messi.

TERRA PROMETIDA

Logo que foi conhecido o sorteio dos quartos-de-final da Liga Europa, atribuí 10% de hipóteses de apuramento ao Benfica. Fi-lo um pouco a quente, e tolhido pela frustração de ver fugir os Standards de Liege e os Fulhams que por lá havia, com os quais - penso ser pacífico afirmá-lo – este Benfica tinha a passagem às meias-finais praticamente assegurada. Saiu a equipa mais forte das oito, e é indesmentível que, a partir desse momento, o sonho europeu ficou mais difícil de concretizar.
Após ver o jogo da primeira-mão, e tendo em conta a vantagem que o Benfica conseguiu (embora não possamos esquecer que jogou a maior parte do tempo em superioridade numérica), creio que hoje as possibilidades de apuramento são efectivamente maiores. Continuo a dar favoritismo ao Liverpool, mas talvez o reduza dos 90% anteriores para números à volta de 60% ou 65%. Acredito que o Benfica possa surpreender, e o facto de qualquer empate lhe servir é uma vantagem que não se pode ignorar. Mas, por outro lado, não vejo como Dirk Kuyt, Fernando Torres e Steven Gerrard, a jogar em casa, com o estádio cheio, e na única competição que lhes resta da época, possam ficar noventa minutos sem marcar um só golo. Por alguma coisa as principais casas de apostas não andam longe das minhas previsões.

É uma lástima que Saviola não possa jogar. Este era um jogo feito à medida da sua experiência internacional, da sua mobilidade, da sua frieza e da sua classe. Era o homem que podia fazer a diferença, como Simão Sabrosa fez há quatro anos atrás. Mas não choremos mais sobre o leite derramado. O adversário é mesmo o Liverpool, e Saviola não pode mesmo jogar.
O Benfica tem de começar por saber resistir. Resistir ao jogo, ao adversário, mas também aos seus próprios impulsos. Marcar é importante, mas passar incólume pela primeira meia-hora pode ser fundamental. O Liverpool vai começar forte, como começou há quatro anos (então com os postes e Moretto a salvarem milagrosamente o Benfica), procurando repor rapidamente a eliminatória a seu favor. Um golo cedo vai certamente empolgar os ingleses, e pode tornar-se muito pesado de gerir para a equipa portuguesa.
Talvez por isso a opção de deslocar David Luíz para o flanco esquerdo faça sentido, erguendo um trio de centrais em momento defensivo, e mantendo o esquema habitual quando em posse de bola. Fábio Coentrão teria por missão estabelecer esses equilíbrios, fazendo uma espécie de dois-em-um, ora como lateral, ora como médio-ala. Di Maria poderia assim ficar livre para desempenhar um papel similar ao habitualmente desempenhado por Saviola, mantendo-se também sempre de olho no flanco direito, onde o Liverpool vai ter de fazer adaptações, pois, quer Ínsua, quer Fábio Aurélio (os dois defesas-esquerdos do plantel), estão impedidos de alinhar.

Independentemente do perfil táctico adoptado por Jorge Jesus, o principal factor de preocupação (expresso nas próprias palavras do técnico) prende-se com a condição física de alguns jogadores. Creio que cerca de metade dos titulares em Anfield Road não estará entre os jogadores que realizaram noventa minutos na Figueira da Foz. Falo de nomes como Júlio César, Ramires, Sidnei, Fábio Coentrão, Carlos Martins e Pablo Aimar, que, ou não jogaram, ou saltaram do banco, ou foram substituídos a meio da segunda parte. Ainda assim a época já vai longa, as frentes de combate têm sido várias, e os homens não são máquinas. Esta será seguramente uma das chaves do jogo de amanhã.

Se passar a eliminatória, o Benfica alcançará as meias-finais da prova, algo que não acontece desde 1994. Foi na extinta Taça das Taças, diante do Parma, que os encarnados disputaram pela última vez um acesso a uma final europeia, ganhando na Luz por 2-1 (com mais de 100 mil pessoas nas bancadas), e perdendo em Itália por 1-0, num jogo em que Mozer foi expulso aos vinte e poucos minutos. Longe vá o agoiro.
Já o apuramento para essa meia-final merece ser evocado: quem não se lembra na época noite de Leverkusen?

É precisamente uma noite épica que os benfiquistas esperam.
Anfield Road já foi palco de sonho para o Benfica. Porque não sê-lo novamente? Nos últimos quatro jogos oficiais entre os dois clubes o Benfica ganhou sempre, marcou seis golos, e só sofreu um. Agora nem será preciso ganhar. Basta um empate, ou até, no limite, uma derrota por 3-2 ou 4-3.
Acreditemos pois!
Viva o Benfica!

IMPRESSIONANTE!

Com apenas 22 anos de idade, creio que se trata já do melhor jogador do mundo das últimas duas décadas. A continuar assim, e se as lesões não o atraiçoarem, pode perfeitamente vir a destronar Pelé e Maradona, e transformar-se no melhor de sempre.
Esta noite marcou quatro (!!!!) golos e reduziu o Arsenal a cinzas. Bem se pode enaltecer o colectivo do Barcelona (e há razões para isso), mas com um craque desta dimensão qualquer equipa brilharia.
Ou me engano muito, ou no próximo sábado teremos direito a novo show, desta vez no Bernabéu.

CLASSIFICAÇÃO REAL

A análise à arbitragem da jornada centra-se naturalmente no fantasmagórico desempenho de Artur Soares Dias no jogo de Braga. De resto, pouco haveria a acrescentar.

SP.BRAGA-V.GUIMARÃES
Toda a actuação do árbitro foi um compêndio de incompetência e desnorte, do primeiro ao último minuto. Desde penáltis mal assinalados e cartões mal mostrados, até decisões revogadas, de tudo se passou. Vejamos os principais casos:
- A alteração da decisão de assinalar o penálti por suposta mão de Moisés vai, indiscutivelmente, de encontro à verdade desportiva. A dúvida que fica é contudo a de se saber de que forma, e por que meios, modificou Soares Dias a sua decisão. Foi o quarto árbitro que viu o lance na televisão? Foi alguém do banco do Braga? Porque não alterou então o juiz também a sua decisão no último, e inexistente, penálti?
- O golo vimaranense foi alvo de protestos, mas não creio que tenha havido qualquer irregularidade.
- Quanto ao primeiro penálti assinalado (o que fez o 1-1), de acordo com o critério que tenho utilizado noutros jogos, creio ter mesmo existido. Já não tenho a mesma opinião sobre a falta que dá origem ao perigosíssimo livre que o antecede, e que só um árbitro empenhado em ajudar uma das equipas seria capaz de assinalar.
- O lance do segundo penálti assinalado deixa-me muitas dúvidas. É verdade que as faltas devem ser assinaladas onde terminam, e que Valdomiro não foi hábil a evitar a má sorte. Mas não me parece que o último agarrão seja suficiente para fazer cair Renteria, e nem tenho a certeza de que o mesmo tenha sido efectuado já no interior da área de rigor. Em todo o caso, o pior ainda estava para vir.
- A polémica em torno do terceiro penálti (que fez o 2-2) surge apenas devido ao cartão vermelho exibido a Rodriguez. Mais um equívoco de Soares Dias, que, de facto, deveria ter ficado em casa. Ele sim, merecia um cartão vermelho tamanho do resto do campeonato.
- O caso mais grave prende-se com o último penálti, assinalado quando passavam já quatro minutos dos noventa. Não existiu qualquer falta, mas o que releva deste lance é a inequívoca vontade de Soares Dias fazer com que o Sp.Braga vencesse o jogo, pois um pénalti inexistente marcado aos 94 minutos de um jogo tão importante não aparece por acaso. Porquê? Só ele saberá, mas já na altura aqui deixei nota da minha estranheza pelo facto de uma arbitragem destas aparecer num momento em que um triunfo bracarense não interessava, nem a FC Porto, nem a Benfica (as duas forças desportivas de maior peso no país). Estávamos habituados a que uns dissessem que o Benfica dominava a arbitragem, outros lembrassem os anos negros do sistema portista. Esta é uma situação nova, em que os Mesquitas Machados (ex presidente da Assembleia Geral da FPF), os Antónios Salvadores, os Carlos Freitas (já muito batido dos tempos dos penáltis de Jardel), os Domingos Paciências (figura do FC Porto de Calheiros, Guímaro e Fortunato) e/ou outros personagens, parecem ter adquirido vida própria, e mostram força para determinar o andamento do campeonato. Uma semana depois do deplorável espectáculo da entrega das insígnias da FIFA de Pedro Proença ao treinador do Sp.Braga, meses depois de uma série negra de jornadas (as iniciais) em que o clube bracarense foi claramente beneficiado pelas arbitragens, eis um novo dado demonstrativo daquilo que parece ser o emergir de um novo sistema, tão podre como o anterior. Não o combatam agora, e depois digam que é tarde demais…
Resultado Real: 1-2

SPORTING-RIO AVE
Não vi o jogo, pois o derby minhoto deixou-me de rastos, e sem vontade de ver futebol até à noite de ontem. O único lance que posso destacar é a expulsão de Izmailov, que me pareceu justíssima.
Resultado Real: 5-0

FC PORTO-MARITIMO
Não tenho conhecimento de nenhum caso polémico. Mas se Radamel Falcão quisesse jogar a Champions do próximo ano, e, num acto de justificado arrependimento, pretendesse voltar aos caminhos da Luz, eu por mim recebê-lo-ia de braços abertos – além de grande jogador, parece-me um profissional irrepreensível, que está manifestamente a mais naquela casa.
Resultado Real: 4-1

NAVAL-BENFICA
Uma possível mão na bola de um defensor figueirense foi o único caso de eventual influência no resultado, aceitando-se contudo diferentes interpretações.
Mas a acção de Elmano Santos (árbitro que me causa sempre alguns arrepios) interferiu no jogo mais do que os resumos possam mostrar. Faltas a meio-campo marcadas e por marcar, corte dos ritmos da partida, dois livres perigosos por faltas inexistentes, e um cartão amarelo estapafúrdio mostrado a Maxi Pereira, que impede o uruguaio de defrontar o Sporting – clube do coração do juiz madeirense.
Embora sejam decisões do âmbito de acção dos assistentes, o primeiro e o quarto golo do Benfica parecem totalmente legais, estando Di Maria e Weldon, respectivamente, em linha com o último defesa da Naval. Infelizmente, a péssima realização televisiva da RTP não permitiu confirmar esta ideia, deixando as suspeitas no ar.
Já que falo na realização televisiva, devo dizer que a mesma não fracassou apenas nas repetições (ou falta delas) dos lances polémicos. Foi deplorável em todos os aspectos do jogo, falhando os timings de mudança de câmara, perdendo o rasto da bola, e cometendo erros primários em série. Que teriam bebido ao jantar?
Resultado Real: 2-5

CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 69
Sp.Braga 51
FC Porto 50
Sporting 43

BRINCAR COM O FOGO ATÉ SURGIR UM BOMBEIRO INESPERADO

Passadas as emoções do jogo, e mesmo com a reposição anímica resultante de mais uma boa vitória do Benfica, não consigo ainda assim esquecer aqueles primeiros tristes quinze minutos, que provavelmente me fizeram perder mais uns quantos cabelos. Perdoar-me-ão pois que comece a análise a esta partida pelo seu princípio.
A equipa até reagiu muito bem, restabeleceu de imediato a ordem natural das coisas, e acabou na iminência de mais uma das suas goleadas. Mas não é desculpável que, em tão importante momento do campeonato, os jogadores tenham entrado em campo com tão pouco espírito de conquista, revelando uma passividade e uma sobranceria difíceis de compreender. Acontecera em Olhão e em Setúbal, sempre com consequências lamentáveis, e todos estávamos convencidos de que este Benfica teria ficado logo aí vacinado contra aquela espécie de vírus maldito – expresso na forma letárgica e abúlica como os jogadores abordam alguns jogos, esperando sentados que os golos e as respectivas vitórias acabem por cair do céu aos trambolhões. Quase sempre sucede em campos pequenos, com terrenos difíceis, e adversários fechados e agressivos. Quase sempre dá mau resultado, sendo esta justamente uma característica das equipas que…perdem campeonatos. Foi esta, aliás, uma das faces daquele Benfica que em quinze anos só por uma vez se sagrou campeão, tempos que todos os benfiquistas querem atirar para trás das costas.
Talvez a eliminatória europeia tenha pesado nas pernas e, sobretudo, na cabeça. Mas se é para desbaratar uma vantagem que tanto custou a alcançar, se é para pôr em causa a conquista de um título que ainda está longe de ser uma certeza - logo numa época tão determinante para o futuro do clube e do futebol português -, então mais vale ser eliminado da Liga Europa. Há que saber ser campeão em todos os momentos, e naqueles quinze minutos o Benfica não o soube ser.
Tudo isto me passou pela cabeça. Tudo isto me fez contorcer na cadeira, dar murros no joelho, e gritar silenciosamente, para dentro, alguns impropérios contra aqueles meninos que, de camisola vermelha, se passeavam pelo relvado. Que isto não se repita, nem em Coimbra, nem com o Olhanense, nem em nenhum jogo, até que o título seja uma verdade matemática. As festividades e as férias vêm depois. É verdade que foi este Benfica que me devolveu o elevado grau de exigência que porventura aqui manifesto, mas é essa mesma exigência que serve de alimento aos grandes campeões. Eu quero muito que o Benfica seja campeão, e, pela categoria e superioridade que mostrou até aqui, já nem sequer lhe perdoo que o não seja - o que é muito diferente de achar que já o é.
Feito que está o desabafo, direi então que a partir do 2-0, espicaçado pelo naufrágio inicial, o Benfica voltou a mostrar-se igual a si próprio. Contou para isso com a inspiração de um herói pouco provável (Weldon: o melhor em campo), mas que uma vez mais deu pontos á equipa, marcando os golos com que o jogo readquiriu a sua normalidade. E ele bem merecia uma noite destas. Caso a reacção benfiquista não tivesse dado frutos imediatos, as coisas complicar-se-iam muito. Felizmente a bola entrou uma, duas e três vezes, e quando os jogadores saíram para as cabines, já a vantagem no marcador era uma realidade. Imagino que mesmo assim não se tenham livrado de uma boa reprimenda de Jorge Jesus (e eu, a vontade que tinha era de lhes bater), pois a abordagem à segunda parte, mesmo em vantagem no marcador, nada teria que ver com aquela entrada inicial em falso.
Se os golos encarnados tranquilizaram o Benfica, também do outro lado se fizeram sentir. A Naval, tão eloquentemente desautorizada pela forte reacção benfiquista, sentiu-se impotente para reescrever o destino da partida, e em toda a segunda parte apenas causou perigo numa ocasião - já Cardozo tinha elevado a contagem para o 2-4 final. Sem forçar muito, e com a confiança e a serenidade resgatadas, o Benfica dominou então por completo os acontecimentos, garantindo mais uma preciosa vitória - a 7ª consecutiva, e a 11ª nos últimos doze jogos (a excepção foi o penálti falhado por Cardozo no Bonfim).
Faltam agora cinco finais, que podem até ser quatro ou mesmo três (se, por exemplo, o Sp.Braga não vencer em Leiria). Naturalmente que, olhando para elas, sobressai o derby da próxima semana. Desse, haverá tempo para falar. Agora sim, é hora de pensar na Europa.
Elmano Santos fez tudo o que podia para evitar a vitória do Benfica, como, de resto, eu já esperava que acontecesse. Só conseguiu retirar Maxi Pereira do derby, pois não teve oportunidades para mais.

PS: Socorrendo-se de uma argumentação tão labiríntica quanto patética, Miguel Sousa Tavares insinua hoje n’“A Bola” que a arbitragem de Soares Dias em Braga teria favorecido indirectamente o Benfica. Era bom que soubesse que eu, por exemplo, até fiquei com uma borbulha na cara graças ao estado de nervos em que me deixou aquele maldito penálti. Terá sido mesmo, juntamente com o V.Setúbal-Benfica, o jogo que maior revolta me provocou em todo o campeonato. Se era para beneficiar o Benfica, garanto que não dei por nada.

BATALHA NAVAL: MOMENTO CRUCIAL

Este é o meu onze, tendo em conta o impedimento de Saviola, as limitações de Luisão (que além do mais está tapado de amarelos), e a necessidade de gerir a condição de Aimar.

SEMPRE A SUBIR

No mês em que cumpriu o seu 4º aniversário (em dia de final da Taça da Liga nem me lembrei de tal efeméride...), VEDETA DA BOLA bateu o recorde de audiência com quase 23 mil entradas.
Como se percebe pela figura acima, à excepção dos meses de Agosto e Dezembro - em que alguns dias de ausência originam uma natural quebra de leitores -, o percurso do blogue tem sido invariavelmente ascendente.
Estes números são um enorme estímulo, mas representam também um acréscimo de responsabilidade para quem tem o gosto e o privilégio de manter vivo este seu espaço de todos os dias.
Obrigado a todos!

DUAS INTERROGAÇÕES E UMA CERTEZA

1- Como é possível o Sp.Braga vencer (mais) um jogo sem jogar absolutamente NADA?
2- Que influências movem o Sp.Braga, o seu presidente, o seu director-desportivo, o autarca da cidade e/ou o seu treinador, para que a equipa beneficie de uma arbitragem tão simpática, numa partida em que a sua vitória até nem interessava a nenhum dos clubes tradicionalmente mais poderosos?
A certeza: este clube está, para mim, a tomar rapidamente o lugar do Sporting como o segundo mais irritante e odiento do país desportivo. Lembram-me cada vez mais o FC Porto dos anos noventa. Em tudo. Até nas vitórias aos 97 minutos após um caldeirão de nervos, penáltis e expulsões.

SABOR A POUCO...

Se antes do jogo alguém me tivesse proposto o resultado de 2-1, tê-lo-ia aceite sem hesitações. O Liverpool é um gigante do futebol europeu, tem na Liga Europa a sua grande oportunidade de conquista, e nesta fase da competição – marcada normalmente pelo equilíbrio - uma vantagem, por curta que seja, não deixa de ser...uma vantagem.
Olhando para o que se passou em campo, para o facto do Benfica ter jogado cerca de uma hora em superioridade numérica, e, sobretudo, para a relativa naturalidade com que deu a volta ao golo madrugador de Agger, não posso deixar de reconhecer que, com um pouco mais de sorte – e acerto na finalização – as contas da eliminatória poderiam ter ficado, desde já, bastante mais favoráveis. E confesso que, quando Cardozo transformou irrepreensivelmente o segundo penálti, me convenci que ainda surgiria mais um golito, que, a acontecer, poderia revelar-se decisivo.
Nada disto reduz a enorme felicidade que todos os benfiquistas devem sentir neste momento: pela grande exibição (foi disso que se tratou), pela vitória ante uma das melhores equipas da Europa (a quarta consecutiva sobre o Liverpool), pelo alimentar do sonho de ir ainda mais além na competição, e pelo grandioso espectáculo a que puderam assistir, dentro e fora do relvado, mais uma vez (a segunda em poucos dias) com as bancadas repletas de entusiasmo e amor clubista. Este 2-1 deixa todas as esperanças em aberto para o mítico Anfield Road, e creio que o Benfica tem hoje mais possibilidades de chegar às meias-finais do que tinha ontem.
O jogo começou muito mal, com um golo consentido a lembrar – também ele – uma épica noite de 2005 em que o Manchester United saiu da Luz vergado a uma derrota por 2-1. O Liverpool dava mostras de conhecer bem o Benfica, limitando-lhe o espaço, e procurando explorar amiúde os corredores laterais, onde Babel e Kuyt eram setas apontadas à baliza de Júlio César, mas, simultaneamente, também os primeiros tampões à construção de jogo encarnada. A ausência de Saviola fazia-se igualmente sentir, e as dificuldades que a equipa de Jesus encontrava no último terço do campo eram visíveis, mau grado os “convites” que a linha defensiva britânica demasiadas vezes distribuía.
Com a expulsão de Babel tudo mudou. Rafa Benitez não fez qualquer substituição, mas alterou radicalmente o seu modelo táctico, transformando um trio de ataque, com alas bem abertos, numa dupla ofensiva (Kuyt-Torres) sem extremos. Era o que o Benfica mais podia desejar, pois residiam precisamente nas alas todas as suas dificuldades nessa fase inicial da partida.
Daí em diante, o Liverpool - talvez também por se encontrar em vantagem - retraiu-se, deixou de ser ameaçador, e foi do Benfica o controlo quase absolto das operações, sabendo aproveitar muito bem a benesse que lhe caíra em mãos. É verdade que de nomes como Steven Gerrard ou Fernando Torres se pode esperar, a todo o momento, um golpe de génio. Mas se o inglês se mostrou, a espaços, ao nível da sua imensa categoria, já o espanhol teve uma noite para esquecer, à qual nem faltou uma oportunidade escandalosamente desperdiçada já em plena segunda parte.
Disse ao intervalo, para quem estava comigo, que tinha a certeza de que o Benfica marcaria pelo menos um golo. Sentia-o, na facilidade com que o conjunto de Jesus controlava o meio-campo, e também na rigidez de movimentos do espaço central da defesa do Liverpool - que mais cedo ou mais tarde proporcionaria a Cardozo novos ensejos para ser feliz. E ele não iria falhar sempre.
Acabou por ser de penálti, e por duas vezes, o que não deixa de ser irónico face ao que se tem passado com o paraguaio no campeonato português. Mas independentemente da forma como chegou ao(s) golo(s), tem de se dizer que o Benfica justificou em futebol, em domínio, em atitude, em classe, a vantagem que alcançou. A justiça fez-se desde a marca dos onze metros, e o resultado final, seja ele suficiente ou não, responde integralmente ao futebol praticado nos noventa minutos – sessenta dos quais reveladores de manifesta superioridade benfiquista.
Individualmente gostaria de destacar Cardozo, que mesmo desperdiçando várias situações de perigo, acabou por se tornar no pai desta vitória; e também Fábio Coentrão, que realizou mais uma grande exibição. O papel dos centrais fica marcado pelo golo sofrido, mas daí para a frente, tanto Luisão, como, sobretudo, David Luíz estiveram em plano elevadíssimo. Javi Garcia também foi dos melhores, tal como Di Maria, que no entanto insistiu demasiado em iniciativas individuais, mesmo quando elas não se justificavam. Em sentido contrário há que referir que Maxi Pereira, Carlos Martins, Aimar e Ramires ficaram longe daquilo que têm feito durante a época.
O Árbitro sueco realizou um trabalho pobre, o que infelizmente tem sido a rotina desta Liga Europa. Perdoou um penálti ao Liverpool (seria o terceiro, mas existiu mesmo); não expulsou Insúa com o segundo amarelo, como se exigia no lance da primeira grande penalidade; mostrou mal o cartão a David Luíz; mas também se deve dizer, em nome da verdade, que a expulsão de Babel deixa algumas dúvidas (um cartão amarelo talvez fosse suficiente). Nos lances dos penáltis assinalados nada a dizer, embora no segundo tenha sido o fiscal-de-baliza (finalmente deu-se pela sua existência) a dar a indicação.
Nota final para o comportamento absolutamente lamentável de alguns No Name Boys. O meu benfiquismo tem-me feito defender frequentemente a claque, mesmo para além daquilo que ela porventura merece. Desta vez porém, não posso deixar de exprimir o meu veemente desagrado com o ignóbil lançamento de petardos, e ainda por cima para perto do local onde estava estacionado o fiscal-de-baliza. Espero, e acredito, que sejam os próprios lideres da claque a pôr na ordem os elementos responsáveis por tamanha estupidez. Os restantes sócios do Benfica, a sua esmagadora maioria, mostraram de imediato o seu desagrado.
Veremos como a UEFA interpreta o sucedido, sendo que se a coisa for além da inevitável (e pesada) multa, haverá que apurar os responsáveis e retirar as devidas consequências.

VENHA DAÍ UMA NOITE DE GLÓRIA !

É difícil, mas não impossível. Vamos pois alimentar o sonho e acreditar numa grande conquista.
1-0 seria fantástico, mas penso que um 0-0 também não seria mau de todo. Uma coisa está garantida: um grande espectáculo, dentro e fora do relvado, uma vez mais com lotação esgotada.
Com arbitragem sueca, as equipas deverão alinhar do seguinte modo:
BENFICA - Júlio César, Maxi Pereira, Luisão, David Luíz, Fábio Coentrão, Javi Garcia, Ramires, Aimar, Di Maria, Saviola e Cardozo
LIVERPOOL - Reina, Johnson, Agger, Carragher, Insúa, Mascherano, Lucas, Benayoun, Gerrard, Kuyt e Torres

NOITE DE ENTREVISTAS

LUÍS FILIPE VIEIRA – Com a tranquilidade que as circunstâncias oferecem, o presidente do Benfica teve uma excelente prestação. Esteve particularmente bem ao lembrar que não perdeu nem ganhou nada com o Apito Dourado, bem como ao explicar que os riscos financeiros recentemente assumidos não podem ser desligados do termo dos contratos televisivos em 2013. Sendo Luisão o capitão de equipa, também não lhe ficou mal distinguí-lo publicamente.
Podia ter protegido melhor a figura de Rui Costa (que tem tido grande mérito, por exemplo, na união e blindagem do balneário), mas globalmente esteve muito bem.

PINTO DA COSTA – Está em tão má forma como a sua equipa, fazendo, a espaços, lembrar a senilidade de Pôncio Monteiro. Não disfarçou a profunda azia que sente com a carreira do Benfica, e passou o tempo todo a dar alfinetadas ao rival, sempre com os olhos carregados de ódio – e que bom é vê-lo assim…
Foi demagógico com Hulk e com o Apito Dourado (fugindo às questões com um contorcionismo que a entrevistadora não deveria ter permitido), mentiu ao dizer que lhe era indiferente ser o Benfica ou o Sporting a vencer o campeonato, engasgou-se quando falou de Jesus, de Jesualdo e da Câmara de Lisboa, e ao usar as antigas dificuldades de expressão de Luís Filipe Vieira confirmou que já lhe restam poucos argumentos sólidos.
Falou para os fanáticos do seu clube, e decerto mais ninguém, além deles, ficou convencido com a sua retórica de mesa de café.

RICARDO COSTA – Descontando alguma vaidade pessoal (expressa, por exemplo, quando diz que os membros do Conselho de Justiça vão passando e ele ainda lá está), deu uma excelente imagem da sua competência e imparcialidade. Explicou muito bem todas as decisões, justificou-as, e convenceu-me inteiramente da sua boa fé.
A decisão tomada no caso de Hulk é fácil de defender até por um leigo. Só quem queira criar cortinas de fumo em redor do tema não compreende o que levou à punição de três meses, que é a que, queira-se ou não, figura nos regulamentos. Esteve muito bem ao expor o que é entendido por “recinto desportivo”, e que faz perceber toda a lógica do seu raciocínio interpretativo.
Só o timing do castigo a Vandinho ficou mal explicado. Mas a verdade é que, se a intenção fosse prejudicar o Sp.Braga, bastaria ter decidido uma ou duas semanas mais tarde que ninguém levantava o problema.

De realçar que todas as entrevistas foram efectuadas por portistas, o que, sem desmerecer o seu profissionalismo (são três dos melhores na área), não deixa de ser curioso.

OS MORTOS-VIVOS E OS VIVOS-MORTOS

Que me perdoem os mortos e os vivos, mas não resisto a publicar esta fabulosa fotografia de vez em quando.
Mais do que o túnel, este sim, é o grande momento da temporada. E hoje, que o presidente do FC Porto dá uma entrevista televisiva que quase ninguém vai ver, parece-me apropriado lembrar mais uma vez esta sua magnífica- chamar-lhe-ia - sessão espírita.
Bendito seja quem nos proporciona momentos inesquecíveis como este.

AINDA O TÚNEL

1 - Imaginemos que a decisão da Comissão Disciplinar da Liga tinha sido absolutamente igual à tomada pelo Conselho de Justiça em sede de recurso, ou seja, que Hulk tinha sido punido na primeira instância com 3 jogos e não 4 meses. A polémica seria diminuta, mas será que Hulk tinha jogado todos estes jogos? A resposta é não.
Como aqui se recorda, a maior fatia dos jogos em que o brasileiro esteve ausente deveu-se, não ao castigo em si, mas antes à suspensão preventiva pré-conclusão do processo, e essa aconteceu, como se sabe, em virtude de uma proposta antiga do FC Porto.

Qualquer que tivesse sido a decisão do Dr. Ricardo Costa, Hulk teria estado de fora até ao dia 19 de Fevereiro, pelo que não estão em causa os 20, 15 ou 10 jogos que se diz que ele falhou, mas sim, e em termos de campeonato, apenas 4 partidas (Braga e Olhanense em casa; Sporting e Académica fora). Eram somente estes os jogos que Hulk tinha feito a mais caso a CD Liga tivesse aplicado a mesmíssima punição agora decidida pelo CJ da FPF.
Com o Sp.Braga o FC Porto fez possivelmente a melhor exibição da época, em Coimbra também venceu. Com Hulk teriam ganho ao Olhanense? Talvez. Com Hulk teriam ganho em Alvalade? Duvido. Com Hulk, o FC Porto estaria mais próximo do Benfica? Talvez estivesse a 9 pontos. Estaria a lutar pelo título? Claramente que não!
Não passa pois de um embuste pretender colar o provável desfecho do campeonato a este caso.
Pode servir como cortina de fumo para tapar incompetências próprias, mas não vai seguramente perturbar estados de alma alheios.

2- Continuo sem entender o argumento do Conselho de Justiça, expresso no acórdão, segundo o qual a opção pelo enquadramento dos Stewards na alínea correspondente aos espectadores, e não como agentes desportivos - e entre as duas, parece-me óbvio que esta segunda faria muito mais sentido, pelo que concordo com a decisão de Ricardo Costa – se deveu fundamentalmente à dureza das respectivas penalizações. Não consigo conceber que o direito, neste e noutros casos, funcione deste modo (poupar sistematicamente os culpados como se fossem vítimas), e além do mais, esse alegado excesso já estava consumado.
Este último aspecto prova, aliás, que a alteração do castigo não foi, ela própria, inocente. Mas desta gente eu espero tudo. Como sempre disse, não acredito na justiça. Em nenhuma delas. Nem na do Dr.Ricardo Costa, que há algum tempo atrás enviou, e bem, o Boavista para a segunda divisão, mas, sem se perceber porquê, ficou-se por uma penalizaçãozeca de 6 pontos ao FC Porto com o campeonato já decidido.

3- Sejam os Stewards agentes desportivos ou não, o que também releva deste caso é mais uma novela jurídica proporcionada pelo FC Porto, seus dirigentes, jogadores e adeptos. Visite-se qualquer fórum de opinião portista, atente-se aos comentadores afectos ao clube, e em vez de golos só se ouve falar de leis, jurisprudência, recursos, acórdãos, prazos e afins. Desde de que emergiu o processo Apito Dourado, o FC Porto mais não faz do que explorar desesperadamente os artifícios jurídicos que o sistema assegura aos criminosos para escapar às respectivas punições, procurando garantir, por portas e travessas, a sua impunidade. Tem sido assim a história recente do FC Porto. E à falta de outras vitórias, lá se vão consolando com estas.

E não direi mais uma palavra sobre o caso Hulk - que agora até parece que não agrediu ninguém, tal como parece que Pinto da Costa não recebia árbitros em casa, nem os presenteava com prostitutas.

CLASSIFICAÇÃO REAL

Não há muito mais para dizer sobre uma jornada em cujos erros não influenciaram os vencedores das principais partidas. Só nos Barreiros o Sporting poderia ter conseguido um inconsequente ponto. Vejamo-los rapidamente:

MARÍTIMO-SPORTING:
Primeiro golo do Marítimo irregular, por fora-de-jogo do avançado madeirense.
Resultado Real: 2-2

BENFICA-SP.BRAGA:
Já disse o essencial sobre a arbitragem de Pedro Proença, que na dúvida favoreceu sempre o clube treinado pelo seu grande amigo Domingos - sobretudo em diversos livres a meio-campo com que foi empurrando a equipa minhota para a frente -, deixou um penálti por assinalar que nas contas finais pode valer um ponto, e perdoou a expulsão a Renteria, que agrediu Di Maria com um pontapé junto à linha lateral.
É verdade que Di Maria simulou no lance com Filipe Oliveira, mas naquele, foi mesmo agredido pelo colombiano.
Resultado Real: 2-0

BELENENSES-FC PORTO:
O primeiro golo do FC Porto foi marcado em fora-de-jogo, mas como houve depois um outro mal anulado, a coisa ficou em casa.
Resultado Real: 0-3

CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 66
Sp.Braga 48
FC Porto 47
Sporting 40

…e com 18 pontos de avanço, com vantagem no confronto directo, o Benfica seria neste momento campeão nacional.
Recorde-se que estão em causa o golo anulado a Luisão em Braga, a mão de Evaldo no mesmo jogo, os dois penáltis do Bonfim (tudo isto com Jorge Sousa), e mais um penálti contra o Marítimo na primeira jornada (corte com a mão nos últimos instantes do jogo), para além de vários benefícios ao Sp.Braga nas primeira jornadas, nomeadamente no Funchal, em Alvalade, e em casa contra o Belenenses.

CAMINHO ABERTO

Manda a prudência dizer que nada está decidido, que o campeonato não acabou, que futebol é futebol, que faltam seis jornadas, e estão dezoito pontos em disputa. Mas, honestamente, temos de admitir que, depois da vitória do Benfica sobre o seu mais directo adversário, seria verdadeiramente insólito que o título 2009-10 viesse a fugir aos encarnados. Só uma hecatombe levaria uma equipa que apenas perdeu dois pontos nos últimos onze jogos a desperdiçar seis nos encontros que faltam (embora dois deles sejam contra Sporting e FC Porto), e mais extraordinário ainda seria vermos o Sp.Braga vencer todos esses jogos e chegar-se novamente à liderança.
Estou certo que, tanto Jorge Jesus, como toda a sua equipa, sabem que não podem facilitar, e essa é mais uma garantia que esta equipa nos dá quanto ao seu destino ganhador. Não há espaço para festividades, nem sequer para euforias injustificadas, mas cresce em todos os benfiquistas a certeza de que muito dificilmente as coisas poderão falhar.
Contudo...nada está decidido, o campeonato não acabou, futebol é futebol, faltam seis jornadas e estão dezoito pontos em disputa.
O duelo da Luz cumpriu as expectativas. Não foi brilhante sob o ponto de vista plástico, mas teve a intensidade competitiva e dramática que a ocasião justificava, e teve também um vencedor merecido.
Poderiamos dividir a partida em duas fases distintas, cuja fronteira seria definida por volta dos 60 minutos, momento em que Domingos Paciência fez a dupla substituição. A partir de então, sobretudo com a entrada de Matheus, o jogo deu uma cambalhota táctica, pondo termo a um domínio claro do Benfica (ainda que não esmagador) que durava desde o apito inicial de Pedro Proença. Durante toda a primeira parte o Sp.Braga limitou-se a defender, e o Benfica foi procurando formas de ultrapassar a densa barreira que encontrava à entrada do meio-campo contrário. A pressão bracarense na sua zona intermediária era forte e agressiva, o espaço diminuto, e o Benfica encontrava dificuldades para conseguir libertar os seus artistas. Todavia, se em 45 minutos houve três oportunidades de golo, todas elas foram para a equipa da casa – designadamente em lances protagonizados por Saviola, Cardozo e, por fim, no golo de Luisão. O empate aceitava-se, mas a vantagem benfiquista, conseguida in-extremis (seis segundos depois do minuto de compensação, e não quinze como diz Domingos) não podia chocar ninguém.
Apesar do golo, nos primeiros minutos da segunda parte o jogo continuou virado para a baliza do Sp.Braga, mas um quarto de hora depois, com as substituições, e com algum cansaço benfiquista, as coisas mudaram de feição. Viu-se então o melhor Sp.Braga desta temporada, com audácia na atitude, segurança no passe, e muita velocidade (e veneno) nas transições ofensivas. A Luz gelou por momentos (ai aquele cabeceamento de Moisés...), e o sofrimento tomou conta dos corações encarnados. Este Benfica, que só tem baliza nos olhos, parecia hesitar entre o risco de procurar o conforto do segundo golo, e o pragmatismo de manter a preciosa vantagem. Podia ter corrido mal, mas o que é certo é que os minutos foram passando, e o resultado não mais se alterou.
É pena que o Benfica não tenha conseguido o 2-0 - por exemplo num penálti que ficou por assinalar, por mão de Rodriguez na área -, que na prática valeria mais um ponto, correspondente ao eventual desempate pelo confronto directo. Mas o bom é inimigo do óptimo, e esta vitória é mesmo muito (muitíssimo!) boa. Foi valorizada por um adversário personalizado, que se falasse menos e se limitasse apenas a jogar (como tão bem sabe), colheria certamente muito mais simpatias do país desportivo.
Individualmente creio que Fábio Coentrão fez o seu primeiro grande jogo como lateral-esquerdo. Não me recordo de uma falha a defender (mesmo apanhando pela frente o irrequieto Alan), e teve ainda tempo para participar em muitos dos lances de ataque da equipa. Trata-se de uma boa notícia para o Benfica e para...a Selecção Nacional, assim Carlos Queiroz tenha estado na Luz de olhos abertos.
Pedro Proença esteve mal no lance que referi (mão de Rodriguez), e também ao perdoar a expulsão a Renteria por agressão a Di Maria. Pareceu-me também equivocado nalgumas faltas assinaladas a favor do Sp.Braga. Ressalvo no entanto que só vi um curtíssimo resumo televisivo, pelo que o equívoco até pode ter sido meu.
E siga o campeonato. A próxima "final" é na Figueira da Foz, diante de uma equipa que criu grandes dificuldades ao Benfica na primeira volta. Antes ainda há um ...Sp.Braga-V.Guimarães. Mais uma jornada que pode deixar marcas.
O caminho está agora mais aberto, mas há que o percorrer.

O PAI DE TODOS OS JOGOS

O Benfica joga em casa e o estádio vai estar cheio de fervor clubista; está isolado em primeiro lugar; tem melhor equipa, melhores jogadores e melhor treinador; está mais motivado; criou uma dinâmica de vitória que parece imparável; tem o ritmo de duas semanas muito intensas; se Saviola recuperar, joga na sua máxima força. Tudo parece compor-se para uma estrondosa vitória, e para o desbravar de grande parte do caminho do título. Nenhum adepto do Benfica duvida do triunfo, e suponho que, lá bem fundo, nem os do Sp.Braga prevejam outra coisa. Paradoxalmente, é tudo isto que me preocupa.
Sempre olhei de lado os combates de qualquer David contra qualquer Golias. Há muitos exemplos na história do futebol, desde o célebre “Maracanazzo” até à final do Euro 2004, de favoritos derrotados em casa de forma dramática. Creio que o triunfalismo é o principal inimigo dos campeões, e neste caso particular estou a ver a família benfiquista demasiado tomada por ele – na verdade, nem eu próprio tenho conseguido resistir-lhe…
Acredito nos jogadores do Benfica, acredito em Jorge Jesus, e espero que não se deixem adormecer por esta espécie de demência colectiva, em que nenhum adepto, ou mesmo comentador (até de quadrantes adversários), parece admitir sequer a mais remota hipótese do Benfica não vir a ser campeão este ano.
Com uma vitória sobre o Sp.Braga (sobretudo se consumada por mais de dois golos de diferença), aceito que seja lícito pensar-se que o título fique ao virar da esquina. Mas para tal é necessário vencer o Sp.Braga, que em todo o campeonato só perdeu dois jogos – e, se descontarmos a atípica partida do Dragão, apenas sofreu mais nove golos nos restantes 22 jogos. É preciso não esquecer também que, saindo derrotado deste jogo, mesmo com toda a beleza do seu futebol, mesmo com toda a qualidade da sua equipa, mesmo com todo o entusiasmo dos seus adeptos, mesmo com todo o seu peso social, o Benfica veria fugir-lhe, já amanhã, a liderança, e ficaria dependente de terceiros (neste caso do Sp.Braga) para poder ser campeão. Olhando para o calendário das últimas jornadas, é caso para susto.
Favoritismo sim, vitória antecipada, nem pouco mais ou menos. Este é um jogo tremendamente difícil, que deve ser encarado como uma final, ou mesmo como a final. Ganhando-a, o Benfica ficará perto do título. Não a ganhando, ficará mais longe do que, por agora, possa parecer.Creio também que os adeptos que vão encher as bancadas irão ter um papel particularmente importante no desfecho da partida. Por muito que tentem aliviar a pressão, os jogadores do Sp.Braga (ao contrário de FC Porto, Sporting ou grandes equipas europeias) não estão habituados a estes momentos, nem têm, na sua maioria, a experiência de jogar com 65 mil pessoas contra eles. Não querendo ser confundido com um qualquer Salema Garção, não propondo, nem aceitando, qualquer tipo de violência, devo dizer contudo que um clima de grande pressão (falo sobretudo de barulho) vindo das bancadas pode, nesta ocasião em particular, revelar-se decisivo.Mesmo que o jogo não esteja a correr bem, é imprescindível que o apoio seja incessante até ao último minuto dos descontos. Uma falha, ou até um golo sofrido, não podem fazer calar o Inferno da Luz, que tem aqui, porventura, a sua mais importante tarefa dos últimos anos.
É também indispensável que, dentro do relvado, a equipa entre com total agressividade e sentido ofensivo. Os primeiros minutos serão extremamente importantes, e poderão atemorizar (ou até atarantar) o Sp.Braga. Há que explorar a ansiedade de uma equipa pouco tarimbada em jogos decisivos, e uma entrada de grande afirmação benfiquista pode descontrolá-la definitivamente, fazendo-a sentir que não é destas lides – como, de certa forma, aconteceu no Estádio do Dragão.
Se o Benfica marcar primeiro, terá metade do caminho percorrido. Um grande Benfica, um Benfica ao seu melhor nível, contando com um ambiente infernal em seu redor, vencerá seguramente a partida. É preciso que o espírito seja esse, o qual não permite qualquer espécie de triunfalismo.
Este é o jogo que vai ajudar a escrever a história do campeonato, e o Benfica tem de o ganhar. Com confiança mas sem triunfalismo, com humildade mas sem temor. Com fúria de vencer, e com a chama imensa do benfiquismo.
A festa fica para depois.
Equipas prováveis:
BENFICA - Quim, Maxi Pereira, Luisão, David Luíz, Fábio Coentrão, Javi Garcia, Ramires, Aimar, Di Maria, Saviola e Cardozo.
SP.BRAGA - Eduardo, Filipe Oliveira, Moisés, Rodriguez, Evaldo, Andrés Madrid, Hugo Viana, Mossoró, Alan, Meyong e Paulo César.

BRILHANTINA

Peças de uma história negra, sobre um homem que um dia se tornou sócio do Benfica (manobra de distracção?), mas jogou no Sporting, e enquanto árbitro não fez outra coisa que não beneficiar o FC Porto:

2001-02 BOAVISTA-BENFICA (1-0): Estávamos em Janeiro de 2002. Uma jornada depois de Duarte Gomes ter impedido que o Benfica assumisse a liderança do campeonato no célebre derby lisboeta que ficou para a eternidade como “o do penálti de Jardel”, Pedro Proença encarregou-se de empurrar os encarnados ainda mais para baixo, com uma arbitragem a todos os títulos revoltante no Estádio do Bessa.
Neste jogo, ficaram por assinalar dois penáltis claríssimos sobre Mantorras e Simão Sabrosa respectivamente, e o Benfica acabou por perder - resultado que viria a estar na origem da demissão de Toni do comando técnico da equipa, sendo então substituído pelo adjunto Jesualdo Ferreira

2003-04 BENFICA-SPORTING (1-3): Depois de uma Benfica-Beira Mar sem história, Proença voltou a dirigir o clube da Luz em Janeiro de 2004. E voltou a fazer das suas.
Começou logo nos primeiros minutos com um penálti inexistente assinalado a favor do Sporting, num lance em que Silva simulou falta de Moreira, e em vez de ver o cartão amarelo foi premiado com a grande penalidade.
Ao longo do jogo expulsaria Miguel e Ricardo Rocha, este na sequência de outro penálti inexistente (embora mais duvidoso), assinalado nos últimos minutos, e que selou a vitória sportinguista.
Foi pois um jogo totalmente subvertido pelo juiz lisboeta, que ajudou o FC Porto a isolar-se mais na tabela classificativa, no ano das escutas do Apito Dourado.

2004-05 PENAFIEL-BENFICA (1-0): Os roubos foram muitos, antes e depois de Maio de 2005. Mas foi nesta altura que Pedro Proença deixou definitivamente cair a mascara, e mostrou quais os seus verdadeiros intentos.
Estávamos a apenas três jornadas do fim de um campeonato que podia permitir ao Benfica (de Trappatoni) regressar aos títulos, onze anos depois da última conquista. Os encarnados comandavam a classificação com três pontos de vantagem sobre o Sporting e quatro sobre o FC Porto, e tinham de receber a equipa de José Peseiro na ronda seguinte (o Benfica viria a ganhar esse jogo por 1-0, com o célebre golo de Luisão). O jogo de Penafiel era pois tremendamente importante, e podia mesmo vir a ser decisivo.
Não foi um, não foram dois, nem mesmo três. Foram quatro (!!!!) os penáltis escamoteados por Pedro Proença ao Benfica na partida de Penafiel, o que para além da total falta de carácter do árbitro, deixa perceber que os próprios jogadores do Penafiel estariam eventualmente instruídos sobre o que podiam ou não fazer.
A última das grandes penalidades por marcar foi perfeitamente escandalosa, e ocorreu já no tempo de descontos, num lance em que Simão foi rasteirado junto da linha final.
Além dos penáltis, Proença ainda perdoou a expulsão a Wesley, na época o melhor jogador penafidelense.
Com a derrota, o Benfica perdeu a liderança para o Sporting (com os mesmos pontos), mas ficou à mercê do FC Porto (um empate no derby, e os dragões passariam para o comando). Felizmente, no dia seguinte o FC Porto empatou em Moreira de Cónegos, e deixou as decisões para os rivais lisboetas. O resto da história é conhecido.

2005-06 BENFICA-BELENENSES (0-0): Alguns meses depois, Pedro Proença voltou a apitar o Benfica, desta vez na Luz. Era Ronald Koeman o treinador, e em finais da primeira volta a equipa encarnada estava em pleno na luta pelo título.
Neste jogo, ficaram mais duas grandes penalidades por assinalar a favor do Benfica. Primeiro uma rasteira a Nuno Assis ainda na primeira parte, depois, já na ponta final do desafio, por mão na bola de um defesa azul dentro da área.
Resultado: um comprometedor empate, que dava mais folga ao FC Porto de Adriaanse na liderança da prova.

2008-09 FC PORTO-BENFICA (1-1): Ainda está bem fresco na memória de todos o atentado à verdade desportiva que constituiu a marcação de um penálti fantasma a uma simulação de Lisandro Lopez junto de Yebda, que até viria a valer um castigo ao jogador portista. O Benfica vencia no Dragão, e o jogo aproximava-se do final. Estávamos já na segunda volta, e em caso de vitória os encarnados assumiam a liderança do campeonato. Proença não deixou, vendo aquilo que ninguém viu, e oferecendo ao FC Porto o empate. Com este resultado os azuis-e-brancos embalaram para o título, e o Benfica entrou em quebra anímica que o levaria a cair para o terceiro lugar.

2009-10 BENFICA-SP.BRAGA (?-?) : ?

CURIOSIDADES

Há já quem diga que o Benfica de Jorge Jesus é o melhor Benfica do pós-Eusébio.
Eu, por enquanto, não iria tão longe. Falta, acima de tudo, ganhar o campeonato, e tenho ainda na memória equipas como aquela que, com Eriksson no banco, chegou à final da Taça Uefa em 1983. A verdade porém é que, olhando aos números do campeonato, e tomando como referência a 23ª jornada, este Benfica, com 58 pontos já alcançados, aparece de facto em plano de destaque. Desde 1974, se contabilizarmos sempre três pontos por vitória, só em duas ocasiões os encarnados tinham por esta altura melhor pontuação: justamente com Eriksson em 1983-84 (62 pontos), e com Baroti em 1980-81 (60).

Diga-se também que em Portugal, nos últimos 14 anos, e também à 23ª ronda, só o FC Porto de Mourinho fez mais pontos (60 e 59, em 2002-03 e 2003-04 respectivamente). Mas a presença do FC Porto em duas finais europeias consecutivas viria a implicar algum desperdício nas derradeiras semanas, pelo que até final estes números podem perfeitamente ser ultrapassados.
Outro dado curioso que resulta desta análise é que, desde 1970, comandando a classificação à 23ª jornada, só por uma vez o Benfica não viria a conquistar o título. Aconteceu com John Mortimore, em 1985-86, quando na penúltima jornada o Sporting foi à Luz vencer por 1-2, retirando o pão da boca dos encarnados - jogo que guardo com grande mágoa, até porque foi o primeiro “derby” a que assisti ao vivo.
À excepção daquele ano, sempre que o Benfica comandava a classificação à 23ª jornada foi campeão, e sempre que foi campeão já era líder à 23ª jornada. Isto desde 1970, como disse.

INSENSATEZ

Já aqui falei de impunidade a propósito do problema das claques. Poderia fazê-lo a propósito de muitas outras coisas, e a redução da pena de Hulk e Sapunaru, decidida hoje pelo Conselho de Justiça da FPF, é mais um bom exemplo.
Não me faz a mínima diferença que Hulk jogue ou não jogue, sobretudo se for para fazer o que fez em Londres. Nem sequer o acho tão bom como dizem, e não trocava um pé do Di Maria por ele todo. E o ponto central deste processo é, para mim, a agressão em si, e essa está provadíssima.
Acontece que há uma guerra latente entre os órgãos jurisdicionais da Liga e da Federação, que já se tinha revelado no caso Apito Final/Champions. Como frequentemente sucede no nosso país, quem julga fá-lo em função das guerras de comadres, dos interesses das partes, e raramente em nome da verdade. É por isso que não acredito na Justiça, nem na da FPF, nem da da Liga, nem na comum - que é uma instituição que em Portugal há muito tempo deixou de se dar ao respeito. Exemplos não faltam, e nem é preciso perder tempo a contá-los.
Neste caso, toda a gente sabia que a decisão iria ser esta, quer como forma de atingir o Dr.Ricardo Costa, quer para proteger os interesses do FC Porto – o que, diga-se, a FPF sempre fez zelosamente. O problema é que isto, aproveitando pouco ao FC Porto no plano desportivo, apenas vai servir para criar polémica, controvérsia, e lançar mais achas para uma fogueira que as dispensava bem. Os Lourenços Pintos e os Guilhermes Aguiares deste mundo já afiam o dente, e não irão falar de mais nada durante os próximos meses, até como forma de desculpabilizar a péssima época do seu clube.
Para além da impunidade de um acto que todos vimos na televisão, o que daqui se infere é a total insensatez deste esclerosado Conselho de Justiça, desta esclerosada FPF, que bem precisava de uma boa varridela. Se a sua missão é pugnar pelo futebol português, pois não têm feito outra coisa que não desacreditá-lo. Muito mais grave do que esta decisão, foi aquela que retirou o título de Juniores ao Benfica, tomada sem qualquer sustentáculo que não fosse a sua própria vontade.
Em tese, nada há de mais natural do que uma segunda instância alterar aquilo que diz uma primeira. É para isso que existem recursos, e em Portugal, quanto a mim, até existem demais. Mas enquanto o Benfica continuar a ganhar dentro do campo, pouco ou nada me preocupam as manigâncias jurídicas com que o FC Porto se entretém desde há algum tempo, sempre como forma de salvar a pele de actos de corrupção, de violência, e afins.
Ah, e o Vandinho não joga na Luz.

TAÇA SIM, TAÇA NÃO

FC Porto, Rio Ave, Naval e Desp.Chaves são os semi-finalistas da Taça de Portugal.
A prova tem tradições, tem história, é bonita, mas tem estado, nestas últimas duas épocas, ferida de morte. O motivo é só um: a ausência do Benfica, e do seu peso social, das suas fases mais adiantadas.
Por muito que isto desagrade a alguns, sem o Benfica, as competições perdem mediatismo, perdem interesse, perdem dinheiro, e acabam por definhar longe dos holofotes da ribalta. E se o clube da Luz não salvar a Taça de Portugal nas próximas épocas (vencendo-a, ou chegando ao menos à final), temo que esta se torne, a breve trecho, uma competição totalmente menor, apenas destinada aos clubes mais pequenos.
Em sentido inverso tem caminhado a Taça da Liga, que, por felicidade sua, e mesmo com regulamentos absurdos, tem contado com o Benfica nos momentos de decisão. Bate recordes de audiência (a última final foi o programa televisivo mais visto do ano), esgota estádios, domina as atenções dos adeptos, as conversas de café e os artigos de jornal. Nenhum patrocinador a desdenharia, e creio que a Carlsberg (que parece inclinada para renovar a parceria) tem tantos motivos para festejar como o Benfica e a própria Liga. Também a SIC teve sorte ao adquirir os seus direitos de transmissão, por antagonismo com a infeliz TVI, que optou pela Taça de Portugal - o que, sem Benfica desde cedo, equivaleu a optar pelo nada.
Entalada entre a última jornada do campeonato, e o início dos trabalhos do Mundial, a meio de uma tarde provavelmente soalheira e a convidar à praia, sem atribuir qualquer lugar nas provas europeias, estou certo que a outrora bela final do Jamor vai este ano (à semelhança do anterior) dar lugar a uma triste formalidade federativa, sem alma, sem cor, sem vida, e sem que a maior parte dos portugueses dê sequer por ela.
Esta reflexão faz-nos perceber a importância que o Benfica tem no contexto desportivo nacional, do qual é simultaneamente coração, sangue e pulmão, não havendo sinais de vida sem ele, nem para além dele.
Qual o último grande jogo de Taça? Pois, foi o 5-3 de Alvalade, há dois anos atrás. Exactamente a última vez que o Benfica chegou às meias-finais.
Qual será o próximo grande jogo de Taça? A próxima vez que o Benfica chegar a uma final. Até lá… o vazio.
Que a Taça de Portugal consiga sobreviver a mais um ano de apagamento, é o meu desejo.