REAGIR!

Costuma dizer-se que ganhar e perder faz parte do desporto.
Poderá ser assim em muitos quadrantes onde existam provas desportivas, por este país e por esse mundo. Em modalidades várias, na alta, média ou baixa competição, em encontros de amigos ou de rivais, em quase tudo. Porém, quando se fala de Benfica, quando falo de Benfica, apenas admito um resultado: a vitória.
Um século de história gloriosa, e em particular o legado de Eusébio, ensinou-nos a ser assim. As últimas temporadas, em que a dupla Vieira-Jesus recolocou o Benfica no seu devido lugar, quer no panorama português, quer no panorama europeu, devolveram-nos também esse grau de exigência, que na transição do milénio quase havíamos hipotecado. Hoje, deixámos de conseguir encaixar uma derrota. E a de Braga doeu.
Independentemente de podermos felicitar os vencedores, de lhes devermos respeito dentro e fora dos campos, admitir uma derrota não pode jamais constar da nossa matriz identitária. Temos de exigir de nós próprios, e de todos no clube, uma espécie de revolta interior, que não permita olhar, nem por um segundo, para as derrotas como coisa natural. Para o Benfica, perder não é normal. Não pode ser normal.
Após uma pré-temporada complexa, e a meio de uma Liga dos Campeões pouco entusiasmante, a vantagem pontual com que o Benfica liderava a classificação do Campeonato (principal objectivo da época) era a almofada onde a família benfiquista repousava a sua confiança. Perder em Braga, naquele que era tido como o primeiro grande teste à equipa encarnada, representou um rude golpe nesse sentimento de confiança.
Hoje, há nova partida do campeonato. E na terça-feira joga-se o futuro europeu. O que se espera de todos é um grito de revolta face ao que aconteceu no Minho. A mesma revolta que os adeptos sentiram ao ver fugir três pontos, ao ver a vantagem classificativa reduzir-se à sua mínima expressão, ao ver os rivais directos recuperarem ânimo e tranquilidade, numa luta que não permite falhas, hiatos ou hesitações.

 

IMPRUDÊNCIAS

O futebol é um fenómeno popular, que mexe profundamente com as emoções daqueles que o seguem com maior fervor.
Milhões de almas percorrem quilómetros para estar perto das suas equipas gastando o que têm e o que não têm, sofrem a bom sofrer durante os jogos, e choram as derrotas como crianças, deixando de lado toda a racionalidade com que terão de enfrentar a segunda-feira seguinte.
São as emoções que fazem do futebol aquilo que ele é, que fazem crescer os clubes, e lhes dão dimensão social, humana, e também económica. São elas o cimento de todo o edifício futebolístico, por mais que uma certa empresarialização dos tempos modernos possa induzir o contrário. Sem elas, o futebol não teria nada de interessante.
Nem sempre os agentes deste desporto transformado em indústria têm em atenção essa realidade, permitindo descuidadamente que cumplicidades profissionais e pessoais se sobreponham ao respeito devido àqueles que os idolatram. Terá sido o que aconteceu com o nosso Ruben Amorim, ao deixar-se fotografar junto de figuras muito pouco recomendáveis.
Não é justo crucificar um atleta que sempre demonstrou a maior dedicação e profissionalismo ao serviço do clube do qual também é sócio e adepto, tal como nós. O próprio Ruben de pronto se arrependeu da imprudência - que feriu o sentimento de muitos benfiquistas.
Ruben explicou, perdoámos, assunto encerrado. Mas fica o ensinamento para ele, e para todos os jogadores, técnicos, dirigentes e profissionais ao serviço do clube: há situações que de um ponto de vista meramente racional são inócuas, mas para as quais a emoção do adepto não está, nem tem de estar, preparada.
Paralelamente, importa também reflectir sobre os motivos que levam um árbitro internacional a uma proximidade tão ostensiva a um líder de uma claque – que, em livro, confessou ao país várias práticas criminosas. Aí, não se trata de emoções nem de razão, mas sim de transparência. Mas, ao contrário de Ruben, de Proença não espero nada, a não ser a sua rápida aposentação. 

 

A VERMELHO

1-Um fim-de-semana, seis vitórias, dois troféus. Foi este o pecúlio das nossas modalidades mais representativas, cingindo-nos apenas aos escalões seniores masculinos.
O Voleibol e o Basquetebol entraram na nova temporada da mesma forma que haviam saído da anterior: a ganhar, e a festejar conquistas (neste caso, Supertaça e Troféu António Pratas). O Andebol, o Hóquei em Patins e o Futsal também venceram folgadamente os seus jogos, todos eles disputados fora de casa.
Nada de novo aqui. Mais um fim-de-semana à Benfica.
2-Amanhã começa a defesa da Taça de Portugal, brilhantemente conquistada em Maio passado no Estádio do Jamor. O adversário é do segundo escalão, mas nestas ocasiões o favoritismo tem de ser confirmado dentro do campo. A partida europeia da quarta-feira seguinte pode condicionar o “onze” a apresentar na Covilhã, mas não pode, em caso algum, reduzir a concentração competitiva daqueles que entrarem em campo. Até porque teremos pela frente um conjunto de profissionais empenhados em fazer a exibição (e o resultado) de uma vida.
3-Até agora, a Liga dos Campeões não nos tem corrido de feição. Eis uma boa oportunidade, no Mónaco, para inverter a sequência, alcançando um resultado que nos recoloque na luta pelo apuramento. Conseguindo a vitória, ficaríamos a apenas um ponto do segundo lugar, com três jornadas por disputar, duas delas em casa. Tudo ainda é possível neste grupo. Eu acredito!
4-Ainda há poucas semanas o mercado de transferências encerrou, e já os jornais nos intoxicam com especulações acerca daquilo que pode suceder em Janeiro. Para eles, as competições futebolísticas parecem ser apenas um interregno nas negociatas que lhes interessa fomentar, e que utilizam como incremento de vendas. Não sei bem se escrever, em Outubro, que determinado jogador pode sair, ou entrar, em Janeiro, ajuda assim tanto a vender papel. Eventualmente ajudará noutros planos, e junto de outros intervenientes. Como leitor dispenso. Como adepto do futebol, abomino.

O MESTRE

Di Maria, Ramires, David Luiz, Coentrão, Witsel, Javi, Matic, Oblak, Garay, Siqueira, Markovic, André Gomes, Rodrigo e Cardozo. Estes são os jogadores que o Benfica foi perdendo desde 2010, com os quais terá encaixado uma verba global próxima dos 250 milhões de euros (na maioria dos casos, fruto de uma valorização exponencial). Ao longo deste período, houve que refazer a equipa - ora parcial, ora quase totalmente, como neste último verão.
Os resultados foram: 2 Campeonatos, 1 Taça, 4 Taças da Liga, 1 Supertaça, 2 finais europeias, 5º lugar no ranking da UEFA, 4 apuramentos directos para a Champions, e apenas 3 derrotas nos últimos 70 jogos da Liga. Não fora um auxiliar de Proença em 2012, e uma profunda falta de sorte em 2013, e o Benfica seria tri-campeão. É “apenas” campeão, mas desde os anos 80 que não evidenciava tamanha competitividade em épocas sucessivas. E sem 6 titulares do “Triplete”, aí estamos nós, novamente na liderança, com 4 pontos de vantagem.
A estes números, podemos acrescentar um futebol exuberante, ofensivo e goleador, capaz de empolgar as exigentes bancadas da Luz.
Olhamos para o Benfica de Jorge Jesus, e para o Benfica anterior, e a diferença é abissal. Se Vieira trouxe a revolução institucional que resgatou o Benfica dos seus piores anos, Jesus somou a componente desportiva de que o nosso futebol carecia.
Pode mascar pastilhas elásticas, e dar pontapés na gramática. Pode até ser indelicado para alguns jornalistas mal habituados. Mas poucos no mundo perceberão de futebol como ele.
Segue as suas convicções, e não as pressões que pedem A por ser português, B por ser da formação, ou C por ter olhos azuis. Diz as verdades, mesmo quando nos custa ouvir que a Champions não pode ser objectivo imediato. E, mantendo uma equipa disciplinada, determinada e confiante, ganha jogos. Muitos jogos.
“Forever” é palavra perigosa. Mas, enquanto benfiquista, dormiria descansado com a garantia de que a dupla Vieira-Jesus se mantinha no Benfica, pelo menos, mais uma década.

IMPUNIDADE

Não confio na justiça.
Não necessariamente nos profissionais que a compõem, mas no sistema em si, que parece feito de encomenda para garantir impunidade à alta corrupção, e ao crime mais requintado.
Manobras dilatórias, incidentes processuais, recursos, contra-recursos, aclarações, nulidades, adiamentos, prescrições, e afins, constituem o labiríntico dicionário jurídico com que a verdade se confronta, ficando esta quase sempre a perder.
Não esperava, pois, que dos tribunais comuns resultasse nada de substantivo relativamente ao processo Apito Dourado, assim como não o espero de outros processos de grande dimensão e mediatismo – com as excepções que a regra normalmente concede.
Mas uma coisa é perceber, com maior ou menor resignação, que o ultra-garantismo do sistema judicial português promove a impunidade, outra, bem diferente, é dele inferir inocências que só por má fé, ou insulto, poderão ser alegadas. E é isso que tem sido feito, quer por agentes desportivos (nomeadamente os órgãos de justiça desportiva), quer por alguns comentadores, a propósito da absolvição de Pinto da Costa.
Todos sabem que só um mero artefacto, que considerou nulo o principal meio de prova, permitiu que o processo Apito Dourado tivesse um desfecho à revelia da verdade dos factos. Mas a justiça desportiva ignorou essa evidência, enveredando por um caminho de desresponsabilização e facilitismo, que, infelizmente, também não surpreende. Daí a lermos e ouvirmos comentários alarves, defendendo a candura do presidente do FC Porto, e pretendendo tomar-nos por idiotas, foi um pequeno passo.
Porém, as escutas existem. E tal como a Galileu, ninguém nos demoverá de as evocar, pelo menos enquanto muitos dos seus protagonistas continuarem por aí, a poluir o nosso futebol.
Já sofremos o suficiente com décadas de corrupção e falseamento de resultados desportivos pelas mais diversas vias. Não temos também de ficar condenados ao silêncio, perante uma verdade que foi ouvida, de viva voz, por quem a quis ouvir.

GUIADOS PELA JUSTIÇA


Seria difícil estabelecer um nexo de causalidade entre a liderança isolada do Benfica na classificação do Campeonato, e a maravilhosa atitude dos benfiquistas nos últimos minutos do jogo com o Zenit para a Liga dos Campeões. Mas uma coisa sucedeu à outra, como que premiando o trabalho, o esforço, a fé e o sentido de comunhão que haviam sido demonstrados dias antes, e constituem parte integrante da nossa matriz identitária.
O que se viu na partida internacional foi belo, e incomum em estádios portugueses. Algumas mentes mais empedernidas desdenharam daqueles aplausos, confundindo a satisfação por um resultado (e nenhum de nós saiu satisfeito da Luz nessa noite), com o reconhecimento do trabalho de profissionais que, perante múltiplas contrariedades, lutaram até à última gota de suor por um desfecho mais feliz. Participar naquele momento foi algo que me orgulhou enquanto benfiquista, enquanto apaixonado do futebol, e até enquanto português.
Como tantas vezes acontece, no futebol e na vida, justiça seguiu os seus próprios caminhos: no domingo, uma conjugação de resultados favoráveis guindou o Benfica à liderança da tabela classificativa, algo que afaga a moral da equipa e dos adeptos, e constitui precioso estímulo para os compromissos vindouros.
Vencer o Moreirense não foi tarefa fácil. Em primeiro lugar devido à organização colectiva que o conjunto minhoto apresentou, em segundo lugar devido ao anti-jogo que cedo começou a praticar, e em terceiro a um certo adormecimento do Benfica ao longo da primeira parte – o qual poderá ter a ver com o desgaste físico e anímico da partida anterior, mas que deverá servir de aviso para uma equipa que tem na conquista do Bi-Campeonato a sua grande prioridade.
Nos próximos dias, mais um duplo compromisso. E mais um desafio à concentração competitiva da nossa equipa. Todo o grupo de trabalho estará certamente desperto para a importância do jogo de Leverkusen. É muito importante que se mantenha ainda mais desperto para o jogo com o Estoril.

MAIS VITÓRIAS

1.A pré-temporada terminou há pouco mais de um mês, e esse foi o tempo suficiente para afastar os anátemas que alguns já haviam lançado sobre a nossa equipa do Futebol.
Luisão, Maxi Pereira, Enzo Perez e Nico Gaitán permaneceram por cá (ao contrário do que chegou a ser garantido por jornais e comentadores); os reforços são, afinal, acima de qualquer suspeita; e até o ponta-de-lança, que a dada altura parecia em falta, acabou por chegar, numa operação de mercado que não pode deixar de ser aplaudida.
À hora em que escrevo, desconheço o resultado do jogo europeu com o Zenit. Mas no plano nacional, quer resultados, quer exibições, têm mostrado um Benfica muito próximo dos níveis daquele que, há bem pouco tempo, alcançou o histórico “Triplete”.
2.O desporto feminino está em alta no nosso Clube. Com vários troféus conquistados no Hóquei em Patins, no Futsal, no Râguebi, e também no Basquetebol, as nossas meninas têm interpretado bem a mística benfiquista, mostrando ao país que a grandeza do Benfica não escolhe sexos. Trata-se de uma aposta certeira da Direcção encarnada, que vai de encontro à enorme margem de crescimento que o desporto feminino ainda possui. Não me admiraria que, dentro de alguns anos, a popularidade destas competições rivalizasse com as suas correspondentes do sector masculino, trazendo novos adeptos, e adeptas, aos pavilhões, enchendo-os de beleza e fervor clubista. O Futebol, com a sua especificidade, terá de esperar. Mas o Voleibol e o Andebol podem, e devem, ser apostas para breve.
3.Por falar em Andebol, há que lamentar mais uma derrota da equipa principal, por números claros, frente a um rival directo. Os treinadores passam, mas a secção tarda em encontrar o caminho de sucesso trilhado por todas as restantes modalidades do Clube. As condições proporcionadas pela Direcção mereciam outros resultados. A época ainda agora começou, mas a olhar pelo passado recente, um resultado como o do último fim-de-semana não pode deixar de acentuar a desconfiança.

A FORMAÇÃO

A indecorosa derrota da Selecção Nacional diante da Albânia acentuou o debate sobre a Formação.
Também no Benfica o tema tem sido recorrente, quer para aqueles que vêm nele a cura para todos os males, quer para os que olham com alguma prudência para tão grande optimismo (nos quais me incluo).
Desde logo, quando se fala em Formação, há que distinguir o interesse do futebol português, dos interesses dos clubes portugueses. Se a Selecção teria a ganhar com uma política desportiva que reforçasse a utilização de jovens jogadores portugueses nas principais equipas e nas principais competições, para os grandes clubes o compromisso é vencer, com ou sem juventude, com ou sem portugueses. Perante gerações bastante apagadas de futebolistas lusos, é natural que a aposta de quem busca títulos e presenças internacionais de relevo incida noutro perfil de jogador - mais agressivo, mais disponível, e mais resistente, que os mercados sul-americanos vão fornecendo.
Seria interessante perceber se esse apagamento é conjuntural, ou se, pelo contrário, se deve à agonia de um certo futebol de rua (que conferia criatividade e robustez aos Futres, aos Figos e aos Ronaldos), e ao recrudescimento das gerações “Play-Station” (mais acomodadas e sem grande capacidade de sofrimento), assumindo então uma matriz estrutural, logo mais difícil de inverter. A verdade é que, na última década, contam-se pelos dedos os jogadores de classe internacional que o futebol português produziu. Mau trabalho de base, ou inexistência de talento natural? Suspeito que a segunda hipótese também seja de considerar.
Sendo este um problema do âmbito da FPF, das selecções jovens, ou, no limite, da regulamentação desportiva, não me parece que o Benfica deva ter pruridos em recorrer aqueles que lhe dão mais garantias imediatas, independentemente de nomes, nacionalidades ou datas de nascimento. É verdade que existe, bem perto, quem alinhe com seis ou sete jogadores formados internamente. Mas…quantos títulos têm eles conquistado?

UM A UM

1-Um erro individual impediu o Benfica de alcançar a sétima vitória consecutiva em Dérbis para o Campeonato disputados em casa, permitindo ao Sporting voltar a marcar na Luz – algo que não sucedia desde 2006-07.
O espectáculo foi grandioso (dentro e fora das quatro linhas), e a nossa equipa mostrou fulgor. Mas em jogos desta natureza, um simples detalhe pode fazer a diferença. Não adianta crucificar Artur, que noutras ocasiões já foi herói. É manifesto o seu défice de confiança, e cabe-nos também a nós, adeptos, ajudá-lo a readquirir a tranquilidade necessária para superar este momento menos bom, e regressar aos níveis revelados em 2011 e 2012.
Em Alvalade, na segunda volta, com Artur ou sem Artur, recuperaremos os pontos agora perdidos.
2-Finalmente encerrou o “mercado”.
Dos últimos dias, uma nota de tranquilidade, e um motivo de preocupação.
A nota de tranquilidade prende-se com as permanências de Enzo Perez e Nico Gaitán, tão somente os dois melhores jogadores do último Campeonato. O Presidente prometeu que só sairiam pela cláusula de rescisão, e cumpriu a palavra dada. Como ninguém bateu as cláusulas, eles aí estão, incorporando a espinha dorsal do Campeão Nacional, e desmentindo as teses mais catastrofistas. Juntamente com Sálvio, formarão o núcleo duro do nosso futebol criativo. Continuaremos a ouvir Tango na Luz.
O motivo de preocupação reside no centro do ataque, onde me parece que as saídas de Cardozo e Rodrigo não ficaram devidamente colmatadas, e para onde se esperava um reforço de peso. É de realçar que nos quatro jogos oficiais já realizados (seis, se contarmos com a Taça de Honra), nenhum avançado benfiquista marcou qualquer golo. O futebol faz-se de golos, e sem eles não adianta jogar bonito ou empolgar plateias. Lima é um excelente ponta-de-lança, mas atinge normalmente os seus picos de forma em fases mais adiantadas das épocas (já foi assim no ano passado), e as alternativas não parecem à altura das exigências. Oxalá a realidade venha a dissipar este meu receio.

A GALINHA DOS OVOS DE OURO


Encerra no próximo dia 31 a pomposamente chamada “janela” de transferências.
Era suposto tratar-se de um período para ajustamento dos plantéis, para cobertura das necessidades desportivas das equipas, para colocação de excedentes, tudo na medida certa, e com uma calendarização compatível com a inteligência humana. E que não trouxesse nova investida em Janeiro, com mais uma violenta dose de mercantilismo, no que de pior a palavra pode conter.
Na verdade, estas “janelas” são períodos em que o futebol, a sua história, a sua cultura, a sua identidade, os seus adeptos, a sua alma, são deitados para o lixo, em nome da negociata, dos interesses, dos intermediários, dos agentes, da ganancia, dos fundos, das off-shores, e, muitas vezes, do mais puro banditismo. Tudo com as competições a decorrer.
A paixão que leva milhões de pessoas a amar um símbolo, a deslocar-se aos estádios, a pagar quotas e lugares cativos, não é compatível com situações completamente surrealistas, como as de um clube que vende Di Maria para comprar James Rodriguez, apenas – é a única razão que encontro – como forma de fazer circular dinheiro num e noutro sentido, fazendo pingar comissões, sabe-se lá para quem.
Noutros sectores, percebeu-se tarde demais o efeito de uma desregulação desenfreada. No futebol, há de se chegar lá. Provavelmente, também tarde demais, quando os estádios estiverem vazios, quando as transmissões televisivas valerem menos, quando as pessoas, enfim, se fartarem disto, e voltarem as costas a quem as usa como peças descartáveis de uma máquina de movimentar milhões.
Adoro futebol. Ou adorava. Já nem sei. O que tenho certo é que estes meses deprimem-me enquanto adepto, e enojam-me enquanto cidadão. Depois de um Mundial fantástico, nada pior do que este rodopio de notícias de jogadores que partem daqui, de jogadores que chegam dali, de traições, de vendilhões de todos os templos, a mostrar, com indiferente soberba, que o futebol se transformou num esgoto.
Por agora, está a acabar. Por agora…
 

TACUARA

Muitos motivos justificam a venda de Óscar Cardozo ao Trabzonspor: uma lesão grave nunca inteiramente debelada, e, porventura, de duvidosa reabilitação; o sub-rendimento quase penoso que a partir daí o jogador evidenciou; um salário elevado, acima das limitações colocadas pelos novos tempos, e acima daquilo que, neste momento, poderia acrescentar à equipa; e, talvez mais importante que tudo o resto, a parcela do passe afeta ao Benfica Stars Found, que obrigaria a SAD a desembolsar uma verba considerável (4 milhões?) caso tencionasse manter os serviços do goleador.
Tendo em conta estas circunstâncias, ninguém de bom senso poderia atar um jogador de 31 anos ao seu passado. Perante uma boa proposta (para ele e para o clube), havia que abrir a porta.
Dito isto, não posso deixar de manifestar a minha tristeza por ver partir o melhor, o mais eficaz, e o mais marcante ponta-de-lança do Benfica neste século XXI.
Cardozo nunca gerou unanimidades. Dele chegaram a dizer que “só” marcava golos. Coisa pouca, portanto.
Para quem, como eu, dispensa fintas, toques de calcanhar, malabarismos e números mais ou menos circenses, gostando antes de ver futebol prático, com remate pronto e certeiro para dentro das balizas, ele foi um ídolo. Era ele que me fazia levantar da cadeira. Foi ele, com os seus quase 200 golos, que mais alegrias me proporcionou ao longo destes anos.
Tacuára marcou 13 golos ao Sporting, 7 ao FC Porto, 34 nas competições europeias. Sai como o melhor marcador estrangeiro da história do clube, e um dos dez melhores em termos absolutos (emparceirando, na lista, com nomes como Eusébio, Águas, José Augusto, Arsénio, Julinho, Rogério, Nené ou Torres). Só o tempo fará perceber aos mais cépticos a importância e a dimensão histórica que um ponta-de-lança com estes números tem para um clube.
Teria de sair um dia. Esse dia chegou. Da minha parte, fica o eterno agradecimento por tudo quanto nos deu. E a esperança que consigamos rapidamente encontrar alguém capaz de o fazer esquecer.

INEVITÁVEL


Olhando friamente para o que foi sendo noticiado na imprensa relativamente a cada um dos casos, e deixando de lado os estados de alma originados por uma pré-época desoladora, é de concluir o seguinte:
Oblak saiu pela cláusula de rescisão, contra a vontade do clube, e com uma atitude pouco digna das qualidades que revela na baliza. Nada a fazer.
Siqueira terá sido convidado a ficar, colocando exigências salariais incompatíveis com o mercado português. É natural que preferisse actuar no vice-campeão europeu, numa liga com muito maior visibilidade. Pouco ou nada a fazer.
Garay tinha apenas mais um ano de contrato. Terá sido convidado a renovar, e não aceitou a proposta, pelo que, em breve, poderia sair a custo zero. Tinha um dos mais elevados salários do plantel. O Benfica detinha apenas metade do passe. Pouco ou nada havia a fazer.
André Gomes e Rodrigo haviam sido vendidos em Janeiro, num acto de gestão que então suscitou os mais rasgados elogios, e que permitiu ao Benfica encaixar uma verba considerável, contando ainda com os préstimos dos atletas na conquista dos títulos. A decisão havia sido tomada, e bem tomada.
Markovic saiu pela cláusula de rescisão. Apenas metade do passe pertencia ao Benfica, e a escolha não estaria na mão dos responsáveis encarnados. Nada a fazer.
Cardozo não chegou a recuperar do problema físico que o afectou há uns meses. Tinha um dos mais elevados salários do plantel. Com uma percentagem do passe alocada ao Fundo, a SAD estaria obrigada a desembolsar cerca de quatro milhões de euros para o manter. Decisão bem tomada.
Contas por alto, e juntando aqui Matic, o Benfica terá arrecadado nos últimos meses mais de cem milhões de euros, verba importantíssima para fazer face aos constrangimentos decorrentes de uma crescente dificuldade na obtenção de crédito – à qual não serão alheios os conhecidos acontecimentos num dos pilares do sistema bancário português.
Nada disto foram boas notícias. Mas todas foram notícias que o Benfica dificilmente poderia ter evitado.

É SÓ FUMAÇA

Há um ano atrás, o Benfica perdia a Taça de Honra, tal como agora, perdia a Eusébio Cup, tal como agora, e perdia em Nápoles, tal como agora perdeu com o Marselha. A moral dos adeptos estava em baixa, e a comunicação social colocava Jorge Jesus a caminho da porta da rua, antecipando o caos. Depois, partimos para a melhor temporada futebolística das últimas décadas, coroada com a conquista do inédito “Triplete”, e com a presença em mais uma final europeia.
Em sentido contrário, todos nos recordamos de pré-temporadas altamente festivas, com vários triunfos em torneios amigáveis, aquisições sonantes, e encómios na imprensa, que mais tarde se derreteram em finais de época deprimentes, e em dedos apontados muito a torto e pouco a direito.
Não é preciso puxar pela memória para verificarmos quão enganadoras se revelam tantas vezes estas pré-temporadas, tal a inconsistência das suas promessas e ameaças. São importantes para o treinador e para os jogadores, como fases de um trabalho de preparação física e táctica. Não têm importância para mais nada, salvo para a satisfação da natural curiosidade dos adeptos em ver as caras novas do plantel, ou tão somente em apreciar os novos equipamentos.
Dia 10, em Aveiro, então sim, começará o futebol a sério. E uma semana mais tarde, iniciaremos, no nosso estádio, a defesa do título nacional tão brilhantemente conquistado há poucos meses atrás – competição que uma vez mais não poderá deixar de ser tida como a grande prioridade de todo o universo benfiquista.
Até lá, vemos jogadores que partem, jogadores que chegam, jogos-treino mais ou menos exuberantes, mais ou menos enfadonhos, cheios de substituições e erros, a ritmo de sandália, dos quais não irá rezar a história. E vemos uma equipa a preparar-se para enfrentar os mais difíceis desafios, com outras caras e outros nomes, mas com a mesma ambição de sempre.
Ser campeão da pré-temporada é título que bem podemos dispensar para outros. Queremos ser campeões, sim, mas em Maio, onde o 34º nos espera.

SOMOS NÓS!


O futebol, tal como o mundo, está longe de ser aquilo que queríamos.
É o que é. E neste futebol, como neste mundo, há que fazer contas, pois os salários não se pagam com feijões, nem com juras de amor eterno.
Neste futebol ninguém joga pela camisola. Gente de diferentes latitudes procura que a cada passo na carreira corresponda gordura na conta bancária. Os empresários, os fundos e os passes repartidos, acrescentam vinagre a um prato já de si indigesto. E temos o mercado de transferências sobre a mesa. Temos o futebol moderno, de costas voltadas para tudo o que o popularizou. Lamento, mas não existe outro. Só há este, e, com os seus vícios e virtudes, continuamos a amá-lo. Por enquanto.
O Benfica não lhe está imune.
Terão sido cometidos erros nesta pré-temporada? Porventura sim, na forma de comunicar com uma massa adepta jovem, cada vez mais instruída, que exige perceber como, de que forma, e porque razão, são tomadas determinadas decisões.
De resto, lutar contra a voragem dos tempos, e dos dinheiros, é como lutar contra a chuva. Lamento, mas é esta a verdade.
Quanto a jogadores, prevalece a velha máxima segundo a qual só fazem falta os que cá estão. Já vimos sair Di Maria, David Luíz, Ramires, Fábio Coentrão, Witsel, Javi Garcia e Matic, todos eles, a seu tempo, insubstituíveis. Sem eles, em Maio ganhámos tudo. Agora sairão outros. Sem eles, teremos de voltar a ganhar. Iremos voltar a ganhar.
Insubstituíveis somos nós. E nós, sócios, jamais poderemos falhar com o apoio à equipa, ao clube, e a todos aqueles que o servem - compreendendo que é fácil criticar (a quem está de fora), sendo bem mais difícil decidir (a quem está de dentro).
No dia em que o Campeonato tiver início, entraremos em campo com onze jogadores. Essa será a nossa equipa. Com ela, faremos a longa caminhada até ao 34º título. Depois virão outros, e mais outros, e mais outros. Mas nós…, nós estaremos sempre cá. Nós é que somos o Benfica. E o Benfica será tão forte quanto a união que demonstrarmos em seu redor.

BRASIL 2014 - NOTAS FINAIS


Uma esplendorosa fase de grupos prometia mais, mas, ainda assim, assistimos a um excelente Mundial. Tivemos muitos e bons golos, grandes defesas, quebra de recordes, incerteza, emoção, e um campeão justo.
Messi não conseguiu ser Maradona, e, mesmo conquistando o prémio para o melhor jogador do torneio, esteve longe do brilhantismo evidenciado noutras alturas ao serviço do seu clube. Faltou esse toque de Midas para que a Argentina dos “nossos” Enzo Perez e Garay se sagrasse campeã.
Fazendo jus à velha máxima do futebol, no fim ganharam os alemães. E ganharam bem.
Entre todas as selecções, a “Mannschaft” foi a mais compacta, a mais empolgante, a mais refinada, e, sobretudo, a mais eficaz.
Juntamente com a detentora do título Espanha (precocemente afastada), o Brasil de Scolari foi quem mais desiludiu. Realizou um campeonato regular até às meias-finais, mas aí claudicou por completo, entrando para a história pela porta errada. É fácil criticar o antigo seleccionador nacional, e, por cá, muitos têm aproveitado a ocasião para ajustar velhas contas. Talvez seja justo lembrar neste momento que, com ele ao leme, a nossa selecção conseguiu os melhores resultados de sempre, e que, antes ainda, o mesmo técnico havia já sido campeão do mundo pelo seu país. Também me recordo de, com ele, Portugal vencer a Rússia pelos mesmos 7-1 que agora lhe acertaram em cheio. Não gosto de injustiças, nem de gente com memória curta, e ainda menos de lavagens de roupa suja – nas quais a comunicação social portuguesa é fértil.
Por falar em Portugal, talvez seja altura (agora sim) de avaliar a prestação do conjunto de Paulo Bento. Os 0-4 diante da campeã Alemanha parecem-nos hoje francamente mais aceitáveis. E o empate com os Estados Unidos terá sido, também, face a tudo o que se viu, um resultado normal. Podemos pois classificar a participação portuguesa dentro de parâmetros que ficam longe de corresponder à imagem negra que os media - sempre ávidos de sangue -procuraram passar ao longo destas semanas.

LENDAS E NARRATIVAS

1.Tudo indica que na próxima temporada o Benfica marque presença nas provas europeias de seis diferentes modalidades (Futebol, Hóquei em Patins, Basquetebol, Andebol, Voleibol e Atletismo). Relembre-se que o nosso clube é campeão em quatro delas. Ser a maior potência desportiva do país passa, muito provavelmente, por algo parecido com isto. Mas poderia também ser uma definição para o clube com maior número de sócios, para o que tem mais títulos, para o que tem melhores equipas, para o que tem maiores e melhores infraestruturas, etc. Não vejo é que este fato sirva a outro, sem que esse outro caia no ridículo.
2.Ao contrário do que sucede com as competições europeias, ou com as taças, em que podemos ver pela frente adversários distintos, o sorteio do campeonato tem pouca relevância. Os opositores são conhecidos à partida, havendo que jogar com todos, sendo apenas sorteada a ordem das jornadas.
Ainda assim, há que sublinhar o facto de não irmos ao Porto nas últimas rondas – a acontecer novamente, confesso que suspeitaria de fraude -, de iniciarmos a defesa do título em casa, e de recebermos o Sporting à terceira jornada, aspectos que nos são teoricamente favoráveis. Realce ainda para as dificuldades de Novembro e Dezembro, onde um ciclo de jogos terrível, com Champions pelo meio, irá por à prova o conjunto de Jesus.
Com o tempo, perceberemos se o calendário é bom o mau. Por agora, é apenas…um calendário.
3.Domingo disputa-se a Final do Mundial. Desde 1930 que a história do futebol é escrita, em larga medida, pela pena desta competição. Pelé, Maradona, Eusébio e Cruyff tiveram, cada um, o “seu” mundial. Ainda não se sabe de quem será este.  Sabe-se, sim, que assistiremos a uma partida histórica. E espera-se que de nível qualitativo condizente com as dezenas de jogos que nos deliciaram ao longo do mês. Que ganhe o melhor!
4.Alfredo Di Stefano era o ídolo de Eusébio, e isso, por si só, representa muito daquilo que o hispano-argentino foi no futebol internacional. Paz à sua alma.

O REGRESSO DOS CAMPEÕES

Mesmo com o Campeonato do Mundo ao rubro, o regresso ao trabalho do plantel benfiquista não pode deixar de figurar no topo na nossa agenda desportiva.
Os Campeões Nacionais estão de volta.
Alguns – precisamente devido ao Mundial – só mais tarde serão integrados. Outros não regressarão ao Seixal. Entretanto, umas quantas caras novas despertam a curiosidade.
É pena ver partir elementos que se destacaram no histórico “Triplete”. Mas as leis do mercado são incontornáveis, e não podemos escapar-lhes.
Convém lembrar que só pudemos dispor de jogadores da categoria de Garay, Matic ou Rodrigo, porque entretanto vendemos David Luíz, Javi Garcia ou Di Maria. Agora, com a saída de craques com a cotação em alta, há que desenvolver novos activos, alimentando assim a cadeia de negócio que salvaguarda o equilíbrio financeiro da SAD. Havendo competência para escolher, e depois para valorizar, o modelo funciona. E, como recentemente comprovámos, dá títulos.
Outro vetor base é o da formação. Não pode haver competitividade apenas com formação, mas, na conjuntura actual, também não poderá haver equipa sem formação. Neste sentido acredito que alguns elementos da equipa B sejam promovidos ao plantel principal, e possam mais tarde ascender à titularidade.
Julgo ser importante manter o maior número possível de jogadores campeões, e assim garantir um fio condutor de coesão e mística. Já que a algumas propostas não podemos dizer não, a outras - para aqueles cujo pico de mercado já tenha passado (casos de Maxi, Luisão ou Cardozo), ou, pelo contrário, para os que esse pico ainda esteja por chegar (casos de Oblak ou Markovic) -, parece-me prudente resistir. Para além dos aspectos técnicos, há que preservar todos os laços criados no grupo por via das conquistas.
O próximo Campeonato é decisivo para a afirmação de um novo ciclo no futebol português, e nada pode ser deixado ao acaso. A estrutura do Benfica já deu provas da sua competência, e é garante de que o Benfica se apresentará forte, rumo ao “Bi”.

MAIS MUNDIAL


No momento em que escrevo estas linhas, as hipóteses de Portugal prosseguir a sua caminhada no Campeonato do Mundo são mais ou menos iguais às das Honduras.
O saudoso José Torres, em situação semelhante, pediu um dia que o deixassem sonhar. É o que nos resta. Porém, quando esta edição chegar às mãos do estimado leitor, o mais provável é que todo o país já tenha acordado para uma realidade amarga – embora não de todo inesperada.
Mas há mais Mundial para além de Ronaldo, Paulo Bento e lesões musculares. Grandes jogos, golos espectaculares, defesas impossíveis, futebol de ataque, e tudo aquilo que gostamos de ver, tem acontecido quase diariamente no certame brasileiro. Até agora, poderia mesmo qualificar este campeonato como o de maior qualidade das últimas décadas. Porventura, desde os tempos em que o romantismo mágico de Zico, Sócrates e Falcão cedeu a vez ao cinismo calculista de Rossi, Conti e Gentile, num Brasil-Itália que marcou um antes e um depois na história do desporto-rei. Estávamos em 1982.
Se quanto à qualidade de futebol as coisas têm corrido bem, já quanto às arbitragens não podemos dizer o mesmo.
Nunca defendi a introdução de meios tecnológicos que pudessem perturbar o ritmo dos jogos com pausas indesejáveis. Depois do que tenho visto nestas semanas, talvez não mantenha a mesma opinião. Rara tem sido a partida sem erros grosseiros de arbitragem. Juízes da Nova Zelândia, Gambia, Guatemala, Uzbequistão, Tahiti ou El Salvador – sem experiência recomendável para uma competição desta natureza –, e sem falar de outros que infelizmente conhecemos mais de perto, têm desvirtuado, e em alguns casos arruinado, aquilo que os jogadores tanto se vão esforçando por fazer em campo. Há selecções eliminadas por erros de arbitragem. Há selecções qualificadas com erros de arbitragem. Com optimismo, esperemos que na fase eliminatória o panorama melhore substancialmente, pois o futebol praticado tem feito por merecer. Caso contrário, a FIFA não poderá continuar a assobiar para o ar.

DE OITOCENTOS A OITO

Um penálti forçado a abrir o marcador; uma expulsão tão imprudente quanto exagerada; duas substituições por lesão; um golo nos descontos à saída para o intervalo; uma falta clara por sancionar, dentro da área adversária; uma falha clamorosa do guarda-redes a fechar as contas. Tudo isto aconteceu à nossa Selecção, na sua estreia no Mundial. Tudo isto aconteceu diante de uma das mais fortes candidatas ao título, que naturalmente soube aproveitar as circunstâncias para construir um resultado robusto. A agravar, também o desfecho do outro jogo do grupo pareceu encomendado pelo diabo, com um golo contra-corrente, já perto do fim, a desfazer o que seria um simpático empate entre Gana e EUA, logo a favor da equipa que defronta a Mannschaft na última jornada – com esta já previsivelmente qualificada. Pior era impossível. Como sempre acontece nestas ocasiões, as facas rapidamente saíram das bainhas, e o clima de histeria colectiva em torno de Ronaldo e seus pajens depressa se transformou numa caça às bruxas tão ao gosto de alguns comentadores do espaço mediático luso. Nem oitocentos, nem oito. É importante dizer que a equipa nacional não é candidata a nada que não seja ultrapassar a fase de grupos. E é também importante lembrar que esse objectivo está ainda sobre a mesa. Na verdade, Portugal dispõe de um super-jogador, mas em redor dele gira uma equipa mediana, porventura a mais fraca das últimas duas décadas. E nem adianta questionar as opções técnicas, pois as eventuais alternativas também não escapam à mediocridade. Perder com a Alemanha é um resultado natural – embora os números tenham sido particularmente estrepitosos. Ganhar aos EUA e ao Gana é uma possibilidade, à qual a “Equipa das Quinas” terá de se agarrar com unhas e dentes. Se algo correr mal, o mundo não acaba. O futebol tem a virtude de permitir sempre redenção, como pudemos vivenciar no nosso clube de 2013 a 2014. Talvez por isso se diga que está para além da vida e da morte. E é seguramente por isso que tanto nos apaixona.

OS NOMES DO SUCESSO


Mesmo com um Mundial à porta, não há benfiquista que não guarde o doce sabor de uma temporada histórica, coroada com a conquista de três troféus, e abrilhantada pela presença numa final europeia.
Se no calor da euforia nem sempre é possível avaliar com precisão todos os aspectos que pesaram em tão triunfante caminhada, agora, a frio, com algum distanciamento a ajudar, torna-se mais fácil identificar as razões, os momentos, e, também, os heróis, de uma saga inesquecível. 
É preciso dizer que estamos perante, não uma, mas duas temporadas absolutamente excepcionais da nossa equipa de futebol. Terminaram de forma distinta, é certo, mas se a sorte ou o azar podem ditar o destino final de qualquer jogo (com um penálti falhado, um remate fortuito, ou um golo nos descontos), só a competência e o trabalho rigoroso permitem manter, durante meses, um elevado nível competitivo - capaz de pôr os adeptos a sonhar com este mundo e com o outro.
Foi essa ideia que levou o Presidente Luís Filipe Vieira – de forma tão lúcida quanto corajosa - a decidir manter uma equipa técnica sob contestação, e foi aí que a história do sucesso começou a ser escrita.
Houve, porém, um segundo momento, a partir do qual a equipa se uniu, e acreditou que tudo lhe era possível. Inspirada por Eusébio, a vitória sobre o FC Porto, no final da primeira volta, virou os pratos da balança definitivamente a nosso favor. Se a manutenção de Jesus criou condições objectivas para vencer, aquela semana de Janeiro deu a união e a crença que sempre acompanham os campeões.
Luís Filipe Vieira, num primeiro plano de análise, e Jorge Jesus, logo atrás, foram pois os obreiros deste sucesso. Mas há que distinguir também aqueles que, em campo, interpretaram tão bem a mística benfiquista, e concretizaram em títulos os anseios de milhões de portugueses. Enzo Perez e Gaitán foram, no meu ponto de vista, os jogadores que mais brilharam durante estes meses. Um a equilibrar, outro a desequilibrar, foram eles as estrelas do Benfica 2013-14.