GOLPE DE ESTÁDIO (2)

Aproximavam-se novas eleições e Pinto da Costa ia ganhando terreno. O treinador
austríaco(Hermann Stessl) que fora convidado para tomar conta do seu clube sob a gerência
de Américo de Sá não estava a dar conta do recado. Os sócios habituaram-se aos títulos e
queriam mais, mas a bola teimava em não entrar na baliza. Enquanto isso, PC esfregava
as mãos e preparava a sua candidatura. Os apoios eram cada vez mais fortes, e uma nova
estratégia foi colocada em movimento. Ele tinha de apostar forte na vitória eleitoral e,
aproveitando os maus resultados da equipa, organizou por todas as freguesias da cidade
sessões de esclarecimento com uma programação meticulosa. Iniciava-se, assim, a
«Operação Ácido Sulfúrico», cuja alternativa, em caso de falhanço, tinha o nome de código
de «Operação Cicuta». Na organização dos seus comícios, PC deu sempre preferência aos
bairros pobres e à parte velha da cidade. Era aí que estava o povo e a força do clube. PC
organizou o seu staff comandando um grupo de associados aos quais impôs serem eles a
obrigarem-no a partir para uma candidatura. Desenvolveu-se então o célebre grupo dos 500,
do qual saíram elementos devidamente comandados que se distribuíam pelos cantos das
salas onde eram organizadas as tais sessões de esclarecimento. A missão deles era empolgar
as sessões e fazer perguntas previamente combinadas com Pinto da Costa.
Numa dessas noites, na Associação Recreativa de Miragaia, foi assim:
- Presidente, qual é o principal inimigo do clube?
- Antes de mais, repito, ainda não presidente...
Gargalhada geral, e PC tomou as rédeas à sala, não evitando porém a queda de estuque
sobre o novo casaco,
- O principal inimigo está dentro do clube, o servilismo a Lisboa. Estamos fartos de ser
espoliados. Chegou a hora de dizer «basta». Com uma cajadada, PC matava dois coelhos.
Para além do mais, o discurso saía-lhe cada vez mais com mais facilidade e tudo era
acompanhado, comentado e analisado pelo imprensa desportiva e jornais diários. A cidade e
Américo de Sá viviam sob o fogo cerrado de Pinto da Costa. O presidente já não podia sair á
rua sozinho, e as assembleias gerais eram cada vez mais escaldantes, levando mesmo o
doutor Sá ao desespero e a chorar em público. Foi nessa altura que Reinaldo Teles teve o seu
papel mais importante. Organizou um grupo de guarda-costas recrutados nos quadros da
secção de boxe do clube que, com alguns rufias nocturnos á mistura, organizou alguns
ataques a jornalistas que de uma forma ou outra denunciavam a protecção a Pinto da Costa.
Evidenciando alguma inteligência e revelando o seu carácter de hipócrita, Reinaldo Teles
verificou que a derrota de Américo de Sá era mais que evidente, e assim se foi distanciando
da protecção que prometera ao seu presidente. Algumas figuras notáveis da cidade aliaramse
a Pinto da Costa e, no momento das eleições, a derrota foi fatal para Américo de Sá.
Pinto da Costa tinha conseguido realizar o seu sonho, levando como trunfo o seu grande
amigo e companheiro de luta Pedroto, o técnico que tinha conseguido o título para o seu
clube.
Fernando Gomes, o ponta de lança mais cobiçado, tinha sido emprestado a um clube
espanhol e serviu de bandeira para ajudar á vitória. Também ele regressou. Mas António
Oliveira, o ex-capitão que nunca se deixou dominar pelos desígnios de Américo de Sá,
recusando-se terminantemente a regressar ao clube, passou por momentos bem difíceis.
Não de ordem económica, mas psicológica. Tinham-lhe sido vedadas todas as entradas
numa equipa que estivesse ao seu nível. Foi marginalizado e refugiou-se num grupo de
amigos, não recebendo a ajuda de ninguém, mesmo de Pinto da Costa, pelo qual deu a cara.
António Oliveira era uma vedeta do nosso futebol, uma estrela, um génio, e não podias ser
esquecido. Foram meses de desespero. Foi sair da ribalta para o anonimato, mas nada
vergou a personalidade deste jogador, Ficou sozinho, mas manteve a classe que sempre foi a
sua imagem de marca.
Sem clube e sem a mínima vontade de treinar, refugiou-se no ambiente nocturno tão ao
seu gosto. Copos e mulheres eram a alma que mantinha de pé a forte estrutura psíquica do
«Caddilaque» - apelido que carinhosamente lhe fora colocado pelos amigos mais chegados.
Eram bacanais atrás de bacanais devidamente organizados no seu apartamento. Por aquele
espaço passaram os melhores ballets de inglesas que actuavam nos casinos nortenhos, as
melhores strip-teasers, as habituais frequentadoras das discotecas e também travestis que
satisfaziam as delícias de algumas convidadas lésbicas e bissexuais. Sexo em grupo era o
prato forte.
Após alguns meses de paragem, António Oliveira resolveu voltar à actividade, mas antes,
na companhia de alguns amigos foi passar uns dias a Bordéus, onde esteve a ajudar na
vindima. E só no seu regresso, com um visual totalmente novo, de cabelo encaracolado e
sem bigode, aceitou um convite do clube da sua terra natal(Penafiel). Tinha uma equipa
modesta, mas como era treinador-jogador, abria uma actividade totalmente nova no nosso
futebol, revolucionando o sistema e isso teria sempre um enorme impacto mediático. Era a
demonstração cabal de que António era, de facto um homem inteligente, que sabia estar e
conhecia o terreno que pisava. A sua estrela voltava a brilhar e de tal forma que logo foi
cobiçado por um grande clube da capital.
António não sabia viver sem a companhia do seu irmão, o Joaquim Oliveira. Foram
sempre muito chegados. O Joaquim Oliveira tinha uma discoteca de alternos e rivalizava com
Reinaldo Teles. O seu mundo eram as putas, tal como Reinaldo, de quem diferia muito em
termos de personalidade e carácter. Reinaldo era um valentão. Joaquim Oliveira era pacífico e
não era chulo, muito pelo contrário: chamavam-lhe andor porque gostava de se rodear de
putas e pagar tudo. Todas as noites promovia ceias com dançarinas e também com algumas
miúdas ligadas aos alternos. Levava sempre consigo amigos para se querer impor e provar
que também era alguém.
O negócio não dava para tudo, e vieram as dificuldades. As dívidas aumentaram e, com
a ida do seu irmão para um clube da capital(Sporting) tudo piorava. Vieram as penhoras. E
logo que António Oliveira se impôs no seu novo clube, tratou de arranjar um negócio para o
seu irmão, uma queijaria nas imediações do estádio, onde era normal alguns jornalistas
abastecerem-se sem pagar ou apenas por um preço simbólico (mantinha-se assim a tradição
de «pato»). O irmão, pelo seu lado tinha-se assumido novamente como jogador treinador e,
com a ajuda do seu novo presidente, resolveu abrir uma agência de contratações de
jogadores. A sua missão era contratar jogadores não só para o clube do seu primo, mas
também para os outros. Foi criada a Olivedesportos.
Mas Joaquim Oliveira não estava talhado para esta missão cuja actividade em Portugal
ainda era muito pouco reconhecida. A fuga acabou por surgir através de um sistema de
publicidade montado nos estádios, explorando os painéis. António e o seu irmão Joaquim
continuavam de boas relações com Pinto da Costa, mas este quando, quando foi eleito
presidente, resolveu encetar uma pequena guerra com João Rocha, ex-imigrante nos
«States» e presidente do clube onde António estava a jogar e a treinar(Sporting). As relações
entre ambos esfriaram até á altura em que Pinto da Costa resolveu tentar trazer novamente o
António para o seu clube, mas o jogador manteve sempre um comportamento de grande
responsabilidade. Para além de alguns defeitos, tinha uma grande virtude: nunca esquecia os
seus amigos. João Rocha fora o homem que lhe dera uma nova oportunidade para voltar ao
top do futebol português, que o ajudou a montar a agência de publicidade para o seu irmão
num momento difícil para ambos, e António não podia de forma alguma esquecer tudo isso.
Recusou o convite, mas Pinto da Costa não perdoou.
A guerra estabeleceu-se entre ambos até ao ódio e continuou até muito depois de
António ter abandonado o clube da capital e optado pela actividade de treinador.
António e o seu irmão nem queriam ouvir falar em Pinto da Costa. «Dá comichão só de
pensar nele», dizia um deles, o mais novo, mas claramente o mais esperto.
A guerra entre os dois clubes e os respectivos presidentes foi aumentando. Pinto da
Costa tinha feito com que o seu clube voltasse às vitórias e aos títulos e, como sempre foi
amante de uma guerrinha, mantinha a sua bem acesa com João Rocha. A estratégia era de
Pedroto:
- No Norte só há um clube com força e na capital há dois, por isso só há uma forma de
os poder dividir e lutarmos contra eles. Temos de estar sempre bem com um e abrir guerra
ao outro.Pinto da Costa absorveu a filosofia do «mestre» e acrescentou:
- Tens toda a razão e até podemos alternar essa guerra, abrindo fogo sempre sobre o
clube que estiver em melhores condições para poder lutar pelo título.
Frustrada a tentativa de levar para o seu clube o António e em resposta a João Rocha
por este ter ripostado com a contratação de dois jogadores da sua equipa, Pinto da Costa
num acção relâmpago contratou um miúdo que na altura estava a dar nas vistas no clube do
seu inimigo João Rocha. Nessa altura, estava longe de imaginar que seria aquele jogador que
iria dar início ao seu grande golpe de estádio. O miúdo morava no Montijo e era anunciado
como um craque de eleição. Mas o clube de Rocha abriu a guarda e, numa noite de lua cheia,
um funcionário do clube rival do Norte acelerou no seu Renault até ao Montijo, não se
esqueceu de comprar no caminho um pão-de-ló em Rio Maior para oferecer à família do
rapaz e trouxe-o para a «Invicta», onde o craque se manteve como que sequestrado durante
alguns dias. «É o Eusébio branco», dizia-se, se calhar com alguma legitimidade. O craque era
conhecido pelo nome de guerra de Futre.
Entretanto, Reinaldo Teles, depois de ter abandonado Américo de Sá, mesmo antes de
este ter perdido as eleições, insinuou-se perante PC e, como este ainda não se tinha
esquecido da dimensão das dificuldades que lhe foram criadas pelo rapazinho que era
treinador de boxe do seu clube, achou por bem abrir-lhe a porta e oferecer-lhe o lugar de
chefe se segurança. Reinaldo Teles, consta, mandou abrir duas garrafas de champanhe
«Moelas & Cabron», marca que o Fuinha, um dos seus empregados, não conseguiu encontrar
no mercado, mas no fim ninguém reparava que era apenas «Raposeira» o néctar que
entrondeava.
Pedroto nunca esteve muito de acordo com essa acção. Era um indivíduo seguro,
competente e com grande personalidade e não gostava muito, nem sequer apoiava, acções
de violência ou de alguma forma marginais. Lutava por aquilo em que acreditava e tecia
estratégias para a sua luta, contestando, vociferando e acusando de uma forma directa.
Tornou-se polémico, irreverente e estabeleceu uma acção de combate virada
essencialmente para a arbitragem, cujo controlo partia da capital.
Por isso, contratou para a sua equipa um ex-jornalista(Luis César) com a mania das
estatísticas, e a sua primeira missão foi a de elaborar um ficheiro de todos os árbitros de 1ª
categoria, contendo o maior número de informações. Nome, morada, actividade extra,
número de filhos e datas de nascimento de toda a gente do agregado familiar.
Como era contra a violência, e Pinto da Costa não se cansava de gabar os dotes de
Reinaldo Teles, Pedroto pediu ao presidente para lhe entregar a missão de ir a casa dos
árbitros no dia do aniversário destes ou de um dos seus familiares para entregar uma
pequena lembrança, independentemente do facto de esse árbitro ter ou não ter apitado
qualquer jogo do clube. Era o início de uma operação de charme que resultaria em pleno:
- Reinaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro Carlos
Fortes, que faz anos- pediu, certo dia, PC.
Reinaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio de
ouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou, não
encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa, disse-lhe
que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reinaldo não perdeu tempo:
- Sabe dizer-me onde mora a sogra?
- Mora em Lisboa - respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada.
Reinaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos Fortes
para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro.
Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade.
Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo ou
favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol.
Pinto da Costa e Pedroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão.
Reinaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse, do
bom amigo.
Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reinaldo Teles na
intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem Reinaldo
para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram amizades e
compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no seu bar de
alternos, com mulheres e copos disponíveis.
Luísa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito batida
ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas pelos
árbitros que visitavam Reinaldo no seu estabelecimento.
Pedroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença
tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e
estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto
António.
Pinto da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por Reinaldo
Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu grande amigo
Pedroto. Reinaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo nem apoiava algumas
das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não seria a personagem ideal
para representar em diversas acções a grandiosidade do projecto que ele queria atingir.
Reinaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente
para uns copos no seu território. PC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres. Tinha
uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher, mas um
dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigos Reinaldo Teles.
A mulher tinha sido bem escolhida por Luísa e educada por Reinaldo. PC sentiu-se no céu,
quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência como aquela. Deu consigo a
pensar:
- Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta?
Reinaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através do
amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos
sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Pinto da Costa andava eufórico.
Depois de Pedroto ter morrido, Reinaldo Teles passou a ser o expoente máximo de Pinto
da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com a situação.
Um dos grandes amigos de PC chegou mesmo a comentar:
- O PC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40
anos. Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou
por completo Pinto da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na Terra.
Reinaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre PC, levando-o mesmo a dizer que
só confiava em Reinaldo e no seu gato. Luísa geria o «Play-Girl», o novo bar de Reinaldo,
com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-puta, ou mais propriamente
de uma puta reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre ela e PC tinha
aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo com as suas
melhores raparigas.
A ligação de Reinaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos
gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros
evoluía cada vez mais. Os dirigente que não aceitavam Reinaldo iam sendo afastados.
Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Pinto da Costa. O sexo
tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o fazer
parar e encarar a situação de uma forma mais digna.
A assiduidade de Pinto da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os hábitos
adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher qual queria
comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a experimentar as
novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer a PC.
Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reinaldo Teles.
O clube de Pinto da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como
europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em
tamanha aventura. PC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pedroto, evitando qualquer
comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e de mais
ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que PC tomou consciência do
poder que tinha e que Reinaldo Teles começou a alimentar a sua grande esperança de um
dia vir a ser alguém no seu clube.
Reinaldo tinha Pinto da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste
último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera. PC
sentia-se um Dom-Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que sempre foi
habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as traições aos seus
melhores amigos.
Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminhos para os que iam chegando
e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder governar sozinho
e principalmente sem ter de dar muitas explicações.
Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube Pinto da Costa já tinha
esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora
continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares com
que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição.
O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram
oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano muito
ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luciano D´ Onofrio já tinha
jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país, mais propriamente a sul,
aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas redes ligadas ao tráfico de
droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o negócio!
Luciano D´ Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado mais
parecendo um bico, apareceu pela mão de Reinaldo Teles e recebeu a benção de PC.
D´ Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em
diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma
pessoa de grande interesse para o clube. Pinto da Costa foi quem mais lucrou com a sua
vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e D´ Onofrio viu ali
um grande negócio para si e para PC. Em todos os jogadores que fossem negociados para o
clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua percentagem, desde que mais
ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das primeiras comissões Pinto da Costa
via-se rodeado por dois elementos ligados ao mundo do crime. Não era segredo para
ninguém que Luciano D´ Onofrio tinha ligações com a Mafia italiana e que Reinaldo mais
alguns familiares viveram sempre de habilidades e negócios marginais, negócios centralizados
na prostituição e na receptação de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam
inscritos nos fundos comunitários», costumava dizer Reinaldo, que um dia ficou deliciado
quando em Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento,
Reinaldo viu a rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando
situações do tipo «leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves
prestações». Mas era sonhar muito alto.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade
que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha
de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com
Alberto Magalhães, reputadíssimo empresário.
PC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não
dava tréguas:
- Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste!
O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados
desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reinaldo Teles ia subindo na hierarquia do
clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma
ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande
contestação, pois nessa altura já Reinaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado.
Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios
marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a
dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um
desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à
aceitação dos factos.
Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição.
Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições
não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que o
clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de lançar
alguns insultos ao presidente e seus pares.
Filhos da puta, chulos, vão trabalhar!
Pinto da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reinaldo
Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas, deu
de imediato uma ordem em surdina:
- Fodam-me esse gajo!
Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do
estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não sabiam
muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio.
O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que
ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer.
O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade com
que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade que
não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre esta
onde de poder e segurança que Pinto da Costa construiu o seu império e imperializou a sua
própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a vantagem de não poder ser
apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que justificassem qualquer
tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda mais seguro disso a partir do
dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em terras brasileiras que dava pelo nome
de Pai João (Delane Vieira), um bruxo que não se limitava aos orixás, fornecendo também a
equipa de futebol com frasquinhos de vidro que continham um guaraná em pó muito
especial, esmagado por uma tribo de índios do interior do Brasil. O speed, normalmente
recomendado para os gulosos do sexo, ajudava os craques e, aliado à normal injecção de
«vitaminas», tornava-os super-homens dentro do campo. E era certo que a aparelhagem do
anti-doping estava completamente desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até
este sector, a seu tempo, foi devidamente controlado.
Entretanto, Reinaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as
melhores amantes para Pinto da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder, mas
ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reinaldo, tinha algumas limitações, mas
nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pinto, a quem continuava a extorquir o dinheiro que
queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa de que um dia este viria a ser
vice do futebol profissional.
- É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares
mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu.
Com estas palavras de Pinto da Costa, o Ilídio lá ia passando uns cheques e cobrindo
algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao presidente.
O grande negócio acabaria por surgir.
Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Futre, e o seu
presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube de Pinto
da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guarda-costas, estava
sempre bem informado de tudo quanto se passava na cidade e essencialmente dos assuntos
que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a boa nova de que o presidente do
clube espanhol estava em Portugal para falar com Futre, foi de imediato colocado um plano
de ataque em marcha, cujo nome de código era «A Caça à Peseta».
Apesar de Gil y Gil estar, no seu país, bem à altura de Pinto da Costa, quando veio a
Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e combinou
encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Futre para Espanha. O bar
era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um pouco na penumbra,
estava sentado Gil y Gil à espera do tal empresário quando irromperam pela sala dentro
quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o rodearam e apertaram contra a
parede, lançando o aviso:
- Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a
certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reinaldo, decalcando o
final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz.
Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gil y Gil quase se mijou
pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos melhores
clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as pernas a
tremer como varinhas verdes.
Gil y Gil não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura,
acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gil até se esqueceu de comprar um queijo da
serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmen, a sua amante de Madrid/Sul.
Já no seu território, contactou directamente com Pinto da Costa, e este, sem muitas
palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luciano D´Onofrio.
- O seu braço direito? - quis saber Gil.
- Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto - informou PC.
Gil y Gil ficou tão impressionado com a acção de Pinto da Costa que resolveu oferecer um
extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid.
- Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor - aceitou PC de pronto.
D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barros)de PC num clube italiano
(Juventus) e a soma da venda de Futre e desse jogador vendido para Itália foi de 1 milhão e
200 mil contos, uma verba que PC nunca teria imaginado poder passar pelas suas mãos. De
imediato, PC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular, prometendo aos seus
parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente para a compra de jogadores
para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro desapareceu como o fumo. Para amostra
não ficou nem sequer um mísero escudo.
As ligações de Pinto da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas, e
isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no patrão da
sua empresa, Alfredo Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube. Ninguém como Alfredo
Costa conhecia a vida de Pinto da Costa e, por isso, sabia muito bem que este andava a
vivera além das suas reais possibilidades, entrando em outros negócios e noutras sociedades,
sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro. Desconfiado desta situação, como
presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfredo Costa um dia interpelou Pinto da Costa sobre
o milhão e duzentos mil contos da venda dos dois jogadores, mas como resposta obteve
apenas:
- Não tenho de dar contas a ninguém.
Alfredo Costa estava de pé frente à secretária de Pinto da Costa e quase não acreditou
no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo
desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de presidente do
Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Pinto da Costa a abandonar a sua
empresa.
Alfredo Costa não teve contemplações:
- Recuso-se a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter
indivíduos do seu quilate.
Pinto da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação. Uma
grande parte daquele milhão tinha sido investido em várias empresas com ligações a
familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por falir. O
dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do seu
presidente.
Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam saber
de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Pinto da Costa e Reinaldo Teles também
sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e essas vitórias
nunca haveriam de faltar.
Para deixar a empresa onde trabalhava, Pinto da Costa ainda teve que pagar sete mil
contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido sem
deixar rastos e tinha deixado de...rastos PC, a contas com a justiça, por cheques sem
cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu o
presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área que se
movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente explorada. Todos
os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse uma gestão capaz de
alimentar o seu presidente.
Reinaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol foi
afastado, e Reinaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago.
A vaidade pessoal de Reinaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez mais
chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também. Pinto da
Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a estrela do
espectáculo. PC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa.
Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as raparigas
da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu.
Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma
como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização
refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luciano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se
apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram tratados e
em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara combinado, e
para anular essas fugas, Pinto da Costa resolveu montar uma sociedade secreta na Suíça
para que existisse um maior secretismo. D´Onofrio era uma figura envolta em algum
mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia, o que acontecia
normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de prestidigitador livramno
de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luciano não tivesse conseguido evitar
alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta ligação a um caso futebolístico
que abalou o futebol francês(Marselha).
PC confiava cegamente no seu amigo Luciano.
- D´Onofrio, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e
venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas podemos
estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo absoluto.
Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o Berlusconi.
Pinto da Costa não perdeu tempo.
Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já.
Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de compra
e venda de jogadores.
O seu primeiro negócio foi com um clube francês(Matra Racing de Paris) cujo
treinador(Artur Jorge) já tinha passado pelo clube de PC.
- Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que
tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Plácido
para vender a um clube francês.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto.
- Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia.
- Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo.
D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no mundo
das vigarices, perguntou:
-Como vai ser feito o negócio?
-O nosso clube vende o Plácido à nosso empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo ao
clube francês por 160 mil contos.
Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube.
-Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já
perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais
adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a
Reinaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.
Logo que pôde, encontrou-se com Reinaldo Teles e convenceu-o a falar com o
presidente.
-Reinaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar
disso ao presidente.
-Reinaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir.
-Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao
presidente.
-Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá.
-Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas?
-As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol dá,
podemos trabalhar à vontade.
Reinaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de
Luciano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto.
Pinto da Costa ouviu atentamente Reinaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele
queria ficar de fora.
-Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhor a
situação.
Reinaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada
mas, passados dias, voltou a falar do assuntos.
-O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto
directamente com D´Onofrio.
De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia
começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do clube à
portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou nada, porque a
rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto, Pinto da Costa sentiu o
perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha consciência de que inimigos era
coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões de pessoas ligadas ao grupo que
actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se terminar com o negócio da cocaína
que começava a ser vendida um pouco descaradamente pelos jogadores de futebol.
Pinto da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia muitas
horas de espertina, no fim de contas.

LEMBREM-SE DISTO !

SETE FOTOS, SETE FINAIS










Berna 61, Amsterdão 62, Londres 63, Milão 65, Londres 68, Estugarda 88 e Viena 90. Sete fotos, sete finais.




GRAU ZERO

O Benfica perdeu esta noite uma boa oportunidade de entrar a vencer na Liga dos Campeões. Os dinamarqueses do F.C.Copenhaga não mostraram argumentos para se imiscuir na luta pelo apuramento e nessa medida a sensação que fica é que foi o Benfica a perder os dois pontos. Para esta ideia contribui também o facto de os nórdicos cedo terem ficado privados do seu jogador mais influente (Kronkjaer), e deixarem notar claramente essa falta em quase toda a segunda parte.
É claro que não podemos deixar de lado o momento actual do Benfica – sobretudo a forma disparatada como entrou no campeonato nacional – pois situar-se-á aí o motivo pelo qual nos últimos minutos da partida desta noite os jogadores encarnados (denunciando uma enorme crise de confiança) optaram por trocar a bola e segurar um empate que, à priori, não parece deixar motivos para grandes festejos. É certo que uma equipa é ela e as suas circunstâncias, e Fernando Santos conhecerá melhor que ninguém as actuais limitações físicas e mentais do grupo que tem ao seu dispor, bem como a capacidade que ele teria ou não para estender mais o jogo nos momentos em que o F.C.Copenhaga parecia prestes a ceder, mas o que é certo é que a equipa da Luz nunca chegou a dar esse passo em frente, deixando no ar a dúvida se teria ou não condições para o fazer.
A única melhoria efectiva que se notou do jogo do Bessa para hoje foi a nível do sector defensivo. Luisão esteve bem melhor (apesar de alguns erros de pequena monta), Alcides dá mais segurança do que Nélson, e Ricardo Rocha está claramente em melhor forma que Anderson.
Em termos ofensivos os problemas voltaram a ser os mesmos. Nuno Gomes sozinho e completamente inoperante, Simão naturalmente longe do seu melhor e um Paulo Jorge voluntarioso (como Manu no Bessa) mas pouco eficaz - salvo num lance em que poderia ter decidido o jogo - quase nunca conseguiram causar perigo à defesa contrária. O meio campo, apesar de algumas interessantes, mas intermitentes, movimentações de Nuno Assis, sentiu a falta de um Rui Costa ao seu melhor (o que também não existiu no Bessa), e continua a denotar uma enorme lacuna ao nível do trabalho de transição que era antes efectuado por Manuel Fernandes, e que nem Katsouranis nem Petit dão mostras de conseguir realizar.
O grego é um caso interessante nesta equipa, pois não só não participa praticamente no processo ofensivo, como por vezes falha passes e recepções aparentemente fáceis, mostrando-se ainda muito pouco ambientado ao futebol do Benfica - por momentos cheguei a lembrar-me de...Paulo Almeida. Nesta diferença entre o futebol de Manuel Fernandes e de Katsouranis parece estar mesmo a chave para a crise de identidade patenteada pelos encarnados neste início de época. Veremos como Fernando Santos vai resolver esta dificuldade, mais uma causada pela indefinição do sistema táctico resultante do caso Simão - Katsouranis seria muito melhor aproveitado num modelo de 4-4-2 como vértice mais recuado do losango de meio campo.
No próximo dia 26, na recepção ao Manchester United, estou em crer que um empate será, então sim, um bom resultado, mas o que avulta desta jornada parece ser que, como a lógica dizia à partida, os confrontos entre Benfica e Celtic irão decidir em larga medida as contas do apuramento.
Individualmente atribuiria as seguintes pontuações (de 0 a 5) : Quim 3, Alcides 3, Luisão 3, Ricardo Rocha 3, Léo 3, Petit 3, Katsouranis 2, Nuno Assis 3, Paulo Jorge 3, Nuno Gomes 1, Simão 2.
Algumas das pontuações devem-se mais ao esforço empreendido do que propriamente à qualidade de jogo, que foi no geral pobre.

VEDETA DO JOGO

LUISÃO: Apesar de longe do seu melhor, Luisão foi o elemento em maior destaque a defender o zero com que o Benfica saiu de Copenhaga

COMPROMETEDOR

Ainda não foi desta que o CSKA Moscovo saiu derrotado de solo luso.
O empate no Dragão pode vir a ser algo comprometedor para o F.C.Porto, uma vez que os russos parecem ser os seus principais adversários na corrida por um lugar ao lado do superfavorito Arsenal, ideia que saiu reforçada dos resultados de hoje.
A sobreposição dos horários impediu-me de ver o jogo, pelo que nada mais poderei adiantar.

VENHAM MAIS DUAS VITÓRIAS !

Depois da assente a poeira sobre a épica vitória do Sporting diante do Inter, é agora a vez de Benfica e F.C.Porto entrarem em campo para as suas estreias na Liga Milionária.
Os portistas recebem o difícil C.S.K.A.de Moscovo, equipa que nunca perdeu em Portugal (0-0 no Dragão, 1-1- na Luz e 3-1 em Alvalade), e que conta com executantes de elevadíssima craveira como são os casos dos brasileiros Vagner Love, Jô e Daniel Carvalho, para além de vários jogadores da selecção russa. Todavia, apesar da qualidade do adversário, um F.C.Porto ao que parece já minimamente familiarizado com as ideias de Jesualdo Ferreira e jogando em sua casa, não pode deixar de ser considerado favorito.
Trata-se de um jogo chave para os dragões, quer pelo facto de ser o primeiro – quase sempre marcante em competições como esta -, quer por ter pela frente aquele que será eventualmente o adversário mais directo dos portistas, levando em linha de conta que o Arsenal não deverá deixar escapar um lugar nos oitavos-de-final e o Hamburgo será a equipa menos cotada do grupo. Uma vitória em casa é fundamental para o F.C.Porto abrir de forma positiva a sua participação na Champions e posicionar-se desde já como favorito ao apuramento. O Benfica, por seu turno, tem na Dinamarca a oportunidade de se reconciliar com os bons resultados e com os seus adeptos, depois de uma entrada em falso no campeonato português. Ao defrontar a equipa teoricamente mais acessível do grupo – pelo menos a avaliar pelos rankings – o Benfica deverá procurar uma vitória, que poderá ser um importante passo rumo ao apuramento. Se não conseguir mais que o empate, não se poderá dizer que tenha comprometido as suas aspirações, mas uma derrota pode complicar muito as contas e sobretudo representar um dramático golpe nos índices de confiança de um grupo que ainda não parece ter sido capaz de superar os vários contratempos que o têm afligido desde que regressou ao trabalho no início de Julho.
A equipa dinamarquesa, sendo efectivamente a menos cotada do grupo e quiçá de toda a Champions League, conta contudo com jogadores de bom nível – internacionais suecos como Linderoth, Bergdolmo ou Allback, o ganês Pimpong e sobretudo o ex Chelsea Gronkjaer - e apresenta, ao bom estilo nórdico, uma grande compleição atlética, estando longe de constituir um adversário dócil. É certamente muitíssimo superior ao Áustria de Viena que o Benfica afastou tranquilamente na pré-eliminatória.
O que espera o Benfica não são portanto facilidades, mas tendo em conta a valia técnica e a experiência dos encarnados, há que abordar esta jornada com algum optimismo, sabendo-se que para alcançar um resultado positivo será necessário muito mais suor (e sorte) que aquele que foi dispendido frente ao Boavista.
A equipa inicial provável que tem sido aventada pela comunicação social, vai de encontro àquilo que seria de esperar depois da hecatombe de sábado passado. Saem Nelson, Anderson, Rui Costa (por lesão), Manu e Miguelito, entrando Alcides, Ricardo Rocha, Nuno Assis, Paulo Jorge e Simão, cuja estreia é aguardada com grande expectativa, depois de toda a novela em torno da sua fracassada transferência. Mais uma vez - no meu ponto de vista tem sido assim - Fernando Santos faz aquilo que manda a razão.
Vamos então ver até que ponto o episódio do Bessa foi passageiro, ou se o problema da equipa da Luz tem maior profundidade.

LEÕES À SOLTA

Com uma soberba exibição, carregada de classe, frescura física, organização e força mental, o Sporting vulgarizou uma das mais fortes equipas do panorama futebolístico europeu actual.
Mais do que vencer o jogo, o Sporting mostrou argumentos para lutar pelo apuramento num grupo extremamente difícil, algo em que até hoje muitos não acreditariam.
Desde o início que os leões foram quem mais fez por ganhar, com rapidez e imaginação nos lances ofensivos e uma impressionante pressão defensiva à entrada do seu meio-campo que não deixou o Inter sequer pensar o seu jogo - veremos quantas equipas o conseguem fazer frente a este Sporting. Os italianos foram então adoptando uma estratégia de calculismo bem à italiana, que provavelmente nas conjecturas de Mancini poderia, no mínimo, render um empate a zero. O fantástico golo de Caneira, e pouco depois a expulsão de Vieira, foram golpes no estômago dos transalpinos, que nem a perder conseguiram criar lances de perigo para a baliza de Ricardo.
Individualmente será justo destacar as exibições de Caneira, João Moutinho e o jovem Miguel Veloso (que revelação !), mas a principal virtude do Sporting esteve na sua organização colectiva e na sua frescura física.

VÁ LÁ, ARRANJEM LÁ UNS PONTINHOS

CLUBES PORTUGUESES NA LIGA DOS CAMPEÕES

PRESENÇAS: Benfica 28, F.C.Porto 22, Sporting 14 e Boavista 3

JOGOS: Benfica 165, F.C.Porto 143, Sporting 44 e Boavista 22
TÍTULOS: Benfica 2 e F.C.Porto 2
FINAIS: Benfica 7 e F.C.Porto 2
MEIAS FINAIS: Benfica 9 e F.C.Porto 3
QUARTOS DE FINAL: Benfica 16, F.C.Porto 7 e Sporting 1
ELIMINAÇÕES À PRIMEIRA RONDA: Sporting 9, F.CPorto 8, Benfica 4 e Boavista 2

OS REIS DA EUROPA

Quando se está prestes a iniciar mais uma edição da Champions League, aqui vai o Ranking de sempre da competição:

1º REAL MADRID 948 pts
2º A.C.Milan 616
3º Bayern Munique 614
4º Juventus Turim 529
S.L.Benfica 483
6º Ajax Amsterdão 469
7º F.C.Barcelona 464
8º Manchester United 438
9º Liverpool F.C. 428
10º Inter de Milão 351

Critério: título 20 pts; final 10 pts; eliminatória passada 1 pt; presença 1 pt; vitória 3 pts; empate 1 pt.

GRELHA DE PARTIDA

Vai amanhã começar mais uma edição da Champions League. Este ano com o aliciante de, pela primeira vez na história, juntar os três grandes do nosso país.
Trata-se da maior e mais importante prova de clubes do continente europeu. Se atentarmos à qualidade das equipas, ao nível dos jogadores, ao grau de organização que a envolve, e sobretudo aos milhões que movimenta e gera, poder-se-á mesmo afirmar com segurança que estamos perante a máxima competição de clubes do mundo.
Com efeito, será necessário um exercício de alguma perspicácia para descobrir, de entre as maiores estrelas do futebol actual, aquelas que não disputem este torneio (Ribery ou Fernando Torres, e mesmo esses, mais tarde ou mais cedo, lá estarão). Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Messi, Henry, Lampard, Eto’o, Ballack, Van Nistelrooy, Rooney, Cannavaro, Pirlo, Figo, Cristiano Ronaldo, Deco, Schevchenko etc, têm, todos eles, a sua presença marcada.
Para além do futebol em si, a Liga dos Campeões tem toda uma imponente estética associada a si, que faz dos seus jogos espectáculos extraordinários, quer nas sumptuosas transmissões televisivas, quer sobretudo ao vivo, onde se percebe como a Uefa nada deixa ao acaso. O hino é lindo, os relvados especialmente cuidados, a publicidade bem alinhada, os estádios decorados, a segurança apertada.
A Liga dos Campeões, antiga Taça dos Campeões Europeus, é também, pela seu historial, uma competição mítica. Muitos benfiquistas nasceram e cresceram com a imagem de José Águas a levantar o troféu, e mais tarde também os portistas vibraram com o calcanhar de Madjer em Viena ou a epopeia de Deco, Maniche e companhia. Nessa época , com José Mourinho à frente da equipa, e dispondo de sorteios bastante amistosos – Lyon, Corunha e Mónaco a partir dos quartos-de-final – o F.C.Porto surpreendeu a Europa, quando se pensava que nestes novos tempos (pós Bosman) seria impossível uma equipa portuguesa conseguir voltar a fazê-lo.
Na última temporada, depois de alguns anos de ausência, também o Benfica-europeu voltou em força chegando aos quartos-de-final, altura em que, depois de derrubados Manchester United e Liverpool, um sorteio cruel colocou diante de si o todo poderoso Barcelona, futuro campeão. Ainda assim discutiu a eliminatória palmo a palmo até aos 88 minutos do segundo jogo, quando Eto’o tranquilizou Nou Camp e impediu o Benfica de sonhar com a sua oitava final.
Para a caminhada que agora se inicia, o contingente luso parte com expectativas diversas. Se o Sporting – tendo pela frente Bayern e Inter – já se dará provavelmente por satisfeito com o terceiro lugar e a repescagem para a Taça Uefa, F.C.Porto e Benfica têm obrigação de lutar pelo apuramento nos grupos em que estão inseridos.
Depois de uma precoce eliminação na primeira fase na época transacta, o F.C.Porto apostará muito em recuperar a imagem internacional que o título de 2004 acarretou. Ser campeão parece de todo impossível, mas uma presença entre os oito melhores já constituirá motivo de alegria para os dragões.
O Benfica procurará repetir a campanha passada, mas há que convir que não será fácil, sobretudo tendo em conta o pobre início de época dos encarnados. A fasquia deve ser colocada nos oitavos-de-final, dependendo depois do adversário que o sorteio trouxer, a possibilidade de ir mais longe. Os encarnados englobam precisamente um dos dois grupos onde será mais difícil fazer previsões, pois têm no Celtic um adversário de qualidade bastante semelhante.
Quanto a favoritismos, com toda a subjectividade que isso acarreta, teremos então nesta fase as seguintes equipas na primeira linha:
Grupo A - Barcelona e Chelsea
Grupo B - Inter e Bayern
Grupo C – Liverpool e PSV
Grupo D – Valência e Roma
Grupo E – R.Madrid e Lyon
Grupo F - Manchester e (Celtic ou Benfica)
Grupo G – Arsenal e F.C.Porto
Grupo H – Milan e (Lille, AEK ou Anderlecht)
Quanto ao triunfo final poder-se-á apontar Barcelona, Chelsea e Inter, como os mais habilitados a levantar o troféu na final de Atenas em Maio de 2007.
Veremos então o que os clubes portugueses conseguirão fazer, deixando VEDETA DA BOLA desde já um voto de boa sorte para todos eles.

A NÃO PERDER

Na próxima sexta-feira estará disponível neste espaço mais um capítulo de "Golpe de Estádio".
As maiores revelações começarão agora a chegar. Não perca.

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

À segunda jornada eis que surge o primeiro caso passível de correcção classificativa. No Nacional-Sporting o único golo da partida foi precedido de falta, tratando-se portanto de um erro com directa influência no resultado.
Futebolísticamente o Sporting venceu com justiça - como já tinha afirmado -, viu até ser poupada a expulsão de um jogador madeirense ainda na primeira parte, mas as regras são estas. Apenas um ponto pois para os leões.
No Bessa, Manú foi expulso com vermelho directo sem tocar no adversário, e foi poupado o segundo amarelo a Ricardo Silva. Penso que teria sido mais prudente João Ferreira ter sido poupado a este jogo, pois as notícias da véspera, verdadeiras ou falsas, não deixaram seguramente de o perturbar. Contudo, como é óbvio, a vitória boavisteira é inquestionável.

F.C.PORTO 6
Sporting 4
Benfica 0 (-1 jogo)

VEDETA DA JORNADA

NANI: Duas jornadas, a mesma VEDETA. Nani está a ser de facto a grande revelação do futebol português neste início de temporada e demonstrou mais uma vez, na Choupana, que se trata de um jogador fadado para altíssimos voos.
Tem técnica a rodos, é forte fisicamente, remata bem, é combativo, faltando-lhe apenas adquirir mais alguma cultura táctica para se tornar numa estrela de primeira grandeza, até a nível europeu.
Vai ter na Champions League uma boa montra, pois a jogar assim dificilmente permanecerá em Alvalade por muito mais tempo.

APOCALIPSE NO BESSA

É verdade que a pré-época correu mal, é verdade que o plantel se manteve indefinido até bem tarde, é verdade que mudou o treinador, é verdade que tem havido lesões, é verdade que muitos jogadores estiveram no Mundial, é verdade que o Caso-Mateus acabou por prejudicar a equipa obrigando a dezoito dias sem competição, mas nada, nada disso justifica a exibição realizada no Bessa, cujo adjectivo que me ocorre para melhor lhe aplicar é: miserável.
Lastima-se que nem o facto de estar a pisar o relvado onde festejou pela última vez um título nacional tenha sido suficiente para espicaçar a equipa da Luz, que assim entra na Liga de forma absolutamente calamitosa.
O Benfica foi uma equipa completamente desarticulada, nada imaginativa a atacar e insegura a defender, apresentando períodos absolutamente negros ao longo do jogo, tal o desnorte que se apoderou de quase todos os jogadores encarnados. Demonstrou índices físicos assustadores para quem inicia a Champions League esta semana. Demonstrou ainda, à semelhança do que acontecera nalguns momentos da pré-temporada (por exemplo frente ao Sporting), uma total incapacidade para jogar perante equipas muito pressionantes, como foi o Boavista - não encontrando soluções para esta realidade, o Benfica pode dizer adeus a uma boa época.
Outro dos problemas que parecem evidentes é que as caracteristicas dos principais jogadores do plantel do Benfica não apontam para um estilo de jogo sustentado em posse e circulação de bola intensiva e numa postura de ataque constante e afirmativo (romântico?) como Fernando Santos diz pretender e a equipa por vezes parece tentar praticar, com os resultados que estão à vista. Por outras palavras, este Benfica não tem condições para ser uma equipa "mandona", embora até talvez se possa tornar numa equipa "matreira".
Veremos até que ponto esta derrota vai ter consequências no futuro imediato, pois já na quarta-feira o Benfica terá um jogo determinante para as suas ambições internacionais. Os últimos minutos do Bessa mostraram uma equipa de cabeça demasiado quente, algo que nos próximos três dias terá que ser revisto de modo a que não se comprometa desde já também o futuro na Champions.

Individualmente as pontuações (de 0 a 5) não poderão ser generosas: Quim 4 (salvou-se do naufrágio e foi o melhor benfiquista, o que atesta também aquilo que foi o jogo), Nelson 2, Luisão 1, Anderson 0, Leo 2, Petit 2, Katsouranis 1, Rui Costa 1, Manu 3, Nuno Gomes 0, Miguelito 0, Fonseca 0, Nuno Assis 0 e Mantorras -.

A LEI DA EFICÁCIA

O jogo da Choupana confirmou o Sporting como uma equipa compacta, harmoniosa e com capacidade de sofrimento suficiente para encarar os jogos e os pontos com um realismo digno de assinalar.
Com grandes exibições de Moutinho e Nani, os leões ganharam (com um golo solitário envolto em polémica) num terreno difícil depois de um jogo de sofrimento, mau grado as melhores oportunidades lhes terem pertencido. Na ponta final da partida, na sequência de lances de bola parada ou cruzamentos tensos para a área, os madeirenses causaram alguns sustos a Ricardo, mas nunca conseguiram disfarçar a falta de um ponta-de-lança eficaz na frente de ataque – o seu melhor marcador (André Pinto) saiu do clube.De salientar ainda a estreia de Alecsandro, que denotou alguns bons pormenores, parecendo em boa posição para tirar o lugar a um Bueno muito discreto.

GOLPE DE ESTÁDIO (1)

Há 30 anos...
O Verão estava insuportável. O calor sufocava, e o futebol preparava-se para iniciar mais
uma época. Os jogadores, regressados de férias, vinham com pouca vontade de trabalhar. Os
dirigentes, esses, estavam mais atarefados do que nunca. Eram as contratações, o estudo
das novas directrizes e a organização dos respectivos departamentos o que mais os
preocupava. Mas as atenções estavam viradas para o maior clube da cidade(Porto).
Anunciavam-se grandes transformações para um novo mandato de Américo de Sá, um
dirigente de corpo inteiro cuja figura e postura se assemelhava á de um aristocrata. Educado,
afável, mas um tanto pretensioso, seguia uma linha directiva com mais de trinta anos. Nos
últimos tempos, as vitórias começavam a sorrir e até veio um título já esperado há muitos
anos. O clube estava a ganhar uma nova estrutura organizativa, fruto da revolução política
que anos antes tinha acontecido e o aproveitamento correcto das linhas de acção traçadas
pelos partidos apontavam para a regionalização e a descentralização do poder.
Alguns homens do Norte tinham ganho força nos mecanismos estatais e tentavam
implantar na sua região uma retaguarda de pressão para combater a tendência de esquerda
que vinha da região sul. O momento foi soberbamente aproveitado em toda a sua extensão e
teve como principal mentor José Maria Pedroto, o técnico mais conceituado do futebol
português.
O homem já tinha revelado, mesmo como jogador, uma inteligência invulgar e, logo que
tomou conta do clube do seu coração, procurou colocar um plano que noutros tempos se
tinha mostrado de difícil execução.
Para o acompanhar, escolheu elementos que já antes se tinham feito notar pela sua forte
dinâmica. O seu mais directo colaborador era Pinto da Costa, o homem que chefiava o
departamento e comparticipava em toda a estratégia por ele montada. Pinto da Costa movia-se
habilmente pelos corredores do poder, possuía uma memória invulgar, e escrúpulos era
coisa que se não lhe conhecia. Hábil na utilização do discurso, atacava as suas vítimas com
uma certa ironia, mas não tinha contemplações para quem se lhe atravessasse no caminho.
Esta dupla era imbatível, mas perigosa. Ambos já tinham mostrado a sua intuição e
poder de manobra quando conseguiram ludibriar o poder que outrora vinha da capital e dos
clubes que normalmente dividiam entre si os prazeres da vitória. O certo é que do Norte
surgia um intruso a querer também saborear esses incomensuráveis prazeres da conquista.
Aquele título, ganho depois de tantos anos de luta contra as mais miseráveis injustiças, era
uma lança cravada em terras de Mouros. Um verdadeiro desafio àqueles que usavam e
abusavam do poder que possuíam. Mais do que tudo, tinha sido uma vitória do Norte. Os
populares rejubilavam com o feito, mesmo a gostarem de outras cores clubísticas. Pedroto
surgiu como um herói e passou a ser a bandeira dos humilhados e oprimidos. Lenine não
faria melhor.
Mas tanto Pedroto como Pinto da Costa sabiam o perigo que isso representava e
prepararam-se para enfrentar novos ataques. Era necessário ser duro na acção e lutar sem
contemplações contra o inimigo, mas o presidente do clube e os seus pares não possuíam a
estaleca necessária para os acompanhar nesta corrida louca contra a hegemonia da capital.
Américo de Sá mais parecia um aristocrata e no futebol os punhos de renda estavam a passar
de moda.
- Com o Sá, não vamos a lado nenhum!- choramingou PC.
- Ir, vamos. Mas quando atravessamos a Ponte da Arrábida já estamos a perder!- atirou
Pedroto, sempre mais pragmático e mostrando mais uma vez que era um homem que anda
sempre um passo ou dois á frente dos restantes.
Pinto da Costa, com a sua cara de bebé chorão e os óculos descaídos sobre o nariz,
sorriu e tentou imaginar a melhor forma de dar a volta ao problema. Havia que contar com
duas situações, antes do mais.
Pedroto era agressivo, competente e justo. Lutava como ninguém e por aquilo em que
acreditava e não se deixava "comer por lorpa", mas preservava os seus amigos e era incapaz
de trair quem se envolvesse com ele na acção.
Tinha de se arranjar uma solução ajustada ao prestígio de Américo de Sá.
Todas as noites, Pedroto gostava de um joguinho e cartas, e o seu jogo predilecto era a
"ricardina". O local de encontro e de jogo era a tasca do Ilídio Pinto, também proprietário da
mercearia Petúlia. Nas catacumbas, uma nova fé clubística crescia, mas esta estava pronta
para soltar os leões sobre o dono do Circo...
Depois de uns copos e de uma conversa animada sobre futebol, a noite acabava sempre
na cave da mercearia com o tal jogo da "ricardina". Ilídio Pinto sofria como ninguém os
problemas do clube. O seu maior sonho era ser um dia director do departamento de futebol,
mas havia muitos mais candidatos para o lugar, e ninguém o levava a sério. E, que se
soubesse, o cargo não era prémio que saísse como brinde do bolo-rei. Mas a inteligência era
um dote que não contemplava o Ilídio. Lá que era um homem astuto, era. E lá que estava
cheio de dinheiro, disso também ninguém duvidava. E como estava sempre de bolsa aberta
para ir em socorro dos problemas do clube, havia que deixá-lo pensar que o sonho um dia se
iria realizar. A sua riqueza tinha como base muita poupança e o segredo roubado ao seu
antigo patrão da receita da broa de Avintes. Em poucos anos, apesar de ter a sua mercearia
noutra zona, transformou-se no "Rei da Broa de Avintes" e as vendas foram de vento em
popa. Os negócios estavam maus, a economia fraca, o País vivia tempos difíceis, e a broa de
Avintes sempre era barata e enchia os foles do estômago dos menos favorecidos. E a bolsa
do Ilídio.
A noite estava quente, e o ambiente alegre, mas PC chegou de semblante carregado e
fez um sinal de cumplicidade a Pedroto: - Porque é que está com um ar tão «saturno»?
Pedroto quase se desfazia numa gargalhada, mas Pinto da Costa, já habituado ás bacoradas
do Ilídio, respondeu com a ironia que lhe era habitual:
- É do tempo, e os astros não ajudam. Depois de ter dado uma palmada nas costas do
Ilídio, adivinhando-lhe as intenções, foi-lhe dizendo: - Vamos a uma partidinha!
O Ilídio não deixou de mostrar um sorriso rasgado de orelha a orelha. Era daquilo que
ele mais gostava. Não se importava de perder todas as noites. A broa de Avintes dava para
tudo. O importante era estar com os heróis que fizeram do seu clube campeão. Mandou
fechar a loja, meteu o apuro do dia no bolso e foi de imediato buscar as cartas. PC
aproveitou a ausência e contou a sua estratégia a Pedroto.
- A melhor forma de conseguirmos levar em frente o nosso plano, é convencermos o
Américo de Sá de que o futebol no clube tem de ser totalmente autónomo. Ou seja ele gere o
clube e nós tomamos conta do futebol.
- Por acaso não lhe fica nada mal o papel de corta-fitas. Como é que vamos fazer isso? -
perguntou PC largando um sorriso cúmplice.
- Ele é capaz de não aceitar essa situação com tanta facilidade. Entretanto , o Ilídio
chegou com o baralho de cartas, e ouvindo as últimas frases, perguntou com um ar de quem
não está a entender nada.
- O Américo Tomás vai voltar? Pedroto piscou o olho a Pinto da Costa e mudou o tema á
conversa.
- PC, é desta que vais jogar a «ricardina»?
- Bem sabes que jogo de cartas não é comigo. Os meus jogos são outros.
Chegaram outros convidados para uma partidinha e começou o saque ao Ilídio. Irritado
com tanta falta de sorte, o dono da mercearia só via na sua frente o desfiar dos naipes que
lhe tinham tocado. Pinto da Costa assistia impávido e sereno ao baralhar das cartas e á forma
como eram distribuídas. E pensou: «Um dia serei eu a distribuir o jogo». Algo aborrecido,
levantou-se e aproveitando o entusiasmo do Ilídio, subiu á mercearia e começou a retirar
alguns chocolates das prateleiras. Voltou a descer e, com o à-vontade que lhe era peculiar,
distribuiu algumas tabletes pelos jogadores. O Ilídio também se serviu, sem dar conta que as
mesmas lhe foram roubadas, tal o seu entusiasmo pelo jogo.
Pedroto riu-se, e os presentes também não se contiveram. O Ilídio parece ter acordado e,
dando uma dentada no chocolate, pensou em voz alta:
- Vocês estão a rir-se muito, devem ter bom jogo. Mas não faz mal, a minha sorte também
há-de chegar. A sorte só lhe chegou no dia seguinte com a venda de mais broa de Avintes.
No final do joguinho de cartas, Pedroto convidou PC para uns fadinhos. Sempre era um sítio
recatado para uma conversa a dois. Já só faltava um dia para que a equipa de futebol se
apresentasse e nada estava definido em relação à chefia do departamento de futebol.
- O Américo de Sá já me convidou para continuar, mas temos de ter mais poder para fazer
frente aos mouros.
Pedroto era um homem de soluções rápidas e não esteve com meias medidas, lançando a
sua proposta a PC.
- Amanhã vais falar com o homem e dizes-lhe que aceitas continuar no cargo, mas com
algumas condições, e aproveitas para expor o teu plano. Não tenhas problemas, porque o
título ganho deu-nos uma tal força, que é difícil haver gente com coragem para nos derrubar.
Confiante nas palavras do "mestre", PC marcou encontro com Américo de Sá e colocou-o
ao corrente do seu plano. Américo de Sá mostrou-se desconfiado e delicadamente disse
"talvez sim", o que bem podia ser traduzido por "certamente que não". E para que Pinto da
Costa não ficasse com dúvidas, o presidente fez mesmo questão de precisar:
- Mas, para já, se quer ficar com o departamento de futebol, fica, embora nas condições
anteriores.
PC não estava a contar com aquela resposta e ficou lívido de raiva. Bateu com a porta e
saiu, pensando na velha máxima de Júlio César que era para si o referencial da vida: "Antes
ser o primeiro numa aldeia que ser o segundo em Roma".
Pinto da Costa telefonou de imediato a Pedroto e colocou-o ao corrente da situação.
- Temos que nos encontrar com urgência para sabermos o que vamos fazer amanhã.
Pedroto tentou colocar alguma água na fervura e tranquilizou PC.
- Vem já a minha casa, para elaborarmos a estratégia para amanhã.
em pouco tempo tudo ficou gizado. Os tempos do PREC ainda estavam bem vivos, e se o
Américo de Sá se julgava importante, iria ter de se vergar ao poder popular.
Dizia PC:
Tem calma. Essas coisas não se tratam dessa forma. Em primeiro lugar vamos fazer um
comunicado e amanhã revolucionamos isto tudo.
Nessa noite voltaram a encontrar-se na Petúlia para afinarem a estratégia. Mas como não
se sabia muito bem no que é que aquilo tudo ia resultar, era melhor colocarem Ilídio Pinto no
plano, estabeleceu PC. Pedroto reagiu pela negativa.
- Deixa o Ilídio em paz, porque ele ainda é capaz de nos estragar a estratégia.
- Estás doido. Vamos só dar-lhe um cheirinho. Nunca se sabe se vamos necessitar de
dinheiro, e se for caso disso, onde é que o vamos buscar?
Pedroto hesitou, mas acabou por concordar. Convidaram o Ilídio para a reunião e
contaram-lhe apenas algumas peripécias do plano. O Ilídio revelou-se eufórico, como quando
lhe saía bom jogo. Era mesmo aquilo que ele queria. O Américo de Sá não ia aguentar este
ataque e abandonava o clube. O Pinto da Costa passava a presidente, e ele realizava o seu
velho sonho: tomar conta do departamento de futebol.
O Ilídio até foi mais cedo para a cama, depois de ter dito ao Pedroto e ao PC que podiam
contar com tudo o que necessitassem. Mesmo dinheiro, a quantia que fosse necessária. Logo
que chegou a casa, não resistiu. Tirou a bata de trabalho e foi ao roupeiro escolher o seu
melhor fato. Vestiu-o, colocou uma gravata, foi a uma pequena gaveta da cómoda e retirou
uma braçadeira com uma inscrição bordada a branco: «delegado ao jogo». Passeou-se um
pouco no quarto de cabeça erguida e começou a gritar para a mulher, que já estava a
dormir:
- Levanta-te que isso não é nada. Vai à esquerda. Vai lá, corre. Corta, passa, chuta que é
golo! A mulher acordou estremunhada e, vendo o Ilídio naqueles propósitos, logo pensou:
«Ai que o meu Ilídio ficou maluquinho!»
- Mulher, estás a ver um futuro delegado ao jogo! Amanhã vai haver um golpe de estádio
e ninguém mais nos vai poder parar.
A Dona Virgínia, sem perceber o que se estava a passar, pensou: «E mais uma das
maluquices do meu marido». E virou-se para o outro lado, voltando a adormecer, pois, de
manhã, bem cedinho, tinha que estar no seu posto a fabricar a broinha.
Pedroto foi o primeiro a entrar no estádio e logo que os jogadores chegaram fez uma
reunião e contou-lhes o que se estava a passar.
- Rapazes, se queremos continuar a ganhar, a conquistar títulos e a criar fama, temos de
manter o grupo unido. Fomos nós que conseguimos realizar o sonho de conquista do título e
não queremos ficar por aqui. Tenho a informar-vos que o nosso presidente, Américo de Sá,
excluiu o Pinto da Costa do departamento de futebol e, sendo assim, não trabalho com mais
ninguém. Fora a ditadura e os incompetentes. Unidos ninguém nos vence.
Um dos jogadores, atento e entusiasmado com o discurso, ainda esboçou a palavra de
ordem:
- Os jogadores unidos jamais serão...
Atento, Pedroto travou o entusiasmo do jogador.
- Alto aí! Por esse caminho não, porque às tantas ainda dizem que somos comunistas, e
isto não é um golpe de Estado. Isto é apenas um golpe de estádio.
O Ilídio não perdeu pitada do que estava a acontecer. Entusiasmado com a possibilidade
de poder realizar o seu velho sonho de chefiar o departamento de futebol, subiu a um banco
e apoiou Pedroto:
- É isso mesmo. Isto não é um golpe de Estado, é um golpe de estádio.
Pedroto retirou o chapéu que lhe encobria o «capachinho», fez deslizar os dedos pelos
poucos cabelos de que ainda era proprietário, enquanto pensava na melhor forma de fazer
sair o Ilídio, para que a bronca não fosse ainda mais longe. Pediu então a todos os presentes:
- Gostava de ficar agora sozinho com os jogadores e a equipa técnica. Ó António, pede
aos restantes que saiam!
Novamente na posse do comando da situação, Pedroto explanou as linhas mestras do seu
plano, como se estivesse apenas a dar a táctica para o próximo jogo:
- O Américo de Sá não tem o direito de travar a caminhada gloriosa do nosso clube. Nós
assumimos uma grande responsabilidade para com os nossos associados e não podemos
desiludi-los. Neste momento, não há outra alternativa. Ou ele ou nós e nós somos a
verdadeira glória do clube. Somos os únicos capazes de lutar contra os mouros, de os
derrotar novamente, como fez D. Afonso Henriques.
O ambiente voltou a aquecer, e o entusiasmo da maior parte dos jogadores tomou conta
da situação. Discutiu-se a melhor forma de enfrentar o problema e ficou acordado escreverse
um comunicado para entregar á Imprensa, dando-lhes conta da situação. Um dos
jogadores ainda disse:
- Quem vai buscar uma folha de papel?
Mas Pedroto apressou-se a acrescentar:
- Não vale e pena. Dormi toda a noite sobre o assunto e por acaso até já trago aqui o
comunicado feito. Alguns jogadores ficaram desconfiados. Aquilo mais parecia um golpe de
uma organização comunista. Trabalhadores a quererem tomar conta das empresas tem dado
mau resultado. Resolveram logo pôr em causa aquela acção. Houve alguma discussão no
balneário e, como a maioria estava de acordo, resolveram encostar a direcção á parede. Ou
aceitavam as condições de Pinto da Costa, ou vamos todos embora. Mas o tiro saiu-lhes pela
culatra. Américo de Sá não se deixou abater pela intimidação e não aceitou as exigências. O
escândalo rebentou.
Só quatro jogadores ficaram de fora da situação e alinharam com Américo de Sá, os outros
foram para a mercearia do Ilídio Pinto.
Os grupos de pessoas com influência no clube dividiu-se. Se era verdade que tanto
Pedroto como Pinto da Costa tinham feito uma autêntica revolução no futebol quando
ganharam o título, também não era menos verdade que não estava certo que se
aproveitassem da situação para assaltar o poder.
Moviam-se nos bastidores os mais variados tipos de influências, porque acima de tudo
estavam os mais elementares interesses do clube. Os prejuízos podiam ser desastrosos,
estavam a perder-se dias de preparação, o campeonato estava á porta e a equipa iria
ressentir-se disso se o braço de ferro não terminasse. Sob o comando de um preparador
físico, os jogadores treinavam-se nas ruas da cidade e no final cada um ia tomar banho a sua
casa. Era o descalabro. Nunca antes se tinha assistido a coisa igual.
Estava na hora de o Ilídio entrar em cena. Reuniu-se com Pedroto e PC e perguntou-lhe o
que é que podia fazer para ajudar. Sentiu-se de imediato um brilho nos olhos de PC. Estava
ali a resolução para parte do problema.
- Precisamos de dinheiro para pagar o estágio aos jogadores. Vamos mandá-los para
onde ninguém os encontre. Assim, eles podem trabalhar em paz, até que tudo isto se
resolva. Temos também de lhes garantir os vencimentos no final do mês. Ilídio, você arranja
dinheiro para fazer face a estas despesas?
O Ilídio gostava de se sentir útil. Era ele que ia resolver o problema. A carteira era a sua
divisa e colocou-a ao dispor da situação. Aquele estava a ser um dia bom, pois já vendera
500 broas.
Os jogadores hospedaram-se numa estalagem junto ao pinhal e tudo se complicou ainda
mais. Toda a gente queria saber onde estavam os craques. A imprensa procurava e não
encontrava. Criaram-se grupos de espiões de parte a parte. A pressão aumentava, e o Ilídio
tinha de retirar os seus dividendos. A sua oportunidade não tardava, mas toda a gente tinha
de ficar a saber que era ele que estava a financiar a situação. Mandou chamar um jornalista
amigo e confessou-lhe:
- Fui eu que dei o dinheiro para o estágio . Eles estão.. bzzzzzzzzzzz
No outro dia, os jogadores voltaram a ser «assaltados pela malta dos jornais. Novo
escândalo. Américo de Sá não dava sinais de fraqueza. Resistiu a todos os tipos de pressão.
Foram reuniões, mais reuniões e assembleias gerais. Mas o presidente e os seus homens não
recuaram um milímetro que fosse.
Vencidos pelo tempo e pela persistência, todos os jogadores recuaram. Todos...menos
um: António Oliveira. Pedroto e Pinto da Costa ficaram sozinhos. Américo de Sá tinha
vencido. Contratou um novo treinador e ofereceu a chefia do departamento de futebol a um
homem da sua confiança.
O Ilídio é que não perdeu tempo. Quando viu as coisas mal paradas, resolveu virar-se
para o outro lado. Telefonou ao Américo de Sá e defendeu-se:
- Olhe que aquilo do dinheiro do estágio não fui eu que dei. É tudo mentira. O presidente
já sabe que pode contar comigo. Se for necessário contratar jogadores e um novo treinador,
já sabe que não há problema nenhum!
Ninguém tinha dúvidas de que iria ser necessário muito dinheiro, e no clube não
abundavam os mecenas. Numa situação destas, o Ilídio podia vir a ser muito útil.
Pinto da Costa, Pedroto e o «capitão» de equipa, António Oliveira, mantiveram as duas
posições. Tinham sido derrotados, mas não havia nada a uni-los. Cada um que se safasse da
forma que lhe desse mais jeito. Pedroto, sem abandonar a mania da conquista da capital aos
Mouros, instalou-se na terra de D. Afonso Henriques.
- A luta continua. Vai ser aqui que me vou inspirar para voltar a conquistar o poder.
Levou com ele o António, seu adjunto. O preparador físico também tinha desertado e
procurado encosto no grupo de Américo de Sá. Só mesmo António Oliveira resistiu,
preferindo o desemprego á humilhação de voltar atrás. Tinha assumido uma posição e
mantinha-a, mesmo que agora pensasse que tudo estava errado.
- Vamos com calma. Roma e Penafiel não se fizeram num dia.
Dito isto, virou á esquerda, travou a fundo e abriu a porta a uma miúda que por ali estava
encostada a um candeeiro.
Pinto da Costa assumiu a derrota, mas não a digeriu. Parecia perdido para o futebol. A sua
atitude revolucionária tinha deixado marcas bastante profundas. O seu futuro como dirigente
estava severamente comprometido, mas Pinto da Costa sempre acreditou que no futebol é o
golo que comanda as atitudes e as situações e que provoca a queda dos dirigentes e
treinadores. Por isso, PC não se deixava abater com tanta facilidade. A sua resistência não
tinha limites e afinal só tinha perdido uma batalha. O importante, agora, era fazer com que o
seu clube tivesse alguns desaires. Tinha, por isso, de montar a sua estratégia, mesmo sem os
seus anteriores aliados.
Os seus companheiros, os da tentativa de revolução, colocaram-se á margem para se
aliarem a quem ficou com o poder, e os profissionais seguiriam o seu rumo, a sua vida era
aquela; e, mais tarde ou mais cedo, acabariam por surgir novos empregos. Eram artistas do
futebol, tinham mérito e qualidade. O seu caso era mais difícil. Era um dirigente com algum
carisma ganho á custa do prestígio de Pedroto. A sua personalidade e capacidade ainda não
tinham sido verdadeiramente testadas. Faltava-lhe prestígio para fazer frente a Américo de
Sá. E não podia continuar a vender fogões toda a vida...
Sem abandonar os bastidores do futebol, foi minando a gerência de Américo de Sá. Não
era homem para ser derrotado com tanta facilidade, mas em alguns momentos chegou
mesmo a sentir o desespero de uma causa que parecia perdida. Mestre a colocar o boato a
circular, fez constar que um clube da capital lhe tinha dirigido o convite para assumir o
comando do departamento de futebol. O objectivo era deixar passar a mensagem de que o
inimigo tinha visto nele superiores qualidades e, perante tal facto, esperar que algumas vozes
se levantassem, reconhecendo o erro que tinham cometido. Mas acabou por acontecer o
contrário. A credibilidade de Pinto da Costa em relação ás posições que tomou em defesa do
Norte foi afectada.
Apercebendo-se de que a sua estratégia não resultara, logo se apressou a desmentir o
boato posto por ele a circular. As eleições estavam próximas e era necessário estabelecer um
plano mais sólido para derrotar Américo de Sá. Não era homem para viver sob o domínio da
derrota ou mudar de atitude procurando novamente as boas graças do presidente. Na sua
personalidade e forma de estar não encaixava a imagem de um falhado.
Pinto da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava uma grande
influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de padres.
Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens. Eram testados
como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas contrariedades da vida.
Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda a
turma e, já nessa altura Pinto da Costa era tido como o mais desenvolto no uso do discurso,
na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados essenciais.
Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a demonstrar um
grande sentido de chefia. Sabia como dividir para reinar, utilizando um ar cândido e
descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas. Atirava a pedra e
sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a grande capacidade de trabalho
e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a pensar ordenar-se padre, e o director
do colégio apostava que, se ele seguisse essa carreira, iríamos ter o segundo papa
português. A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque
clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de
crucificá-los. Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como
se nunca tivesse culpa de nada.
Nunca foi grande atleta, mas a sua paixão pelo desporto atirou-o para o dirigismo.
Começou por baixo, mas não foi necessário muito tempo para chegar ao topo da pirâmide.
Destronar Américo de Sá era agora o seu maior desafio. Começou então a rodear-se de
amigos com algum prestígio no clube, procurando apoios para se candidatar. Tarefa que não
era fácil. Na altura, para se ser presidente de um clube de futebol era necessário ser-se um
empresário de sucesso e ter dinheiro disponível para enfrentar algumas situações, e esse não
era o caso de Pinto da Costa. Ele sabia-o como ninguém e procurou então apoiar-se em
pessoas abastadas economicamente, não dispensando o seu grande amigo, Ilídio Pinto.
Havia, no entanto, uma situação que era necessário ultrapassar. O Ilídio tinha-se
encostado ao Américo de Sá, mas PC sabia que ele estaria sempre do lado de quem tivesse o
poder e, com alguma facilidade, jogava sempre com um pau de dois bicos.
O certo é que Ilídio tinha o dinheiro, e PC iria necessitar desse apoio. Tinha também na mão
outra gente que vivia desafogadamente em termos financeiros e que por terem sido
preteridos por Américo de Sá se colocaram do seu lado, mas esses eram mais inteligentes e
não seria fácil arrancar-lhes o dinheiro sem lhes dar nada em troca.
Não podia também colocar em risco uma nova derrota. Tinha de ir à luta pela certa, e o
momento era propício porque se começava a notar um certa instabilidade no seio do clube.
Tudo servia para se atacar a gerência de Américo de Sá. Faziam-se assembleias gerais
agitadíssimas, com Pinto da Costa a colocar algumas pessoas estrategicamente no meio dos
sócios a criar a confusão.
Américo de Sá passou momentos de grande desespero, porque lhe era impossível
controlar a situação. Foi então que tomou consciência da existência de um jovem com
alguma história no clube. Reinaldo Teles, campeão nacional de boxe e na altura treinador, foi
a solução encontrada para controlar as agitadas assembleias gerais. Ex-pugilista, brigão,
chulo e nutrindo uma certa paixão por negócios ilícitos, ofereceu-se para arrumar a casa e
impor a ordem nas confusões programadas por Pinto da Costa. Era treinador de boxe do
clube e reuniu os seus rapazes para patrulharem a sala, e o certo é que com alguns murros e
cabeçadas acabou por conquistar o lugar de chefe da segurança de Américo de Sá.
Pinto da Costa temia-o, porque não era um brigão vulgar e muito menos um marginal
estúpido e incompetente. Reinaldo Teles tinha um espírito e uma personalidade muito
idênticos aos de PC. Dava as ordens para descascar á fartazana e depois surgia como o
apaziguador, o bom rapaz que anda tinha a ver com aquela violência. PC detestava-o, mas
viu nele a solução para o futuro.
Reinaldo Teles era um ás a esgrimir os punhos, sabia avaliar com grande exactidão a
capacidade dos seus adversários, e quando não os podia vencer trazia-os para junto de si.
Um anjo, este rapaz que veio bastante jovem de uma aldeia transmontana para servir numa
tasca de um tio. O estabelecimento estava aberto toda a noite, numa altura em que ainda
existiam poucas discotecas. E as que funcionavam em pleno estavam viradas para o alterno e
a prostituição. Mas R. Teles sabia que «putas e vinho verde» só combinam nas horas e nos
locais certos. Havia que tratar da vidinha.
Ajudava o seu tio pela madrugada dentro e vivia com entusiasmo as cenas de pancadaria
entre azeiteiros, putas e marginais. O seu sonho era um dia vir a ser como eles. Homens
valentes, com charme, e mulheres tratadas a pontapé a levarem-lhes o apuro da noite e o
que até tinham roubado ao prazer. Sobre as delícias do amor, Reinaldo propagandeava dotes
extraordinários, como fruto da leitura de um livrinho que comprara na Feira de Vandoma,
uma obra cujo título tinha algo a ver com cama (obviamente) e que ensinava a combinar o
beijo inclinado com o beijo pressionado. Essa era a matéria que Reinaldo dominava
perfeitamente, como já se disse, com destaque para a arte de beijar.
Mas ainda estava longe de ser o rei na noite, sendo por norma acordado por mais um
pedido da Bety ou da Lady, pois as putas por aqueles lados tinham todas nomes ingleses...
- Ó miúdo, serve-me aí uma sande de fígado com molho e cebola e um copo desse verde
rasca que o teu tio tem aí!
Reinaldo Teles não se deixava comover. Afinal, eram putas. Tinham de ser tratadas
assim. Enrugando a face, com os cantos da boca a quebrarem para baixo, fazia inchar o
peito, punha-se em bicos de pés na tentativa de imitar os chulos e atirava com o prato da
sande e o copo para a frente da mulher enquanto pensava: «Ainda vais trabalhar para mim».
Foi então que um indivíduo com cara de rato, esquelético e de cabelo oleoso, se foi
encostando á prostituta que Reinaldo servia e, com uma habilidade nata, meteu os garfos na
carteira e roubou-lhe o porta-moedas. Reinaldo, que estava por detrás do balcão a retirar da
montra de vidro um naco de polvo envolto em cebola, viu a cena e não perdeu a sua
oportunidade de brilhar. Saiu do balcão e, com determinação, agarrou o carteirista e evitou
que a Alzira, mais conhecida por Lady, ficasse sem os poucos tostões que o seu chulo lhe
deixou.
Apercebendo-se de toda a cena, a Alzira levantou a mão e deu um soco no carteirista
enquanto lhe dizia:
- Ah, meu filho da puta de choringa!
Sem tempo para pensar, Reinaldo Teles nem sequer hesitou quando se apercebeu que o
carteirista ia responder á agressão. Formando um salto, deu uma cabeçada seguida de uma
esquerda no choringa e este esparramou-se no chão sem vontade de se levantar.
Quando o pôde fazer, nem sequer olhou para trás, deitando a fugir pela rua abaixo. Os
presentes fartaram-se de gabar Reinaldo, não só pela sua coragem como também por aquela
esquerda indomável. A Alzira esqueceu-se de que tinha sido vítima de roubo e começou a
medir o miúdo de alto a baixo com um sorriso comprometedor e, olhando por cima do
ombro, disse-lhe quase num sussurro:
- Hoje tens direito a uma de graça!
- Com direito a beijo pressionado?- quis logo saber Reinaldo.
Que sim, disse ela. Reinaldo Teles não cabia em si. Puxou do pente que trazia no bolso
de trás das calças, passou-o pelos cabelos e não deixou ninguém perceber que ainda era
virgem. Pegou no resto do vinho que sobrou no copo da Alzira e emborcou-o de uma golada
enquanto lhe dizia:
- Estou-te com uma sede!
Quando fechou a tasca, lá estava a Lady á sua espera para uma madrugada de amor.
Mas estava, ainda, Reinaldo com a chave metida na porta, e já o chulo da Alzira lhe tocava
no ombro.
Onde pensas que vais meu filho. O estabelecimento já fechou. Se queres desenferrujar o
prego, espera para amanhã e não te esqueças de trazes trocado.
Reinaldo Teles ficou fora de si. Já estava a pensar com os tomates, e aquele gajo não
lhe podia vir estragar a festa. Olhou de alto a baixo o chulo. Fixou-o bem nos olhos e achou
que lhe podia dar uma tareia. A sua célebre esquerda saltou como um gancho e abateu-se
nos queixos do chulo. Ainda este não se tinha recomposto e já levava um meia dúzia de
socos, caindo KO no passeio.
Numa só noite, Reinaldo tinha abatido dois adversários. Alzira não hesitou. Estava cheia
daquele chulo, e Reinaldo serio o seu novo amante. Meteu-lhe o braço e, com firmeza, levouo
até ao seu quarto alugado, por trás da Igreja da Trindade. Por coincidência ou não, os
sinos tocaram a assinalar as cinco da matina e uma gata berrou de cio.
Reinaldo estava eufórico e, depois de ter descascado em dois duros da noite, não podia
de forma alguma deixar perceber que aquela era a sua primeira noite de amor. As suas
calças de bombazina preta começaram a ser afagadas por Alzira enquanto ela se despia.
Ao ver o seu par de mamas, Reinaldo não se aguentou mais e teve uma ejaculação. Lady
sentiu as calças humedecidas.
- Já te vieste?
Reinaldo, sem mostrar atrapalhação por aquele percalço, ensaiou uma vez mais a pose
de durão.
- Isto é só uma amostra. Vê se te preparas depressa.
E em que pressinha se foi a virgindade de Reinaldo Teles.
Alzira ficou encantada com toda aquela fogosidade e, mostrando-se submissa, pediu com
um certo carinho:
- A partir de hoje vais ser o meu chulo?
Reinaldo sorriu, enquanto puxava as calças para a cintura e apertava o cinto.
- Depois da sova que deu ao teu chulo, achas que ele teria coragem de aparecer? O teu
homem a partir de hoje, claro que sou eu.
Mas para que essa conquista ganhasse forma, havia muitas lutas para vencer. Os
pretendentes faziam fila porque o negócio estava mau e havia de aparecer um valentão a
conquistar os seus direitos da mesma forma que o fez Reinaldo.
Alzira gostava do miúdo, era forte e atrevido, mas para ficar com ele tinha de pensar
numa forma de o proteger. Reinaldo tinha punhos, mas faltava-lhe a experiência. De súbito,
veio a solução. Ela tinha um cliente que era treinador de boxe do maior clube da
cidade(Porto)e ia-lhe apresentar Reinaldo Teles para o rapaz poder ir lá fazer uns treinos.
Uma semana depois, o tal treinador de boxe disse a Alzira que Reinaldo tinha futuro. A
partir daí, quando as coisas aqueciam no «Ginginha», a tasca do seu tio, R. Teles fazia uns
treinos extra, passando a ser conhecido e respeitado. Depois de fechar a tasca, aproveitava a
boleia de um amigo e ia ter com a Alzira, que atacava em Santos Pousada.
Trazia o apuro e a rapariga. Os dois estavam apaixonados. O beijo pressionado passava
à história.
Reinaldo começou a somar êxitos no boxe e acabou por deixar o emprego na tasca do
seu tio para se colocar como segurança e porteiro numa casa de alternos. Foi aí que
conheceu a Luísa. Mas um dia, Alzira descobriu tudo, entrou pela boite dentro, localizou a
Luísa, que bebia uma garrafa de champanhe com um cliente enquanto este a beijava no
pescoço, pegou-lhe pelos cabelos, atirou-a por cima da mesa e armou por ali uma algazarra
tremenda.
Reinaldo Teles tentou acalmar as coisas. Não podia perder o emprego e lá convenceu
Alzira a ir-se embora, não sem antes esta prometer que matava a Luísa se ela continuasse
atrás do homem dela.
Reinaldo Teles tinha-se tornado num dos chulos mais importantes da cidade e, com a
ajuda da Luísa, acabou por comprar o seu próprio estabelecimento. O rapaz tinha jeito para o
negócio, e a Luísa tinha uma perspicácia tremenda para escolher as melhores putas.
Ambicioso, inteligente, hipócrita e já com algum poder económico, Reinaldo Teles tinha
apenas mais um sonho: ser campeão nacional de boxe. Ele era bom de punhos, mas havia
outros melhores.
Com algum sacrifício e habilidade, conseguiu chegar á fase que lhe permitiu disputar o
título. O seu adversário era poderoso e Teles não se podia arriscar a deixar fugir o seu sonho.
Sempre inclinado para negócios marginais, colocou logo em prática um plano diabólico. Ele
sabia que no boxe profissional a corrupção por parte de grupos marginais era uma prática
constante e quase normalizada, e num ápice resolveu o seu problema. Contactou o seu
adversário, negociou a vitória no terceiro "round" e um KO mal disfarçado deu-lhe a
oportunidade de saltar no ringue elevando as luvas em sinal de vitória. Era importante para o
seu negócio que os jornais noticiassem no dia seguinte que ele era o novo campeão nacional
de boxe. Aquele título significava respeito e medo. Os factores mais importantes para quem
quer gerir com tranquilidade uma casa de alternos e de prostituição. Este fora o seu
primeiro acto no mundo da corrupção, e Teles ficou fascinado com o poder do dinheiro.
Afinal, ele tinha feito um investimento altamente rentável. Pagou para conquistar o título,
realizou o seu sonho e duplicou a facturação no seu estabelecimento. Ninguém se arriscava a
criar conflitos na sua área de alternos e muito menos a deixar contas penduradas. Os punhos
de um campeão eram sempre temidos.

O SUB-MUNDO DO FUTEBOL PORTUGUÊS NO VEDETA DA BOLA - a partir de amanhã

Numa altura em que se volta a falar de favorecimentos na arbitragem – com as últimas notícias de prejuízo para Benfica e Sporting e benefício para F.C.Porto e Boavista entre 2002 e 2004 – e quando o processo “Apito Dourado” parece a caminho do esquecimento, VEDETA DA BOLA decidiu lembrar aos seus leitores os dúbios caminhos que o futebol português percorreu desde dos anos oitenta, designadamente a partir do momento em que a ele chegou a figura de Jorge Nuno Pinto da Costa.
Marinho Neves, portuense, ex jornalista do “Norte Desportivo” e da “Gazeta dos Desportos” publicou em 1996 (oito anos antes de vir a lume o “Apito Dourado”) um romance intitulado “Golpe de Estádio” onde, utilizando nomes fictícios, contava tudo o que sabia acerca do sub-mundo do futebol português, e não era pouco. Na sequência dessa publicação, o referido jornalista foi ameaçado, agredido, chantageado, até desaparecer misteriosamente. O caso foi abafado.
Posteriormente, alguém teve a paciência de “traduzir” o romance, colocando os respectivos nomes aos personagens. É essa versão que VEDETA DA BOLA, leva agora até si.
Entre verdades, hipóteses ou especulações, o que é um facto é que, sabendo-se o que agora (oito anos depois) se sabe, o grosso da história faz todo o sentido.
A edição deste texto será dividida em seis capítulos, que serão publicados nas próximas seis sextas-feiras.
Fique atento. Não perca esta “Bomba” !

RENDIMENTO MÍNIMO

Scolari avisara. A selecção nacional está muito longe da sua melhor forma.
Em Helsinquia ficou bem claro que as várias ausências e o facto de se estar em início de época, tolhem ainda a capacidade duma equipa que, dentro de um mês, com Miguel, Maniche, Meira, Simão e Quaresma, terá seguramente outra face bem mais risonha e alegre que a que hoje demonstrou.
Os primeiros minutos foram pouco menos que caóticos, com perdas de bola sucessivas, erros defensivos infantis e uma Finlândia firme e confiante lançando-se num ataque desenfreado que fez temer o pior. O golo nórdico surgiu com naturalidade e nem com ele a selecção nacional se conseguiu empertigar ou esboçar uma reacção consistente, sobretudo se nos abstrairmos de um ou outro pormenor de Nani.
Perto do intervalo surgiu o golo de Nuno Gomes que quase se pode dizer ter caído do céu,
quer pela feição do jogo até então quer pelo momento determinante em que ocorreu.
Para a segunda parte Portugal, tranquilizado pela obtenção do golo,apareceu bem mais audaz e afirmativo, e desde logo se instalou no meio campo finlandês tomando conta do jogo. Todavia esse período acabou por ser curto pois Ricardo Costa viu o segundo cartão amarelo deixando a equipa em inferioridade numérica, e com as lacunas físicas até então mal disfarçadas Portugal ter-se-á sentido completamente impotente para tentar a vitória, entrando assim numa toada de risco mínimo que lhe pudesse garantir, como veio a suceder, um empate que dadas as circunstâncias não é mau de todo.
Na ponta final do jogo ainda houve tempo para sofrer um pouco, e vir à memória o jogo com a Holanda no Mundial. O empate final não é mau.Esperemos por melhores dias.

OS NOSSOS UM POR UM

CANEIRA (2) Foi pelo seu lado que a Finlândia obteve o golo, e foi também pela direita que se fez sentir a maior pressão dos últimos minutos. Mais uma vez não foi na selecção o que costuma ser no Sporting.
RICARDO COSTA (1) Depois de um início de carreira muito promissor, Ricardo Costa parece ter-se eclipsado enquanto central seguro e sóbrio que parecia ser. Será talvez um problema de quebra de confiança, mas o que é certo é que as suas últimas aparições pela selecção (no F.C.Porto não é titular) têm sido um fracasso completo. Erros atrás de erros, e culpas directas no golo. Depois desconcentrou-se e acabou expulso.
RICARDO CARVALHO (2) Que bicho lhe mordeu nas férias ? À semelhança do seu parceiro do lado, também não fica nada bem na fotografia do golo finlandês.
NUNO VALENTE (3) Não esteve tão mal como os restantes elementos da defesa, mas também esteve longe do fulgor do Mundial.
COSTINHA (2) Muito apagado, muito complicativo. Só a sua experiência impediu que fosse batido mais vezes numa zona nevrálgica como a que ocupa no terreno.
PETIT (2) Também está completamente fora de forma. É generoso, como sempre, mas não conseguiu ser criterioso como quando está em forma.
DECO (3) Foi ainda assim aquele que mais tentou inverter a fatalidade de uma má exibição colectiva. Não foi muito feliz na maioria das suas tentativas individuais, mas tem o mérito de ter lutado muito, e conseguido causar algumas preocupações ao meio campo e defesa finlandesa. O seu passe para golo é delicioso e revelou-se determinante.
CRISTIANO RONALDO (3) À semelhança de Deco também tentou remar contra a maré, não se escapando contudo de uma ou outra nota de individualismo excessivo. Tentou rematar, e na ponta final assegurou toda a acção ofensiva da equipa.
NUNO GOMES (3) Não fazendo uma exibição muito vistosa, acabou sendo o homem do jogo, ao marcar um golo de grande importância. No resto do tempo lutou muito, procurando vir atrás pegar no jogo e partir em tabelinhas como tão bem sabe fazer.
NANI (3) Foi dos melhores portugueses. Não tendo disputado o Mundial, aparece naturalmente em melhores condições físicas que os companheiros. Lutou, recuperou bolas e tentou várias vezes o remate, mas sempre sem sucesso. Rapidíssima a sua adaptação ao grupo.
RICARDO ROCHA (3) Jogou simples e transmitiu uma segurança que Ricardo Costa nunca conseguiu patentear. Talvez devesse ter sido titular.
JOÃO MOUTINHO (-) Não teve espaço nem tempo para se evidenciar muito. Tentou contribuir para uma maior segurança no meio campo.
TIAGO (-) As palavras utilizadas para Moutinho assentam-lhe como uma luva, se bem que tivesse estado ainda menos tempo em campo.

VEDETA DO JOGO

RICARDO (4) À semelhança do que fez no Mundial, Ricardo voltou a ser determinante para a selecção nacional evitar a derrota. Um punhado de intervenções de grande nível garantiu um ponto e voltou a demonstrar que, quando está bem, é o melhor em Portugal.

FRACA GENTE

Só ontem pude assistir ao triste espectáculo proporcionado pelos chamados “homens do futebol” no programa “Prós e Contras” da RTP.
A discussão naturalmente girou em redor do Caso-Mateus, mas a única coisa que ficou clara foi a total incapacidade daquela gente para regenerar o futebol português e colocá-lo, em termos organizativos, ao nível do que os jogadores e técnicos têm feito dentro do campo.
Se de Valentim Loureiro já sabíamos o que poderíamos esperar, ou seja nada, e se Gilberto Madaíl deu mais uma vez mostras de ser um homem cansado e sem chama – tenho para mim que se trata de alguém sem grandes capacidades, mas com a felicidade de ter estado no lugar certo à hora certa -, o secretário de estado Laurentino Dias, que pouco ou nada se dera a conhecer até agora (a única situação em que apareceu foi no caso Nuno Assis e de forma totalmente despropositada, diga-se), foi a maior decepção da noite. Já sabemos de que massa é feita a classe política deste país: a massa da incompetência e da mediocridade, normalmente proporcional ao “jogo de cintura” que lhes permite ascender nas estruturas partidárias até chegarem a estes “poleiros”. Mesmo assim, Laurentino conseguiu superar, pela negativa, todas as expectativas, que já de si não eram muito altas. A primeira ideia que me veio à cabeça é que a única preocupação do homem era sair dali politicamente incólume, ou seja, bem com gregos e troianos (deve seguramente ter dito mal da vida dele quando este caso lhe caiu em cima da mesa). A segunda e final foi que não percebia nada daquilo que se estava a falar, embora a sua verborreia, tipicamente politiqueiro-governamentista, por vezes quase transmitisse a sensação contrária.
José Luís Arnaut foi o único capaz de acrescentar alguma coisa de útil à discussão – o seu relatório sobre o desporto europeu tem pontos de algum interesse, nomeadamente no que toca aos aspectos financeiros que rodeiam o futebol -, mas nem assim conseguiu fugir a uma populista e demagógica tentação acusatória à FIFA, qual carrasca do pobre, pequenino e desprotegido portugalzinho, que estes senhores constantemente evocam, estando eles muitas vezes entre os responsáveis por essa mesma pequenez.
Do debate propriamente dito pouco há a acrescentar. O Caso-Mateus ficou no mesmo sítio onde estava, e os telespectadores mais impressionáveis lá ficaram com a sensação que a FIFA (que eu tanto critiquei noutras questões, mas que nesta tem a razão do seu lado) é culpada de todos os males. Não retenho nenhuma ideia forte, nenhuma proposta, mas apenas a guerra surda Liga-Federação, a necessidade urgente de reformular as estruturas desportivas portuguesas de alto a baixo, e um secretário de estado do qual não se pode esperar absolutamente nada, quer na solução do impasse em que estamos, quer no desenvolvimento do desporto do nosso país.
Apesar de eu ainda me lembrar do que era o futebol português pré-liga (dos Adrianos e Lourenços Pintos, dos Guímaros, dos Silvanos, dos Calheiros, dos “quinhentinhos”, das poderosas associações nortenhas, da corrupção generalizada), dada a situação actual, e pelo que já se viu de Hermínio Loureiro, o melhor se calhar seria mesmo acabar com a Liga, tal como Luís Filipe Vieira pretende. Até porque podia ser que esse fosse, neste momento, o empurrão para que o “apito” viesse mesmo a apitar, sendo esse o passo, sem o qual, tudo o resto nunca passará da podridão e da vergonha. Além disso, poupava-se dinheiro.
Infelizmente parece-me que, passada esta turbulência, irá continuar tudo como está.
Coitados dos jogadores, dos treinadores e sobretudo dos adeptos.
Coitado do futebol.

SINAIS DE ALERTA

A derrota por 4-2 que a selecção portuguesa não conseguiu evitar em Copenhaga, não tem qualquer significado relevante. Não só porque se tratava de um jogo particular, como a Dinamarca não é nenhuma Andorra ou Luxemburgo, podendo-se entender como natural a sua vitória em casa.
Apesar desta realidade, não podemos deixar de ficar preocupados com os erros defensivos cometidos, com as baixas anunciadas e com o resultado da Finlândia na Polónia, onde venceu categoricamente por 1-3.
Nestas provas é fundamental começar bem, e o jogo de Helsínquia será assim um interessante aferidor das reais capacidades de Portugal repetir o vitorioso percurso das últimas fases de qualificação que disputou.
De facto, este não será um jogo fácil. Miguel, Jorge Andrade, Fernando Meira, Maniche, Deco, Simão Sabrosa, Quaresma, além de Figo e Pauleta, e ao que parece agora também de Carlos Martins e Hugo Almeida, são baixas demasiadas para permitirem um onze à altura do que esteve no Mundial.
Não havendo tanto talento, resta aos jogadores portugueses vestirem o fato de macaco e trazerem, a bem ou a mal, com maior ou menor sofrimento, os três pontos na bagagem.
Deve ser esse o caminho a seguir, e sabemos como Scolari é especialista nestas situações limite.

ERA MESMO NECESSÁRIO ?

No limite do prazo para o fim das inscrições na generalidade dos países europeus, o Benfica, na impossibilidade de os conseguir colocar, decidiu ficar com os internacionais Karagounis e Karyaka no seu plantel.
Parece-me uma opção lógica oferecer uma segunda oportunidade a jogadores que, não tendo sido até agora felizes na Luz, haviam todavia já demonstrado bastantes qualidades antes de aqui chegarem. O que não se entende muito bem é a forma como o processo foi conduzido nestas últimas semanas.
Porque não trabalharam os jogadores com o resto do plantel e foram dados em toda a imprensa como dispensados quando, apesar de se pretender vendê-los, se ponderava ainda a hipótese de os manter na equipa ? Não seria mais sensato mantê-los a trabalhar normalmente, até como forma de os valorizar?
Veja-se a este propósito o que se passou com Douala do Sporting, também ele a ser negociado mas mantendo-se sempre integrado no plantel para o que desse e viesse.
Douala acabou por sair, num negócio muito razoável para o clube de Alvalade. Karagounis e Karyaka irão ficar. Com que moral ?

QUO VADIS

Não ata nem desata.
O Caso Mateus ameaça poder tornar-se num enorme pesadelo para o futebol português.
Mais do que identificar culpados, importa neste momento encontrar uma qualquer rápida saída para o imbróglio que a extrema e absurda complexidade da teia juridica, e a absoluta incompetência de quem nela actua, originaram.
Parece claro que António Fiúza e Valentim Loureiro (que há muito deveria, por muitíssimos motivos, estar afastado do futebol) surgem à cabeça como os maiores responsáveis por esta surrealista situação. Mas também Laurentino Dias e Hermínio Loureiro, por omissão, terão de se juntar ao rol.
Vítimas só há uma: o futebol português.
Numa altura em que a selecção nacional conseguira uma classificação histórica no Mundial, e em que os três grandes garantiram todos, pela primeira vez, presença na Liga dos Campeões, só mesmo este grotesco caso para nos devolver ao nosso triste fado. O fado da palhaçada, do caciquismo, da incompetência, do tráfico de influências e da corrupção.
Se ninguém tem força ou vontade para colocar o insignificante Gil Vicente no seu devido lugar, como esperar que casos como o Apito Dourado tenham um desenlace positivo e regenerador ?