29/03/06

DE LUXO !

Enorme espectáculo de futebol a que se assistiu ontem na Luz.
Não houve golos é certo, mas oportunidades não faltaram para um e outro lado (mais para o Barcelona como seria de esperar), e o bom futebol também não. Sobre o ambiente, haverá poucas palavras que o possam descrever.
Pode-se dizer que constitui uma raridade, um jogo terminar sem golos e ainda assim conseguir ser o extraordinário espectáculo que o de ontem, inegavelmente, foi. Esta época, no nosso país, não me lembro de melhor, salvo talvez o Benfica-Manchester United de Dezembro último.
A exibição de uma equipa, mais do que por aspectos meramente plásticos, deve medir-se tendo em conta as vicissitudes estratégicas do jogo e, sobretudo, o adversário que lhe aparece pela frente. O Benfica teve diante de si a melhor equipa do mundo da actualidade, e esteve perfeitamente à altura da ocasião. Chegou mesmo a dominar os catalães durante alguns períodos da segunda parte, acabando o jogo mais próximo de marcar um golo do que de o sofrer. Por isso se tem que dizer que o Benfica realizou uma extraordinária exibição, que deve encher de orgulho todos os seus associados e simpatizantes, bem como, porque não, todos os portugueses.
São pois difíceis de compreender algumas críticas de tonalidade mais exigente, que já hoje tive oportunidade de ler na imprensa desportiva, e que parecem assentar em conceitos futebolísticos que já não se enquadram muito na realidade do futebol actual, pois nem o Benfica já tem Eusébio, nem é possível empurrar para a defesa uma equipa como o Barça durante os noventa minutos. Se nos lembrarmos do que esta poderosa equipa "blaugrana" fez perante o Real Madrid no Bernabéu, ou diante do Chelsea em Stanford Bridge, chegaremos a uma noção mais exacta da categoria do desempenho benfiquista no jogo de ontem. Com maior brilhantismo no segundo período, é certo, mas também na primeira parte, sobretudo depois de ultrapassado aquele nervosismo inicial.
O Barcelona entrou melhor, beneficiando dessa intranquilidade dos encarnados, mas a partir do quarto de hora de jogo o Benfica conseguiu libertar-se da pressão contrária, estendeu mais o jogo, e se as melhores oportunidades continuaram a ser dos catalães, a verdade é que se entrou numa toada de parada e resposta, com o Benfica a aproximar-se frequentemente da área adversária, conseguindo ainda na primeira parte um número bem razoável de remates, mormente de meia distância, alguns deles com perigo (recordo-me, pelo menos, de remates de Simão, Geovanni, Beto, Petit e Manuel Fernandes).
Estrategicamente, afigurou-se-me correcto Koeman optar por jogar com a equipa bastante encolhida no terreno, não deixando espaços entre a linha defensiva e Moretto, procurando chamar a si os catalães para tentar aproveitar as suas costas em contra ataque.
Na segunda parte, com a entrada de Miccoli para o lugar do pouco produtivo Robert, o Benfica foi capaz de equilibrar definitivamente a partida, chegando a dominá-la em vários momentos. Aproveitando a frescura do italiano, Koeman jogou aí as chances de poder vencer, surpreendendo o adversário em contra-ataque, ou num eventual lance de bola parada.
O Barcelona foi tentando, com a mobilidade e troca de posições dos seus dianteiros, remeter o jogo para a zona defensiva encarnada, mas o bom desempenho defensivo do Benfica, e a capacidade de transição rápida para o ataque acabaram por pôr em sentido o colosso catalão. Através de Geovanni primeiro e Simão depois, o Benfica acabou então por construir claras situações de golo, que a acontecer, diga-se, não seria de todo justo para a equipa espanhola.
A vinte minutos do fim, o quase anónimo árbitro inglês que a UEFA nomeou para este jogo, não viu, ou não quis assinalar, uma clara grande penalidade cometida por Thiago Motta, que cortou com a mão um cruzamento de Simão Sabrosa. Podia ter estado aqui o momento do jogo, pois se o Benfica aí marcasse, dificilmente deixaria fugir a vitória, e estaria agora numa posição muitíssimo mais favorável para poder resistir ao vulcão de Nou Camp.
Ainda assim parece-me que as possibilidades de o Benfica passar esta eliminatória estão hoje exactamente no mesmo ponto que estavam ontem, antes do jogo da primeira mão. Eram poucas, e continuam a sê-lo. Qualquer empate serve (foi alcançado o primeiro objectivo que era não sofrer golos), o que obrigará o Barcelona a assumir o jogo e a ter de consentir alguns espaços atrás das costas da sua linha mais recuada.
Eram dois jogos, agora será somente um. Noventa minutos apenas. Noventa minutos para o sonho. É possível surpreender. Força campeões !