07/06/06

ATRÁS DUMA BOLA

Em época de grandes competições futebolísticas, o panorama mediático é (ainda mais) inundado de futebol. Em reacção a essa hegemónica figuração, sempre se levantam vozes discordantes, procurando teorizar acerca daquilo que representa o fenómeno futebolístico, sua força, seu mediatismo, sua representatividade, e se ele constitui ou não uma zelada forma de alienação. Foi assim aquando do Euro 2004, e agora o assunto volta à agenda, quando estamos a dois dias do Mundial da Alemanha.
Sou e sempre fui, desde que me conheço, um fervoroso adepto do futebol. Ainda não sabia ler, já via jogos, olhava embevecidamente para as fotografias que saiam nos jornais desportivos, para os cromos que já coleccionava, e uma das primeiras palavras que soube pronunciar foi seguramente: Benfica. O meu clube !
Eu não escolhi o futebol, foi ele que, de forma avassaladora, me escolheu a mim, muito por influência do meu pai, mas também pelo fascínio das suas cores, das suas movimentações, de toda uma estética incomparável e única, de uma emoção sempre renovada e intensa.
Antes de gostar de música, de cinema, de teatro ou literatura, foi de futebol que eu gostei. É algo que faz parte de mim desde as mais remotas profundezas do meu ser.
Aprendi as cores pelos clubes, aprendi os números pelas costas dos jogadores, aprendi geografia pelas cidades e países que conhecia do futebol, e até aprendi francês a tentar arduamente ler a revista “Onze”, de qualidade gráfica então pouco vista em Portugal, e que desde os sete anos de idade o meu pai me comprava religiosamente todos os meses.
Hoje gosto de Maradona como gosto de Wagner, gosto de Pelé como gosto de Goethe, delicio-me com uma jogada de Figo como com um momento literário de Saramago. Não são realidades antagónicas, são complementares. Complementarmente ilustrativas da força da natureza humana em vertentes diferentes das suas inesgotáveis capacidades.
Como pode alguém assim libertar-se, mesmo que porventura o queira, de um fenómeno que, de tão densamente arreigado, quase transcende a sua própria identidade ? Tratar-se-á efectivamente de uma alienação?
Essa dúvida, que já me assaltou o espírito por várias ocasiões, tem-me levado a uma reflexão sobre de que se trata afinal este jogo e este espectáculo.
É importante dizer desde logo que independentemente de quaisquer juízos de valor que se possam fazer acerca do futebol, não restam dúvidas de que ele vai ficar a marcar a história universal como uma das manifestações lúdicas mais aglutinadoras desde que a humanidade é conhecida. Mas justificará essa popularidade uma tão grande e sufocante presença nos media ?
Nesta temática há que distinguir duas vertentes distintas. Se os seus críticos apenas pretendem demonstrar que o futebol é demasiado mediatizado, por antagonismo com manifestações artísticas de outras naturezas, eu não poderei estar mais de acordo – de facto a boa música, o teatro, a pintura, e a literatura, são em absoluto desprezadas por uma comunicação social exclusivamente empenhada em garantir receitas imediatas. Se por outro lado o objectivo for demonstrar que o fenómeno futebolístico envolve uma alienação perniciosa para os cidadãos ou para um país, cuja ideia adjacente o aponta como um espectáculo menor, então não posso de modo algum aceitar, mau grado saber que ele já vestiu também, ocasionalmente, esse fato, o que interpreto mais como uma instrumentalização alheia do que uma alienação própria.
A relevância dos jogos com bola na história é testemunhada por inúmeros factos. Recordo que Homero na sua “Odisseia” ou Shakespeare em “Rei Lear”, por exemplo, já faziam referências ao jogo da bola. Sabe-se que a alta nobreza urbana italiana se divertia com o calcio (uma espécie de pré-futebol) das ruas na idade média. Se mais fosse necessário, diria que o futebol existe há mais tempo que o cinema, e que começou a ser praticado e cresceu sem que ainda existissem aviões, televisores ou automóveis, não podendo obviamente nessa época ser entendido como alienante, e se nisso se conseguiu tornar foi também devido aos enormes méritos que transporta em si, pois não é alienante apenas aquilo que alguém quer que seja, mas sim aquilo que tenha força para o ser. Acusadas do mesmo crime foram aliás, diversas vezes ao longo da história, variadas manifestações culturais que hoje são unanimemente aclamadas como eruditas.
O futebol pode de facto constituir, e constitui, um escape para vidas sofridas e sem futuro. Mas, será isso assim tão reprovável ? Droga ou alcool não são eles mesmos escapes cujo lugar pode ser deixado, em parte que seja, ao futebol ?
O futebol é um poderoso berço de identidades. Não é a vida, mas pode muito bem fazer parte dela, talvez como uma espécie de suplemento vitaminico emocional. Este belo jogo é de facto um brinquedo de emoções, extremamente saudável, excepto naturalmente quando essas emoções resultam em ódio e violência.
É uma arte – que diferença existe afinal entre um bailado e uma partida de futebol de alto nível ? – com um colorido e uma movimentação de contornos estéticos absolutamente inegáveis. Se o procurarmos comparar o futebol com qualquer realização estética, chegaremos à conclusão que por muito que esta eleve valores humanos diversos como amor, amizade, inteligência, rectidão, também o futebol contempla os seus, ou seja, coragem, força, ambição, solidariedade, companheirismo, entre outros. A beleza plástica da movimentação dos jogadores no relvado, a forma hábil como conduzem a bola, os cânticos nas bancadas, os festejos dos golos ou a densidade dramática dos rostos ouvindo os hinos, conferem o elemento estético necessário para que se possa afirmar que o futebol também tem, inquestionavelmente, uma forte componente artística.
Também relevante é o elevadíssimo espírito democrático e colectivo que se verifica num campo de futebol. Não há maestros, não há protagonistas nem figurantes. São vinte e dois homens e uma bola, todos iguais perante ela, e onde só o talento, a coragem, o espírito de luta e capacidade de combate os divide. Num tempo em que o utilitarismo individualista dita todas as regras, esta componente não é nada despicienda para ilustrar bem a força positiva que emana de um jogo de futebol, e também, quiçá, explicar porque é que ele faz movimentar tanta gente.
Mas os méritos do desporto rei não se esgotam nestas facetas. Há que lhe conferir também o dom de, sendo uma representação alegórica da guerra, satisfazer de forma inócua o instintivo traço guerreiro imanente à nossa espécie, não esquecendo que se trata, em muitos países, talvez do mais eficaz promotor de patriotismo dos tempos actuais.
Um dos argumentos que suportam os ataques de alguns intelectuais ao desporto rei prendem-se com o facto de outros países não lhe darem supostamente o mesmo destaque. Não é bem verdade. Se olharmos à Espanha, à Itália e a muitos outros países da Europa como Grécia ou Turquia, o panorama não difere substancialmente do nosso (embora os seus telejornais não tenham hora e meia como cá). Na América Latina o entusiasmo em volta dos jogos ainda é maior e mais fanatizado, sobretudo se olharmos aos casos do Brasil (onde em 1950 dezenas de pessoas se suicidaram a seguir à derrota do Brasil na final do campeonato do mundo que organizou) e Argentina (sobretudo desde Maradona). Em África são decretados feriados nacionais pelas vitórias de algumas selecções, e mesmo na Ásia, em países como o Irão, Coreia ou Arábia Saudita, o fanatismo com que são encarados certos jogos e certas competições, sobretudo quando estão por detrás aspectos políticos, não pára de crescer. Em todos os países, mais ou menos fanatizados, mesmo nos Estados Unidos, a influencia do futebol continua em acelerado processo ascendente.
Além de tudo o resto, o futebol é também hoje uma poderosa industria, com interessantes aspectos de análise de domínio económico-financeiro.
Por tudo isto, com o maior respeito por quem o consegue ignorar, permitam-me que solte um:
Viva o futebol !

NOTA: Publicado em simultâneo em www.fumo-sem-fogo.blogspot.com

5 Comments:

Blogger cj said...

belo texto.
de acordo.

7.6.06  
Anonymous LF said...

O futebol é lindo, é cultura, é arte, é povo.
Não é tudo, mas é ...quase tudo ehehehehe

7.6.06  
Anonymous Anónimo said...

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