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MEMÓRIA AZUL E BRANCA - Os Anos Dourados do Juventude de Évora

O Juventude de Évora está a um passo (uma vitória) de regressar à II divisão. Num momento como este, assaltam-nos a memória outras eras, em especial as várias ocasiões em que o clube esteve à beira de subir, mas…à I divisão nacional, sem que infelizmente alguma vez o tenha conseguido. Apesar da mágoa e da decepção que cada um desses episódios originou na altura, eles são, inegavelmente, os pontos altos do historial deste grande clube alentejano. VEDETA DA BOLA, em semana que “tirou” para dar destaque ao "derby da década" em Évora, aproveita a circunstância para deixar aqui uma súmula daqueles que foram alguns dos momentos mais importantes da história do Juventude, tanto quanto a memória (minha ou de outros) o permite, agradecendo desde já a todos os que possam corrigir ou acrescentar algo aos dados que aqui estão apresentados.
O destaque vai naturalmente para o final dos anos setenta e principio de oitenta, altura em que, estando a ainda a despertar para o futebol, me tornei eu próprio juventudista, em parte à conta de tanto sofrimento nas dramáticas lutas pela subida à primeira divisão. Mas antes disso, já muita água correra debaixo da ponte deste rio. E muita correrá ainda daqui em diante, assim acredito e espero.

É difícil conhecer em rigor tudo aquilo que se passou em tantos anos de história (já lá vão oitenta e oito), que se começou a escrever nos antigos campeonatos regionais, e teve sequência em várias décadas de campeonatos nacionais das II e III divisões. Há todavia uma temporada, e em particular um jogo, que se pode destacar na história da velha rivalidade com o Lusitano, e que ainda hoje é recordado por quem o viveu, marcando (suponho) a primeira ocasião em que a equipa azul e branca esteve perto da glória da divisão maior.
Em 1951-52, Juventude e Lusitano disputavam o acesso à segunda fase do campeonato, que podia proporcionar a subida à primeira divisão - na altura a segunda divisão era disputada em três fases. O Juventude, campeão nacional da III divisão na época anterior, tinha uma equipa fantástica, onde actuavam o ex guarda-redes do Benfica Rogério Contreiras, bem como Casimiro, Lampreia, Buccheli, Pinto de Almeida, Jorge Mendonça e Passos entre outros, era a chamada equipa maravilha. No Lusitano actuavam também elementos de grande valia, não fosse essa a base da equipa que acabou por fazer furor na sua chegada ao primeiro escalão.
No Sanches de Miranda, ainda sem relva, os rivais disputaram uma das mais empolgantes partidas de sempre entre eles. Ao intervalo o Lusitano vencia por 1-4. Na segunda parte, uma extraordinária recuperação dos da casa levou o resultado até 4-5, beneficiando então de um penálti nos últimos instantes da partida, quando Jorge Mendonça foi agarrado pela cintura dentro da área verde e branca. O penálti foi convertido e o Juventude conseguiu uma espantosa igualdade 5-5, que então lhe permitia continuar a acalentar esperanças de apuramento.
Muito polémica foi a arbitragem, pois um dos golos do Lusitano terá resultado de uma grande penalidade mal assinalada - era abundante a especulação sobre a influência que o homem forte do Lusitano, o então todo poderoso governador civil de Évora, com fortes ligações à PIDE, tinha sobre as arbitragens.
Esse campeonato terminaria com uma igualdade de pontos entre ambos (28 pontos em 18 jogos), e vantagem para o Lusitano no número total de golos marcados (66 contra 64 do Juventude) – no confronto directo também existiu uma igualdade absoluta, pois no Campo Estrela dera-se outro empate, este a três golos.
O Lusitano apurou-se para a segunda fase, onde conseguiria juntamente com o Vitória de Setúbal o acesso à fase nacional, que venceu tornando-se campeão nacional da II divisão, e ascendendo ao escalão maior, onde ficaria por 14 anos consecutivos, e chegaria a alcançar um 5º lugar, venceria num também célebre jogo o Benfica por 4-1, e faria brilhar homens como o guarda-redes Dinis Vital, os defesas Falé e Paixão, o médios José Pedro e os avançados Pepe e Patalino, entre muitos outros.
Na temporada seguinte, o Juventude esteve ainda mais perto da glória. Desta vez, estavamos em 1952-53, venceu mesmo a sua zona (com 14 vitórias e dois empates em 18 jogos) e apurou-se para a tal segunda fase. Todavia aí, uma vez mais não foi feliz, sendo ultrapassado in-extremis por Oriental e CUF (perdeu todos os jogos fora, e cedeu um empate em casa perante os de Marvila, vencendo as restantes duas partidas), quedando-se no 3º lugar e assim fora da corrida.
Em 1953-54, enquanto o Lusitano já brilhava no escalão máximo, a equipa azul e branca continuava a tentar a sua sorte. O modelo do campeonato foi alterado, passando a existir apenas três zonas, e apenas uma fase final em sistema de poule com a participação dos dois primeiros de cada uma das zonas, a partir da qual, em seis, subiriam os três primeiros.
O Juventude ficou em segundo lugar na zona Sul com 31 pontos em 22 jogos, apurando-se assim para a fase final nacional, onde todavia não foi além do 5º lugar (em seis), sendo batido por CUF, Torreense e Sporting de Espinho. Só nos anos setenta o Juventude voltaria a estar próximo da subida.
Depois de algumas épocas discretas no segundo escalão - apimentadas com um 4º lugar em 1957-58, justamente um ano depois do Lusitano ter ficado em 5º, mas na I divisão -, os eborenses tombariam para a III divisão em 1961, de onde só voltaram após o 25 de Abril. A revolução marca aliás, de forma clara, uma inversão de forças no futebol eborense - queda competitiva do Lusitano, e robustecimento do rival Juventude. Após o regresso (justamente em 1974), depois de dois 12ºs lugares, o Juventude partiu para os anos eventualmente mais cintilantes do seu historial.

Em 1977-78, efectivamente, a equipa azul e branca esteve a um minuto (!) do escalão maior.
Uma equipa de onde haviam saído o goleador Pereira (para o Lusitano), bem como o guarda-redes Marcos, e ainda Mulatinho, Humaita, Zinho, Mitó e Torres, resultou todavia reforçada com a aquisição de elementos de grande qualidade como o guardião do primodivisionário Atlético Lapa, o ex sportinguista e internacional Fernando Peres, que seria jogador-treinador, e o ponta-de-lança do Portalegrense Arnaldo José. Era uma equipa bastante coesa, e que realizou um campeonato extremamente regular, no qual quase nunca largou a luta pelos primeiros lugares.
Depois de ter terminado em segundo lugar a dois pontos (a duas jornadas do fim a distância era apenas de 1 ponto, mas uma derrota no Montijo na última jornada selou as contas finais) do Barreirense de Jorge Martins, Frederico, Araújo e Carlos Manuel - mesmo vencendo os dois jogos com a equipa da margem sul, 2-0 em Évora na primeira jornada, e 1-0 a abrir a segunda volta no D.Manuel de Mello -, o Juventude apurou-se para a então liguilha de promoção, onde defrontou os segundos classificados das zonas centro (Académico de Viseu) e norte (Aliados de Lordelo), para definir o quarto novo primodivisionário.
Nessa pequena competição a três, a equipa eborense chegou à penúltima jornada, e seu último jogo (no mal fadado dia 10 de Junho de 1978), apenas com necessidade de empatar em terras de Viriato para subir à primeira divisão – perdera em Lordelo por 1-2, e vencera em casa os do norte por 4-0 (numa tarde inspirada de Jerónimo que fez um hat-trick) e os do centro por 3-2. Aos 89 minutos do jogo de Viseu registava-se uma igualdade a um - tendo o golo do Juventude sido apontado por Fernando Peres. Todavia, num lance ensombrado pela polémica, os viseenses marcaram o golo da vitória por intermédio de Penteado nos derradeiros instantes, lavando em lágrimas toda uma cidade que escutava, junto à antiga sede no Páteo do Salema, o relato da partida.
O Juventude mantinha ainda as esperanças, pois se na última jornada o Académico de Viseu perdesse em Lordelo, eram os alentejanos que subiam. Isso não se verificou, embora uma vez mais tenha sido a polémica a conduzir o Académico ao empate a um, depois de ter estado a perder durante muitos minutos.
O sonho foi-se, mas ficaram na história do clube esses homens que tão perto estiveram de o concretizar. A equipa tipo juventudista era constituída por Lapa, Modas, Ricardo, Fernando Sousa, José Luís, Ferro, Lelo, Peres, Arnaldo José, Edmilson e Jerónimo (melhor marcador da equipa com 21 golos). Jogavam também frequentemente Teles, Artur, Johny e Cila. O guarda-redes suplente era o histórico Antoninho.
Que me perdoem o apontamento auto-biográfico, mas esta época o Juventude, tendo falhado a subida, ganhou um novo adepto.
Tinha eu oito anos e o meu pai levou-me ao derby com o Lusitano no Sanches de Miranda. À partida para este jogo, ainda clubisticamente indefinido, recordo-me de pensar para mim próprio que a equipa que o vencesse teria o meu apoio para sempre.
Por volta dos 70 minutos de jogo, com o resultado ainda empatado a zero, Jerónimo recebeu a bola na área vinda do lado esquerdo, e atirou para o fundo da baliza de Gomes (do lado do então futuro campo de treinos). Estava feito o tento da vitória azul e branca.
Quando se deu o episódio de Viseu, já as minhas lágrimas se juntavam à dos maiores juventudistas…
O Lusitano desceria à III divisão nessa temporada (pela terceira vez no seu historial, as outras tinham sido episódicas e no início da década), mau grado ter uma equipa recheada de nomes sonantes como Gomes, Simplício, Leonel, Zambujo, Quim, Pereira, Fernandes (todos eles ex ou futuros juventudistas), e ainda Matine (ex Benfica), Gerúsio, Hilton, Cícero, José Chico e Hélder. Nos derbys, para além do 1-0 de que falei, no Campo Estrela aconteceu um empate a um golo.

Quis o destino que no ano imediato o Juventude voltasse a estar muito perto da tão almejada subida.
Para 1978-79, a direcção azul e branca investiu fortemente na sua equipa. Beneficiando da venda do esquerdino José Luís - foi para o Vitória de Setúbal e chegaria mais tarde a ser titular do F.C.Porto, em 1980-81 com Hermann Stessl – e do avançado Jerónimo, o Juventude adquiriu vários jogadores de grande categoria, formando uma equipa que talvez não tenha subido por ser desadequada do nível da II divisão. Na verdade era uma equipa de primeira, e talvez não seja exagero dizer que estaria entre as dez ou doze melhores equipas de futebol do nosso país. Mantendo o técnico, para se juntarem aos restantes jogadores da época anterior chegaram ao Juventude: o excêntrico guarda-redes Gomes e o lateral Simplício (ambos ex Lusitano), o central Barrinha (jogara no União de Tomar e seguiria depois para o Vitória de Guimarães), os médios Cardoso (ex Atlético) e Jorge Jesus (esse mesmo, actual treinador do Belenenses, e ex jogador do Sporting, União de Leiria e Estrela da Amadora), o ala Luís Filipe (ex Atlético, sendo de lembrar que o Atlético tinha então descido havia uma época da primeira divisão), o avançado brasileiro Dário (ex Feirense, e futuro jogador do Vitória de Setúbal, onde chegaria a marcar golos ao Benfica e ao F.C.Porto) e o avançado, também brasileiro, Nivaldo.
A equipa tipo seria então Lapa, Simplício, Ricardo, Barrinha, Modas, Cardoso, Jesus, Luís Filipe, Arnaldo José, Edmilson e Dário.
O Juventude fez uma época fantástica, somando inclusivamente mais pontos que no ano anterior (41 em 77-78 e 44 em 78-79), e marcando 65 golos em 30 jogos, de onde avultaram impressionantes goleadas como os 6-1 ao Odivelas logo na primeira jornada e 5-0 ao Seixal. O futebol que praticava era apaixonante, e só um pequeno pauzinho estragava a engrenagem: havia também um Portimonense de luxo.
Efectivamente, apostada no rápido regresso ao escalão maior, a equipa algarvia contava com um plantel fabuloso, que aliás foi a base da sua equipa nos anos seguintes, nos quais se manteve na ribalta do futebol nacional. A sua grande força estava também no sector ofensivo, onde os dois Nelsóns eram uma fábrica de fazer golos. Nelson Fernandes, ex Benfica, ex Sporting, com muitos anos de futebol nacional e internacional de topo, era a experiência que compensava a juventude do ex júnior do Benfica e, na altura, grande promessa do futebol português, Nelson Moutinho, precisamente pai de João Moutinho actual médio do Sporting e da selecção nacional. Atrás deles, no meio campo, actuava o brasileiro Paulo Campos, grande goleador também, que em 1981-82 jogaria no Benfica, chegando a participar em jogos da Taça dos Campeões Europeus. Na baliza estava Pinhal, ex Sporting, e na defesa Mota também recrutado aos leões.
Nos jogos entre Juventude e Portimonense os eborenses levaram vantagem. Triunfando por 1-0 em Évora, numa tarde de Novembro e de casa cheia, com um golo de Dário aos 70 minutos num pontapé de fora da área, parecido com o golo de Nuno Gomes à Espanha no Euro 2004, marcado na baliza do lado da rua, a equipa alentejana arrancou um empate a zero em Portimão já em plena segunda volta, jogo que fez deslocar centenas, senão milhares de juventudistas ao Algarve.
Todavia, em termos globais o Portimonense acabou por levar a melhor, garantindo uma vantagem de três pontos após uma inesperada derrota do Juventude em Sarilhos Grandes por 3-0, vantagem essa que não mais perderia até ao fim. O Juventude ia portanto estar novamente na Liguilha.
Uma vez mais a equipa eborense entrou com o pé esquerdo nessa dramática prova que animava ano após ano os finais de época por essa altura. Na primeira jornada em Santa Maria de Lamas não conseguiu evitar uma copiosa derrota por 4-0 frente ao União local que não deixava bons augúrios. Todavia a equipa recuperou e venceu em casa o Rio Ave por 3-0.
Na jornada seguinte, em jogo que recordo como se fosse ontem, o Juventude comprometeu as suas aspirações ao ceder uma igualdade a zero frente ao Lamas, que contudo ainda deixava algumas esperanças para a última jornada, onde em Vila do Conde o Juventude, caso vencesse, asseguraria a subida.
Era difícil pois o Rio Ave, onde jogavam Alfredo, Adérito, Trindade, Mário Reis, Baltemar Brito (adjunto de Mourinho no Chelsea) e o avançado N’Habola também precisava de vencer e jogava em casa, sendo o grande favorito à subida.
Mais difícil ficou o panorama quando Cardoso, com o resultado em branco, desperdiçou uma grande penalidade, facto que muita tinta fez correr nos tempos seguintes, sendo a equipa acusada de não ter querido subir de divisão, numa altura em que, recorde-se, o maná das transmissões televisivas ainda não fora descoberto, e a divisão principal criava dificuldades financeiras que nem todos estavam preparados para enfrentar.
O resultado foi uma derrota por 1-0, e a festa vilacondense.
Nesta temporada os únicos derbys foram para uma denominada Taça Amizade, e culminaram em vitórias dos azuis e brancos por 2-1 em casa e retumbante 1-4 num Campo Estrela cheio.

Na época 1979-80 deu-se uma razia no plantel com as saídas de Barrinha, Cardoso, Luís Filipe, Dário, Jesus, Nivaldo, mas também de Lapa e Edmilson. As contratações de Pinto (ex-V.Setúbal), Galhofas e João Santos (ambos ex-Benfica), Pedro Paulo (ex-Ac.Viseu), Edvaldo e Bolota (ex-Montijo) tardaram a surtir o efeito pretendido, e a equipa foi-se afundando na tabela, com várias derrotas consecutivas e de lanterna vermelha nas mãos.
Como sucede nestas ocasiões, foi Fernando Peres o primeiro a pagar a factura, sendo substituído pelo eborense, ex guarda-redes do Lusitano e futuro técnico do Farense na primeira divisão: Dinis Vital.
As melhorias foram notórias, com uma espectacular recuperação que, levando a equipa ao sexto lugar chegou a lançar a esperança de nova Liguilha (o primeiro lugar cedo ficou entregue ao Amora, que me lembro de ver ganhar em Évora por 0-3, numa tarde de glória para o avançado Tateu autor de dois golos). Mas alguns empates incómodos empurraram o Juventude para o 9º lugar final.
Nesta temporada a representatividade do futebol eborense ficou a cargo do Lusitano, que chegado da terceira divisão, onde em 1978-79 tinha sabido reconquistar o seu lugar, acabou por conseguir um surpreendente 2º lugar, alcançado in-extremis, após vitória retumbante por 0-3 na última jornada em Sacavém (depois de triunfo por 3-1 em Évora diante do Barreirense), numa verdadeira final pois ganhando o Sacavenense, seria ele a seguir para a Liguilha.
A equipa lusitanista não faria história nesse torneio de competência, fazendo apenas 2 pontos, resultado de uma vitória ante o Fafe, e derrotas em Fafe e em ambos os jogos com o…Académico de Viseu, autêntica besta negra das equipas de Évora nesta prova, e que não deixaria por aqui os seus estragos.
A equipa tipo do Lusitano, muito laboriosa e recheada de jogadores da cidade e com vários anos de clube, era composta por Figueiredo, Leonel, Pio, Zambujo, Cunha, José Chico, Lopes, Mosca, Zorrinho, Avelar e Filipe. Para outras opções sentavam-se no banco habitualmente Gaspar, Carvalho, Silva Santos, Fernando, Quim e Custódio, este último um talento que acabou por se perder nas malhas da droga.

Em 1980-81 seria o Juventude a resgatar o protagonismo, voltando a estar a um pequeno passo da subida ao escalão máximo do nosso futebol.
Mantendo Dinis Vital, o clube apostou numa equipa mais jovem, mais barata e combativa, mas não menos valorosa, como que fazendo jus ao seu lema “Força de Vontade”. Saíram Guerra, Fernando Sousa, Pedro Paulo, Pinto, Ferro, Arnaldo José, Artur, Santos e Galhofas. Foram contratados o guardião Peres (ex-Beira Mar), os centrais Sabú e José Carlos (ambos ex-V.Setúbal), os médios Quim (ex-V.Setúbal), Fernando e Carvalho (ambos ex-Lusitano) e o experiente avançado Coentro Faria (ex-Barreirense, V.Setúbal e Montijo).
O princípio de temporada não foi bom, e à quarta jornada o Juventude estava abaixo da linha de água com três derrotas consecutivas. No final da primeira volta contudo, mesmo com o peso de 5 derotas e 4 empates em 15 jogos, a equipa já fora capaz de recuperar até ao sétimo lugar.
Na segunda volta o Juventude explodiu então para uma das mais entusiasmantes temporadas da sua longa história. Com várias vitórias consecutivas - muitas vezes tangenciais (11 no campeonato), série apenas interrompida por uma derrota no Campo Estrela por 1-0 (na primeira volta o Lusitano perdera 3-2 no Sanches de Miranda) -, a equipa de Dinis Vital foi trepando lugares na classificação, vencendo em terrenos difíceis como Faro (0-1 ao Farense com golo de José Fernandes), Cova da Piedade, Oriental, Odivelas ou Montijo. A quatro jornadas do fim o Juventude, com uma sequência de 11 vitórias em 13 jogos (lém da derrota no Campo Estrela, deu-se um empate caseiro a zero com o Desportivo de Beja) já era segundo a dois pontos do Estoril-Praia.
Na antepenúltima jornada, os eborenses venceram em casa o Vasco da Gama de Sines por 3-2, enquanto o Estoril derrapava perdendo o seu jogo e deixando-se igualar no topo da tabela. A equipa estorilista beneficiava contudo da vitória por 1-0 sobre o Juventude na última jornada da primeira volta, mas…ainda tinha de vir a Évora.
Na jornada seguinte o Estoril ganhou, mas o Juventude não foi capaz de pontuar no Estádio dos Barreiros diante do Nacional, perdendo por 2-0, num jogo que fez uma vez mais juntar uma pequena multidão junto da sede do clube para ouvir o relato.
Mas nada estava perdido. Na última jornada, com dois pontos a separá-los, jogava-se na Cidade Museu um Juventude-Estoril !
Em caso de vitória por dois golos de diferença o Juventude igualava o adversário e ganhava vantagem no confronto directo, subindo assim de forma directa, à primeira divisão.
Não me recordo de ver tão grande enchente no Sanches de Miranda, e só a presença da selecção em Évora terá trazido tanta gente ao futebol na cidade nos últimos 40 anos. Foi erguida uma bancada suplementar, e foi precisamente nela que me sentei. Tinha 11 anos.
Nessa tarde tórrida de domingo, Juventude alinhou com Peres, Simplício, José Carlos, Ricardo, Modas, Lelo, Quim, Fernando, Edvaldo, Coentro Faria e Bolota. Viriam a entrar depois Carvalho e Baía.
O Estoril-Praia, orientado por António Medeiros, apresentava uma equipa tremendamente experiente e base da sua temporada anterior na primeira divisão: Manuel Abrantes, Teixeirinha (ex-F.C.Porto), Franque (futuro jogador do Juventude), Pedroso, José António (futuro internacional do Belenenses já falecido), Paris, Manaca (ex Sporting e V.Guimarães), Salvado, Jerónimo (esse mesmo, agora do outro lado), José Abrantes e Diamantino (ex titular do Benfica, no início dos anos setenta).
Depois de uma primeira parte equilibrada, quando se estava à beira do intervalo, Coentro Faria fez uma recarga vitoriosa a um remate de meia distância, atirando para o fundo da baliza de Manuel Abrantes. Foi o delírio no estádio, com uma mini-invasão de adeptos eufóricos com um golo em tão importante momento.
Durante o intervalo a esperança tomou conta do estádio e da cidade. Mas logo aos 5 minutos do segundo tempo, José Abrantes desviou um cruzamento de Diamantino e bateu Peres, restabelecendo a igualdade.
O Juventude sentiu muito este golo, e não mais voltou a ser a mesma equipa acutilante que fora até então. Veio ao de cima a experiência estorilista, e a dez minutos dos noventa, de novo José Abrantes em lance individual, acabou com o jogo e com a ilusão dos da casa. 1-2 foi o resultado final, com a invasão a ser agora dos muitos adeptos que acompanharam o Estoril e no relvado fizeram a festa de uma subida que deixou Évora em lágrimas.
Como vimos, já por três ocasiões o Juventude havia estado perto da subida à primeira divisão. Todavia nunca esses momentos de decisão tinham sido em Évora, nem na fase regular da prova. Este foi pois um momento que fica na história do clube, como um dos mais amargos, mas seguramente um dos mais altos.
Depois ficou uma vez mais a polémica, sobretudo em torno de Coentro Faria que, à data desta decisiva partida, estaria já comprometido com o Estoril, onde jogou no ano seguinte. O ponta-de-lança, que marcara 15 golos no campeonato (mais sete que Bolota, o segundo melhor marcador da equipa) foi então acusado de falta de zelo contra a sua futura equipa, algo que poderia ter estado na origem da derrota. Acusações sem sentido, até porque Franque, defesa estorilista, viria para o Juventude no ano seguinte. Coentro Faria viria mais tarde, em duas ocasiões, a treinar a equipa eborense.
Na Liguilha (agora a quatro), uma equipa cansada, desmoralizada e descrente, foi facilmente batida em casa e fora por Nazarenos e …Académico de Viseu (que mais uma vez ganhava esta poule). Só perante o Leixões o Juventude conseguiu dar um ar de sua graça, batendo os “bebés” por 3-0 em casa, e empatando no estádio do Mar 2-2.
O Lusitano fez um campeonato discreto acabando em 9º lugar.

Na época seguinte (1981-82) o Juventude começou muito bem, parecendo querer finalmente vingar-se da sua sorte. Ao fim de três jornadas, três vitórias e liderança isolada.
Seria sol de pouca dura, pois a equipa não tinha já a mesma coesão, e acabaria por ir perdendo fulgor, acabando em 6º lugar.
As aquisições foram várias, a saber: Damas e Andrade (ex juniores do Sporting), Franque (ex-Estoril), Marco Aurélio (ex-F.C.Porto, a quem Toni partira uma perna dois anos antes), Manuel Fernandes (ex-Belenenses), Zezinho (ex-Beira Mar), Marinho (ex-Farense), Pais, Barbosa e José António. Mas por outro lado saíram Bolota, Peres e José Carlos (todos para o rival Lusitano), além do já falado caso de Coentro Faria.
As notas de realce desta temporada foram dadas pelas duas vitórias sobre o Lusitano -impedindo-o de disputar a Liguilha, pois ficou em 3º lugar, com uma equipa em que o goleador Cândido era a principal estrela -, por 4-2 em casa e por 1-3 no Campo Estrela, mas sobretudo pela presença nos quartos-de-final da Taça de Portugal, onde depois de bater o Odivelas com um golo solitário de Zezinho num sábado de Carnaval, o Juventude soube que iria defrontar, também em casa, a equipa mais acessível do lote, o Ginásio de Alcobaça, também da II divisão, mas lider destacado da zona centro. Quem se apurasse para as meias-finais, teria como possíveis adversários Benfica, Braga e Sporting – no caso seria o Sporting em Alvalade.
Nesse jogo, com estádio cheio, reviveu-se o drama da época anterior frente ao Estoril. Dois golos de Nelito cedo definiram o rumo da eliminatória, e nem o golo de Lelo chegou para sonhar mais alto. 1-2, maldito resultado…
Lelo e Modas transferir-se-iam para o Ginásio de Alcobaça na época seguinte, em que jogaram na primeira divisão, voltando a Évora na temporada seguinte, depois de terem descido.

1982-83 marca o fim de um ciclo. O Juventude, desgastado anímica e financeiramente de tanta tentativa frustrada, vítima de uma região empobrecida em tempos de recessão económica, deixava-se enlear no novelo dos salários em atraso e caía para a III divisão.
Ameaças de greve, faltas a treinos, de tudo aconteceu nesta temporada. Muitos jogadores saíram, poucos ficaram. 14º lugar com 25 pontos foi bilhete para a despromoção.
O Lusitano, que nesta época, com uma equipa fortíssima - Peres, Manuel Fernandes, Paulo César, Dedeu, Cândido, Quim, Américo e o regressado a Évora José Luís, orientados por…Dinis Vital - voltou à Liguilha, perdendo para o Espinho a hipótese de subida, seguiria o mesmo caminho poucos anos mais tarde, acabando por descer em 1985-86.

Daí para cá não mais as equipas eborenses se aproximaram do escalão maior. A Liga de Honra tornou-se num filtro demasiado selectivo para estimular investimentos, e as subidas à II divisão B foram os únicos grandes motivos de regozijo para um e outro clubes.
Desde 1983 o Juventude dividiu as suas presenças entre a IIB e a III (doze épocas em cada, com três subidas e três descidas), nunca mais conseguindo o protagonimso anterior.
Dois quartos lugares na II B, com o técnico João Cardoso, foram o que de melhor a equipa eborense conseguiu nos últimos 15 anos, apesar de terem passado pelo Juventude jogadores como Mamede (que fez carreira no futebol italiano, designadamente na Reggina), Juvenal (partiria para o V.Setúbal), Trindade (seguiu para norte, jogando em alguns clubes da Liga de Honra), Paulo Barreto, Rui Pedro, João Cabral, Ença Camará, Ibraima, João Serrano, Stoynov, Ciro, Nuno Gaio ou David (este logrando a fama nesta época ao marcar no Dragão o golo vitorioso do Atlético em jogo da Taça).
O Juventude permanece há sete épocas consecutivas na terceira, tendo agora óptima oportunidade para regressar ao seu lugar.
O Lusitano por seu turno, desde que desceu em 1986, apenas disputou a II divisão em quatro épocas, descendo mesmo em 2003 aos Distritais, naquele que foi o momento mais negro da sua brilhante história, e que na próxima semana se poderá lamentavelmente repetir.
Veremos o que acontece no domingo, e que continuidade terá a história destes dois históricos emblemas.
FOTOS: www.juventudesportclube.blogspot.com e www.cromosdefutebol.blogspot.com

DE VIDA ...E DE MORTE !

Nem só as grandes competições nacionais e internacionais nos oferecem momentos de magia futebolística. Do outro lado das Ligas dos Campeões, dos Mundiais, dos Europeus, está também o futebol dos escalões secundários, praticado por jogadores sem o mesmo talento, mas com igual empenho e vontade de vencer. É aliás muitas vezes nestes escalões que se encontram as rivalidades mais fratricidas, nas quais o futebol se assume como muito mais que um mero jogo, para tomar a face de uma batalha de culturas e identidades locais e regionais bem vincadas.

O DERBY

As segundas e terceiras divisões nacionais oferecem-nos uma panóplia de diferentes emoções por esse país fora, mas talvez em nenhum local como Évora seja possível encontrar um derby tão enraizado nesta verdadeira sub-cultura futebolística nacional, não fossem Juventude e Lusitano dois dos clubes mais antigos da história do futebol luso. O encontro entre ambos é pois, pode dizer-se, um dos mais apaixonantes derbys do futebol português, pelo menos no que às divisões secundárias diz respeito, mesmo se as respectivas equipas não tenham a força competitiva que ostentaram no passado, quando Lusitano era presença segura no escalão principal e o Juventude lutava ano após ano pela ascensão ao mesmo.
No domingo, pelas 16.00 horas, no velhinho Estádio Sanches de Miranda, os dois emblemas voltam a defrontar-se para mais um frenético combate. Desta vez porém, mais do que a tradicional rivalidade entre ambos, muita coisa mais está em jogo, como percebemos se olharmos para a classificação. Aliás, objectivamente, tudo está em jogo no que à presente temporada diz respeito, constituindo este derby uma encarnação literal da expressão “de vida ou de morte”, que normalmente associamos aos desafios decisivos.
O Juventude está a um passo da subida à II Divisão, tendo para isso apenas que fazer o mesmo resultado que o Amora, nesta que é a sua derradeira jornada (folga na última em razão do número ímpar de equipas na série). Por outro lado o Lusitano está, a duas jornadas do final, abaixo da linha de água, vendo-se na necessidade imperiosa de vencer o rival para poder acalentar esperanças de se manter na III Divisão. É pois um momento absolutamente dramático para ambos, algo que não me recordo de ter ocorrido nos últimos trinta anos de confrontos entre eles.

A HISTÓRIA

Como já foi aflorado, o historial desportivo do Lusitano é bem mais rico que o do rival, bastando para isso 14 temporadas na primeira divisão. Contudo, desde essa era para cá, os clubes têm-se equivalido na sua representatividade, mantendo todavia a sua matriz sociológica identitária .
Se cingirmos a análise aos últimos trinta anos- justamente desde que nos finais de setentas e princípio de oitentas ambos os clubes desfrutaram de significativas oportunidades de subida à primeira divisão (o Juventude em 1978, 1979 e 1981, o Lusitano em 1980, 1982 e 1983) - verificamos que o equilíbrio entre o palmarés dos dois é a nota dominante, com períodos de superioridade de um e de outro, logo esbatidos ou mesmo invertidos. Ainda assim existe, neste período, uma ligeira vantagem do Juventude, quer em número de épocas em escalão acima do rival, quer nos resultados dos confrontos directos entre os dois – em trinta anos, e trinta e cinco jogos entre Juventude e Lusitano, os azuis e brancos venceram onze e apenas perderam sete, sendo que naturalmente nos restantes (a maioria) se registaram igualdades; e se nos reportarmos apenas aos jogos em casa, o Juventude venceu nove vezes, empatou seis e perdeu apenas duas, ambas por 0-1 - em 1985-86 com um golo de Pipe, e vinte anos depois com golo no último minuto de Anderson.
Na primeira volta, no primeiro derby disputado no novo estádio do Lusitano, o Juventude alcançou uma preciosa vitória por 0-1, com golo de Helder Monteiro.

A TEMPORADA

Juventude e Lusitano eram à partida para este campeonato avaliados pela generalidade dos observadores de forma bem distinta face ao que a sua classificação actual sugere.
O Lusitano, a um penálti da subida na época transacta (na penúltima jornada, no tempo de descontos, falhou a vitória frente ao adversário directo), e mantendo praticamente toda a estrutura, era tido como candidato aos primeiros lugares. O Juventude por seu turno, depois de uma época irregular, afirmava pela voz dos seus responsáveis pretender apenas realizar um campeonato tranquilo, sem ambições de maior.
Fruto de razões desportivas e outras – a construção do novo estádio, muito mal resolvida, deixou o Lusitano em grave situação económico-financeira -, os resultados foram desmentindo as expectativas iniciais, evoluindo o Juventude para uma candidatura só há poucas semanas assumida, mas há muito expressa na tabela, e o Lusitano para uma aflitiva e inesperada luta pela manutenção.

OS INTÉRPRETES

Resistindo a uma onda de lesões que o devastou a meio da época (para além de três saídas no mercado de inverno, entre as quais a do principal goleador da equipa, o veterano Edinho), o Juventude foi-se equilibrando e apresenta-se nesta fase decisiva com força de candidato e francamente motivado para a subida.
O jovem técnico Miguel Ângelo, ex-central no clube, conta com um plantel bastante homogéneo, e com algumas unidades de qualidade acima da média para o escalão.
Na baliza está Cuca, um internacional angolano de 35 anos, já com muitos anos de clube, muito alto, bom no jogo aéreo, especialista em grandes penalidades, mas por vezes algo irregular e desestabilizável. No lado direito da defesa joga habitualmente Farinha, outro experiente jogador oriundo do Pinhalnovense, que tanto pode jogar num lado como noutro, e até no meio-campo.
Ao centro da linha defensiva joga uma dupla que se complementa muito bem: à capacidade técnica de Claudino (a quem faltam apenas uns centímetros de altura para jogar a outro nível), junta-se a compleição física de Flávio (vindo esta época do Alcochetense), um central à moda antiga, de bola para a bancada, mas fortíssimo no jogo aéreo. Do lado esquerdo o pendular Paulo Letras (ex Sesimbra) completa o coeso quarteto.
Como trinco joga aquele que é, no meu ponto de vista, a melhor e mais influente unidade do onze. Experiente, ex-Barreirense, e de enorme qualidade técnica (passe curto, passe longo, jogo de cabeça, meia distância…) Monzelo é o farol que ilumina toda a equipa. Realizou muitos jogos a central (por lesão dos de origem), mas mesmo assim é um dos melhores goleadores da equipa. Beto, contratado a meio da época ao Beira Mar, assegura o equilíbrio da intermediária pois trata-se de um médio de grande sentido posicional e capacidade técnica razoável. Como criativo actua o capitão de equipa, oriundo das camadas jovens do clube, José Pedro Queiroz, desequilibrador, com uns pés notáveis, mas algo frágil em termos físicos para almejar a outros voos - tentou a sua sorte no Real Massamá na época transacta, mas acabou por regressar, parecendo desde então algo afectado pela má experiência.











Como ala, por um ou outro flanco, temos Ruben, como tantos outros no plantel, oriundo da margem sul do Tejo. Trata-se de um jogador bastante regular, que tem um pontapé forte e razoável capacidade de cruzamento. É há três épocas consecutivas, titular indiscutível no onze juventudista.
Na frente, para o lugar de Edinho – melhor goleador da equipa na primeira volta – foi contratado o guineense Hélder Monteiro aos Dragões Sandinenses, e que mal chegou desatou a marcar golos, cedo fazendo esquecer o veterano brasileiro. Nos últimos jogos apagou-se um tanto, mas pela sua capacidade técnica e física é um avançado de grande utilidade para o conjunto. Ao seu lado pode jogar Valente - que depois de excelentes indicações nos primeiros jogos da época se lesionou gravemente, tendo regressado há algumas semanas atrás, marcando desde logo alguns golos importantes - ou Marçal, tecnicista e veloz mas um tanto individualista, contratado ao Oriental já durante a época.
Como outras opções Miguel Ângelo conta com o seguro guarda-redes Gonçalo, o rápido e ofensivo lateral Moreno e os médios Freddy e Filipe Abrantes, para além de alguns jovens saídos da formação e ainda à procura do seu espaço.
O Lusitano, cujo plantel é agora orientado pelo ainda jogador Paulo Sousa, tem na baliza o jovem Rui Panaça.
Á sua frente um quarteto defensivo experiente constituído pelo lateral direito Cravosa, pelos centrais ex-juventudistas Setúbal e o brasileiro Robson, e pelo lateral esquerdo Luís Correia.
No centro do terreno a equipa verde branca conta com o irmão de Abel Xavier, de nome André Xavier, contratado no mercado de inverno. Completando o trio do meio-campo actuam o experiente jogador-treinador Paulo Sousa, e o habilidoso e rematador Filipe Venâncio.
Na frente é mais uma vez a experiência que dita regras, com o trio Luís Barreiros, Luís Canhoto (ambos antigos jogadores do Juventude e o segundo também do Campomaiorense) e Manuel do Carmo (ex V.Setúbal e ex-Barreirense) a constituírem as opções mais válidas. Luís Canhoto, de 34 anos, foi o melhor marcador do Juventude durante alguns anos, e na época passada, já de verde e branco, voltou a mostrar a sua eficácia, alcançando mais de 20 golos no campeonato, apesar de ter ficado ligado ao insucesso da equipa ao desperdiçar o tal penálti decisivo de que se falou acima. Esta temporada não tem sido feliz, tal como a maioria dos seus companheiros.
Como outras alternativas, a equipa lusitanista tem o guarda-redes Laurentino, os médios Ema e o ex-junior Cainó, e os avançados Hélio e Luís Cochola (rápido extremo ex-juventudista).

AS EXPECTATIVAS

Espera-se um grande ambiente em redor desta partida, numa cidade que, salvo o episódico jogo da selecção nacional frente a Cabo Verde, há muito que não se mobiliza para o desporto-rei. Os jogos entre os rivais são sempre aqueles que mais gente levam aos estádios, e este, por maioria de razão, certamente que terá uma casa muito bem composta.
Não adianta falar em favoritismos neste como em qualquer outro derby. São jogos de características muito especiais, em que os nervos e a ansiedade tomam conta dos interpretes, prejudicando também muitas vezes a própria qualidade do espectáculo.
A maior experiência do Lusitano terá como contraponto a alma e motivação juventudista (bem como, porque não dizê-lo, a sua maior qualidade futebolística), fortalecida pelo apoio que os seus adeptos seguramente lhe irão dispensar.
O Juventude pode subir mesmo perdendo, bastando que o Amora não ganhe um dos dois jogos que lhe faltam. Nessa medida está a um pequeno passo da glória.
Se dependesse exclusivamente da vitória face ao rival, a situação seria bem mais complicada…Qual liga portuguesa, qual segundo lugar, qual luta pelos lugares europeus. O jogo grande do fim-de-semana vai mesmo ser este !

...E A MONTANHA PARIU UM RATO

Com um empate a zero, Juventude e Lusitano deixaram o seu futuro adiado para a próxima e última jornada no nacional da III divisão, e, pior que isso, deixaram-no nas mãos de terceiros.
Se o Lusitano vai jogar e terá de ganhar - esperando que alguns dos seus adversários directos percam pontos - o Juventude nem isso, pois será já de férias (folgam na última jornada) que jogadores e técnicos irão seguir com atenção o jogo Almansilense-Amora, em que qualquer resultado que não seja uma vitória dos forasteiros lhes garantirá a almejada subida de divisão.
Tudo poderia ter sido diferente se uma das três bolas que bateram nos ferros da baliza verde e branca, todas elas na primeira meia-hora, tivesse entrado. Ou mesmo se o influente Monzelo não tivesse visto o cartão vermelho quando faltava ainda bastante tempo para jogar, obrigando o Juventude a jogar todos esses minutos (cerca de vinte) com menos uma unidade, aspecto que se revelou devastador para uma equipa que até então dominava por completo as operações.
Seria de temer alguma ansiedade, tal a importância do jogo. Isso não sucedeu, pois o Juventude apresentou-se francamente confiante, disputando cada bola como se da própria vida se tratasse, atacando com alma e critério, e causando pânico junto da baliza de Panaça. O Lusitano procurava em contra-ataques venenosos criar perigo, e com isso ganhava o espectáculo que, durante muitos minutos da primeira parte, chegou a ser empolgante.
Na segunda parte o Juventude voltou a entrar bem, empurrando o Lusitano para o seu reduto defensivo. Os azuis e brancos foram conquistando pontapés de canto em série, embora sem causar o perigo que haviam criado na primeira parte. .
Depois aconteceu a expulsão de Monzelo, e a partir daí o Juventude positivamente “morreu”. O técnico Miguel Ângelo arriscou tudo, como lhe competia e se justificava, jogando os últimos minutos com apenas três defesas para três avançados do Lusitano. Mas a aposta não surtiu grandes efeitos, pois a equipa também já não mostrava forças para dar a volta ao seu destino, não mais incomodando o reduto do Lusitano, salvo num lance em que Valente se isolou e rematou forte mas Panaça conseguiu defender com brilhantismo. Os verde e brancos, então sim, procuraram também vencer o jogo, quase o conseguindo numa bola devolvida, também ela, pela trave.
O público, que encheu o estádio juventudista como há muito se não via, bem merecia a festa que se aguardava. Apoio não faltou e vontade também não. Mas as bolas só contam dentro das balizas, e de facto, desde cedo se percebeu que a Senhora de Fátima não estava muito virada para as cores juventudistas neste 13 de Maio de má memória.
No final o sentimento de frustração era generalizado, pois quem lutara assim merecia maior dose de felicidade.
Há que esperar pela última jornada, torcer pelo Almansilense (que precisa de pontos para a manutenção), e desejar que se escreva por linhas tortas aquilo que se não lavrou nas direitas.
Resta saber também se o Amora, mergulhado no caos financeiro e administrativo, com várias rescisões de contrato ao longo da temporada e até uma falta de comparência, estará muito interessado em aproveitar a oportunidade que se lhe depara para ascender a um escalão onde necessariamente as despesas serão maiores.
No domingo se saberá.

JOGOS PARA A ETERNIDADE (13) - Juventude de Évora - Estoril / 1981

Nem só de grandes jogos nacionais ou internacionais vive a memória dos adeptos. Por vezes foi mesmo na nossa região, na nossa terra, ou mesmo no nosso bairro que se disputou aquele ou aqueles jogos que mais fortemente nos marcaram, e que parecem querer viver para sempre na nossa lembrança. Um desses casos, que marcou profundamente a minha infância, foi sem sombra de dúvida um célebre Juventude de Évora-Estoril, disputado em Maio de 1981, e que, na última jornada do campeonato, perante um estádio a abarrotar, decidia a subida à primeira divisão. Creio que nenhum adepto do futebol em Évora alguma vez se esqueceu dessa soalheira tarde de domingo. Neste período, o clube eborense era uma das mais fortes formações da segunda divisão nacional e, ano após ano, era dado como crónico candidato à subida. Em 1977-78, classificara-se em segundo lugar atrás do Portimonense e, na liguilha subsequente – competição que na altura se disputava entre os três segundos classificados das três zonas, para apurar a quarta equipa a subir -, ficara a apenas um minuto da glória, ao perder em Viseu com um estranho golo marcado à beira do apito final. No ano seguinte, chegou novamente ao segundo lugar (atrás do Portimonense), e na liguilha disputou nova verdadeira final, desta vez em Vila do Conde, na qual nem um penálti falhado faltou, e onde uma vez mais não foi feliz, acabando por perder por 1-0.Depois de uma discreta temporada de 1979-80, o Juventude voltou a viver grandes momentos em 1980-81, ficando novamente, e pela terceira vez em quatro anos, a um pequeno passo de chegar ao escalão máximo do nosso futebol. E se nas épocas atrás referidas as hipóteses de subida se colocaram fundamentalmente na liguilha, e em jogos disputados a norte, nesta ocasião, a equipa azul e branca chegou à última jornada da fase regular com a subida nas suas mãos e a decidir em sua casa. Orientado pelo conhecido Dinis Vital – figura histórica do futebol alentejano -, e presidido pelo actual presidente Amadeu Martinho, o clube eborense conseguiu congregar uma equipa bastante jovem e combativa, como que fazendo jus ao seu lema “Força de Vontade”. Saíram nessa temporada do plantel Guerra, Fernando Sousa, Pedro Paulo, Pinto, Ferro, Arnaldo José, Artur, Santos e Galhofas. Foram contratados o guardião Peres (ex-Beira Mar), os centrais Sabú e José Carlos (ambos ex-V.Setúbal), os médios Quim (ex-V.Setúbal), Fernando e Carvalho (ambos ex-Lusitano) e o experiente avançado Coentro Faria (ex-Barreirense, V.Setúbal e Montijo). Mantinham-se no clube as referências Simplício, Ricardo, Modas, Lelo e Gomes (todos eles eborenses), e ainda o goleador Bolota e o avançado brasileiro Edvaldo, chegados ao clube na época anterior.
O princípio de temporada não foi bom, e à quarta jornada o Juventude estava abaixo da linha de água com três derrotas consecutivas. No final da primeira volta contudo, mesmo com o peso de cinco derrotas e quatro empates em quinze jogos, a equipa já fora capaz de recuperar até ao sétimo lugar. Na segunda volta, o Juventude explodiu então para uma das mais entusiasmantes temporadas da sua longa história. Com onze vitórias em treze jogos - série apenas interrompida por uma derrota no Campo Estrela diante do eterno rival por 1-0 e um empate em Beja -, triunfando em terrenos difíceis como Faro (0-1 ao Farense com golo de José Fernandes), Cova da Piedade, Oriental, Odivelas ou Montijo, quase sempre de forma tangencial (onze vitórias tangenciais no campeonato), a equipa azul e branca foi trepando lugares na classificação, e a quatro jornadas do fim era já segundo classificado a dois pontos do líder Estoril-Praia. Na antepenúltima jornada, os eborenses venceram em casa o Vasco da Gama de Sines por 3-2, enquanto o Estoril derrapava, perdendo o seu jogo e deixando-se igualar no topo da tabela. A equipa estorilista beneficiava contudo da vitória por 1-0 sobre o Juventude na última jornada da primeira volta, mas…ainda tinha de jogar em Évora. Na jornada seguinte o Estoril ganhou, mas o Juventude não foi capaz de pontuar no Estádio dos Barreiros diante do Nacional, perdendo por 2-0, num jogo que, com a equipa já envolvida até ao pescoço na luta pela subida, fez juntar uma pequena multidão junto da sede do clube para ouvir o relato. Mas nada estava perdido. Na última jornada, com dois pontos a separá-los, jogava-se na Cidade Museu um Juventude-Estoril ! Em caso de vitória por dois ou mais golos de diferença, o Juventude igualava o adversário e ganhava vantagem no confronto directo, subindo assim de forma directa, à primeira divisão. Qualquer outro resultado garantia a subida aos estorilistas, remetendo a equipa alentejana para a liguilha de promoção. Não me recordo de ver tão grande enchente no Sanches de Miranda, e só a presença da selecção em Évora, antes do último Mundial, terá trazido tanta gente ao futebol na cidade nos últimos quarenta anos. Foi erguida uma bancada suplementar, e foi precisamente nela que me sentei. Tinha onze anos, e as emoções eram muitas e muito fortes. Nessa tórrida tarde , o Juventude alinhou com Peres, Simplício, José Carlos, Ricardo, Modas, Lelo, Quim, Fernando, Edvaldo, Coentro Faria e Bolota. Viriam a entrar depois Carvalho e José Fernandes. O Estoril-Praia, orientado por Ruas (guarda-redes suplente), apresentava uma equipa tremendamente experiente e à base da que jogara a temporada anterior (e jogaria na seguinte) na primeira divisão: Manuel Abrantes, Teixeirinha (ex-F.C.Porto), Paris, Ernesto, José António (futuro internacional do Belenenses já falecido), Paris, Manaca (ex-Sporting e V.Guimarães), Salvado, Jerónimo (ex-juventudista), José Abrantes e Diamantino (ex-titular do Benfica, no início dos anos setenta). Na segunda parte entrou Fernando Santos (esse mesmo, o  actual treinador)

Depois de uma primeira parte equilibrada, e quando já se estava à beira do intervalo, Coentro Faria conseguiu uma recarga vitoriosa a um remate de meia distância, atirando para o fundo da baliza de Manuel Abrantes. Foi o delírio no estádio, com uma mini-invasão de adeptos eufóricos com um golo em tão importante momento. 

Durante o intervalo a esperança tomou conta do estádio e da cidade. Mas logo aos cinco minutos do segundo tempo, José Abrantes desviou ao primeiro poste um cruzamento de Diamantino, e bateu Peres, restabelecendo a igualdade, e complicando as contas da equipa juventudista. O Juventude sentiu muito este golo, e não mais voltou a ser a equipa acutilante que fora até então. Veio ao de cima a experiência do Estoril, e a dez minutos dos noventa, de novo José Abrantes, em lance individual, acabou com o jogo e com a ilusão dos da casa. 1-2 foi o resultado final, com a invasão final a ser agora dos muitos adeptos que acompanharam o Estoril, e no relvado fizeram a festa de uma subida que deixou Évora banhada em lágrimas. Embora não fosse a primeira vez que o clube eborense estava próximo da primeira divisão, o facto de o jogo se disputar em Évora, de ser uma última jornada, e até pela carreira crescente da equipa tornou esta partida verdadeiramente lendária. Foi sem dúvida um momento para a história do clube, seguramente um dos mais amargos, mas inegavelmente um dos que mais alto fez soar o nome do clube. 


Desse jogo ficou também a polémica em torno de Coentro Faria que, à data desta decisiva partida, estaria já comprometido com o Estoril, onde jogou no ano seguinte. O ponta-de-lança, que marcara quinze golos no campeonato (mais sete que Bolota, o segundo melhor marcador da equipa) foi então acusado de falta de zelo contra a sua futura equipa, contribuindo assim para a derrota. Acusações sem qualquer sentido, até porque, para além do golo do Juventude ter sido marcado justamente por Coentro Faria. Coentro Faria, anos mais tarde, em duas diferentes ocasiões, viria a treinar a equipa eborense, mas sócios houve que nunca se esqueceram dessa polémica. Ainda recordo a emissão de um resumo da partida, com reportagem da festa estorilista, no telejornal do dia seguinte. Dia de grande e profunda decepção, mas de renovado fervor clubista, como em mim as grandes derrotas sempre tiveram condão de fazer recrudescer. Na liguilha, duas derrotas em casa com Académico de Viseu e Nazarenos, deixaram o Juventude fora da corrida. Apesar de na época seguinte chegar a andar algumas jornadas no comando da classificação, nunca mais o clube voltaria a estar perto de disputar o principal campeonato do nosso país.

ÉVORA E O FUTEBOL

Muitos se interrogarão como é possível que uma cidade como Évora, com uma população a rondar os setenta mil habitantes, com uma localização geográfica que lhe permite estar a pouco mais de cem quilómetros de Lisboa e a menos de setenta de Espanha, com características polarizadoras em termos regionais (é inquestionavelmente a capital de uma região que ocupa cerca de um terço do território nacional), com um dinamismo cultural apreciável , com uma intensa procura turística nacional e internacional (é considerada património mundial desde os anos oitenta), não tenha nenhum clube a disputar as competições profissionais de futebol.
Nem sempre foi assim, pois o Lusitano – tradicionalmente mais ligado às elites da região e outrora também ao poder latifundiário - permaneceu catorze anos consecutivos no principal escalão, de 1952 a 1966, chegando a classificar-se em quinto lugar e a fornecer jogadores à selecção nacional (como o guarda-redes Vital e o avançado José Pedro), enquanto que o eterno rival Juventude – mais popular entre camponeses e assalariados - no final dos anos setenta e princípio de oitenta (nos pós 25 de Abril portanto, e ainda num contexto muito marcado pela reforma agrária), chegou a estar também muito perto de ascender à primeira divisão, acesso que veio a perder por apenas um golo em 1978 (na então “liguilha” para o Académico de Viseu, na qual voltou a participar, também sem êxito, na temporada seguinte sendo suplantado pelo Rio Ave), e com uma derrota em casa frente ao Estoril na última jornada de 1981 (com o estádio Sanches de Miranda a abarrotar para a comemoração da subida).
A partir de meados da década de oitenta o panorama alterou-se substancialmente, e ambos os clubes (os principais da cidade, entre outros mais pequenos, de bairro e que disputam normalmente os distritais) foram caindo para patamares distantes do primeiro plano do futebol nacional.
As razões para isso encontram-se facilmente após uma breve reflexão sobre a região e as suas idiossincrasias económicas, geográficas e sociais.
No plano económico, Évora, embora com um rendimento per-capita bem superior (e razoavelmente bem distribuído, diga-se) ao da média da região e, por exemplo, ao da maioria dos concelhos limítrofes de Lisboa - sobretudo graças ao turismo e aos serviços, albergando uma interminável série de direcções regionais e distritais de organismos públicos e privados -, não dispõe de uma actividade empresarial de relevo, sendo uma cidade que edificou a sua matriz identitária em redor de referências culturais, históricas e artísticas (nas últimas décadas também turísticas), bem longe do arquétipo de iniciativa empresarial de outras zonas do país, designadamente no centro e norte, que normalmente sustenta, directa ou indirectamente, o desporto profissional. Em Évora há poucas empresas, e as que há não são de grande dimensão (à excepção de uma unidade industrial da Tyco) nem terão provavelmente muito a ganhar num apoio decidido e sistemático ao futebol profissional, de retorno bastante duvidoso sobretudo em tempos de crise como os que o país, no seu todo, atravessa.
Se o apoio económico não abunda, o mesmo se poderá dizer relativamente ao apoio político. As câmaras municipais da região nunca foram muito dadas, por motivos eventualmente ideológicos, a apoiar o desporto profissional numa lógica de afirmação local ou regional como a que se vê no norte e centro do país, o que em Évora ainda resulta agravado em virtude da existência de dois clubes com ambições semelhantes, a reclamarem para si idênticas fatias do, já de si pequeno, bolo orçamental que a autarquia se propõe a distribuir. A isto não será também alheio o facto de o Alentejo, com distâncias de dezenas de quilómetros entre localidades, nunca ter sido uma região onde se identificassem grandes rivalidades locais ou regionais, o que nunca favoreceu a competitividade desportiva entre as suas equipas. A população alentejana adora futebol, é do Benfica ou do Sporting (muito mais daquele que deste), até tem a Sport tv em casa e vibra semanalmente com o Chelsea, o Barça ou o Milan, mas não sente grande entusiasmo em que o seu clube ganhe ao da localidade vizinha, que nem é tão vizinha como isso, e muito menos rival. Em Évora existe também, a agravar, um certo distanciamento em redor das performances actuais dos seus clubes, fruto de um desencanto nostálgico (algo que o povo alentejano é, em si, muito dado a sentir) de tempos cada vez mais remotos em que, navegando numa estrutura futebolística ainda pré ou semi profissional, Juventude e sobretudo Lusitano se batiam com os grandes, ou pelo menos por figurarem entre eles.
Por fim, sendo esta uma região com uma muito baixa densidade populacional e, à semelhança de todo o interior do país, também algo envelhecida, nem uma aposta forte na formação poderá constituir o caminho para a saída deste complicado puzzle.
Neste panorama não se poderia esperar outra coisa que não a presença destes históricos emblemas na terceira divisão nacional, onde ainda assim disputam anualmente os lugares de promoção na sua série F (Juventude na época passada e Lusitano nesta, apenas na última jornada se despediram da hipótese de subida à II B), em estádios que raramente congregam mais de quinhentas pessoas, e têm a sua grande enchente anual quando ambos se defrontam e dão assim vida a uma rivalidade que, embora cada vez menos fratricida (há trinta anos atrás os derbys faziam parar a cidade), continua a ser a força motriz e razão de existir destes dois clubes, os “ervanários”(do verde e branco Lusitano) e os “cacaruças” (do azul e branco “rasga a roupa”, que é como quem diz Juventude).
Veremos que novidades poderá trazer o novo estádio, mas a avaliar pelo que está a acontecer no Algarve, será lícito concluir que as boas e modernas infra-estruturas estão longe de representar a alavanca desportiva esperada por quem nelas investe ou deposita a sua esperança.

DERBY DRAMÁTICO

Sob incessante chuva, Lusitano e Juventude disputaram neste domingo mais um derby eborense.
A vitória sorriu aos verde-brancos, graças a um golo obtido no último dos minutos de desconto concedidos pelo árbitro, e poucos segundos depois de um penálti falhado na mesma baliza.
Antes tinha-se assistido a uma fraca primeira parte, e a um excelente segundo tempo, no qual o futebol e os golos compensaram enfim da chuva que os muitos espectadores presentes se dispuseram a apanhar, num estádio sem qualquer abrigo ou conforto.
O Lusitano marcou primeiro, por intermédio de Sebastien, num lance de contra-ataque, e numa altura em que o Juventude se mostrava bastante mais forte e acutilante. A equipa azul-e-branca, reagiu bem e empatou a um quarto de hora do fim, num excelente golo de Nuno Gaio, falhando pouco depois uma oportunidade soberana para chegar à vantagem. O Juventude mandava então no jogo - como sucedera quase sempre - , limitando-se os da casa a queimar tempo para segurar a igualdade.
Após os noventa minutos o Lusitano renasceu das cinzas, conseguindo um penálti - que falhou - e quando ninguém esperava, poucos segundos depois, chegou ao golo da imerecida vitória, uma vez mais apontado por Sebastien.
Ambos os clubes continuam na luta pelo acesso ao grupo de subida. Mas o Juventude não ganha desde Novembro.

EM TONS DE AZUL E BRANCO

Com o empate de sábado do Sporting no Restelo - num jogo que até podia muito bem ter perdido - o F.C.Porto sai desta jornada com a sua liderança reforçada, aconteça o que acontecer hoje em Coimbra, dando assim sinais de que o acidente Atlético está definitivamente ultrapassado.
O Desportivo das Aves foi um adversário demasiado dócil para um Porto sedento de vingança, e o golo aos nove minutos – que bela jogada – foi o tónico de que os dragões necessitavam para fazer as pazes consigo próprios. Depois, quase bastou deixar correr o tempo até que Quaresma se lembrou de tirar mais um coelho da sua inesgotável cartola, passando assim a certidão de óbito num jogo que há muito já tinha a sua sorte bem definida.
Sobre o Belenenses-Sporting já ficou dito o essencial: os leões estiveram mais perto da derrota que da vitória, e deixaram uma vez mais a ideia de uma equipa algo esgotada física e animicamente.
Em tons de azul e branco também decorreu o derby eborense da 3ª divisão, que VEDETA DA BOLA teve oportunidade de presenciar, no regresso ao novo estádio do Lusitano, onde em Maio passado seguira a preparação da selecção nacional para o Mundial da Alemanha.
O Juventude venceu, e venceu bem (0-1 com um golo da contratação de Inverno Hélder Monteiro perto do intervalo), recuperando também da alma perdida na Taça, perante uma equipa do Lusitano estranhamente indolente e afundada nos últimos lugares da tabela mesmo dispondo de um plantel que apontaria para a luta pela subida.
Com um dos candidatos em greve e os seus jogadores em debandada sem receber salários (o Amora), o Juventude tem novamente uma fortíssima oportunidade de lutar pela subida de divisão.

FOTOS: www.record.pt e www.juventudesportclube.blogspot.com

SOLTAS

DUBAI – É muito discutível a oportunidade da presença do Benfica neste torneio, mas a verdade é que veio de lá com os bolsos carregados de petro-dolares, com um troféu e a moral levantada, particularmente entre muitos dos jogadores menos utilizados do plantel. Se ganhar à Académica, fica justificada a bondade da opção.
MERCADO – Talvez seja devido à crise económica mas a verdade é que as movimentações de mercado nada têm que ver com a loucura de há uns anos atrás por estas alturas. Até agora o F.C.Porto contratou o desconhecido Lucas Mareque e entre os três grandes nada mais aconteceu de relevante. Esperemos pelo final do mês para confirmar ou desmentir esta tendência.
LIGA – Depois de uma longa e inexplicável pausa regressa finalmente a nossa Liga. A grande curiosidade é saber como reagiram as equipas a tão grande período de inacção, e em particular como se irá comportar o F.C.Porto depois da derrocada frente ao Atlético.
BEIRA MAR – Com alterações como a verificada agora, com a entrega dos destinos do clube a investidores particulares, trocas de treinador e jogadores, ou me engano muito ou tem a certidão de óbito (leia-se descida de divisão) em vias de ser assinada.
MOURINHO – Está a atravessar talvez o pior período da sua exuberante carreira. Terá cometido um erro de avaliação ao sustentar as contratações de Ballack e Schevchenko, que nada trouxeram ao plantel, parecendo ao invés ter minado o ambiente da equipa. Tem tido algum azar com as lesões, é certo, mas o Chelsea está longe de se mostrar a máquina trituradora das épocas anteriores, e muito dificilmente vai conseguir apear um super Manchester United, de um super Cristiano Ronaldo, da liderança do futebol inglês. Deverá ser esta a última época de Mourinho em Inglaterra. Onde prosseguirá a sua carreira ? Não sei porquê, palpita-me o A C Milan.
RELVADOS – Já que o Sporting aproveitou a pausa competitiva para substituir o relvado do Alvalade XXI, o Benfica bem que podia ter feito o mesmo. O relvado da Luz há muito que não corresponde a um clube com a grandeza do Benfica, nem a um estádio de tamanha sumptuosidade. Observo semanalmente com inveja como os relvados ingleses (onde a meteorologia nada ajuda) se mantêm impecavelmente tratados. As próprias transmissões televisivas ganham beleza com isso.
LUISÃO – Não se pode crucificar ninguém por cometer um erro, mas custa a aceitar que profissionais tão bem pagos, com vidas tão doces, cuja única limitação é precisamente evitarem alguns excessos próprios da juventude, não sejam capazes de cumprir com as suas obrigações mais básicas. 1, 33 gramas no sangue não dá propriamente para entrar em coma alcoólico, mas é manifestamente demais para um profissional que ganha muitos milhares de euros por mês para praticar desporto e tem treino na manhã seguinte. Além do mais, ao pegar no volante criou um problema bem chato para si e para o clube. Oh Luisão…
DERBY – Este domingo disputa-se um jogo com história: o derby de Évora (cidade onde LF aprendeu muito do que sabe) entre Juventude e Lusitano. Trata-se do primeiro confronto entre os dois rivais no novo estádio do Lusitano, que como se lembram foi a oficina da selecção nacional na sua preparação para o Mundial da Alemanha. VEDETA DA BOLA vai tentar estar presente.
NUNO ASSIS – Laurentino Dias deu mostras de um estranho zelo em penalizar, junto de uma instância internacional, um atleta português, o que prova a ideia já alicerçada aquando do caso-Mateus de que temos um verdadeiro buraco negro na secretaria de estado do desporto. Contudo, também a direcção benfiquista não ficou bem na fotografia, partidarizando e politizando um caso de mera incompetência e fanfarronice de um membro do governo. Aliás, é de questionar como foi possível o Benfica e o seu departamento jurídico não precaverem uma situação deste tipo, quando apenas faltavam cerca de vinte dias para Assis cumprir a totalidade da pena inicialmente instaurada. As suspeitas sobre o CNAD entretanto mantêm-se, o que já não é novo tendo em conta aquilo que se dizia dessa entidade, do F.C.Porto, da forma como os jogadores azuis e brancos eram controlados e da influência do Dr. Domingos Gomes nos anos oitenta e noventa.

NEM SÓ O QUE LUZ É DERBY

Não foi apenas na Luz. No Alentejo também houve derby.
Em Évora, o Juventude venceu o Lusitano por…2-0, ultrapassando o rival na classificação no nacional da 3ª divisão série F.
Apesar do tempo chuvoso, assistiu-se a um jogo bastante agradável, com constante sinal mais dos juventudistas, que demonstraram mais e melhores argumentos que o adversário.
O resultado poderia ter sido ainda mais pesado, caso não tivesse sido injustamente anulado um golo ao Juventude, na sequência de um livre indirecto em que a bola raspou claramente a cabeça de Márcio Madeira antes de se anichar na baliza verde e branca.
Com duas vitórias consecutivas, a equipa orientada por Miguel Ângelo trepou vários lugares na classificação, encontrando-se já entre os seis primeiros, que disputarão o acesso à subida.
NOTA: Foto retirada do site oficial do Juventude

REGRESSO ÀS VITÓRIAS

Permitam-me que, num apontamento mais intimista, deixe aqui uma palavra de saudação para o clube da minha terra, que ontem venceu brilhantemente no histórico estádio Alfredo da Silva no Barreiro o Fabril local por 0-1, mesmo depois de se ter visto reduzido a dez unidades ainda na primeira parte.
Depois de uma série de maus resultados, espero que esta vitória possa ser um tónico para as próximas semanas, em particular para a próxima, na qual os azuis e brancos recebem o eterno rival Lusitano em mais um derby eborense, ao qual espero poder assistir.
Ontem o Juventude alinhou de início com: Tiago, Farinha, Paulo Martins, Viúla, Paulo Letras, André Xavier (irmão de Abel Xavier), Cissé, Zezinho, Márcio Madeira (filho de Vítor Madeira), Nuno Gaio e Dieng. Entraram ainda Cainó, Costinha e Luís Barreiros.

ONDE ESTÁ A DÚVIDA?

Eusébio, com a simplicidade que todos lhe reconhecem, contou a uma revista porque motivo gostava do Benfica, e não gostava do Sporting. No seu bairro, segundo diz, os sportinguistas eram maioritariamente próximos da elite colonialista (naturalmente, em larga medida, também racista).



Não percebo o que isto possa ter de polémico. Primeiro porque Eusébio não generaliza, falando apenas daquilo que era a realidade do local onde passou a sua infância. Depois porque - embora ele não o tenha dito dessa forma - toda a gente sabe que o Sporting sempre foi, de facto, um clube genericamente conotado com as elites económicas e políticas, nomeadamente durante o antigo regime (mas não só), fosse em Moçambique, fosse em Lisboa, em Évora, ou em Carrazeda de Anciães. Nos anos cinquenta, sobretudo em África, estas elites também eram predominantemente racistas, o que não nos levantará grandes dúvidas. Nem é necessário aqui falar dos vários dirigentes sportinguistas ligados à PIDE ou à Legião Portuguesa, nem do facto de os anos dourados do Sporting terem coincidido no tempo com os anos dourados do salazarismo. Bastará simplesmente lembrarmos que a cor (e, já agora, o hino original) do Benfica não agradava nada aos senhores do regime, o que, desde logo, de certa forma os lançava para os braços do rival. Os próprios estatutos do Sporting, quando foi criado, apenas permitiam a entrada a filhos de boas famílias, e ao longo dos anos, sempre os sportinguistas se afirmaram pela diferença, manifestando o legítimo orgulho de pertencerem a um clube “diferente” (o que, consequentemente, se terá de entender como “de elite”).




Ainda hoje, quem for regularmente a Alvalade, e também à Luz, e observar com olho sociológico, descobrirá pequenas diferenças no adepto-tipo de cada um dos clubes (muita classe-média alta, entre os sportinguistas, bastante mais classe-média baixa, entre os benfiquistas), embora, como é óbvio, possamos somar inúmeras excepções a esta tendência. Aliás, é também assim em Buenos Aires (com River Plate em relação ao Boca Juniors), em Atenas (com Olympiacos em relação ao Panathinaikos), em Roma (com a Lázio em relação ao AS Roma), em Milão (com o Inter em relação ao AC Milan), ou mesmo em Évora (com o Lusitano em relação ao Juventude), e em todas as cidades onde, havendo dois clubes rivais sem elementos geográficos ou regionais que os possam distinguir, crescem com eles outros factores identitários, que afinal os tornam um pouco mais do que uma simples abstracção desportiva. É natural, é saudável, e faz parte da genética do próprio futebol.




Claro que, em vésperas de um Benfica-Sporting, interessará a alguns criar um caldo de polémica. Mas não creio que a entrevista de Eusébio justifique as reacções indignadas que se têm ouvido, e lido, por aí.