LIGA DA MENTIRA

Não gosto de arbitragem, não gosto de falar de arbitragem, nem gosto que me falem de arbitragem. Nutro por isso o maior apreço de princípio pela posição do Benfica e do seu presidente, ao impor o silêncio do clube e de todos os seus profissionais sobre o tema.
Acontece que a negra realidade se está a sobrepor a essas louváveis intenções, e tenho muitas dúvidas de que o silêncio continue a ser, neste momento, a melhor forma de abordar a questão, pois nas suas asas está a cozinhar-se um campeonato amarrotado por uma gritante parcialidade - a fazer lembrar tristes tempos passados, quando as escutas ainda não tinham denunciado as práticas obscuras que levaram o FC Porto a tornar-se um clube ganhador.
Desde 2004 que não se via nada assim. Em apenas três jornadas, o FC Porto puxado para o topo com erros clamorosos cometidos pelos árbitros em todos os seus jogos, e sempre a seu favor, e o Benfica empurrado para baixo, com duas zelosas arbitragens logo nas duas primeiras jornadas. Resultado: a classificação completamente subvertida, instabilidade e cepticismo na Luz, e confiança renovada no Dragão. Já era assim nos tempos de Calheiros e Guimaro, foi assim que o monstro do norte cresceu e se tornou naquilo que é hoje.
Não era difícil adivinhar que o campeonato ganho pelo Benfica, as subsequentes mudanças na liga, e a vergonhosa impunidade da justiça no caso Apito Dourado originassem isto. As figuras são as mesmas, e só esperavam uma conjuntura mais favorável para voltarem a actuar em prol daqueles que, mafiosamente, as protegem. Como se percebe, desde as decisões do Conselho de Justiça até às convocatórias para a Selecção, o polvo “pintodacostista” está por todo o lado, apodrecendo o edifício do futebol português. À mínima folga, lá está ele a roer, a corromper, a sujar, como um cancro que espalha as suas metástases pelo corpo do paciente, levando-o à morte. Quando os crimes ficam impunes sabe-se o resultado, e estamos assim perante algo que se vai repetir enquanto Pinto da Costa se mantiver no futebol. Tal exige um combate feroz e incessante, e o silêncio não será, com certeza, a melhor arma.
Eu, pelo menos, não me calarei. Podem vir cá com Robertos que ninguém me tira a convicção de que o Benfica está em 11º lugar, e o FC Porto na liderança, em razão directa dos gravíssimos erros de arbitragem que ocorreram nestes jogos. E apelo à Benfica TV, ao departamento de comunicação do Benfica, ao site oficial do clube, para que façam os possíveis por manter uma memória viva de todos os casos que vão adulterando a classificação da Liga, pois cada uma dessas imagens valerá bem mais do que as mil palavras que eu, ou outro qualquer, possa escrever.
1ª JORNADA:
-Penálti arranjado por Paulo Baptista a 7 minutos do fim, dando a vitória ao FC Porto na Figueira.
-Lance idêntico na Luz, sem que fosse assinalada qualquer falta (e, neste caso, bem).
-Penálti óbvio sobre Javi Garcia (empurrão), a poucos minutos do fim, com o resultado em 1-1.
2ª JORNADA:
-Segundo e importante golo do FC Porto, à beira do intervalo, obtido num livre inacreditavelmente mal assinalado.
-Na Choupana, golo do Nacional após livre também mal assinalado.
-Livre à entrada da área madeirense que ficou por assinalar, após obstrução a Saviola.
-Penálti por marcar sobre Fábio Coentrão que daria o empate.
-Corte com a mão de um defesa do Nacional, dentro da sua área, sem que Pedro Proença tomasse a decisão que lhe competia.
- 12 (!!!!) cartões amarelos mostrados a jogadores do Benfica nos primeiros dois jogos.
3ª JORNADA:
-Duas irregularidades consecutivas no lance do primeiro golo do FC Porto, não sancionadas pelo mesmo árbitro (ex membro dos Super Dragões) que anulou um golo a Luisão, em Braga, no ano passado, por um ligeiríssimo toque na camisola de um adversário.
- Penálti claríssimo (o mais claro de todo o campeonato até agora) não assinalado na área portista, já perto do intervalo, com o resultado em 0-1.

Resultados reais:
Naval-FC Porto, 0-0
Benfica-Académica, 2-2
FC Porto-Beira Mar, 2-0
Nacional-Benfica, 1-3
Benfica-V.Setúbal, 3-0
Rio Ave-FC Porto, 1-1

Se considerarmos também o penálti por assinalar sobre Baba, no SP.Braga-Marítimo, o golo fora-de-jogo de Liedson na Figueira, e o penálti mal assinalado sobre o mesmo Liedson também nesse jogo, chegamos à seguinte classificação real:

BENFICA 7 pontos
FC Porto 5 pontos
Sp.Braga 5 pontos
Sporting 4 pontos

O Roberto tem pois as costas muito largas.

PRIMEIRO O ÓSCAR, DEPOIS O FILME E O INESPERADO HAPPY-END

Só o mais criativo dos argumentistas poderia imaginar uma situação como a que sucedeu ao minuto 22 do jogo de sábado na Luz. Roberto, o maldito, o proscrito, aquele que todos queriam ver pelas costas, voltava à baliza do Benfica, num momento delicado, como se um qualquer deus das coisas menores dissesse lá do alto, com um sorriso de gozo no canto do lábio: “Ai não o querem? Pois aí o têm!”.
Jorge Jesus remetera o espanhol para o banco, numa atitude óbvia de quem tem o dever de proteger a equipa e o próprio atleta. Novo erro comprometedor, e seria o treinador, ele mesmo, o alvo das críticas. A teimosia nunca é boa conselheira, e foi sem surpresa que Júlio César tomou conta da baliza.
Antes do filme já houvera um Óscar. Não de Hollywood, mas do Paraguai, pois logo aos três minutos de jogo o Benfica adiantou-se no marcador na sequência de um belo cruzamento de Gaitán (boa exibição), e de uma cabeçada certeira de “Tacuara”. Golo de Cardozo, o Benfica a vencer, tudo parecia indicar um regresso á tranquila normalidade das noites da época passada. Mal se sabia o que estava para acontecer.
Se fui um dos muitos que colocaram as mãos na cabeça ao ver o árbitro a puxar do cartão vermelho (não porque não se justificasse, mas pelas consequências que ele trazia), também fui dos que, alguns segundos decorridos, engrossaram a enorme onda de aplausos que acompanhou a entrada de Roberto em campo. Independentemente da opinião que se tenha sobre o jogador, naquele momento não era o nome A ou B que estava em causa, mas sim o Benfica e a sua baliza. Creio que foi com essa bela reacção do público da Luz (surpreendente para o próprio jogador) que o penálti começou a ser defendido.Falei do azar para explicar os resultados anteriores. Penálti à parte, terei de falar da sorte para comentar este. Um golo a abrir o jogo, e outro a fechar a primeira parte - após alguns minutos de demasiada ansiedade – foram estocadas muito duras num Vitória de Setúbal que, a partir de então, e em todo o segundo período, não conseguiu esconder o sentimento de que aquela não seria a sua noite.
O terceiro golo acabou com o jogo, e aí o Benfica, reduzido a dez, tinha duas alternativas: ou abria o campo e procurava uma improvável goleada, correndo riscos de sofrer um golo que recolocasse o Vitória na discussão da partida, ou trancava a sua zona intermediária, deixando o espectáculo morrer juntamente com o adversário, mas garantindo desde logo os imprescindíveis três pontos. Jesus optou, e bem, pela segunda hipótese.
Emoções fortes, vitória gorda, reabilitação de Roberto, regresso aos golos de Cardozo, boas indicações de Gaitán (e também, no curto período que esteve em campo, de Sálvio), e exibições de bom nível de Luisão e Aimar. Poucos benfiquistas esperariam tanto, ainda que, em termos colectivos, as coisas não atingissem (longe disso) o patamar de referência de quase toda a temporada anterior. O campeonato vai parar, e no dia 11, em Guimarães, então sim, os encarnados terão um verdadeiro teste de fogo. Nova vitória, uma boa exibição, e teremos o Benfica lançado na corrida ao Bi-campeonato. Com ou sem Roberto na baliza.
PS: Hleb já não vem para o Benfica. A parcela do (altíssimo) salário que teria de ficar a cargo dos encarnados saía fora do orçamento do clube, e o negócio gorou-se. É pena, mas olhando para o plantel do Benfica não me parece que Hleb fosse um reforço imprescindível.

ACTUALIDADES

AINDA O SORTEIO
Escrevendo a quente, a minha primeira reacção ao sorteio do Mónaco foi, como perceberam, de alguma felicidade. Talvez influenciado pelo factor Lyon – única equipa do pote 1 que abria algumas possibilidades de pontuar -, olhei para o grupo, e pareceu-me que as coisas podiam ter sido bem piores.
De facto podiam, mas mais a frio, e melhor documentado, tenho de confessar alguma preocupação com o equilíbrio que este grupo traz - o que para quem estava no pote 2 não é, necessariamente, uma boa notícia.
O Schalke 04 era, à excepção do Tottenham, o pior adversário que podia ter saído do terceiro lote de equipas. É vice-campeão alemão, tem o guarda-redes titular da selecção germânica (e um dos melhores, senão o melhor, do último Mundial), tem elementos capazes de desequilibrar no meio-campo e no ataque, contratou Raul (o melhor goleador de sempre da história da Champions, e ainda com muito para dar ao futebol), e eliminou o FC Porto há relativamente pouco tempo. Não é o Bayern de Munique, mas também não anda lá muito longe. Aqui, no pote 3, o Benfica não foi nada feliz.
O Hapoel é menos conhecido, mas nem por isso deixará de ser uma equipa difícil. Além do mais, obriga a uma viagem longa, e a jogar num estádio pequeno e de ambiente tremendamente hostil. O pior que o Benfica poderá fazer será desvalorizar este adversário, que até nem é propriamente um novato nas competições europeias. O primeiro jogo, com esta equipa israelita na Luz, deverá assim ser encarado como uma final, pois qualquer perspectiva de apuramento passa por essa indispensável vitória.

LIGA EUROPA
O Sporting está de parabéns pelo seu triunfo na Dinamarca. Mas de épica, esta jornada apenas tem os números.
O que se passou foi a simples manifestação de uma anunciada superioridade sobre um adversário de terceira linha, e o cumprimento, in-extremis, da obrigação de entrar na fase de grupos da Liga Europa. Esse apuramento foi concretizado com dificuldades que ninguém ousaria prever, fruto precisamente das insuficiências manifestadas pelo Sporting no jogo de Lisboa.
Mesmo nesta partida da Dinamarca, a exibição leonina foi tudo menos convincente. O conjunto de Paulo Sérgio viu-se bafejado pela sorte suprema de um golo obtido no último minuto da primeira parte, outro no último minuto da segunda, beneficiando pelo meio de um enorme frango do guarda-redes adversário, depois de sofrer longos minutos de total sufoco junto da baliza de Rui Patrício (mais uma vez o melhor em campo).
É claro que duas vitórias consecutivas ao minuto noventa dão moral a qualquer equipa. Isso mesmo vai ser explorado por responsáveis e adeptos do clube de Alvalade. Mas querer comparar este triunfo com (por exemplo) o do Braga em Sevilha, é comparar a beira da estrada com a estrada da beira.

HLEB
É dado como próximo do Benfica, e creio tratar-se de uma boa solução.
Lembro-me dele no Arsenal, onde mostrou um enorme talento. O sistema de jogo do Barcelona não o favorecia, e acabou emprestado ao Estugarda.
Se puder voltar a apresentar o nível que o notabilizou em Londres, estamos perante um grande reforço.

ROBERTO
Independentemente do valor que possa ter (que eu ainda lhe não vi, e do qual, como sabem, sempre desconfiei), não existe margem para arriscar mais na sua utilização.
O jogo com o V.Setúbal é crucial para a temporada do Benfica, e nova falha do guarda-redes espanhol poderá comprometer, inclusivamente, a própria imagem do treinador (até agora, salvo um artigo de Fernando Guerra, quase intacta), o que seria dramático para a equipa e para o clube. Mesmo que injustamente, novo erro de Roberto já não será atirado para cima dele, mas sim para cima de…Jorge Jesus, ou até para andares superiores. Isto é, sabendo-se como o mundo do futebol é volátil, e como o coração dos adeptos fervilha de emotividades pouco ponderadas, o risco que está sobre a mesa é o de deitar fora a criança juntamente com a água do banho.
Feche-se, portanto, desde já a torneira, e salvaguarde-se a tranquilidade do atleta e o investimento nele efectuado (um empréstimo para o mercado espanhol seria o ideal) retirando-o da baliza do Benfica. Neste momento, ou o Benfica 2010-2011 “mata” rapidamente Roberto, ou corre o risco de por ele ser “morto”. Não vejo aqui terceiras vias.

V.SETÚBAL
Para além de Roberto, também Javi Garcia, Ruben Amorim têm estado francamente mal. Para este jogo, seriam eles, quanto a mim, os sacrificados.
Cardozo e David Luíz não têm alternativas à altura, pelo que, apesar do fraco rendimento que têm apresentado, terão de continuar no onze titular.
Eis a minha equipa:

NÃO ÓPTIMO, MAS BOM

Só o Schalke 04 não seria convidado, mas tanto no pote 1, como no pote 4, as coisas correram bem. Tal não significa que os jogos sejam fáceis, pois qualquer um deles vai exigir o melhor Benfica.
Também o Sp.Braga tem boas hipóteses de passar à fase seguinte.

A RODA DA SORTE

Se fosse eu a escolher seria assim: Lyon, Benfica, Basileia e Cluj.
A evitar: Tottenham, Schalke (no pote 3) e Rubin Kazan (no pote 4).
No pote 1, se não puder sair o Lyon, que venham Arsenal ou Milan.

OLHE QUE NÃO!

Fernando Guerra é um dos mais prestigiados jornalistas desportivos nacionais, e é alguém que desde há muito me habituei a ler com total atenção e interesse, ou não se tratasse de uma referência para todos os que, como eu, mesmo que de forma totalmente amadora e desinteressada, gostam de escrever sobre futebol.
Recentemente tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente, e à mesa comum de um almoço pudemos trocar impressões sobre variados assuntos relacionados com o mundo da bola. Reforcei a convicção de se tratar de uma pessoa bastante esclarecida e rigorosa no seu pensamento e nas suas análises.
Infelizmente, tenho de dizer que, no meu modesto ponto de vista, o seu último artigo n’A Bola (terça-feira) não corresponde à poderosa imagem que a sua carreira construiu. Para além da inegável qualidade formal que Fernando Guerra sempre coloca naquilo que escreve, tudo o resto neste artigo é um equívoco: desde o timing (criticar um treinador campeão após três derrotas parece-me muito pouco criterioso) ao conteúdo, passando pela estranha veemência e até por alguma falta de rigor. É verdade que cada um tem direito à sua opinião, mas, do mesmo modo, também me sinto no direito de me confessar desiludido com aquilo que li.
Deixando de lado a questão dos truques e das manhas (e Mourinho não as usa? e Pedroto não as usava também? e Alex Ferguson?), passemos então aos cinco pecados que Fernando Guerra aponta ao técnico encarnado:

1- Devo dizer que também não gostei de ver Jorge Jesus aos abraços com Pinto da Costa. Tratou-se, é certo, de um lapso de comunicação, fruto da simples e genuína forma de estar do treinador. Mas olhar para esse episódio como algo de grave, e capaz de pôr em causa o fantástico trabalho técnico realizado ao longo de um ano, parece-me, francamente, um absurdo. É óbvio que para um jornalista, a comunicação é um aspecto determinante. Para mim, enquanto adepto, devo dizer que me estou nas tintas para quem são os amigos pessoais de Jorge Jesus, se ele fala bem, se cospe no chão, se pinta o cabelo de amarelo ou de violeta, desde que o seu trabalho, enquanto profissional, me satisfaça. E não tenho dúvidas que a esmagadora maioria dos milhões de adeptos do Benfica está comigo.
2- Diz Fernando Guerra que Jorge Jesus fez constar o desejo de melhorar o contrato, antes ainda da conquista do título, entendendo isso como algo de muito reprovável. Não sei se efectivamente o fez ou não, mas se fez, fê-lo no pleno direito de um profissional ambicioso que, tendo consciência da quase perfeição do trabalho desenvolvido, achou que podia ser melhor remunerado. Jorge Jesus (que veio para o Benfica ganhar menos de metade do que auferia o seu antecessor) não tem obrigação de ser benfiquista, nem se espera que esteja no Benfica por paixão clubista. É um profissional que está a fazer pela vida, como qualquer outro treinador, de qualquer outro clube. Mourinho (o tal que é incomparável), por exemplo, exigiu a renovação do seu vínculo só por ter ganho um jogo ao Sporting. Como criticar Jesus por ter pedido (se é que pediu) aumento de vencimento quando estava à beira de dar um tão ansiado título ao clube onde trabalha?
3- Sou insuspeito para falar do caso Quim. Quem frequenta este espaço sabe que sempre tive admiração pelo guarda-redes, e nunca concordei com a sua dispensa, até porque me parecia que a questão da baliza benfiquista era, até ao início desta temporada, um falso problema (agora, infelizmente, tornado real). Aceito também que não tivesse sido elegante tratar o tema num programa televisivo, mas aí Jorge Jesus foi uma vez mais traído pela sua fraca oralidade, caindo na armadilha que, legitimamente, o jornalista lhe colocou. Mas, à semelhança do caso Pinto da Costa, também não creio que uma entrevista mal conseguida, um erro de comunicação, um momento de infelicidade, possa construir, ou destruir, a capacidade de um treinador. Mais do que saber comunicar com os jornalistas, a mim interessa-me que Jesus saiba comunicar com os jogadores. E isso, inquestionavelmente, ele sabe fazer. De qualquer forma, se a dispensa de Quim, e a insistência na contratação de Roberto, foram da exclusiva responsabilidade do técnico, terei de admitir aqui uma falha técnica. Em todo o caso, apenas uma falha, no meio de muitos acertos.
4- Interpretar um sorriso, em resposta a uma questão que não se quer abordar, como um acto de deselegância para com a entidade patronal, é algo que não lembra a ninguém. A versão que me contaram - e não foi Jorge Jesus - é a de que o FC Porto tentou mesmo contratá-lo, coisa que, olhando às práticas habituais de Pinto da Costa (veja-se Cristian Rodriguez, veja-se João Moutinho, veja-se Maniche, veja-se Jankauskas, e por aí fora), não custará muito a acreditar. Ter sido eventualmente o próprio técnico a sugerir que isso aconteceu (o que não deixa de ser uma interpretação abusiva) e, tacitamente, confessar não ter aceite o convite, não só não desrespeitaria o Benfica, como, pelo contrário, até, de certa forma, o valorizava. Só com uma grande ginástica mental se poderá, pois, ver nesta questão algum tipo de deslealdade.
5- É verdade que estive uns dias fora do país, mas desde o início do campeonato não ouvi, não li, nem me contaram que Jorge Jesus tivesse tornado público qualquer tipo de lamento pelas perdas de Di Maria e Ramires. Pelo contrário, ouvi-o dizer que se sentia orgulhoso pelas transferências, e admitir que fazia parte das suas funções valorizar os jogadores de forma a permitir ao clube a realização das mais-valias necessárias ao seu equilíbrio financeiro. Já ouvi, isso sim, críticas de benfiquistas em sentido contrário, apontando alguma passividade ao técnico quanto a esses dossiers.

Não acredito que Fernando Guerra se mova por critérios de simpatia ou antipatia pessoal quando escreve os seus artigos. Aceito, todavia, que a isenção total é uma abstracção, e que todos nós acabamos influenciados por este ou aquele facto, por este ou aquele episódio, do presente ou do passado, e tal acaba por se reflectir quando expressamos as nossas opiniões.
Neste caso, estou perfeitamente à vontade para defender Jorge Jesus. Não só não fui particularmente entusiasta da sua contratação (embora me tenha rendido totalmente ao fim de pouco tempo), como os meus contactos pessoais com ele se resumiram até agora a um simples e circunstancial aperto de mão.
Ao contrário de Fernando Guerra, acho que Jorge Jesus é um fantástico treinador, e enquanto benfiquista, espero e desejo que fique no clube por muitos e bons anos. E, convertido que estou ao seu valor, não serão duas ou três derrotas, nem mesmo a eventual perda de um campeonato, que me farão mudar de opinião. Como, de resto, também não é um mau artigo que arrasa um grande jornalista.

SORTEIO DA CHAMPIONS: ponto de situação

BENFICA TERÁ COMPANHIA

Um par de horas após a vitória bracarense em Sevilha, uma estação de televisão acompanhava os festejos na cidade dos arcebispos. O som era elucidativo: no momento mais alto do historial do clube gritava-se “slb, slb, filhos da p…, slb”.
Enquanto benfiquista, até podia entender aquele grito como uma homenagem à grandiosidade do clube da Luz. Afinal de contas é normal que os mais pequenos se coloquem em bicos de pés para desafiar os grandes. É natural que se lembrem deles quando se aproximam - ainda que ao de leve - da sua dimensão, do seu espaço natural. É assim em Braga, é assim noutras cidades também.
Justamente por prever que tal fosse acontecer, ninguém me poderá levar a mal que desejasse a vitória do Sevilha. Lá, ao menos, na Andaluzia, deixariam o Benfica em paz.
Mas não é só o lamentável comportamento da claque que me afasta do Braga. Na verdade, não suporto o treinador, não suporto o presidente, e ainda suporto menos o presidente da câmara e da assembleia-geral do clube. Alguns jogadores também não devem nada ao desportivismo, e, à excepção dos equipamentos vermelhos, tudo aquilo cheira mal, tudo aquilo cheira a Porto.
É interessante a questão do “politicamente correcto” patriótico. Será lícito exigir (ainda que moralmente) a um português que torça por uma equipa composta por 7 brasileiros, 1 uruguaio, 1 nigeriano, 1 peruano e apenas um, só um, compatriota? Não creio, e cada vez entendo este tema de forma mais liberal. A representação nacional para mim é a Selecção, e como tal (por muito que aprecie o Minho e o seu fantástico vinho verde), não tenho, nem quero ter nada a ver com este sucesso bracarense, assim como não estarei disposto a repartir com não benfiquistas as eventuais vitórias internacionais do meu clube – embora esteja absolutamente seguro de que não me passará pela cabeça, nesses doces momentos, lembrar-me de qualquer paróquia portuguesa, nem ouvir, no Estádio da Luz, cânticos acerca de qualquer outro clube que não esteja em campo naquele momento.
À margem de tudo isto, tenho de reconhecer a grande exibição do conjunto minhoto. Ganhou de forma categórica, mereceu o triunfo, e fez história. É uma equipa que já não me surpreende, tal como disse aqui antes da partida. Domingos Paciência, independentemente das questões de carácter, é um extraordinário treinador, e jogadores como Alan (pasmo como o FC Porto o perdeu), Matheus, Paulo César, Luís Aguiar ou Moisés são claramente de equipa grande, de equipa campeã. Creio que este Sp.Braga é manifestamente superior ao Boavista do título, que na sua altura teve a felicidade de aproveitar as quebras simultâneas de Benfica (a pior época da sua história), FC Porto (uma das piores dos tempos de Pinto da Costa) e Sporting (em fase de transição), para assim chegar à glória suprema. Além de que o Sp.Braga carrega em si uma cidade, coisa que não sucedia com a equipa do Bessa. É verdade que, nestas pré-eliminatórias, teve a sorte de encontrar Celtic e Sevilha em gritantes crises de forma, mas teve também o mérito de saber aproveitar as fragilidades alheias, coisa que a equipa andaluza – dando as favas como contadas – não parece ter-se preocupado em tentar fazer.
Agora segue-se a fase de grupos. O Sp.Braga tem assegurada presença no pote 3 do sorteio, o que, com alguma sorte, lhe pode proporcionar um grupo ultrapassável (por exemplo: Lyon, Shakhtar Donetsk e Zilina). Francamente, mesmo não me satisfazendo particularmente com isso, depois do que vi no ano passado, e pelo que se voltou agora a ver no Sanchez Pizjuan, já acredito em tudo. Até que o Sp.Braga conquiste o título nacional, e chegue aos oitavos-de-final da Champions.

PS: Não faço ideia se Jorge Jesus estará ou não feliz com este sucesso da antiga equipa. Mas factos são factos: os principais craques deste Sp.Braga chegaram ao clube pela mão do actual treinador do Benfica.

ESCRITA EM DIA

Saí para férias acabava o Benfica de conquistar o Torneio Guadiana, com duas goleadas, prometendo uma reedição da fantástica temporada 2009-10.
Desde então, na minha ausência, quatro jogos (incluindo a Eusébio Cup), quatro derrotas, perda da Supertaça, e pior início de campeonato dos últimos os 50 anos. Até custa a acreditar…
Vejamos então, jogo por jogo, assunto por assunto, tudo o que ficou pendente:

SUPERTAÇA: Soube do resultado quando, em final de tarde, seguia pela interminável auto-estrada que liga a Florida a Nova Iorque, deliciando-me com a música de Lou Reed, Leonard Cohen, Elliott Smith e outros produtos típicos da região. Uma pausa, um telemóvel, uma ligação à Internet, e a má notícia.
Dadas as circunstâncias, devo dizer que a frustração não resistiu a mais do que algumas milhas. À passagem pelo túnel de Lincoln (que abre as portas de Manhattan), já nem me lembrava do jogo, e só pensava em continuar as minhas – perdoem-me a imodéstia – estrondosas férias americanas. Até porque uma Supertaça não é mais do que…uma Supertaça.
Só muitos dias mais tarde, já em Portugal, num momento de ócio, me dei ao trabalho de ver os golos através do You Tube. Não vi mais nada, não li mais nada.
Disseram-me que o FC Porto mereceu ganhar, e é tudo quanto sei sobre aquele pobre evento.

ACADÉMICA: Foi já em terras algarvias que vi, pela televisão, num bar, a derrota frente à equipa de Jorge Costa. Tinha pensado deslocar-me a Lisboa para ver o jogo in loco, mas uma estranha e prenunciadora letargia impeliu-me a permanecer estendido por aqueles bandas.
Depois de uma primeira parte confrangedora, devo dizer que até nem desgostei dos segundos 45 minutos do Benfica, ao longo dos quais a equipa fez tudo o que podia para chegar ao golo. A derrota acabou por ser injusta, cruel e imerecida, e - tem de dizer-se - teve a mãozinha do árbitro.

NACIONAL: Vi o jogo com toda a atenção, e pelo que se passou na primeira parte fiquei convencido que seria apenas uma questão de tempo até o Benfica chegar ao golo. Se Gaitán ou Saviola tivessem marcado em duas ocasiões claríssimas então criadas, tudo poderia ter sido diferente.
Lamentavelmente, Cardozo e Roberto ofereceram a vantagem à equipa madeirense, e a partir daí as coisas complicaram-se. Sentiu-se a ansiedade das derrotas anteriores, e perante um adversário forte e organizado, num terreno difícil, não foi possível dar a volta.
Em três jogos oficiais o Benfica ainda não conseguiu ver-se um minuto que fosse em vantagem, como tanto gosta, e, tendo de perfurar defesas fechadíssimas, notam-se bastante as ausências dos flanqueadores da época passada.
Mais uma vez o árbitro teve influência no resultado, prejudicando claramente o Benfica, que assim acabou vergado a mais uma derrota francamente injusta.

ROBERTO: Parece-me um caso perdido, e ao insistir nele, Jesus corre o risco de perder também a equipa e a temporada.
Como sabem, nunca fui um entusiasta da contratação de um novo guarda-redes, muito menos por aquele preço, e tratando-se de um nome quase desconhecido e sem quaisquer referências abonatórias. Infelizmente tinha razão, e as falhas sucessivas mostram que alguém (Jesus? Rui Costa? a direcção? olheiros?) se equivocou totalmente ao supor que Roberto poderia valer 8,5 milhões de euros.
O empréstimo para o mercado espanhol seria, quanto a mim, a melhor saída para o caso, pois tranquilizaria o atleta, permitindo, quem sabe, recuperar mais tarde uma parte do investimento. Júlio César e Moreira não são foras-de-série, mas quer um, quer outro, têm condições para assegurar a baliza enquanto não for encontrada (provavelmente só em Dezembro) uma solução mais consistente.
Qualquer outra decisão raiará os limites da teimosia – a qual, como se sabe, nunca foi boa conselheira.

FUTURO: 6 pontos são 6 pontos, mas o futebol jogado nalgumas fases destes dois jogos, e a qualidade do plantel benfiquista, levam-me a pensar que nada está perdido. Há atenuantes (efeitos do mundial, arbitragens, adaptação dos reforços, falta de sorte, Roberto, etc) que explicam as derrotas, e o pior que se pode fazer é confundir a aleatoriedade de um desporto em que a bola por vezes não entra, com o trabalho que está a ser feito, com as opções que têm sido tomadas (ainda que nem todas correctas, como se vê no caso do guarda-redes), e com a competência das pessoas - precisamente as mesmas que levaram o Benfica ao título há poucos meses atrás.
Tenho chamado a atenção, aqui e em todo o lado onde posso fazer ouvir a minha voz, para os perigos das vendas mal calculadas de jogadores, para os consequentes efeitos no decréscimo de qualidade das equipas, e, por essa via, numa segunda fase, na própria capacidade de gerar receitas. Sempre disse que o Benfica não devia vender mais de dois jogadores, sob pena de, retirando demasiadas peças, desmantelar a máquina de futebol que deslumbrou na época passada. As saídas de Di Maria e Ramires, e os problemas sentidos para os substituir, já dão uma ideia daquilo que quis mostrar.
Mas o mundo é como é, e não como gostaríamos que fosse. O enorme investimento dos últimos anos obrigava à realização de algumas mais-valias, e assim sendo entendo como legítima a opção tomada (no caso de Ramires o clube nem terá tido escolha), e saúdo o esforço que foi feito para manter David Luíz, Cardozo, Coentrão e Luisão.
Talvez este Benfica, sem os seus alas (titulares da selecção brasileira e argentina) não possa ser igual ao do ano passado. Talvez tenha de procurar outras soluções tácticas, que levam tempo a consolidar. No entanto creio que continua, mesmo assim, a ter o melhor plantel do futebol português, e acredito que seja apenas uma questão de tempo até os resultados o evidenciarem.
O Benfica tem também tido azar. Muito azar. E esse azar não irá durar sempre.

FC PORTO: Ainda não vi nem um minuto de qualquer jogo dos dragões esta época, mas não é difícil perceber que, com a incorporação de Moutinho, e sobretudo com os regressos de Hulk, Ruben Micael, Varela, e a super-forma de Falcão e Belluschi, o conjunto de André Villas-Boas, tal como eu previra, aparecesse mais forte do que no ano passado. Decorridas as duas primeiras jornadas, e com os percalços do Benfica, parece ser óbvio considerar o FC Porto como o mais sério candidato ao título.
Isto não invalida que se diga que a vitória na Figueira da Foz foi manchada por um erro grave de arbitragem.

SPORTING: Sinceramente já lhe ligo tão pouca importância que nem sequer me satisfaço com as suas derrotas.
Vi o jogo com o Marítimo, e não me parece que os leões tenham jogado metade do que o Benfica jogou com a Académica ou com o Nacional. Tiveram a sorte do jogo, e venceram-no, recuperando algum ânimo, ao contrário do Benfica, que teve azar e perdeu. Mas uma equipa cujo dinamismo é alicerçado em jogadores como Maniche, Zapater ou Valdés, não é, não pode ser, candidato a coisa nenhuma.
É uma carta fora do baralho.

SP.BRAGA: Pelo contrário, a equipa bracarense tem mostrado argumentos para fazer uma temporada igual, ou até melhor, que a anterior.
É dos conjuntos mais cínicos de que me recordo, fazendo lembrar o FC Porto dos anos noventa, que mesmo aparentemente dominado, ganhava jogos em contra-ataques concluídos por Kostadinov e…Domingos. É terrivelmente eficaz, e dentro do estilo é do melhor que se vê por aí. Não fossem dois laterais pouco brilhantes, e diria estarmos perante uma super-equipa, fortíssima candidata ao título.
Não me admiro que resista ao Sevilha, e arrecade os milhões da Champions. Será o passo que lhe falta (além de um título) para ultrapassar definitivamente o Sporting como terceiro grande, e colocar-se no patamar de Benfica e FC Porto na disputa pelo trono do futebol português.
Em sentido inverso ao que sucede com o Sporting, cada vez me agasto mais com os jogos e as vitórias do Sp.Braga. Não esqueço alguns episódios da temporada passada, e ao lembrá-los não posso deixar de desejar, para esta terça-feira, boa sorte…ao Sevilha (cidade onde, curiosamente, estive faz amanhã precisamente uma semana). Até porque o Benfica, uma vez sozinho na Liga dos Campeões, encaixará a totalidade da verba relativa aos direitos televisivos para Portugal. Ou seja, até existe um poderoso álibi para, neste caso, colocar o patriotismo de lado…

CASO QUEIROZ: Faço parte do imenso grupo de portugueses que não aprecia o trabalho de Carlos Queiroz, e que o deseja ver rapidamente pelas costas.
Estou assim à vontade para dizer que a estratégia seguida pela FPF para evitar pagar-lhe a indemnização a que tem direito é absolutamente lamentável, e envergonha o futebol português e o próprio país.
Quando faltam 11 dias para o primeiro jogo do Europeu, “conseguimos” ficar sem seleccionador nacional. Espantoso!
Despeça-se o homem, mas pague-se aquilo que está no contrato, sem golpes, sem subterfúgios, sem “chitos”. E, de caminho, demitam-se todos também.

ARBITRAGEM: Fala-se de Roberto, de Jesus, da falta de Di Maria e Ramires, mas nada disto teria sentido se Cosme Machado tivesse assinalado o penálti sobre Javi Garcia frente à Académica (que faria o 2-1), Pedro Proença tivesse assinalado o penálti sobre Fábio Coentrão na Choupana (e há ainda uma mão suspeita, sem falar na falta inexistente de onde resulta o primeiro golo madeirense), ou se Paulo Baptista não tivesse inventado uma grande penalidade para dar a vitória ao FC Porto na Figueira da Foz a poucos minutos do fim, e João Capela não tivesse oferecido um livre à medida para Belluschi resolver o jogo com o Beira-Mar ainda antes do intervalo.
Contas feitas, e temos o campeonato completamente subvertido, já à segunda jornada, o que não pode deixar de preocupar os amantes da verdade desportiva. Será que a presidência portista na Liga já se está a fazer sentir?
Classificação Real: FC Porto 4 pts, Sp.Braga 4 pts, Benfica 4 pts e Sporting 3 pts.

VOLTO JÁ!

Chegou a minha hora.
Depois de uma última passagem pelo Estádio da Luz, partirei na quarta-feira para um período de férias, que se estenderá por cerca de 3 semanas.
Conto estar de volta por alturas da segunda jornada da Liga, e do sorteio da Champions. Para já, não posso prometer data certa.
Durante este período, espero naturalmente receber boas notícias: uma vitória na Supertaça (jogo que, infelizmente, é mais do que provável que não consiga sequer ver pela TV), um triunfo sobre a Académica (aí já poderei ver, pelo menos na TV), e nenhuma saída de jogadores.
Saudações a todos, e votos de um excelente Agosto, em particular aos benfiquistas.

A OPÇÃO 4-3-3

À CAMPEÃO!

Ora aí está o Campeão, mostrando a classe que o fez subir ao trono.
A primeira hora do jogo com o Aston Villa podia pedir meças aos melhores momentos do Benfica na temporada passada, tal a fluência do seu jogo ofensivo, tal a qualidade das acções individuais e colectivas. Foram os melhores minutos da pré-época, e revelaram uma considerável melhoria face às exibições de há um par de semanas atrás. Já o jogo com o Feyenoord nos oferecera uma segunda parte de alto nível, e esta final do Torneio Guadiana confirmou plenamente essas boas indicações.
Este não é um Benfica igual ao de 2009-10. Para além da mudança de guarda-redes, da aparente troca de pivot defensivo, e da integração progressiva dos jogadores presentes no Mundial, o sistema táctico destes últimos (e melhores) jogos tem sido um 4-3-3 que, salvo numa ou noutra situação pontual, não foi utilizado na época passada. Consequentemente, o modelo em que se alicerçam as principais acções ofensivas também regista diferenças.
Além do propósito de Jorge Jesus dotar a equipa de uma maior versatilidade táctica, concorreu para esta alteração também a perda de Di Maria, acrescida da ausência (definitiva?) de Ramires, e ainda da lesão de Nico Gaitán, factos que amputaram o conjunto das asas que lhe permitiam voar pelos flancos. Rapidamente o técnico encarnado descobriu outras soluções, e a incorporação de Jara (excelente jogador) na linha ofensiva, lado a lado com Cardozo e Saviola, permitiu, não só manter, como porventura aumentar, a capacidade do Benfica criar situações de perigo junto das balizas contrárias, como se viu nestes jogos diante de adversários bastante respeitáveis – ambos vergados ao peso de goleadas.
Aparentemente trata-se pois de uma variante com pernas para andar, ficando apenas por saber qual a composição definitiva do trio de meio-campo. É que se com Ramires todos os equilíbrios serão relativamente fáceis de manter, já sem o internacional brasileiro se levantam muitas dúvidas acerca da fiabilidade deste sistema, dado que quer Carlos Martins, quer Aimar não são muito dados a tarefas defensivas, deixando o pivot (Airton ou Javi) e toda a linha defensiva demasiado exposta.
Veremos então como evolui este Benfica nas próximas partidas, e sobretudo como se apresenta em Aveiro, para a Supertaça, já dentro de uma semana, encontro no qual não pode deixar de assumir algum (ainda que ligeiro) favoritismo. Para já, vão três troféus particulares na bagagem, podendo juntar-se-lhe um quarto já esta terça-feira.
Mas, devo dizer, tenho grande dificuldade em entusiasmar-me com esta equipa enquanto o mercado não tiver fechado as suas portas. Não adianta estarmos para aqui a dizer que este ou aquele aspecto está melhor, que a solução pode ser assim ou assado, e depois depararmo-nos com constantes notícias acerca de possíveis saídas de jogadores fundamentais. A perda de qualquer dos titulares da época passada representará um rombo na qualidade e nas aspirações do Benfica para 2010-11, e enquanto essa nuvem não estiver totalmente dissipada, nem sequer terei muita vontade de ir à Luz.

MÁSCARAS, INSULTOS E VIDEO

Sou assinante da Sport Tv há muitos anos, e tenho do canal a melhor impressão em termos de grelha de programas, grafismo, acompanhamento de diferentes modalidades e qualidade geral das emissões.
Infelizmente não posso dizer o mesmo dos seus comentadores de futebol, que, mais do que tendenciosos, me parecem globalmente incompetentes, monocórdicos e mal preparados, pecado que, diga-se, acompanha a estação desde os seus primeiros tempos.
Os relatos são tão enfadonhos que, quando não se trata da nossa equipa, põem a dormir qualquer um. Os repórteres alternam perguntas absolutamente idiotas, com insistências mal-educadas que, aqui e ali, já mereceram reparos de todos os quadrantes. Os convidados são escolhidos por critérios que ninguém percebe, e se por vezes surpreendem pela positiva (Paulo Bento no Mundial), na maioria dos casos perdem-se na mediocridade. Para não destoar, os comentadores residentes são de uma pobreza que manifestamente não se coaduna com a importância da estação no panorama desportivo nacional.
O episódio do Algarve é o corolário lógico desta insuficiência, mostrando ao país um grupo de indivíduos que, ao invés de profissionais pagos para servir o espectador, mais pareciam pândegos a divertirem-se à custa dele. O desconhecimento revelado sobre o Sunderland é assustador para quem ganha a vida a fazer comentários de futebol (inclusivamente da Premier League), e a forma como se referiram ao guarda-redes, e ao treinador, do Benfica é insultuosa e absolutamente inadmissível, indo de encontro a um anti-benfiquismo que parece reinar naquela casa (como noutras).
Não sou jurista, pelo que não sei que consequências poderá ter este episódio na relação comercial entre o clube da Luz e a Sport Tv. Mas a verdade é que a estação de Joaquim Oliveira sai, pelo menos, envergonhada do caso. Numa altura em que 2013 se aproxima a passos largos, Rui Pedro Rocha, Jorge Goulão e o insuportável Pedro Henriques deram um valente tiro nos pés, e na credibilidade da empresa que lhes paga.

NOVA VITÓRIA, NOVO TROFÉU

À semelhança do que ocorrera na pré-temporada passada, o Benfica de Jorge Jesus parece empenhado em coleccionar troféus. Depois do Torneio de Guimarães, agora a Albufeira Summer Cup. Valem pouco, ou nada, mas é sempre melhor ganhá-los do que perdê-los.
Em termos de resultados, as duas pré-épocas poderão até vir a equivaler-se, caso os encarnados arrebatem também o Torneio do Guadiana e a Eusébio Cup. Já quanto ao futebol jogado, a exuberância exibicional de há um ano atrás não tem estado presente, em larga medida devido às contingências do Mundial – jogadores a chegar a conta-gotas, estados de forma distintos, e dificuldade em apresentar a melhor equipa. Sente-se o suave perfume da temporada passada, nomeadamente quando Aimar (a prometer uma época em grande) e Saviola pegam no jogo, mas a fluidez colectiva do futebol benfiquista não tem sido, nem poderia ser, aquela que valeu o 32º título nacional.
O grande caso do Benfica é, por estes dias, o guarda-redes Roberto, e há que dizer que, sem a sua presença na baliza, os motivos de interesse do jogo de Albufeira diminuíram fortemente. Júlio César e Moreira não tiveram qualquer trabalho ao longo dos noventa minutos, mas o zero registado nas redes encarnadas não deixa de ser irónico, sobretudo porque, se descontarmos o jogo com os amadores do Monthey, foi a primeira vez que aconteceu nesta pré-época – justamente na primeira ocasião em que o espanhol não foi utilizado.

Fábio Coentrão e Cardozo voltaram a ser decisivos. Um a cruzar, outro a marcar, tal como havia acontecido frente ao Mónaco, e tal como se espera vir a acontecer muitas vezes ao longo da temporada, caso ambos permaneçam no plantel.
A propósito de Coentrão, e conhecendo um pouco melhor as características de Gaitán, terei de rever aquilo que escrevi há uns dias atrás, quando considerei o lateral como um dos jogadores cuja saída menos penalizaria o colectivo benfiquista, se é que se pode dizer tal coisa de algum dos titulares da equipa campeã nacional. Na verdade, tenho reparado que o argentino, embora detentor de boa técnica, não verticaliza o jogo da mesma forma que Di Maria o fazia. É uma espécie de Di Maria, sim, mas de 2007-08, ainda à procura do seu espaço no futebol europeu. Pode perfeitamente ser titular, mas necessita de um apoio incisivo na hora de buscar os desequilíbrios. Esse apoio só pode vir de Fábio Coentrão, que se torna assim uma peça indispensável a este Benfica. E nem me espantaria que o vilacondense acabasse por voltar (pontual, ou mesmo, definitivamente) ao seu lugar de origem, onde - ele sim - poderia tornar-se o substituto natural do agora jogador do Real Madrid.
Da partida com o Sunderland fica ainda a confirmação do bom momento de Carlos Martins, e a ligeira subida de rendimento de Javi Garcia e Sidnei. Já David Luíz, em dia de convocatória para a selecção brasileira, voltou a exibir a sua classe, alicerçada também numa tremenda auto-confiança.
Na sexta-feira, novo teste. Será a vez dos holandeses do Feyenoord.

O CAMPEÃO VOLTOU A CASA


Numa bonita tarde de festa, o Benfica voltou à casa para se mostrar aos mais de 40 mil adeptos que, cheios de saudades, lá se deslocaram.
O tipo de sentimentos vividos neste jogo de apresentação não podiam contrastar mais com os da última vez que se tinha jogado naquele estádio. Então, com o Rio Ave, estava em causa o título nacional, e a ansiedade vivida à entrada só teve paralelo na euforia da saída. Agora, a tranquilidade quase sonolenta convidou a uma atitude contemplativa que deixa pouca margem para análises muito elaboradas ao futebol que se praticou. As camisolas são bonitas, o novo relvado parece excelente, a tarde foi bem passada, e, quanto ao resto, pouco há a dizer.
Roberto era uma das atracções do dia, e apesar de todo o apoio que lhe foi dispensado pelos adeptos (exemplares na protecção ao jogador), não só não teve oportunidade para brilhar, como acabou por ficar mal na fotografia do primeiro golo francês. Não se tratou de um “frango” - num jogo como este o lance até passaria despercebido, não fosse o peso dos erros nas partidas anteriores -, mas esperar-se-ia outro tipo de intervenção de alguém que veio para fazer a diferença. Custa-me falar dele, embora mantenha a esperança de que o meu cepticismo venha a ser desmentido. Por enquanto, o que mais me tranquiliza neste caso são dois nomes: Moreira e Júlio César.
Outro caso, mas de sentido diametralmente oposto, é o de Óscar Cardozo. Entrara havia apenas um minuto, e, mesmo ainda a ritmo de férias, ao primeiro toque na bola deu a vitória aos encarnados. É verdade que foi dos mais aplaudidos no estádio, mas não se entende como muita gente continua a desconfiar das suas capacidades, depois de 90 golos marcados em três anos. Como José Torres, Gerd Muller, Ian Rush ou Mário Jardel, Takuara não é avançado de dribles, nem de verónicas ou chicuelinas. É avançado de golos. E já mostrou ao que vem.
Quem não pôde mostrar-se foi o reforço Franco Jara. Quanto a Gaitán, embora tenha voltado a revelar bom toque de bola, esteve bastantes furos abaixo do que, pela televisão, já se lhe vira fazer nesta pré-temporada. Fábio Faria jogou apenas uns minutos.
Outras notas de destaque vão para a luta pelo lugar de pivot defensivo, que parece estar a ser ganha por Airton. Javi Garcia tem estado infeliz (já a sua ponta final da época passada não fora brilhante), e o brasileiro apresenta-se como uma hipótese bastante credível para a titularidade. Ruben Amorim também não esteve muito inspirado (o que é natural para quem vem de lesão, e viu as férias interrompidas pelo Mundial), ao passo que a dupla Aimar-Saviola já nos vai regalando os olhos, indiciando mais uma grande temporada. Fábio Coentrão foi o mais aplaudido, como, diga-se, bem merece; enquanto Mantorras foi assobiado por muita gente, como infelizmente também fez por merecer nos últimos tempos.
No fim, vitória do Benfica por 3-2, e a esperança de que o andamento do mercado permita manter uma equipa que tanta alegria deu aos seus adeptos.

PS: Já o texto estava publicado, e reparei que este era o post nº 2000 do VEDETA DA BOLA. É um número redondo, bonito, e que, sinceramente, em Março de 2006 não me passava pela cabeça vir a alcançar. Estão de parabéns, sobretudo, os leitores, pois foram eles (vocês) que trouxeram este espaço até aqui.

A ANGÚSTIA DO ADEPTO NO MOMENTO DAS TRANSFERÊNCIAS

Se o período do defeso foi, noutros tempos, uma altura de entusiasmo, se nesses anos, na Luz, a carência de futebol e títulos fazia ansiar por cada nova contratação, a verdade é que hoje, com um grande plantel, com o escudo de campeão nos ombros, o que os benfiquistas mais desejam é que esta interminável abertura de mercado chegue rapidamente ao fim.
Não há que enganar. Muitas saídas de jogadores e o Benfica poderá ver cair por terra todo o trabalho dos últimos anos. Não há milagres, e o passado ensina-nos como é difícil substituir jogadores devidamente integrados e adaptados a um clube, trocando-os por tiros no escuro, como serão fatalmente todas as aquisições feitas sob a pressão da urgência.
Estamos pois a passar por dias em que o futuro próximo do Benfica está em equação, o que causa naturalmente alguma angústia entre os adeptos. Eu, por exemplo, já nem compro os jornais desportivos.
Partilhando essa angústia com os leitores, deixo aqui a minha proposta acerca daquilo que penso poder ser feito, sendo que, obviamente, não domino toda a informação sobre o assunto - como sejam, por exemplo, eventuais negociações com o fundo de jogadores, acordos estabelecidos com empresários ou com a banca, situação de tesouraria e questões afins.
Em primeiro lugar, e ressalvado o que fica do parágrafo anterior, defendo a manutenção de todos os jogadores do actual plantel. O Benfica estará na Liga dos Campeões, e essa é uma oportunidade de valorização que não pode ser desconsiderada. Mais do que isso, é a hegemonia no futebol português que está em causa, e o tal novo ciclo só será uma realidade com a manutenção de uma grande equipa.
A haver mesmo necessidade imperiosa de vender, creio que seria aceitável a cedência de apenas um jogador. Di Maria já saiu, e mais duas perdas fariam, seguramente, abanar os alicerces da equipa, deixando-a cair para níveis competitivos irremediavelmente mais baixos.
Vejamos as situações de cada um dos jogadores para os quais se diz existirem propostas:

LUISÃO – Inegociável ! É o jogador mais importante no plantel, quer pela capacidade técnica (insuperável no jogo aéreo e nas bolas paradas), quer, sobretudo, pela liderança que impõe aos colegas, em particular aos jovens sul-americanos que vão chegando. A sua saída poderia fazer tremer muitos dos equilíbrios que existem actualmente no balneário, e a sua cotação de mercado não cobre, nem se aproxima, da importância que tem para a equipa e para o clube. Se for necessário aumentar-lhe o ordenado, pois que se aumente.

DAVID LUÍZ – Sidnei tarda em afirmar-se, pelo que o desfazer da dupla da época passada se afiguraria problemático. Contudo, julgo que 35 milhões de euros (segundo os jornais, aquilo que o Manchester City ofereceu por ele) seria um valor irrecusável, e obrigaria a ponderar um eventual negócio.
Sendo ainda um jovem, preparando-se para disputar a Liga dos Campeões, o seu passe não deverá desvalorizar tão cedo. Pelo contrário, uma eventual chamada à selecção pode torná-lo ainda mais apetecido pelos principais mercados. Estes são aspectos que apontam para que fique mais uma temporada. Mas, 35 milhões de euros são…35 milhões de euros.

FÁBIO COENTRÃO – Outro que pode valorizar-se ainda mais com a Liga dos Campeões, embora o fantástico Mundial que fez já o tenha colocado em alta.
Apesar da saída de Di Maria ter deixado o corredor esquerdo muito dependente da sua capacidade de verticalizar o jogo, não me chocaria que o Benfica o vendesse, caso houvesse uma proposta muito próxima do valor da cláusula. Mais do que 25 milhões, atendendo a que se trata de um defesa-lateral, seria uma proposta praticamente irrecusável.

RAMIRES –Ao que se diz, é o jogador que estará mais perto da porta da saída. É pena.
Metade do passe já foi alienado (por 6 milhões), pelo que uma eventual cedência dos direitos desportivos não trará uma mais-valia grandemente apelativa.
Acresce que se trata de um jogador muito jovem, cuja presença na Liga dos Campeões poderia fazer inflacionar o valor de mercado, e que, no meu ponto de vista, ainda não terá evidenciado no Benfica todas as suas enormes capacidades.
Tem talento e fulgor para ser o melhor jogador a actuar em Portugal, e, mostrando-o, creio que dentro de um ano poderia atingir uma cotação superior a 30 milhões de euros.
Além do mais, a sua versatilidade táctica oferece soluções ao meio-campo da equipa que mais nenhum outro jogador garante. Pode jogar em todas as quatro posições do centro do terreno, sempre com elevado rendimento. É um craque ainda por explodir, e temo que a sua venda seja precipitada.

CARDOZO – Alguns benfiquistas adoram pontas-de-lança tecnicistas, que fazem fintas, conduzem a bola, "criam espaços", vão à linha, jogam "de costas para a baliza", cumprem "missões de sacrifício", e movimentam-se como bailarinos, como muitos que fazem parte da memória do futebol português. Eu, sinceramente, num ponta-de-lança, não ligo patavina a essas ...inutilidades. Gosto é daqueles que metem as bolas lá dentro, como é raro ver-se…no futebol português.
Em três épocas no Benfica, Óscar Cardozo marcou cerca de 90 golos (!), e é um absurdo (para não dizer outra coisa) pensar-se que qualquer outro o teria feito no seu lugar. No nosso campeonato, em muitos anos, só Jardel fez melhor, pelo que "Tacuara" é, seguramente, um dos melhores avançados que passou por Portugal em muitos anos.
Pelo que acabo de dizer, julgo que o paraguaio seria extremamente difícil de substituir no plantel encarnado, pois um jogador com as suas características - de último toque, de sentido de oportunidade, de aproveitamento do espaço, de violência de remate, de eficácia, sobretudo numa equipa ofensiva, o que não era o caso da sua selecção - não existe em Portugal, é caríssimo na Europa, e muito difícil de encontrar no mercado sul-americano.
Kardec marcou uns golos na pré-época? É verdade, mas quando chegar (se alguma vez chegar) aos noventa, então podemos discutir se é um substituto para Cardozo. Para já, não nos precipitemos: continua a ser apenas uma esperança.
A saída de Cardozo obrigaria pois, necessariamente, à contratação de mais um avançado. Se esse avançado fosse, como queria Jorge Jesus, o holandês Huntelaar, então encantados da vida. Acontece que eu não acredito nessa possibilidade (nem noutra de idêntica qualidade), e o que vejo diante de mim, caso Cardozo saia, é um enorme vazio na frente de ataque, um regresso às oportunidades falhadas, à falta de pontaria e eficácia, tantas vezes confundida, no passado, com falta de sorte.
Por menos de 35 milhões de euros, nunca libertaria Cardozo. E se ele exigir um aumento, também não vejo motivos para o negar. É ele que marca os golos, e isso é argumento mais do que suficiente para ser uma das bandeiras da equipa e do clube.

CONCLUSÃO: Se pudesse, não vendia ninguém, e entendo que deve ser feito um esforço, tão grande quanto possível, nesse sentido.
Se razões fortes (tesouraria ou outras) me obrigassem, vendia um, e só um, jogador. Qual? Dependia das propostas, mas atendendo aos valores que se vão ouvindo e lendo, talvez um de dois: David Luíz (35 M) ou Fábio Coentrão (25M), porventura os que, estando num pico de valorização, mais fáceis seriam de substituír recorrendo ao mercado.
Esta é a minha opinião, que não vale absolutamente nada. Mas espero que a opinião de Jorge Jesus seja ouvida antes de qualquer decisão relativamente a esta matéria.

ALGUM FUTEBOL, UMA TAÇA E UMA DOR DE CABEÇA

Três factores contribuem para que esta pré-temporada me esteja a entusiasmar muito pouco:
1) a ressaca do Mundial vivido intensamente, com os seus 64 jogos em 30 dias;
2) a consequente ausência de alguns dos principais jogadores, ainda no gozo das suas férias;
3) e por fim a agradável situação de não haver grandes novidades no Benfica, nem quanto a equipa técnica e respectivo modelo de jogo, nem, para já, salvo dois ou três casos particulares, quanto a jogadores.
Acrescentaria ainda que o mês de Julho traz com ele o Tour, prova ciclista que me apaixona e absorve, ano após ano, desde a infância, deixando pouco espaço para uma actualidade futebolística marcada pela ausência total de competição a sério.
Assim, e como não me pagam para isto, devo confessar que dos cinco jogos disputados até agora pelo Benfica, vi apenas uma parte significativa do Aris de Salónica (cerca de 70 minutos) e a totalidade deste último diante do V.Guimarães. Dos outros, apenas resumos.
Não tendo pois, teoricamente, uma base suficientemente sólida para falar, há um dado que é inelutável: por muito que se diga e escreva, uma equipa amputada de Maxi Pereira, Luisão, Fábio Coentrão, Ramires e Óscar Cardozo não é, nem pode ser, o verdadeiro Benfica, aquele que nos encantou durante a última temporada. Qualquer análise terá de se submeter a esse pano de fundo, o que significa que, tal como eu, mesmo quem tenha visto todos os jogos dificilmente terá condições para acrescentar muita coisa relativamente àquilo que pode ser o Benfica 2010-11.
Conforme disse acima, não creio contudo que existam quaisquer novidades relativamente ao sistema táctico, e modelo de jogo, apresentado por Jorge Jesus. A filosofia é a mesma, mudando apenas, conjunturalmente, algumas figuras, nas posições que os mundialistas têm deixado por preencher. Posse de bola, jogo pelos flancos, pressão constante são as marcas que este Benfica sempre tenta impor, e que nos dois jogos que vi valeram nada menos que nove golos e o primeiro troféu da época.
Como sinal positivo destacaria a prestação de um jogador que, acredito, pode explodir nesta nova temporada: Alan Kardec. Já tinha deixado boas indicações sempre que foi chamado, e tem aproveitado muito bem a ausência de Cardozo para mostrar tratar-se de uma opção credível, e goleadora. Se lhe juntarmos as boas indicações dadas pelo reforço Franco Jara, e não vier a sair ninguém, temos o ataque do Benfica totalmente resolvido, e bem resolvido, com boas e variadas opções.
Também Carlos Martins, Airton, e a novidade Gaitán (muito boa técnica, velocidade e capacidade de passe) tem estado em plano de destaque, com o médio brasileiro a ameaçar seriamente a titularidade de Javi Garcia. Aimar e Saviola têm igualmente mostrado índices físicos apreciáveis.
Os problemas da equipa situam-se mais atrás.
Se, por um lado, as ausências dos titulares (três dos quatro habituais defesas) muito se têm feito notar, por outro, o guarda-redes Roberto tarda em afirmar-se, e vai confirmando, jogo a jogo, as piores expectativas, tornando-se um “caso” nesta pré-temporada benfiquista.
Será problemático para o Benfica continuar a sofrer três golos por jogo, como sofreu neste torneio de Guimarães, pois nem sempre irá marcar cinco. Dos golos sofridos nos dois jogos, três têm a marca pessoal de Roberto, o que significa que, dos nove golos encaixados em toda a pré-época, cinco (mais de metade) deveram-se a erros do espanhol. É demais.
Não vou crucificar o jogador, mas questiono se não seria aconselhado proteger um pouco a sua integração, dando algum espaço a Júlio César e Moreira neste tipo de jogos.
Seja como for, temo que o Benfica, que, quanto a mim, com Quim, não tinha qualquer problema na baliza (recordo que nas competições perdidas, Taça e Liga Europa, não era o minhoto que estava entre os postes), o tenha agora, oito milhões e meio de euros depois. É que, ao contrário de muitos benfiquistas, não acredito, nunca acreditei, que existissem por aí, ao virar da esquina, guarda-redes com o perfil que muitos vulgarmente apontam, daqueles que “valem pontos”, agarram todos os cruzamentos, e não cometem erros, ou seja, perfeitos. Preud’Homme foi único (porventura o melhor em toda a história do clube) veio cá parar por acaso, em fim de carreira, e hoje, os que se lhe comparam são Casillas, Buffon, Cech, e mais dois ou três. Estão, obviamente, inacessíveis, e todos os outros são, nas melhores das hipóteses, como…Quim (discretos e regulares). Terá sido este também o erro de análise da SAD encarnada? O futuro dirá.
No sábado lá estarei, para matar saudades do Estádio da Luz, e do futebol ao vivo. Esse sim, há algum tempo que não vejo.

NO NEWS, GOOD NEWS

Trata-se, na verdade, de um plantel de luxo. Por mim, fechava-o já a sete chaves.
Faço votos para que esta angústia do mercado aberto termine depressa, pois, ao contrário de outros anos, não espero, nem quero, novas contratações. Apenas, que tudo se mantenha como está.

A ACTUALIDADE DOS CAMPEÕES

Com o Mundial concluído, e bem concluído, as atenções voltam-se de novo para o futebol nacional.
Entretanto, e antes de entrar na pré-temporada propriamente dita (período que, digo desde já não me entusiasma particularmente), há que pôr a escrita em dia, trazendo à colação os temas que, devido ao andamento do Mundial, foram entretanto ficando para trás. Falo, claro, da actualidade benfiquista.
Vamos a ela:
DI MARIA - No momento actual dos mercados, vender um jogador por 30 milhões de euros é uma oportunidade que poucos clubes podem desperdiçar. Não havia, pois, nada a fazer para evitar a partida do craque argentino, que julgo ter sido muito bem vendido.
Luís Filipe Vieira tinha afirmado que recusaria qualquer proposta abaixo da cláusula? Sim, e fez muito bem, valorizando o jogador, e seguindo a estratégia negocial que mais servia os interesses do clube, mesmo que à custa da sua imagem pessoal. Se dissesse que vendia por 30, provavelmente o atleta teria saído por 20. Qualquer merceeiro entende isto.
DAVID LUÍZ - Se existem de facto propostas na casa dos 35 milhões, acho, francamente, que seria também de aproveitar, fechando então o plantel a mais saídas.
Gosto muito dele, tal como gostava de Di Maria, mas não há insubstituíveis. Entendo sobretudo que o Benfica não deve, nem pode, vender mais do que dois jogadores da equipa titular. Sendo Di Maria e David Luíz provavelmente os mais valiosos, podiam ser eles os eleitos. Mas naturalmente prefiro que fique.
LUISÃO - Este, pelo contrário, não pode, de forma alguma, sair. É capitão, tem anos de casa, é decisivo na integração dos jovens sul-americanos que vão chegando, e, sobretudo, não tem um valor de mercado compatível com a sua importância na equipa. Se o seu salário não está entre o lote dos mais altos, corrija-se rapidamente esse diferencial, e mantenha-se a "Girafa" no comando da defesa.
ROBERTO JIMENEZ - Faço parte do lote de benfiquistas surpreendidos (para não dizer cépticos) com esta contratação. Custou uma fortuna, sobretudo tendo em conta que se tratava de um jogador que não tinha lugar no seu clube (por isso foi emprestado), e que nunca foi objecto de qualquer convocação para a selecção principal do seu país (exigência que seria lícito colocar a um guarda-redes de 8,5 milhões de euros).
Dito isto (que andava aqui entalado...), e uma vez que o facto está já consumado - sendo ele a aposta para a baliza do Benfica - também não creio que faça sentido colocar-lhe agora mais pressão do que a já expectável num jovem de 24 anos, que muda de paás e chega a um clube com grandes ambições.
Não começou bem, mas é necessário que os benfiquistas se recordem dos primeiros jogos de Luisão ou Cardozo no clube, ou das primeiras épocas de Fábio Coentrão e Di Maria, para perceber que a adaptação de novos jogadores nem sempre é tão rápida como os adeptos, e os próprios, gostariam.
Esqueça-se pois o preço (já está, paciência...), e apoie-se o jovem, certamente talentoso, de modo a que possa exprimir tranquilamente as suas capacidades. No final da época, com dezenas de jogos em cima, ver-se-á então se justificou ou não a aposta.
OUTROS REFORÇOS - Do pouco que vi, gostei. Quer Gaitán (que à primeira vista parece um substituto perfeito para Di Maria), quer Jara, quer mesmo Fábio Faria, deram boas indicações. Veremos se as confirmam.
NECESSIDADES DA EQUIPA - Se não sair mais ninguém, e os novos recrutas confirmarem as melhores expectativas, não vejo francamente que seja necessária qualquer outra contratação. A menos que o mercado apresente uma oportunidade irrecusável, por mim consideraria, desde já o plantel fechado.E ainda era capaz de emprestar o Luís Filipe e o Felipe Menezes, ficando com 23 jogadores, que chegam e sobram para as várias competições.

O MUNDIAL de A a Z

Como forma de fechar o livro deste Mundial, segue-se um pequeno balanço, letra a letra, da grande competição sul-africana:
A de ARBITRAGEM
É verdade que o golo não validado à Inglaterra vai ficar a manchar o desempenho dos árbitros (naquele caso, do fiscal de linha), mas à excepção desse e de outros episódios pontuais, creio que a arbitragem foi genericamente aceitável.
Existiram erros, e, se quisermos ver constantemente o copo meio vazio, iremos rebuscar um fora-de-jogo aqui, um penálti ali, fazendo um drama com cada um deles. Mas o futebol é mesmo assim, no Mundial e em todo o lado. Há erros dos defesas, dos avançados, dos guarda-redes e… dos árbitros.
Sou bastante céptico quanto à utilização de meios tecnológicos que alterem o curso do jogo. Prefiro um futebol fluído, mesmo com um ou outro equívoco de arbitragem. Mas essa discussão daria para um A a Z completo.
O que mais me preocupa é a tendência dos principais juízes (sobretudo os europeus) para apitar por tudo e por nada, interrompendo o jogo ao mínimo contacto. Nessa matéria, Olegário Benquerença mostrou o motivo pelo qual a Liga Portuguesa tem, tantas vezes, tão pouca qualidade futebolística, batendo os recordes de faltas assinaladas nos jogos que dirigiu.
B de BOM FUTEBOL
Tem-se ouvido e lido que o Mundial decepcionou, que os jogos foram aborrecidos, que as equipas jogaram a medo, mas, depois dos primeiros dias em que eu próprio aderi a essa tese, julgo que acabámos por assistir a um dos melhores Mundiais das últimas décadas.
O futebol romântico do Espanha 82 morreu e está enterrado. Não adianta esperar que nos volte a encantar. A Lei Bosman retirou identidade nacional aos clubes, e com isso as selecções descaracterizaram-se, adoptando estilos de jogo semelhantes entre todas elas. A preparação atlética dos jogadores tornou-se muito mais cuidada, mesmo nas selecções tidas como mais fracas, o que equilibrou os pratos da balança, fechando os jogos com as chaves do rigor e do erro mínimo. Este é um processo irreversível, e que dura há já alguns anos.
Não me parece, pois, que o França 98, o Coreia/Japão 2002 ou o Alemanha 2006 tenham tido alguma coisa a mais que este África do Sul 2010. Pelo contrário, tivemos nesta competição várias equipas com pendor ofensivo (à cabeça das quais a campeã), assistimos ao despontar de novas estrelas (Muller, Ozil, Pedro, Vanderwiel, Cavani, Coentrão etc), testemunhámos a consagração do grande futebol espanhol (com um estilo de jogo que não se vira em Mundiais anteriores), tivemos uma grande Alemanha, uma boa Holanda, e várias selecções de segunda linha que surpreenderam pela positiva, desde o Uruguai ao Gana, passando pelo Paraguai, Estados Unidos, Chile ou Eslováquia - além de que partidas como o Alemanha-Argentina, o Uruguai-Holanda ou o Espanha-Alemanha, para falar apenas na fase decisiva, apresentaram qualidade e beleza capaz de pedir meças aos melhores jogos dos mundiais de outras eras.
Os saudosistas que se habituem. Isto agora é mesmo assim. Não existe melhor. E estou em crer que qualquer das principais equipas deste Mundial, com a sua capacidade física, com o seu rigor táctico, com a sua concentração competitiva, ganharia, sem dificuldade, a qualquer das equipas de há 30 anos atrás.
C de CRISTIANO RONALDO
Sempre tive como certo que para um grande Mundial da selecção portuguesa seria imprescindível um grande Cristiano Ronaldo. Ele não apareceu.
Já disse várias vezes tudo aquilo que penso do jogador madeirense: tem capacidades físicas e técnicas para se tornar num dos melhores de sempre, mas infelizmente, nos últimos dois anos, não só não tem evoluído, como tem de certa forma regredido, dando preocupantes sinais de vedetismo e acomodação.
Este Mundial podia e devia ser o seu. Não o das fintas, ou dos toques de calcanhar para impressionar as meninas da bancada, mas aquele em que, com o seu enorme talento, arrastasse toda a equipa para uma dimensão de jogo superior, como em tempos fazia no Manchester United. Por culpas próprias e alheias, falhou redondamente. Sai do Mundial pela porta dos tristes, e, daqui a quatro anos, com 28 de idade, terá talvez (se nos qualificarmos, aspecto em que ele terá também uma palavra a dizer) a última hipótese de entrar para a eternidade do grande futebol.
D de DESILUSÕES
Se Brasil, Inglaterra e Argentina caíram aos pés de outros candidatos ao título, e ainda tiveram tempo de mostrar algumas moléculas das suas capacidades e virtudes, já a Itália e, sobretudo, a França, saíram do Mundial com a cara coberta de vergonha.
Quanto aos transalpinos, e ao contrário do que tem sido comum afirmar-se, julgo que Marcelo Lippi terá errado no timing da renovação, e talvez alguns dos “velhos” que ficaram em casa tivessem dado jeito, até pela experiência que traziam consigo. Nunca seriam campeões, mas provavelmente também não ficariam pela primeira fase. De qualquer forma, é preocupante para a Itália a escassez de recursos que a nova geração apresenta.
Em relação á França o caso é ainda mais complicado. Ninguém entende como Domenech se manteve no cargo durante tanto tempo, mas a culpa não será exclusiva dele. Há toda uma geração de vedetas ricas e acomodadas que não têm já lugar em nenhuma selecção, das quais destacaria Anelka como símbolo maior. Também Gallas, Evra, Henry e outros pertencem ao passado. Ao contrário da Itália, no caso da França haveria que ter tido a coragem de ter romper drasticamente com algum situacionismo, coisa que terá de ser feita agora, mas já sobre as brasas do escândalo e da desonra.
Esperava-se mais também de algumas selecções africanas, como os Camarões ou a Nigéria.
E de ESPANHA
Foi a campeã, e foi uma grande campeã. Esta Espanha, que nascera no Euro 2008 (e foi sendo sedimentada no Barcelona de Guardiola), é talvez a primeira selecção, em muitos anos, que traz de facto alguma coisa de novo ao futebol.
Conforme já aqui confessei, aprecio mais um estilo de passes longos, transições rápidas e cavalgadas pelo campo fora, um pouco à semelhança do que a Alemanha, em várias ocasiões, nos ofereceu. Mas reconheço que este modelo espanhol, quando as coisas saem bem, é praticamente insuperável, e a prova está numas meias-finais em que a equipa germânica foi pouco menos que esmagada, apesar da magreza do resultado poder indiciar um equilíbrio que não existiu.
Assente num meio-campo extremamente móvel e tecnicista, onde Xavi surge como chefe de orquestra, a equipa de Del Bosque pareceu sempre capaz de dar aos jogos o andamento que mais lhe convinha, vencendo e convencendo quem lhe apareceu pela frente. Curiosamente foram duas selecções menores que lhe criaram mais problemas: primeiro a Suiça, com sucesso, depois o Paraguai, com infelicidade. Excesso de confiança? Talvez. Em todos os outros jogos a superioridade foi clara.
Impressionante o que este conjunto de jogadores tem conseguido fazer com treinadores diferentes (Aragonês, Guardiola e Del Bosque). Uma verdadeira geração de ouro de talentos aqui mesmo ao lado, mas neste caso com resultados. E que resultados!
F de FORLÁN
Depois de uma temporada fabulosa, o avançado uruguaio foi eleito pela FIFA o melhor jogador do Mundial.
Eu não iria tão longe (havia Xavi, David Villa, Sneijder, Muller etc), mas seria insensato desligar a performance da selecção uruguaia da excelente forma em que, mesmo depois de 70 jogos, apareceu o seu jogador mais representativo.
Já nos trinta, Diego Forlán tinha aqui a sua oportunidade de entrar na história do futebol internacional. Não a desperdiçou.
Olhando para o Mundial, para toda esta sua temporada, para as duas Botas de Ouro que já havia conquistado, fica a sensação de ter passado o lado dos principais clubes (foi dispensado do Manchester United), e com isso, não ter alcançado a notoriedade que o seu talento justificava.
G de GYAN
Asamoah Gyan foi o rosto da equipa do Gana, e, de certo modo, o rosto da África em todo este Mundial.
Marcou golos, deixou excelentes apontamentos, valorizou-se bastante, acabando todavia por sair em lágrimas, após um dos momentos mais dramáticos de toda a competição.
Aquele penálti, no último segundo do jogo com o Uruguai, tê-lo-ia elevado ao estatuto de herói absoluto de que, por exemplo, Roger Milla ainda desfruta. Ter-se-ia feito história, pois seria a primeira vez que África chegaria a umas meias-finais. Tudo isso foi um fardo demasiado para as costas de um jovem sem grande experiência internacional.
Tal como Óscar Cardozo no dia seguinte, protagonizou um daqueles episódios em que o futebol se torna demasiado cruel, e em que este tipo de competições (resolvidas em detalhes) é pródiga. Mas a imagem do seu talento saiu muito reforçada.
H de HOLANDA
Chega a chocar-me quando oiço dizer (e já ouvi mais de uma vez) que esta Holanda era uma das mais fracas dos últimos mundiais. Essa ideia é totalmente absurda, e entronca naquele saudosismo romântico referido mais atrás na letra B.
É verdade que, em tempos, a selecção laranja praticou um futebol mais aberto, mais entusiasta, mas também mais ingénuo. Mesmo com grandes plantéis, perdia quase sempre que tinha por diante um adversário organizado e com qualidade. Nós, com o Euro 2004 e o Mundial 2006, bem nos lembramos disso.
Para esta competição, a Holanda apareceu desde o início com uma equipa muito homogénea, bem organizada, e eficaz nas suas acções ofensivas e defensivas. Ganhou todos os jogos até à final, tal como havia feito numa espantosa, e imaculada, fase de qualificação. Proporcionou momentos empolgantes, como por exemplo a segunda parte diante do Brasil. Mostrou um excelente guarda-redes, uma revelação do lado direito da defesa, juntou a experiência de Van Bronckhorst e Van Bommel à cor do talento de Sneijder e Robben, formando uma grande equipa, na qual eu apenas trocaria o apagado Van Persie pelo eficaz Huntelaar. Na final, assumiu o favoritismo adversário, e fez o jogo que podia, quase levando a decisão para os penáltis, mesmo depois de ter desperdiçado algumas ocasiões claras de golo. Podia perfeitamente ter sido campeã mundial, e isso diz tudo.
Para mim, esta foi claramente a melhor Holanda desde Rijkaard, Van Basten e Gullit.
I de INDIVIDUALIDADES
Um dos aspectos que mais me agradou neste Mundial foi o claro triunfo do futebol colectivo. Aquele de que mais gosto. Aquele que acho mais belo.
As fintas e refintas de Ronaldo e Messi foram as grandes derrotadas, numa prova que triturou as estrelas que se anunciavam como seus protagonistas. Além da dupla referida, também Rooney, Ribery, Simão, Henry, Gerrard, Kaká, Lampard, Buffon, Pirlo, Milito, Deco, Drogba e Eto’o ficaram longe do sucesso, passando - uns mais que outros - quase despercebidos pela África do Sul.
Além dos jogadores em si, também as equipas cujo futebol assentou mais no aproveitamento do talento individual acabaram por perder. A Argentina será o exemplo mais paradigmático (não me lembro de ver tanto individualismo numa equipa profissional), mas podemos juntar-lhe o Brasil, e, de certo modo, também Portugal.
Quem mais brilhou foram aqueles que tinham uma ideia colectiva de jogo mais definida: Espanha e Alemanha, mas também Holanda, Uruguai ou Paraguai.
J de JOVENS
Já aqui ficou dito que o Mundial africano teve o condão de fazer despontar uma série de jovens até agora pouco ou nada conhecidos do grande público.
Thomas Muller foi aquele que mais me impressionou, mas há que destacar também os seus colegas Ozil, Khedira, Neuer (grande guarda-redes!), e ainda Cavani (que me lembro do Mundial sub 20 do Canadá), o já mencionado Gyan, os seus compatriotas Ayew e Annan, o holandês Van der Wiel, o espanhol Pedro, e, claro, o nosso Fábio Coentrão, para além de alguns outros espalhados pelas equipas que foram mais cedo eliminadas.
Em termos colectivos, a selecção que me parece ter maior margem de crescimento é a da Alemanha, pois a base da sua equipa é genericamente sub 23.
K de KLOSE
Por falar em Alemanha, o seu ponta de lança (já não tão jovem como os colegas acima referidos) esteve muito perto de fazer história, ficando a apenas um golo de igualar Ronaldo como melhor marcador de sempre das fases finais dos Mundiais.
Uma inoportuna gripe afastou-o do jogo de 3º e 4º lugares, e já um cartão vermelho o tinha impedido de marcar presença no último jogo da fase de grupos. Estas duas ocorrências tê-lo-ão deixado às portas da eternidade.
É de realçar, no entanto, a sua regularidade concretizadora (5 golos em 2002, 5 golos em 2006, 4 golos em 2010), bem como a forma tranquila com que lidou com as estatísticas, não se eximindo de oferecer golos a colegas de equipa sempre que foi caso disso.
L de LEO MESSI
Não se pode dizer que tenha jogado mal. Até se esforçou, correu, tentou resolver, e a dada altura (talvez pela 2ª jornada da fase de grupos) deixou no ar a esperança de poder tomar o Mundial como seu.
Foi infeliz nalgumas ocasiões de golo que teve, e que, pelos mais diversos motivos, acabaram por não se consumar. Acabou penalizado por uma selecção onde cada estrela tocava o que sabia (e nalguns casos era muito), e incapaz de fazer frente à força colectiva de um onze talentoso e organizado como o da Alemanha.
Por culpa sua ou indicação técnica, a verdade é que exagerou sempre nas acções individuais, parecendo (como, diga-se, quase todos os jogadores argentinos) querer, a cada lance, imitar o 2º golo de Maradona à Inglaterra em 1986.
Saiu por baixo, vergado ao peso de uma eliminação precoce, e sem qualquer golo marcado. E vão dois mundiais…
M de MULLER
Já falei muito dele, mas nunca é demais dizer que foi o jogador que mais me seduziu nesta competição, e ainda tenho dúvidas se, com ele, a Alemanha não teria ganho à Espanha, e não teria levantado a taça.
Ou me engano muito ou trata-se mesmo de um fenómeno. Na realidade só tem 20 anos (!), e apresenta uma estampa atlética, uma capacidade técnica, uma maturidade competitiva, e uma eficácia goleadora que anunciam estarmos perante um craque absoluto, talhado para ser, um dia, o melhor do mundo.
Os próximos anos vão dizer muito sobre a sua evolução. Há factores, designadamente psicológicos, que só quem está por perto saberá entender, e/ou condicionar. Mas talento não lhe falta, e o Bayern de Munique, por muito bem que pague, já começa a ser pequeno para ele.
N de NEUER
Falou-se pouco dele, mas creio ter sido um dos melhores, senão o melhor, guarda-redes do torneio.
Já havia dado nas vistas, em Portugal, num FC Porto-Schalke04, de má memória para os dragões. No Mundial confirmou a qualidade que fez dele titular indiscutível da selecção alemã. Mostrou-se sempre seguro, defendeu o possível, e por vezes o impossível, mas acabou traído por um cabeceamento fulminante de Puyol.
O título faz pender a balança da notoriedade para Iker Casillas, mas Manuel Neuer, ainda bastante jovem, sai deste Mundial com o seu nome em alta. Também o Schalke parece pequeno para tanta qualidade.
O de ORGANIZAÇÃO
Antes do Mundial ter início temia-se o pior, mas, um mês passado, há que tirar o chapéu á organização sul-africana.
É claro que só estando lá seria possível analisar criteriosamente tudo o que se passou a este nível. Mas os ecos que chegam são os de uma organização, senão perfeita, pelo menos semelhante ao que de melhor tem sido feito na Europa.
Como não há regra sem excepção, diga-se que os relvados ficaram aquém daquilo que seria de esperar numa competição desta importância.
P de PORTUGAL
Já muito foi dito a respeito da participação portuguesa no Mundial. A nossa selecção chegou até onde podia, cumpriu o seu destino, e apenas caiu aos pés do campeão. Independentemente da análise que se faça acerca do desempenho de Queiroz, a verdade é que dificilmente qualquer outro seleccionador teria ganho a esta Espanha.
Diz-se que poderíamos ter perdido de outra forma. Como? Por 4-2 em vez de 1-0? Admito que sim, mas não é por aí que defendo uma mudança.
Sou crítico de Queiroz, mas não me parece que seja uma eliminação nos oitavos-de-final o melhor argumento para a sua substituição. Se nos lembrarmos da fase de apuramento, a conversa talvez mude de figura. Se atendermos aos casos de Deco, Nani ou Ronaldo percebemos, enfim, porque motivo este seleccionador não serve para uma equipa com ambições.
Deste Mundial fica a goleada à Coreia, e o medo de perder em todos os outros jogos.
Q de QUEIROZ
No ponto anterior ficou razoavelmente explicada a minha posição sobre a selecção nacional, e, consequentemente, sobre Carlos Queiroz. Resumindo, creio que Portugal, com ou sem este seleccionador chegaria mais ou menos até onde chegou, mas num contexto diferente (nomeadamente quanto ao alinhamento dos jogos e dos adversários) poderia ter sofrido, em resultados, os efeitos de um líder incoerente, instável, sem carisma, e sem capacidade para gerir todas as componentes de uma presença nacional num Campeonato do Mundo.
A forma como decorreu a qualificação prova as insuficiências de Queiroz, quer ao nível da leitura táctica da equipa e dos jogos, quer em termos de disciplina e comunicação. Um seleccionador não pode ser um simples organizador. Pelo contrário, tem de saber construir uma equipa, fazer substituições, aglutinar jogadores e adeptos. Queiroz não o fez, nem o fará. Uma questão de perfil.
R de ROBBEN
Começou o Mundial lesionado, mas ainda foi a tempo de mostrar todos os argumentos que fazem dele um dos melhores jogadores do mundo na actualidade.
Na fase decisiva da prova, e mais do que Sneijder, foi ele a grande esperança da Holanda. Acabou por falhar, diante de Casillas, a grande hipótese que teve de entrar para a história das finais. Fica na entanto a memória de grandes prestações, de grandes momentos individuais, de arrancadas, dribles e, também, dois golos, mas sobretudo de alguém com quem todos os adversários tiveram grandes dificuldades em lidar.
S de SURPRESAS
Embora a final do Mundial tenha sido inédita, nem Espanha, nem mesmo Holanda, surpreenderam o mundo do futebol. Já o mesmo não se pode dizer da eliminação da Itália aos pés da Eslováquia, da derrota inicial da Espanha diante da Suíça, do desaire Francês, da vitória circunstancial da Sérvia frente à Alemanha, ou do empate imposto pelos Estados Unidos à Inglaterra.
Na verdade, todas as grandes surpresas ocorreram na primeira fase, pois a partir dos oitavos-de-final a lei dos mais fortes foi trilhando o seu caminho. Talvez não se esperasse a vitória da Holanda perante o Brasil, mas, de resto, todos os resultados dos jogos eliminatórios foram, digamos, normais.
No fim, venceu um dos grandes favoritos: a campeã europeia Espanha.
Assim, qualquer polvo consegue acertar.
T de TELEVISÃO
O Mundial televisivo trouxe uma coisa boa, e uma má. Começando pelo negativo, a qualidade da imagem fornecida pelas operadoras ficou aquém do desejável, sobretudo para quem não dispunha de Alta Definição. É fácil fomentar e difundir esta nova opção quando se diminui a qualidade da definição normal, mas parece ter sido isso mesmo que aconteceu.
O melhor foi o programa diário da RTPN, conduzido por Carlos Daniel, que terá sido o mais interessante e cuidado programa desportivo de sempre na televisão portuguesa. Bons convidados, excelentes analistas, curiosidades, memórias, debate, tudo na dose certa, e com a elegância e o rigor que o fantástico moderador foi impondo. Apenas um reparo: a defesa de Carlos Queiroz, de tão efusiva, cheirou, algumas vezes, a amizade pessoal.
De resto, realce ainda para os comentários de Paulo Bento na Sport Tv, que deram brilho a alguns (infelizmente poucos) jogos.
U de URUGUAI
É um histórico do futebol, mas as prestações das últimas décadas nada deixaram na memória dos adeptos.
Comandados por Diego Forlán, mas contando também com Luís Suarez, Cavani, Diego Perez, Lugano e Maxi Pereira em plano de destaque, chegaram às meias-finais, e encantaram pelo futebol arejado que souberam, em quase todas as situações, mostrar ao mundo.
Não creio que o quarto lugar uruguaio seja muito mais do que consequência de um conjunto de circunstâncias (afinal de contas não eliminaram nenhuma selecção poderosa). Mas a verdade é que a história não se compadece com esse tipo de conclusões. Chegaram às meias-finais, e foram uma das quatro melhores selecções do mundo.
V de VILLA
Não confirmou nas últimas partidas as promessas que tinha feito na fase inicial, e que o apontavam como um dos grandes jogadores deste Mundial.
Ainda assim, sai como campeão do mundo, e um dos melhores marcadores da prova, o que é notável, sobretudo para quem já havia alcançado semelhante façanha no Euro 2008.
Foi decisivo nos oitavos-de-final, e nos quartos-de-final, quando com golos solitários seus, a Espanha ultrapassou Portugal e o Paraguai.
W de WESLEY SNEIJDER
Foi, a par de Robben, um dos grandes jogadores da selecção holandesa. Com a ajuda da FIFA, foi também um dos melhores goleadores da prova, o que para um centrocampista não deixa de ser notável.
Sneijder, que tivera uma época repleta de êxito e de títulos, cedo assumiu o controlo da equipa, e uma larga percentagem do sucesso da Laranja deveu-se ao seu inesgotável talento. Da sua prestação fica, como ponto alto, a segunda parte diante do Brasil, onde marcou um golo…e meio, e foi absolutamente decisivo para a vitória da sua equipa.
Figura claramente no top 5 dos melhores jogadores do campeonato.
X de XAVI
Se Villa foi intermitente, Xavi foi regular, tornando-se, quanto a mim, a par de Muller, o melhor jogador deste campeonato.
Se fizermos o exercício de retirar o pequeno médio da equipa espanhola, veremos o quanto tal ausência se reflecte na respectiva manobra colectiva, pois todo aquele jogo rendilhado, de passe curto e busca do momento de ruptura, passa por ele.
Não é o estilo de jogador que mais me fascina, mas nem por isso deixo de reconhecer a qualidade absolutamente superlativa que transmite, quer à selecção, quer ao Barcelona.
Y de YEBDA
Hassan Yebda foi um dos muitos jogadores do Benfica presentes no Mundial. Tal como o compatriota Halliche, o médio cedido ao Portsmouth passou despercebido, mas Maxi Pereira e Fábio Coentrão brilharam a grande altura, Ramires mostrou atributos, e deixou a sensação de que, jogando mais, poderia ter sido mais decisivo, enquanto que Luisão não saiu do banco de suplentes. Cardozo andou entre o céu e o inferno fruto dos penáltis, convertidos e desperdiçados, mas em jogo jogado dificilmente poderia ter feito mais numa selecção bastante defensiva – sendo que ele é tudo menos um jogador de contra-ataque. Esperava-se mais de Di Maria, entretanto transferido para o Real Madrid, mas o modelo de jogo argentino também não o privilegiou, proporcionando pouco jogo pelos flancos, e obrigando-o a cuidados defensivos que no Benfica não tinha.
Maxi, Fábio e Ramires saíram por cima, os restantes desaproveitaram o Mundial para se valorizar.
Z de ZANGAS
Mesmo não tendo termos de comparação com o que se passou na França, os episódios polémicos em torno da selecção portuguesa multiplicaram-se, desde o início do estágio até ao último jogo. Primeiro Nani, depois Deco, mais tarde Cristiano Ronaldo, deixaram para o exterior a ideia de uma falta de liderança gritante, de alguma desorganização, e remeteram a nossa memória para um passado que, com Luiz Felipe Scolari, parecia ter sido definitivamente abandonado.
Os próximos tempos irão fazer luz sobre muito do que realmente aconteceu. Uma coisa é certa: muitos dos jogadores não gostam de Queiroz, o que não pode deixar de ser visto com alguma apreensão, quando estamos à beira de iniciar a fase de qualificação para o Europeu de 2012.