28/03/12

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA...


Nem o gato branco que se recostava sonolentamente sobre o tejadilho do meu carro, quando parti para o estádio, teve o condão de proporcionar uma noite de sorte. Pelo contrário, quase tudo correu mal, quer a mim (que, por contratempos vários, acabei por chegar à Luz já com o jogo a decorrer), quer ao Benfica (que, por erros próprios e alheios, perdeu uma partida que não merecia perder).
Quem anda nuns quartos-de-final da Liga dos Campeões, pode sempre sair derrotado de qualquer jogo, contra qualquer opositor, sem que tal lhe obrigue a esconder a cara de vergonha. Os adversários são poderosos, não desperdiçam as oportunidades que têm, não concedem quaisquer facilidades, e dificilmente são surpreendidos. Perder neste tabuleiro, mesmo em casa, é algo que está longe de danificar o orgulho, ou causar sobressalto emocional de monta. É normal, como normal seria empatar. E talvez o menos normal de tudo fosse o Benfica impor-se a um conjunto cujo orçamento lhe é várias vezes superior.
O Chelsea é, obviamente, uma grande equipa, que, com a sorte de seu lado, tem fortes hipóteses de vencer noventa por cento dos adversários que encontre pelo caminho. Pelo contrário, o Benfica é, nesta fase da prova, um mero outsider, que, beneficiando dos favores da fortuna, poderia (e talvez ainda possa) eventualmente chegar um pouco mais além, mas a quem a lei das probabilidades confere um estatuto de clara subalternidade dentro do lote de emblemas em presença. Dito de outra forma, num dia bom, e com alguma sorte, o Benfica tinha (e creio que ainda tem) algumas possibilidades de eliminar o colosso inglês, mas com os ventos do jogo, e da arbitragem, a soprar contra si, muito dificilmente conseguiria mais do que aquilo que conseguiu.
É usual dizer-se que neste tipo de confrontos a decisão reside em pequenos detalhes. É verdade, mas nem sempre (ou quase nunca) esses detalhes são fruto do acaso. É um detalhe, mas não é um acaso, que Emerson tenha sido ultrapassado, da forma como foi, por Ramires (um veio para cá em saldo, outro saiu por 22 milhões), nem que David Luíz (outro que rendeu milhões) estivesse sistematicamente no caminho da bola em quase todos os lances ofensivos do Benfica, enquanto Jardel (outro que chegou em saldo) não mostrava capacidade de choque para resistir a um Fernando Torres a meio gás. No meio de tudo isto, “acaso” (pelo menos quero acreditar que assim seja) foi apenas a inconcebível cegueira de uma equipa de arbitragem inteirinha - ao vê-los entrar em campo no reatamento, sendo tantos, por uma fracção de segundos cheguei a pensar que o Chelsea mudara de equipamento nas cabines -, num lance que todo o estádio viu ser merecedor de grande penalidade.
Podia, mesmo assim, o Benfica ter procurado melhor sorte? Podia, e desta vez parece-me bem que, mais do que culpar Emerson ou qualquer outro jogador, há que apontar o dedo na direcção de Jorge Jesus.
Por mais que me esforce, não consigo entender porque motivo, com a equipa no seu melhor momento em todo o jogo, com o Chelsea praticamente nas cordas, com um placard que, não sendo óptimo, era ainda assim animador, o técnico encarnado decidiu efectuar duas substituições de uma assentada, e com elas revolucionar toda a estrutura da equipa, minando os seus alicerces mais profundos. Ele até pode vir agora justificar essa opção à luz de uma hermética variante táctica que escape ao olho do espectador comum, mas o que o espectador comum viu foi uma equipa que controlava o jogo passar os dez minutos seguintes completamente desorientada, à procura das novas coordenadas que, extemporaneamente, o seu líder lhe impôs. Para mal dos pecados, quer do iluminado treinador, quer do ignorante adepto, o golo do Chelsea surgiu precisamente nesse período, e o jogo nunca mais foi o mesmo.
O que ficou daí para trás foi uma primeira parte muito fechada, duas equipas dignas uma da outra, e um equilíbrio que parecia encaminhar o jogo para um empate a zero – que, como aqui disse em antevisão, não me parecia um mau resultado. Daí para a frente, após o tal período de domínio encarnado, a que se seguiu o desnorte das substituições, e o golo, o tempo que restava era pouco para recuperar a desvantagem. O apito final deixou um travo a injustiça, sobretudo pelo que o Benfica fez até Jesus o desestruturar.
A nível individual, destacaria Javi Garcia (pese embora o lance do golo), Maxi Pereira e Gaitán, como os elementos mais em foco. Também Cardozo esteve em plano razoável, faltando-lhe um golo para abrilhantar a exibição.
Pela negativa há que falar de Emerson. É preciso dizer que o brasileiro foi contratado para ser suplente, e como suplente poderia desempenhar muito bem o seu papel, tapando buracos num ou noutro jogo, à semelhança do que fazem Miguel Vítor, André Almeida ou mesmo Jardel, sem que ninguém os assobie. O problema está, num primeiro momento, no motivo pelo qual ele assumiu a titularidade absoluta (porque foi Capdevila contratado? Porque razão, tendo-o sido, quase nunca jogou?); e num segundo momento, na forma como a SAD benfiquista (ou o próprio Jesus, não faço ideia) desvalorizou o problema, deixando passar o mercado de Janeiro sem que fosse adquirido um lateral-esquerdo de qualidade, conforme as ambições do clube, e esta presença europeia, naturalmente impunham. Não darei pois para o peditório da crucificação do jogador, embora, ao contrário do que se passou há uns tempos com Cardozo (então, pura estupidez), perceba neste caso as razões da insatisfação dos adeptos. A Emerson, apenas culpo de não ter, por vezes, a noção exacta das suas próprias limitações, não evitando um adorno aqui, um toque a mais ali, um drible acolá, que conduzem invariavelmente a nova perda de bola, a mais assobios, a mais intranquilidade, e assim sucessivamente.
A arbitragem de Paolo Tagliavento surpreendeu pela negativa. Depois de ver a excelente exibição de Howard Webb na eliminatória anterior, esperava algo do género de um juiz igualmente afamado. Mas, ao contrário dessa minha expectativa, o italiano saiu da Luz com o peso de uma influência clara no resultado do jogo (e, porventura, da eliminatória), ao não assinalar um penálti óbvio cometido por John Terry. Tal como em 2006, na altura com o Barcelona, fica a noção que, chegadas a estas fases, umas equipas são mais iguais que outras. Espero que a segunda mão não confirme esta ideia.
E assim vai o Benfica para Londres, à procura de uma milagrosa noite que ainda o possa colocar nas meias-finais. Se o Chelsea entender que a eliminatória “está no papo”, e, por outro lado, o Benfica tiver a felicidade de fazer um golo cedo, ainda poderá haver uma surpresa. Mas em condições normais, a carreira europeia do Benfica 2011-12 terminará na próxima quarta-feira. E, mesmo assim, já não terá sido nada má.
O Campeonato sim, ainda pode ser muito mau…ou muito bom. Infelizmente, as possibilidades de êxito parecem-me idênticas às da Champions. Ou seja, poucas.

5 Comments:

Blogger Mandrake said...

O problema, a meu ver, é a teimosia e feitio ditatorial de Jorge Jesus. Quanto mais os sócios benfiquistas se mostrem desagradados com um jogador, mais ele insiste em o ter a titular. Se a isso juntarmos a quantidade de jogadores com quem se vai incompatibilizando, temos aquilo que já consta por aí: grande parte dos jogadores do plantel estão fartos do seu despotismo, ainda por cima cada vez menos iluminado.

Sem querer fazer de advogado do diabo, tal como o Luís, também não auguro grande futuro para a equipa encarnada. Mas, e isso não é pormenor a deixar de ter em conta, ficará muito caro "dispensar" os serviços do auto-denominado "catedrático" do futebol, e o cavalheiro não é menino para perdoar um tostão, corrijo, cêntimo... da sua "indemnização".

Quando as coisas correm bem, é porque ele gizou uma táctica fenomenal, que a equipa - sob as suas ordens - praticou um futebol de alta nota artística, que é normal, para uma equipa por si treinada, ganhar a qualquer um dos grandes da Europa, que se um jogador brilha é porque aprendeu TUDO com ele, etc. etc.

Se as coisas correm mal não é culpa dele: ou foi a arbitragem, ou o azar, ou a relva, ou o diabo a sete...

Com o Chelsea, ficou um claríssimo pénalti por marcar, é certo. Já agora, para quê cinco árbitros? Pelos vistos, não serve de nada...
Também é claro que o Benfica podia ter marcado e não conseguiu, mas o inverso também se verificou. O corredor direito do Chelsea - esquerdo do Benfica - para além do lance do golo mais parecia uma pista de atletismo por onde Ramires e outros, corriam sem adversário benfiquista que lhes tolhesse o passo...

E tem sido assim noutros jogos. Insistir na "arbitragem", como no lance do Aimar - uma patada, sem bola, com o árbitro a dois metros - é desvalorizar outras críticas, por ventura justas, a erros "reais" de arbitragem.

(Continua)

29.3.12  
Blogger Mandrake said...

Mas nisso Jorge Jesus não está sózinho. As declarações do Sr. João Gabriel - que enquanto foi assessor de Jorge Sampaio era sportinguista e agora se converteu á causa benfiquista - também são, para além de ridículas, graves.

Aimar, percebe-se, até fica embaraçado com tanto falatório - pois, como jogador, sabe que fez uma falta punível com vermelho directo. Mas o Sr. Gabriel, que na taça Lucílio, fez o que fez numa conferência de imprensa após um jogo com o Sporting em que o ex-árbitro de Setúbal - com a taça, que ninguém diz querer, ao lado - "inventou" um pénalti contra a equipa leonina, devia ter vergonha, mas não tem.
E memória, muito menos!

Com o João Malheiro no "desemprego", passando o tempo a andar em festas cor-de-rosa e a escrever, desenfreadamente, "memórias do Eusébio", se calhar estavam melhor servidos. Pelo menos é MESMO benfiquista e, mais importante, percebe de futebol.

Este árbitro que expulsou Aimar, que foi apelidado pelo Sr. Gabriel, de "moço de recados" do treinador do FC Porto, no jogo Olhanense - FC Porto que também apitou - estranha coincidência que o Sr. Vítor Pereira deveria explicar - até prejudicou o clube nortenho em dois pénaltis claríssimos.

Mas voltando ao Benfica, numa época em que o Sporting, para além de estar em renovação, foi extremamente prejudicado por arbitragens; o FC Porto parece estar fragilizado, com um treinador sem grande carisma nem "força" no balneário e um Pinto da Costa já velho e desgastado - basta ver as figuras rídiculas que tem feito, até na sua vida pessoal - o Benfica poderia, como Villas-Boas conseguiu no ano passado - ter feito uma época memorável. Ao invés, como o meu caro Luís teme, poderá vir a ocorrer um descalabro total.

E porquê? Porque uma coisa é termos alguém que, na época estival, num barracão junto á praia, é o "rei das sardinhas e do frango assado"; outra é pegarmos nesse sujeito, dar-lhe um restaurante de topo e esperar que ele consiga ganhar uma estrela Michelin. Nunca conseguirá.

Com isto tudo, tenho pena da diáspora portuguesa - não só a benfiquista - que vive e trabalha em Inglaterra - e não são poucos - e tem de aturar a arrogância inglesa e sofrer humilhações escusadas por parte dos senhores ingleses, há quem lhes chame nossos aliados, que são da pior escória, como a nossa história de mais de oito séculos pode comprovar.

Também não estou optimista para o jogo de Londres, para ser sincero. O Chelsea, que Jorge Jesus tanto queria, só por um improvável descalabro deixará fugir o pássaro que já tem, bem agarrado, nas mãos.
E, o que é pior, JJ será teimoso e "criativo", leia-se "inventor", até ao fim. Já esqueceram os 5-0 no Dragão, com a invenção do David Luiz a lateral?

Parafraseando, o título da coluna de Pacheco Pereira na revista Sábado, "quem nasce para lagartixa, nunca chega a jacaré".

Pinto e Paulo Jorge.
Total: nove jogadores lusitanos, oitoto se não quiserem contar com o Pepe, por ser de origem brasileira!

Bem sei que as regras permitem, que a Globalização veio para ficar, bla, bla, bla...
Mas é, no mínimo estranho!

Saudações desportivas,

JM
Passo a terminar esta longa prosa - que espero que o Luís entenda como voto de solidariedade - realçando um facto que toda a imprensa tem vindo a destacar: das quatro equipas que jogaram ontem na Liga dos Campeões - na Champions, como JJ gosta de dizer - apenas o Benfica não utilizou nenhum jogador português. O Chelsea teve em campo Paulo Ferreira, Bosingwa e Meireles; o Real Madrid, Cristiano Ronaldo, Coentrão e Pepe; o Apoel, Nuno Morais, Hélio Pinto e Paulo Jorge.
Total: nove jogadores lusitanos, oitoto se não quiserem contar com o Pepe, por ser de origem brasileira!

Bem sei que as regras permitem, que a Globalização veio para ficar, bla, bla, bla...
Mas é, no mínimo estranho!

Saudações desportivas,

JM

29.3.12  
Blogger jfk said...

Tenho defendido jesus, apesar dos muitos erros, mas agora foi de mais.

Como é possível, num jogo controlado, fazer sair aimar (que nao vai jogar os proximos 2 jogos do campeonato) e encostar witsel à direita?

Mas o homem é burro ou quê?

Ficou sem meio campo, o centro do terreno ficou sem os jogadores que estavam a mandar no jogo, witsel e aimar. Com muito jogo pela frente, com o benfica por cima, com o chelsea dominado.

Como é que se abdica de witsel e aimar no centro do terreno assim, de uma assentada?

E, mais ainda, no lance do golo, o torres ultrapassa o jardel à linha, junto ao banco do benfica.

Então o jesus não tinha que estar a gritar ao jardel para derrubar o torres, que ia embalado?

Quem está a olhar para o terreno de jogo, vê de imediato que o homem não pode passar. Faz-se falta, vê-se um cartão amarelo e pronto!

O jardel devia saber isto, mas jesus, ali, devia ter gritado para dentro do campo para o homem ser derrubado em falta.

Parece que não aprenderam com a jogada de james e o 2º golo do porto no campeonato (no jogo da taça já o derrubaram, mas, quer dizer só aprenderam em relação a james?).

Que burrice!

Inacreditável e impensável.

29.3.12  
Anonymous Vitória do Benfica said...

Eu agora só pergunto a mim própria qual é o próximo jogo que vamos ganhar.

Estamos a ser vitimas do empirismo de Jesus, eu já estou farta disto. Como é possível uma equipa entrar na fossa depoisdo jogo na Rússia.

Quanto ás arbitragens tem razão é que se reparou todos os jogos parecem ganhos pela visitante. Os visitados perderam ou empataram.

Eu estou a ver o juiz italiano como vi Olegário com Mourinho quando o Inter ganhou ao Barcelona em casa.

Jesus não tem qualidade cientifica e Fernando Guerra é que toda a razão

29.3.12  
Blogger Manuel said...

Há alguns adeptos (?) que confundem um blogue com uma latrina.

30.3.12  

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