GENTE ZANGADA

Não é exclusivo do Benfica, nem do desporto, nem mesmo do país. Há demasiada gente zangada no mundo de hoje. Mesmo entre aqueles que não têm razões para o estar.
O país está em pleno emprego, está no topo dos critérios de segurança, tem um estupendo clima, é bonito, tem boa gastronomia e vinho bom e barato. Tem, naturalmente, problemas (todos têm) que advêm de circunstâncias internacionais (nomeadamente, e na actualidade, dos delírios trumpistas que, para além do número de mortos que vão somando, criam instabilidade económica e subida de preços por todo o mundo), de uma situação geográfica periférica face aos seus pares europeus, de uma dependência energética que é mais ou menos comum ao espaço europeu, e de um atraso estrutural que vem ainda de uma longa ditadura, precedida por séculos onde a lógica lusitana foi sempre a da busca da riqueza fácil recorrendo a uma qualquer árvore das patacas, chamasse-se ela Índia, Brasil, África ou, mais tarde, União Europeia, o que terá deixado o seu povo pouco dado a planeamento e/ou organização. Está, ainda assim, muito acima de qualquer média global em quase todos os parâmetros. Por exemplo, no PIB per capita está no top 40 de mais de 200 países. E quem esteja habituado a viajar sabe bem o que isso significa e no que isso se traduz.
Quem quiser saber o que é pobreza vá aos subúrbios de Nova Deli - para falar apenas daquilo que eu conheço, pois há ainda pior. Quem quiser saber o que é criminalidade vá às Honduras ou ao Equador (aí nunca me arrisquei a ir). Quem quiser saber o que é corrupção vá a Angola (e também há pior, sendo que o que se passa nos EUA é hoje um caso grave e inusitado de corrupção e abuso de poder). Para comer mal e apanhar chuva, basta o Reino Unido, mas podem também ir à Finlandia. A subsídio-dependência de que alguns falam, não é mais do que tirar pessoas da rua. Quem ande pela downtown de Los Angeles sabe o que isso é, e as consequências que tem (já agora, se o fizerem, vão de carro, de taxi ou antes das seis da tarde).
Tudo isto para dizer que, apesar de Portugal ser um belíssimo país, com excelentes características naturais, com excelentes condições de segurança, com protecção social suficiente para não encher as ruas de sem-abrigos, e onde um ex-primeiro-ministro pode ser preso e outros ex e actuais primeiros-ministros podem ser investigados pelas autoridades judiciais (prova de que a justiça, embora lenta e por vezes ineficiente, é livre), está hoje cheio de pessoas zangadas. Muito mais zangadas do que em tempos em que haveria mais razão para tal.
Há uma forte componente dessa zanga que é induzida pelos mecanismos polarizadores das redes sociais. Outra parcela é induzida por movimentos políticos populistas e demagógicos que com ela medram e sabem como a alimentar para depois se alimentarem dela. Uma terceira componente creio que é geracional, e tem a ver com grupos etários que tiveram uma infância e juventude muito mais facilitada do que os seus antepassados, com pais hiperprotectores e uma escola facilitista, o que os deixou com uma baixíssima tolerância à frustração - que necessariamente vão encontrar na idade adulta.
O Benfica é um clube popular. O mais popular em Portugal. É por isso todo um espelho deste caldo cultural.
Quando eu era mais jovem, se o Benfica perdia eu ficava triste. Se ganhava, ficava contente. Era assim eu, eram assim todas as pessoas que eu conhecia, desde logo o meu pai - responsável maior pelo meu benfiquistmo. Hoje o que se vê? Gente zangada. Ninguém já fica triste ou contente. Esses parecem sentimentos fora de moda. Haverá até quem não saiba o que significam quando aplicados ao desporto. Ficam zangados quando se perde, zangados até quando ganha (porque não se ganhou por mais, porque não se jogou bem, porque o jogo não era importante, porque o adversário era fraco, numa torrrente de animosidade autodestrutiva que tende para infinitos). Ficam zangados, seja com o árbitro, seja com o treinador, seja com os jogadores, e mais recentemente (o alvo perfeito) com o presidente. Se não sobrar mácula, que se achincalhe o adversário. Tristeza ou felicidade? Lá isso é que não!
Claro que a intolerância é absoluta e absolutista. Não há sequer um esforço para perceber quem pensa de forma diferente: se não diz o mesmo que eu, obviamente é burro e estúpido, porque só há uma verdade, que é a minha.
A ascenção aos poderes políticos mundiais de gente medíocre aí levada pelos zangados com tudo e com todos, está a tornar o mundo mais perigoso do que alguma vez esteve nos últimos 80 anos. Sinceramente não sei onde isto vai parar, e há demasiada gente a fechar os olhos àquilo que me parece uma corrida desenfreada para o abismo. Em Portugal também temos quem explore esse caminho: deitar tudo abaixo e depois logo se vê.
No meio de tudo, o futebol é apenas...futebol, e o Benfica é apenas...o Benfica. Mas não deixa de ser interessante perceber como o fenómeno se expressa até no seio de um clube desportivo. E como o bom senso, a tolerância, o equilíbrio e a moderação deixaram de ter espaço - pelo menos nos fóruns de opinião, nas redes sociais e nas caixas de comentários.

17 comentários:

Anónimo disse...

GOOD BYE RUI COSTA

Anónimo disse...

GOOD MORNING VIETNAME

Anónimo disse...

GOOD MORNING VIETNAME

Anónimo disse...

Deixa te lá de esquerdiçes mas é e dedica te á pesca

Anónimo disse...

Tears Run Rings

Anónimo disse...

" A subsídio-dependência de que alguns falam, não é mais do que tirar pessoas da rua" ...que tristeza de comentário já não basta você influenciar aqui os analfabetos e atrasados mentais com posts a defender o banana e a criticar a oposição e agora quer mandar essas esquerdiçes para aqui...LIVRA! Não se aproveita nada daí, pró banana e de esquerda 🤦

ANTI-ATRASADOS disse...

foda-se, lá continua o fialho na sua cruzada infinita para relativizar os insucessos do clube. Que figurinha deprimente.

mlm disse...

As pessoas ensandeceram. Basta andar pelas ruas, há uma violência latente. Consequências da pandemia?

Alberto João disse...

Eu até consigo concordar com a maior parte do que está escrito neste post. Nomeadamente com " que terá deixado o seu povo pouco dado a planeamento e/ou organização". Sem dúvida, como aliás se vê no Benfica de Rui Costa, e não é por zanga nenhuma, é porque pode e deve ser muito melhor! Ficaríamos alegres mais vezes...

Anónimo disse...

Bom, como costumo dizer, é dar-lhes espaço que eles vão brilhar: não há melhor sublinhado ao que escreveste, nem foi preciso esperar muito…

LF disse...

Esquerdiçes?????
Defender apoios sociais aos mais desfavorecidos é esquerdiçe????
Meu Deus, onde isto chegou!!!!

LF disse...

Verdade

LF disse...

Hoje em dia quem não é de extrema direita é logo acusado de ser comunista ou socialista ou esquerdista.
Como no salazarismo: todos os democratas eram "comunistas".

LF disse...

Já pensei nisso, mas creio que não. A não ser talvez no facto de muita gente ter, nesse período, começado a utilizar, ou intensificado a utilização de redes sociais.

LF disse...

O Papa Francisco era então um perigoso esquerdista...

Anónimo disse...

Em relação á tua segunda resposta o mesmo se pode dizer se for ao contrário,quem não é de esquerda é de extrema direita... enfim

LF disse...

direitos humanos, estado de direito, solidariedade, liberdade, moderação, tolerância. Isto para mim não é direita nem esquerda. É decência.