13/10/06

GOLPE DE ESTÁDIO (6)- Último

Toda a gente sabia que Pinto da Costa vivia do futebol e essencialmente do seu clube, mas ninguém se arriscava a comentar o facto publicamente. Não se lhe conhecia mais nenhuma actividade e muito menos tinha fortuna pessoal, mas não obstante estes factos, vivia como um milionário. Comprava apartamentos de grande luxo para familiares e denunciava sinais exteriores de riqueza. A sua vida era um mistério que ninguém ousava desvendar. Numa reunião de direcção, Pinto da Costa colocou com toda a frontalidade o seu problema económico. Ele tinha consciência de que aquilo que impunha era aceite, e ninguém ousava comentar. Já passava das 22 horas, quando entrou pela sala de reuniões. À sua frente estendia-se uma mesa larga e comprida com os cantos arredondados. Á sua volta estavam sentados oito dirigentes discutindo entre si vários problemas de menor importância, mas quando sentiram a porta a abrir-se, viram Reinaldo Teles com o puxador na mão a dar passagem a PC, que entrou com um sorriso nos lábios, logo seguido do irmão de Reinaldo, cuja postura física e comportamento se assemelhavam aos de um gorila. Toda a gente se levantou para cumprimentar o presidente. Reinaldo tropeçou na alcatifa e, não fora a acção rápida de Ilídio Pinto, a segurá-lo pela gola do casaco, ter-se-ia enfiado por debaixo da mesa. PC largou um sorriso, e em tom de brincadeira comentou: -Reinaldo, estão a tirar-lhe o tapete? Toda a gente riu, mas Reinaldo é que não achou piada nenhuma. Todos se sentaram, e Pinto da Costa apresentou de imediato a sua proposta: -Meus senhores, aqui neste clube os vencimentos vão ser atribuídos conforme as responsabilidades. A pessoas mais responsável é sem dúvida o presidente. Concordam? Os presentes na reunião olharam-se entre si e, sem perceberem muito bem o que PC queria dizer, acabaram por concordar, muito embora se mostrassem hesitantes. Mas, ao aperceber-se da situação, Reinaldo fez da sua voz a de toda a gente: -Claro que ninguém tem dúvidas que a maior responsabilidade pertence ao presidente. Como ninguém se atreveu a contestar tal afirmação, PC, sem mais delongas, expôs a sua posição: -A partir de agora, o presidente vai ganhar sete mil contos por mês, o treinador seis mil e depois seguem-se os vencimentos dos jogadores, sem luvas e prémios, está claro. Os presentes estavam à espera de tudo, menos de uma situação como aquela, e dois «vices», sem soltarem uma única palavra, levantaram-se da mesa e saíram. PC não se preocupou com o facto, tinha-os na mão e sabia que ninguém tinha tomates para falar. Enfrentando os que ficaram, não deu hipótese a que ninguém mais recuasse: -Então, como este ponto está aprovado, passemos a outro! Ouvia-se a chuva que batia nos vidros. Reinaldo bem tentou dar vida à reunião, mas o seu vocabulário não lhe permitiu ir além de uns monossílabos completamente desenquadrados de toda aquela situação: -Bem...hum...hum...pois... A reunião, por motivos óbvios, acabou depressa. Um raid de comandos não seria mais fulminante. O suporte económico de PC estava a consolidar-se. Sabia-se da sua ligação camuflada à agência de viagens, da sua comparticipação nos lucros e actividade da Olivedesportos e ultimamente até tinha comprado um jornal, um elemento indispensável para dar a cobertura nacional necessária aos seus mais variados negócios. A corrupção era uma fonte de receita inesgotável e sem impostos. Mas como não assumia publicamente - nem o podia fazer - nenhum destes negócios, tinha sérias dificuldades em explicar de onde lhe vinha a fortuna. Não se preocupava muito com isso. Ele sabia que tinha várias espécies de argumentos para fazer calar quem ousasse pedir explicações. Era um homem com a resposta sempre na ponta de uma viperina língua. Tudo estava devidamente controlado e de nada adiantava aos clubes da capital lutar pelo poder dentro das estruturas do futebol. PC sabia, há muito, que a força do dinheiro combatia tudo, e as lutas regionais e clubistas superavam-se com facilidade, com sexo e com dinheiro. E nestas áreas estava tudo mais que garantido. Nos momentos decisivos de eleições federativas, era ele quem controlava todas as situações, tendo com referência a ajuda preciosa de Adriano Pinto, um estratego de alto nível e um exímio jogador de sueca. Adriano Pinto era homem para deixar o adversário sem vazas, mesmo quando este só tinha trunfos, passe o exagero. Adriano e PC escolhiam os lugares que mais garantias lhes davam para a continuidade dos seus vários negócios, mas, como não podiam escolher todos os lugares, autorizavam mesmo que alguns mais importantes caíssem nas mãos de dirigentes ligados aos seus mais directos rivais. Não seriam necessários mais de dois meses após o acto eleitoral federativo para que se tornasse claro que os dirigentes indicados pelos clubes da capital já estavam do lado de PC. Mestres na arte da corrupção, proporcionavam vidas faustosas aos dirigentes inimigos(?), e a clubite era de imediato esquecida. Era normal ver-se um presidente federativo ao lado do clube de Pinto da Costa, quando este tinha de enfrentar algumas dificuldades e, sabendo-se que esse dirigente se afirmava de determinado clube da capital, nunca ninguém se espantou por ele nunca aparecer ao lado do clube das suas cores para o defender. Pelo contrário, até surgiu um presidente lisboeta que se tornou mais nortenho que um galego! Os pontos chave estavam todos controlados, para que a manobra fosse absoluta. Exageraram, no entanto, em algumas situações. A sede do poder subiu à cabeça de Pinto da Costa, e os ataques ao Governo fizeram-se sentir com grande intensidade quando verificou que no campo político não era possível ter tanta cobertura como no futebol. A Procuradoria da República colocou a Polícia Judiciária em campo, e acção contra a corrupção no futebol desenvolveu-se de uma forma intensa. Durante vários meses, Reinaldo Teles e Jorge Gomes foram vigiados de perto, e os seus telefones ficaram sob escuta. Passado um mês, os agentes encarregados desta função já não tinham qualquer dúvida em relação à corrupção e aos negócios de Reinaldo Teles, mas as investigações continuaram. Os agentes testemunharam vários encontros de árbitros com Reinaldo e Jorge Gomes. Ouviram várias conversas em código, mas que entendiam perfeitamente. A rede estava bem montada e tudo indicava que, mais tarde ou mais cedo, Reinaldo e os seus pares iriam cair nas várias armadilhas que lhes estavam a ser montadas. Pinto da Costa estava fora dessa investigação. Não era fácil atacar-se um homem com o seu poder. A polícia tinha de atacar por baixo para chegar lá acima, mas juridicamente o grupo estava bem organizado e bem escorado. Jogavam, de uma forma invulgar, com carências que a Lei apresentava no combate à corrupção. Seria fácil para a polícia chegar à conta bancária de qualquer um deles e pedir justificações para o movimento semanal de verbas tão volumosas. Mas tal não era possível. Os agentes encarregados da investigação viviam desesperados por não poderem provar aquilo que viam com os seus próprios olhos. Por isso, atrasaram as investigações, esperando uma melhor oportunidade que nunca surgia. Eles sabiam que, no momento que pedissem contas ou justificações, bastava um deles negar-se a fazê-lo para que o processo não avançasse. Eles sabiam, também, que quem tinha que provar que o dinheiro nas suas contas bancárias era ilegal era a polícia e não os acusados. Estavam de mãos atadas. Os agentes destacados para a investigação conheciam o terreno que pisavam e não estavam nada optimistas em relação às provas que poderiam vir a encontrar. Isto apesar de terem assistido a vários encontros e conversas que indiciavam a existência de actos corruptos. Um dia, resolveram seguir Reinaldo Teles e acabaram num bar de alternos perto do Marquês. No seu interior estavam dirigentes de um clube, em amena cavaqueira, e que tinham lá ido para se encontrar com um árbitro que lhes ia apitar o jogo da próxima jornada. O espectáculo estava a começar, e no meio da pista exibia-se um travesti com farta cabeleira longa encaracolada e um vestido coberto de lantejoulas vermelhas que lhe descia pelas pernas até ao tornozelo, abrindo uma enorme racha que se prolongava pela coxa esquerda. Cantava em play-back uma canção de Maria Betânia. O árbitro, sentado numa mesa próxima da pista, coçava a sua careca, enquanto alisava os poucos cabelos que lhe sobravam e que lhe cobriam apenas as têmporas. Levou o copo de whisky aos lábios e pousou-o quase de imediato para aplaudir a actuação do travesti. Quando lançou um olhar sobre a entrada viu surgir Reinaldo Teles. Uma das putas levantou-se com ligeireza e foi cumprimentá-lo, enquanto as outras a olhavam com inveja e diziam: -Se a Luísa sabe desta merda, vem aí e dá-lhe uma tareia que a fode. Reinaldo, sem perder o seu habitual fair-play, afastou a mulher e, quando ela se virou, mostrando um cu arrebitado e comprimido numas calças de licra, não resistiu a dar-lhe uma palmada, enquanto lhe dizia: -Tens o melhor cu da Europa. O árbitro assistiu a toda a cena e cumprimentou Reinaldo com um ligeiro aceno de cabeça. Os dirigentes ganharam coragem, levantaram-se e foram falar com o árbitro, que os conhecia e já esperava a investida. Após os cumprimentos tradicionais, o árbitro esperou pelo primeiro ataque, e logo que lhe referiram o jogo de domingo disse apenas: -Não percam tempo. Esses negócios não são tratados comigo. Se querem alguma coisa, falem com Reinaldo Teles. Ele chegou agora, falem com ele. Os agentes da PJ nem queriam acreditar no que ouviam. Estavam perto e escutaram a conversa. Esperaram pela reacção dos dirigentes, e estes, sem perderem tempo, pediram licença para se sentar na mesa de Reinaldo. Só ouviram Reinaldo dizer: -Apareçam amanhã para falarmos desse caso. Tinham voltado à estaca zero, quando julgavam que estava em perspectiva a flagrante que tanto desejavam. Era difícil arranjarem-se provas para deter Reinaldo e Jorge Gomes. Eles rodeavam-se de cuidados dignos de grandes profissionais. O inspector que comandava a operação chegou a dizer: -Isto não vai ser fácil. Ou temos a sorte de os apanhar em flagrante, o que é tremendamente difícil, ou então temos de utilizar a táctica de Al Capone. -A táctica de Al Capone? - perguntou um dos agentes, sem entender muito bem o que o seu chefe queria dizer. -Eu explico. Toda a gente sabia que Al Capone era um gangster de primeira categoria. Matava, corrompia e só tinha negócios ilícitos, mas como ninguém podia provar nada, muitas vezes até passou por bom rapaz, negando descaradamente os seus crimes. Temos neste caso o exemplo disso mesmo. Todos temos a certeza que Pinto da Costa e Reinaldo Teles estão envolvidos em casos de corrupção, mas como ninguém pode provar nada, quando alguém os acusa, ainda corre o risco de se transformar num difamador. Ao Al Capone meteram-no na cadeia por fuga aos impostos, e a estes só lhes podemos pegar pelo mesmo motivo, muito embora o sistema fiscal do nosso país não nos dê muita margem de manobra para isso. Doutra forma, só mesmo se um dos árbitros corruptos falar, e isso não é muito provável. A corrupção atingia quase todos os sectores do futebol, e não havia dúvidas de que existia uma organização perfeita por trás de toda esta situação. Os mais altos dirigentes federativos recebiam luvas da Olivedesportos para ultrapassar regulamentos, dar exclusivos sem concursos públicos ou marcar jogos seguindo as conveniências horárias da televisão. A PJ seguiu alguns desses dirigentes e verificou que estes no final de cada mês passavam pelos escritórios da Olivedesportos e nunca ninguém acreditou que eles fossem apenas cumprimentar ou desejar um bom final de mês a Joaquim Oliveira. Mas, apesar de toda esta evidência, de que algo de anormal se passava, e não haver dúvidas de que existia corrupção, não se conseguia prender ninguém. Quando existia mesmo a possibilidade de se poderem arranjar provas de um crime, elas eram imediatamente abafadas, sem ninguém saber como. Mas um jogador que foi contactado por Jorge Gomes para facilitar um resultado fez questão de dar com a língua nos dentes e transformou o seu caso num escândalo nacional. Prometeu contar toda a verdade. Porém os casos caíam sempre na mão de quem sabia como lhes dar destino. Numa primeira abordagem, esse jogador teve medo de contar toda a verdade. Foram apontadas testemunhas para esse caso que poderiam ser o início da derrocada da organização, mas mais ninguém foi ouvido sobre essa questão. O processo desapareceu como o fumo, levando o caminho de tantos outros: arquivado por falta de provas. É que, quando elas existiam ou se perspectivava o testemunho dos factos, surgia logo uma misteriosa corrente no sentido de fazer as coisas caírem no esquecimento. O império resistiu ao movimento das catacumbas. A televisão gastava milhões em transmissões televisivas. O responsável por essas negociações comprou a dinheiro, misteriosamente, uma casa no valor de 50 mil contos. Todos sabiam que meses antes ele não tinha possibilidades de efectuar tal negócio. Era mais que evidente que estava a receber luvas da Olivedesportos, mas ninguém lhe pediu contas. O descaramento era tal neste tipo de negócios, e a cobertura de tal forma forte, que a Olivedesportos, uma empresa instalada num modesto T1, com dois empregados e uma mulher de limpeza, fazia frente e vencia as estações de televisão mais fortes em estruturas e com grande peso político e religioso. Fomentaram-se guerras, desmascaram-se situações, mas a organização tinha tal poder que nem sequer foi minimamente abalada. Ninguém compreendia aquele fenómeno. Um escudo invisível parecia proteger a coutada de PC. Por trás das outras empresas, havia gente com grande peso político, ex-ministros e até ex- primeiros-ministros, mas estas empresas esbarravam sempre no gnomo Joaquim Oliveira, o tal que meia dúzia de anos antes era apenas o proprietário de um bar de alternos com putas ranhosas e que até as cuecas tinha penhoradas. A televisão era um enorme fonte de receita. O segredo do negócio não residia como se tentava fazer crer, na negociação da exclusividade das transmissões, mas no sistema camuflado de publicidade estática. Tudo isto formava uma teia bem tecida e organizada. Por seu lado, o irmão de Oliveira, quando deixou de jogar futebol, dedicou-se à actividade de treinador, mas apesar de todas as ligações comerciais com PC, nunca se deixou envolver pelo sistema. Treinou sempre clubes de pequena nomeada, e era evidente a sua grande capacidade de comando e leitura de jogo. António Oliveira era inteligente e conhecia como ninguém o futebol por dentro, mas nunca foi um grande amante do trabalho. Treinar um clube e ter de se levantar todos os dias de manhã para exercer essa actividade, ou radicar-se numa cidade pequena para poder laborar, nunca esteve nos seus horizontes, e daí o seu êxito não ter tido uma dimensão à altura do seu talento. A solução para o seu problema estava na selecção. Trabalhava de três em três meses, e como capacidade e talento eram coisas que não lhe faltavam, este era um emprego à sua medida. Pinto da Costa controlava todas estas áreas, e não havia dúvidas de que era ele quem mandava no futebol. A Polícia incomodava toda a gente, procedia a investigações, fazia buscas residenciais a várias personalidades, que toda a gente sabia serem satélites de PC, mas nele ninguém tocava. PC, surgia sempre acima de toda a suspeita e com uma porta aberta para sair em defesa dos seus protegidos e dar-lhes a cobertura necessária. O Grande Líder tinha consciência daquilo que valia e do poder que tinha. Sabia que os mais altos dirigentes políticos lhe vinham mendigar apoio nos momentos cruciais. O escândalo não o afectava; a contínua suspeita que caía sobre ele e os seus sócios não tinha grandes efeitos sociais, como se toda a gente aceitasse pacificamente que o futebol era um antro de negócios marginais. O certo é que, apesar de todos os hinos cantados à inocência, quando surgia uma suspeita de corrupção ligada ao futebol, a direcção era sempre a mesma e atingia sempre as mesmas pessoas. Ninguém podia pensar numa perseguição injusta, como fazia crer, porque isso seria até um insulto a Pinto da Costa e à sua reconhecida capacidade de gestão de problemas. -Eles que venham comer o milho à minha mão - sussurrava PC, enquanto abria mais uma edição do «Independente», de novo com a sua foto na capa. A Polícia Judiciária estava no auge das suas investigações. Tinha acumulado provas substanciais, o que levava a brigada a pensar que já havia dados mais que suficientes para começar a prender pessoas. Mas cantaram demasiado cedo o grito da vitória. Não acreditavam na força que a organização tinha e acabaram por ser surpreendidos, isto não obstante terem mesmo chegado a ser passados vários mandatos de busca a casa dos maiores suspeitos. Pinto da Costa tinha conhecimento das investigações que estavam a ser efectuadas e avisou Reinaldo Teles para que este se rodeasse de maiores cuidados nos negócios que efectuava. Aos poucos, foram retirando de suas casas documentos que poderiam indiciar a sua actividade marginal. Começou a haver um maior cuidado nos movimentos bancários, mas o negócio não parou. Quando tinham dúvidas sobre como deveriam actuar sem deixar rastos que mais tarde os pudessem comprometer, consultavam um dos seus advogados com fama de grande especialista em crime e avançavam com todas as medidas de precaução. As despesas eram muitas, e acabar com o negócio seria o princípio do fim. Alguém tinha de saldar as dívidas e repor o dinheiro mal aplicado. Num dos momentos de maior pressão, tornou-se necessário negociar o resultado de um jogo com um árbitro portuense. O preço estabelecido foi de três mil contos e foi marcado encontro com esse juiz na segunda-feira seguinte no bar de Reinaldo. Nessa noite, o primeiro a chegar foi Jorge Gomes e só mais tarde apareceu Reinaldo, um tanto desconfiado, olhando para todos os cantos da sala com a nítida intenção de identificar todos os seus clientes e classificar os suspeitos. Nem sequer cumprimentou Jorge Gomes, e este, um tanto admirado, não entendendo o que se estava a passar, acabou por perguntar entre dentes: -O que é que tens. Está cá alguém da Judite? -Estou a ver se descubro alguém suspeito. Olha aqueles dois ali ao canto. Conheces? Jorge Gomes rodou sobre os calcanhares com tal velocidade que até entornou o whisky que tinha na mão, marcando-lhe o príncipe-de-gales. Reinaldo, irritado com tal atitude, não se conteve: -És mesmo burro. Se eles forem da Judite, dás logo a perceber que estás comprometido. -Oh, pá, fiquei assustado! Tens razão, mas não te preocupes com aqueles dois. Eu conheço-os. São cabritos. Reinaldo Teles respirou fundo e comentou com Jorge Gomes o jogo do dia anterior e o investimento dos três mil contos. -Viste ontem? Foi tão fácil. Ele controlou o jogo como quis, não houve escândalos e hoje a Imprensa não faz grandes críticas. Assim é que é bom ganhar dinheiro. Jorge Gomes não perdeu a oportunidade para perguntar quando é que os três mil eram entregues, assim como a comissão deles, e Reinaldo Teles explicou-lhe o seu plano com uma certa vaidade: -O homem ficou de vir cá hoje entregar o dinheiro, e o árbitro também vem cá buscá-lo. Devem estar aí a chegar. -Mas, não é perigoso? Ele devia ter sido pago antes, como os outros. O chefe não nos avisou para termos cuidado, porque estávamos a ser seguidos? -Não te preocupes, eu tomei as minhas precauções... Reinaldo nem sequer teve tempo para acabar a frase, pois o árbitro cumpriu escrupulosamente o horário e estava, nesse momento, a entregar o seu sobretudo no bengaleiro. Após receber a ficha de depósito, dirigiu-se para uma mesa, cumprimentando Reinaldo de esguelha. O empregado abeirou-se do cliente, e este pediu um whisky com Coca- Cola e muito gelo. Não passaram mais de 10 minutos e entrou o dirigente que levava os três mil contos. Tal como o árbitro, entregou o seu sobretudo ao porteiro e dirigiu-se para outra mesa, fazendo também um leve aceno de cabeça a cumprimentar Reinaldo que, de imediato, lançou um olhar cúmplice a uma das suas miúdas. Esta, sem perder tempo, foi sentar-se na mesa do dirigente, e minutos depois já saltava a rolha da primeira garrafa de champanhe, enquanto a empregada lhe mordia o lóbulo da orelha e lhe prometia uma noite de sonho. O árbitro acabou de sorver o seu whisky, chamou o empregado, pagou e dirigiu-se para o bengaleiro, a fim de levantar o seu sobretudo, que lhe foi entregue de imediato. Saiu, metendo uma nota de cinco mil na mão do porteiro. Jorge Gomes, que seguiu todos estes movimentos em silêncio, acabou por perguntar a Reinaldo: -Então o gajo foi-se embora e não levou a pasta? Viste a gorja que ele deu ao porteiro? -És um principiante nestas andanças. Jorge Gomes ficou a olhar para Reinaldo Teles, sem perceber muito bem o que este queria dizer, mas a explicação veio de seguida num tom que denunciava uma certa vaidade: -Quando o árbitro entrou, entregou o sobretudo no bengaleiro, não foi? -Foi, eu vi. -Depois, quando chegou o «pato», fez exactamente a mesma coisa. Só que no sobretudo dele vinha um pacote com os 3 mil, e o Chico Manco - o homem do bengaleiro - já tinha instruções para passar os três mil de um sobretudo para o outro. Por isso, quando o árbitro saiu, já tinha no bolso a fruta. Desafio o mais esperto a provar que alguém lhe deu aqui dentro o que quer que fosse. Jorge Gomes ficou de boca aberta, sem dizer palavra, e Reinaldo enchendo o peito não resistiu a comentar: -Ainda não entendeste? És mesmo burro. A isto chama-se a táctica do sobretudo. As investigações intensificavam-se, o cerco apertava-se e Reinaldo Teles começou a beber uns copos a mais. Num dos seus momentos de delírio, devido ao exagero de alcoolemia, deu consigo a pensar no passado. Viu-se no centro do ringue, de luvas levantadas, gritando vitória. Lembrou as patrulhas que fazia em Santos Pousada, quando era necessário controlar as suas putas. Os momentos difíceis e as lutas travadas. E chorou. Agora, graças ao futebol, era um empresário de sucesso. Sozinho, sentado na secretária que tinha a um canto do seu escritório, entrou num momento de tristeza. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, enquanto o ranho se lhe soltava pelo nariz. Entabulando um diálogo consigo próprio, reviveu o passado: -Tenho a agradecer muito ao PC, mas também, se não fosse eu, se calhar ainda hoje ele andava a vender fogões. Soltando um palavrão ao mesmo tempo que atirava o copo para o chão, foi justificando as suas atitudes como se procurasse no infinito a razão para as suas acções. -Temos o dinheiro que nos apetece. Isso é crime? Nós fazemos parte do espectáculo. Somos nós que montamos a tenda. Somos nós que damos a alegria ao povo. Ganha quem a gente quer. Fazemos muita gente feliz. Temos de ser bem pagos por isso. Somos os maiores!... Este último grito alertou o porteiro, que foi avisar Luísa. Esta largou o balcão, entregando a gestão das operações à sua grande amiga Geny, uma mulata que não escondia, o seu gosto pelas mulheres. Luísa entrou no escritório deparando com Reinaldo a cambalear e a tentar encontrar a cadeira da sua secretária. Luísa fechou de imediato a porta e comentou com ar de desprezo: -Já viste a cena que estás a fazer. Olha se alguém te via nesse estado. Deita-te mas é aí a dormir, para ver se isso te passa até fecharmos. Reinaldo olhou Luísa e voltou a lembrar-se do passado. Também ela o tinha ajudado a triunfar, e prometeu: -Se nos safarmos desta, podes ter a certeza que vou acabar com esta merda do putedo. Não quero mais putas a trabalhar para mim. Vou abrir um bar decente. Já chega! Agora sou um senhor. O primeiro-ministro até me quis condecorar, mas quando soube que eu tinha esta merda, recuou. Acabaram-se os alternos. Lembra-te que até posso vir a ser presidente do nosso clube. Ao ouvir isto, Luísa torceu o nariz e respondeu: -Com que grande bebedeira tu estás. -O quê... não acreditas? Olha que continuo a ser o número dois do nosso clube, e alguns candidatos políticos até já me pedem apoio para as eleições. No fundo, eles são como nós. Com putas ou sem putas, é quem mais se orienta. Não vês o nosso presidente. Os grandes políticos vêm todos ao beija-mão. O futebol é que comanda este país, e o resto é treta. Luísa não lhe deu muita conversa e ajudou Reinaldo a deitar-se num pequeno sofá, tirando-lhe a garrafa do whisky da mão: -Hoje, já não bebes mais. Dorme um bocadinho, que isso passa-te. Quando tomou a sua posição no balcão, viu entrar Pinto da Costa e ficou assustada. Se ele visse o estado em que estava Reinaldo, era capaz de ficar aborrecido. Por isso, chamou-o para o cumprimentar e sem lhe dar tempo para perguntas disse: -O Reinaldo teve de sair, mas deve estar aí a chegar. Sente-se ali numa mesa que eu mando-lhe já boa companhia. PC sorriu, e acabou por dizer: -Confio nos seus gostos. Estou mesmo a necessitar de uma coisa boa para me divertir, porque problemas já eu tenho com fartura. -Passadas duas horas, PC já estava todo lambuzado de bâton. Luísa tinha-lhe colocado na mesa uma das bailarinas que fazia parte do show e, como uma boa profissional que era, esta fez PC esquecer o tempo. Luísa entrou novamente no escritório, e Reinaldo roncava que nem um porco. Abanou-o para o acordar, e este, estremunhado, abriu os olhos e começou a gritar: -Eu estou inocente, o PC é que tem a culpa de tudo... Luísa deu-lhe um estalo, ao mesmo tempo que dizia: -Está calado. Não faças cenas, que eu não sou da Judite. O PC já está lá fora há duas horas. Arranja-te, que eu vou buscar-te um café. O homem parece que quer falar contigo ainda hoje. Reinaldo entrou na casa de banho, molhou a cara, penteou-se, esperou pelo café e só depois foi ter com PC. -Então presidente! Quer falar comigo? - Quero. As olheiras de Reinaldo não passaram despercebidas a PC, e este, desconfiado, não resistiu a perguntar: -Foi a algum lado em especial? -Tive de tratar aí de umas coisas. Olhando para a bailarina que se enroscava no pescoço de Pinto da Costa, Reinaldo piscou-lhe o olho, enquanto lhe dizia: -Está na hora de te preparares para o show. A mulher entendeu perfeitamente a mensagem e, com um beijo, despediu-se de PC. Este não esteve com mais delongas e atacou no primeiro impulso: -Temos de ter atenção, porque os gajos estão a preparar o ataque final. Ninguém pode cometer erros, e atenção ao Jorge Gomes, porque ele não é muito certo. Temos de ter cuidado com o tipo. Mas, presidente, agora que estamos no final do campeonato, é quando isto dá mais. Como é que vamos fazer para satisfazer os nossos clientes? Há que ter muito cuidado e fazer os negócios com mais segurança. Agora só se trabalha com um ou dois clubes, no máximo, o resto já está definido, e não podemos andar a fazer mais promessas. Segundo as informações que tenho, eles estão precisamente à espera do final do campeonato para entrarem em acção, mas ninguém sabe quem é que vai ser incomodado. Penso que ninguém nos vai tocar. Reinaldo ficou um pouco assustado e lembrou-se de Jorge Gomes. Tinha de o avisar, mas deixou essa diligência para o dia seguinte, lamentando-se a PC: -Quem tem a culpa disto tudo são esses filhos da puta dos jornais. Andam para aí a levantar a suspeição e não nos deixam trabalhar à vontade. Se pudesse, matava-os a todos. Nem fodem nem deixam foder. Nessa noite, Reinaldo quase nem dormiu a pensar no que lhe podia acontecer. Depois de Reinaldo ter falado com Jorge Gomes e lhe ter explicado a conversa que tivera com o presidente, avisando-o dos cuidados a ter, numa primeira reacção, este começou a tremer, assustado, mas acalmou-se quando o seu raciocínio o levou a pensar que para tocarem nele tinham de tocar em PC. -O homem tem muita força. Ninguém lhe chega. Nós estamos protegidos. Reinaldo abanou a cabeça, concordando com a sua análise, mas deixou na mesma o aviso: -Temos de ter cuidado. As coisas não estão fáceis. Jorge Gomes tinha compromissos assumidos. Longe iam os dias em que vivia numa ilha, tinha de mijar num penico e, para necessidades mais sólidas, percorrer 50 metros e ficar em fila de espera à porta de uma retrete que servia os restantes 20 inquilinos. Já tinha largado o pesado martelo de bate-chapas, estava habituado a bons apartamentos e a passar férias no estrangeiro em bons hotéis. Necessitava de solidificar a sua pequena fortuna, porque, se a organização se desmoronasse, estes hábitos ficavam seriamente comprometidos. Jorge Gomes não olhava a meios para atingir fins. A vigarice estava-lhe no sangue. O sentido de amizade e reconhecimento, para ele, simplesmente não existiam, e em vez dos cuidados a que fora aconselhado, começou a fazer os seu negócios vigarizando alguns dos seus melhores clientes. A acção de Jorge Gomes chegou ao conhecimento de PC, e este não ficou nada contente com a situação. Mandou chamar Reinaldo e ordenou-lhe o despedimento da criatura: -Não o quero ver mas ao serviço do nosso clube. Esse gajo é um filho da puta de um vigarista. Não conhece ninguém, e é capaz de nos comprometer seriamente. Rua com ele! -Mas presidente... se ele dá com a língua nos dentes? -Fica sem ela! Safa-te da forma que quiseres. Foste tu que o trouxeste, agora arruma tudo com ele. Reinaldo saiu do gabinete de PC sem saber muito bem o que devia fazer, mas duma coisa tinha a certeza: o Gomes era mesmo um indivíduo sem escrúpulos. Logo que o encontrou, fez-lhe saber que o presidente o queria na rua: -Não tiveste juízo, acabou aqui a tua história. Jorge Gomes sorriu com cinismo e disse sem mais delongas: -Vocês não julguem que se livram de mim com tanta facilidade. Se eu cair, vocês caem comigo, principalmente tu Reinaldo. Lembra-te que nos orientámos muitas vezes em negócios que o presidente nem sonhava que se faziam, e se me mandarem embora, chibome. Reinaldo ficou assustado e, sabendo que Jorge Gomes era mesmo capaz de cumprir a sua promessa, resolveu dar a volta doutra forma à situação. -Eu vou falar com o presidente novamente, mas tu tens de me prometer que vais cumprir as ordens que te damos e não vais andar para aí a fazer mais merda. Virou-lhe as costas e entrou no seu carro a pensar como é que se poderia livrar daquela encrenca. Só havia realmente uma saída: obrigar o presidente a recuar na sua acção. Naquela mesma noite, encontrou-se com Pinto da Costa e pediu-lhe para repensar a sua posição: -Ó presidente, o Jorge está arrependido do que fez. Vamos dar-lhe outra oportunidade... -Nem penses nisso. Esse gajo já fez merda de mais para continuar ao nosso serviço. Ele pode comprometer toda a nossa acção. Rua com ele... Não há contemplações. Reinaldo ficou entalado e sem palavras. Olhou a alcatifa do gabinete de PC, sem saber muito bem o que havia de fazer. Com a biqueira do sapato começou a raspar o desenho que nela estava inserido e resolveu arriscar, quando disse: -Presidente! Se ele for embora, eu também vou. PC saltou da cadeira e não queria acreditar no que estava a ouvir. Sabia que, naquele momento, não podia prescindir dos serviços de Reinaldo e era demasiado perigoso deixá-lo fora da organização. Era a primeira traição do seu dilecto amigo. Do seu confidente. Do homem da sua confiança. Sem saber muito bem o que devia fazer, PC sentiu que estava a ser refém dos monstros que criara e resolveu actuar com mais precaução: Ele é assim tão teu amigo? Não estás a confiar demasiado num gajo que não vale nada? Reinaldo não respondeu, e PC, passeando-se pelo gabinete, esperou alguns minutos até pronunciar a sua sentença. Sabia que não podia perder autoridade e tinha de arranjar uma solução. -Vou pensar no assunto e depois digo-te alguma coisa. Mas ficas a saber que te vou responsabilizar por toda a merda que esse gajo fizer. Reinaldo saiu do gabinete mais descansado, enquanto PC registava a primeira traição do seu maior amigo. Jorge Gomes aguentou-se no seu primeiro round. Dias depois, a Polícia Judiciária entrava em acção. Os grandes problemas foram esquecidos, porque, tal como tudo tinha começado há vinte anos atrás, o slogan revolucionário continuava a ter a mesma força: «Só unidos venceremos...». O resto todos sabem.

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3 Comments:

Anonymous SnapeFCP said...

Tenho a dizer que sois todos uma cambada de ceguinhos que acreditam que o vosso clube ganhou tudo o que ganhou apenas com o esforço e dedicação dos seus atletas e do amor ao clube de todos os que nele trabalham. É pena que ninguém publique livros desses tempos. Será porque na altura não se deixava passar nada cá pra fora?
Será porque esse clube era o Clude do Estado?
Mas como era o Estado a corromper tava tudo bem. Tava na lei. Aprendam a dar valor a quem o merece.Não sejam tão pequeninos. FCP Sempre.

7.7.07  
Blogger Nuno said...

Ridiculos estes tripeiros q vêm a estes blogs não sei fazer o quê!

8.4.08  
Blogger Calabotices said...

Agora é limpinho. E antes era sujinho. Agora, são precisas muitas provas. Antes não se precisava de nenhuma prova. Basta a opinião dos Andrades que perdiam tudo, na Europa não vingavam ..... mas era o clube do regime. Mas relativamente a livros agora é que h+a mais material.
Carrega Benfica!!!!!!!!!

Nota: O pseudómino Calabotices é uma "homenagem" a todos aqueles Andrades que "sabem" tudo sobre este tema. Estavam TODOS lá!!!!

22.1.10  

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