31/10/07

SUGESTÕES PARA UM NOVO FUTEBOL PORTUGUÊS

Estádios vazios, clubes falidos, espectáculos degradados, arbitragens pouco credíveis. Mesmo que em rigor nem sempre seja esta a realidade, é assim que grande parte da opinião pública olha hoje o futebol português.
É verdade que os Cristianos Ronaldos, os Mourinhos, ocasionalmente os F.C.Portos, Benficas e Sportings, e a nossa selecção, vão disfarçando, no plano internacional, aquilo que se vive semana a semana cá pelo burgo, em campos onde as estrelas não brilham, onde os adeptos não comparecem, as receitas não entram e muitas vezes os salários não se pagam.
Há que fazer algo, e neste sentido, aquilo que se propõe como base de reflexão, traduz-se num novo quadro competitivo, bem como em algumas iniciativas capazes de contribuir para tornar o futebol mais apelativo, sobretudo face aos mais jovens, e de aumentar a sua capacidade de se auto-financiar, pondo termo a um prolongado ciclo deficitário, o qual, sem qualquer travão, tem minado todo o edifício futebolístico luso, que à excepção dos três grandes - esses sim com meios, audiências e receitas capazes de, desde que bem geridos, apresentarem risonhas perspectivas de futuro – navega para o abismo.
Se a redução do número de clubes faz todo o sentido no escalão maior, já nas divisões secundárias se trata de um erro crasso, diminuindo receitas, diluindo rivalidades e afastando adeptos. A Liga de Honra, criada na sua génese para satisfazer intuitos regionalistas de poder, geograficamente centralizada, e descapitalizada, não parece ter hoje razão de existir, num país onde as receitas não permitem um profissionalismo tão disseminado, que acaba por esconder atrás de si um rol de problemas financeiros que já assassinaram vários clubes (Farense, Campomaiorense, Salgueiros) e ameaçam muitos mais.
Assim sendo, julgo ser de apontar para um modelo de divisão secundária semi-profissional, com equipas repartidas por várias séries, aumentando o número de jogos, incentivando rivalidades regionais, e moderando as deslocações, permitindo assim aos adeptos acompanhar amiúde os seus clubes. Talvez uma III divisão com oito séries, e uma II divisão com quatro, todas de 22 equipas, corresponda ao padrão mais aconselhável. Do terceiro escalão subiriam os dois primeiros e os quatro melhores terceiros de cada série, num total de 20 equipas. Da II divisão desceriam os últimos cinco classificados de cada série, enquanto os dois primeiros (oito ao todo) se apurariam para uma fase final, que em duas eliminatórias determinaria os dois clubes a subir ao escalão máximo. Seria interdita a inscrição de jogadores estrangeiros nestas competições. Na divisão maior participariam apenas 10 clubes, jogando todos contra todos a quatro voltas, num total de 36 jornadas, descendo à segunda divisão os dois últimos classificados.
Seria ainda interessante introduzir algumas alterações organizativas e promocionais, no sentido de dotar a competição de um maior rigor, atrair mais espectadores, e assim gerar fluxos financeiros capazes de a auto-sustentar de forma sólida e duradoura, como sejam:
1 - Todos os jogos televisionados, preferencialmente aos sábados, e dentro de horários pré-fixados – por exemplo 15, 17, 19 e 21 horas, e um jogo ao domingo às 18 horas, evitando assim as jornadas nocturnas em vésperas de dias de trabalho.
2 – Receitas televisivas e de publicidade geridas pela Liga de Clubes, com repartição pelos concorrentes de acordo com as respectivas pontuações (ponderadas necessariamente por critérios de audiência), numa tipologia próxima do que acontece com a Liga dos Campeões.
3 - Implementação de fortes exigências quanto à qualidade, conforto e segurança dos estádios, obrigando se necessário a jogar em estádios do Euro, e dando especial atenção ao tratamento dos relvados - aspecto central da plasticidade do espectáculo. Utilização dos ecrãs gigantes (onde os haja) para a transmissão do jogo e repetição dos lances mais significativos, de modo a privilegiar os espectadores de estádio e não os de sofá.
4 - Árbitros e assistentes profissionais, em número reduzido e, tanto quanto possível, bem pagos.5 - Limitação à inscrição de quatro, e utilização simultânea de três, estrangeiros por equipa, não contrariando naturalmente os aspectos jurídico-legais em vigor no país.
6 - Inscrição de 25 jogadores por equipa, previamente numerados de 1 a 25, três dos quais necessariamente formados no clube, favorecendo na redistribuição dos meios financeiros os clubes que inscrevessem maior número de jogadores nessas condições.7 - Bilhetes pré-fixados, de três níveis e três tipos: centrais, 20, 30 e 40 euros; laterais, 10, 20 e 30; superiores, 5, 10 e 20 euros, todos eles incluindo um folheto com o guia da partida, número dos jogadores, classificações, resultados anteriores e outros jogos da jornada. Facilidades e descontos para mulheres e, sobretudo, crianças, para as quais se poderia tornar apelativo a criação de mascotes, que antes e no intervalo dos jogos fariam actuações no relvado, e permitiriam a exploração de um novo filão de merchandising com segmentos de video-jogos, desenhos animados, colecções de cromos etc.8 - Publicações próprias sobre a liga (revista mensal, livro e DVD anual), e programas televisivos de antevisão dos jogos e rescaldo dos mesmos, com incidência nos aspectos técnico-tácticos e não nos casos de arbitragem.
9 – Composição de um hino da liga, tocado antes de todos jogos, à semelhança do que acontece na Liga dos Campeões.10 – Cuidados redobrados com a calendarização da temporada, marcando o começo da prova para o início de Setembro (depois de encerrado o mercado de transferências), e fazendo coincidir o final das duas primeiras voltas com a paragem natalícia e a reabertura do mercado de transferências - sendo permitidas apenas duas por equipa nesse período.
Decerto que nem todas estas propostas serão passíveis de aplicar num futuro imediato. Trata-se de um esboço que não vai certamente agradar a todos. Mas este pretende ser apenas um pequeno contributo para uma discussão que se torna cada vez mais premente de encetar, e sem a qual, o futebol português, para além dos seus cinco ou seis clubes de topo, estará irremediavelmente condenado.