CLASSIFICAÇÃO REAL
Jornada de clássico é quase sempre jornada de polémica. Este não fugiu à regra, ainda que a superioridade do Benfica e a justiça da sua vitória, de tão clara e evidente, tenha contribuído para dissipar grande parte da discussão.P.FERREIRA-SP.BRAGA
Não vi o jogo, nem me chegou nota de qualquer erro com influência no resultado
Resultado Real: 0-1
NAVAL-SPORTING
Pelo resumo percebe-se que há um penálti sobre Saleiro, cometido pelo guarda-redes da Naval. Julgo não terem existido mais casos graves.
Resultado Real: 0-2
BENFICA-FC PORTO
No clássico os casos foram muitos, e os erros também.
No aspecto disciplinar ficaram por mostrar cartões amarelos a Falcão, César Peixoto, Fernando e Javi Garcia, conquanto que os exibidos a Saviola e David Luíz pecaram por excesso. Mas o caso mais grave foi a expulsão perdoada a Cristian Rodriguez, num lance digno de artes marciais, que não se percebe como não foi devidamente punido.
Quanto aos erros técnicos, o mais grave teve o mesmo protagonista. Cristian Rodriguez cometeu um dos penáltis mais claros de todo o campeonato, que só o condicionamento a que Lucílio Baptista estava sujeito (Taça da Liga, etc) evitou que fosse assinalado. Eis um dos motivos pelos quais esta nomeação não era compreensível. Não teve consequências porque o Benfica ganhou o jogo, mas se porventura o FC Porto empatasse nos últimos minutos, tínhamos o caldo entornado, e bem entornado.
Quanto aos outros lances reclamados, não parece existir motivo para falta: Peixoto tenta apenas cobrir a bola de Hulk, e Cardozo vê a bola tocar-lhe no braço sem que faça qualquer movimento para isso.
O golo é precedido de um lance irregular, é certo, mas se contarmos (e eu contei), a bola toca em quatro jogadores portistas, desde o momento do calcanhar de Urreta até ao remate final de Saviola. É pois abusivo considerar que esse fora-de-jogo influiu directamente no golo. Se formos por aí, qualquer erro do árbitro nos primeiros minutos condiciona todo o desenrolar do jogo daí em diante. Quando David Luíz cruza, a defesa do Porto está colocada (depois de ter afastado o perigo anterior), é um novo ataque, é um novo lance, e então Saviola aparece em jogo para marcar.
Maxi Pereira está caído sobre a linha de golo, e se alguma interferência poderia ter, essa seria evitar o golo do Benfica caso a bola lhe embatesse.
Resultado Real: 2-0 (considerando o penálti de Rodriguez)
CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 36
Sp.Braga 28
FC Porto 27
Sporting 23
UMA LINDA NOITE DE CHUVA
Não foi um jogo de grande qualidade plástica. O mau estado do terreno – fustigado por uma incessante chuva – não permitiu um futebol bonito e escorreito, como, por diversas vezes, o Benfica já demonstrara saber praticar. Foi antes uma batalha, uma luta, um combate recheado de emoção e dramatismo, a apelar mais a vontades do que a talentos, e a verdade é que também nesse registo os soldados da Luz souberam dar eloquente prova das suas capacidades. Não podendo exibir um traje de gala, a equipa de Jesus vestiu o seu fato-macaco e lançou mãos à obra, construindo assim a felicidade. Foi na bravura que a exibição benfiquista se alicerçou, e foi nela que encontrou o seu brilho. Um brilho diferente, mas não menos cintilante.
Perante um estádio carregado de entusiasmo e fé, a equipa de Jesus soube, sobretudo, ser mais forte, mais ágil, mais concentrada, mais agressiva e mais determinada que o adversário. Soube sofrer quando tal foi necessário, sem nunca perder o sentido de orientação. Controlou o jogo mesmo nos minutos em que não o dominou. Soube, enfim, fazer a abordagem de que esta partida necessitava, entrando em campo com a atitude certa e com uma vontade indomável de ganhar. Não podendo exibir um traje de gala, vestiu o seu fato-macaco e lançou mãos à obra. Foi assim que a vitória lhe sorriu, e se assim continuar a ser em cada uma das 16 jornadas que faltam para terminar o campeonato, arrisco a dizer que dificilmente o título lhe fugirá.
Há indesmentível mérito de todos os jogadores neste triunfo, mas seria injusto não destacar aqueles que menos utilização têm tido, e que mostraram nesta partida ser credores de toda a confiança, presente e futura. Urretavizcaya, Carlos Martins, e depois Luís Filipe, Felipe Menezes e Weldon, foram gigantes. Fizeram esquecer as ausências de Di Maria e Pablo Aimar - jogadores difíceis de substituir em qualquer equipa do mundo. Conseguiram com a sua raça, e a sua atitude, ultrapassar com distinção o tremendo teste a que estavam sujeitos, e foram rostos cimeiros desta grande vitória. Com as suas excelentes prestações ficou à vista a densidade do plantel encarnado, o que enche os benfiquistas de esperança para o resto de uma época que ainda vai ser longa e exigente.

Mas esta foi também uma vitória da humildade sobre o triunfalismo. Durante uma semana o país desportivo foi bombardeado com manifestações de arrogância e fanfarronice de quem já se encontrava atrás do Benfica, e mais atrás agora ficou. Após a menos conseguida noite de Olhão, foram muitos os comentadores e analistas a prever uma derrocada encarnada, e a consequente afirmação do FC Porto como campeão antecipado. Saiu-lhes o tiro pela culatra, e mesmo limitado pelos mais variados azares, o que se viu foi um grande Benfica. Um enorme Benfica, com cara de campeão.
CLÁSSICO AMPUTADO
AGRADÁVEL...

AMANHÃ EM NYON
O DIABO VIROU ANGEL
Num jogo sem grande história, o Benfica venceu, marcou pontos, ganhou dinheiro e recuperou, senão confiança, pelo menos tranquilidade. Jesus terá também tirado algumas conclusões quanto ao onze a utilizar perante o FC Porto, verificando-se que Carlos Martins e Shaffer poderão ser os elementos a avançar para a titularidade.GASOLINA PARA CIMA DA FOGUEIRA
Lucílio Baptista é um árbitro anti-benfiquista, envolvido no Apito Dourado, que induzido em erro por um fiscal-de-linha acabou por beneficiar clamorosamente o Benfica numa final.COMO SEMPRE...PARA GANHAR!
Vejamos o ranking neste preciso momento:
Como se percebe, o Benfica pode facilmente trepar para o 18º lugar, e posicionar-se para meter uma bola com o seu nome no pote 2 do sorteio da Champions, se para ela se apurar. CSKA de Moscovo e Fiorentina só jogam em Fevereiro, PSV Eindhoven joga na Roménia e está já apurado. Uma vitória sobre o AEK, e pelo menos dois destes três clubes seriam de imediato ultrapassados pelas águias.
Terminando a época em 18º neste ranking, e apurando-se para a competição rainha, o Benfica estaria seguramente no pote 2 do sorteio dos grupos, pois com Milan, Juve e Inter certos sobra apenas uma vaga italiana (Roma ou Fiorentina), e com o Leverkusen imparável na Alemanha, entre Hamburgo e Bremen um vai ter que ficar de fora. Villarreal está longe dos primeiros lugares, e CSKA ficou de fora no já concluído campeonato russo.
Sobra o caso do FC Porto, que pode entrar conjuntamente com o Benfica – um como campeão e outro na pré-eliminatória –, mas que, com a vantagem pontual que leva, tem desde já praticamente segura a sua situação no pote 2. Há ainda as hipóteses de Bayern de Munique, Lyon e/ou Liverpool poderem ficar de fora, mas para já não contemos com elas. Há pois que pontuar, e este jogo é bastante convidativo a isso. É claro que certos jogadores terão de ser poupados, mas os que entrarem em campo terão de o fazer com os olhos postos na vitória.
Fica o meu onze para a partida: Júlio César – Luís Filipe – Sidnei – Miguel Vítor – Shaffer – Roderick – Carlos Martins –Di Maria – Fábio Coentrão – Nuno Gomes - Weldon.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Benfica, pelos jogadores fora de combate no clássico, pela possibilidade do FC Porto passar para o comando da classificação ainda antes do Natal. Ainda falta ganhar na Luz (não parece…), mas a euforia portista é, por estes dias, indisfarçável. Afinal de contas, o sistema ainda é o que era. - O primeiro facto é que o clube algarvio tem um protocolo com o FC Porto, tem seis (!) jogadores cedidos pelos azuis-e-brancos (jovens cuja carreira está, em larga medida, nas mãos de Pinto da Costa), e tem um treinador oriundo do FC Porto (onde se formou, fez toda a sua carreira de jogador, e foi capitão durante anos).
- O segundo facto é que qualquer comparação entre a exibição do Olhanense frente ao Benfica e a que fizera diante do FC Porto, não passa de mera coincidência. A agressividade posta em cada lance poderia até ser tida como legítima se fosse aplicada em todos os jogos, ou pelo menos na maioria deles. Não é manifestamente o caso, como se viu neste e noutros jogos, desta e de outras equipas, sempre muito agressivas (hostis e até provocadoras) com o Benfica, sempre dóceis e reverentes com o FC Porto.
- A suspeita fundada é a de que muitas das equipas da Liga Sagres estão a receber dinheiro por baixo da mesa (uma ilegalidade, é preciso que se diga) para tirarem pontos ao Benfica. Muito dinheiro, ao que dizem fontes bem informadas, sendo claro que os clubes onde o FC Porto tem jogadores emprestados encabeçam a lista de suspeitas.- A desconfiança é apenas minha, baseia-se em 35 anos a ver futebol (muito futebol e com muita atenção) e prende-se com doping, num país em que só o ciclismo é devidamente controlado, nomeadamente através de testes ao sangue, os únicos capazes de detectar as mais sofisticadas substâncias ou formas de dopagem da actualidade. Um jogo é um jogo, e uma mala cheia de dinheiro é uma mala cheia de dinheiro, sobretudo para jogadores que não ganham fortunas, e por vezes nem ordenado recebem. E se dois mais dois costumam ser quatro, dois mais dois mais dois são quase sempre seis.
O PUZZLE DE JESUS
CLASSIFICAÇÃO REAL
À semelhança do que ocorrera em Braga, e do que vai ocorrer em mais alguns estádios do país, tudo foi preparado ao milímetro para que o Benfica perdesse pontos em Olhão. A dúvida que fica é se o talento é suficiente para ganhar a liga portuguesa, mas na verdade, no que diz respeito à arbitragem, desta vez nem há muitas queixas a fazer.SPORTING-U.LEIRIA
O caso mais grave desta partida foi o golo mal anulado ao União de Leiria, por pretenso, mas inexistente, fora-de-jogo do avançado Cássio. Seria o 0-2, numa fase crucial da partida. Felizmente deste erro do auxiliar não resultou qualquer consequência em termos de pontos.
Resultado Real: 0-2
OLHANENSE-BENFICA
Diga-se, antes de mais, que foi um jogo complicadíssimo de dirigir. Cheio de casos, de lances de dúvida, de indisciplina, de agressões, de conflitualidade e de tensão. Não quereria estar na pele do árbitro, que se viu e desejou para manter o seu trabalho equilibrado, o que, é justo dizer, conseguiu. Vamos aos casos.
Três dos quatro golos da partida são passíveis de discussão:
- O primeiro do Olhanense por resultar de um livre, a meu ver, inexistente. Não creio que haja qualquer falta, mas entendo que, no estrito critério seguido pelo árbitro, este lance não tenha escapado ao seu apito.
- O segundo do Olhanense deixa dúvidas quanto à regularidade da posição do dianteiro Toy, mas aceito que o assistente tenha seguido a lei, beneficiando quem atacava.
- O mesmo é válido para o golo de Nuno Gomes, em que o avançado benfiquista tanto pode estar em linha, como milimetricamente deslocado, não havendo imagens que comprovem definitivamente nem uma nem outra hipótese.
Pior que estes casos, foi o total desvario em que alguns jogadores incorreram. Djalmir, Di Maria e Miguel Garcia foram bem expulsos, mas tanto Rui Duarte (uma entrada selvática que se ficou com um cartão amarelo), como David Luíz, podiam também ter ido tomar banho mais cedo. Quanto a Cardozo, só poderia ser expulso caso Anselmo também o fosse, pois ambos fizeram exactamente a mesma coisa, aceitando-se o cartão amarelo. No global das decisões, erro para aqui, erro para ali, descontando o grau de dificuldade do jogo, haverá que absolver o árbitro Soares Dias, que apesar de ser portista e antigo detentor de cativo no Estádio das Antas, me parece ser dos menos maus que por aí anda.
O que resulta também deste jogo é mais uma elucidativa demonstração das verdadeiras motivações que algumas equipas têm para ganhar ao Benfica. A violência dos jogadores do Olhanense posta na disputa de cada lance, as provocações constantes, o ambiente de tensão criado no relvado, é apenas uma repetição daquilo que se viu em Braga, e daquilo que se verá em Vila do Conde, em Setúbal, em Matosinhos, em Coimbra e por aí fora. Resta saber se o Benfica tem capacidade mental para suportar este tipo de abordagem, e a avaliar pelas reacções de Di Maria, David Luíz e do próprio Cardozo, fico com sérias dúvidas em responder afirmativamente. Depois há também que voltar a falar de alguma debilidade físico-atlética, que neste tipo de partidas vem claramente ao de cima. Mas isso é assunto para outra ocasião.
Resultado Real: 2-2
SP.BRAGA-NAVAL
Não vi o jogo, nem tomei conhecimento de qualquer caso de relevo.
Resultado Real: 0-0
FC PORTO-V.SETÚBAL
A avaliar pelos resumos, há apenas que referir um lance de possível grande penalidade por derrube a Hulk. Nos largos critérios de Pedro Henriques não cabem faltas deste tipo (apenas bolas nas mãos de jogadores caídos no chão e de costas), mas de qualquer forma, desconfio sempre deste tipo de prejuízos, com os jogos já resolvidos e em vésperas de clássicos. Seja como for, há que dar mais um golo ao FC Porto.
Resultado Real: 3-0
CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 33
FC Porto 27
Sp.Braga 25
Sporting 20
PONTAPÉ NAS AMBIÇÕES
Um golo fortuito obtido nos últimos instantes da partida não pode fazer esquecer, nem a medíocre exibição do Benfica, nem, sobretudo, a perda de dois importantíssimos pontos num momento crucial do campeonato. E há que dizer desde já que, mau grado todos os azares que o perseguiram ao longo da noite, o Benfica tem principalmente de se queixar de si próprio por não ter alcançado a vitória de que precisava.Não se entende a forma como os encarnados entraram em campo. A passividade, a displicência e a sobranceria evidenciadas nesses minutos iniciais chegaram a ser chocantes, e acabaram por ter a consequência esperada. Lembrei-me várias vezes do jogo da Trofa, que significou o princípio do fim do Benfica de Quique Flores, e ainda me interrogo como é possível a equipa da Luz continuar a protagonizar este tipo de abordagem competitiva em jogos que - sabe-se perfeitamente - obrigam a total disponibilidade física e mental, contra adversários extremamente agressivos, provocadores e dispostos a deixar a pele em campo para agradar a muita gente (própria e não só).
Para além de todo o défice de dinamismo e de concentração revelado pelo Benfica, e do qual os golos dos algarvios são excelente exemplo, Di Maria resolveu dar um pontapé na sua própria equipa, mostrando que lhe falta ainda muita coisa para ser o jogador que julga ser. Não estava a jogar rigorosamente nada (o que acontece desde há algumas semanas, diga-se), mas ao agredir o adversário e ver o consequente cartão vermelho, deitou por terra a principal vantagem que o Benfica tinha nessa fase do jogo, e que lhe permitiria um olhar diferente sobre a segunda parte. A lesão de Ramires foi mais um golpe duríssimo para os encarnados, e deixou uma vez mais a ideia de que este jogo estava mesmo destinado a correr mal.
Ao longo de toda a segunda parte, o Benfica mostrou uma intrigante incapacidade para dar a volta às circunstâncias da partida. Não construiu desequilíbrios, não criou oportunidades, quase não rematou à baliza. Até final foi sempre uma equipa assustada consigo própria e com o jogo, não conseguindo superar os problemas que o Olhanense lhe foi colocando, sobretudo no preenchimento dos espaços à frente da sua área, onde ficou totalmente manietado. Jogou com muitos avançados, mas a inspiração era nula, e a organização também não parecia ser a melhor. Além de que o empenho chegou tarde demais. Se exceptuarmos as prestações de Maxi Pereira e Fábio Coentrão (os mais regulares, ainda que muito longe de qualquer brilhantismo), mais ninguém denotava discernimento para tentar, ao menos, pegar no jogo e buscar o golo com decisão.
O empate surgiu quando já não ninguém esperava – nem se justificava -, e acaba por minimizar os danos de uma noite de bruxas. Mas os contornos desta partida não podem, sob vários pontos de vista, deixar de lançar algumas dúvidas sobre o verdadeiro estofo do Benfica para chegar ao título. Quer em termos físicos, quer em termos mentais, pois o cenário montado em Olhão, à semelhança do que ocorrera em Braga, vai seguramente voltar a repetir-se noutros campos e com outros protagonistas. Sem lhes saber resistir, como pareceu ficar claro, não haverá campeão na Luz.
Para o jogo com o FC Porto Jesus não vai poder contar com Ramires, Ruben Amorim, Di Maria e Fábio Coentrão, o que, estou em crer, vai obrigar a uma alteração táctica (eventualmente um losango mais fechado, com Carlos Martins e Felipe Menezes como interiores). O jogo será diferente, mas temo que venha a ser fortemente condicionado por estas ausências.
Resta referir que a arbitragem foi a possível, num jogo complicadíssimo de dirigir, carregado de casos de indisciplina e de provocações constantes entre os jogadores (tal como, aliás, se esperava). Não foi uma arbitragem perfeita (por exemplo, o primeiro golo do Olhanense nasce de um livre inexistente), mas não creio que tenha sido por causa dela que o Benfica não ganhou.
ESTÁ AQUI A DECISÃO DA LIGA
GIGANTES
O jogo foi fabuloso, e a exibição a equipa de Van Gaal surpreendente, dado aquilo que se lhe tem visto na Bundesliga. Os bávaros esmagaram a Vecchia Signora, seguindo com toda a justiça para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Foram 1-4, mas poderiam ter sido 1-6, ou 1-8, tal o caudal ofensivo de um conjunto a quem não bastava o empate, e que nunca abanou, nem mesmo quando se viu em desvantagem. Hans-Jorg Butt, ex-suplente de Quim no Benfica, marcou o primeiro golo do Bayern, na transformação de uma grande penalidade, dando início à reviravolta.
A Juve fica de fora, e ainda bem. Fico sempre feliz quando equipas punidas por corrupção são derrotadas. Infelizmente nem sempre acontece.
Descansem os adeptos do Benfica e do Sporting. Pelo menos na próxima eliminatória, a Juventus não será adversária dos clubes portugueses. Os quatro melhores terceiros da Liga dos Campeões serão também cabeças-de-série (tal como os vencedores dos grupos da Liga Europa, onde se incluem os grandes de Lisboa), e há já quatro terceiros garantidamente pior classificados que a equipa italiana, que fez 8 pontos (Wolfsburgo e Marselha com 7 pontos, Atlético de Madrid com 3, e o terceiro classificado do grupo H, Olympiacos ou Standard de Liége, que nunca fará mais que 7 pontos).
CLASSIFICAÇÃO REAL
V.GUIMARÃES-FC PORTO- O primeiro golo do Porto é limpo, embora na primeira imagem me tivessem ficado dúvidas. Na verdade, Belluschi apenas corta a bola, e só a fragilidade física de Nuno Assis o faz cair.
- No golo de Bruno Alves não há imagens que provem que o central portista esteja ou não off-side. Benefício da dúvida para Jorge Sousa.
Resultado Real: 1-4
LEIXÕES-SP.BRAGA
Não vi o jogo, nem qualquer resumo para além dos dois golos. Nota apenas para mais uma lamentável exibição do titular da Selecção Nacional.
Se Queiroz não gosta de Quim, que ponha, ao menos, o Rui Patrício. Este abutre é que não!
Resultado Real: 1-1
BENFICA-ACADÉMICA
- Existe um penálti cometido por David Luíz, já na segunda parte (puxão de camisola a Eder), que o árbitro, encoberto pelo jogador da Académica, não conseguiu ver.
- Nos outros dois lances reclamados, eu nada marcaria. Nem na rasteira a Ramires, ainda antes do primeiro golo (quanto a mim involuntária), nem no corte de David Luíz para canto, em que toca também no pé do adversário. Esta última situação é aliás típica de jogos à chuva, e o árbitro tem de tomar em atenção essa enorme condicionante.
Mas não deixo de notar a campanha que está a ser feita em torno de David Luíz, como se fosse um jogador violento (como Bruno Alves), ou como se gozasse de alguma impunidade (como Bruno Alves). Se ele terminar o campeonato com quatro ou cinco lances para vermelho directo, e apenas três amarelos mostrados (como Bruno Alves na época passada), então poderemos comparar as situações.
- Só a má fé anti-benfiquista permite pretender que Cardozo pudesse alguma vez ser expulso por um lance em que se limita a abrir os braços para tomar altura, sem ter a menor intenção de agredir ninguém. Ele foi, de resto, o primeiro a pedir desculpa ao adversário, e a solicitar assistência médica. Não basta um braço tocar numa cara para termos uma agressão.
Resultado Real: 4-1
V.SETÚBAL-SPORTING
-A expulsão de André Pinto é um escândalo. Não tanto a simulação da queda, pois muitos jogadores o fazem, e percebe-se que, no calor do jogo, haja uma tendência para procurar benefícios. O que choca é a forma como João Moutinho grita e chora sem ninguém lhe ter tocado, e creio que este comportamento mereceria atenção por parte da Comissão Disciplinar da Liga.
O capitão do Sporting é um jogador que admiro (é benfiquista de pequenino…), cheguei a viver perto dele (ainda ele era júnior), e lembro-me vagamente do seu pai jogar nos juniores do Benfica. É um profissional exemplar, e talvez o único jogador do Sporting que gostaria de ver no meu clube (coisa a que ele não fecha a porta, como é público). Mas não se pode ser tolerante com uma atitude de tão gritante cinismo. Um joguinho de suspensão não lhe ficaria mal.
- O lance do segundo golo é irregular. Antes de mais porque a bola, chutada por Nuno Santos, estava fora do campo. Mas também a lei do fora-de-jogo não terá sido bem interpretada.
É um lance complexo, que poderia figurar num teste para novos árbitros. Por um lado, o fora-de-jogo só deve ser assinalado quando o jogador se faz ao lance, e, quando o assistente levanta a bandeira, Liedson desiste da bola. Mas, por outro lado, o mesmo Liedson vem mais tarde a beneficiar da sua posição para marcar o golo. Enfim, é algo que deixo aos especialistas de arbitragem, na certeza porém de que a irregularidade do lance não se esgota nessa interpretação.
Resultado Real: 0-1
CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 32 (prejudicado em 3 pts)
Sp.Braga 24 (beneficiado em 5 pts)
FC Porto 24 (beneficiado em 2 pts)
Sporting 20 (prejudicado em 2 pts)
R.T.P(orto)
Mas penso nos muitos benfiquistas que não podem ir ao estádio, nem podem assinar a Sport TV, e para com esses a RTP não cumpre a sua obrigação de isenção, enquanto estação paga com o dinheiro de todos os contribuintes.
Desde o início da época até ao final do ano, o canal público apenas transmitiu três jogos do Benfica, todos em casa, e não vai transmitir mais nenhum, enquanto no mesmo período pôs (e ainda vai pôr) no ar o FC Porto por doze vezes (!!). A Liga dos Campeões, e o respectivo contrato, não são argumento, pois mesmo no campeonato os azuis-e-brancos passaram no sinal aberto estatal em cinco ocasiões (contando já com a do próximo domingo), três das quais consecutivas, entre a 7ª e a 9ª jornadas, o que é sintomático.
Devo dizer que, de todos esses jogos, só vi os de Londres e de Braga (curiosamente duas derrotas portistas), pelo que, volto a dizer, o assunto pouco me atrapalha a vida. Aliás, quem mais perde é a própria RTP, designadamente em audiências, insistindo em mostrar, remostrar e voltar a mostrar um clube com poucos adeptos, que pouca gente entusiasma abaixo de Carvalhos e acima da Maia, e que, para agravar, este ano não joga nada. Mas quando a ordem é rica, os frades são poucos e ninguém tem de assumir responsabilidades, tudo se torna possível - até mesmo interromper programas de informação desportiva para directos de jantares portistas, como chegou a ser feito num programa da RTPNorte (e já agora, para quando uma RTP Sul?, para quando uns estúdios em Beja? e em Viseu? e porque não em Castelo Branco?). Notável é que, mesmo assim, em apenas três jogos passaram mais golos do Benfica em directo na RTP do que do FC Porto em todos os jogos transmitidos (17 e 14 respectivamente).
CHAPÉU DE CHUVA
Após um mês de Novembro parco em golos, o Benfica precisava de uma demonstração de força para dissipar dúvidas e afugentar fantasmas. Já se falava em crise, em quebra, em balão vazio, e em cristalização técnica e táctica, coisas que naturalmente – em face de um passado recente repleto de desilusões – começava a amedrontar o povo benfiquista, causando-lhe uma ligeira inquietação na alma.Tendo por adversária uma equipa em ascensão, orientada por um técnico na moda, e estando à partida privado de Javi Garcia (e com Aimar e Luisão previsivelmente a meio-gás), o Benfica tinha pela frente uma noite com alguns sinais de ameaça no ar. O tempo também não iria ajudar, sabendo-se das características predominantemente tecnicistas da equipa encarnada. Era, enfim, um jogo delicado, que caso corresse mal poderia deixar as suas marcas na equipa e no próprio campeonato.
Um golo no primeiro lance de ataque não poderia ter sido melhor tónico para a equipa da Luz se tranquilizar, e quando Cardozo deu início ao seu terceiro hat-trick no campeonato (24 golos no total desta temporada, 70 desde que chegou ao clube), percebeu-se que a noite poderia afinal ser pintar-se de vermelho. Os problemas sentidos pelo Benfica frente a equipas ultra-defensivas não iriam, em princípio, colocar-se, pois a Académica teria de partir em busca do empate, e abrir as portas ao jogo. Em vantagem no marcador, o conforto da equipa benfiquista em campo contrastava, a partir daí, com o desconforto que o frio, o vento e a chuva provocavam aos mais de 41 mil nas bancadas da Luz (impressionante assistência para uma noite ferozmente invernosa).

Deve dizer-se, contudo, que o período entre o primeiro e o segundo golo encarnado não foi brilhante. Alguns passes errados, uma displicência aqui, um ressalto azarado ali, e era a Académica que parecia estar mais perto do empate. A obra-prima de Saviola pôs fim às dúvidas, sobre o jogo, e sobre a capacidade do Benfica - que, para além dos indiscutíveis méritos tácticos de Jorge Jesus, assenta em primeira mão no talento e na classe da maioria das suas figuras, capazes de, num momento de inspiração, virar uma partida de pernas para o ar. Javier Saviola é, nesse particular, o ás dos ases, o artista dos artistas, parecendo firmemente empenhado em resgatar todas as qualidades que fizeram dele um dos mais promissores juniores de todos os tempos (lembro-me bem do Mundial sub-20 em 2001), comparado na altura a Maradona, e que depois, porventura fruto da sua baixa estatura para avançado, foram postas em causa nas suas passagens por Barcelona e Real Madrid.
A discussão do jogo acabou aí, mas o grosso do espectáculo teve, pelo contrário, nesse momento o seu início. A Académica perdeu-se entre equívocos, sem saber muito bem se procurar reduzir distâncias ou evitar a goleada que se começava a desenhar, e o Benfica empolgou-se, partindo para um período muito bom, à imagem e semelhança daquelas que foram algumas das suas melhores exibições da época. Na segunda parte, mais dois de Óscar Cardozo e a séria ameaça de os números finais poderem chegar aos seis ao Nacional, ou mesmo aos oito ao V.Setúbal. O temporal que se abateu sobre o relvado, e o estado em que este ficou - para além da gestão de plantel que Jesus foi obrigado a fazer, retirando Aimar, Cardozo e Saviola - acabaram por condicionar o resto do jogo, salvando a Académica de males maiores.
4-0, belos golos, e uma imprescindível vitória são dados suficientes para os mais cépticos porem de lado as suas profecias. O Benfica está bem e recomenda-se, os seus jogadores lutam que se fartam, recuperam bolas, dão espectáculo, encantam as bancadas e estão na frente da classificação. O resto são peanuts…
Cosme Machado esteve mal ao não sancionar uma grande penalidade cometida por David Luíz - que, tem de se dizer, cometeu mais dois erros graves, um deles num atraso suicida a Quim com o resultado em 1-0, outro ao levar o cartão amarelo desnecessário, ficando agora em risco de não defrontar o FC Porto -, lance que, contudo, só se vê pela televisão. Ficaram também algumas dúvidas num eventual derrube a Ramires na área estudantil ainda na primeira parte. Mas com a chuva e o mau estado do terreno, há que reconhecer que o trabalho do árbitro não foi fácil.
PIOR ERA DIFÍCIL
Brasil, Costa do Marfim e Coreia do Norte. Foi esta a sorte (se é que se pode chamar-lhe assim) que calhou a Portugal.Kaká, Luís Fabiano e Robinho por um lado; Drogba, Kalou e Touré por outro; e uma equipa completamente desconhecida, tradicionalmente muito rápida e agressiva. Ou seja, a nossa selecção vai ter de pedalar muito para passar da primeira fase, sabendo também que, se tal suceder, as hipóteses de apanhar a super-Espanha nos oitavos-de-final são muito fortes. Vida difícil para Queiroz...
É verdade que em 2000 tivemos Alemanha, Inglaterra e Roménia e a coisa correu bem, e que em 2002 tinhamos Coreia, EUA e Polónia, e aconteceu o desastre. Mas, por muito que se possa divagar sobre estes e outros dados históricos, a verdade é só uma: o sorteio foi do piorio, e não deixa de representar um revés nas esperanças de uma boa classificação portuguesa neste Mundial.
MUNDIAL 2010 COMEÇA HOJE
MUITA SORTE É: África do Sul- Honduras (ou Nova Zelândia) - Chile (ou Argélia) - PortugalPOUCA SORTE SERÁ : Brasil (ou Espanha, ou Itália) - México (ou Estados Unidos) - Costa do Marfim (ou Gana, ou Uruguai) - Portugal
Esta tarde, Charlize Theron escolherá o nosso destino. Dificilmente podiamos estar em melhores mãos... Confiemos pois na sorte, que muito iremos precisar dela.
SITUAÇÃO GRUPO A GRUPO
GRUPO B – Valência, Lille e Génova em luta pelos dois lugares de apuramento. Ao Valência basta o empate em Itália. Lille e Génova têm de ganhar. É o grupo mais equilibrado e emotivo.
GRUPO C – Hamburgo e Hapoel, já apurados, discutirão em Israel o primeiro lugar. Ao Hamburgo basta o empate.
GRUPO D – Sporting apurado em primeiro, Hertha e Heerenveen procuram o segundo lugar. Ao Hertha basta empatar em casa, os holandeses terão de vencer, e esperar pela ajuda do Sporting.
GRUPO E – Roma apurada (embora sem a liderança garantida), Basileia e Fulham discutem entre si a outra vaga. Os suíços jogam em casa e basta-lhes o empate.
GRUPO F – Galatasaray apurado em primeiro, Panathinaikos e Dínamo discutem o segundo lugar em Atenas. Os romenos têm de ganhar por mais de um golo para seguirem em frente.
GRUPO G – Tudo resolvido: Salzburgo surpreendentemente em primeiro, Villarreal em segundo.
GRUPO H – Fenerbahce apurado em primeiro, Twente e Sheriff lutam pelo segundo lugar. Os holandeses dependem apenas de si, tendo no entanto de vencer. Os moldavos terão de ganhar, e esperar que o Twente não o faça. Jogam ambos fora de casa.
GRUPO I - Tudo resolvido: Benfica em primeiro, Everton em segundo.
GRUPO J – Shakhtar apurado em primeiro, Brugges e Toulouse discutem entre si o segundo lugar. Aos belgas basta o empate e jogam em casa.
GRUPO K – PSV apurado em primeiro, Copenhaga e Sparta discutem entre si o segundo lugar. Aos nórdicos basta o empate, mas jogam fora.
GRUPO L – Werder Bremen e Atlético de Bilbau, já apurados, discutirão no País Basco a liderança do grupo. O Atlético terá de ganhar por dois golos de diferença para ser primeiro.
Desenham-se assim já alguns possíveis adversários de Benfica e Sporting no sorteio do próximo dia 20. São eles: Anderlecht, Lille, Hapoel, Hertha (só possível para águias), Basileia, Panathinaikos, Villarreal, Twente, Everton (só possível para leões), Brugges, Sp.Praga e A.Bilbau. Se as coisas correrem mal, podem ainda pingar neste lote: Valência, Hamburgo, Roma ou Bremen.
A estes nomes, terão de se acrescentar os quatro piores terceiros classificados dos grupos da Champions League, de onde poderão surgir os colossos Liverpool (certo na Liga Europa, não se sabendo ainda se como cabeça-de-série), Bayern de Munique ou Juventus (um deles estará nesta prova), e até mesmo Barcelona ou Inter (menos prováveis). Atlético de Madrid, Rubin Kazan, Marselha ou Standard de Liege são contudo as hipóteses mais plausíveis, de entre o conjunto de equipas saídas da Champions, e potenciais adversárias dos clubes lisboetas.
A UM PEQUENO PASSO DO ABISMO
Estou firmemente convencido que ao minuto noventa do jogo desta noite, o Sporting estava com um pé fora das competições europeias. A derrota caseira obrigaria a pontuar em Berlim, perante um Hertha necessitado de ganhar, e este Sporting dificilmente estaria em condições de resistir a tão grande pressão emocional e competitiva.O golo de Grimi foi pois uma dádiva dos céus, que irá permitir aos leões encarar a prova com outra ambição – os dezasseis-avos de final são apenas em Fevereiro, e até lá muita água vai correr debaixo das pontes -, e manter, para já, o ambiente desanuviado entre os seus seguidores. Chegou numa altura em que já ninguém esperava, e na sequência de uma exibição sofrível da equipa de Carvalhal, bem ao nível do que de pior já se viu naquele estádio na corrente temporada.
Quem, entre os sportinguistas, se queixa do golo no último minuto em Guimarães, teve aqui mais uma resposta: depois de Twente, Paços de Ferreira, Olhanense e Ventspills, esta foi, que me lembre, a quinta vez que o Sporting desta época se salvou de resultados negativos nos últimos instantes das partidas, o que, se atesta a crença da equipa, também mede as enormes dificuldades que encontrou em todos esses importantes momentos. Ao contrário do que dizem os seus adeptos, com um pouco menos de sorte (nos sorteios da Taça de Portugal e da Liga Europa, nos golos em desespero de causa, e até com arbitragens como a que hoje lhe poupou um penálti), o Sporting poderia ter caído no abismo total, e ver já a sua temporada completamente perdida. Qualquer V.Guimarães ou Everton se encarregaria de o comprovar. Assim, lá vai sobrevivendo, entre a angústia e a esperança num futuro melhor.
Liedson tem razão. Sozinho no ataque não rende nem metade, motivo pelo qual Paulo Bento montou um sistema à sua medida. Sendo ele, de longe, o melhor jogador do Sporting (e único com verdadeira dimensão internacional), justificava-se que tal sucedesse. Com o 4-2-3-1 imposto por Carvalhal, o Sporting fica mais compacto, consegue manietar equipas mais fortes (foi o que aconteceu com o Benfica), mas perde claramente poder ofensivo. Nos jogos em que tem mesmo de atacar (e de marcar), nota-se um impressionante défice no interior da área, onde o levezinho, fixo entre altos e fortes defesas-centrais, se vê obrigado a travar uma luta desigual, evidenciando a fragilidade física que um 4-4-2 apelativo a sua maior mobilidade sempre foi capaz de esconder. Trata-se, na verdade, da história do lençol curto, que tapando os pés (maior consistência a meio-campo), destapa a cabeça (poder de fogo do seu grande goleador). Enfim, um difícil puzzle para Carvalhal resolver, pelo menos até que cheguem (se chegarem) os prometidos reforços.Um clube que, num jogo que valia uma qualificação europeia, apenas coloca 12 mil pessoas no estádio, não merecia passar. Mas a justiça do futebol é assim mesmo, e com o mais fácil grupo de que há memória na história das provas europeias (pelo menos no que toca aos emblemas nacionais), com golos providenciais nos últimos minutos, com arbitragens simpáticas, o Sporting lá vai, juntamente com o Benfica, para a fase seguinte da Liga Europa.
DESTINO TRAÇADO
Tal como se esperava, o Nacional ficou pelo caminho. Só Ruben Micael se mostrou à altura de uma prestação europeia mais afirmativa, e a agravar as coisas, também a ausência de Manuel Machado terá tido o seu peso.A equipa madeirense nem jogou mal, após reduzir para 2-1 esteve à beira do empate, mas a força e a experiência dos germânicos acabou por compor um resultado.
Resta um jogo (em casa com o Áustria) para o Nacional fechar com brilhantismo uma participação que, afinal de contas, até foi melhor do que se esperava – só a qualificação para esta fase já merece elogio.
MISSÃO CUMPRIDA
Regresso aos golos e às vitórias, qualificação garantida, primeiro lugar assegurado e poupança de algumas unidades nucleares. Pouco mais poderia o Benfica desejar desta longa viagem ao outro lado da Europa.A primeira parte chegou a ameaçar uma noite de sombras, fruto do grande empertigamento da equipa da casa, e de algumas dificuldades do Benfica em segurar o meio-campo, e em construir jogo ofensivo. Nesse período, a melhor oportunidade pertenceu ao Bate Borisov (bola na barra na sequência de um livre), que, sobretudo pelo corredor direito do seu ataque (perante um César Peixoto lento e desadaptado ao lugar) ia conseguindo desassossegar a zona defensiva benfiquista, obrigando Miguel Vítor e David Luíz a um esforço com que talvez não contassem.
Mais à frente, só Fábio Coentrão parecia capaz de causar alguns desequilíbrios, a que contudo, nem Cardozo, nem Saviola, davam a devida sequência. Sem a criatividade de Aimar, o Benfica não encontrava espaços nem formas de criar perigo. Com Ramires e Javi Garcia em contenção de esforços, e Felipe Menezes ainda fora dos ritmos da partida - sobretudo nos momentos de recuperação da bola -, o meio-campo encarnado ficava à mercê de uma equipa bielorrusa organizada e muito forte fisicamente.
O golo marcado no primeiro minuto da segunda parte - em lance de grande recorte técnico - virou o jogo do avesso. Se por um lado tranquilizou o Benfica, por outro, significou um golpe demasiado duro para as expectativas do Bate Borisov, que, não esqueçamos, lutava ainda pelo apuramento.
A partir daí o Benfica foi uma equipa dominadora, segura de si, e, mesmo sem deslumbrar, foi impondo a sua clara superioridade técnica. O segundo golo (que Fábio Coentrão bem merecia) surgiu com naturalidade, e as coisas pareciam nesse momento ter ficado resolvidas.
Uma infelicidade de Miguel Vítor recolocou os anfitriões na discussão do jogo, e devolveu a incerteza ao marcador. O empate chegava para a qualificação, mas só a vitória permitia segurar, desde logo, o primeiro lugar, importante com vista ao sorteio da fase seguinte. Estava sobretudo em causa poder ou não prescindir do último jogo (com a AEK), a disputar três dias antes da recepção ao FC Porto para o campeonato.

Os últimos minutos trouxeram algum sofrimento – sobretudo nas bolas paradas, onde os bielorrusos impunham a sua estatura -, mas na verdade, já com Aimar em campo, e com espaços para contra-atacar, o golo até poderia ter aparecido na outra baliza. O resultado não se alterou, e tudo acabou em bem.
Quando o árbitro apitou para o final da partida ficou a sensação de dever cumprido, quer nesta deslocação, quer, de um modo geral, em toda a fase de grupos da Liga Europa, onde a má exibição de Atenas não chega para manchar um percurso notável.
Gostei de ver a forma como os jogadores festejaram os golos, sinal de que a Liga Europa é mesmo para levar a sério, como penso ser obrigação do clube. Para além de todas as questões relacionadas com o prestígio, com o ranking europeu e com a valorização de activos, esta equipa do Benfica, capaz de grandes momentos, assente num futebol tecnicista, ofensivo e espectacular, recheada de jogadores de classe e experiência internacional, parece talhada para uma grande caminhada europeia. É claro que o campeonato é prioritário, mas com um plantel tão vasto haverá com certeza espaço para integrar esta competição no lote de prioridades. Se na ponta final da temporada houver necessidade de escolher um só cavalo onde apostar, então se verá.
Por agora, e até meados de Fevereiro, siga o campeonato.
ACTUALIDADES
Este último jogo foi particularmente emocionante, com o FC Porto a vencer 12-17 já em plena segunda parte, e uma recuperação notável do Benfica nos últimos minutos, virando o resultado, e evitando o empate no último segundo com uma extraordinária defesa do guarda-redes Ricardo Candeias (ex…FC Porto).Foi o regresso de José António Silva ao banco do Benfica, e espera-se sinceramente que, tanto Olímpio Bento, como Pinto da Costa, tenham assistido ao jogo pela Benfica TV.
JUVE LEO – Estive em Alvalade, mas só nos dias seguintes me apercebi do que se tinha passado com o autocarro do Benfica, bem como com alguns adeptos encarnados, barbaramente agredidos nas imediações do estádio.
Para quem andava a apregoar inocência nos acontecimentos de Alcochete, para quem constantemente se diz ser diferente, eis a prova de como os telhados de vidro são frágeis e permeáveis ao primeiro estilhaço. Mais até do que o próprio autocarro encarnado.
Para além disso, ficou provada – também por situações que eu próprio vivi, nesta e na temporada passada – a falta de organização que se sente naquele estádio sempre que lá se desloca o Benfica, e com ele, um número de adeptos a que o Alvalade XXI talvez não esteja habituado. Desde o trânsito, ao estacionamento, mas sobretudo às demoradíssimas entradas no estádio (apenas quatro portas), que para além de esgotarem a paciência aos mais ansiosos, misturam adeptos dos dois clubes, e não transmitem qualquer sensação de segurança. Que diferença para a Luz…
ACONTECIMENTOS DE BRAGA – Das últimas imagens disponibilizadas infere-se que Cardozo nada fez no túnel de acesso ao balneário de Braga. Mais do que ressarcir o Benfica - eliminado da Taça de Portugal, em parte devido à ausência do paraguaio -, importa apurar as responsabilidades do árbitro Jorge Sousa. Porque expulsou ele Cardozo? O que viu ? Quais os seus verdadeiros interesses ?
Paralelamente, o Sp.Braga continua a percorrer um caminho lamentável, baseado em guerrilhas, provocações, contra-informação e mentiras, que tem patente registada uns quilómetros mais a sul. Como já aqui disse uma vez, se o clube bracarense pensa que poderá alguma vez vir a ser um novo FC Porto (como o seu presidente parece sonhar) está profundamente enganado. Desses só houve um, e felizmente está a definhar. Nasceu com Pinto da Costa e morrerá com ele. O desporto português não assimilará outro monstro idêntico.
MANUEL MACHADO – Apesar de ser uma personagem pouco simpática a muitos benfiquistas, devo dizer que nunca lhe observei qualquer comportamento menos digno para com o clube da Luz. Não gosta de Jesus? Problema deles. O Benfica é
um clube civilizado, não é o Porto nem é Palermo, e um inimigo do meu treinador não tem de ser forçosa e sectariamente meu inimigo também, assim como o contrário também é verdadeiro, ou não fosse o público (e, já agora, evitável) abraço, ocorrido há poucos dias entre o mesmo Jorge Jesus e a figura mais deplorável do desporto português.Isto para dizer que tenho por Manuel Machado o respeito e admiração que tenho por vários outros treinadores portugueses (infelizmente, não todos), e que lamento profundamente aquilo que se está a passar com ele.
Desejo ardentemente que recupere com rapidez, até para que possamos voltar a deliciar-nos com os seus discursos pomposos e sofisticados. E espero, já agora, que o Nacional lhe possa dedicar uma vitória amanhã na Alemanha.
BOLA DE OURO – Sem surpresa Messi foi o mais votado, preparando-se também para ganhar o prémio da FIFA. Mais surpreendente talvez tenha sido o segundo lugar de Cristiano Ronaldo, após uma temporada em que quase nunca mostrou as suas qualidades.
CLASSIFICAÇÃO REAL
De um clássico como um Sporting-Benfica, espera-se sempre alguma polémica em torno do trabalho do árbitro. São jogos de grande impacto mediático, qualquer lance é analisado à lupa, e sabe-se da propensão que existe em Alvalade para a lamúria.Desta vez, não só não houve golos, como os casos polémicos são meramente residuais, daqueles que qualquer jogo, de qualquer campeonato ou qualquer divisão sempre trazem consigo. Um empurraozinho aqui, um cartão amarelo ali, enfim, o normal num jogo de futebol.
SPORTING-BENFICA
O erro mais grave de Pedro Proença foi a não marcação de um livre perigoso a favor do Benfica, por corte de Polga com a mão à entrada da área, em lance que deveria ter custado ao central brasileiro o segundo cartão amarelo.
Pediu-se o vermelho directo a Adrien num lance com Saviola, mas honestamente creio que, até pela zona do terreno onde o lance se deu, o cartão amarelo se ajusta na perfeição. Contudo, o amarelo mostrado deveria ter sido o segundo, uma vez que o mesmo jogador passara impune a um lance com Ramires, que também justificava acção disciplinar.
Admito que David Luíz pudesse igualmente ter visto a cartolina mais cedo, acabando por ser admoestado já perto do final da partida.
No lance entre o mesmo David Luíz e Liedson, ainda na primeira parte, o que está em causa é a diferença de poder físico dos dois jogadores. É claro que, quando se marcam faltas como Jorge Sousa fez em Braga - no lance do golo anulado a Luisão - também haverá naturalmente quem as queira ver marcadas em lances como este, sobretudo se forem contra o Benfica. Daí até existirem…
Resultado Real: 0-0
FC PORTO-RIO AVE
De Paulo Costa não se poderia esperar outra coisa que não uma ajudinha ao seu clube de sempre. Desta vez foi um penálti, ajuda preciosa que Falcão desperdiçou, mas que não pode mesmo assim ser apagado da história do jogo. Além disso poupou cartões amarelos por simulação a Fucile e a Hulk, num jogo em que os jogadores do FC Porto pareciam estar particularmente instruídos para, sempre que possível, cair na área.
É incrível como ainda ninguém impediu este indivíduo de arbitrar, deixando-o comportar-se, ao longo de anos a fio, como um verdadeiro comissário do FC Porto dentro das quatro linhas. Felizmente está a terminar a carreira, mas arbitragens como esta, como a do ano passado no Sp.Braga-FC Porto, como a de há dois anos num Benfica-Leixões, como a de há quatro num E.Amadora-Benfica, entre muitas outras, ficam na retina dos adeptos, e pintam este árbitro de cores francamente douradas.
Resultado Real: 2-1
CLASSIFICAÇÃO REAL
BENFICA 29 pts
FC Porto 21
Sp.Braga 20 (-1 jogo)
Sporting 17
JUSTIÇA TOTAL
O empate não podia ser mais justo. As equipas equivaleram-se, quer nas oportunidades criadas, quer nos minutos em que fizeram prevalecer algum domínio em campo. O Sporting começou melhor, o Benfica equilibrou e acabou o jogo por cima. Com os dois guarda-redes e os quatro centrais em excelente plano, o resultado encaminhou-se com toda a naturalidade para o nulo.
Quem esperasse um Benfica esmagador e um Sporting a rastejar por piedade, ter-se-á surpreendido. Não foi o meu caso, que me recordo de mais de noventa derbys, e já vou sabendo como estas coisas são. Trata-se, na verdade, de um jogo especial, e obviamente seria de esperar que o Sporting - à procura de uma nova identidade - se apresentasse à altura da ocasião, equilibrando a contenda. É um facto que o Benfica já foi mais brilhante nesta temporada, e que o Sporting já esteve muito pior. Mas também já era de prever, olhando à conjuntura de ambas as equipas, e olhando aos seus últimos resultados, que tais diferenças se vissem algo esbatidas nesta partida.
Não entendi o deslocamento que, a dada altura, Jorge Jesus fez de Aimar para o flanco direito. Coincidiu com o reequilibrar do jogo, é certo, mas retirou dele o argentino, que ameaçava, nos primeiros minutos, poder fazer uma grande exibição. Por outro lado, foi quando Ramires regressou ao flanco direito que o Benfica assumiu definitivamente o controlo da partida. Seria dele, aliás, a melhor oportunidade de todo o jogo, quando aos 84 minutos falhou um desvio que parecia fácil para uma baliza deserta.
Já a estratégia de Carvalhal de colocar Vukcevic na zona de acção de César Peixoto não resultou, quer pela boa exibição do ex-bracarense na primeira parte, quer pela total desinspiração do montenegrino ao longo de todo o jogo – diria mesmo, ao longo de toda a época.
E já que se fala em individualidades, além dos já referidos (guarda-redes e defesas centrais, de entre os quais Sidnei surpreendeu pela positiva face aos seus últimos desempenhos), diga-se que João Moutinho e Miguel Veloso foram os mais influentes no Sporting, enquanto Ramires, Javi Garcia e Saviola (além de Aimar, enquanto esteve na sua posição) destacaram-se ligeiramente num Benfica, onde, à excepção de Quim, ninguém jogou muito bem, e ninguém jogou muito mal.É inquestionável que o empate, não passando disso mesmo, é mais penalizador para o Sporting, que com mais estes dois pontos perdidos fica praticamente arredado da luta pelo título (o que não seria líquido em caso de triunfo). O Benfica vai continuar à frente do FC Porto, vê o rival de Alvalade manter-se à distância, resta-lhe menos uma jornada, e dos três principais adversários (Porto, Sporting e Braga) só lhe fica a faltar ir ao Dragão, justamente na penúltima ronda. Olhando para o copo meio vazio, também se terá de notar que nos últimos quatro jogos o Benfica apenas marcou um golo, o que pode ser sintomático de uma certa quebra – longe de ser dramática, pois a temporada é longa e será inevitavelmente feita de altos e baixos, esperando-se que os baixos permitam, ainda assim, resultados como um empate em Alvalade.
Pedro Proença teve um jogo fácil para dirigir. Não houve casos, não houve indisciplina, e quando assim é, o árbitro passa quase despercebido.
Nota final para o relvado, em estado deplorável.
67 ANOS DE MÍSTICA
O jornal "O Benfica" festeja hoje 67 anos, sendo o mais antigo jornal desportivo do país, e o mais antigo jornal de clube em toda a Europa. Parabéns aos seus responsáveis, e a todos os que nele trabalham.ORA AQUI ESTÁ O ÁRBITRO DO DERBY
Não me lembro deste antigo jogador de Andebol do Sporting beneficiar o Benfica, nem sequer num pontapé de baliza.ESTE DERBY
O de amanhã, onde espero estar, não foge à regra, e qualquer previsão que se faça antes das equipas entrarem em campo não deixará de ser abusiva. Um jogo especial é assim mesmo.
Podemos no entanto assinalar alguns aspectos que rodeiam a partida, e dizer, por exemplo, que se o jogo se tivesse disputado três semanas antes o favoritismo do Benfica seria incontornável. Hoje, esse favoritismo dissipou-se, havendo razões para isso tanto de um como do outro lado da barricada.
Com a substituição do treinador, o Sporting ganhou paz interna, ganhou uma nova motivação, e apresenta-se com um factor de imprevisibilidade táctica (4-4-2?, 4-2-3-1?) que dificulta seriamente a tarefa de Jesus. Acresce que o jogo com os Pescadores, não sendo, em rigor, um verdadeiro teste, acabou por servir para aliviar a equipa dos seus fantasmas, significando no plano emocional muito mais do que uma vitória fácil (diante de um adversário frágil) poderia fazer supor. Até Liedson quebrou o jejum de golos, partindo para o derby liberto dessa pressão.
O Benfica, pelo contrário, teve na Taça de Portugal um elemento de desestabilização. Muito ou pouco, isso se verá. Mas perder em casa, e ser eliminado da segunda mais importante competição nacional, não pode deixar de causar alguma ansiedade na equipa, até porque duas derrotas seguidas farão certamente soar as campainhas de um passado recente pouco animador. Além da derrota diante do Vitória de Guimarães, e da eventual quebra de ritmo derivada da longa paragem na Liga, o Benfica parte para este jogo limitado pela ausência forçada de Luisão, e pelos défices físicos com que, pelo menos, Ramires e Saviola (se jogar) se apresentarão em campo. Um defesa, um médio e um avançado, cuja importância no fantástico início de época foi bem visível.Estes aspectos reequilibram forças que, há algumas semanas pareciam ter peso bem diferente. É verdade que o Sporting não tem armas para aproveitar as duas principais fragilidades defensivas do Benfica para este jogo: não tem jogo aéreo para fazer notar a ausência de Luisão, nem um extremo-direito capaz de fruir da inexistência de um defesa-esquerdo de qualidade no plantel encarnado. Mas um Saviola a meio gás vai ser um rude golpe na capacidade ofensiva do Benfica, agora que Jesus podia voltar a contar com Cardozo, o seu principal goleador.
Creio que o jogo vai depender muito do meio-campo, e da capacidade que o Sporting tenha, ou não, de anular Aimar e Di Maria. Serão estes, quanto a mim, os elementos chave para se perceber para onde irão pender os pratos da balança. Depois haverá também que relevar Liedson e Cardozo, ambos grandes goleadores, um vindo de um jogo onde marcou, outro de uma pausa imposta por Jorge Sousa. É provável que não existam muitas oportunidades, e no aproveitamento de um detalhe poderá estar a felicidade.No meio deste caldo de condicionantes, não há pois lugar a favoritismos. Há sim razões para afirmar, como alguém fez no passado, que, prognósticos, só mesmo no fim do jogo, não deixando contudo de ser verdade que, se para o Sporting o jogo é ultra-decisivo (basta olhar para a tabela), para o Benfica não o é tanto.
De Pedro Proença (5ª opção dos leitores do VdB, sendo Paulo Baptista o preferido) espera-se tudo. No único derby que apitou, em 2004, marcou dois penáltis inexistentes a favor do Sporting, expulsou dois jogadores do Benfica, e estragou completamente o jogo. E nem vale a pena lembrar a sua prestação no último FC Porto-Benfica.
Equipas prováveis:
SPORTING (4-2-3-1) – Rui Patrício, Abel, Polga, Carriço, Caneira, Miguel Veloso, João Moutinho, Pereirinha, Matias Fernandez, Vukcevic e Liedson
BENFICA (4-4-2) – Quim, Maxi Pereira, Sidnei, David Luíz, César Peixoto, Javi Garcia, Ramires, Aimar, Di Maria, Saviola e Cardozo
OS MEUS DERBYS
Como qualquer adepto empenhado, também eu guardo as minhas memórias de um clássico que acompanho com fervor desde tenra idade. É delas que trata o texto que se segue.O primeiro derby lisboeta de que me recordo foi disputado em Alvalade em Setembro de 1976. Jogava-se a primeira jornada do campeonato 76-77, e recordo-me de, em casa dos meus avós - onde habitualmente passava férias – me ter ido deitar a ouvir o relato num pequeno transístor repousado sobre a almofada. O jogo começara bem mais tarde que a hora marcada, dada a quantidade de pessoas que inundava a pista e as extremidades do relvado, terminando já a noite ia alta. Depois de alguns excessos revolucionários que remeteram injustamente o futebol para o campo das alienações inconvenientes, a paixão do povo reacendia-se de novo. Mas a crise e o FMI já batiam à porta.
Ainda na mesma temporada, a contar para a Taça de Portugal, novo jogo em Alvalade, nova derrota por 3-0. Desta feita foi o brasileiro Manoel que marcou todos os golos, realizando provavelmente a melhor exibição da sua vida. Cheguei a supor que todos os Sportingues-Benficas terminariam com 3-0, coisa que mais tarde vim a verificar nada ter de verdadeiro.
Naquela tarde, ao marcar um único e fabuloso golo da partida, perdeu o brinco de brilhantes – foi o primeiro português que me lembro de ver usar tal adereço, até então exclusivamente feminino -, não hesitando em fazer parar o jogo para o procurar. Ao fim de alguns minutos, perante a incredulidade de árbitro e adversários, Vítor – que se auto-intitulava o maior jogador português de sempre a par de Eusébio – pôs Toni, Nené e alguns outros colegas de joelhos no relvado, à procura da tal preciosa peça. Diria ele depois que o prémio de jogo não dava para o pagar, e por isso se justificava a interrupção. Não mais chegou a encontrar. Nem o brinco, nem a vida.Em Novembro de 1978 teve lugar um dos derbys que recordo com mais entusiasmo e saudade. Numa bela tarde de domingo martinheiro, na presença do General Eanes – numa altura em que os políticos ainda olhavam o futebol de soslaio - o Benfica chegou ao intervalo a vencer por 5-0 (!). Conta-se que o presidente Ferreira Queimado terá oferecido um prémio suplementar ao intervalo por cada golo mais. Mas os jogadores não corresponderam, o Sporting tentou dar alguma dignidade ao momento, e na segunda parte nada mais aconteceu.Apostara com o meu avô sportinguista – é verdade, tinha um avô adepto moderado dos leões -, suponho que vinte escudos, acerca do vencedor deste jogo. Ou seja, se o Benfica ganhasse eu ganhava vinte escudos, se perdesse a coisa era esquecida. Passei toda a primeira parte de volta dele, lembrando-o com um entusiasmo esfusiante, a cada golo, da tendência da aposta. Ele nem queria acreditar no que íamos ouvindo pelo rádio.À noite recordo-me de a RTP2 ter transmitido um resumo de vinte minutos dessa partida, o que à época era um luxo. Os comentários eram de Joaquim Letria. Julgo ter sido o primeiro derby do qual vi imagens televisivas. Nené e Alves bisaram, Reinaldo marcou o outro golo.
Na mesma época o Benfica voltou a vencer o Sporting, desta vez em Alvalade. Numa tarde chuvosa, João Alves marcou de penálti o golo solitário daquela que foi a primeira vitória fora que recordo em derbys, após uma exibição que, tive oportunidade de confirmar anos mais tarde numa visita pelos arquivos do jornal “A Bola”, se situou num plano bastante frouxo.
Por falar em televisão, um dos primeiros derbys televisionados de que me recordo, teve lugar em Abril de 1982. Era a última hipótese que o Benfica tinha de discutir o título de 81-82, para o que teria forçosamente de ganhar em Alvalade. Era o jogo do ano e o então presidente do Sporting João Rocha decidiu oferecer ao país a transmissão televisiva directa e integral – longe vinham os tempos em que o futebol não passaria sem TV…
Logo nos primeiros minutos Carlos Manuel marcou para o Benfica, num pontapé de canto directo que originou alguma polémica, pois nunca se chegou a ter a certeza de a bola ter mesmo entrado na baliza, uma vez que Marinho, loiro médio leonino, a cortou de cabeça, aparentemente sobre a linha - ainda nem se sonhava com chips, não havia computadores, nem relógios digitais, nem DVD’s, nem sequer cassetes de video. O Sporting empatou de penálti por Jordão, e assim se chegou ao meio da segunda parte, quando, num lance dividido, Manuel Fernandes atingiu a cabeça de Bento com os pitons. O saudoso guardião benfiquista, que não era para brincadeiras, levantou-se como uma mola, e com a bola ainda nas mãos encostou o ombro ao queixo do avançado leonino, que por acaso era seu vizinho na margem sul do Tejo. Mas derby era derby, e este aproveitou a dádiva, teatralizando uma agressão que fez o árbitro expulsar o guarda-redes benfiquista e assinalar a respectiva grande penalidade. Estava decidido o campeonato. Jordão ainda voltou a marcar, fazendo assim um hat-trick frente à sua antiga equipa.
O Benfica só voltaria a vencer em Alvalade na época 1983-84. Era Eriksson o treinador, e, já depois de Diamantino ter falhado um penálti, Nené converteu uma segunda grande penalidade já nos minutos finais. Não me perguntem se foram bem ou mal assinalados, pois na altura não me preocupava muito com essas coisas – com Pinto da Costa a dar os primeiros passos na presidência portista, e sem transmissões televisivas, a arbitragem era coisa de somenos.
Eis-nos chegados a Abril de 1986, precisamente um mês antes do episódio Saltillo. À entrada da penúltima jornada, o Benfica tem dois pontos de vantagem sobre o F.C.Porto no topo da tabela classificativa. Os portistas jogam no Bonfim, e se escorregarem e o Benfica vencer em casa, temos campeão vestido de vermelho. Com quem é que o Benfica joga? Precisamente com o Sporting, que meses antes levara mais cinco na Luz, desta vez numa eliminatória da Taça (numa chuvosa quarta-feira à tarde, em que tive de faltar às aulas para ouvir o relato).
Foi o meu primeiro derby ao vivo, marcado pelo drama e pelas lágrimas.O Terceiro Anel já estava fechado. Numa obra que custara as saídas de Chalana, Stromberg e Eriksson, o então presidente Fernando Martins transformara o Estádio da Luz num dos maiores da Europa e do Mundo, dotando-o de uma capacidade de 120.000 espectadores. Como sem cadeiras cabia sempre mais um, chegaram a lá estar, oito meses depois, 140.000. Eu ví ! – não os contei, é certo, mas a quantidade de pessoas em cima das escadas, apertada contra as portas, e mesmo nos corredores, sem possibilidade de cortar o bilhete, não deixa muitas dúvidas de que num célebre Benfica-FC Porto de 1987 (3-1 com hat-trick de Rui Águas) - em que familiares meus ficaram no carro a ouvir o relato com o bilhete na mão, e em que estariam cerca de 40 mil portistas -, os números não andariam longe desse impressionante recorde.
Neste decisivo Benfica-Sporting não estavam 140 mil, mas estariam, seguramente, um pouco mais do que os 120 mil da lotação oficial. Ou seja, mais cabeça menos cabeça, o estádio estava completamente cheio. Cheio sobretudo de benfiquistas, ávidos de festejar um título que na época anterior lhes escapara, em tempos em que isso ainda causava alguma estranheza.Fiquei no novo terceiro anel. O sol era abrasador. Os jogadores lá em baixo assemelhavam-se aos bonequinhos do “subbutteo”, e eu, na companhia do meu pai (que muito tinha pressionado no sentido de me levar), e de mais um amigo dele, delirava com o panorama de cores que se apresentava diante de mim.Tudo parecia correr bem, mas o Sporting não iria querer participar na festa. Enquanto Futre - com um grande golo, em que correu quase 50 metros com a bola dominada - dava a vitória ao FC Porto em Setúbal, uma equipa de leões onde avultavam Jaime Pacheco, Sousa, Manuel Fernandes, Jordão, Oceano, e o inspiradíssimo guarda-redes Vítor Damas, adiantava-se rapidamente no marcador pelo avançado de Sarilhos, e pouco depois aumentava a vantagem pelo defesa-central Morato.
O Benfica, com um bom onze mas com um plantel limitado, apresentava-se na fase final da temporada com grande desgaste físico e anímico, sobretudo sentido a partir do momento em que se viu arredado das meias-finais da extinta Taça dos Vencedores das Taças, em casa frente ao Dukla de Praga, sofrendo um golo nos últimos minutos depois de se colocar em vantagem na eliminatória, jogo que me causou uma das maiores amarguras da minha infância desportiva (o que eu chorei…), e que me fez, à revelia de todos, associar ao clube da águia por minha conta e risco. Voltemos ao derby, cuja segunda parte foi dramática. Ainda no primeiro quarto de hora, Michael Manniche – o dinamarquês de quem o médio do Atlético de Madrid retirou a alcunha - de cabeça, a cruzamento de Diamantino, reduzia a diferença. Nos últimos trinta minutos assistiu-se a um vendaval de ataque benfiquista, à procura do golo que permitisse, pelo menos, manter de pé a hipótese de depender de si próprio na última jornada, em que teria de se deslocar ao Bessa – anos mais tarde passar-se-ia algo parecido, mas com final bem diferente. Vítor Damas estava no entanto em grande forma e foi negando, uma após outra, todas as ocasiões de golo criadas pelo Benfica.No final, um terrivelmente decepcionante 1-2, e o quase adeus ao título – que seria confirmado na semana seguinte com derrota no Bessa, e nova vitória portista, agora diante do Sp.Covilhã.
As escadarias do estádio eram um desolador e fúnebre espectáculo. Gente, pequena e grande, a chorar, grande consternação, o drama do futebol na sua mais dolorosa faceta.Aprendi nessa tarde que nem todas as belas histórias terminavam com um final feliz. Fica o onze encarnado, que ainda hoje sei de cor: Bento, Veloso, Oliveira, Samuel, Álvaro, Carlos Manuel, Sheu, Diamantino, Wando, Rui Águas e Manniche. Foi uma das grandes desilusões da minha vida, e provavelmente o meu mais amargo derby de sempre.
Quem disse que a história não se repete ? Um ano depois, eis-me no mesmo local, e na mesma situação. Depois de ter perdido 7-1 em Alvalade na primeira volta, o Benfica chegava à penúltima jornada novamente com hipótese de se sagrar campeão. Bastava vencer o rival, pois uns minutos antes o F.C.Porto, em vésperas da valsa argelina de Viena, perdia em Portimão e entregava todo o ouro ao (seu) bandido.Era com expectativa de vingar o ano anterior, de vingar os 7-1, mas acima de tudo de comemorar o meu primeiro título em pleno estádio. Já um pouco mais crescidote – sem o meu pai, e com amigos mais velhos – vivi esta jornada num Maio quente e bonito, perante mais uma das grandes enchentes da história do antigo Estádio da Luz, já depois do terceiro anel fechado, e antes do Mundial de sub-20 (que obrigou a reduzir ligeiramente a lotação, para construir novos camarotes de imprensa), e da posterior aplicação de cadeiras que pôs alguma ordem na coisa.Desta vez, o final foi mesmo feliz. Chiquinho Carlos e Nunes adiantaram o Benfica ainda na primeira meia-hora. O golo de Marlon Brandão perto do fim, apenas serviu para dar mais emoção a uma enorme festa, que começou com a invasão do relvado, e terminou, para mim, num belo cherne grelhado, regado com um fantástico vinho rosé (a primeira vez que bebi tal coisa), num restaurante setubalense chamado “O Quintal”, que não faço ideia se ainda é vivo ou já entregou a alma ao criador.
A partir daqui, já mais independente, senão no aspecto económico, ao menos no plano formal, comecei a marcar presença amiúde nestes grandes momentos, sozinho ou acompanhado, de boa saúde ou saído da cama, como veremos mais adiante.Na mesma época vi ainda pela televisão a final da Taça de Portugal, que pôs os rivais lisboetas de novo diante um do outro, agora no Jamor. Foi uma sobremesa na vingança já de certo modo servida com a conquista do título. Uma exibição esplendorosa de Diamantino (porventura uma das melhores da sua brilhante carreira) chegou para liquidar uma vez mais os leões. Novamente 2-1, e dobradinha para John Mortimore, coisa que até hoje só Eriksson seria capaz de voltar a conseguir.
Recuemos uns meses, e vamos então (lá terá de ser) falar dos tais 7-1.
Foi um jogo que nada valeu em termos de palmarés – o Benfica faria a dobradinha, o Sporting ficaria em 4º -, mas a rivalidade fratricida com que “lagartos” sempre olharam para “lampiões” (muito mais que o contrário, diga-se), faz com que para muitos deles essa tarde, mais do que uma simples jornada de felicidade, se tenha tornado na maior glória de uma história centenária, tão somente pelo mórbido prazer de ver o rival humilhado a seus pés. Para quem, como o autor destas linhas, estava do outro lado da barricada, a importância atribuída pelos leões a este episódio resulta algo estranha. Até porque, muito mais dolorosa do que essa derrota, tinha sido, por exemplo, aquela de “apenas” 1-2, uns meses antes em plena Luz. Mas o futebol tem destas coisas, e vive também destes momentos singulares.Não estive em Alvalade nessa tarde. Ainda bastante jovem só ia aonde me levavam, e nessa tarde limitei-me a ouvir pela rádio, com toda a atenção, o relato das incidências do derby. Desde cedo se percebeu que o jogo não ia correr bem aos encarnados. O Sporting, orientado por Manuel José, vinha de uma sequência de bons resultados, e entrou a todo o gás na partida, marcando ainda antes de cumprido o primeiro quarto de hora. 
Até final da primeira parte não houve mais qualquer golo. Já depois de golos de Manuel Fernandes para o Sporting, e Vando para o Benfica, o marcador assinalava um normalíssimo 2-1, quandofaltavam apenas 25 minutos do final da partida.
O Benfica tinha de arriscar tudo e procurou fazê-lo, mas as consequências foram caóticas. Em apenas seis minutos os leões marcam por três vezes (por Ralph Meade, Mário Jorge, e de novo Manuel Fernandes), elevando o placar para impressionantes 5-1. Tudo saía bem ao Sporting. O Benfica entrava em desnorte total, e cada bola que se aproximava da sua área parecia levar fogo. Aconteceria algo parecido, treze anos depois, numa tristemente célebre noite em Vigo.O Sporting, empolgado por um Estádio de Alvalade em chamas, marcava ainda mais dois golos, ambos por Manuel Fernandes, e se o jogo durasse mais tempo seguramente que as contas não ficariam por aí.7-1 era a maior goleada de sempre entre os dois clubes. O Benfica, além do tal jogo da taça, vencera em 1946 por 7-2, em 1979 por 5-0, mais duas vezes por 5-1, quatro por 4-1. Em 1994 chegaria a vingança: em jogo decisivo para o título, no mesmo cenário, o Benfica triunfaria por 3-6. Mas 7-1 nunca sucedera, nem nunca veio a suceder depois.Na bancada queimam-se cachecóis e bandeiras do Benfica. Rasgam-se alguns cartões – há sempre quem lhe custe mais a digerir estas coisas -, mas o Benfica manteve-se lá bem na frente do campeonato.Por mim, desinteressei-me do jogo a partir daqueles seis fatídicos minutos. Os três pontos estavam perdidos, e havia que seguir em frente.Vinte dias depois jogava-se na Luz um importantíssimo Benfica-FC Porto (o tal dos 140 mil). O Benfica venceu e partiu para a conquista do título.
Em 1987-88, em jogo com poucas implicações num campeonato já decidido a favor do eficaz FC Porto de Ivic, assisti a uma das melhores exibições do Benfica em derbys. Aos 50 minutos de jogo já havia 4-1 (bis de Magnusson e Rui Águas), pouco depois Mozer atirou à barra na sequência de um livre, e em poucas ocasiões a vingança dos 7-1 terá estado tão próxima. Esse Benfica, com Toni ao leme, chegaria à final da Taça dos Campeões em Estugarda. O Sporting vivia dias difíceis, com uma equipa descaracterizada e recheada de brasileiros de qualidade duvidosa. Desse jogo recordo ainda uma longa caminhada pedestre desde a Estefânia até à Luz, e respectivo regresso. À excepção de uma ocasião em que, em Madrid, já pela noite dentro, fui desde para lá de Castilla até à Porta del Sol, não me recordo de alguma vez ter andado tanto a pé.
Em Dezembro de 1988 novo derby, nova enchente, nova vitória. Perante um leão eivado de unhas (Douglas, Silas, Carlos Manuel, Ricardo Rocha, Eskilsson) trazidas por um presidente com uns bigodes inversamente proporcionais à sua seriedade, Magnusson e Pacheco resolveram um jogo também marcado pelo caso Hernâni, médio que acusou a presença de cocaína no controlo anti-doping, que dava na altura os primeiros passos na modalidade. Foi suspenso, mas na época seguinte ainda voltaria a tempo de disputar a final da Taça dos Campeões, em Viena frente ao AC Milan. Nunca se chegou a saber se era culpado, como as evidências pareciam demonstrar, ou inocente, como ele insistia em clamar. A sua carreira e a sua vida, daí em diante, seriam normais, e julgo que ainda joga futebol de praia.
O primeiro derby a que assisti em Alvalade disputou-se nas primeiras jornadas da temporada seguinte - a da final de Viena, portanto. Foi a única vez que me sentei na bancada central daquele estádio, pois as companhias com que fui ao jogo eram influentes e endinheiradas, e arranjaram-me um convite. O Benfica triunfou com um golo solitário de César Brito respondendo a cruzamento do extremo angolano Abel Campos, aos poucos minutos da segunda parte. Entre os leões havia grande expectativa para essa temporada, fruto de aquisições como a de Fernando Gomes, o bi-bota de ouro que saíra a mal das Antas, ou do central internacional brasileiro Luisinho. Mas na equipa de Eriksson, um Ricardo Gomes na defesa, um Valdo no meio campo, e um Magnusson na frente -todos no auge das respectivas carreiras - davam poucas hipóteses à concorrência e tornavam o futebol encarnado verdadeiramente demolidor. Esse início de época foi marcado por várias goleadas e exibições espectaculares, embora posteriormente a aposta europeia tenha acabado por deixar cair o título nacional para um F.C.Porto de transição, onde agora actuava …Rui Águas (não me esqueci, não me esqueço, não lhe perdoo, e nunca lhe perdoarei!).
Após três anos de ausência, voltei a um derby em Dezembro de 1993. Estava-se na famosa temporada do título de Toni, que durante longos onze anos foi o “último”. O famoso verão quente – não o gonçalvista, mas o benfiquista – tinha feito sair da Luz Paulo Sousa e Pacheco a caminho do Sporting de Sousa Cintra. João Pinto por pouco não lhes fez companhia, acabando resgatado in-extremis em Torremolinos por Jorge de Brito. Ao contrário do que se terá pensado no reino do leão, essa humilhação foi a força maior do Benfica ao longo de toda essa temporada. A equipa benfiquista faria nesta temporada alguns dos jogos mais espectaculares da história do clube, como os célebres 3-6 que não tarda a aparecer por aqui, ou um 4-4 em Leverkusen para a Taça das Taças, que também ficou na memória de todos.
Na primeira volta, já com Sporting e Benfica a disputar o primeiro lugar, e na semana seguinte ao terrível acidente que roubou uma promissora carreira ao russo Cherbakov, ao incompreensível despedimento de Bobby Robson na sequência de uma eliminação europeia em Salzburgo, e à contratação de Carlos Queiroz, o Benfica serviu a primeira dose da sua vingança. Venceu por 2-1, depois de Figo (a primeira vez que o vi jogar) ter aberto o placar na sequência de um canto – as bolas paradas eram então o ponto fraco dos encarnados -, de Yuran ter empatado no início da segunda parte, e Isaías, com um forte remate de meia distância, ter assegurado a vitória e a prenda de Natal dos benfiquistas. Não foi pois o regresso que Paulo Sousa e Pacheco desejavam, numa equipa que tinha também Paulo Torres, Peixe, Nelson, Cadete e Balakov.
Este jogo foi para mim inesquecível - pela primeira vez (não única) vi um jogo do Benfica directamente saído da cama, onde combatia uma terrível gripe e ardia em febre. Perante a estupefacção e mesmo indignação da minha mãe, arranquei sozinho de Évora para Lisboa, com muita roupa em cima, e os bolsos carregados de analgésicos e antipiréticos, para não deixar de apoiar a equipa em tão delicado momento. Valeu a pena, e até a doença me passou. Acabei na Portugália da Almirante Reis a comemorar a vitória, por entre cervejas frescas e restos de dor de garganta.
Para a segunda volta estava guardado um dos melhores jogos da história do futebol português, e um dos mais inesquecíveis derbys alguma vez disputados.
Lamentavelmente não pude estar presente no estádio nessa tarde de Maio de 1994. Embora já acompanhasse bastante o Benfica, não consegui bilhetes para a partida, coisa que então, sem Internet, sem lugares cativos, sem contactos em Lisboa, acontecia com alguma frequência.Vi o jogo numa televisão de 33 cm e a preto e branco em casa de um colega de lides universitárias, por sinal sportinguista, o que deu também acrescida peculiaridade à situação.Faltavam apenas mais quatro jornadas para terminar a prova e, assim sendo, quem vencesse ficaria com o caminho aberto para o título.Não se tratava de um título qualquer. Era talvez o campeonato mais importante da história do Benfica até então. Era o título do orgulho resgatado, depois de quase se assistir ao desmantelamento da equipa e do próprio clube, que continuava mergulhado num mar de dívidas e dificuldades estruturais diversas. Por outro lado, o Sporting não vencia qualquer prova havia doze anos. Era aquilo a que se pode chamar um jogo de vida ou de morte, e logo entre os eternos rivais.
A tarde estava chuvosa e o estádio a abarrotar. Recordo que até o pontapé de saída foi rodeado de suspense, com o árbitro (o recentemente falecido Vítor Correia) a mandá-lo repetir.Foi talvez a única vez que me lembro de ver Rui Costa no banco do Benfica, o que se deveu ao facto de o então jovem jogador atravessar uma fase de grande desgaste físico.O Sporting entrou de forma avassaladora, dominando completamente a primeira meia hora de jogo. Logo aos dez minutos, Jorge Cadete corresponde a um cruzamento e bate de cabeça o guardião Neno abrindo o activo. Pouco depois nova oportunidade desta vez desperdiçada por Iordanov. O Benfica mal respira e teme-se o pior. Alvalade ferve de euforia.Aos 25 minutos de jogo surge João Vieira Pinto, que dá nesse momento início à mais memorável exibição da sua carreira, e a um dos desempenhos individualmente mais bem conseguidos da história do futebol luso. O jovem avançado ganha um ressalto a Paulo Sousa, rodopia e estoira desde trinta metros de distância batendo inapelavelmente um impotente Lemajic. Contra a corrente do jogo o Benfica restabelecia a igualdade.Foi sol de pouca dura, pois alguns minutos mais tarde, na sequência de um canto, Luís Figo, novamente de cabeça, faz o segundo golo dos da casa, devolvendo a loucura às bancadas de Alvalade.Mas João Pinto parece cada vez mais decidido a entrar para a história, e pouco depois, num extraordinário lance individual em que dribla dois defesas sportinguistas já no interior da área, atira mais uma vez fora do alcance do guardião jugoslavo. 2-2 num jogo cada vez mais empolgante. A um minuto do intervalo, num livre estudado Vítor Paneira desmarca-se e cruza para a área onde Isaías ganha de cabeça, e novamente João Pinto, também de cabeça, faz um inacreditável hat-trick, dando vantagem ao Benfica ainda na primeira parte, poucos minutos depois dos encarnados parecerem à beira do KO.Ao intervalo de um jogo de loucos, com o resultado ainda completamente em aberto, Carlos Queiroz faz uma substituição suicida, retirando o lateral esquerdo Paulo Torres e colocando o extremo Pacheco em campo. O Benfica, mais experiente, saberia ganhar a partir daí definitivamente vantagem no jogo, marcando todos os restantes golos por esse flanco.
Logo nos primeiros minutos do segundo período, Vítor Paneira escapa-se a Paulo Sousa, cruza para a área, João Pinto salta por cima da bola , que sobra para Isaías isolado que fuzila Lemajic fazendo o 2-4. Começava-se nesse momento a ver o fundo do tacho deste jogo, pois pela primeira vez, e já na segunda parte, uma das equipas ganhava vantagem de dois golos.Por volta do quarto de hora, João Pinto dá ainda mais brilho à sua prestação com uma jogada individual extraordinária, que culmina com um drible sobre Paulo Sousa já dentro da área (perfeita metáfora de tudo o que significara essa temporada), e um passe soberbo a isolar novamente Isaías que bisa no jogo elevando o resultado para 2-5. A festa era agora claramente do Benfica, que se sentia à beira da vitória e do título.Já em clima de festival benfiquista, e já com Rui Costa em campo, mais uma vez Vítor Paneira, mais uma vez pela direita do ataque encarnado, cruza para a entrada da área onde Hélder, em acção ofensiva, remata em vólei para o 2-6 que cada vez mais assumia a natureza de escândalo. Era a hipótese de vingar os 7-1 ali mesmo sofridos oito anos antes.João Pinto entretanto era substituído, ficando a imagem do aperto de mão que Carlos Queiroz, seu treinador nos sub-20, lhe fez questão de dar, como sinal do reconhecimento do seu fenomenal trabalho nessa tarde.O Sporting, num último assomo de dignidade, ainda reduziu por Balakov de penálti, mas o campeonato estava entregue.No dia seguinte “A Bola” titulava “Céus ! 6-3 em Alvalade; Benfica sublime, empolgante e aterrador”, e atribuía pela única vez na sua história a nota 10 a João Vieira Pinto, que com uma exibição eusebiana garantira a vitória para os encarnados.Naturalmente a festa pelo país fora durou até às tantas. Na semana seguinte o Benfica selava em Braga a conquista matemática do campeonato, mas foi nesse 13 de Maio que a “aparição” João Pinto dizimou o Sporting (onde viria ainda a jogar).
Nos anos seguintes, outras prioridades e algumas épocas menos empolgantes fizeram-me falhar cinco derbys seguidos na Luz. Nem por isso deixei de ir ao futebol, acabando curiosamente por assistir, neste período, a alguns Sportingues-Benficas em Alvalade. Foi o caso do de 1994-95, em que um golo de Amunike afastou os encarnados da corrida ao título, numa noite (1 de Dezembro de 1994) em que Preud’Homme fez a melhor exibição que alguma vez vi a um guarda-redes, evitando uma humilhante goleada. Fui ao jogo pelo simples motivo de, por razões profissionais, ter ido esperar uns ingleses ao aeroporto, e não saber o que fazer com eles até à hora de um jantar que estava marcado para Cascais, no qual, mau grado a derrota, nos banquetearíamos com um repasto de luxo - por conta de outrem, claro. Eram judeus, e adeptos do Manchester United. Torceram pelo Benfica – ai deles se assim não fosse…- mas não gostaram de um jogo cheio de paragens e mau futebol. Desse Benfica conheciam, além do guardião belga, o avançado argentino Cláudio Cannigia.
Não arranjei bilhetes para a célebre final do "Very-Light". Disputou-se no Jamor em Junho de 1996. Benfica e Sporting tentavam desesperadamente salvar a época, pois o F.C.Porto arrancara firmemente para a sua caminhada rumo ao penta. Quando Mauro Airez (argentino que não fez história na Luz para além desse momento) marcou o primeiro golo do Benfica, Hugo Inácio, membro (que se tornou famoso) dos No Name Boys, atirou um very-light (expressão até aí praticamente desconhecida), que por fatalidade, incúria ou descuido, aterrou na bancada dos adeptos do Sporting, atingindo mortalmente um deles. Pintou-se de luto o derby nesse dia . O Benfica venceu por 3-1, com mais uma grande exibição de João Pinto, mas nem sequer houve entrega de taça. Voltei a Alvalade duas épocas depois, numa derrota tangencial com um golo do então estreante Beto, numa partida marcada pelas expulsões de Jamir e Hélder. Era Paulo Autuori o treinador benfiquista, e a equipa até ia bem no campeonato. Semanas mais tarde acabaria no entanto por derrapar, terminando muito mal a temporada já sob o comando de Manuel José. Neste jogo, tive de fugir de uma tremenda confusão à saída, tendo sido essa a única ocasião em que senti problemas de segurança em jogos com o Sporting – já com o FC Porto a história foi fértil em acidentes, que talvez um dia aqui vos conte.
Como não há duas sem três, no sábado de Carnaval de 1998 lá estava eu de novo em Alvalade para mais um clássico. Eram os melhores tempos de Souness, e a equipa encarnada levava várias vitórias consecutivas, sonhando ainda com uma aproximação ao FC Porto que não se chegaria a concretizar. Como à terceira é de vez, depois de duas derrotas seguidas, esta noite reservava-me uma retumbante vitória por 1-4, acompanhada de fantástica exibição. Poborsky (a estrela daqueles tempos), Sousa, Brian Deane e João Pinto (saído do banco após lesão) fizeram os golos - durante a segunda parte cheguei a pensar novamente nos 7-1. O médio Calado fez o jogo da sua vida e foi o melhor em campo, lembro-me também que o treinador do Sporting era Carlos Manuel – um dos meus ídolos de infância -, e um dos seus comandados era um ainda muito jovem Simão Sabrosa, que vi jogar nesse dia pela primeira vez. Tinha ficado em Lisboa à espera do jogo, mas ia passar o Carnaval a Évora, para onde me dirigi de imediato. A viagem, apesar de solitária, foi inesquecível, tal a enorme felicidade que juntava o início de um fim-de-semana prolongado, com uma tão robusta vitória do Benfica em Alvalade. Até cantei…Como muitas vezes acontecia em jogos fora de casa, assisti à partida no meio dos No Name Boys. A intensidade com que se vive o jogo no meio das claques é incomparável. Por vezes, ainda hoje gosto de o fazer.
Na bancada central estava um Vale e Azevedo rejubilante. Nunca acreditei nele, mas nessa ocasião achei bem que festejasse os golos do Benfica nas barbas de Roquette. Acho deplorável o comportamento elitista de alguns dirigentes, que parecem querer situar-se acima dos adeptos que é suposto representarem.
Este jogo abriu uma sequência de três vitórias consecutivas (e cinco vitórias em sete anos) do Benfica em Alvalade. Seguir-se-iam uma vitória por 1-2 com dois auto-golos de Beto em noite de denso nevoeiro, em jogo a que não pude assistir nem na televisão, e o célebre (e saboroso) 0-1 em que um livre de Sabry adiou a festa de um ansiado título, que o Sporting conquistaria na semana seguinte em Paranhos. Este apenas vi pela televisão, tal como o de 2002 em que aconteceria precisamente o mesmo, não fosse um penálti arranjado por Martins dos Santos proporcionar a Mário Jardel, no último minuto, o empate a um golo, depois do lituano Jankauskas ter aberto o activo para o Benfica já em plena segunda parte. Curiosamente seria o Benfica, na semana seguinte, a devolver o título que tinha retirado ao rival, vencendo o ainda campeão Boavista na Luz por 2-1, permitindo ao Sporting festejar no hotel. O seu segundo título em três anos.
O destino tem destas coisas. Estive seis anos sem ver um derby na Luz, e depois, num só mês, assisti a…dois. Para o campeonato, um lisonjeiro 0-0, para a taça uma derrota por 1-3, num jogo em que a chuva foi visita, e em que uma polémica qualquer inviabilizou a transmissão televisiva. Estávamos em Janeiro de 2000, e meses depois, esse forte Sporting (de Acosta, Di Franceschi, André Cruz, Duscher, Vidigal etc) conquistaria o tal título que via fugir-lhe havia dezoito anos.Os dois últimos derbys a que assisti no antigo estádio da Luz foram, cada um de sua maneira, absolutamente inesquecíveis. Um determinou a saída de Mourinho do Benfica para não mais voltar. Ao vencer por 3-0, com uma grande exibição, e com uma proposta do Sporting no bolso, exigiu, sem sucesso, a Manuel Vilarinho a renovação do contrato, batendo assim com a porta. Acabaria por não entrar em Alvalade pois, sabe-se-lá porquê, num impressionante serviço prestado ao clube, a claque Juve Leo boicotou-o, mobilizando-se para inviabilizar a sua contratação. Foi para Leiria e o resto da história é conhecido.Nessa noite, numa equipa onde despontavam Fernando Meira, Marchena, Miguel, Maniche entre outros, mas que ficaria pela primeira e única vez na história do clube em 6º lugar depois de somar três treinadores, João Tomás por duas vezes e Van Hooijdonk de penálti (que teve de ser repetido) marcaram os golos. Foi o regresso de João Vieira Pinto à Luz, e tal como Paulo Sousa e Rui Águas alguns anos antes, foi objecto de impressionante vaia sempre que tocava na bola. Neste caso bastante mais injusta, diga-se de passagem.
No último derby da velhinha Luz, foi o árbitro o protagonista. Duarte Gomes expulsou de forma exagerada o médio Andrade, assinalou um penalti duvidoso a favorecer o Benfica, perdoou um cartão vermelho a João Pinto, mas pior que tudo isso, quando, já nos minutos finais, o Benfica vencia por 2-0, viu algo que mais ninguém conseguiu ver: Jardel saltou com Marco Caneira (então de águia ao peito) e lançou-se espalhafatosamente para o relvado. Em vez de mostrar o respectivo cartão amarelo ao brasuca, apontou para a marca de grande penalidade perante a indignação geral. Jardel marcou, e dois minutos depois, em posição duvidosa, faria de cabeça o golo de um empate com sabor a derrota, e das amargas. Quem vencesse nesse dia dobraria o Natal na frente da classificação. O empate favoreceu os leões (também de Quaresma, Hugo Viana, João Pinto e…Paulo Bento), que se sagrariam campeões após 42 golos - dos quais 17 de penálti (!!!) - do então ainda Super, Mário Jardel.Esta foi a época da “equipa maravilha” de Luís Filipe Vieira, que chegado à Luz, contratou, em colaboração com José Veiga, e quase simultaneamente, Simão Sabrosa, Mantorras, Zahovic, Drulovic, Argel, Caneira entre outros. Mas só três anos depois o sucesso chegaria.
Nessa partida, perante o fecho das portas das bancadas de sócios (já lotadas), tive de entrar para o terceiro anel, do lado que nunca deixou de ser "novo", mesmo quando já estava em vias de ser demolido. Vi-me aflito para conseguir lugar, e foi já muito perto do apito inicial que me sentei na bancada. Vi o jogo rodeado de sportinguistas, mas nem mesmo assim essa deixou de ser uma das raríssimas ocasiões em que não resisti a lançar alguns impropérios ao juiz da partida. Saí do estádio como se me tivessem roubado a carteira.
Já que estive na despedida dos derbys na antiga Luz, não seria cortês não o fazer em Alvalade. Foi em 2002, também em Dezembro – muitos foram os Sportingues-Benficas natalícios – mas desta vez saí com uma vitória por 0-2, golos ainda na primeira parte de Zahovic e Tiago. Foi o segundo jogo de José António Camacho no Benfica – recebera o Sp.Braga uma semana antes – e o último de Pedro Mantorras, antes de um longo calvário de dois anos sem jogar. Julgo ter sido a primeira vez que vi jogar Cristiano Ronaldo mas, verdade se diga, não me impressionou muito. Demoraria a fazê-lo, e só a partir do Euro 2004 me rendi. Na mesma época, enquanto na Luz decorriam as obras, o Benfica recebeu os leões no Jamor. Perdeu por 1-2 um jogo que pouco contava para o desfecho da Liga. Marcaram Quaresma e João Pinto para o Sporting, enquanto Sokota reduziu para os encarnados já perto do fim. Fui assistir ao jogo, e esse foi, sobretudo, um dia para recordar todas as histórias que, em criança, o meu pai me contava sobre os grandes jogos então disputados no Estádio Nacional, tendo assim a oportunidade de viver um pouco dessas nostálgicas reminiscências.
Em Janeiro de 2004, no primeiro derby da nova Luz, o Sporting ganharia por 3-1. A derrota deveu-se, em larga medida, a Pedro Proença, que descobriu dois penáltis – um claramente inexistente, o outro duvidoso -, transformados por Rochemback e Sá Pinto, que, com golos de Silva e Luisão pelo meio, selaram o resultado, no dia em que o Benfica estreou o bonito equipamento centenário, do qual aliás guardo uma réplica. Meses mais tarde, em Alvalade, deu-se a vingança: na estreia do novo estádio do Sporting em derbys, um golo de Geovanni nos últimos instantes colocou o Benfica no segundo lugar e na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, e levou os sportinguistas ao desespero. Treinava o Sporting …Fernando Santos, e Moreira foi o melhor em campo. Ao golo seguiu-se uma invasão de campo da claque leonina, que dirigentes do Sporting (entre os quais um tal de Bettencourt) e as forças policiais conseguiram a custo controlar. Lamentavelmente, não arranjei bilhete para este jogo, e vi-o pela televisão. Grandes alegrias tive eu nesses meses. Seguiu-se a vitória na Taça de Portugal diante de um FC Porto a poucos dias de se sagrar campeão europeu, e depois o inesquecível Euro 2004. Em Maio de 2005, enfim o título nacional.
2004-2005, época de grandes emoções, e em assisti a três derbys em poucos meses. O primeiro em Janeiro de 2005, em Alvalade a convite de um amigo que detinha dois cativos. Ganhou o Sporting por 2-1, com dois golos de Liedson - regressado depois de um polémico cumprimento de castigo frente ao Pampilhosa para a Taça, em jogo propositadamente antecipado para as vésperas do derby. Foi o dia em que Mantorras também regressou, curiosamente quase no mesmo local onde tinha feito o seu último jogo (o estádio é que já era o novo).
Ainda nesse mesmo mês de Janeiro, calhou em sorteio de Taça mais um Benfica-Sporting, agora na Luz. O Benfica, com muitas lesões, vinha de uma série de derrotas, a última das quais com o Beira Mar em casa. Seria campeão nesse ano, mas na altura poucos apostariam em tal eventualidade. Sentindo a importância da ocasião, e do meu apoio, repeti o que fizera em 1993 e no meio de uma virose, a poder de Brufens e Ben-u-rons, lá fui, com falhas respiratórias, para a Luz, onde nessa noite deveriam estar não mais de dois graus de temperatura. Deus recompensou-me e assisti a um dos melhores derbys da minha vida: 3-3, após prolongamento, um espectáculo empolgante, grandes golos e um happy-end no desempate por penáltis – Miguel Garcia atirou à barra, dando a passagem ao Glorioso. Não serviria de nada, pois meses mais tarde, no Jamor, um Benfica a ressacar do título conquistado, seria ultrapassado por um Vitória de Setúbal aguerrido, em jogo que também presenciei.Duas semanas antes, em Maio, dia de aparições, foi Luisão a lançar a mais profunda loucura que alguma vez vi num estádio de futebol, marcando o decisivo golo que viria a valer, uma semana depois, um sofrido e ansiado título.
Ao longo de mais de trinta anos de futebol, tive muitas alegrias e muitas desilusões. A ter de escolher um só momento, não hesitaria em escolher o título de 2004-2005 conquistado pelo Benfica depois de um longo jejum de onze anos. Na verdade não se trata de um momento, mas sim de vários. De várias semanas ou mesmo meses. De toda uma época, de uma fase de vida, ou mesmo de para lá dela. Se houve jogo decisivo para esse título, foi o derby das penúltima jornada.
Bastaria ao Sporting empatar na Luz para poder tranquilamente fazer a festa em sua casa no derradeiro jogo frente ao Nacional. Ganhando sagrava-se de imediato campeão. Havia ainda um elemento importante nesta partida: o Sporting disputaria quatro dias depois a final da Taça Uefa em sua casa, vindo então a perdê-la frente ao CSKA de Moscovo. A equipa de José Peseiro encontrava-se em grande momento de forma, podendo ganhar Liga e Taça Uefa na mesma semana, depois de uma longa sequência de brilhantes vitórias, emolduradas por exibições de fino recorte.O Benfica teria de ganhar para manter acesa a hipótese de, não perdendo depois no Bessa, se sagrar enfim campeão. Se o F.C.Porto, à mesma hora, não vencesse em Vila do Conde, o Benfica poderia festejar logo logo nessa noite.A atmosfera em redor deste derby foi algo de inesquecível. Dizia-se na altura, e com alguma razão, tratar-se do jogo do século. Não me lembro de facto de nas competições nacionais se ter jogado uma partida de tão dramática importância – mesmo os 6-3 de Alvalade em 1994 foram a cinco jornadas do fim, e o Benfica tinha sido campeão apenas três anos antes.Nessa manhã de sábado, viam-se inúmeras pessoas com as camisolas de ambos os clubes, e grupos de jovens entoando cânticos, mesmo em zonas bem longe do estádio, ou mesmo noutras cidades.Muita gente terá vivido esse dia com enorme ansiedade. Do lado do Benfica era a hipótese de pôr termo ao longo e angustiante jejum. Entre os leões tratava-se basicamente impedir que isso acontecesse, mas também de dar luz a uma época que entusiasmara fortemente a nação sportinguista. O estádio estava naturalmente esgotado com vários dias de antecedência. O ambiente no estádio era impressionante. Nunca em momento algum me recordo de ouvir tanto barulho num qualquer jogo, mesmo quando o antigo estádio da Luz levava 120 mil pessoas (talvez efeito da acústica). Ao mesmo tempo sentia-se uma enorme tensão. À medida que o tempo ia passando o nervosismo adensava-se. O meu coração resistia, o que me deixa absolutamente tranquilo quanto à inexistência de problemas cardíacos, tal a intensidade com que vivia o momento.O jogo foi naturalmente muito táctico. Na sequência da melhor jogada de todo o encontro, Simão atirou a milímetros do poste da baliza de Ricardo já a meio da segunda parte. Lembro-me de pensar que tinha ficado ali o título.
Faltavam sete minutos para os noventa quando o árbitro Paulo Paraty assinalou um livre perigoso a favor do Benfica. Petit bateu, a bola sobrevoou a área leonina e eis que surge lá no alto Luisão, que, saltando com Ricardo, desviou a bola para dentro da baliza do Sporting. A minha primeira reacção foi olhar para o fiscal de linha. Confesso que só depois de ver as imagens na televisão fiquei com a certeza de não ter havido falta. Quando vi Paraty a apontar para o centro do terreno e os jogadores do Benfica a festejarem efusivamente, até custei a acreditar. Foi a loucura generalizada no estádio. Dei comigo já fora do lugar, nas escadas, a saltar agarrado a pessoas que não conhecia de lado nenhum. Estoiram foguetes, lançam-se fumos e very- lights, 60 mil pessoas parecem tomadas por um acesso de histeria absoluta. Teria sido interessante que alguém tivesse observado as reacções àquele momento com frieza de cientista. Viam-se pessoas a chorar, pessoas ajoelhadas. Tudo!
Ainda havia seis minutos para jogar, mais os descontos. Mas o Sporting sentiu em demasia o golo sofrido. Beto foi expulso por protestos, sucederam-se as faltas, e praticamente não se jogou mais. As bancadas registaram seguramente os 10 minutos de maior euforia da história do estádio.O árbitro apitou para o final. Estava consumado o triunfo. O Benfica estava a um passo do título, que seria uma realidade oito dias depois, em mais uma noite inesquecível, desta vez vivida em pleno Estádio do Bessa.
Daí para cá, assisti a mais sete dos dez derbys disputados.
Uma derrota na Luz, em noite chuvosa, com Liedson em grande, surpreendeu todos em 2006. O Benfica estava em grande forma, levava várias vitórias consecutivas, tinha ganho no Dragão, e iria ganhar em Anfield Road poucas semanas depois.
Entrou para o clássico com muitos pontos de avanço de um Sporting moribundo, e chegou à vantagem por Simão ainda na primeira parte, podendo ter chegado ao segundo golo se Pedro Henriques tivesse assinalado um penálti de Tonel sobre Nuno Gomes (talvez um dia se escreva a história dos casos de arbitragem em derbys, tantos eles foram).
Uma segunda parte de luxo da equipa de Paulo Bento (estreara-se pouco antes), virou o jogo, o resultado e o campeonato. Os leões iriam disputar o título até às últimas jornadas, o Benfica de Koeman ir-se-ia apagar no plano interno. No dia seguinte havia neve por todo o país, como que a anunciar que algo estava a mudar.
Não estive lá, mas vi pela televisão a vitória em Alvalade por 0-2, com golos de Ricardo Rocha e Simão. Foi na época seguinte, cujo campeonato teria, todavia, o mesmo desfecho do anterior, e dos dois seguintes: FC Porto em primeiro, Sporting em segundo.
Três empates depois e chegamos a Abril de 2008. O último derby de Rui Costa. O último golo de Rui Costa. Jogava-se para as meias-finais da Taça de Portugal, e para a salvação de uma época que desde cedo tomou o azul e branco por cor predilecta. Voltou a chover, o que abençoou o derby, mas não o Benfica, então orientado por Chalana.
Com 0-2 (Nuno Gomes e Rui Costa) a 27 minutos do fim, tudo parecia decidido. O Benfica estava com um pé na final da Taça. Mas o futebol é o que é, e quando se trata de um derby, os seus desígnios são insondáveis. Até ao fim o Sporting marcou 5 golos (!), e virou do avesso o destino da partida. O golo de um uruguaio que não me apetece nomear foi insuficiente para evitar que o Benfica saísse porta fora da Taça.
O Sporting conquistaria o troféu, e meses depois, levantaria a Supertaça. Eis a importância que esses 27 minutos tiveram na carreira de Paulo Bento. Um minuto marca um derby, marca uma época, marca uma vida. Vivamo-los todos com a intensidade que merecem.
Deixando as filosofias, avanço a passos largos para a última época, na qual voltei a presenciar três derbys. Primeiro na Luz, numa das melhores exibições do Benfica de Quique Flores. Vitória clara por 2-0, e cheirinho a goleada na parte final do desafio.
Depois em Alvalade, derrota por 3-2. Grande golo de Liedson (sacana!, sacana!, sacana!), e superioridade clara do Sporting, numa altura em que Quique começava a mostrar-se um logro. Cheguei cedo a Alvalade, mas uma conversa com um amigo lagarto acabou por fazer o tempo passar, e quando caminhava para as bancadas deparo-me com a entrada das claques. Seguiu-se uma espera, ante um cordão policial (simpático, como normalmente acontece nestas ocasiões) em primeira fila, com cachecol do Benfica ao pescoço, apertado entre dezenas, centenas, milhares (pareciam mesmo era milhões), de lagartos. De todos os tamanhos, de todos os feitios, desde os mais belos exemplares fêmea, até aos mais orbiluscos exemplares macho. Uma praga.
Pior que isso, o tempo ia avançando, a organização não era muita, e ao apito inicial ainda estava cá fora.
A coisa lá fluiu, e só perdi os primeiros seis ou sete minutos. Quando Liedson marcou já estava sentado no lugar. Num lugar qualquer, tal a confusão.
A vingança seria servida um mês depois.Com o campeonato perdido, eliminados da Taça, os rivais lisboetas tinham na novel Taça da Liga a hipótese de salvar mais uma tristonha época.
Apuraram-se para a final, que iria ser disputada no Algarve. Lá fui eu atrás.
Aproveitei todo o fim-de-semana, mas nem pus os pés na praia. Visita ao hotel onde pernoitava a equipa – pertíssimo de casa -, depois do almoço uns quilómetros até Faro para ver um Farense-Benfica em Juniores, e enfim, Estádio.
A polémica marcou sempre a história dos derbys. Penáltis, expulsões, foras-de-jogo foram tempero que sempre deu sabor a estes pratos. Mas nunca se chegara tão longe.
Tudo aconteceu já perto do fim, quando o Sporting vencia por 1-0. Uma bola enviada para a área leonina, Di Maria e Pedro Silva fazem-se ao lance, e o defesa brasileiro corta com o peito. Lucílio Baptista, longe do lance, depois de consultas aos assistentes, assinala penálti. Reyes empate, e o Benfica ganha nos penáltis, levantando o troféu. Caiu o Carmo, a Trindade, o Camões e todas as redondezas. Foi uma semana de polémica, chegando ao absurdo de pedir a repetição do jogo, a anulação da prova e uma série de outros disparates. É o que dá o Benfica ganhar ao Sporting…
Eu lá estava, na bancada que ficava mesmo no enfiamento do lance, e, na altura, certezas não tive nenhumas. Como não tiveram dois sportinguistas que estavam ali bem perto. Só depois de ouvirem na rádio começaram a reclamar.
Ao todo vivi in loco, se não me falham as contas, 26 derbys entre Benfica e Sporting. Recordo-me, ao todo, de mais de noventa, contando todas as competições, e jogos particulares entre ambos. Cada um tem uma história, cada um tem os seus heróis, os seus casos. Sempre assim foi e sempre assim será.
No sábado vai escrever-se mais uma página desta bela história, que constitui indubitavelmente um dos baluartes do desporto no nosso país. Como um Lazio-Roma, um Inter-Milan, um Boca-River ou um Celtic-Rangers, este é um daqueles confrontos que faz perceber o significado da palavra rivalidade, que faz sentir que vale a pena ser adepto do futebol, e vibrar com estas emoções que nos manipulam, que nos agarram a alma.
Bastará olharmos para a maior parte das mesas de matraquilhos espalhadas pelo país (sobretudo a sul), para percebermos que Benfica e Sporting são os emblemas que melhor definem a portugalidade, como se de cara ou coroa de uma mesma moeda se tratassem, ou não fossem as suas as cores da republicana bandeira. Rivais desde que nasceram, vizinhos desde há muitas décadas, Benfica e Sporting sempre foram como que dois irmãos desavindos em luta pela herança. Uma luta sem tréguas, que a cada jogo se renova.
Um Benfica-Sporting ou um Sporting-Benfica nunca é pois apenas mais um. É sempre “aquele”, seja ele o do penalti do Jardel, o dos 7-1, o do golo do Luisão ou o do hat-trick de João Pinto. Trata-se de facto de um fenómeno apaixonante, onde para além do combate futebolístico, se verifica um interessante choque cultural e identitário. É sem dúvida o derby dos derbys em Portugal, e um dos mais significativos na Europa.
Que em campo os jogadores saibam merecer o peso deste confronto, é aquilo que se pode desejar para sábado. Depois...que ganhe o Benfica...
Viva o Derby!Viva o Futebol!
NOTA: Este texto é uma compilação, adaptada, revista e actualizada, de alguns posts relativos à rubrica "Jogos para a Eternidade".
