02/03/07

JOGOS PARA A ETERNIDADE (6) - A Rota do Título 2004/2005

Ao longo de mais de trinta anos de futebol muitas foram as alegrias, muitas foram as decepções. Três finais europeias em que à frustração de uma derrota corresponderam momentos de grande euforia ao longo da caminhada que as antecedeu, outras tantas meias finais, títulos nacionais (dez ao todo), diversas taças de Portugal, grandes vitórias em Portugal e n estrangeiro, sem esquecer as alegrias dadas pela selecção nacional, quer com as qualificações para as principais provas internacionais da última década, quer sobretudo pelas duas últimas campanhas de que resultaram presenças na final do Euro 2004 e nas meias finais do Mundial 2006.
Seria em princípio difícil definir o momento mais feliz de todas essas fortes e emotivas experiências, mas tendo de optar por algum, não hesitaria em escolher o título de 2004-2005 conquistado pelo Benfica depois de um longo jejum de onze anos. Na verdade não se trata de um momento mas sim de vários. De várias semanas ou mesmo meses. De toda uma época, de uma fase de vida.
Foi um dos títulos mais importantes da história do Benfica, pois os onze anos a seco criaram uma pesada nuvem sobre o clube. Eu próprio cheguei a temer muitas vezes que o Benfica não mais voltasse a disputar e vencer campeonatos, tal a dimensão dos problemas que enfrentava, e a perda de dinâmica de vitória que lhe estava cada vez mais associada. A forma como o campeonato decorreu fez sentir que se poderia tratar de uma ocasião única e irrepetível. Ou se era campeão ali e se tinha o futuro pela frente, ou talvez nunca mais fosse possível sê-lo – recorde-se que o F.C.Porto fora campeão europeu e mundial, embolsara mais de 100 milhões de euros com as vendas de Deco, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira etc, e aparecia como claro dominador do futebol luso.
Não sendo possível relembrar todo esse inesquecível ano futebolístico – para mim, de longe, o melhor campeonato das últimas décadas, tanto em emoção como em futebol jogado -, centrarei a memória nas duas últimas jornadas. Efectivamente uma não faria sentido sem a outra, e seria redundante tratá-las de modo autónomo.
Lembrarei apenas que essa época foi marcada por uma constante agitação no topo da tabela, que chegou a ser comandada por Porto, Sporting, Braga, Boavista, e na sua fase inicial também por V.Setúbal e Marítimo. Foi um campeonato extremamente equilibrado – recordo de já em plena segunda volta termos quatro equipas na frente com o mesmo número de pontos -, e disputado por um lote fantástico de equipas, do F.C.Porto campeão mundial em Tóquio ao Sporting finalista da Taça Uefa, de um Braga em clara ascensão a um Boavista ainda no top do futebol nacional, mais o melhor Rio Ave de sempre, o melhor Marítimo de sempre, a melhor Académica, o melhor V.Guimarães e o melhor V.Setúbal dos últimos anos, excelentes Belenenses, Nacional, Gil Vicente etc. Até o lanterna vermelha Beira Mar ganhou na Luz e no Dragão. À inglesa ! Um mimo de campeonato !
Depois de o Benfica ter conseguido, a sete jornadas do fim, uma vantagem de seis pontos que levou a sua imensa legião de adeptos – ávidos de glórias - a manifestações impressionantes de fervor clubista nos vários estádios espalhados pelo país onde a equipa jogava, uma derrota em Vila do Conde, um empate caseiro com a U.Leiria, e nova derrota em Penafiel, colocaram o Sporting no topo da tabela em igualdade pontual com as águias e com mais três pontos que os dragões. Faltavam então apenas duas jornadas, a primeira das quais contendo um ultra-decisivo Benfica-Sporting, e a última uma viagem ao Bessa.
Bastaria ao Sporting empatar na Luz para poder tranquilamente festejar o título em sua casa no derradeiro jogo frente ao Nacional. Ganhando sagrava-se de imediato campeão. Havia ainda um elemento importante nesta partida: o Sporting disputaria quatro dias depois a final da Taça Uefa em sua casa, vindo então a perdê-la frente ao CSKA de Moscovo.
A equipa de José Peseiro encontrava-se em grande momento de forma, podendo ganhar Liga e Taça Uefa na mesma semana, depois de uma longa sequência de brilhantes vitórias, emolduradas por exibições de fino recorte.
O Benfica por seu turno teria de ganhar para manter acesa a hipótese de, não perdendo depois no Bessa, conquistar o ansiado título. Se ganhasse por 1-0 ou por mais de um golo e o F.C.Porto ao mesmo tempo não vencesse em Vila do Conde, o Benfica também seria campeão logo nessa noite.
A equipa encarnada, orientada por Trapattoni, era extremamente batalhadora, mas algo carecida de opções. O banco era fraco, e o futebol que jogava, fruto do realismo do experiente italiano, era de pouca posse de bola, procurando através de contra-ataques quase sempre conduzidos por Simão Sabrosa, ou por via de lances de bola parada, os poucos golos com que foi sedimentando a sua difícil caminhada.
Dizia-se na altura, e com alguma razão, tratar-se do jogo do século. Não me lembro de facto de nas competições nacionais se ter jogado uma partida de tão dramática importância – mesmo os 6-3 de Alvalade em 1994 foram a cinco jornadas do fim, e o Benfica tinha sido campeão apenas três anos antes.
O ambiente em redor deste derby foi algo de inesquecível. Apesar da derrota em Penafiel, todos os benfiquistas acreditavam ter ali a sua oportunidade para resgatar anos e anos de desilusão.
Nessa manhã de sábado, viam-se inúmeras pessoas com as camisolas de ambos os clubes, e grupos de jovens entoando cânticos, mesmo em zonas bem longe do estádio.
Muita gente terá vivido esse dia com enorme ansiedade. Do lado do Benfica era a hipótese de pôr termo ao longo e angustiante jejum. Entre os leões tratava-se basicamente impedir que isso acontecesse, mas também de dar luz a uma época que entusiasmara fortemente a nação sportinguista.
O estádio estava naturalmente esgotado com vários dias de antecedência, o que foi a nota dominante de quase metade deste campeonato sempre que o Benfica marcava presença.
As equipas alinharam da seguinte forma. O Benfica com Quim, Miguel, Ricardo Rocha, Luisão, Dos Santos, Petit, Manuel Fernandes, Nuno Assis, Geovanni, Nuno Gomes e Simão Sabrosa. O Sporting apresentava-se sem o goleador Liedson castigado com um inoportuno e ingénuo (ou talvez não ?) cartão amarelo nos últimos minutos do jogo anterior. Peseiro fez alinhar: Ricardo, Miguel Garcia, Beto, Anderson Polga, Rui Jorge, Custódio, Pedro Barbosa, Rochenback, Sá Pinto, Douala e Pinilla.
O ambiente no estádio era impressionante. Nunca em momento algum me recordo de ouvir tanto barulho num qualquer jogo, mesmo quando o antigo estádio da Luz levava 120 mil pessoas (efeitos da acústica). Ao mesmo tempo sentia-se uma enorme tensão. À medida que o tempo ia passando o nervosismo adensava-se. O meu coração resistia, o que me deixa absolutamente tranquilo quanto à inexistência de problemas cardíacos, tal a intensidade com que vivi estes momentos.
O jogo foi naturalmente muito táctico, e durante toda a primeira parte há apenas que destacar um remate perigoso de Douala bem defendido por Quim.
No segundo tempo, o Benfica entrou melhor, e criou nos primeiros minutos uma grande oportunidade por Simão. O mesmo Simão, na sequência da melhor jogada de todo o encontro, atirou a milímetros do poste da baliza de Ricardo quando eram passados cerca de 65 minutos de jogo. Lembro-me de pensar que tinha ficado ali o título.
A partir de dada altura, com a entrada de Hugo Viana, o Sporting passou a dominar claramente o jogo. Já dentro do último quarto de hora, o mesmo Viana e também Rochenback puseram à prova Quim com excelentes remates de meia-distância. O resultado mantinha-se em branco e o título parecia perdido.
Faltavam sete minutos para os noventa quando o árbitro Paulo Paraty assinalou um livre perigoso por falta de Pinilla sobre Ricardo Rocha. Petit bateu, a bola sobrevoou a área leonina e eis que surge lá no alto Luisão, saltando com Ricardo, a desviar a bola para dentro da baliza do Sporting.
A minha primeira reacção foi olhar para o fiscal de linha. Confesso que só depois de ver as imagens na televisão fiquei com a certeza de não ter havido falta. Quando vi Paraty a apontar para o centro do terreno e os jogadores do Benfica a festejarem efusivamente, até custei a acreditar.
Foi a loucura generalizada no estádio. Dei comigo já fora do lugar, nas escadas, a saltar agarrado a pessoas que não conhecia de lado nenhum. Estoiram foguetes, lançam-se fumos e very- lights, 60 mil pessoas parecem tomadas por um acesso de histeria absoluta. Teria sido interessante alguém se entreter a observar as reacções àquele momento, com frieza de cientista. Viam-se pessoas a chorar, pessoas ajoelhadas. Tudo !
Ainda havia 6 minutos para jogar, mais os descontos (seriam mais 5). Mas o Sporting desnorteou-se. Beto foi expulso por protestos, sucederam-se as faltas, e praticamente não se jogou mais. As bancadas registaram seguramente os 10 minutos de maior euforia da história do estádio.
Paraty apitou para o final. Estava consumado o triunfo, mas como o F.C.Porto tinha ganho ao Rio Ave a festa só poderia ser total no fim de semana seguinte no Bessa. Os portistas tinham os mesmo três pontos de atraso, mas vantagem no confronto directo – fruto do polémico jogo em que Benquerença não viu a bola dentro da baliza de Baía. O Sporting estava matematicamente afastado do título.
No relvado a festa assemelhava-se à conquista de um troféu. Sentia-se a importância do passo que estava a ser dado rumo ao que todos ansiavam havia tanto tempo.
Depois de dois ou três minutos de euforia, a minha preocupação voltou-se para a necessidade de arranjar bilhetes para a última jornada. Tinha-os visto à venda na véspera e no próprio dia do jogo, mas não tive coragem de arriscar. Os mais baratos custavam 40 euros, e o Benfica corria o risco de ir ao Porto apenas cumprir calendário. Agora, era imprescindível consegui-los.
Fui desde logo para casa na expectativa de me levantar de madrugada prevendo uma enorme afluência às bilheteiras. No trajecto até casa os contactos telefónicos sucederam-se. Quem ia ao Bessa, quem não ia, quantos bilhetes eram necessários, etc. Fui levantar dinheiro por duas vezes, à medida que me acrescentavam interessados.
Já tinha decidido prontamente ser eu a ir à Luz comprar os bilhetes. Nunca correria o risco de deixar tal tarefa nas mãos de outra pessoa, mesmo sacrificando uma noite de sono.
Eram 5.40 h da manhã estava eu a chegar ao Estádio onde horas antes uma multidão vibrara intensamente com o “jogo do século”. Cabe aqui um aparte para dizer que chega a ser chocante a quantidade de lixo que deixa o jogo de futebol pelas imediações do recinto. Estavam lá já mais de uma dezena de pessoas aguardando pelas 10.00 h, altura em que abriam as bilheteiras.
O tempo foi passando entre a conversa e a leitura dos jornais desportivos (cada um comprava jornais diferentes que depois iam circulando). Lá consegui os bilhetes.
A semana passou com ansiedade e…medo. Depois de chegar ali, seria dramático perder aquele campeonato.
Dia 22 de Maio de 2005. O dia do juízo final.
Depois de me ter encontrado com os meus parceiros de viagem junto às Torres de Lisboa, segui rumo ao Porto. Após um leitão na Mealhada, devorado num restaurante apinhado de benfiquistas, quando retomamos a A1 o panorama era impressionante. A baixa velocidade em em fila pouco menos que compacta, milhares e milhares de automóveis com cachecóis, bandeiras e adereços variados faziam da principal estrada do país uma verdadeira procissão a caminho do Bessa. Até hoje me interrogo como foi possível caber tanta gente no estádio quantos os automóveis que para lá se dirigiam a meio da tarde.
Não me recordo porquê, acabamos por passar junto ao Estádio do Dragão onde o F.C.Porto, à mesma hora, defrontaria a Académica – para serem campeões, os portistas teriam de ganhar e esperar que o Benfica perdesse.
O ambiente na cidade do Porto era incrível. Numa parte da cidade os portistas esperando um deslize do Benfica para comemorarem mais um título. Do outro lado, os benfiquistas esperando ansiosos pelo título. Dois estádios lotados para a decisão de toda uma época numa mesma cidade.
Nas imediações do Bessa era naturalmente o vermelho que imperava – recordo que Luís Filipe Vieira comprara toda a lotação do estádio, pelo que à excepção dos cativos boavisteiros, todo o estádio se vestiria de vermelho, levando Trapattoni a dizer que em tantos anos de futebol nunca vira nada igual.
Quando as equipas entraram em campo um nervoso miudinho irrompeu pelas minhas costas acima. Com o passar do tempo foi dando lugar a uma tensão nervosa difícil de suportar, que quase me levou a equacionar abandonar por momentos as bancadas para lavar a cara.
O Benfica alinhou com a mesma equipa que jogara frente ao Sporting e em quase todas as anteriores jornadas. No Boavista, já sem ambições, jogavam Nelson, Hugo Almeida, Cadú e Eder entre outros.
À passagem da meia hora Cadú mete mão à bola num lance disputado com Geovanni. Pedro Henriques não hesitou e apontou para a marca de penálti. Simão converteu e inundou de alegria todo o estádio. Perto do intervalo, todavia, numa falha de marcação na sequência de um pontapé de canto, Eder restabeleceu a igualdade num golpe de cabeça.
Embora o empate chegasse, temeu-se o pior. A pressão era muita e a equipa, sofrendo um golo à beira do intervalo, podia vacilar.
Na segunda parte lembro-me fundamentalmente dos nervos e da quantidade de vezes que olhei para o relógio. Logo no início vieram más notícias do Dragão: o F.C.Porto marcara por Ibson, e agora, um só golo do Boavista deitaria tudo por terra.
Até aos 88 minutos fui roendo as unhas, contorcendo-me na cadeira e olhando o relógio que parecia cada vez mais vagaroso. Nesse momento dá-se uma enorme explosão: golo da Académica frente ao Porto. Assim, mesmo que o Boavista marcasse o Benfica seguraria o título.
Sentiu-se então que o campeonato já não iria fugir aos comandados de Trapattoni. A festa começou aí com gritos de “campeões, campeões, nós somos campeões” a tomarem conta das bancadas do Bessa.
Quando Pedro Henriques apitou muitas coisas me vieram à cabeça. Tinha acabado ali, com final feliz, uma verdadeira epopeia. O Benfica era finalmente campeão.
A festa no relvado e nas bancadas foi bonita, mas havia que regressar a Lisboa. Nova paragem para jantar na Mealhada, recompondo o estômago e os nervos, e viagem (ao som da rádio que reportava o que se ia passando) rumo ao aeroporto de Lisboa para esperar a equipa.
Depois foi a loucura total no aeroporto e a caminhada para o Estádio da Luz onde às 5.00 h da manhã havia 55 mil pessoas aguardando os jogadores.
Não me deitei antes de devorar todos os jornais desportivos da segunda- feira. Eram 8.00 da manhã e ia finalmente dormir tranquilo, após ter vivido os momentos mais altos de toda a minha vida de adepto do futebol.

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