21/02/07

UM DIA NÃO SÃO (LARGOS) DIAS

O que amamos mais, o clube ou a pátria ? Serão os respectivos factores de identidade semelhantes ? Será moralmente lícito regozijarmo-nos com derrotas de rivais mesmo se compatriotas ?
Sempre que estamos perante importantes jornadas europeias de futebol todas estas questões me assaltam o espírito. Hoje estamos naturalmente perante uma dessas ocasiões, pois o F.C.Porto-Chelsea desta noite é sem dúvida um excelente elemento de análise, até porque do outro lado estarão igualmente, entre jogadores e técnicos, vários portugueses.
Se verificarmos o que se passa na maioria dos países da Europa onde o futebol se vive com idêntica paixão à que desperta por cá, é absolutamente natural ver adeptos de clubes a torcerem pelas derrotas dos seus rivais internos. Em Itália e Espanha há muito que assim é, e neste aspecto talvez apenas França e Alemanha possam revelar tendências ligeiramente diferentes, isto se nos cingirmos a países que dispõem de campeonatos de primeira linha. É absolutamente impensável ver um adepto “culé” a festejar uma vitória internacional dos “merengues” ou vice-versa, assim como se o Milan conquistar um título internacional os seus rivais do Inter serão os que certamente menos felizes se sentirão. Tive oportunidade de trocar impressões com adeptos do Celtic, aquando do jogo com o Benfica, e fiquei sem sombra de dúvida que sempre que o Rangers entre em campo, eles estarão do lado do adversário.
Sendo isto um fenómeno absolutamente natural em tantos países cultural e civilizacionalmente de robustez indesmentível, acaba por ser estranho que nestes casos em Portugal, país latino por excelência, se adopte invariavelmente um politicamente correcto patriotismo que acabando por se traduzir por vezes numa espécie de hipocrisia oficial da nação, não deixa de ocupar todo o espaço discursivo institucional e segregar aqueles que ousadamente o desprezam.
Um dos motivos para que isso suceda será seguramente a solidez etno-política da nossa antiga nacionalidade, que se comparada, por exemplo, com os nossos vizinhos espanhóis fará perceber algumas diferenças de, diria, atitude patriótica. Outra poderá ser a pequena dimensão do país e a sua frequente busca de afirmação junto das potências que habitam o mesmo espaço geográfico, designadamente a União Europeia. Mas de que vale tudo isto quando se fala de futebol e de paixão clubista ?
Parece-me líquido que o código genético da natureza humana a empurra para a afirmação de identidades de tendência preferencialmente mais restrita. Isto é, entre um fenómeno identitário de carácter nacional – o patriotismo – e um sub fenómeno mais limitado – o clubismo – tendencialmente será este a prevalecer, tal como entre o clubismo nacional e o local o segundo será, na maioria dos casos, privilegiado. Assim sendo, por muito que a retórica oficial aponte noutro sentido, parece ser humanamente legítimo e expectável que o clube seja mais sentido que a pátria, e consequentemente os seus efeitos marginais – como as rivalidades – se sobreponham ao mais magnânime sentimento nacional. O mesmo acontece de resto a outra escala se compararmos cidadania nacional e cidadania europeia – tomando em consideração o processo, agora um tanto arrefecido em virtude da não aprovação do tratado constitucional, de desnacionalização e regionalização da Europa comunitária.
Quer isto dizer que eu deseje uma derrota do F.C.Porto na partida desta noite? Não necessariamente.
Com efeito, desde há alguns anos surgiram elementos novos que interferem claramente nesta questão e têm uma força racional inegável. Se por um lado os rankings de pontuações assumiram uma importância crucial desde que os actuais modelos competitivos da Uefa foram implementados, por outro, a maior sobrecarga de jogos derivada desses mesmos modelos fez com que uma campanha europeia bem sucedida envolva inevitavelmente um desgaste físico e anímico capaz de se reflectir de forma decisiva nas provas nacionais. No cruzamento destes dois aspectos se poderão e deverão situar razões objectivas para um qualquer adepto de um qualquer clube Europeu se solidarizar com os bons resultados europeus dos rivais.

Posto isto restar-me-á, por uma questão de frontalidade, manifestar a minha posição pessoal face ao jogo de hoje.
Longe vão os tempos em que saltei do sofá com o calcanhar de Madjer em Viena. Os comportamentos de constante arrogância e cinismo de Pinto da Costa, e algumas manifestações, que não esqueço, na baixa portuense aquando de derrotas europeias do Benfica, foram-me tornando cada vez mais alheio à sorte internacional dos Dragões – ao contrário do que sucedia sempre que jogavam Boavista, Braga ou Sporting. Foi assim que vivi as epopeias portistas de 2003 e 2004, com distanciamento. Sem mágoa nem entusiasmo. Com uma pontinha de inveja, confesso. E vendo bem, representação nacional no futebol é tão só a Selecção, pois os clubes representam-se apenas a si mesmos.
Mas os pontos valem ouro, e valem, quem sabe, a presença de amanhã na Champions, a melhoria do ranking para os sorteios – e falo (também ou sobretudo) do Benfica. A par disso, e numa altura em que se disputa palmo a palmo a Liga Portuguesa, é de todo inconveniente para os encarnados que o F.C.Porto possa centrar todas as suas atenções na prova nacional, sobretudo se o Benfica, como espero, não o poder fazer. Como os ingleses também têm os seus “ses”, encontro assim os motivos suficientes para desejar uma vitória portista no jogo de hoje, sem necessitar de grandes exercícios de contorcionismo afectivo.
Deste modo, esquecendo o Apito Dourado, esquecendo Pinto da Costa, e sem ponta de hipocrisia, seguem em nome de VEDETA DA BOLA, votos da melhor sorte possível para a eliminatória com o Chelsea.
Por hoje, e só hoje, BIBA Ó PORTO !!

1 Comments:

Anonymous Eusebio said...

Força Chelsea !

22.2.07  

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