20/04/11

DESPIR O RIVAL

"Trinta anos de práticas subterrâneas, de corrupção desportiva, de manobrismo, de cinismo e de mentira, empurraram o FC Porto para o sucesso e para os títulos. Seria fastidioso voltar a descrever métodos que todos pudemos ouvir nas escutas do Apito Dourado, lembrar episódios a que todos assistimos nos estádios deste país, ou manifestar desconfianças acerca de aspectos nunca devidamente investigados – como sejam os relativos a jogadores emprestados a equipas adversárias, pré-contratados a estas, ou comprometidos de forma pouco transparente, como sejam os relacionados com complexas teias físicas, médicas e biológicas acerca das quais modalidades como o ciclismo (de que sou fã, e acompanho em pormenor) nos vão ensinando um pouco. O FC Porto de Pinto da Costa é, na verdade, um compêndio de atropelos às regras e ao desportivismo. É um monstro que obscurece, há tempo demais, o desporto português. É lama que envergonha muitos cidadãos do Porto, e do norte do país em geral.

Mas se toda esta camada de podridão ensombra os êxitos desportivos daquele clube, ela não esgota, há que dizê-lo com honestidade, a panóplia de razões que estão por detrás desses êxitos. Para além de uma metodologia de desrespeito pelas leis e pela ética desportiva, o FC Porto evidencia também, no outro lado da moeda das suas vitórias, aspectos que merecem, senão admiração (tratando-se de quem se trata, a palavra seria forte e despropositada), pelo menos alguma atenção, de modo a que, por um lado, não nos deixemos surpreender por eles – e se não conhecermos bem os nossos adversários, nomeadamente aqueles que são os seus pontos fortes, mais difícil será batê-los -, e por outro, consigamos igualmente saber usá-los na nossa casa, e em nosso favor. Se práticas corruptoras recusamos liminarmente utilizar, nessas outras vertentes podemos, e devemos, saber extrair proveito, pois aí é de futebol que se trata. É dessas que passo a falar.

Olhando para o plantel do FC Porto, ressalta desde logo à vista a planta física da generalidade dos seus jogadores. Hulk, Guarin, Maicon, Fernando, Varela, entre outros exemplos, são senhores de uma morfologia atlética impressionante, e que contrasta com a da generalidade das equipas portuguesas. Esse é um dos itens em que o FC Porto encontra vantagens, pois num futebol como o português, onde abundam equipas fechadas e combativas, ser capaz de manter supremacia nos momentos em que a dimensão física dos jogos dita leis é aspecto nada despiciendo. Aliás, se verificarmos bem, essa tipicidade estende-se muitas vezes às restantes modalidades, onde os dragões apresentam sistematicamente equipas altas e muito musculadas, naquilo que parece ser uma regra da casa.

Outro padrão que também encontramos nas equipas portistas é a manutenção de uma filosofia de jogo constante de época para época, onde - na humildade da minha opinião de treinador de bancada - me parece que a capacidade de pressão e recuperação da bola, e a forma de retirar espaços para os adversários pensarem o jogo (assente numa grande disponibilidade táctica de todos os elementos, e numa rigorosa cobertura do terreno de jogo e respectivas compensações) são a principal alavanca. Com Jorge Jesus, o Benfica tem mantido também alguma estabilidade táctica, podendo acentuá-la nas próximas temporadas.

Mas há ainda outro plano em que o FC Porto pode, e deve, ser analisado, sem pruridos, nem complexos ou cegueiras que em nada nos beneficiam. A força mental revelada genericamente pelos jogadores azuis-e-brancos é digna de realce, e configura, indesmentivelmente, uma das suas principais vantagens comparativas – pelo menos de entre aquelas que poderemos considerar como virtuosas.

É normal que certas derrotas afectem o ânimo das equipas. É também frequente que vitórias mais convincentes possam conduzir a algum deslumbramento. Pois o FC Porto parece ser totalmente insensível a esse tipo de factores, aparentando a mesma entrega e disponibilidade mental em todos os momentos da época, e em todos os momentos de cada jogo. Este é um crédito que, em boa fé, não lhe poderemos negar.

Não sei como tal é conseguido. Mas desconfio que o discurso regionalista e fanatizante que preenche toda a cultura do clube não seja alheio a essa espécie de suplemento de alma, que tanto os ajuda a ganhar. Não sendo possível trespassa-lo de forma ligeira para um clube de matriz universalista como o Benfica, teremos de encontrar rapidamente formas de, também nós, alimentar, na mesma medida, a galvanização e concentração incessantes dos nossos atletas, de modo a que entrem em campo, semana a semana, com a sua agressividade competitiva sempre nos limites máximos. Isto se queremos efectivamente alcançar uma hegemonia consistente e sustentável, que deixe para trás o FC Porto, mesmo nos terrenos onde ele é mais forte.

É claro que todas as boas intenções poderão esbarrar nos Benquerenças e Cardinais deste mundo. Mas quando, para lá do nosso proverbial talento, da nossa alma grandiosa, da nossa cultura universalista, do nosso subliminar espírito de glória, conseguirmos estabelecer também uma vincada superioridade em parâmetros, do âmbito da licitude (somente nesses!), que hoje caracterizam o principal rival, estaremos certamente mais perto de passar por cima daqueles efeitos paralelos, conseguindo assim, igualmente, reforçar a nossa voz de indignação face aos mesmos. Estaremos então, creio, mais perto de vencer."


LF, Jornal "O Benfica", 15/04/2011