26/06/06

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS !

É extremamente difícil escrever com alguma objectividade acerca de noventa minutos que manipularam as nossas emoções até aos mais bárbaros limites do sadismo.
Foi de facto um jogo épico para o futebol luso. Não que Portugal tenha efectuado uma exibição particularmente conseguida, nem que o jogo tenha sido de grande qualidade técnica – para quem não seja nem holandês nem português, incerteza do resultado à parte, terão sido noventa minutos de tédio -, mas as emoções por nós vividas naquela interminável hora e meia de Nurenberga, todo o estoicismo de dez, e depois nove portugueses naquele relvado, elevam este jogo ao patamar mais alto da história da nossa selecção.
Esta memorável partida deve ser dividida em duas partes distintas, coincidentes com os dois períodos de jogo. Uma absolutamente normal, durante a qual Portugal marcou o seu golo e exibiu a sua superioridade, e depois uma segunda parte quase do domínio do sobrenatural, onde a nossa selecção demonstrou uma alma inesgotável, uma coesão granítica e uma capacidade de sofrimento à prova de qualquer contrariedade, mostrando também aí o porquê de muitas das tão injusta e ignorantemente criticadas opções de Luiz Felipe Scolari.
Esta foi pois uma vitória do sofrimento, da luta, da combatividade, da ambição, da crença, e do espírito de grupo.
Foi também uma vitória do banco português, quer pela argúcia do nosso técnico, quer pela força e capacidade demonstrada pelos jogadores que, numa situação de grande tensão, entraram em campo – Portugal acabou o jogo com nove e sem Ronaldo, Deco, Figo, Pauleta e Costinha (!!)
A Holanda até entrou melhor, realizando dez minutos iniciais de grande qualidade, nos quais, encurtando a distância entre linhas através duma subida da sua defesa, foi capaz de povoar a zona preferencial de acção dos nossos principais artistas e impedi-los de manter a posse de bola, obrigando assim a muitos passes longos e consequentes perdas de bola. Foi guiada por Cristiano Ronaldo que a selecção nacional reagiu a esta má entrada, pois foi o madeirense (que pena não concluir um jogo que ameaçava ser o “seu” jogo neste mundial), com a sua explosiva capacidade no um para um, o primeiro a ser capaz de furar aquela cortina de holandeses que cobria toda a sua intermediária. Com uma violenta entrada merecedora de cartão vermelho directo, Boulahrouz incapacitou o jovem português para a partida, obrigando-o a sair alguns minutos mais tarde, mas o grito de sublevação da equipa já estava dado, e o equilíbrio no jogo estava consumado.
Aos vinte e três minutos, Maniche marcou aquele que viria a ser o único golo da contenda, e a partir daí, até final da primeira parte e no melhor período futebolístico do jogo, Portugal mostrou que tinha de facto melhor equipa que a Holanda, ainda que esta, conduzida por Van Persie (que grande exibição !), também tenha estado perto de marcar por mais de uma vez. A melhor oportunidade de golo até final da primeira parte foi todavia interpretada por Pauleta, após excelente lance de Simão, a que Van der Sar correspondeu com defesa instintiva.
Quando tudo parecia estar a correr bem, no minuto seguinte àquela perdida, Costinha foi infantilmente expulso (como é possível num jogador com a sua experiência ?), lançando de imediato densas nuvens sobre as possibilidades de aguentar um resultado tão escasso em inferioridade numérica, começando aqui a epopeia dos mais longos cinquenta e um minutos da história recente do futebol português.
Para uma segunda parte que já se antevia de grande dramatismo, Scolari optou por retirar, e bem, o único ponta-de-lança da equipa, deixando a uns super Figo e Simão, todas as despesas atacantes da equipa, obrigando-os a cobrir os flancos, segurar centrais e, se possível, causar perigo, tarefas que cumpriram com um impressionante denodo e um notável espirito de sacrifício. A equipa mantinha assim a sua estrutura defensiva inalterada, pois Petit (que de “petit” nada teve, pois foi um verdadeiro gigante) plantou-se no espaço antes ocupado por Costinha, e conseguiu fazer um trabalho perfeito e sempre nos limites – inclusivamente condicionado pela amostragem de um cartão amarelo três minutos depois de ter entrado.
Um remate de Cocu a fazer tremer a barra da baliza de Ricardo foi a pitada de sorte que alimenta os grandes campeões. Sentiu-se que essa fada madrinha poderia voltar a estar connosco.
O tempo ia passando, apesar de aos nossos olhos o relógio parecer não andar.
Depois da expulsão de Belahrouz ter equilibrado as tropas, pensou-se que Portugal poderia enfim respirar. Foi sol de pouca dura, pois Deco acabou também por ver o cartão vermelho numa grosseira precipitação do árbitro, ele também, e mais até que os jogadores, de cabeça perdida.
O tempo ia passando (cada vez mais devagarinho, diga-se...) e a Holanda, mau grado deter durante longos períodos a posse absoluta da bola, não mostrava capacidade de perfurar uma linha defensiva portuguesa em dia de grande inspiração, e acabou por ser forçada a socorrer-se de um estilo de jogo mais directo, em busca da cabeça de Kuyt (e mais tarde Hasselink), proporcionando então a Fernando Meira a oportunidade de brilhar a altíssimo nível, tal como aliás Ricardo Carvalho o fizera até esse momento, e continuaria a fazer até final.
O jogo transformou-se numa batalha, onde quem tivesse sangue frio e nervos de aço conseguiria vencer. Neste domínio, Scolari e estes jogadores já demonstraram que se pode contar com eles, o que representa um contraste absoluto com o que sucedia com as selecções portuguesas até há poucos anos atrás.
Mas nada teria sido como foi se na baliza portuguesa não tivesse estado um extraordinário guarda-redes (tão injustiçado que foi...), que nos momentos cruciais gritou bem alto a toda a equipa que podia contar com ele. No momento em que saiu aos pés de Kuyt fazendo primorosamente uma mancha que impediu o avançado holandês de fazer o golo, Ricardo terá segurado definitivamente a vitória e a presença nos quartos-de-final. Antes e depois, outras intervenções de grande nível, e uma intratável segurança dentro e fora dos postes, demonstrando que, desde que confiante, é de facto o melhor guardião português.
E o tempo ia passando...
Seis minutos de descontos (acabaram por ser sete), e Portugal a libertar-se um pouco da cada vez mais desalentada pressão holandesa. Simão na frente, sozinho depois da saída de Figo, continuava a sua saga, correndo quilómetros. Caramba, um jogador assim vale ouro !
Não havia já lugar a qualquer táctica. Todos a defender, pontapé para a frente e fé em Simão.
Tiago quase ia marcando, e pouco depois... pouco depois... (nunca mais era...) o árbitro apitava.
Permanecera em pé quase desde o início da segunda parte. Caí exausto para cima do sofá. Parecia mentira tudo aquilo ter terminado em bem.
Inesquecível !
Entre mortos e feridos, ao contrário do que sucedeu em Bruxelas em 2000, na Coreia em 2002, desta vez fomos nós que nos salvámos.
Viva Portugal !!!

PS: Ficámos sem Deco e Costinha (veremos se também sem Ronaldo) para o (re)encontro com a Inglaterra. Pelo que ficou ontem demonstrado Portugal tem jogadores capazes de fazer os lugares. Temos tempo de pensar no assunto.
Figo excedeu-se, e por pouco Portugal não ficou com oito e numa situação ainda mais complicada.
Fica no entanto a nota para (mais) uma arbitragem medíocre neste torneio. A expulsão de Deco é caricata, assim como muitos outros amarelos mostrados. Não é assim que se segura um jogo. Assim estraga-se um jogo, e Ivanov foi isso que fez, sobretudo quando o critério foi completamente absurdo (se atentarmos ao segundo amarelo a Deco, e ao primeiro a Boulahrouz por uma autêntica agressão a Ronaldo, vemos até onde chegou o desnorte deste juiz russo).
Os árbitros e as instâncias que os coordenam, parecem ainda não ter percebido que a função dos homens do apito em campo passam por preservar o espectáculo e não por exercícios de legalismo que só servem para afastar pessoas do futebol (isto aplica-se também à nossa liga).
Os holandeses também não ajudaram, com atitudes de falta de fair-play que até nem são habituais nas suas equipas.
Van Basten, que foi um jogador fantástico e que eu muito admirava na minha adolescência, desiludiu-me profundamente com o mau perder exibido na conferência de imprensa (soube-se também que as indicações para Heitinga prosseguir com a bola vieram do banco). As suas declarações fizeram-me lembrar, por estranho que pareça, de... Ronald Koeman. Enfim, holandices.

7 Comments:

Blogger Rakal D'Addio said...

Foi sem dúvida a melhor partida da Copa e particularmente acho dificil que outro jogo venha ser melhor.

Acredito que o anuncio da Fifa dizendo que Figo não será suspenso serve de grande alento para vocês portugueses, afinal sem o camisa 7 e o 20 vocês perdem os dois principais jogadores da seleção

27.6.06  
Anonymous LF said...

Sim foi um alívio.
E Cristiano Ronaldo também parece que vai recuperar.
De qualquer modo, Deco e Costinha vão fazer muita falta para este jogo, pois a equipa está muito rotinada a jogar com eles.
Petit e Simão deverão ser os substitutos, com Figo a deslocar-se para o centro do campo.

27.6.06  
Anonymous Brytto said...

... e não nos podemos esquecer, é mais um record para Scolari e seu meninos, nunca um jogo do mundial tinha tido tantos cartões (16 amarelos e 4 vermelhos)e uma equipa tido mais cartões do que faltas cometidas - fez 10 faltas e levou 11 cartões. Vai ser um recorde dificil de bater...

27.6.06  
Anonymous LF said...

Caríssimo Brytto,

Antes de mais, julgo seres merecedor dum cumprimento muito especial.

Parece-me que esse record (de cartões) é de atribuír ao árbitro, e não aos nossos jogadores ou treinador.
O verdadeiro record de Scolari são 11 jogos e 11 vitórias em fases finais de mundiais.
E com 4 vitórias já igualámos também a performance de Eusébio em 1966 (na altura não havia oitavos de final, pelo que passámos directamente aos quartos com a Coreia).

27.6.06  
Anonymous Anónimo said...

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Anonymous Anónimo said...

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17.8.06  

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