22/09/06

GOLPE DE ESTÁDIO (3)

O «Jumbo» da «Lufthansa» voava a uma velocidade de cruzeiro próxima dos 900 km/h e tinha vento pela popa. Lá em baixo, a extensa pradaria do Texas anunciava já o final da viagem, algures no México, numa cidade chamada Saltillo, que seria onde a selecção iria estagiar durante três semanas para os jogos da fase final do Campeonato do Mundo. Espreitando pela escotilha da cauda, enquanto mexia com os dedos os cubos de gelo do copo de whisky, Joaquim Oliveira sonhava com uma nova vida. Para trás queria que ficassem os meses de muito trabalho, convencendo os patrões do futebol de que seria lucrativo explorar a publicidade estática dos estádios. Tanto labutou que conseguiu convencer alguns, bem como os responsáveis pela selecção nacional. Aliás, este até foi o seu trabalho mais fácil, pois na Federação mandavam todos e não mandava ninguém. O presidente (Silva Resende) até era uma figura com vocação eclesiástica. No jacto, os jogadores partiam para mais uma rodada de «sueca» e o seleccionador(Torres) tentava dormir um pouco. Os jornalistas aproveitavam para pôr as leituras em dia, e meia dúzia de viajantes tentava perceber o que se passava, de facto, no interior do avião. Simplificando as coisas, era apenas mais uma equipa de futebol em viagem pelo mundo. Esta tinha a singularidade de ser a equipa portuguesa. Apenas mais uma equipa. A chegada a Saltillo, após uma escala na capital mexicana, foi de arrepiar. Naquele mundo novo de comancheros, um exército esperava a equipa. Homens de metralhadora vigiavam o hotel da selecção, colocados em posições estratégicas, bem no centro de um inóspito planalto. -Vai ser pior que Alcatraz!- vaticinou o «capitão» de equipa(Bento), que ainda estava longe de pensar o quanto estava iludido. O hotel chamava-se «La Torre» e constava de uma grande torre onde se alojava a recepção e o restaurante, rodeada por duas filas de apartamentos ao estilo duplex, que foi onde ficaram os nossos jogadores e os jornalistas, cada grupo no seu bloco. O dono do hotel era um mexicano branco e gordo, que desde logo apresentou a sua ainda mais anafada esposa, ainda jovem, portanto, «com hipóteses de ser comestível lá para o fim da segunda semana», como logo alguém referiu. Faltavam mais de três semanas para o início da competição. Havia que iniciar a adaptação à altitude das cidades onde os jogos iam decorrer. No fim da pradaria, junto à encosta de um monte, um complexo desportivo novinho em folha estava à disposição da equipa portuguesa. O relvado é que deixava um pouco a desejar. Enrolado num sarape, em pose para o único repórter-fotográfico da comitiva, o seleccionador mais parecia um guardador de rebanhos da pradaria do Norte do México, não fosse andar por ali um tal de Joaquim Oliveira a comandar um grupo de trabalhadores locais. De martelo em punho, ele dava o exemplo, pregando os primeiros painéis à volta do campo de treinos e berrando constantemente com os seus contratados, todos eles muito próximo da indigência. -Foda-se para os Mexicanos. Parecem alentejanos! Os dias passaram depressa, primeiro. Havia que mostrar trabalho, uma equipa de futebol só tem 11 lugares. Mas logo o tédio foi tomando de assalto os jogadores. E foi assim que estes se lembraram que continuavam por negociar os prémios de participação e as respectivas comparticipações nas receitas publicitárias angariadas. Como o presidente continuava em Lisboa, falaram com o vice e com o treinador. Mas a resposta tardou, os dias começaram a passar mais devagar e um dia a revolta aconteceu. Ou melhor, uma noite. Depois do jantar - mais uma vez servido pelo diligente Evaristo, cozinheiro famoso que tinha vindo de Portugal com a equipa -, os craques fecharam-se na sala do restaurante e decidiram...fazer greve. O 25 de Abril já tinha sido á 11 anos, o País vivia ainda os resquícios de PREC, mas, curiosamente, não aceitou muito bem a decisão dos jogadores, anunciada no dia seguinte, na penthouse do hotel, tendo como fundo a imensa paisagem da pradaria mexicana e a pequena cidade de Saltillo. Os telexes crepitaram, os telefones ficaram impedidos, mas a notícia chegou depressa à nação - os craques queriam dinheiro, caso contrário... Joaquim Oliveira pensou que estava tudo perdido. -Logo agora, que acabei que colocar o último painel! - desabafava para o seu irmão António, que também se tinha integrado na comitiva. Este, conhecedor de muitas marés e das manhas dos craques, desvalorizou a questão. -Calma, Joaquim, isto ainda vai ao sítio - e dito isto reparou numa miúda que saía de um jeep. -Esta, garanto-vos que nem vai entrar aqui! - disse para um jornalista. Dito e feito. António trocou duas palavras com a miúda à entrada do hotel e seguiu com ela para o quarto. -Este é craque em tudo - comentou o «mascote» da selecção, um velhinho fotógrafo de Albergaria que todos tratavam por «Admirável». Aliás, «Admirável» viria a revelar-se como uma peça fundamental nas negociações dos jogadores com os responsáveis da selecção, montando também guarda quando os craques se fechavam nos seus muitos plenários. Estava Portugal inteiro suspenso do desfecho desta novela quando o presidente da Federação finalmente chegou. Mas a primeira coisas que fez foi ir à missa, o que deixou alguns jogadores desconfiados, pois pensaram que estava tudo descoberto e que o homem fora pedir perdão pelos muitos pecados cometidos no hotel «La Torre» desde que ali tinham chegado os portugueses. É que aquela história da segurança era tudo balela. Os próprios seguranças eram os primeiros a promover uma certa libertinagem, oferecendo todo o tipo de chicas pela módica quantia de dez dólares. Mas não eram muito bons a organizar, pois não raras vezes as chicas iam bater à porta dos jornalistas, e deles chegaram a aproveitar as ofertas... No Hotel «La Torre», como se comentava mais tarde, «até as carochinhas e os esquilos marchavam». Após duas semanas de estágio, o pessoal feminino da limpeza já conhecia, por exemplo, todas as pregas da barriga do Evaristo, que um dia de tão entusiasmado, até se esqueceu de queimar o leite creme, o que ia originando outra revolta. As miúdas apareciam de todos os lados e convites não faltavam. Por exemplo, numa das noites de folga, alguns dos craques puderam mesmo viajar alguns quilómetros até a um rancho, onde se realizou um barbecue que ficou conhecido apenas pela antepenúltima e penúltima letras. Joaquim Oliveira não via a hora de tudo aquilo se resolver, mas o seu desespero ainda estava longe de ter atingido o clímax. Que aconteceu depois da célebre noite em que o presidente da Federação brindou um grupo de jornalistas portugueses e brasileiros com uma sessão de anedotas picantes. Curiosamente, no dia seguinte estava praticamente tudo resolvido e para quase todos, menos para Joaquim Oliveira. Nessa noite, um pé-de-vento passou pelo campo de treinos e varreu os painéis publicitários ali colocados com tanto suor e empenho. -Que mais me irá acontecer? - chorava Joaquim Oliveira, longe de imaginar que aquela tempestade era o início de uma carreira fulminante de empresário desportivo. Depois da tempestade, veio a bonança. também podia ter vindo o Bonanza, que a paisagem era a ideal e não faltavam ali pistoleiros. Os jogadores acalmaram-se com a proximidade da competição, e um jornalista do «Libération», de rabinho de cavalo e caneta em punho, ficou profundamente desolado quando encontrou a equipa portuguesa a trabalhar no duro, embora sem resistir a umas tantas, e inevitáveis, escapadelas nocturnas. O defesa esquerdo, entretanto, apaixonou-se pela mulher do dono do hotel, sendo visto a namorar num banco de jardim ao lado da piscina. Entre os jornalistas, a rebaldaria era também geral, com uns a tomarem o partido dos dirigentes e outros o partido dos jogadores. Até se dizia que tinha sido um jornalista o redactor dos comunicados dos jogadores, para uns claramente decalcados das folhas de combate do PCP. Esta controvérsia iria gerar, mais tarde, alguns desaguisados. E o Joaquim? A vida melhorava para o Joaquim. Acalmados os ventos e caladas as iras, finalmente a sua publicidade era vista em Portugal. O Joaquim podia, enfim, ir à discoteca do outro lado da rua. Talvez o seu irmão lhe apresentasse uma miúda. Miúdas... Para um jogador muito especial, elas eram quase tudo. Futre, vedeta em ascensão, gostava muito delas mas também queria um lugar na equipa, fazendo tudo para o conseguir, ao ponto de em plena recepção do hotel levar o seleccionador ao desespero. -Tenho de jogar, e ponto final - dizia do alto dos seus 19 anos. Como se não obtivesse certeza do facto, dedicava-se a outras actividades, ficando célebre uma longa espera da equipa. -Onde andará o Futre? - perguntavam, até que alguém topou a sua cabeleira. Nas traseiras de uma pick-up de portas abertas, Futre era surpreendido na fase terminal da jogada ofensiva a que todos chamavam «chupa-chupa». A miúda não gostou muito da interrupção, e o Futre voltou a amuar. -Ou isto, ou a titularidade! - ameaçou, mas já ninguém se importou com isso, especialmente depois de ter sido confirmada a notícia de que um português ali residente tinha sido apanhado a dormir com dois cameramen brasileiros... Chegou o dia «D». Do outro lado, os ingleses eram claramente os favoritos. Do nosso lado, já ninguém sabia o que estava a valer, pois o melhor que se tinha arranjado como aferidor da forma da selecção tinha sido uma equipa de cozinheiros e estucadores. Girou a bola e a equipa portuguesa conseguiu marcar um golo, que foi quanto bastou para a vitória. Foi a festa. Embora ainda faltassem dois jogos para o fim do apuramento, a euforia instalouse no Hotel La Torre e no dia seguinte houve festa. Na penthouse do hotel, os movimentos revolucionários eram trocados por outro tipo de manobras ofensivas, mas estas tendo como alvo jovens entre os 16 e os 25 anos. O sobe-e-desce durou quase toda a noite, ante o olhar benevolente do seleccionador e de uns tantos jornalistas que o acompanhavam nos copos. O clima era de completa descontracção depois de uma série de dias de tensão. A vitória sobre a Inglaterra fez esquecer tudo o que estava para trás. Mas a seguir a esta vitória veio uma derrota, com a Polónia, e tudo voltou à estaca zero. Tudo se ia decidir noutra cidade, frente a uma selecção marroquina comandada por um brasileiro, que até mandou o recado de que se Portugal quisesse empatar o jogo, era capaz de se arranjar, pois o resultado também interessava à selecção que comandava. Passado o recado, um responsável da selecção reagiu com um arrogante «nem pensar, vamos é golear os gajos». No bar do hotel, pela noite dentro, o seleccionador falava assim com o seu adjunto: -Estou com fé... -Na Nossa Senhora de Fátima? Não, pá, nos rapazes. Eles não podem perder, caso contrário são chacinados no regresso. -Olha que não sei. No fundo, já fizeram bastante. Chegaram aqui, ganharam aos ingleses... -...comeram gajas em série... -E nós?... -Parvos fomos, pá! -No louco hotel de Guadalajara, os jogadores já se roíam de saudades das miúdas que tinham conhecido em Saltillo. Crê-se mesmo que essa seria a sua maior motivação para vencerem Marrocos, pois se tal acontecesse voltariam a jogar nas imediações de Saltillo. Mas Portugal perdeu e por muitos. Oh desgraça!... Joaquim Oliveira voltou a amuar, o irmão nem por isso (já estava cansado de «trabalhar as miúdas»), e até o embaixador acabou molhado da cabeça aos pés quando entrou no balneário da equipa portuguesa. Um dos craques, que tinha partido a perna depois do primeiro jogo (Bento), chorava a um canto, e o presidente mantinha-se na tribuna de honra, reunindo desde logo um grupo à volta e iniciando um discurso do tipo «eu bem dizia que estes excessos revolucionários...», o que desde logo mereceu parangonas na imprensa portuguesa do dia seguinte. Os heróis voltavam à sua condição de homens, melhor, de vermes. Por isso, o regresso a Portugal fez-se praticamente em silêncio. E as miúdas de Saltillo, inconsoláveis, fizeram rezar missas pelo menos por o envio de uma carta. Um dos jogadores disse mesmo: «Selecção, nunca mais, com esta gente». António Oliveira apreciou a atitude, recordando os tempos em que se manteve coerentemente dissidente. Ver-se-ia mais tarde que o jogador que António admirou também iria cumprir a sua promessa. Onze anos depois, o Hotel La Torre continua no mesmo sítio. Um pouco mais degradado, é verdade, com menos água na piscina, mas a paisagem continua a ser a mesma. Só a mulher do Senhor La Torre já lá não mora, pois fugiu para Tijuana com um jogador de póquer. A «operação Saltillo» tinha sido um sucesso para a Olivedesportos e mais propriamente para Joaquim Oliveira. Pinto da Costa estava atento a toda a situação e, numa altura em que queria reorganizar todos os seus negócios na área do futebol, tornava-se imperioso abarcar todas as áreas onde fosse fácil ganhar dinheiro. A Olivedesportos começou a estar no seus horizontes, mas o ódio que os parentes Oliveira lhe tinham não tornava fácil a sua aproximação. PC não podia perder tempo. Tinham estalado algumas broncas, só abafadas pelo forte poder que o clube tinha a nível regional. Foram presas pessoas por tráfico de droga cuja aproximação ao seu clube era mais que evidente. Um ex-jogador do seu clube(Mariano) foi mesmo preso à porta do estádio com uma quantidade grande de cocaína. Estabeleciam-se ligações a uma rede que estava sediada no centro do País. Os jornais começaram a falar no assunto, e alguns jornalistas tiveram emboscadas à porta de sua casa para os fazer calar, efeito que foi conseguido com muita cobertura de ordem jurídica. PC sentia-se bem apoiado, mas também sabia que não podia abusar da situação. Foram momentos de muita pressão e incerteza. Pinto da Costa funcionava um pouco como o capataz de uma grande quinta, e o excesso de confiança levou-o a acções sobre as quais acabou por perder o controlo. Os escândalos rebentavam, com alguns dos seus seguranças a exibirem armas de grande calibre. Um presidente de um clube de Lisboa(Belenenses) jurou a mesmo a pés juntos que o corpo de segurança de PC viajava com bazucas nos porta-bagagens, assunto que abriu um telejornal, deixando PC algo embaraçado. «Vá lá, que foi o telejornal do canal dois», desabafou. Pinto da Costa e o seu filho não davam um passo sem levarem consigo pelo menos dois seguranças. Este tipo de situação não agradava à maior parte das pessoas que o rodeavam, e algumas foram-se afastando. Não queriam ser conotadas com associações de criminosos, sabendo-se que a maior parte desses seguranças eram marginais com extensos cadastros. Foi o período em que Pinto da Costa assumiu com maior influência o papel de Al Capone à portuguesa, consolidando uma organização que abrangia vários sectores. Entretanto, Reinaldo Teles tinha feito seu assessor um jornalista sem o mínimo de escrúpulos e que fora colocado à pressão nesta área de actividade por um amigo, também ele escriba, mas com um cadastro de muitos anos de prisão, devido a actividades relacionadas com assaltos, vigarices e conto do vigário. Fora a política que o colocara num lugar de destaque, e ainda hoje não se sabe que tipo de registo criminal foi entregue no Sindicato para lhe activarem a carteira. O certo é que o Jorge Gomes, de apelido «Chapeiro», sem saber muito bem como, deixou a sua oficina de automóveis para de dedicar ao jornalismo - e nem sequer se tratava de uma questão de talento - aparecendo a assinar umas linhas. -Gosto muito do jornalismo, mas não sei escrever uma linha - disse o Jorge ao Proença, mas logo este lhe explicou o seu plano. -Não tens de escrever nada. Isso depois vais aprendendo. O que interessa agora é que tu entres. A agência não tem viatura própria para se fazerem os serviços, e eu compro um carrinho em segunda mão, marco muitas viagens, trazes os recados, eu escrevo-os e ganhamos o dinheiro dos quilómetros. Já sabes que como sou eu que assino as despesas, podes meter sempre umas viagens a mais, e no fim do mês fazemos um balúrdio. Este era o tipo de pessoa ideal para servir os desígnios de Reinaldo Teles, sempre pronto para um negócio marginal. O Jorge Chapeiro(Gomes), como era conhecido na praça, levava todos os recados de Reinaldo e PC para o seu órgão de informação e mais tarde teve direito a um lugar de destaque no clube, aberto pelo seu amigo Reinaldo, que começava a não ter rival à altura na estrutura directiva de Pinto da Costa, transformando-se rapidamente no número dois de toda a organização. Mas antes de se retirar das lides jornalísticas, Jorge Gomes foi autor de uma grande proeza que muito sensibilizou Pinto da Costa e o «Mister» Octávio: «chapou» nos jornais, através de uma série de takes difundidos pela sua agência, o exclusivo da expulsão de Fernando Gomes de um estágio que a equipa estava a realizar na Madeira, facto que determinou a saída do craque do clube. No momento certo, o Jorge divulgou a versão que interessava, e esse facto acabou por ser determinante na sua contratação. Reinaldo Teles, foi aos poucos, afastando todas as personagens ligadas ao clube que não pactuavam com o seu estilo de vida e muito menos com a força que ele tinha em toda a estrutura directiva. Para os substituir, Reinaldo levou para a sua direcção familiares e amigos, colocando-os em pontos estratégicos, ao mesmo tempo que Pinto da Costa fazia tudo para o promover e fazer esquecer que ao seu lado tinha um marginal, um elemento sem escrúpulos. No novo modelo de organização, nada foi esquecido. Para cobrir alguns negócios ilícitos, era necessário ter sempre à mão bons advogados. Na primeira escolha, PC não foi muito feliz. Arranjou um causídico sem grande talento para a defesa, mas sem o mínimo de escrúpulos. Era pau para toda a colher desde que sobrasse algum dinheiro para ele. Tinha lata, era descarado, falava muito e dizia pouco. Mas, para organizar o seu braço jurídico, vieram mais conselheiros cuja experiência em criminologia era muito vasta. Nada era feito ao acaso. Reinaldo Teles tratou do braço relacionado com a segurança, convidando para o efeito um seu irmão. Joaquim Pinheiro passou a gerir os capangas. Já nada funcionava como antes. Havia que se implantar uma maior segurança. Os tempos em que Pinto da Costa se reunia com os capangas à quarta-feira para ordenar quem havia de ser silenciado já tinham acabado. Assim, a casa começa a ser reconstruída e devidamente ordenada a partir das suas fundações. Já nada se fazia ao acaso e, para alimentar os lucros, a Olivedesportos tinha de passar para o seu domínio. Pinto da Costa falou disso com Reinaldo Teles. -Achas que vamos conseguir dar a volta aos Oliveiras e metermo-nos na Olivedesportos? -Eles cresceram agora um pouco, mas o volume de negócios ainda é baixo. Ó presidente, ninguém consegue fugir à tentação do dinheiro. Eles sabem que o presidente tem poder. É quem manda no futebol, e se querem ganhar dinheiro, o melhor que têm a fazer é aliarem-se a nós. Eles já verificaram que os da «mata» não dão nada a ninguém e perderam todo o poder que tinham. -Mas como é que nos vamos aproximar deles? -Deixe isso comigo. Continuo a ser amigo dos dois. O António não está a treinar nenhum clube, vou abordá-lo sobre essa situação e apalpo terreno em relação à Olivedesportos. -É isso mesmo. Trate-me disso o mais breve possível. Reinaldo Teles saiu todo emproado do gabinete do presidente e nessa mesma noite foi procurar o Oliveira, encontrando-o num pub no interior de um shopping da cidade. Reinaldo fez-se encontrado, falou de futebol e do êxito que a Olivedesportos tinha tido na operação do «Mundial» do México. -Vocês mereciam melhor sorte. Precisavam de ser ajudados por gente com poder no futebol. Isso é um grande negócio se for bem gerido. O teu irmão tem jeito para esse tipo de coisas. António, que nunca foi estúpido, olhou de soslaio Reinaldo e compreendeu logo onde ele queria chegar, mas deixou que este se aproximasse mais do assunto que o tinha levado ali. Embalado pelas palavras, Reinaldo começou a falar do negócio que PC tinha montado recentemente e dos lucros que tinha obtido. -O homem começou a ver que as agências de viagem ganhavam um balúrdio com as deslocações das equipas ao estrangeiro e resolveu montar um negócio desses por conta dele (Cosmos). Convidou um gajo que sabe da poda e aquilo é uma mina. O tipo que ele convidou era um dos dealers da maior agência da cidade e ficou famoso por vender viagens a Fátima à saída da missa das nove. Agora, quem quiser ir no avião com os jogadores e ficar no mesmo hotel, paga o dobro. Já viste quanto é que isso dá? O António mandou vir mais dois whiskys, puxou de um cigarro, ofereceu outro a Reinaldo e disse num tom desinteressado: -Ele é que estava bom para se aliar a nós na Olivedesportos. Reinaldo quase saltou do banco alto em que estava sentado, mas não denunciou a sua alegria e, alinhando no jogo de palavras, respondeu: -Bem... se quiseres, eu posso falar ao homem. -Deixa-te de merdas, paga lá estes copos e marca encontro comigo e com ele. Reinaldo desatou a rir, mas não perdeu a postura nem deu a entender que se tinha encontrado com António precisamente com aquela intenção. -És sempre a mesma merda. Ainda estou para ver quando és tu a pagar um copo. Deves ser judeu. No dia seguinte, Reinaldo contactou com António (Oliveira) e marcou encontro entre ele e Pinto da Costa num hotel da cidade. Eram cinco da tarde quando se reuniram. Pinto da Costa ia acompanhado de Reinaldo Teles, e António já lá estava sentado num maple, na companhia de um copo. PC nem sequer deu a entender que algum dia estivessem zangados. Começou a conversar com António como se tivessem recuado ao tempo em que ele era apenas chefe de departamento de futebol e o António jogador. Tudo o que se tinha passado depois, simplesmente não existia. Pinto da Costa foi o primeiro a falar: -Está sem clube neste momento? -Estou, mas também não estou preocupado com isso. -Compreendo. A vosso empresa está a dar os primeiros passo, e pelos vistos está a ir bem. Estava estabelecido o diálogo entre ambos, e Reinaldo Teles despediu-se, argumentando como desculpa que tinha umas coisas a tratar. Pinto da Costa sentou-se no maple ao lado de António e começaram a discutir o assunto que os tinha juntado novamente. -O seu irmão parece que tem lá uma rapariga a trabalhar que é um espectáculo em publicidade. Teve sorte porque não há muita gente qualificada nesse sector. -De facto, a Adélia é uma profissional impecável. Discutiram depois alguns projectos em relação à empresa, mas não avançaram muito, porque ainda havia um problema chamado Joaquim Oliveira. O irmão do António tinha um ódio visceral a Pinto da Costa e estava longe de saber daquele encontro. No entanto, PC nunca escondeu o jogo. Mostrou-se logo interessado em participar na actividade da empresa, mas de uma forma discreta. -O meu trabalho nunca poderá ser directo. A minha influência em todo o negócio será feita nos bastidores e vocês só têm de seguir à risca as minhas instruções e vão ver que não se vão dar arrepender. -Nós estamos abertos a uma negociação e vamos avançar com esse projecto, mas o meu irmão tem de ter uma parte muito activa em toda a organização. -Com isso não há problema. Marque um encontro, e nós resolvemos tudo. No dia seguinte, António telefonou para Lisboa e falou com o irmão. Marcou um encontro no Porto no mesmo hotel e à mesma hora mas não lhe falou na conversa que tinha tido com Pinto da Costa e muito menos que já se tinha encontrado com ele. António confessou mesmo a um amigo: -Se dissesse ao meu irmão que nos íamos encontrar com Pinto da Costa, tenho a certeza que ele não aparecia. O melhor é não lhe dizer nada e esperar pela sua reacção. À hora marcada, lá estavam, no mesmo hotel. Pinto da Costa e António Oliveira. O Joaquim entrou acompanhado da Adélia, olhou para o bar e viu logo o seu irmão, mas PC estava de costas e, quando se apercebeu da situação, ficou lívido de raiva, mas soube aguentar o choque. Para o seu irmão estar acompanhado de tal personagem, devia estar a acontecer algo de muito importante. Defendendo-se, cumprimentou o irmão e esperou pelo que vinha a seguir. Pinto da Costa levantou-se, cumprimentou-o e, a medo, Joaquim Oliveira lançou também a sua mão para a frente. Tentado quebrar o gelo, António disse: -Vamos sentar-nos. Adélia não sabia bem o que fazer, e Joaquim Oliveira deu-lhe instruções para fazer uns telefonemas e retirar-se do local. Ninguém sabia bem como começar a conversa, e foi novamente Pinto da Costa quem deu o toque de partida. -Então, como é que se tem dado lá pela capital? -Mais ou menos - respondeu Joaquim Oliveira, ainda receoso. António não era homem para perder muito tempo com conversa fiada e foi logo directo ao assunto: -Estive ontem reunido com o Senhor Pinto da Costa, e ele quer aliar-se a nós para ajudar a fazer crescer a Olivedesportos. Joaquim Oliveira ficou mais descansado, deixou aliviar a pressão a que tinha estado submetido, e iniciou-se o meeting negocial. No final de mais de duas horas de conversa, foram jantar, desta vez já na companhia de Adélia. No dia seguinte, estava mais um negócio em marcha. Era a fuga para a frente nos negócios do futebol, que poderia vir a salvar os milhares perdidos noutros projectos. Pinto da Costa tinha-se convencido completamente que o ramo em que melhor mexia era o futebol e não se podia distrair porque a sua posição já tinha atingido um grau tão elevado que não dava para voltar a vender fogões. Mais do que isso. Não podia perder poder, porque os inimigos já eram tantos que, no momento em que deixasse de ser presidente do clube, o mais certo era ser preso. Para além da publicidade nos estádios, a Olivedesportos tinha de se dedicar às transmissões directas dos jogos pela televisão. Este era o grande trunfo de Pinto da Costa e que foi muito bem acolhido por Joaquim Oliveira. Os clubes de futebol tinham-se unido através de uma Liga, e Pinto da Costa movia-se como ninguém nesse sector, apesar de não ter lá qualquer cargo directivo. Através dos seus jogos de bastidores, jogando com várias situações, conseguiu arranjar o primeiro negócio para a Olivedesportos. Sob as suas ordens, Joaquim Oliveira encontrou-se com personagens ligadas à televisão e com grande poder no sector. Pinto da Costa tinha-lhe garantido que a melhor situação para se atingir qualquer objectivo é o dinheiro. -Toda a gente gosta e quase ninguém resiste. Só tem de se saber como é que se vai lançar o anzol. Joaquim Oliveira nunca deixou o gosto pela noite. As grandes discotecas de Lisboa e os melhores pubs foram sempre locais que não deixou de frequentar. Através de conhecidos, surgiram algumas amigas de apurado físico que serviram de isco para as personagens ligadas à televisão. Cresceram as amizades, e as portas acabaram por ser abertas. De facto, Pinto da Costa tinha razão: era tudo uma questão de dinheiro. Joaquim Oliveira, com uns poucos milhares de contos, conseguiu fazer com que a televisão não interferisse directamente no negócio das transmissões directas. A Olivedesportos não tinha nada a ver com televisão nem meios para fazer qualquer transmissão, mas a televisão tinha de negociar com eles se queria transmitir os jogos. Claro que esta situação fez correr muita tinta, e Pinto da Costa voltou a sair um pouco chamuscado, percebendo-se que ele estava indirectamente ligado ao negócio. Mas voltou a sair por cima da situação. Para garantir a sua participação nos lucros da empresa, um dos vices da sua confiança foi feito sócio, mas acabou por abandonar essa ideia, até porque os seus projectos iam para além do primeiro negócio efectuado. Os «Oliveiras» passaram a fazer parte da sua gente de confiança, muito embora o ex-jogador e treinador se mantivesse sempre afastado de qualquer contacto ou tipo de negócio. Era inteligente de mais para se deixar envolver por situações menos claras. A sua participação surgia somente na distribuição dos lucros. Para afastar qualquer tipo de desconfiança, Pinto da Costa colocou logo em prática outro projecto. A sua participação na agência de viagens estava a ficar um pouco comprometida. Ele não podia surgir de forma alguma como um dos interessados no negócio e tudo passou a ser gerido através de uma holding encabeçada por Joaquim Oliveira. O futebol começava enfim a dar os seus lucros. Mas era necessário criar um sector de poder onde se pudesse promover a imagem das pessoas ligadas a todos estes negócios e que por razões conhecidas saíssem chamuscadas. Um jornal desportivo ou uma rádio local era o ideal. A ideia começou a avançar, mas a rádio local não deu resultado. O poder de comunicação tinha de ser nacional. Ao longo dos tempos, Pinto da Costa foi semeando a sua força na comunicação social, promovendo jornalistas ao mesmo tempo que os colocava em posições chave no interior dos jornais desportivos. Sem grande esforço, conseguiu criar o seu clã. Arranjava bons empregos, com a condição de ditar o silêncio quando melhor lhe convinha. Os escândalos rebentavam, mas tinham sempre uma dimensão muito restrita. Nem era necessário pedir censura. Os próprios jornalistas tinha a consciência de que no clube de Pinto da Costa não se podia tocar e quem não respeitasse essas regras recebia um primeiro aviso dos capangas e eram-lhe fechadas todas as portas de acesso à informação. PC conseguiu, assim, implantar a lei do medo. Uma ditadura capaz de fazer inveja a um Salazar ou a um Pinochet, indo mesmo ao ponto de «sugerir» às direcções de alguns jornais, quais os jornalistas que gostaria de ver a tratar dos assuntos do seu clube. Para ajudar, os jornais desportivos entravam também numa guerra declarada pelas audiências, o que permitiu a PC jogar sempre com o chamado pau de dois bicos, ora fazendo de conta que favorecia este, ora mudando a sua simpatia para o outro. Os directores dos jornais sabiam bem como gerir a situação. Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade(Fernando Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos, quando Pinto da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem precisar de recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a marginais e arrivistas. O jogador começou a conversa: -Este mundo é mesmo ingrato. -A quem o dizes - suspirou o jornalista. -Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Tavares Teles me vigarizou em mil contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro foi um ar que se lhe deu... -Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar? -Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas esse moço de recados, o Octávio, vai ter um bonito funeral. -Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar no bar um elemento que não conseguiu identificar. - o tipo sabe enganá-los com falinhas mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director do meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra? -Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa. - Este mundo não vale a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a pena metêlos todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por convencer os próprios santos. Bah!, que se lixem esses gajos... -Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres. Mas Fernando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e por momentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados, correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o mundo se resumia ao estádio. -Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma música do Rui Veloso que se ouvia em fundo. Fernando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de tom: -Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como aquela besta do «capitão» (João Pinto), que ia para os estágios sempre com o mesmo livro, continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais para trás. Mas corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até dizem que tenho voz radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande comentador desportivo. Ah, mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do clube, isso sim, isso iria encherme as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que só depois de o homem morrer é que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão cedo. Não sei como, mas conseguiu a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a mim é que ela não aparece... Fernando estava inconsolável: -Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro clube, logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe algum dinheirinho para o bolso e o favorito do Pedroto. Aqui Fernando teve uma ideia: -Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pedroto ao nosso estádio? A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, PC teve dela conhecimento. - Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar cravar um espinho na pata. A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais fizeram eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a PC o que pensava da ideia. PC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por ficar esquecido. -O Pedroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - Interrogou PC os botões do seu novo fato príncipe-de-Gales. Moreira(talvez Hernâni Gonçalves ou Joaquim Teixeira) foi um jogador muito discreto. O melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter aconselhado a parar, pelo menos, durante 24 horas com aquilo, sob o risco de bater a bota. Moreira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando um penalti que salvou a equipa contrária de descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo de suspeitas, pois o Moreira era mesma assim - às vezes acertava, outras não. Mas a história de Moreira pouca relevância teria na história da vida de Pinto da Costa, se o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de ser apresentado por António Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade, não faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de iniciadas até às séniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia um ascensão económica que tinha os dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto durasse. Com o Moreira a controlar as miúdas e o António Oliveira a dar a táctica, PC tinha a vida nocturna que queria, mas, ao contrário de Reinaldo, continuava muito agarrado ao dinheiro, não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de Reinaldo, que aí foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um conhecido jornalista algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se deslocava à Madeira. Sempre adiantado dois passos em relação aos restantes, António Oliveira foi-se afastando do grupo, mas nunca se desligou. Moreira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como um doutor, deixando de ser adjunto do António - então um treinador de mediano sucesso - para se tornar técnico principal. O conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por se aliar a um feeling muito especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma farmácia próxima de Paredes, conheceu o sucesso. -O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro no pelados e hoje eisme a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Moreira para a mulher, enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancun, onde uma conhecida apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques que nesse ano tinham surgido na ribalta. -Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos figos! -desabafou, longe de saber que nesse momento, PC tinha engendrado mais um plano diabólico. O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores são a mercadoria; há que contar também com o treinador. -E os treinadores, Reinaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu PC, merecendo o assentimento de Reinaldo. -Vai ser canja - continuou o presidente. - Fulano precisa de clube, e nós arranjamos esse clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não desce; não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os anjos-daguarda. -E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente? -Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o que for preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam a dever favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão directamente para os nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes ficam garantidos para o nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel podem ir asilar para esses clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados. Isto é o ovo de Colombo. -De quem? -De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão... -Quem? O da televisão? -Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que me disse a Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube... -E que tal? -Para o Colombo não correu mal... -Não presidente, que tal a Nancy? -Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes... -...o beijo pressionado?! -Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um lobbie... -Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas!... -Calado - prosseguiu, já algo irritado, Pinto da Costa. - Vai ser assim: andam por aí uns rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que muitos e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores estrangeiros. Vamos acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes, que passarão a perguntarnos que treinador é que podem contratar. Nós é que o escolhemos, percebes? Mas o rapaz que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas muitos favores, entendes? Para além de passarmos a controlar o que já sabes, ficamos também com a certeza de que eles farão tudo para derrotar os nossos adversários directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!... percebeste agora? -Mas, ó presidente, isso é genial! Claro... O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o Moreira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de PC, só um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não bastasse, PC foi pedindo alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais abonados, que ficavam satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de PC ante as câmaras dos repórteresfotográficos. Um deles, o Martins, até se deu ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos empresários da região, com estes, a troco de um galhardete autografado, a entregarem nas mãos de PC uma generosa quantia «para ajudar o clube mais representativo da região». Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorin) que, nos minutos finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se supõe, apenas para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a mão e dando assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar na corrida para o título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi visto foi a fazer compras em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente numa quinta dos arredores de Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um peru com uma mensagem de PC. E o Moreira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia subir mais. PC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor Peter, defensor dos princípios de competência. -Reinaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o ultrapassares, passar a ser um incompetente, percebes? Reinaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma cabeça que trabalhava a «carvão». -O Moreira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a treinar a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e caladinho, e isto é se quer continuar a passar férias a Cancun.O Moreira concordou, apenas com um pedido. No final da próxima época, preferia ir de férias para as Seychelles! Já se sabe que PC, depois de fracassar no comércio, concentrou as forças vivas das sua massa encefálica nos negócios paralelos do futebol. Mas um dia perdeu-se num atalho e decidiu comprar uma estacão de rádio, quando os alvarás destas estavam a ser distribuídos como que ao desbarato e pelo preço da chuva. Com a ajuda de uns tantos amigos, o negócio depressa de concretizou, muito embora o poder local não visse com bons olhos esta incursão de PC no espectro radioeléctrico. -Será que ele quer concorrer comigo? - questionou-se o presidente da Câmara. Na altura, os jornais falavam muito do assunto e até iam mais longe, insinuando que PC estaria em vias de formar um partido político capaz de vencer as próximas eleições. PC sentiu-se lisonjeado com a criação deste facto político, tanto mais que era apenas sua intenção fazer mais tarde uns dinheirinhos com a estação de rádio, o que acabou por concretizar dois anos depois, quando a vendeu aos «Pastorinhos de Belém», uma seita religiosa do Bairro do Falcão. Bem instalado na vida, PC fazia o que queria da classe política. -Tenho-os na mão - e dizia isto com um sorriso rasgado, enquanto Reinaldo batia palmas. Lá fora, no campo de treinos, o novo treinador iniciava mais uma época, e os jornais eram unânimes em entregar o favoritismo à equipa dirigida, com sapiência, por Pinto da Costa, um presidente que ronronava de felicidade no seu gabinete climatizado. A gata, prenhe, bebia mais um pires de leite, e os jornais traziam de novo na capa o rosto desafiador e firme de Pinto da Costa, o presidente campeão. Nasci para ganhar!- exclamou, antes de adormecer, sonhando que Deus lhe estava a cortar as unhas dos pés.

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