30/06/11

MENTALIDADE GANHADORA

"Na sequência dos textos das últimas semanas, que têm procurado identificar aspectos a melhorar no futebol do Benfica, fala-se hoje aqui de força mental, combatividade e agressividade competitiva - elementos que, afinal, definem uma verdadeira mentalidade de campeão.

Entenda-se por força mental, a aptidão para extrair todo o potencial de competências inerentes ao indivíduo ou ao grupo, independentemente dos contextos exteriores. Numa equipa de futebol, isto traduz-se na capacidade de jogar constantemente ao máximo que o potencial técnico-táctico dos jogadores permita, sem quebras causadas por factores anímicos, sem excessos de confiança nem medos, sem permeabilidade a qualquer tipo de pressão exógena, e com a saudável agressividade que se exige em todos (mesmo todos) os momentos de competição. Simplificando, trata-se de tornar cada jogo numa final, e cada momento desse jogo no momento de decisão dessa final, sejam quais forem as circunstâncias que o rodeiem.

Sei que a comparação não é simpática, mas se olharmos para o FC Porto, constatamos uma particular habilidade em lidar com todo o tipo de pressões e condicionalismos, quer os positivos (enfatizando-os e explorando-os ao máximo, nunca permitindo que resvalem para a sobranceria), quer os negativos (eliminando-os, ou revertendo-os a seu favor). O que daí resulta é uma equipa confiante, motivada e agressiva, capaz de render a top em qualquer campo, e em qualquer situação, durante um ano inteiro. Imagino que não seja tarefa fácil implementar tão forte mentalidade. Mas que ela significa meio caminho andado para a obtenção de títulos, não restarão muitas dúvidas.

No caso do nosso rival, o contexto geográfico e cultural ajuda bastante. Trata-se de um clube fundado sob uma bandeira regionalista, e que tem alimentado uma cultura de conflito, e de trincheira, que contribui para o manter em constante vigília. É dessa fonte que bebe o fanatismo dos seus adeptos, que, confundindo e misturando – deliberadamente -, o FC Porto com a (sua) cidade, e com a (sua) região, sentem derrotas e vitórias num plano diferente ao da mera paixão clubista, e reagem em consonância. Isso é habilmente transportado para o interior do grupo (com lavagens cerebrais intensivas, como contam antigos jogadores), e reflecte-se num balneário ferreamente determinado em vencer (e, particularmente, em vencer-nos), onde a disciplina e o recato não deixam de desempenhar um papel vital.

Transpor uma cultura deste tipo para o Benfica é bastante mais difícil. Somos um clube universalista e cosmopolita, nascemos e vivemos numa cidade que também o é, e o conflito não está no âmago da nossa matriz identitária. Os adeptos do Benfica não têm qualquer familiaridade política, cultural, regional ou religiosa a ligá-los entre si, olham para o futebol com paixão, mas sem rancores nem complexos paralelos, o que também lhes retira militância, realidade que escorre para a estrutura e para a equipa. Há pois que encontrar mecanismos capazes de dotar o nosso clube de equivalente vitamina motivacional, e aqui, creio que o próprio adversário, as suas vitórias, e a sua arrogância, podem ser um elemento a explorar melhor.

Por outro lado, é também necessário fomentar uma relação de grande cumplicidade entre jogadores e clube, cultivando exigências, mas também afectos. Por muito genial que seja a gestão, por criteriosas que sejam as escolhas, por melhores condições materiais de trabalho que existam, são os jogadores, dentro do campo, que transportam a mística, que marcam os golos, que obtêm os resultados, que nos dão as alegrias e tristezas, e que, em suma, determinam o sucesso ou o insucesso do clube.

Sendo o futebol uma espécie de representação da guerra - embora sem vítimas -, uma equipa forte terá de se assemelhar a um exército militar, onde a disciplina e o rigor não podem permitir hiatos, cedências ou excepções. O clube tem de estar acima de tudo e de todos, e a exigência tem de ser total e quotidiana. A pressão de trabalhar nos limites deve vir, contudo, acompanhada de uma cuidada protecção contra factores, externos ou internos, que possam de alguma forma tornar-se perturbadores. Jogadores infelizes, preocupados ou ansiosos, não poderão nunca explorar o seu potencial máximo, e é ao clube que cabe protegê-los.

Só com uma simbiose perfeita entre clube e profissionais ao seu serviço, só criando uma cultura de clã, que abra espaço a um forte sentimento de exigência individual e colectiva, e seja capaz de fazer concentrar todas as energias no combate aos adversários, poderemos ver os jogadores do Benfica a superarem-se, a comerem a relva (se necessário for), e a imporem a sua capacidade em qualquer relvado, em qualquer competição, em qualquer jogo, e em qualquer momento de cada jogo. Só deste modo será possível caminhar para um espírito de conquista que leve os nossos jogadores a alcançar ainda mais vitórias e títulos do que aquelas que o seu talento permita, construindo a sua e a nossa felicidade."
LF no Jornal "O Benfica" de 17/06/2011

1 Comments:

Anonymous Peter said...

Excelente analise sociologica LF parabens.Mas como muitas vezes tenho feito, vou ter que meter o dedo na ferida.Motivos para espicaçar os jogadores do Benfica, treinadores e dirigentes e o que nao falta nestes ultimos 30 anos.A corrupçao da arbitragem, as decisoes judiciais (que revelam mais uma vez a corrupçao enorme que existe no nosso pais), a violencia que jogadores do Benfica,dirigentes e adeptos tem sido alvo sao mais que motivos para fortalecer grupos de trabalho com unico objectivo vencer e esmagar no bom sentido o rival.A questao que se levanta aqui e mas esse trabalho de reagrupamento de tropas com esse objectivo e feito? E que sinceramente dentro de campo da toda a sensaçao que os jogadores nao sao embuidos desse espirito guerreiro, os treinadores e dirigentes do Benfica cada declaraçao provocatoria que o pinto faz ou seja cada vez que ele abre a boca, devia ser afixada no balneario.Os jogadores quando chegam ao Benfica deviam alem de aprender portugues (os que nao falam a lingua) deviam levar um curso intensivo sobre a historia do Benfica e sobre o que se tem passado no futebol portugues, e ate poderiam ter duvidas dos factos que lhes sao transmitidos mas bastava irem jogar o fcp-Benfica que veriam que tudo o que lhes foi transmitido era verdade.O problema caro LF e que os actuais dirigentes do Benfica nao fazem este trabalho sabe porque?Aburguesaram-se, nao sentam estas coisas como os adeptos, e sabe porque e o Benfica vencia nos anos 60 e 70 porque os dirigentes endinheirados ou nao porque havia muitos dirigentes que eram do povo sentiam o que faziam por isso e davam tudo e o Benfica vencia.Quando o nosso actual presidente fala dos dirigentes do Benfica e das suas estruturas profissionais, eu fico sempre na duvida, porque profissionais ha muitos, agora e preciso e que sejam profissionais mas tb Benfiquistas obstinados.E toda a gente sabe que o Benfica tem nas suas estruturas gente que nao e Benfiquista, eu ate acredito que sejam pessoas idoneas e que dao o seu maximo em prol do Benfica, mas quer queiramos ou nao nunca sentem como nos sentimos, e ha 1 ditado portugues que se enquadra muito bem aqui, "...quem nao sente nao e filho de boa gente...".

30.6.11  

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