PRESIDENTES, PARA QUE VOS QUERO

Faço aqui um desafio aos leitores: dizerem, sem pesquisar, quem era o presidente do Benfica quando o clube foi campeão europeu, em 1961 e 1962. Não sabem? Pois eu também tenho de ir ver, até porque foram dois diferentes. José Águas, José Augusto ou Eusébio, esses sim, todo o mundo (o mundo mesmo) sabe quem foram.
Sim, votei em Rui Costa, mas na verdade não me interessa assim tanto quem é o presidente do Benfica. Acho que uma certa facção do clube entrou, há uns anos (talvez na era que historicamente poderia ser apelidada de veirismo tardio) numa deriva delirante, que hiperboliza a presidência, quando toda a história do Benfica, e de qualquer clube de futebol, foi escrita pelos jogadores e pelos treinadores. Não foi o Benfica que mudou. Foram sim, alguns dos seus adeptos, sobretudo os mais jovens, criados num determinado caldo cultural do qual já aqui falei noutras ocasiões e talvez volte a falar no futuro.
Para mim, Rui Costa foi um extraordinário jogador. E é esse o seu principal papel na história do Benfica. Agora ocupa cincunstancialmente a presidência, mas isso é uma questão meramente institucional, burocrática, lateral, sem relevo para a minha paixão clubista. Talvez por isso mesmo, não vi motivos para mudar nas eleicções de Outubro.
Diz o povo que "quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". Ora o Benfica não tem ganhado tantos campeonatos como seria desejável. Logo, neste mundo de intolerância total ao erro, de imediatismo e mediatismo elevados ao absurdo, exige-se tudo de todos, começando por cabeças. Neste caso concreto, parte-se de um pressuposto que me parece espantoso, que é o de que o Benfica não foi campeão por causa do presidente, e, mais espantoso ainda, que seria campeão com outro presidente qualquer. Independentemente dos méritos ou deméritos de Rui Costa, esse é um princípio que não me convence mesmo nada, como, de resto, não convenceu a maioria dos sócios. Não me parece difícil de compreender esse cepticismo, mas há muita gente que, mesmo explicando bem, não o compreende.
É claro que houve, na História, casos limite em que era imprescindível mudar. Lembro-me de um: Vale e Azevedo, então apoiado por muitos que agora se afirmam "exigentes". Tratou-se de um caso de polícia, de um charlatão que enganou meio mundo e queria tornar-se dono do clube. De resto houve presidentes melhores, presidentes piores, mas acredito que todos tentaram contribuir para o bem do clube. E não tenho dúvidas que todos cometeram erros, em alguns casos bem mais graves que os do último mandato presidencial. Quer em tempos mais recentes, quer num passado em que não eram, sequer, discutidos, senão por três ou quatro reformados que passavam o dia à porta do estádio.
Vivemos numa era em que um escrutínio elevado a infinitos, que parte do cancro que são as redes sociais (ainda não totalmente assimilado por uma sociedade genericamente iletrada), que se estende ao país e ao mundo, e transforma toda a gente que toma decisões, primeiro em incompetentes, depois em vigaristas. O que se tem passado na política, quer nas duas anteriores legislaturas (ou nos dois últimos governos, por sinal de cores diferentes), quer nas presidenciais, é elucidativo: todos são corruptos, todos são criminosos, menos um. Não dou para esse peditório, e bastaria aplicar um décimo do escrutínio a quem tem sido sujeito Rui Costa a outros tempos e a outros nomes, para rapidamente pendurarmos pescoços ou até exumarmos cadáveres.
A perfeição não existe, muito menos em quem tem de tomar decisões em cenários de grande incerteza. É muito fácil apontar o dedo depois, como se aquele lapso, aquele equívoco, fossem óbvios à partida. Depois, por vezes são. Aliás, quase sempre o são. Mas não no momento em que a decisão é tomada - e esse exercício mental não é fácil de fazer.
Obrigam-me constantemente a falar de Rui Costa, a falar de presidentes ou de candidatos. Às vezes, a quem não saiba e chegue aqui às escuras, até parece que fui o único sócio a votar no "Maestro". As eleicções deram uma audiência a este espaço que havia anos não se verificava. A polarização que, estranhamente, continua mais de dois meses depois da segunda volta, é, ao que parece, o factor mais saliente nas discussões online sobre o Benfica. Quando o Benfica ganha jogos, os números descem. Curiosamente, ao contrário das conversas em pessoa, que têm uma dinâmica inversamente proporcional. É estranho que seja assim, é um caso de estudo, ou um sinal dos tempos.
Enfim, quando a equipa vestida de encarnado entrar em campo amanhã, no Estádio do Dragão, não é de Rui Costa que me vou lembrar. E quando, no final dos 90, ou 120 minutos, recolher de volta aos balneários, também não. O meu benfiquismo foi assim nos anos oitenta, nos anos noventa, no que já vai deste século, e assim será até ao dia em ue me apresentar para o juizo final.

1 comentário:

O GLORIOSO BENFICA disse...

Muito bem Luís assino por baixo. Preparar é paral seres enxovalhado