14/12/07

O LIVRO DE VEIGA

Constitui um hábito saudável, quem passa pelo desempenho de funções relevantes sob o ponto de vista político, social ou mediático, descrever a sua experiência quando as mesmas cessam. José Veiga, aproveitando também para fazer render a sua visibilidade, deixa neste “Como tornar o Benfica campeão” o testemunho, não só do tempo que passou no Benfica, mas de quase toda a sua vivência desportiva.
Quem espera um ajuste de contas, ou um livro recheado de polémicas, escusa de o ler. Veiga – em rigor o livro é escrito pelos jornalistas Camilo Lourenço e José Marinho - faz basicamente a defesa da sua posição e da sua carreira, enaltecendo os seus méritos, recolhendo os seus louros, e aproveitando também, aqui e ali, para deixar farpas a algumas pessoas, mas sem que isso se torne o elemento central do livro, e muito menos que seja Luís Filipe Vieira o objecto único, ou mesmo principal, dessas farpas - Rui Cunha, Rui Costa, Ronald Koeman, Paulo Sousa, mas sobretudo Domingos Soares de Oliveira, Álvaro Magalhães e Luís Figo, também não saem nada bem dos relatos do ex-director desportivo do Benfica.
As críticas que Veiga faz à gestão do futebol do Benfica são pertinentes, e já por diversas vezes aqui também expressei algumas delas. Mas ele esquece, ou omite, alguns pormenores que inevitavelmente beliscam a sua inocência no processo de destruição e convulsão do plantel, que se deu no clube nos últimos dois anos. Não foi afinal com Veiga ao leme que o Benfica contratou Marco Ferreira, Marcel, Manduca, Laurent Robert, Paulo Jorge, Kikin Fonseca entre outros, e não foi igualmente no seu tempo, ou até por causa de si mesmo, que saíram da Luz (quase todos em litígio) Tiago, Miguel, Manuel Fernandes, Ricardo Rocha e Geovanni ?
No mais, Veiga levanta a cortina sobre alguns aspectos de bastidores do Benfica, do futebol português e internacional, dando a sua visão sobre comportamentos e atitudes de alguns personagens centrais desse universo, fazendo a defesa das suas posições e das dos seus próximos, correspondendo ao natural voyeurismo dos adeptos sequiosos de saber o que se passa das paredes dos balneários, ou dos gabinetes dos dirigentes, para dentro. O ex-empresário fala da subida do Estoril, do título do Benfica, da casa do Porto no Luxemburgo, de Pinto da Costa, das transferências de Figo e João Pinto, de Jardel, e afirma um passado benfiquista, o que para mim constituiu total surpresa.
Trata-se de um livro interessante para todos os adeptos do futebol, e muito particularmente para os benfiquistas, desde que se tenha em consideração que o testemunho de Veiga não é neutro, e que se tenha em memória que muitos dos factos que ele refere carecem de uma interpretação menos parcelar.