DECIDIR A FRIO

Na ressaca de três semanas terríveis para o futebol benfiquista, confesso que me é difícil expressar uma opinião que fuja à ligeireza para a qual a emoção nos remete. É assim o futebol. E são assim os adeptos que, como eu, sofrem apaixonadamente pelo seu clube.
Mas importa, neste caso, tentar estabelecer uma barreira clara entre a tristeza – comum a todos os benfiquistas, e perfeitamente natural face aos frustrantes resultados alcançados neste mês de Maio -, e o realismo com que deve ser analisado o trabalho desenvolvido ao longo de toda uma época.
O Benfica 2012-13 fez-nos sonhar. Fez-nos sonhar muito alto. Porém, devido a uma impressionante série de infelicidades, e devido, também, a alguns erros próprios e alheios, acabou sem os troféus que a qualidade do seu jogo justificava.
Se, na partida do Dragão, o pontapé de um tal Kelvin tem batido no poste, mais taça menos taça estaríamos agora em festa, e ninguém ousaria contestar os méritos daqueles que tudo fizeram para vencer. É preciso não esquecer, também, que não chegávamos a uma final europeia havia 23 anos, e não íamos ao Jamor havia oito. Somos cabeças-de-série na próxima Liga dos Campeões, e praticámos, amiúde, um futebol de altíssima qualidade, elogiado por todos, dentro e fora de fronteiras. Temos um plantel fortemente valorizado. E conseguimos no Campeonato, afinal de contas, mais pontos do que em qualquer um dos últimos 15 anos - incluindo aqueles em que fomos campeões.
É muito ténue, pois, a fronteira que separa os vencedores dos vencidos. É essa fronteira que atribui a glória a uns, deixando outros mergulhados no desalento. Não pode, todavia, ser esse exíguo fio a definir méritos e capacidades daqueles que trabalham para o sucesso, naquilo que, sendo um espectáculo, sendo um desporto, sendo até um combate, é também - e muitas vezes, principalmente – um simples jogo.
A crise que afecta muitos portugueses, e por consequência, muitos benfiquistas, deixa os ânimos mais quentes, e leva a atitudes nem sempre ponderadas. Infelizmente, também é normal que assim seja.
Cabe a quem decide triar todas essas pressões, resistir-lhes, separar o trigo do joio, ignorar estados de alma apressados, e pensar a frio naquilo que é efectivamente melhor para a estabilidade, competitividade e crescimento de um clube que, não há muitos anos atrás, ficava arredado dos títulos antes do Natal.

CAMPEONATO MIGUEL

Na antevisão à última jornada do Campeonato, tive oportunidade de dizer, na nossa Benfica TV, que para fundamentar a esperança na conquista do título, precisaria de ter a certeza de que nada de anormal se passaria no outro estádio onde se jogavam as grandes decisões. Não foi necessário esperar muito tempo para confirmar os meus piores receios.
Aos vinte minutos da partida da Mata Real, o mesmo indivíduo que na temporada passada, em Coimbra, transformara um claríssimo penálti sobre Aimar numa falta contra o Benfica, resolveu, desta vez, transformar um cartão amarelo por simulação de James Rodriguez fora da área, numa grande penalidade a favor do FC Porto, com expulsão do defesa pacense. Percebi, de imediato, que não valia a pena sonhar. A realidade mantinha-se, igual a si mesma, como há já muitos anos nos habituámos a ter de suportar.
Concluído o Campeonato, gostava, com sinceridade, de poder atribuir a perda do Título apenas ao mérito do adversário, ao cansaço dos jogadores do Benfica, ou simplesmente ao azar. Porém, ao lembrar-me de Carlos Xistra em Coimbra, de Pedro Proença na Choupana, e, sobretudo, deste Hugo Miguel em Paços de Ferreira, não sinto que o possa fazer. Este, para mim - que também tenho direito a usar alcunhas - ficará na memória como o Campeonato Miguel.
Depois de vermos fugir o Título deste modo, depois de perdermos a Liga Europa (essa sim, de forma limpa, honrada, mas meramente infeliz), resta-nos a Taça de Portugal. Não a encaro como um consolo, ou como um prémio menor. Pelo contrário, vejo-a como uma competição importante e bonita, que há muitos anos escapa ao Glorioso, e que quero fervorosamente vencer. Além de que, terminar a temporada com um troféu nas mãos, parece-me ser o mínimo que a justiça pode fazer ao brilhante futebol que a nossa grande equipa apresentou durante meses.
Esperemos que desta vez não haja Miguéis a condicionar o jogo, e que a grande festa do Jamor seja limpinha. Pois o Campeonato, depois de tanta conversa, acabou bem sujinho.

SER BENFIQUISTA

Escrevo antes da final de Amesterdão.
Não faço ideia daquilo que se passou na bela cidade holandesa, sabendo porém, de antemão, que a presença numa final da Liga Europa é, por si só, motivo de orgulho para qualquer clube, pelo que a campanha internacional desta temporada ficará necessariamente gravada na nossa história – ao menos na mesma medida em que ficou a de 1983, quando estivemos bem perto da glória.
Escrevo, todavia, depois de uma das derrotas mais cruéis dos últimos anos, consumada aos 91 minutos de uma partida que parecíamos já ter sob controlo, e que podia valer um Campeonato. É preciso dizer que ainda não o valeu, e da mesma forma que um Estoril nos fez cair das nuvens, também um Paços de Ferreira – que veste igualmente de amarelo - nos pode dar uma ajudinha que nos devolva aos céus.
Foi precisamente na difícil ressaca do FC Porto-Benfica que presenciei, e participei, numa das mais impressionantes manifestações de benfiquismo de que me recordo em tempos recentes.
Ainda a enxugar as lágrimas, e a digerir a frustração, parti para o Estádio da Luz com o objectivo de adquirir bilhetes para a festa do Jamor, que é como quem diz, para a Final da Taça de Portugal. Confesso que não esperava encontrar muitas pessoas, nem grande entusiasmo, pois o golpe sofrido na véspera havia sido duro, e não tinha passado o tempo suficiente para o luto de tão azedo momento.
A verdade é que quase me comovi ao ver o mar de gente que ali estava, triste como eu, a maioria certamente mal dormida, como eu, esperando várias horas de pé, e ao sol, mas comungando, de forma firme, daquela ardente paixão que não se consegue explicar por palavras, mas que todos sentimos lá bem no fundo da nossa alma: o benfiquismo.
Uma fila de espera é, por norma, aborrecida. Naquele domingo foi revigorante.
Já com os bilhetes na mão, fui para casa a pensar: afinal o que vale um golo de um tipo de penteado esquisito, perante esta imensidão de crença, de mística e de fé, que só o Benfica é capaz de proporcionar?

ACREDITAR

Não há que iludir a realidade: o empate frente ao Estoril foi um resultado decepcionante, que nos deixou angustiados, e que torna mais difícil o caminho que conduz ao título. Esperávamos chegar lá por uma larga avenida, mas teremos de fazer um desvio por uma estrada um pouco mais estreita. Não deixaremos, porém, de chegar ao destino.
O futebol é isto. Numa quinta-feira saímos do estádio em clima de justificada euforia, ao garantirmos presença numa final europeia, 23 anos depois da última vez em que tal aconteceu. Quatro dias volvidos saímos cabisbaixos, tristes, e com a sensação de termos desperdiçado uma oportunidade óbvia de quase garantir ali a conquista do Campeonato. Alegrias e tristezas. É precisamente o que o futebol oferece aos adeptos, e por isso cativa tanta gente com a sua magia.
Agora vamos a factos. O Benfica é líder isolado da classificação, e se vencer o próximo jogo sagra-se de imediato Campeão Nacional. Em caso de empate, deixa também o título muito bem encaminhado. Depois, na quarta-feira, em Amesterdão, poderá voltar a erguer um troféu europeu, 51 anos depois de - na mesma cidade - Eusébio e seus pares terem mostrado o Glorioso ao mundo. Dia 26, no Jamor, podemos também conquistar a Taça de Portugal, prova que nos escapa desde 2004. Ou seja, estamos, continuamos a estar, a três vitórias da melhor temporada de todos os tempos. E se nos dissessem, no início da época, que chegaríamos a esta data com tão grandes possibilidades de fazer história, tal seria suficiente para nos deixar empolgados, e ansiosos por cada um desses embates, por cada uma dessas finais.
A primeira é amanhã. Eu arriscaria a dizer que é a mais importante de todas. Depois de uma temporada brilhante, não ser Campeão seria, não só uma injustiça, como uma anormalidade. Perder no Dragão poderia também afectar o ânimo da equipa para as decisões seguintes. Por isso, estou convicto de que iremos ter em campo o melhor Benfica. E, a ser assim, as hipóteses de sucesso serão muitas. Serão todas!

PRAIA À VISTA

No momento em que esta edição chegar às bancas, já será conhecido o desfecho da Meia-Final da Liga Europa. Já saberemos se o Benfica regressou a uma Final, 23 anos depois de Viena, ou se, pelo contrário, se quedou por uma presença honrosa – que, em condições normais, será suficiente para na próxima temporada nos colocar como cabeças-de-série do sorteio da Fase de Grupos da Champions League, e como brilhantes sextos classificados no ranking da UEFA, apenas superados por Barcelona, Bayern de Munique, Real Madrid, Manchester United e Chelsea.
Independentemente do que a frente europeia nos tenha reservado, o principal objectivo da temporada (a conquista do Campeonato) está cada vez mais perto de ser atingido. Há umas semanas atrás, nestas mesmas páginas, referi ser minha convicção que cinco vitórias consecutivas seriam suficientes para, senão festejar o título, pelo menos encomendar as faixas. Essa série de cinco jogos termina justamente na próxima segunda-feira, quando, no nosso estádio, recebermos uma das grandes revelações da época: o Estoril-Praia.
Caso consigamos ultrapassar esta etapa – cuja dificuldade, para além do valor do adversário, encontrará razões no desgaste do jogo com o Fenerbahce, e de toda uma época cada vez mais longa -, entraremos no Estádio do Dragão com uma vantagem que nos põe a salvo, quer de uma noite menos conseguida, quer dos subterfúgios a que o FC Porto recorre quando vê as coisas escaparem ao seu controlo (chamem-se eles Proenças, Casagrandes ou bolas de golfe). Pelo contrário, uma escorregadela diante do Estoril deixar-nos-á à mercê de todos esses factores, podendo pois dizer-se que - segunda-feira sim - estamos perante “o” jogo do título.
Importa deste modo perceber a relevância da ocasião, e criar uma onda de apoio capaz de, a partir das bancadas, ajudar a equipa a chegar à vitória. Um estádio cheio será a força suplementar que, depois de tanto mar (como dizia Chico Buarque), nos conduzirá à terra prometida, e ao cheiroso alecrim da festa.

PÁTIO DAS CANTIGAS

Sempre que o Benfica se aproxima da conquista de um Campeonato, logo ouvimos os sons cacofónicos de uma orquestra que procura desvalorizar méritos, encontrar desculpas, e produzir ruídos. Tais ruídos não passam de arrotos causados por uma difícil digestão. Mas, de tão intensos, acabam por deixar que o embuste tome o lugar da realidade, num espaço mediático onde - graças a alianças nada santas - a proporção de forças surge quase sempre invertida face ao enorme peso popular do nosso Clube.
Foi assim em 2005, a propósito de um jogo disputado no Algarve. Foi assim em 2010, quando, no túnel da Luz, os agressores foram convertidos em vítimas, e a verdade convertida em mentira. Voltou a verificar-se o mesmo após o Dérbi do passado fim-de-semana, o qual deixou o FC Porto mais longe de alcançar o único objectivo que lhe resta na temporada, e o Sporting apeado daquela que seria a única ocasião capaz de proporcionar alegria aos seus adeptos (a de nos atrapalhar na corrida ao título).
Desde as bancadas do estádio, assistiu-se a um bom espectáculo, a um excelente golo (na primeira parte), e ao mais belo lance de toda a época futebolística nacional (na segunda). Viu-se também um Sporting motivado - o que não é notícia quando joga contra o seu invejado vizinho -, e feliz por ter evitado uma temida goleada. Presenciou-se uma vitória justa da melhor equipa, e uma arbitragem que, desde o primeiro instante, dentro e fora das áreas, dos dois lados do campo, adoptou um critério largo e equitativo, contribuindo para a fluidez do jogo como poucas vezes se vê em Portugal.
Cometeu erros? No estádio não dei por eles, embora a televisão demonstre um ou outro. Ficaram penáltis por marcar? Dentro do critério seguido pelo juiz, apenas um lance, aos 88 minutos, parece deixar dúvidas. Foi uma arbitragem perfeita? Não. Foi uma boa arbitragem? Sim.
A razão para tanto barulho é pois a mesma de sempre: a dificuldade em engolir os sucessos do Benfica, e em travar uma onda que nos vai tornando imparáveis.

15 DIAS À BENFICA

Passamos já o meio de Abril, e temos um mundo diante de nós.
Recordo-me como, não há muitos anos atrás, esta era normalmente uma fase de resignação, e de esperança…na temporada seguinte.
Neste momento, com nove jogos oficiais por disputar, podemos estar a caminho da melhor época de todos os tempos. Sim, de todos os tempos!
Esse sonho pode, porém, desmoronar-se num ápice. Como disse nestas páginas o meu amigo Pedro Ferreira, estamos entre um “quase tudo” e um “quase nada”, não sabendo ainda em que ponto exacto iremos terminar tão estimulante (e angustiante…) caminhada.
Estou convicto que os próximos quinze dias darão respostas mais conclusivas.
Acredito, por exemplo, que, ganhando ao Sporting na Luz, e ao Marítimo no Funchal, o Campeonato dificilmente nos irá escapar. Ultrapassando os turcos do Fenerbahce, voltaremos a uma Final Europeia - quase um quarto de Século depois da derrota de Viena ante o AC Milan de Gullit, Rijkaard e Van Basten -, na qual tudo será possível. Estes quatro jogos (a que devemos acrescentar um quinto: a recepção a um surpreendente Estoril-Praia), jogam-se em apenas quinze dias. Quinze loucos dias, que podem deixar-nos à beirinha do paraíso, mas, durante os quais, qualquer passo em falso nos fará cair no inferno, ou, pelo menos, num purgatório difícil de gerir e digerir.
Fui defendendo, ao longo da época, que, dada a aleatoriedade das provas europeias (decididas por detalhes), a prioridade deveria ser posta no Campeonato. Disse também que, eventualmente chegados a umas Meias-Finais, a equação poderia ter de ser reformulada. Ora aí estamos nós, com (os) três troféus para conquistar, e jogos decisivos atrás uns dos outros. Ninguém me peça agora para escolher. Quero ganhar tudo. Queremos ganhar tudo. E podemos ganhar tudo.
Acredito na equipa. Acredito no treinador. Acredito na estrutura. Só não sei como o meu coração irá resistir a cada jogo, a cada minuto e a cada lance, sabendo que de todos esses instantes dependerá este nosso encontro com a História.

FANTASIAS

Nada tenho contra o Boavista. Pelo contrário, creio que o Benfica teria a ganhar com a existência de um segundo clube na cidade do Porto, de forma a equilibrar os pratos de uma balança que tem em Lisboa um contra-peso a puxar-nos constantemente pelos calcanhares – e cujo fardo se faz sentir, não tanto nos relvados, mas principalmente no espaço mediático em redor dos mesmos.
Jogadores marcantes na história do Benfica, vieram do Boavista. Recordo-me, por exemplo, de João Pinto, Isaías ou Nuno Gomes.
Tive o privilégio de festejar um título (porventura o mais saboroso da minha vivência desportiva) nas bancadas do Bessa, sendo essa uma recordação que jamais irei esquecer.
Pese embora tudo isto, não posso estar de acordo com a recente decisão da Liga de Clubes, que não só aponta para a reintegração do Boavista no principal Campeonato, como, a reboque disso, impõe um alargamento suicida.
Deixo de lado o facto de tal decisão estar sustentada numa prescrição, que, pelo menos aos meus olhos, não inocenta ninguém. Detenho-me nos aspectos económicos.
A situação do país é conhecida. Os patrocinadores desaparecem como areia por entre os dedos. O flagelo dos salários em atraso atinge a maioria dos clubes. E, perante este panorama, eis que corremos o risco de ver um Campeonato inflacionado por equipas medíocres, com muito menor competitividade (e, esta época, à 25ª jornada, os dois primeiros ainda não perderam um só jogo), muito menos dinheiro para dividir, e, certamente, muito mais problemas, inclusive ao nível da verdade desportiva (ou da falta dela).
Defendo, há muito, uma Liga profissional com dez clubes (ou mesmo apenas oito), a quatro voltas, deixando tudo o resto por conta do amadorismo. Nem sei se uma II divisão fará sentido. Talvez apenas Campeonatos Regionais, com uma fase final para apurar uma equipa a promover. Tudo o resto é fantasia, de quem ainda não percebeu que o (nosso) mundo mudou, e que esta é uma actividade deficitária que poucos clubes têm condições para sustentar.

CUMPLICIDADES

Podemos acusar a Associação de Futebol do Porto de muita coisa. Podemos lembrar-nos de tudo o que aconteceu no dramático consulado de Lourenço Pinto no Conselho de Arbitragem da FPF. Podemos recordar escutas telefónicas, e fugas para a Galiza com avisos prévios. Mas há algo que todos temos de reconhecer àquela gente: a gratidão para com quem lhes presta bons serviços. Aliás, já vimos disto em filmes.
À Gala promovida pela referida Associação, e pelo seu sinistro presidente, não faltou ninguém. E, na maioria dos casos, não se pode dizer que não merecessem o convite. Falo, por exemplo, do impagável Pedro Proença.
Devo fazer, porém, um pequeno reparo. Achei algo injusto o lugar que lhe foi destinado na sala. O treinador André Villas-Boas, que deu somente um Campeonato Nacional ao FC Porto, tinha assento reservado na primeira fila, bem próximo de Pinto da Costa. Enquanto isso, o árbitro da brilhantina, que, com idêntico zelo, ofereceu, pelo menos, dois Campeonatos ao FC Porto - e nunca percebi se é o FC Porto o filiado na AF Porto, ou se, pelo contrário, é esta a funcionar como um mero departamento do clube -, ficava-se por uma modesta segunda linha, bem atrás daquilo que o seu protagonismo sempre fez por justificar. Pormenores à parte, há que dizer que o homem estava em família, e rodeado pela sua gente.
Não sei se, desta vez, houve lugar a prémios. Mais uma medalha, não lhe ficaria nada mal, embora fossem necessários muitos e muitos troféus para premiar todas e cada uma das ocasiões em que o juiz lisboeta ajudou os seus amigos.
Também desconheço quanto vale, nesta sombria contabilidade, uma final da Liga dos Campeões, e uma final de um Europeu. Saldo para um lado, ou saldo para o outro, o certo é que tanto a coluna do crédito, como a do débito, parecem neste caso muito bem preenchidas. Demasiado bem preenchidas.
Entre galas, relvados portugueses e nomeações internacionais, veremos como decorrem os próximos episódios desta saga, algures entre o romance e o “film noir”.

MULTI BENFICA

Quem tiver lido aquilo que escrevi, nesta mesma coluna, há uma semana atrás, percebeu ser minha convicção que cinco vitórias consecutivas do Benfica, nas próximas cinco jornadas da Liga de Futebol, representarão (com o devido respeito ao Moreirense) a conquista do respectivo título.
Para além dessa minha convicção pessoal – que, acredito, seja partilhada pela maioria dos benfiquistas, e também por muitos não benfiquistas -, está a matemática. Esta, mesmo com a implacável frieza dos seus cálculos, acrescenta apenas um número aos cinco triunfos que “pedi” aos jogadores encarnados. Ou seja, cinco vitórias mais uma, valem matematicamente o título, e aí não haverá Moreirenses que nos atrapalhem a vida.
As seis vitórias de que o nosso Futebol necessita para fazer a festa estendem-se, numa curiosa similitude, àquilo que se passa noutras modalidades.
Seis triunfos consecutivos garantem, também, a revalidação do título nacional de Hóquei em Patins, sendo que cinco deixarão as coisas praticamente à nossa mercê (tal como no Desporto-rei). Seis vitórias asseguram, igualmente, o título nacional de Andebol, que nos escapa há já alguns anos. Seis vitórias serão igualmente suficientes para erguer o ceptro de Voleibol, contando com os jogos que faltam da segunda fase, e com as duas primeiras partidas do Play-off final. Só o Basquetebol e o Futsal, dada a especificidade do formato dos respectivos Campeonatos, carecem de mais tempo, e mais vitórias, para renovar as conquistas do ano passado.
À semelhança do que sucede nos relvados, também nos pavilhões as próximas semanas serão decisivas. Elas determinarão até que ponto será possível repetir, ou (porque não?) superar, o feito histórico de 2011-2012, quando fomos vencendo sucessivamente Hóquei, Basquetebol e Futsal, acrescentando-lhes o Atletismo – que, também ele, tem somado títulos nos últimos tempos.
Isto sim, é Eclectismo com E grande. Não de palavreado (como se vê em alguns vizinhos invejosos), mas de competições, de vitórias, e de títulos.

VENHAM MAIS CINCO!

Rio Ave, Sporting e Estoril, na Luz. Deslocações a Olhão e aos Barreiros. São estas as cinco próximas jornadas do Campeonato. São estas, creio, as cinco vitórias que nos separam do título.
A semana passada correu particularmente bem ao futebol encarnado: apuramento europeu em Bordéus, e dilatar da vantagem doméstica em Guimarães, num jackpot de emoções que temos de saber gerir com entusiasmo, com confiança, mas de pés bem assentes no chão.
Se na frente internacional, com Chelsea, Tottenham e Lazio ainda em prova, o sonho de uma subida aos céus permanece mais distante do que aparenta, intramuros o Benfica depende agora apenas da sua concentração competitiva para alcançar o grande objectivo da temporada. É verdade que o pássaro europeu vai esvoaçando cada vez mais perto dos nossos olhos. Só que o de raça lusitana está já na nossa mão, e não o podemos deixar fugir.
Não é impossível vencer no Dragão na penúltima jornada. Muito menos trazer de lá um empate. Porém, nós sabemos, que eles sabem, que nós sabemos, que eles sabem, que nesta altura, ao contrário do que faria supor a mais inocente das matemáticas, a diferença entre quatro e três não é apenas um. Quatro pontos - estes mesmos que levamos de vantagem - podem dispensar uma decisão dramática, num terreno hostil, onde valerá quase tudo. Para nos salvaguardarmos dessa eventualidade, dispomos agora de um caminho alternativo. Ele passa por cinco vitórias, em cinco “finais” que terão de ser encaradas como os jogos das nossas vidas.
Há um Newcastle para ultrapassar, que acredito estar ao alcance de um bom Benfica - onde jogadores menos utilizados como Aimar, Carlos Martins, Rodrigo, Luisinho, ou os dois jovens Andrés, podem muito bem caber. Mas, mais do que nunca, julgo que a prioridade absoluta terá de ser o Campeonato, que no passado Domingo nos piscou ostensivamente o olho.
Quem tudo quer, tudo perde, diz o povo com sabedoria. Queiramos pois, com muita força, este 33º título. Se alguma coisa vier por acréscimo, tanto melhor.

HERÓIS DA LUZ

Se não estou errado, passaram já cerca de três meses desde a última vez que o Benfica jogou para o Campeonato em horários adequados. Leia-se, sem ser nas noites de Domingo.
É pois sem surpresa que se verifica um decréscimo de espectadores, facto a que, diga-se, também não será alheia a crise económica em que o país vive mergulhado - e, em menor medida, o rigoroso Inverno que a meteorologia nos destinou.
O clube vai fazendo os possíveis por chamar pessoas ao estádio. Quer dentro do campo, mantendo o 1º lugar, a invencibilidade, e a veia goleadora que tem caracterizado a era-Jesus; quer através da prática de preços convidativos, de que é exemplo o chamado “pacote-família”.
Não me parece fácil, porém, atrair multidões, quando sistematicamente se joga a horas em que quem ainda tem emprego (e pode pagar o bilhete) privilegia normalmente o conforto do lar. Acresce que, sendo o nosso Clube de matriz vincadamente nacional, e estando a maioria dos seus adeptos espalhada pelo país (ou pelo mundo), torna-se difícil encher a Luz apenas com benfiquistas de Lisboa. E não vejo como qualquer Casa do Minho, de Trás-os-Montes, ou da Beira Alta, possa organizar uma excursão apelativa em horários desta natureza.
Esta é uma das chagas do futebol português.
Em Inglaterra também há televisão, e quase todos os jogos se disputam de tarde. Em Itália também há televisão, e são poucas as partidas jogadas à noite (normalmente apenas uma por jornada). Na Alemanha também não há notícia de jogos nocturnos, excepto às sextas-feiras. Só em Espanha temos uma realidade mais parecida com a nossa, embora a capacidade desportiva e financeira dos principais clubes lhes permita encher os estádios, desde logo, com bilhetes de época.
Ir ao futebol no nosso país, em altura de austeridade, suportando viagens e bilhetes, apanhando frio e chuva, e regressando a casa a horas impróprias, é quase para heróis.
Espera-se que a Benfica TV ajude a resolver este problema nos próximos anos, devolvendo o futebol aos adeptos.

PRIMEIROS!

Com sorte, mas também com alma e capacidade de sofrimento, o Benfica saiu de Aveiro na liderança isolada da Liga Portuguesa de Futebol, acendendo as luzes da esperança na sua gigantesca massa adepta.
Faltam nove jogos, tudo continua por decidir, e a equipa dá mostras de não vacilar. A nota artística vai alternando, enquanto as vitórias se vão sucedendo, sendo necessário recuar quarenta anos na história para encontrarmos uma tão eficaz campanha.
É altura, pois, de recriarmos uma onda vermelha capaz de invadir as bancadas do nosso estádio, e percorrer todo o país, empurrando o Benfica rumo ao 33º título. É altura de entrarmos também nós em campo, para erguer a moldura que habitualmente enquadra os campeões.
Há quem fale de penáltis, atirando as razões da liderança benfiquista para as costas das arbitragens. Se nos lembrarmos das expulsões de Proença na Choupana, dos penáltis de Xistra em Coimbra, e das ”defesas” de Alex Sandro em vários locais, percebemos que tudo não passa de manobras de diversão de quem avista o perigo. Até porque as duas últimas grandes penalidades marcadas a nosso favor foram inequívocas, escapando a qualquer racionalidade as dúvidas levantadas por algumas vozes acerca delas.
Somos primeiros porque somos melhores, e não é só no Futebol que o Benfica mostra a sua força. Somos líderes também em Basquetebol, Hóquei em Patins, Voleibol e Andebol, mantendo todas as esperanças intactas no Futsal. Permanecemos nas Taças de Portugal de todas estas modalidades, com a excepção do Voleibol. Estamos entre os oito melhores da Europa do Hóquei. E como se tudo isto não bastasse, recebemos recentemente a doce notícia relativa à aquisição dos direitos de transmissão, para a Benfica Tv, da melhor e mais bonita liga nacional de todo o mundo - facto que traz dados novos ao mercado audiovisual português, e ao nosso posicionamento perante ele.
Tudo isto é Benfica. Tudo isto é, um grande Benfica. Acima de tudo e de todos, voando como uma águia que procura atingir os céus.

NÚMEROS HISTÓRICOS

Seria preciso recuarmos até 1984 para vermos um Benfica ainda mais forte nas primeiras vinte jornadas de um Campeonato Nacional de Futebol. Então, com Eriksson ao leme, e ainda com Bento, Humberto, Chalana e Nené na equipa, os encarnados chegaram a esta altura da prova sem qualquer derrota, mas apenas com dois empates consentidos (contra os quatro de 2012/13). Esse é, de resto, o único Campeonato do pós-Eusébio em que os números do Benfica se sobrepõem aos do actual. Diga-se, porém, que em 1983/84 já caíramos da Taça de Portugal, e agora estamos a um pequeno passo de chegar ao Jamor. Ou seja, olhando estritamente para os resultados, em cerca de quarenta anos é difícil encontrar paralelismo com a notável temporada que a nossa equipa está a realizar – sendo que, na frente externa, só uma estranha carambola de resultados nos impediu de prosseguir na Champions, e que, na Liga Europa, o primeiro e difícil obstáculo está já ultrapassado.
É certo que a competitividade deste Campeonato se resume aos dois principais emblemas, e que nem sempre assim foi. Havia Sporting, houve também, a seu tempo, Boavista, e do meio da tabela para baixo, a força da maioria das equipas era genericamente superior à que manifestam nos austeros tempos que vivemos.
Nada disto, nem o facto de (ainda) não estarmos em primeiro lugar, retira mérito ao trabalho destes jogadores, e, sobretudo, deste treinador. Recordemo-nos daquilo que se disse em Agosto, quando, por muitos milhões, Javi Garcia e Witsel partiram para outras paragens. Confesso que eu próprio duvidei, na altura, que tão rapidamente os esquecêssemos. Hoje vemos Matic (um dos melhores jogadores a actuar na nossa Liga), vemos Enzo Perez, e percebemos que mantemos uma “Senhora Equipa”, à qual Lima e Olá John também vieram acrescentar qualidade.
Ainda não ganhámos nada. Nem temos garantias de que o possamos fazer. Há muitas barreiras a transpor (equipas de futebol, e não só). Mas o caminho é este, e está a ser percorrido com eficácia e brilhantismo.

PRIORIDADES

Escrevo estas linhas antes da 2ªmão da eliminatória da Liga Europa. O resultado obtido na Alemanha deixou as coisas bem encaminhadas, mas neste tipo de competição, contra este tipo de adversário, não é possível cantar vitória antes do tempo.
O que quer que se diga aqui não perderá, porém, aplicabilidade. Nesta época (seria bom sinal), ou nas próximas, e sempre que nos virmos envolvidos em várias frentes, sabendo que dificilmente temos condições para triunfar em todas elas. Está em causa a dicotomia entre o sonho e a realidade, e a escolha entre o bom e o possível, sabendo que o óptimo tem poucos amigos.
Se alguém me perguntar se prefiro ganhar a Liga Europa ou o Campeonato, escolho, sem hesitações, a primeira hipótese. Avaliamos a dimensão histórica de cada conquista, e lembramo-nos que um título europeu é algo que nos escapa há mais de 50 anos. Sobretudo para a minha geração, que não viu José Águas erguer à Taça dos Campeões, seria muito importante ver Luisão com um troféu internacional nas mãos – e manda o pragmatismo perceber que só na Liga Europa tal sonho tem condições de se concretizar.
Mas este desejo não pode chocar com o grande desígnio estratégico do Benfica do presente, que passa por disputar a liderança do futebol português com o FC Porto. E sabemos que um plantel como o nosso terá dificuldades em aguentar a exigência de dois jogos de alta intensidade por semana, condição fundamental para conciliar o título nacional com uma grande prestação extramuros.
Creio, pois, que só um Campeonato prematuramente resolvido (a bem ou a mal, que é como quem diz, ganho ou perdido) permitiria apostar todas as fichas numa aventura europeia. No ponto em que estamos, onde cada jogo doméstico é absolutamente decisivo, não podemos levantar os pés do chão.
Se, com rotatividade e sorte, conseguíssemos porventura chegar a umas meias-finais, então seria de reequacionar prioridades. Até lá, não deve haver lugar a dúvidas. Nem na estrutura do clube, nem, sobretudo, na cabeça dos jogadores.

BASTA!

Já não há desculpas. Só é enganado quem quer.
Desde 2001 que ele anda por aí.
Teve tempo de resolver (pelo menos) dois Campeonatos, recebeu todas as insígnias que lhe deviam, não faltou às merecidas homenagens, e deixou cair todas as máscaras.
Começou por se auto-intitular “benfiquista”, certamente para dissimular vontades. Depois, sempre muito bem penteado, foi lançando as sementes de uma carreira frutuosa, que o levou Europa fora, até aos mais cintilantes palcos, para dirigir os mais importantes jogos, recebendo os louvores e prémios correspondentes.
Pelo meio, fez o que fazem aqueles que, nos meandros da arbitragem portuguesa, pretendem chegar longe: protegeu os poderes instalados, com o seu apito sempre afinado segundo a mesma escala, sem variações, sem uma só colcheia ou semi-fusa a destoar.
Não irei repetir-me. Não vou voltar a descrever todo o vasto e negro historial da criatura. Nem esta coluna daria para tanto.
Quero apenas manifestar o meu desejo, ou melhor, a minha exigência, de que isto não fique assim. Quero acreditar que a força social e institucional do meu Clube seja suficiente para impedir este indivíduo de continuar, época a época, a transformar jogos do Benfica num repetido Carnaval.
Não acredito em coincidências. Nem em azares – sobretudo quando se sucedem em série. E não duvido da sabedoria, da preparação nem da perspicácia de quem tão galardoado é. Sobram pois poucas hipóteses.
Achei graça a uma entrevista concedida nas vésperas do último Clássico. Diverti-me com as acrobacias retóricas de quem pretendia estar nesse jogo, certamente para fazer dele o que fez de outros. Mas esperava que o bom senso não permitisse voltar a vê-lo por perto.
Eis que regressou, em todo o seu esplendor, para dar mais um bailinho - agora na Madeira - a todos os que, ingenuamente, ainda crêem na sua isenção.
O homem continua a sua luta. Talvez queira tornar-se imortal. Talvez sonhe ser uma espécie de Calabote ao contrário. E enquanto o deixarem, enquanto o deixarmos, ele não irá parar.

PROENÇAMENTOS

A saborosa vitória em Braga significou um passo importante na luta pelo principal objectivo da época. Em teoria, tratava-se do segundo mais difícil compromisso do Campeonato, pelo que os três pontos alcançados não podem deixar de constituir um estímulo para jogadores, técnicos, dirigentes e adeptos, neste combate que se prevê renhido até final.
Com os dois “grandes” igualados na liderança, sem cederem pontos a ninguém, todo o país desportivo antevê uma penúltima jornada escaldante e decisiva, quando ambos se encontrarem frente a frente. E desde já se vai falando do nome do árbitro a escalar para a ocasião. Pedro Proença, com todos os galões regionais, nacionais e internacionais que alguém se encarregou de lhe conceder, é, obviamente, aquele que surge no horizonte dos que pretendem voltar a vencer um Campeonato à custa de lances irregulares – como o penálti de Lisandro em 2009, ou o golo de Maicon em 2012.
Não adianta recordar aqui o longo cadastro do homem, que começa no Bessa em 2002, passa por Penafiel em 2005, e, depois de muitos outros episódios, continua a deixar marcas, como se viu em Setúbal há pouco mais de uma semana.
Proença pode até ser considerado, por quem quiser, o melhor árbitro do universo. Por mim, sou livre de ter as minhas dúvidas de que seja o mais honesto; e o seu negro historial em jogos do Benfica demonstra que não é, seguramente, o mais imparcial.
Há já algum tempo escrevi que, por aquilo que me era dado a ver do mundo do futebol, o problema principal não estava na Liga, nem na FPF, nem no Gomes, nem no Pereira, nem na Olivedesportos. O grande vício residia nos próprios árbitros em pessoa, e, em particular, no grupo de internacionais que vai sendo homenageado, à vez, por Lourenço Pinto e amigos.
Os últimos tempos têm sedimentado essa ideia. E só espero que a recta final deste Campeonato não venha a confirmá-la de vez, com um qualquer fora-de-jogo a decidir o título, e um tipo de brilhantina a pedir desculpa em público, rindo-se de nós em privado.

STRONG...COMO OUTROS

A recente confissão de Lance Armstrong sobre as práticas de dopagem que o levaram a tornar-se num dos mais bem sucedidos desportistas de sempre, chocou o mundo, e, em particular, os fãs do Ciclismo, como é o meu caso.
Na verdade, ao longo da sua triunfante carreira, o hepta-campeão do Tour de France foi objecto de centenas de análises para despiste do consumo de substâncias proibidas, e nenhuma delas acusou qualquer ilegalidade. Só a denúncia de antigos colegas de equipa desencadeou o processo - que terminou agora, com o ex-campeão de joelhos perante o mundo.
Se a história do Ciclismo tem sido fértil em casos de doping, também é justo dizer-se que a modalidade tem estado quase sempre na vanguarda da luta contra ele. De recolhas sanguíneas surpresa efectuadas durante as férias, até aos chamados “passaportes biológicos” (onde vão sendo registadas as variações hematológicas de cada atleta), tudo tem sido feito para combater a fraude, pelo que não deixa de causar alguma inquietação a forma como foi possível, ainda assim, alguém enganar tudo e todos durante quase todo o tempo.
Ora, sabendo-se que o tipo de controlo aplicado ao Futebol, comparado com o do Ciclismo, não passa de uma mera e inocente formalidade, a suspeita de que a verdade desportiva nos relvados não passe, também ela, de um embuste, torna-se dramaticamente verosímil. Até porque os muitos milhões de euros envolvidos - bem mais suculentos no Desporto-Rei - são o convite que normalmente seduz os infractores.
Em Portugal, temos casos comprovados de tentativas de falsear a verdade desportiva por outros meios, nomeadamente através da corrupção de árbitros. Ninguém me convencerá facilmente que, esses mesmos corruptores, na ânsia de ganhar a qualquer preço, não se sirvam também de outros expedientes que a fragilidade da vigilância lhes coloca à disposição.
Não me surpreenderia, pois, que um dia o Futebol português revelasse um monstro de dopagem à medida de Armstrong. E com muito mais do que sete títulos para devolver.

AFIRMA PEREIRA

Há empates com sabor a vitória (Bessa, 2005). Há empates com sabor a derrota (Camp Nou, 2012). Mas há também empates com sabor a…empate. Foi o caso do último “Clássico”.
O Benfica fez mais remates, teve mais cantos, criou mais ocasiões de golo e sofreu mais faltas. O FC Porto controlou o jogo, impediu o adversário de fazer aquilo que gosta, e conseguiu o que queria, saindo do relvado em efusivos festejos. A arbitragem foi boa, deixando jogar, evitando até ao limite a mostragem de cartões, favorecendo assim um espectáculo que começou em grande estilo, manteve intensidade e emoção até final, mas não conseguiu cumprir aquilo que o frenético ritmo do primeiro quarto-de-hora parecia prometer. Houve, genericamente, correcção, quer dentro quer fora do campo. E o resultado acabou por ser justo, premiando com um ponto o empenho das equipas, e penalizando com dois os erros cometidos.
Num jogo desta natureza, com toda a pressão que o envolve, há sempre quem esteja menos feliz. O nosso Artur, por exemplo, costuma fazer muito melhor. Mas o figurão da noite, pela negativa, foi o acidental treinador portista.
Já sabemos que naquele clube ninguém tem voz própria, e todos se limitam a dizer aquilo que lhes mandam. Mas alguns, no passado recente, sabiam trazer os recados com maior assertividade. Este Pereira, que revela gritantes dificuldades em se afirmar como o verdadeiro comandante das suas tropas, espalhou-se ao comprido numa conferência de imprensa em tons de surrealismo.
Até poderíamos compreender que, mal habituado a penáltis de Lisandro, ou golos de Maicon, tenha estranhado não dispor, desta vez, do habitual obséquio dos juízes. Mas dizer do Benfica aquilo que disse, além de fazer rir o país desportivo, foi insultuoso, até para com os seus próprios jogadores.
Não é a primeira vez que o homem se enxovalha em público. Mas talvez seja uma das últimas. É que, fora do contexto em que herdou este FC Porto, não o vejo com nível para muito mais do que um qualquer Santa Clara desta vida.

"À PORTO"

Ninguém me contou. Eu vi, ao vivo e in loco. Estupefacto e revoltado. Com o meu filho ao lado.
Um guarda-redes de Hóquei do FC Porto agrediu, selvática e cobardemente, com uma violenta stickada, adeptos do Benfica que se encontravam na bancada perto do túnel de acesso aos balneários.
Pensei tratar-se do suplente, que, sentado no banco, tivesse sido alvo de especial provocação ao longo da partida, e jurasse vingança à saída de palco. Vim a saber tratar-se do titular (de capacete parecem iguais), que passou todo o tempo na baliza, sem que alguém, desde o local da agressão, o pudesse ter perturbado até àquele momento.
Acredito que tenha ouvido, de passagem, alguns impropérios, coisa natural num jogo entre rivais, em qualquer parte do mundo. Não vi ser arremessado qualquer objecto, ou algo que explicasse tamanha manifestação de brutalidade num indivíduo que é suposto ser desportista profissional, que tem idade suficiente para ter juízo, e que, para mais, acabara de vencer o jogo.
Minutos depois, entrou a Polícia, e deteve…um adepto do Benfica. Não percebi porquê, mas, infelizmente, tenho a preocupante certeza de que no Dragão as coisas seriam diferentes. Aliás, para aqueles lados, tudo é diferente. Entre Madureiras, Abeis e Lourenços Pintos, há um território sem lei, e uma protecção, não da ordem pública ou da cidadania, mas antes daqueles que representam uma dada ideologia de guerrilha regionalista e provinciana - extensível, de resto, a certos meios de comunicação social, o que se viu na forma como este caso foi tratado.
Não sei se o meu filho quererá voltar ao Hóquei. Nem o que lhe dizer se, por absurdo, voltar a ver aquele guarda-redes numa baliza. Mas, pelo menos, a tarde serviu-lhe para perceber aquilo que é jogar à Porto (com intimidação, provocações e teatro na pista), ganhar à Porto (com uma inaceitável dualidade de critérios da arbitragem), e sair à Porto (com ódio, arrogância, violência e impunidade). Coisas que nós, mais velhos, há trinta anos bem conhecemos.