COM TODA A NATURALIDADE

Depois de um Europeu e de um Mundial em que, com a Grécia e com a Itália, a lógica do calculismo havia triunfado, a Espanha de Luís Aragonês resgatou ontem o futebol, devolvendo-o ao espectáculo, à beleza, à audácia, ao arrojo ofensivo e à alegria da posse de bola, dos passes de ruptura e da busca constante da baliza adversária.
É claro que tudo isto não se faz, hoje em dia, colocando cinco avançados em campo, nem desprezando o capítulo defensivo. Faz-se com um bloco compacto, onde todos atacam e todos defendem, onde as estrelas – e na selecção espanhola é o que não falta – se integram numa filosofia colectiva comum, fazendo sobressair justamente o que foi esta Espanha, e aquilo que naturalmente ganha jogos e títulos: uma grande equipa!
Uma Alemanha pragmática, pouco imaginativa, minimalista e espartana não teve hipóteses de êxito perante tão grande adversário, e apesar do resultado tangencial nunca se vislumbrou a possibilidade de o vencedor poder vir a ser outro. A Espanha foi a melhor selecção do Europeu, e o título assenta-lhe como uma luva, quer pelo que fez ontem – foi de uma superioridade óbvia -, quer pelo que fez nos restantes cinco jogos.
Com um dos melhores guarda-redes do mundo na baliza, a equipa do país vizinho contou em todo o torneio com um super-lateral direito (que jogador !), com uma dupla de centrais sólida e equilibrada (a generosidade de Puyol ligou muito bem com a sobriedade do ex-benfiquista Marchena), um lateral esquerdo seguro, um meio-campo fabuloso com quatro unidades em altíssima voltagem (Senna, Iniesta, Xavi e Silva foram quatro dos melhores jogadores de todo o campeonato), e uma dupla de ataque constituída pelo melhor marcador da prova (ontem ausente por lesão) e por aquele que é quanto a mim, repito, o melhor ponta-de-lança da actualidade, e que ontem resolveu a final. Ainda sobram Fabregas, Xabi Alonso, Guiza, Cazorla, e recorde-se que Raul ficou em Madrid.
Além da vitória espanhola, pode-se dizer em termos gerais que este foi um Europeu bastante bom. Equipas como a Holanda, a Rússia, a Turquia, a Croácia e, porque não dizê-lo, Portugal, deixaram um perfume de bom futebol espalhado pelos relvados da Suiça e da Áustria. Houve espectáculo do princípio ao fim, houve excelentes golos, emoção, revelações, surpresas e um campeão justo. Até as arbitragens ajudaram, pois embora com um erro aqui e outro ali, não influenciaram o curso natural dos acontecimentos.

4 comentários:

Peter disse...

Concordo com a maior parte das observações que faz mas quanto ás arbitragens discordo.Os alemães beneficiaram e muito delas e até ontem aqui e ali em caso de dúvida era sempre para o seu lado.O problema é que o domínio espanhol foi tão evidente que não permitiu ao árbitro ter muitas dúvidas.Portugal,a Turquia e a Rússia foram claramente prejudicados.Os critérios foram tudo menos uniformes.Recordo que o schweinsteigger é expulso com 1 vermelho directo e apanha só 1 jogo e o Demirel apanha 2. A Turquia e a Rússia chegam claramente ás meias finais enfraquecidas com jogadores castigados.No Rússia-Holanda cada falta de 1 jogador russo era motivo para amarelo e em idênticas circunstâncias aos jogadores holandeses nada acontecia.Tendo em conta o massacre e banho de bola que a Holanda levou é estranho que a equipa que teve muito mais posse de bola seja muito mais amarelada.
Foram sim arbiragens dissimuladas mas não deixam de ser claramente tendenciosas.Aliás na minha opinião as arbitragens estão cada vez pior.

LF disse...

Sinceramente não vi o panorama assim tão negro.
Lembro-me dos últimos mundiais (sobretudo o de 2002), e vejo que as coisas estiveram francamente melhor.
Erros haverá sempre. Equipas prejudicadas e beneficiadas, consequentemente, também. Mas vi algumas excelentes arbitragens neste Europeu. E assim de repente não me recordo de nenhum resultado directamente adulterado pelos árbitros.
Os melhores foram vencendo.
Mas, volto a dizer, em arbitragem a perfeição não existe.

José Sousa disse...

A nossa selecção, com mais humildade e mais atitude, poderia e deveria ter ido mais longe...mas os nossos jogadores estiveram mais preocupados com os brincos, com as tatuagens e com os cortes do cabelo.
É falta de profissionalismo e muito novo-riquismo incontrolado, por falta de formação ética de base.
Deixem de os endeusar que, quando "regressarem à Terra" darão melhor conta do recado.

Bruno Oliveira disse...

Também concordo com maior parte do post, mas, tal como o peter, discordo das arbitragens... E só porque em anteriores competições as arbitragens foram piores não podemos considerar estas boas... Antes pelo contrário... Começando por analisar os jogos da nossa selecção, lembrem-se do jogo com a Suíça, onde o "sr." Konrad Plautz fez uma das arbitragens mais medíocres que já vi, senão mesmo a pior... Contra a Alemanha voltámos a ser claramente prejudicados, começando num penalty por assinalar sobre o Nuno Gomes e acabando no lance do 3o golo germânico, entre outros lances...
Infelizmente não foi só a nossa selecção a ser prejudicada. Também a Rússia, a Turquia (por exemplo) o foram. O lf tem razão ao dizer que haverá sempre erros. Pena é que sejam sempre tão tendenciosos para os mesmos lados...