05/12/17

COMO SE FOSSEM FACTOS

Não sou velho, mas ainda me lembro de saudosos tempos em que os protagonistas do futebol eram os jogadores e os treinadores. No desporto que me foi apresentado em criança, e pelo qual me apaixonei, julgo que não existiam directores de comunicação. Pelo menos não dei por eles, nem senti a falta.
O mundo mudou, e reconheço que a função se tornou necessária. Em entidades de grande dimensão, a harmonização do discurso institucional carece hoje de especialistas que ajudem a passar a mensagem sem ruídos ou equívocos interpretativos.
É absurdo, porém, que sejam eles a substituir-se aos grandes protagonistas, e a transformar-se em figuras em torno das quais aquilo que se passa no terreno de jogo quase pareça assunto menor.
Não será difícil identificar exemplos disto mesmo no futebol português, como também é fácil perceber as consequências nefastas que tal inevitavelmente traz, ou já trouxe, a uma indústria que precisa de tudo menos de chicos-espertos a debitar parvoíces como se fossem factos, lançando lama sobre êxitos alheios com o intuito de esconder fracassos próprios - como se não tivéssemos visto os jogos, ou como se os títulos tivessem sido atribuídos por mail, ou por edital afixado na Rua da Constituição.
Infelizmente, a culpa não é só deles. Toda uma comunicação social decrépita e em busca desesperada de uma polémica diária que, à custa de sangue, lhe sustente a audiência, tem de ser responsabilizada na mesma medida.
Inacreditável a polémica gerada em torno da arbitragem do clássico, que com um ou outro erro, foi perfeitamente normal. Mas...a normalidade é um luxo que já não é permitido no futebol português de hoje em dia. O ódio é tanto, que não o permite. Sempre que o Benfica conseguir um resultado positivo, sabemos com o que contar. Sempre que for campeão, irão inventar algo para desviar as atenções  e dar argumentação aos mais fanatizados nas discussões de café. Assim foi em 2005 (Estoril), em 2010 (Túnel), em 2014 (Colinho), em 2015 (Já nem me lembro o quê), em 2016 (Vouchers), em 2017 (Salazar). Assim será em 2018 (Mails) ou em qualquer ano futuro em que o Benfica vier a ser Campeão ou a conquistar algo importante. A conclusão está sempre tomada à partida ("foi beneficiado"). Resta construir uma narrativa que possa criar os sound-bytes necessários para fazer o seu caminho nos media.
Já não há limites. Ou por outra, o limite será o choque frontal contra a parede, em direcção à qual o nosso futebol parece estar a caminhar.
Por mim, ainda vou gostando do jogo. Mas, à semelhança de uma crescente maioria silenciosa, acho cada vez mais nauseabundo tudo o que é dito e escrito em seu redor. 
O que nos vai valendo é que eles não metem bolas nas balizas. E por muito que lhes custe, cá nos mantemos firmes, na luta pelo Penta.
Vamos ler de novo: P-E-N-T-A!