QUE BELO DIA PARA VOLTAR

Ora cá estou eu.



Depois de umas semanas de ausência (entre férias e afazeres diversos), volto hoje a este espaço, e pode dizer-se que escolhi bem a data. Com um espectáculo à medida, o Benfica entrou pela porta grande na casa dos campeões,…e dos milhões, enchendo de satisfação todos os seus associados e adeptos.



Ainda voltarei aos temas do defeso, e a tudo o que nestas semanas ficou por dizer. Mas a actualidade manda que me centre, por agora, no jogo desta noite, e no categórico apuramento do Benfica para a principal prova de clubes do mundo.



Com o resultado obtido na Holanda, sabia-se que a equipa de Jorge Jesus partia em vantagem. Não sendo o Twente propriamente um Real Madrid, e conhecendo-se a simpática tradição que temos mantido nas últimas décadas face ao aberto, e de certa forma romântico, futebol holandês, até um céptico como eu (e ao longo destas semanas, digo desde já que vivi o futebol com algum distanciamento, e até desencantamento) acreditaria firmemente na passagem. O ritmo que os encarnados imprimiram à partida desde o apito inicial apenas confirmou esse favoritismo, e calculava-se que um primeiro golo pudesse, por arrasto, concluir a empreitada, proporcionando uma segunda parte tranquila aos quase 50 mil espectadores presentes no Estádio a Luz.




O problema é que até ao intervalo o raio do golo não apareceu. Uma, duas, três, quatro ocasiões claras, e a bola teimava em não entrar na baliza de Mihaylov. Como quem não marca sofre, como as segundas partes do Benfica têm sido pautadas por grande ansiedade e insegurança, temeu-se então que pudéssemos estar perante mais um daqueles desfechos encomendados pelo diabo, que marcaram a temporada passada, e me deixaram com tão pouca vontade de escrever durante meses.




Um golo a abrir o segundo período foi o remédio de que a situação carecia. E que golo, senhores! Axel Witsel, o melhor em campo, aquele cuja contratação eu, logo na altura, tanto saudei, com um vistoso pontapé de bicicleta pôs o Benfica em vantagem, e sossegou as almas que já então começavam a dar sinais de algum sofrimento. Era, como disse, aquilo que os encarnados necessitavam, e daí em diante nunca mais esteve em causa o apuramento benfiquista, até porque Luisão, e novamente Witsel, avolumaram o resultado até às portas de uma goleada - que, diga-se, não ficaria nada mal ao futebol que os noventa minutos evidenciaram.




Ainda houve tempo para a equipa holandesa amenizar o desaire, e para, nos instantes seguintes, pairar no relvado a versão mais preocupante do Benfica 2011-12 (…e 2010-11). Mas o tempo que restava era já muito pouco, e só uma hecatombe (como algumas que aconteceram na temporada passada) poderia retirar das mãos do Benfica aquilo que já ele, tão brilhantemente, tinha alcançado.




O destaque individual vai inteirinho para o belga Witsel, jogador cuja titularidade não pode ser, sequer, equacionada. É jovem, tem talento, tem força, tem cultura táctica. É um craque destinado a ser uma das principais figuras deste renovado Benfica. Além de que a também excelente exibição de Pablo Aimar constitui prova cabal da compatibilidade entre ambos. O onze escalado para este jogo é, de resto, aquele que me parece o ideal, pelo menos nesta fase da temporada.




Mesmo estando no lance do primeiro golo, Gaitán foi, em sentido inverso, o jogador que mais me desapontou. Até porque tinha, e tenho, a expectativa de que seja ele a próxima venda milionária do clube da Luz. Para tal, terá de juntar ao brilho que o seu enorme talento frequentemente atinge, a regularidade competitiva que se exige aos jogadores de topo. Ontem, como no sábado, como em Barcelos, esteve longe daquilo que espero dele.




Já de um sorteio nunca podemos esperar grande coisa. Sai aquilo que tiver de sair, o que não significa - de modo algum - que estes momentos não definam as possibilidades das equipas, sobretudo as de nível médio (à escala internacional, entenda-se) como o Benfica. Se eu pudesse escolher, evitaria Manchester City e Zenit no pote 3, e Borússia de Dortmund e Nápoles no pote 4. Quanto ao pote 1…,quem vier será bem vindo, sendo aqui talvez mais importante o calendário dos jogos (não será o mesmo receber um Real Madrid ou um Barcelona na última jornada, provavelmente já qualificados, do que numa situação em que necessitem de pontos), do que propriamente um adversário - que, em condições normais, será sempre favorito. Ainda assim, Arsenal, Bate Borisov e Otelul seriam aquilo que mais se poderia aproximar de um “Jackpot”. Por mim, pessoalmente, Real Madrid, Ajax e Dínamo de Zagreb deixar-me-iam satisfeito.

ATÉ JÁ!

Chegou a minha hora.

Este ano, um pouco mais cedo que o habitual, terei de fazer uma pausa na actividade deste espaço.

Sou apenas eu a alimentá-lo enquanto editor, e ninguém me paga para ajustar as férias ao calendário futebolístico. Como tal, esta é uma situação que não posso evitar.

Provavelmente não estarei de volta antes do final do mês de Agosto. Até lá conto, entre muitas outras coisas, concretizar o sonho de assistir ao vivo (já este domingo em Paris) à etapa final da Volta à França em Bicicleta.

Vou falhar o jogo europeu do Benfica, que nem na televisão poderei ver. Mas quando começarem as competições nacionais já poderei estar mais atento ao que então se vier a passar, pelo que, quando voltar, terei certamente muito para escrever.

Desejo umas boas férias (ou, se for caso disso, bom trabalho) a todos os prezados leitores. Desejo, particularmente aos benfiquistas, muitas alegrias nos próximos jogos, e que o primeiro objectivo da temporada (apuramento para a Champions) seja uma realidade.

FINALMENTE A ZERO


Seria necessário recuar cinco meses, mais precisamente ao dia 24 de Fevereiro, para encontrarmos um jogo, oficial ou particular, em que o Benfica não tivesse sofrido golos. Foi em Estugarda, em partida da Liga Europa, que tal sucedera pela última vez. Esta noite, na apresentação da equipa aos sócios, voltou finalmente a acontecer.


Mesmo com muitas questões por solucionar na linha defensiva, e descontando uma certa fragilidade do opositor, o facto da baliza ter permanecido inviolável não deixa de ser um bom sinal para a próxima semana, designadamente para o jogo com o Trabzonspor, onde vai ser muito importante que essa inviolabilidade se repita.


Paradoxalmente, esta partida de apresentação mostrou um Benfica ineficaz no ataque, e bem mais seguro na sua parte de trás. As incorporações de Emerson e Garay também terão ajudado, mas é bem possível que algumas movimentações colectivas tenham sido particularmente acauteladas por Jorge Jesus, acrescentando segurança, e subtraindo risco ofensivo.


Este tipo de jogo serve também para mostrar as novas caras, e atestar do estado de forma das mais antigas. Cada vez parece-me mais evidente que o grande jogador do Benfica 2011-2012 vai ser Nico Gaitán. Mesmo sem encher o olho, o argentino (que para mim é um “dez”) voltou a mostrar uma vivacidade, e uma audácia, que há um ano atrás ainda encolhia. Quanto ás novas aquisições, devo dizer que, para além dos defesas, gostei bastante de Enzo Perez e, uma vez mais, Nolito. Pelo contrário, Witsel, ainda não mostrou o que vale.



Como não pude estar na Luz, não sei qual foi a reacção dos sócios a Eduardo. Espero que, com Artur/Eduardo, não se esteja a criar um novo fenómeno Moreira/Quim ou Quim/Moretto, e que qualquer jogador que vista a camisola do Benfica, e se esforce por defendê-la, seja igualmente apoiado.


PS: Não tenho falado sobre o Sporting, mas a última contratação surpreendeu-me bastante. Tinha Capel (do qual me lembro ser a estrela das selecções jovens espanholas) como um jogador destinado a um Real Madrid ou um Barcelona. Veio para o Sporting. Ou anda metido na cocaína, e alguém se quis ver livre dele, ou então, conseguir contratá-lo a preço de saldo, foi uma verdadeira lança em África.

13+10=23, O PREÇO DE UMA OBSESSÃO

O que se diria do Benfica, e dos dirigentes do Benfica, se contratassem dois jogadores que nem são internacionais A do seu país (um não é sequer titular no seu clube), por 23 milhões de euros, sendo que nenhum deles chega no imediato (um em Setembro, ou outro talvez só em Janeiro)?

O que em Lisboa é irresponsabilidade e devaneio, no Porto (onde a crise, pelos vistos, não chega), é sábia gestão.

Aqui não há espionagens. Aqui há loucura e obsessão em erguer vaidades como se fossem peças de caça.

BASTANTES MELHORIAS, MAS...

Cumpriu-se a tradição. O Benfica venceu o Torneio Guadiana, e, com ele, elevou as expectativas relativamente à sua época. Só faltou ser Nuno Gomes a levantar a taça para se repetir um quadro já visto e revisto em temporadas anteriores.

A vitória no torneio foi justa, e traduz claras melhorias competitivas face ao estágio na Suíça. Outra coisa não seria de esperar.

Embora o principal problema persista (na defesa), do meio campo para a frente já se sentiu algum perfume no futebol encarnado. Há reforços que são mesmo reforços, e alguns já da casa também parecem caminhar para a melhor forma. Falo, no primeiro caso, de Witsel, Matic, Nolito, Perez e Bruno César (todos centro-campistas), e no segundo de Gaitán e Saviola.

Também na baliza a situação estabilizou. Artur tem mostrado os atributos que fizeram dele um dos melhores guarda-redes da temporada passada, pelo que não creio que seja oportuna (e muito menos necessária) a contratação de Eduardo – que me parece condenado a passar uma época no banco, e a perder a titularidade na selecção nacional.

Mas, se o excesso não é um problema grave, já a escassez o pode ser. É o que se passa com o sector defensivo, onde a Copa América (nos casos de Maxi, Luisão e Garay), e não sei bem o quê (no caso do lateral-esquerdo), têm certamente tirado o sono a Jorge Jesus. É este o ponto de preocupação face ao plantel encarnado, até porque as segundas linhas (algumas delas perdidas em adaptações necessárias ao colectivo, mas prejudiciais à sua afirmação individual) não têm, genericamente, dado provas de estar à altura das exigências. Acresce que Roderick está no Mundial sub-20, Ruben Amorim e Jardel estão lesionados, e Miguel Vítor lesionou-se agora. Pior era impossível.

Maxi, Garay, Luisão e Capdevilla (a confirmar-se a contratação) asseguram um quarteto de qualidade indiscutível. O problema é que dificilmente poderão jogar todos a eliminatória europeia, e caso o façam, fá-lo-ão sem qualquer trabalho de mecanização prévio. Mas mesmo numa perspectiva de médio prazo – falo do campeonato -, não me parece que fosse má ideia adquirir mais um bom central.

Enfim. Veremos o que o jogo de apresentação reserva. Será a última oportunidade para fazer testes. A seguir, será a Europa que irá estar em causa.

POUCA SORTE

O adversário é o... Trabzonspor.

Das cinco possibilidades, era, no meu ponto de vista, a segunda pior. Pela viagem longa, pelo ambiente, e por uma equipa que terminou o campeonato com os mesmos pontos do campeão, sofrendo menos 11 golos que ele.

UMA PIADA DE MAU GOSTO

Um jornal desportivo dá hoje como provável a saída de Luisão do Benfica. Trata-se, como é óbvio, de uma piada de mau gosto.



Luisão é o capitão , é um jogador fundamental (o mais fundamental de todos) na estratégia da equipa, e a sua eventual saída não significaria outra coisa que não entregar ao FC Porto, em bandeja de prata, mais um título nacional.



Há jogadores cuja cotação de mercado suplanta o peso desportivo que têm nas suas equipas. Esses, são de vender. Por muito que gostasse de Di Maria, David Luíz ou Fábio Coentrão, e por maior que fosse a sua importância no colectivo encarnado, verbas de 30 milhões não se podem recusar. Ninguém me ouviu uma palavra a condenar essas saídas - pelo contrário, aplaudi cada um desses negócios, que tomo como naturais e fruto das vicissitudes do futebol moderno.



Já os jogadores cuja cotação é, por via da idade, ou por qualquer outro motivo, inferior ao peso que têm no conjunto, não se podem deixar partir em circunstância alguma. Luisão (como, por exemplo, também Maxi Pereira) é o paradigma desse tipo de jogador, pelo que se torna inaceitável que o Benfica pondere, sequer, a sua negociação.



Não se trata de sentimentalismos. Não os tive para com Nuno Gomes, por muita simpatia que o avançado me despertasse, até sob o ponto de vista pessoal. Entendi a sua dispensa como uma opção técnica, perante alguém cuja utilização em campo era pouco mais que residual.



Luisão é um caso totalmente diferente. Trata-se da trave mestra da equipa, e do seu jogador mais importante, fora, mas também dentro do campo. Trata-se de alguém que, com a sua capacidade, com a sua experiência, com a sua integração na equipa e no clube, o Benfica nunca iria conseguir substituir, a menos que gastasse ainda mais do que os 20 milhões da sua cláusula de rescisão.



Se Luisão quer sair, se faz pressão para sair, reflicta-se sobre as causas dessa intenção, e sobre os motivos pelos quais Falcão acaba de renovar com o FC Porto. Trata-se de um aumento de salário? Aumente-se! Não se pode aumentar? Vendam-se aqueles que, no plantel, auferem mais do que ele!



Luisão e Maxi Pereira são os únicos – leram bem, únicos! – jogadores do Benfica que considero absolutamente inegociáveis. Neste momento, a saída de qualquer um deles não comprometerá apenas uma época. Poderá comprometer… uma década.



E quem não perceber isto, percebe seguramente ainda menos de futebol do que eu.




PS: Falei aqui de Falcão. A renovação do seu contrato, num momento em que é pretendido por Chelsea, Manchester United e Real Madrid, é algo que me deixa de boca aberta. Ou a nova cláusula já prevê a irreversibilidade da venda, ou há aqui uma forma de negociar que, obrigando-me a tirar o meu chapéu, deveria ser bem estudada e analisada pelos responsáveis do Benfica e de todos os grandes clubes.




PS2: Ainda a propósito de Falcão, tenho de dizer que não vi Jorge Mendes a negociar o aumento da cláusula de Fábio Coentrão, para o Benfica lucrar mais com a venda do vila-condense. Pelo contrário, vi-o precipitar o negócio, perturbando a capacidade negocial dos encarnados. Outro motivo para reflexão, sobretudo para quem ainda tenha dúvidas sobre o carácter e os interesses que movem aquele empresário. E não é certamente por amor clubista a qualquer emblema.

A CHAMPIONS COMEÇA AQUI

ODENSE B. (Dinamarca)



FC ZURIQUE (Suíça)FC VASLUI (Roménia)







TRABZONSPOR (Turquia)




RUBIN KAZAN (Rússia)



A ordem é a da minha preferência.

A NOVA CORRELAÇÃO DE FORÇAS

...obviamente, apenas com os dados que o momento disponibiliza.

O ONZE IDEAL


SEGURANÇA E SOLIDEZ

"Ao longo das últimas semanas este espaço tem sido dedicado ao futebol benfiquista, e àquilo que, na minha perspectiva, mais poderia contribuir para o seu crescimento competitivo. Nunca será demais repetir que o exercício resulta ferido de superficialidade, pois só do lado de dentro se poderão, com rigor, identificar os eventuais problemas, e a melhor forma de os solucionar. Para mim reservo, apenas, o mero olhar do adepto despretensioso, que mais do que fornecer respostas procura levantar questões para reflexão comum.

Fecho hoje a série entrando - se me é permitido - no domínio táctico, para abordar um aspecto que, creio, esteve na base de algumas das mais importantes derrotas sofridas pelo Benfica ao longo da temporada passada: a falta de solidez defensiva.

Pode dizer-se que em 2011-12 o Benfica sofreu dois tipos de derrotas: as causadas por protagonismos alheios, e aquelas que não nos deixam espaço a quaisquer razões de queixa.

As primeiras tiveram origem em arbitragens absolutamente grotescas, às quais não havia táctica que pudesse fazer frente. Foi o caso das primeiras jornadas da Liga (Académica, Nacional e V.Guimarães), que nos condicionaram desde logo na luta pelo título, ou da derrota de Braga, que nos colocou definitivamente fora dela. Fui lembrando estes episódios ao longo do ano, e por agora apenas desejo (ainda que com alguma dose de desconfiança) que o próximo início de temporada não nos traga novos motivos de indignação.

Se quanto a esse tipo de derrotas pouco poderíamos fazer, já para as restantes teremos de encontrar explicações dentro da nossa casa, dentro da nossa equipa, e na forma como ela jogou. Recordo, por exemplo, a cinzenta passagem pela Liga dos Campeões, onde, se exceptuarmos setenta minutos de um jogo frente ao Lyon, tudo o resto foi medíocre. Recordo também os jogos com o FC Porto, da Supertaça aos cinco-a-zero, culminando com duas amargas derrotas caseiras.

No âmbito deste segundo tipo de desaires (provas internacionais e FC Porto), é possível, desde logo, identificar um traço comum: sempre que defrontou adversários fortes, a equipa de Jorge Jesus revelou uma chocante falta de segurança defensiva, aspecto que acabou por determinar os resultados. Concluímos a participação na Champions com um goal-average de 0-7 nos jogos fora; sofremos a maior goleada da história no estádio do principal rival; e vimos a bola entrar na nossa baliza em todas as últimas 19 partidas oficiais da temporada. Demasiado golo para tantas ambições.

Não falo aqui de Roberto – guarda-redes com qualidades, a quem faltará maturidade -, nem sequer dos elementos que constituíram a linha defensiva, e que, individualmente, não tiveram maus desempenhos (veja-se Maxi Pereira, veja-se Luisão, veja-se, sobretudo, Fábio Coentrão, veja-se, até, David Luiz, que fez toda a primeira metade da temporada).

Falo sim de um modelo de jogo que, a espaços, se mostrou excessivamente audaz, e com pouca base de sustentação, sobretudo se atendermos às características de um meio-campo muito macio (particularmente nos corredores), e pouco dado a tarefas defensivas. Nas partidas da Liga dos Campeões essa mácula foi gritante, e notou-se principalmente no terreno dos adversários. De Gelsenkirchen e, também, do Gerland, poderíamos ter trazido empates a zero, de Israel talvez estivéssemos obrigados a trazer uma vitória, e com esses resultados o apuramento teria sido uma realidade. Em todos esses jogos o Benfica partiu para cima do adversário, tentando desesperadamente - e desordenadamente - o golo, praticando um futebol demasiado ousado, quando (não tenhamos medo das palavras) não tinha equipa para tal. Atirar onze jogadores para cima de um Naval ou de um Rio Ave não é o mesmo do que fazê-lo na Liga dos Campeões, ou mesmo diante de um adversário forte como foi o FC Porto de Villas-Boas. Aparentemente, foi isso que o Benfica sempre tentou, com os resultados que se conhecem. Faltou consistência à nossa equipa, que nessas alturas não soube temperar a sua ânsia ofensiva, nem defender-se das suas próprias fragilidades.

Creio que um Benfica ganhador terá como grande desafio manter a chama atacante de que Jorge Jesus inegavelmente o dotou, e paralelamente ser capaz de apoiar o seu futebol numa muito maior consistência defensiva. Isso passa por saber gerir os ritmos de jogo de forma mais calculista, percebendo que ganhar 1-0 será sempre melhor do que empatar 3-3, e empatar 0-0 será sempre melhor do que perder 2-3. Passa por entrar em certos campos (nomeadamente na Liga dos Campeões) admitindo que o adversário é superior, e que sem primeiro o conseguir manietar restarão poucas hipóteses de vencer. E passa por jogar com onze jogadores que defendam (e bem) sempre que não tenham a bola nos pés, tudo isto sacrificando, se necessário for, alguma espectacularidade plástica – reluzente aos olhos, mas quase sempre inconsequente na hora de apurar os verdadeiros campeões."

LF no jornal "O Benfica" de 01/07/2011

A TEMPO?

Desta vez não foi por opção. Afazeres profissionais impediram-me mesmo de ver os primeiros 60 minutos de jogo, pelo que quando liguei a televisão já o Benfica perdia, a meia-hora do fim, por 1-0, sofrendo pouco depois o segundo golo.


Não terei perdido grande coisa, e, daquilo que vi, não tenho muito a acrescentar ao que aqui já disse.


Lamentavelmente, no momento em que o Benfica devia estar a preparar uma equipa para garantir o acesso à Champions, está ainda a escolher um plantel. Pior que isso, está a escolhê-lo de entre uma manta de retalhos composta por jogadores avulso – vários para as mesmas posições, nenhuns para outras posições -, entre os quais, pelo que se está a ver, nem sempre a qualidade é inquestionável.


Não compreendo esta pré-época, nem a abordagem que tem sido feita ao mercado. Não sei quem é responsável pelas aquisições, pelo que não estou a criticar ninguém em particular. Simplesmente não entendo, e desejo firmemente que tal se deva a limitação minha. Faltam 13 dias para a Liga dos Campeões, mas quem não soubesse, nem desconfiaria, tais as indefinições que grassam no plantel e na equipa.


A esperança é a última a morrer, e embora tema o pior, o meu benfiquismo obriga-me a calar os medos. Creio que ainda há tempo de inflectir caminho, e espero que os próximos dias o comprovem.


Não baterei mais no ceguinho, confiando que, com Witsel (diz-se ser um grande jogador), com Danilo (também de qualidade insofismável), e sobretudo com Ansaldi (ou outro lateral-esquerdo acima de suspeita), bem como com o rápido regresso de Maxi e Luisão, e com a incorporação de Garay, o Benfica ainda possa estar a tempo de formar uma grande equipa.

COLECÇÃO DE MÉDIOS

Meio-campo 1: Javi Garcia, Enzo Perez, Aimar e Gaitan





Meio-campo 2: Matic, Ruben Amorim, Carlos Martins e Urreta





Meio-campo 3: Nuno Coelho, Ruben Pinto, Bruno César e Nolito





Meio-campo 4: Witsel(?), Danilo(?), David Simão e César Peixoto





Meio-campo 5: Yebda, Balboa, Miguel Rosa e Fernandez










Cinco vezes quatro, vinte. Vinte! Vinte médios (a grande maioria do corredor central), que davam para encher todo um plantel. E nem se contam os que já estão colocados, como Airton, Fellipe Bastos, Felipe Menezes, e mais alguns jovens.




Olho para este quadro, e penso na falta que fazem um defesa-central (ou dois), um lateralzinho esquerdo (ou dois), e, já agora, também um ponta-de-lança para concorrer com Cardozo.

PARA JÁ...NADA

Apesar de ter feito, para a Benfica TV, a antevisão do jogo com os amadores de Friburgo, não fiquei lá para ver mais do que os dez minutos iniciais.



Eram horas de jantar, mas a verdade é que não me recordo de uma pré-temporada que me despertasse tão pouco entusiasmo como esta. Se pudesse escolher, estava mais dois ou três mesitos sem futebol, reservando o tempo livre para livros e, neste mês de Julho, também para o Tour de France – particularmente emotivo, e do qual conto, cumprindo um sonho de muitos anos, assistir à última etapa ao vivo, dentro de duas semanas em Paris.



Confesso que, depois do trauma de Braga (que ainda não ultrapassei totalmente), depois de uma época tão complicada, não tenho muitas saudades do Benfica, e preciso de um empurrão (um apuramento para a Champions, por exemplo) para retomar os níveis de entusiasmo próprios de um início de temporada. Até lá, até esse eventual click, irei arrastar-me, entre a quase obrigação moral de ver os jogos, e a tristeza de deles não esperar grande coisa, agravada pela inquietação de temer mais uma época decepcionante.



Vi, no entanto, o resumo da partida de sábado, e, acabei por ver cerca de dois terços do jogo de domingo.



Se um jogo contra os empregados do hotel nunca daria para tirar quaisquer conclusões, já o confronto com o Servette (equipa modesta, mas, profissional) evidenciou alguns aspectos de relevo, embora quase todos negativos.



Com a defesa titular toda de fora (Maxi Pereira, Luisão, Garay e lateral a contratar), as segundas linhas deixaram uma péssima imagem da sua capacidade para aguentar o barco, designadamente nos jogos da pré-eliminatória europeia, cuja primeira mão tem lugar já dentro de quinze dias. Jardel confirmou não ser opção a ter em conta para a titularidade (e porventura nem para o banco), e nem Roderick, nem André Almeida, nem Wass, nem Fábio Faria, deixaram garantias de ser casos muito diferentes. Só Miguel Vítor terá ganho alguns (poucos…) pontos, mas uma defesa assim quase faz suspirar por nomes como…Luís Filipe, Sidnei ou César Peixoto.

Por falar em defesa, começa a não se entender, nem desculpar, a não contratação de um lateral-esquerdo. O tempo vai passando, a pré-eliminatória está à porta, e se a Copa América é uma fatalidade com a qual o Benfica tem de lidar, os sucessivos adiamentos na questão do lateral têm apenas a ver com a SAD. Neste momento já não está em causa fazer um bom ou mau negócio, mas sim responder a uma necessidade absolutamente urgente. É preciso entender isso, sob pena de comprometer toda uma época, e lá para Maio de 2012 estarmo-nos todos a queixar da má sorte.



Diga-se também que a primeira impressão sobre os reforços não foi inteiramente favorável. Matic deixou um ou outro apontamento, mas tem o lugar tapado, e não sei como possa ser útil noutra posição que não a de Javi Garcia. Bruno César é bom com a bola no pé, mas, ou me engano muito ou não tem, para já, consistência táctica para o modelo de jogo que se exige ao Benfica. Wass e Rodrigo são, na melhor das hipóteses, esperanças para o futuro. Enzo Perez andou bastante escondido, e só Nolito terá sido a excepção, mostrando alguns atributos interessantes.



Enfim. Como nota positiva percebe-se que do meio-campo para a frente o onze-base já vai estando alinhavado. Se Aimar, Gaitán, Cardozo e Saviola engrenarem cedo, os aspectos ofensivos da equipa poderão estar relativamente acautelados. Mas se no ataque as coisas podem, com o tempo de treino, e com este tipo de jogos, ir melhorando, na defesa só com outros jogadores seria possível dormir descansado. E se aparece um qualquer Panathinaikos no sorteio de sexta-feira, lá se vai o regresso à Europa dos grandes.

Amanhã há mais. Desta vez com o Dijon.

QUEBRA-CABEÇAS

Se a UEFA admite a inscrição de 25 jogadores, e se oito dos quais têm de ser portugueses (ou, em alternativa, deixar as vagas por preencher), a matemática aponta para um máximo de 17 jogadores estrangeiros por clube.




No plantel encarnado, os guarda-redes ocupam, pelo menos, duas vagas (Artur mais Roberto ou Júlio César), pelo que, em termos de jogadores de campo, passa a haver lugar para um máximo de 15 estrangeiros em 22 atletas.




Ora bem… Maxi Pereira, Luisão, Garay, um lateral-esquerdo a contratar, Javi Garcia, Enzo Perez, Aimar, Gaitán, Cardozo e Saviola são certezas no plantel (e mesmo que algum possa eventualmente ainda ser vendido, não vejo muitos substitutos à altura no mercado nacional). Citei dez nomes, o que deixa apenas margem para outros cinco não portugueses.




Shaffer não deve ter espaço no plantel, e diz-se que Kardec deverá ser emprestado. Restam assim: Wass, Jardel, Carole, Matic, Bruno César, Urreta, Jara, Nolito, Rodrigo Mora e Rodrigo. Dez nomes ao todo, dos quais cinco terão obrigatoriamente de ser riscados por Jorge Jesus.




Quais? Esse é o exercício que vos proponho, e que resulta particularmente difícil se atendermos aos necessários equilíbrios do plantel, e às posições em que o mesmo está mais carenciado.

PONTO DE SITUAÇÃO

Bolas amarelas, portugueses (pelo menos 8); bolas castanhas, jogadores da formação (pelo menos 4).



Se César Peixoto sair, terá de sair também o Jardel, entrando Carole e Fábio Faria (ou o Nuno Coelho), de modo a manter os rácios.

Ruben Pinto precisa de um ano de rodagem, e não o estou a ver ainda no plantel principal..



Parece haver demasiados médios (e já estou a retirar o Ruben Pinto, o Nuno Coelho e o Urreta), e pouco peso no centro da defesa (apenas dois jogadores aptos à titularidade), bem como no centro do ataque (onde Mora é para mim uma incógnita, e Nélson ainda me parece um pouco verde).


Rodrigo e Urreta, sendo estrangeiros, não devem ter muitas hipóteses de ficar.



Mas a prioridade é, claro, o lado esquerdo da defesa.

TRÊS INQUIETAÇÕES

1- Necessitando (segundo as regras da UEFA) de 8 portugueses no plantel, 4 deles oriundos da formação, porque motivo o Benfica dispensa Moreira (que preenchia ambos os requisitos), mantendo Júlio César e Roberto?


2- Sabendo-se há vários meses que Fábio Coentrão iria sair (e não era preciso ser vidente), porque motivo não está ainda contratado um substituto? Eu estava convencido que apenas se esperava o anúncio oficial da transferência do português para Madrid, para anunciar o novo reforço. Pelos vistos, e sem que se perceba porquê, ele ainda não existe. E faltam 18 dias para o primeiro, e decisivo, embate europeu.


3- Como é possível que Falcão, pretendido por vários clubes de grandes campeonatos europeus, ainda admita renovar com o FC Porto, e aumentar a sua própria cláusula de rescisão? O que faz, promete ou oferece o FC Porto aos seus jogadores, e/ou aos seus empresários? Seria interessante percebermos isso.

FACES OCULTAS

"O ciclismo é uma das modalidades que mais me apaixona, e é ele que me preenche o vazio dos meses de defeso, sobretudo quando o maravilhoso “Tour de France” sai para as estradas.

Desde que me lembro, o desporto velocipédico é também aquele que, aparentemente, mais propenso se mostra ao fenómeno do doping. Está em andamento um processo que pode vir a suspender Alberto Contador (indiscutivelmente o melhor da actualidade), há denúncias comprometedoras para Lance Armstrong (outro grande campeão), e todo o espaço desta coluna não daria para enumerar os ciclistas castigados por práticas de dopagem – sobretudo após o eclodir dos casos “Festina”, em 1998, e “Operação Porto” (que nome?!), alguns anos mais tarde.

Por vezes interrogo-me se o ciclismo será mesmo a modalidade onde o doping mais prolifera, ou apenas a mais controlada, e, como tal, aquela em que mais casos dão à costa. É possível que a resposta esteja algures a meio, mas o que é indesmentível é que o tipo de controlo feito no ciclismo nada tem a ver, por exemplo, com o do futebol.

Actualmente, cada ciclista está obrigado a uma espécie de passaporte biológico, constituído por análises sanguíneas regulares, onde ficam registadas todas as suas variações hematológicas. À mais pequena anomalia, segue-se uma bateria de exames complementares, e as correspondentes explicações médicas.

Esta evolução surgiu porque as novas formas de dopagem já não eram detectáveis através das tradicionais análises à urina. O tempo das anfetaminas já lá vai. Hoje existem a EPO, a CERA, as hormonas de crescimento, as auto-transfusões, e já se fala de doping genético.Neste contexto, que motivos temos nós para acreditar que o futebol - que movimenta muito maiores interesses, e muito mais milhões - permaneça imune a estas práticas? E sem um rigoroso despiste sanguíneo, que garantias podemos ter de que grandes vitórias de certos clubes (sobretudo os que já se mostraram capazes de recorrer a outros meios ilícitos) não escondam tenebrosos esqueletos nos seus armários?"

LF no jornal "O Benfica" de 17/06/2011

5 ANOS EM CIFRAS





NOTA: Os dados apresentados não são oficiais, mas sim fruto de recolha na comunicação social. Eventuais pequenas diferenças, não alteram o essencial.

EIS QUANTO VALE UMA GRANDE EQUIPA

FUMO BRANCO

Era o desfecho anunciado.

Lamenta-se a saída de um grande jogador. Saúda-se a entrada de 30 milhões de euros fresquinhos.

É provável que parte deles estejam já destinados a Garay (eventualmente 5 milhões relativos ao passe, e outros 5 correspondentes à compensação salarial). Mas ainda assim, no contexto actual, não deixa de ser um grande negócio.

Parabéns ao Fábio, parabéns a Luís Filipe Vieira.

O TEMPO CERTO

"Façamos um pouco de história. Em 2003-2004 Luisão chegou ao plantel benfiquista com três rondas já decorridas, demorando algum tempo (e alguns pontos) a adaptar-se. Em 2005-2006 chegaram Miccoli e Karagounis sobre o fecho do mercado, já o Benfica tinha perdido cinco pontos. No ano seguinte foi o “fica-não fica” de Simão Sabrosa até ao último dia de inscrições, com consequências no modelo de jogo adoptado por Fernando Santos, e com cinco pontos perdidos nos primeiros quatro jogos. Em 2007-2008 saíram Simão e Manuel Fernandes às portas da primeira jornada, entrando Cristian Rodriguez e Maxi Pereira, com o Campeonato em andamento, e já com quatro pontos desperdiçados. Em 2008-2009 saiu Petit e entrou Reyes em pleno Agosto, e mais tarde ainda chegaria David Suazo, quando já tinham voado quatro pontos. Em 2010-2011, chegou tardiamente Sálvio para colmatar a também tardia saída de Ramires, e no dia em que o argentino se estreou estávamos já a seis pontos de distância do primeiro lugar.

Se repararmos bem, nestes últimos tempos, apenas em duas temporadas o plantel benfiquista ficou definido atempadamente: 2004-2005 e 2009-2010. Em ambas entramos muito bem no Campeonato (treze pontos nos primeiros cinco jogos), em ambas nos viríamos a sagrar campeões.

Devido a uma anacrónica calendarização, a Liga Portuguesa começa a jogar-se algumas semanas antes do fecho do mercado de transferências – cuja data está em sintonia com os ricos campeonatos espanhóis e italiano, que só têm início em Setembro. Esse é um problema que tem afectado de forma significativa o Benfica, que raramente tem conseguido evitar uma indefinição bem para lá dos limites do desejável.

Dizem todas as estatísticas que o campeonato português se decide, por norma, nas primeiras jornadas. Nessas, o Benfica entra muitas vezes desfalcado, indefinido e à procura de uma equipa tipo. Quando a encontra, lá para Novembro ou Dezembro, quase sempre já vai tarde. Quantas vezes não vimos nós este filme? Quantas desilusões não sofremos já com ele?

No âmbito da identificação de factores a melhorar no futebol do nosso clube, creio que um redobrado cuidado com este tipo de situação é aspecto a ter em conta. Os timings de construção de uma equipa ganhadora não são, de todo, coisa de somenos. Planear uma temporada com o plantel fechado, com todas as unidades devidamente distribuídas, é o primeiro passo para o sucesso dos meses seguintes.

Como a história recente nos tem ensinado, não basta colocar um novo jogador (por maior que seja a sua qualidade) no lugar de quem sai (e, como é óbvio, só se vendem os bons) para que a máquina colectiva continue a carburar sem falhas – é preciso tempo de adaptação, mecanização, e automatismos, coisas que não se conseguem de um dia para outro, nem de uma semana para outra, nem de um mês para outro, nem, por vezes, de um ano para outro.

É verdade que um clube de um país periférico, como o nosso, está limitado nas suas acções de mercado, dependendo muitas vezes dos ritmos e vontades de terceiros. A forma de contrariar essa dependência passa por um planeamento rigoroso de todas essas acções, de modo a diminuir, ao mínimo, o grau de incerteza com que se iniciam os trabalhos. Seria desejável que, a cada época, no máximo em finais de Julho, tudo estivesse absolutamente definido. Sei que isto é muito mais fácil de dizer, ou de escrever, do que de levar à prática, particularmente num mundo onde as pressões (para vender, para comprar, para manter) surgem de todos os lados, e com crescente vigor à medida que as janelas de mercado se aproximam do fecho. Mas é precisamente nesses tabuleiros que se joga o êxito das operações, das temporadas, e, consequentemente, dos próprios clubes. É esse um dos nossos desafios.

Sendo os mercados de destino condicionados externamente, a lógica a privilegiar deve ser a de, tanto quanto possível, decidir previamente quem vender, e encontrar antecipadamente alternativas que tornem essas saídas indolores, e inconsequentes na harmonia colectiva da equipa. É essa ideia - a de um fio condutor, a da máquina continuamente ligada a que nunca podem faltar peças - que deve presidir à nossa gestão desportiva.

Uma equipa de futebol é um todo, é um conjunto, e também uma identidade. Se lhe retiramos uma parte, e só depois tentamos substituí-la, perdemos tempo, perdemos ritmo, e damos avanço aos rivais. Se isso acontece com duas ou três partes, temos a máquina empenada, e os trabalhos fortemente condicionados. Se tal sucede tardiamente, temos as ambições de uma temporada irremediavelmente comprometidas.

Num momento em que se define o plantel encarnado, e numa pré-época complicada, que envolve Copa América, Mundial de Sub-20, e pré-eliminatória da Liga dos Campeões, seria importante que esta perspectiva não fosse de modo algum ignorada, pois os riscos que pendem sobre nós são enormes. Estando o principal adversário obrigado a reconfigurar-se, a nossa vantagem poderá residir precisamente na estabilidade. Não a podemos desperdiçar. E não podemos falhar."

LF no jornal "O Benfica" de 01/07/2011

HUMILDADE

"Cumpriram-se recentemente 50 anos sobre a conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus, momento que constitui, provavelmente, o ponto mais alto de toda a nossa história centenária.

Os relatos da altura recordam uma equipa com excelentes executantes, mas, sobretudo, com uma elevada dose de humildade. Ainda não havia Eusébio, e só com uma mistura perfeita de qualidade técnica, humildade, e capacidade de sofrimento, foi possível suplantar o poderosíssimo Barcelona - já então recheado de estrelas de renome mundial, e considerado o grande favorito dessa final.

Se recuarmos um pouco mais no tempo, veremos outra equipa de combate a triunfar extramuros. Falo do conjunto benfiquista que, em 1950, venceu a Taça Latina (competição que alguns querem agora menosprezar), arrecadando o primeiro troféu internacional da história do futebol luso. Foi com arte, engenho, mas sobretudo com muita humildade, que um clube então ainda pouco conhecido além-fronteiras, se superiorizou na prova europeia mais importante da altura. Por cá, vivia-se em plena época de “violinos”. Eram eles os grandes e famosos. Nós… apenas os outsiders, os “pés rapados” que, com arreganho, trabalho e luta, os conseguiríamos suplantar depois, tornando-nos então no maior e mais popular clube português.

A humildade está pois na génese dos nossos principais triunfos, e é parte integrante da matriz central da nossa identidade. Uma atitude humilde e lutadora, acompanhou sempre o crescimento do nosso clube, desde os tempos da Farmácia Franco até ao topo do mundo.

Decorridos muitos anos, e muitas vitórias, nem sempre temos sabido relevar esse passado. Do alto de uma gloriosa saga europeia, do alto dos muitos títulos nacionais, do elevadíssimo número de associados, e de um incomparável mediatismo, permitimos que o Benfica se tornasse, por vezes, um clube altivo e sobranceiro. E essa é, hoje, uma das nossas principais fraquezas.

Tenho abordado aqui, ao longo das últimas semanas, aspectos que, no meu modesto entendimento (e enquanto mero adepto de bancada), podem contribuir para que as próximas temporadas do futebol encarnado sejam substancialmente mais felizes do que aquela que terminou. Depois de falar da força física, e da força mental, creio que a humildade (a todos os níveis) deve também figurar no elenco.

O Benfica é o clube mais odiado do país. Não o é apenas nos recintos dos nossos principais rivais (FC Porto e Sporting, que competem entre si para ver quem mais nos detesta), mas também em quase todos os estádios que visita, seja em Braga, em Guimarães, em Setúbal, em Olhão ou em Leiria. Tratando-se de um clube que apenas foi campeão duas vezes nos últimos 18 anos, esta não é uma situação comum, sobretudo havendo quem tenha ganho muito mais títulos durante esse período, e não seja objecto da mesma antipatia. Haverá razões que se prendem com o mediatismo que sempre nos acompanha, mas muitos dos adeptos desses clubes são peremptórios quando nos acusam de arrogância, soberba, mania das grandezas, e outros epítetos similares. Independentemente das razões que os possam assistir, esta é uma situação que temos de saber reverter, e creio que um discurso de maior modéstia poderia ajudar bastante.

A paixão pelo futebol, e por um clube, não é coisa que se explique nas cátedras da racionalidade. É difícil exigir do adepto comum uma postura de total realismo e objectividade. Mas não há forma de encarnar a humildade de que necessitamos se não tivermos (todos) uma noção real daquilo que hoje somos, e daquilo que efectivamente valemos. O passado não ganha jogos, e o Benfica da actualidade, para crescer, não pode viver sentado à porta do seu extenso e cintilante salão de troféus. Há que perceber que, em termos futebolísticos (e é disso que aqui se fala), perdemos claramente a hegemonia interna, e que ninguém vai ficar parado à espera que – por direito divino - a reconquistemos. Há que perceber também que, no plano externo, não somos mais que um clube mediano, numa Europa onde outros têm conseguido, ainda assim, brilhar. Só partindo desta cristalina realidade, encontraremos a estrada que nos pode levar ao futuro de glórias que o nosso passado fez por merecer.

A humildade tem de começar em cada um de nós, benfiquistas, e estender-se até profissionais e dirigentes. Não podemos afirmar, no início de cada época, que vamos ganhar este mundo e o outro. Não podemos pensar que, só porque nos chamamos Benfica, a cada conquista corresponderá necessariamente um ciclo esmagador, como se os adversários não existissem. Não poderemos entrar em (nenhum) campo, convencidos de que as camisolas chegam para impor os resultados que desejamos, até porque somos aquele a quem todos querem ganhar.

A humildade tem de estar no discurso, e tem de estar na acção (de dirigentes, técnicos, jogadores e adeptos). É um fato que todos temos de vestir, e sem o qual não estaremos em condições de alguma vez fazer reviver as sagas vitoriosas que os primeiros parágrafos deste texto recordam. Sem humildade, não conseguiremos sequer beliscar a supremacia daqueles que, a bem ou a mal, tomaram o nosso lugar."
LF no jornal "O Benfica" de 24/06/2011

MENTALIDADE GANHADORA

"Na sequência dos textos das últimas semanas, que têm procurado identificar aspectos a melhorar no futebol do Benfica, fala-se hoje aqui de força mental, combatividade e agressividade competitiva - elementos que, afinal, definem uma verdadeira mentalidade de campeão.

Entenda-se por força mental, a aptidão para extrair todo o potencial de competências inerentes ao indivíduo ou ao grupo, independentemente dos contextos exteriores. Numa equipa de futebol, isto traduz-se na capacidade de jogar constantemente ao máximo que o potencial técnico-táctico dos jogadores permita, sem quebras causadas por factores anímicos, sem excessos de confiança nem medos, sem permeabilidade a qualquer tipo de pressão exógena, e com a saudável agressividade que se exige em todos (mesmo todos) os momentos de competição. Simplificando, trata-se de tornar cada jogo numa final, e cada momento desse jogo no momento de decisão dessa final, sejam quais forem as circunstâncias que o rodeiem.

Sei que a comparação não é simpática, mas se olharmos para o FC Porto, constatamos uma particular habilidade em lidar com todo o tipo de pressões e condicionalismos, quer os positivos (enfatizando-os e explorando-os ao máximo, nunca permitindo que resvalem para a sobranceria), quer os negativos (eliminando-os, ou revertendo-os a seu favor). O que daí resulta é uma equipa confiante, motivada e agressiva, capaz de render a top em qualquer campo, e em qualquer situação, durante um ano inteiro. Imagino que não seja tarefa fácil implementar tão forte mentalidade. Mas que ela significa meio caminho andado para a obtenção de títulos, não restarão muitas dúvidas.

No caso do nosso rival, o contexto geográfico e cultural ajuda bastante. Trata-se de um clube fundado sob uma bandeira regionalista, e que tem alimentado uma cultura de conflito, e de trincheira, que contribui para o manter em constante vigília. É dessa fonte que bebe o fanatismo dos seus adeptos, que, confundindo e misturando – deliberadamente -, o FC Porto com a (sua) cidade, e com a (sua) região, sentem derrotas e vitórias num plano diferente ao da mera paixão clubista, e reagem em consonância. Isso é habilmente transportado para o interior do grupo (com lavagens cerebrais intensivas, como contam antigos jogadores), e reflecte-se num balneário ferreamente determinado em vencer (e, particularmente, em vencer-nos), onde a disciplina e o recato não deixam de desempenhar um papel vital.

Transpor uma cultura deste tipo para o Benfica é bastante mais difícil. Somos um clube universalista e cosmopolita, nascemos e vivemos numa cidade que também o é, e o conflito não está no âmago da nossa matriz identitária. Os adeptos do Benfica não têm qualquer familiaridade política, cultural, regional ou religiosa a ligá-los entre si, olham para o futebol com paixão, mas sem rancores nem complexos paralelos, o que também lhes retira militância, realidade que escorre para a estrutura e para a equipa. Há pois que encontrar mecanismos capazes de dotar o nosso clube de equivalente vitamina motivacional, e aqui, creio que o próprio adversário, as suas vitórias, e a sua arrogância, podem ser um elemento a explorar melhor.

Por outro lado, é também necessário fomentar uma relação de grande cumplicidade entre jogadores e clube, cultivando exigências, mas também afectos. Por muito genial que seja a gestão, por criteriosas que sejam as escolhas, por melhores condições materiais de trabalho que existam, são os jogadores, dentro do campo, que transportam a mística, que marcam os golos, que obtêm os resultados, que nos dão as alegrias e tristezas, e que, em suma, determinam o sucesso ou o insucesso do clube.

Sendo o futebol uma espécie de representação da guerra - embora sem vítimas -, uma equipa forte terá de se assemelhar a um exército militar, onde a disciplina e o rigor não podem permitir hiatos, cedências ou excepções. O clube tem de estar acima de tudo e de todos, e a exigência tem de ser total e quotidiana. A pressão de trabalhar nos limites deve vir, contudo, acompanhada de uma cuidada protecção contra factores, externos ou internos, que possam de alguma forma tornar-se perturbadores. Jogadores infelizes, preocupados ou ansiosos, não poderão nunca explorar o seu potencial máximo, e é ao clube que cabe protegê-los.

Só com uma simbiose perfeita entre clube e profissionais ao seu serviço, só criando uma cultura de clã, que abra espaço a um forte sentimento de exigência individual e colectiva, e seja capaz de fazer concentrar todas as energias no combate aos adversários, poderemos ver os jogadores do Benfica a superarem-se, a comerem a relva (se necessário for), e a imporem a sua capacidade em qualquer relvado, em qualquer competição, em qualquer jogo, e em qualquer momento de cada jogo. Só deste modo será possível caminhar para um espírito de conquista que leve os nossos jogadores a alcançar ainda mais vitórias e títulos do que aquelas que o seu talento permita, construindo a sua e a nossa felicidade."
LF no Jornal "O Benfica" de 17/06/2011

CARAS NOVAS






Não conheço alguns dos reforços do Benfica. Não tenho grandes dúvidas que muitos deles serão emprestados (Leo Kanu, Melgarejo, André Almeida ou Tiago Terroso, por exemplo), e poucos entrarão de caras na equipa.

Vejamos os principais, um a um:


ARTUR MORAES (ex Sp.Braga) – É, como disse, aquele que me parece com mais condições para assumir a titularidade no imediato, sobretudo se Roberto acabar por sair (como penso que seria desejável). É experiente, está adaptado ao país, conhece o campeonato, e tem qualidade. Não será o guarda-redes perfeito (esses são Casillas ou Neuer), mas é um excelente guarda-redes, perfeitamente à altura da baliza do Benfica.


DANIEL WASS (ex Brondby) – Vi-o jogar apenas alguns minutos, durante o Euro sub-21, e não me impressionou muito. O Benfica tem boas recordações de jogadores nórdicos, o que favorece as expectativas, mas, neste caso, a inexperiência não deverá permitir uma afirmação imediata. Será, na melhor das hipóteses, um bom suplente para Maxi (coisa de que o plantel carece). Na pior, mais um para a lista de cedências.


NUNO COELHO (ex Académica) – Passou-me totalmente despercebido ao longo do campeonato, pelo que não será, certamente, uma estrela de primeiro plano. É português, e como tal deverá permanecer no grupo, mesmo ocupando uma posição já lotada. Tem escola (foi internacional nas camadas jovens), e diz que é benfiquista (o que, valendo o que valendo, sempre soa bem aos ouvidos). Deverá passar o ano no banco, ou na bancada, a ver Javi Garcia, e eventualmente Matic, jogarem.


MATIC (ex Vitesse) – Foi englobado no negócio David Luíz, numa altura em que pouco se sabia sobre as necessidades do plantel neste defeso. A sua posição natural será a de Javi Garcia, onde já havia Airton, e onde também haverá Nuno Coelho. Não sei até que ponto poderá adaptar-se a outro lugar (por exemplo ao lado direito). Tem uma estatura considerável, aspecto que considero determinante, e conhece o futebol europeu, o que significa uma mais rápida integração. Tenho alguma esperança que se possa afirmar, mas não o conheço suficientemente bem para ter certezas.


BRUNO CÉSAR (ex Corinthians) – De todos os reforços é, à excepção de Artur, o que melhor conheço, pois vi-o jogar várias vezes no Campeonato Paulista, através do PFC. É um criativo, um repentista, que denota capacidade de passe longo, e de remate. Parece-me um pouco pesado, e pouco disponível na hora de defender. Mas acredito que Jesus o faça crescer competitivamente. Temo, pelo contrário, que Aimar e Carlos Martins lhe tapem a posição natural, e não sei qual será o seu rendimento numa ala. Na pior das hipóteses poderá ser um novo Roger; na melhor (com muito trabalho táctico, físico e psicológico), uma aproximação a Deco.


ENZO PEREZ (ex Estudiantes) – Nunca o vi jogar, mas as referências são boas. Trata-se de um jogador seleccionável na poderosíssima equipa argentina, o que é, à partida, um atestado de qualidade. Espero uma espécie de Nico Gaitán, mas para o flanco direito, onde a mais que certa saída de Salvio deixa um buraco por preencher. Dado o seu perfil táctico, e dadas as carências da equipa, creio que poderá entrar directamente na titularidade.


RODRIGO MORA (ex Defensor Sporting) – Quer Cardozo permaneça (o que espero, e desejo), quer saia e seja contratado alguém para o seu lugar (Piatti, Funes Mori ou outro), este uruguaio - proveniente do antigo clube de Maxi Pereira - não deverá passar do banco. Nunca o vi jogar, mas pelas referências que tenho é mais uma alternativa a Weldon ou Kardec (ambos de saída), do que a qualquer um dos titulares. Ainda é jovem, e, à semelhança de Jara, terá tempo para se afirmar. Não há certeza de que fique no plantel.


NOLITO (ex Barcelona) – Ser dispensado do Barcelona não é, necessariamente, um mau sintoma. Trata-se da melhor equipa do mundo, onde, para além de Messi, já estão Villa, Pedro, Bojan (este também de saída) e mais alguns jovens promissores de grande qualidade. Creio que se trata de um extremo, mas como nunca o vi jogar, não conheço em pormenor as suas características, nem faço ideia se terá condições de se afirmar imediatamente como titular. Conseguir um jogador jovem do Barcelona, a custo zero, não deixa, no entanto, de parecer um óptimo negócio.

O MEU PLANTEL

Roberto, Oblak, Leo Kanu, Carole, Sidnei, Shaffer, Patric, Fábio Faria, Airton, Felipe Menezes, Miguel Rosa, Fernandez, Ruben Pinto, David Simão, Balboa, Elvis, Alípio, André Carvalhas, Yebda, Fellipe Bastos, Eder Luís, Urreta, André Almeida, Tiago Terroso, Rodrigo, Alan Kardec e mais uns quantos, seriam (ou continuariam) emprestados.

Fábio Coentrão seria vendido (25 milhões + Garay).

BYE-BYE!

Não entendo aqueles que continuam a ignorar que jogadores e treinadores são profissionais, que a sua vida, e a das suas famílias, está dependente do dinheiro que conseguirem ganhar no futebol, e que, obviamente, não podem perder-se muito em sentimentalismos, perante aquilo que lhes é essencial.

Uma coisa é sair de um Benfica para um FC Porto, de um Barcelona para um Real Madrid, ou vice-versa. Aí, concedo, há uma questão de respeito pelos adeptos, e pela própria dignidade. Desejar ir para um país estrangeiro à procura de melhores condições é, pelo contrário, perfeitamente natural, e só um idiota quereria ficar no FC Porto a ganhar 100 mil (se é que lá chegava), quando podia ganhar 400 mil (ou mais) noutro lugar.

Isto vale para Villas-Boas. Isto vale para Coentrão. Isto valeria para qualquer um de nós que se visse em semelhante situação.

De resto, vendo a parte que me toca, creio que este negócio é aquilo que o Benfica precisava para sair do sentimento depressivo em que tem vivido. Ao contrário do que eu próprio temia, com este inesperado golpe de estado portista, volta a ser possível sonhar alto. O super-FC Porto de Villas-Boas morreu. Tudo volta á estaca zero. De ultra-favorito ao título, o FC Porto passa, num dia, a mero candidato ao título. E vamos ver se segura Falcão, Moutinho, Rolando, Fernando…

Treinador para o FC Porto? Eu escolheria o Professor Neca. Mas, já que falo em Professores, e como Pinto da Costa aprecia bastante o Professor Carlos Queiroz, deixem-me sonhar, uns dias que seja, com essa possibilidade tão…azul.

E APESAR DE TUDO...

RESUMO: Benfica e FC Porto 9 troféus; Sporting 3 troféus; Oliveirense, CAB e Fonte Bastardo 1 troféu.

NEM DADO!

Pode até ter algum talento, mas as referências que tenho lido apontam para um péssimo profissional.

Ao que se sabe, gosta mais da noite do que de treinar, é um mau colega, chega constantemente atrasado aos compromissos, e inventa problemas para faltar a treinos. Até no cabelo é parecido com Balboa, e por alguma coisa nem o Hércules o pretende manter no plantel.

Ultimamente o Benfica tem tido o cuidado de contratar bons profissionais, e homens sérios. É esse o perfil da generalidade dos jogadores do seu plantel. Acredito que tal premissa não vá ser agora beliscada.

Garay sim. Drenthe, nunca!

ATÉ JÁ, NUNO!

Nuno Gomes tem o seu lugar reservado na história do Benfica. Foi um dos melhores goleadores de sempre do clube, foi capitão durante várias temporadas, foi um dos grandes ídolos dos adeptos, foi referência de balneário para muitos recém-chegados à Luz. Foi um jogador respeitado, porque sempre se soube dar ao respeito – pelo profissionalismo, pela dedicação, pelo fair-play demonstrado inúmeras vezes dentro e fora dos campos, e até pela simpatia e simplicidade pessoais que nunca deixou de cultivar.


Estando à beira de completar 35 anos, o treinador optou – no regular exercício das suas competências - por prescindir dos serviços do atleta. O Nuno Gomes de há cinco ou seis anos atrás teria lugar no plantel de qualquer grande equipa europeia. O Nuno Gomes de 2011-2012 seria, no entender de Jorge Jesus (que o conhece melhor que qualquer adepto, e que trabalha com ele diariamente), fundamentalmente um nome e um símbolo, que dificilmente se poderia tornar opção de relevo na luta pela titularidade.


Por muito que isso custe a aceitar àqueles que (como eu) mais o admiravam, o plantel do Benfica não pode absorver jogadores por aquilo que fizeram no passado, mas apenas por aquilo que se espera poderem vir a fazer no futuro. E não creio que alguém esteja melhor colocado do que Jorge Jesus para proceder a esse tipo de avaliação.


Tratando-se de quem se trata, o Benfica propôs-lhe (e bem) um lugar na sua estrutura profissional. Nuno decidiu não aceitar, privilegiando a possibilidade de jogar futebol durante mais uma época, previsivelmente num clube com menores exigências competitivas. Está no seu pleno direito.


Podemos discutir a opção de Jesus. Podemos também discutir se o assunto poderia, ou não, ter sido conduzido de forma mais célere. Mas não creio que se deva fazer um drama à volta disto. Recordo que Eusébio terminou a sua carreira no Beira-Mar, depois do Benfica ter recusado o seu regresso. Infelizmente para ele, e para nós, aquele já não era o seu tempo, e esse episódio não impediu que hoje o Pantera Negra tenha uma estátua em frente ao Estádio da Luz.


Nuno Gomes não foi Eusébio, mas nem por isso deixará de ter um lugar muito especial no afecto de todos os benfiquistas. Pela minha parte, só posso agradecer, enquanto adepto, tudo aquilo que o Nuno Gomes fez pelo Benfica, desejando-lhe as maiores felicidades para esta ponta final da sua carreira, e esperando que em breve possa voltar a fazer parte do clube que tão bem serviu como jogador, e que também ele aprendeu a amar.

INQUIETAÇÃO

Artur Morais, Daniel Wass, Leo Kanu, Enzo Perez, Nemanja Matic, Bruno César, Nuno Coelho, Nolito, Rodrigo Mora, Tiago Terroso, André Almeida, e ainda Urretavizcaya, Miguel Rosa, Nelson Oliveira, David Simão, Rodrigo, e possivelmente mais Garay, Dedé, Ansaldi, etc, etc.

Não será gente demais?

Quantos destes nomes terão efectivamente qualidade para se afirmar? Dois? Três?

Não seria preferível optar por duas ou três contratações cirúrgicas de reconhecida classe?

A LEI DO MAIS FORTE

"Identifiquei aqui, na passada semana, cinco aspectos específicos em que, na minha modesta opinião, o futebol do Benfica podia melhorar. O primeiro que referi, e, porventura, o mais notório de todos eles, prende-se com o perfil físico-atlético do plantel – que, quanto à sua robustez, fica claramente a dever ao do principal rival.

A situação não é nova, e já em 2008, num artigo intitulado “Gladiadores e Artesãos”, eu a trouxe a estas páginas. De facto, há muitos anos que vemos equipas portistas invariavelmente constituídas por verdadeiros “armários”, face a um Benfica de perfil quase sempre mais artístico, mais perfumado, mais requintado, mas também muito mais macio. Tal facto é, de resto, extensível às restantes modalidades, sendo patente uma superioridade física azul-e-branca em quase todas as principais frentes de batalha do desporto português, do Futebol ao Hóquei em Patins, do Andebol aos vários escalões de formação. Este crónico défice atlético, que salta à vista do mais desatento, explica, quanto a mim, muitos dos desaires sofridos ao longo dos anos ante o grande rival. No caso do Futebol (aqui em análise), acresce ainda que, num campeonato como o português, onde predominam equipas fechadas e agressivas, e se joga em campos pequenos e com relvados miseráveis, essa vertente física assume relevância acrescida, estabelecendo diferenças, e determinando campeões.

Há que dizer que, quando se fala de robustez física, não se fala apenas de jogadores com um metro e noventa e cinco de altura, ou noventa quilos de peso. Estamos também a falar de atletas cujo fulgor, cuja resistência, cuja agressividade, cuja combatividade, cuja força, os tornam mais poderosos em campo. Se também forem altos (e pelo menos metade da equipa convém que o seja), tanto melhor. Mas há jogadores fortes, resistentes e agressivos, que, não sendo gigantes em altura, são-no em combatividade. Temos, de resto, dois bons exemplos no plantel da época finda: Maxi Pereira e Fábio Coentrão.

Não é só no plano estritamente desportivo que a importância de uma equipa mais volumosa e mais viril se coloca. O mercado diz-nos que o talento se faz pagar melhor que o músculo, de onde inferimos que uma equipa eventualmente menos empolgante do ponto de vista plástico, mas mais robusta na hora de conquistar a bola, no momento de correr com ela, ou atrás dela, na forma de ocupar espaços em campo, ou de ganhar duelos individuais, poderia também ficar mais em conta para a nossa bolsa. Poderíamos pois, com ela, vencer em dois tabuleiros: o desportivo, e o económico. E se não encantássemos as plateias com arte (o que não é totalmente líquido, pois a beleza do futebol está, sobretudo, nas movimentações colectivas), encantaríamos com resultados, trazendo com eles maiores valorizações marginais a cada jogador. Eu, pela minha parte, não tenho dúvidas sobre aquilo que preferia.

Esta mudança de paradigma, que implica um olhar diferente sobre o próprio perfil do negócio – valorizando as individualidades a partir do todo, e evitando a compra avulsa de talento -, não pode ser efectuada de forma repentina, nem de ânimo leve. Temos grandes jogadores, que não correspondem ao perfil que aqui defendo (o que não diminui a minha admiração por eles), e cujo contributo não seria avisado desperdiçar. Existe uma base, que foi campeã há pouco mais de um ano, e é a partir dela que, pouco a pouco, devemos proceder aos acertos que se justifiquem. Não podemos perder-lhe totalmente o rasto, tendo sempre presente que foi de revolução em revolução que chegámos ao ponto em que estávamos quando, in-extremis, Manuel Vilarinho resgatou o clube do abismo. Seria suicidário entrarmos novamente numa espiral desse tipo, pelo que a estabilidade é também um valor a preservar na nossa casa.

Seria todavia interessante que, em decisões futuras, esta preocupação fosse tomada em conta, de modo a que cada jogo entre FC Porto e Benfica não tivesse de se assemelhar, no plano físico, uma repetida reedição do lendário combate entre David e Golias. É verdade que David ganhou uma vez, e foi essa excepção que deu corpo à lenda. Mas quantos Golias triunfantes não terá a história deixado cair para as suas notas de rodapé?

O futebol é um jogo, onde interessa ganhar. E é um desporto, em que os mais robustos, os mais rápidos, e os mais ágeis, levam franca, e decisiva, vantagem. É a correr e a lutar que se ganha, e para o conseguir, há que ser mais forte que o adversário. Um artista, bem integrado num colectivo forte, combativo e musculado, pode fazer a diferença. Uma equipa de artistas, sobretudo em Portugal, acabará sempre ingloriamente derrotada."

LF no Jornal "O Benfica" de 10/06/2011

UMA NOVELA OU UM NOVELO?

O Real Madrid quer Fábio Coentrão. Fábio Coentrão quer ir para o Real Madrid. O Benfica precisa do dinheiro da transferência.



À partida, o cenário não deveria trazer complicações, e mais milhão menos milhão, o jogador estaria em breve às ordens de Mourinho, com o Benfica a encaixar uma verba compensadora.



O que terá perturbado tudo isto, de modo a termos de assistir, entristecidos, a declarações precipitadas, processos disciplinares, e contra-comunicados?



Não sei, mas tenho as minhas suspeitas. Não gosto de Jorge Mendes, assim como não gosto (nada mesmo) de qualquer empresário de jogadores, agora pomposamente chamados de “agentes-Fifa”, e que mais não são do que aves de rapina num universo de espectáculo para o qual nada contribuem – não jogam, não treinam, não dirigem, não apoiam, mas enriquecem, e muito. São a face negra do futebol. Neste caso, por exemplo, ninguém me vai conseguir explicar qual a utilidade de um intermediário: Mourinho conhece o jogador, o jogador conhece Mourinho, Benfica e Real conhecem-se, e têm boas relações.



Não é a primeira vez que este tipo de novela sucede, nem decerto será a última. Enquanto existirem estes parasitas a viver do constante corrupio de transferências, clubes e jogadores não terão tranquilidade, e o futebol, mais do que um desporto, mais do que um jogo, mais do que um espectáculo, será um negócio, e dos escuros.



Neste caso particular, ao Fábio aconselharia calma, fazendo-lhe ver que o seu sonho não está em causa, que o Benfica apenas quer, de forma legítima, esticar a corda até ao valor da cláusula, e que qualquer declaração precipitada pode prejudicar a negociação, afectando também a imagem que construiu junto dos adeptos. Ao Benfica aconselharia habilidade e precaução no tratamento do caso, sabendo-se que o jogador, perante a possibilidade Real, jamais quererá ficará na Luz (ou seja, a transferência será, a bem ou a mal, consumada), sendo também de evitar uma atitude de hostilidade, quer para com um ídolo das bancadas (e Fábio Coentrão é, certamente, o jogador mais querido do plantel actual), quer para com um clube gigante, de expressão mundial, com o qual existem portas abertas que interessam preservar.




PS: Como qualquer português que se preze, tenho alguma simpatia pela Académica. Nunca percebi como mantinha à frente dos seus destinos uma figura sinistra e rasteira como José Eduardo Simões. Por maioria de razão, ainda estranho mais que o tenha agora reeleito. Há algo na fantástica cidade de Coimbra (juntamente com Évora e Guimarães, as melhores e mais belas do país), que eu não conheço, ou não compreendo.

VOLTAR A GANHAR

"Antes de ser um espectáculo, o futebol é um jogo, que vive de resultados. Quando se ganha, tudo está bem, quando se perde, tudo se transforma subitamente. Procuram-se então as razões para a derrota, mas essa busca nem sempre é conclusiva. Na verdade, uma importante fatia do êxito ou inêxito desportivo reside na natureza aleatória do próprio jogo, e procurar causas para certas derrotas (sobretudo quando ocorrem entre equipas da mesma igualha) é como tentar perceber porque não acertamos no Euromilhões. Havendo que vender jornais, e que subir audiências televisivas, somos frequentemente confrontados com análises que, a partir do resultado, constroem uma retórica de vazio, por vezes divertida, por vezes interessante, mas raramente esclarecedora. Estamos a falar de futebol, que não sendo propriamente uma ciência oculta, também não aceita prognósticos antes dos jogos – como uma voz sábia um dia nos ensinou.

Existe uma outra fatia deste bolo, que pode, essa sim, ajudar a explicar sucessos e fracassos com alguma objectividade. Arbitragens, lesões, ou o simples mérito dos adversários, são aspectos que interferem nas performances competitivas, desenhando-lhes o rosto, e traçando-lhes o rumo. Todos eles condicionaram, directa ou indirectamente, a temporada do Benfica: Benquerença em Guimarães e Xistra em Braga (não esquecendo muitos outros), lesões de Sálvio e Gaitán em altura de decisões (sem falar de Ruben Amorim), e, “last but not least”, um super-FC Porto (provavelmente o melhor do todos os tempos), marcaram inegavelmente o nosso destino, não permitindo que o sucesso de 2009-2010 pudesse ser repetido.

Nestes dois parágrafos está espremido muito do sumo das nossas frustrações. Creio, honestamente, que neles se situa a maior parte dos fundamentos para os pobres resultados conseguidos. Basta imaginarmos uma época com arbitragens perfeitas, sem lesões, com alguma sorte (por exemplo em bolas que bateram nos postes) e com o FC Porto do ano anterior, para percebermos o quanto poderíamos ter sido felizes com o mesmo plantel, com o mesmo treinador, e com a mesma metodologia de trabalho.

Azar, arbitragens, lesões e um opositor fortíssimo são, de facto, factores suficientes para explicar uma época de desilusões. Mas seria errado, e até contraproducente, concluir então que, para além deles, nada de mais ou de melhor poderíamos ter feito. Esconder a cabeça na areia não é política de campeões, e o Benfica – que melhorou bastante nos últimos anos - tem de saber aprender com os erros, aprendendo também a evitá-los, aumentando as possibilidades de sucesso, e reduzindo o campo de acção aos desígnios da fortuna. É justamente dessa componente interna (a única, afinal, em que podemos interferir) que nos devemos ocupar agora, de modo a que 2011-2012 possa ser uma temporada bastante mais feliz.

O FC Porto preparou-se convenientemente, no Verão passado, para enfrentar um grande e temível Benfica, acabando a época a ganhar-lhe em toda a linha. Cabe-nos a nós, agora, prepararmo-nos meticulosamente para o combate com um grande e temível FC Porto, de modo a que, dentro de poucos meses, lhe possamos ganhar também. O desafio não é fácil, mas um clube com a dimensão do nosso tem de saber estar à altura. A alternativa seria o assumir de um estatuto de inferioridade, que nenhum de nós está disposto a aceitar.

Numa análise necessariamente superficial, e com as limitações próprias de quem está do lado de fora, eu identificaria cinco itens, em face dos quais o futebol benfiquista pode, e deve, melhorar, aproximando-se da concorrência mais directa - que é como quem diz, daquele que foi o grande triunfador da temporada. Nesse sentido, haveria que:

1) Dotar a equipa de um perfil atlético bastante mais robusto;

2) Incutir-lhe agressividade, combatividade, e mentalidade ganhadora;

3) Manter humildade na acção e no discurso;

4) Aperfeiçoar os timings da definição do plantel;

5) Privilegiar a solidez defensiva.

Na minha modesta opinião, parecem-me ser estes os vectores em que, no campo e fora dele, o Benfica tem mais espaço para crescer competitivamente.

Alguns deles podem subdividir-se. Por exemplo, o ponto 1) prende-se, por um lado, com a política de aquisições, por outro, com o planeamento físico, e até, porventura, médico. O ponto 2) pode ter a ver com disciplina e rigor, com cultura, mas também com protecção, acompanhamento e afecto. O item 3) refere-se aos dirigentes, aos profissionais, mas também aos sócios e adeptos. E todos eles estão, de alguma forma, interrelacionados: uma equipa mais robusta, e com maior agressividade, garantirá maior solidez defensiva, um plantel definido atempadamente, pode facilitar a implementação de um registo ganhador, e assim sucessivamente.

Nas próximas semanas desenvolverei cada um destes temas."


LF no Jornal "O Benfica" de 3/06/2011

SERVIÇOS MÍNIMOS

Longe de deslumbrar os quase 50 mil que estiveram na Luz, a Selecção Nacional conseguiu a vitória de que necessitava para encarar de frente os últimos jogos da qualificação.

O jogo foi pouco interessante, a exibição descolorida, e Cristiano Ronaldo (naturalmente a grande atracção individual da partida), passou uma vez mais ao lado da “Equipa das Quinas”, acabando inclusivamente por ser assobiado pela impiedosa plateia. Em fim de época, com alguns jogadores a arrastarem-se penosamente pelo relvado, seria difícil pedir muito mais. Mas do craque do Real Madrid, e após uma das suas mais produtivas temporadas de sempre, esperava-se outro protagonismo. A carreira de Ronaldo na Selecção está a tornar-se um “case-study”, e os adeptos começam a perder a paciência perante uma ineficácia que é, de facto, difícil de explicar.

No plano oposto esteve João Moutinho, quanto a mim o melhor em campo. Foi dele que partiram os mais exuberantes momentos de futebol colectivo da equipa, e foram dele os equilíbrios que a dada altura deixaram a Noruega longe da área portuguesa. Realce também para Postiga, que, tratando-se um jogador pouco mais que mediano, parece ter o condão de aparecer nos grandes momentos.

Em termos globais, a Selecção fez o que lhe competia, mas com um registo exibicional mínimo, expondo-se a uma grande desilusão na ponta final do jogo (tenho a sensação que, com Carlos Queiroz no banco, aquele pontapé de canto no último minuto tinha dado o golo do empate). Exibições à parte, o mais importante era a vitória. Estes eram três pontos imprescindíveis, que não garantem absolutamente nada, mas sem os quais a presença no Euro 2012 se tornaria numa miragem.

Termino falando do público. É sociologicamente interessante observarmos a diferença entre o público de selecção, e o dos clubes. É outra coisa. É outro mundo. E traz vantagens e desvantagens. Entre as primeiras estão o clima de festa generalizado (comparável aos jogos de apresentação do Benfica), a quase total ausência de stress e carga dramática, e o fortíssimo contingente feminino nas bancadas – coisa que torna o espectáculo incomparavelmente mais belo e aprazível. As desvantagens são a falta dos cânticos das claques, e um ambiente, a espaços, um tanto adormecido; o parco conhecimento futebolístico de grande fatia dos adeptos (não falo só, nem particularmente, das mulheres), coisa que origina comentários absolutamente despropositados, e por vezes até irritantes; bem como o constante entra e sai, levanta e senta, que dura quase todo o jogo.

TUDO OU NADA

Não tenho tido muito tempo para escrever sobre a Selecção. Não significa isso que não esteja a cem por cento com ela (conto ir à Luz), no momento em que se pode decidir grande parte da qualificação para o Euro 2012.

AS NOSSAS CULPAS

"Quando o Benfica ganha, nós ganhámos. Quando o Benfica perde, eles perderam.

Esta parece ser a matriz de pensamento de muitos benfiquistas, que na hora da derrota se apressam a procurar culpados, esquecendo que o problema também pode passar por si próprios.

A época não foi feliz, e ninguém deve fugir às responsabilidades. O presidente foi o primeiro a assumi-las, num exercício de humildade que dignifica e engrandece o cargo que ocupa. Também o treinador já confessou ter errado em diversas situações ao longo da temporada, o que não lhe diminui a competência. Obviamente que os jogadores não escapam ao escrutínio, pois muitos deles não renderam aquilo que se esperava. Mas os adeptos também não podem colocar-se à margem do processo.

Se a força das bancadas foi uma das armas com que o Benfica conquistou o campeonato de 2009-2010, é preciso dizer que, nesta temporada, esse apoio nem sempre se fez notar.

Não consigo entender, por exemplo, como ficaram 8 mil bilhetes por vender numa meia-final europeia. Não consigo entender como, no jogo da Taça de Portugal com o FC Porto – que tanta importância viria a ter – apenas estavam presentes cerca de 35 mil espectadores. Não consigo entender como um clube com milhões de adeptos não consegue esgotar o estádio, uma só vez, em tantos meses de competição. A crise económica dói, mas não explica tudo.

Pior ainda foram as incompreensíveis manifestações de hostilidade para com os jogadores. A mais chocante terá ocorrido após a final da Taça da Liga. Mas outras houve, desde invasão de treinos, a esperas nos parques de estacionamento, que trouxeram para nossa casa o que de pior se tem visto nos rivais. Se somarmos os assobios que se dirigiram a Óscar Cardozo (marcando 100 golos, como é possível?), a César Peixoto, a Roberto, e a outros jogadores, teremos matéria suficiente para não deixar quase ninguém inocente.

Antes de atirarmos pedras, pensemos naquilo que fizemos, e naquilo que poderíamos ter feito. Talvez comece aí um Benfica mais forte."

LF no jornal "O Benfica" de 20/05/2011

10 RAZÕES PARA UM INÊXITO

"Face às expectativas criadas, face ao brilhantismo que a equipa, a dada altura, chegou a exibir, nada fazia prever o penoso final de época que o futebol benfiquista protagonizou, e que nos entristeceu profundamente.

Importa agora reflectir sobre o que contribuiu para tão ingrato desfecho, de modo a que os escombros desta temporada não venham condicionar também a próxima. Limitado, naturalmente, àquilo que se vê de fora, passo a identificar dez aspectos passíveis de explicar este insucesso:

1) Efeitos do Mundial - O Benfica foi a equipa portuguesa mais representada em África, e isso perturbou gravemente a preparação da época, que não contou com elementos preponderantes durante o primeiro mês de trabalho. Alguns desses jogadores (Cardozo, Luisão, Maxi) demoraram a regressar ao rendimento normal, condicionando desse modo os equilíbrios colectivos.

2) Estruturação do Plantel – Tem-nos sido difícil saber conciliar os timings de mercado (ajustados às ligas que se iniciam em Setembro), com os timings necessários à planificação de uma época vitoriosa. Ramires e Di Maria foram vendidos (e bem), mas o espaço que deixaram não estava devidamente acautelado. Sálvio veio muito tarde, e só em Dezembro se afirmou como titular, quando Campeonato e Liga dos Campeões eram já causas perdidas. Gaitán também demorou a adaptar-se a uma posição da qual não trazia rotinas.

3) Optimismo excessivo - Antes do início da época, não conseguimos evitar um discurso triunfalista, que além de alimentar a motivação dos adversários, fez crescer inutilmente as expectativas, com paralelismo no posterior desencanto dos adeptos. Subvalorizando o principal rival, o Benfica pareceu preparar-se para uma festa, quando tinha de se preparar para uma guerra.

4) Más arbitragens - Não me recordo de Campeonato tão adulterado pelas arbitragens quanto este. Seria fastidioso voltar a enumerar, um a um, todos os lances que nos lesaram. Mas até na Taça (golo em fora-de-jogo), e na Europa (golo do Sp.Braga após empurrão na área), fomos prejudicados, sem que a comunicação social o tenha relevado.

5) Permeabilidade defensiva - Com o Campeonato quase perdido, e fora da Champions, a venda de David Luíz foi, naquele contexto, uma boa decisão. Mas o certo é que, daí em diante, o Benfica revelou uma fragilidade defensiva que dificilmente se coadunaria com a obtenção de títulos. As responsabilidades não se esgotam, porém, no quarteto defensivo: meio-campo e ataque são sectores onde os golos dos adversários começam a ser construídos, e o Benfica desta época pressionou pouco, desposicionou-se muito, e defendeu globalmente mal.

6) Lesões – A praga começou com Cardozo, continuou com Ruben Amorim, terminou com Gaitán e Sálvio. Em fases decisivas da temporada, o Benfica viu-se subtraído de peças chave, com efeitos iniludíveis nas exibições e nos resultados. No lado direito, a dada altura, vimo-nos sem Sálvio, nem Amorim, nem mesmo Luís Filipe. Não há plantel que dê para tanto.

7) Falta de sorte - O futebol é um jogo, e, como tal, contempla uma componente aleatória que não podemos desprezar. As três bolas no poste nas meias-finais europeias, a carambola que deu o 3º golo ao FC Porto na Taça, as oportunidades desperdiçadas nas primeiras partidas do Campeonato (2ª parte com a Académica, 1ª parte na Choupana), foram momentos de infelicidade capazes de dizimar campeões.

8) Quebra física - Não entendo nada de preparação física, mas na fase mais crítica da temporada saltou à vista a dificuldade de certos jogadores em aguentar o ritmo e a intensidade dos jogos. Meses antes, os mesmos atletas revelavam enorme fulgor, e mantinham uma série recorde de vitórias consecutivas, abrilhantadas com exibições de luxo. Se a quebra se deveu a factores de treino, ou apenas a factores anímicos, é questão para especialistas. Interessa sobretudo que tal não se repita, pois as épocas terminam em Maio e não em Fevereiro.

9) Fragilidade anímica - A luta inglória por um Campeonato perdido acabou por minar a confiança dos atletas, e os efeitos notaram-se na Liga Europa e na Taça de Portugal. Nos momentos de decisão, esperava-se outro estofo mental da equipa, que não viria a conseguir libertar-se das suas angústias. Alguns adeptos também não ajudaram, pois quando se exigia apoio, responderam com mais pressão, com assobios, e até tentativas de agressão.

10) Super-FC Porto – Por muitas voltas que dêmos ao texto, a razão principal para não termos sido campeões, para não conquistarmos a Supertaça, e para não chegarmos á final da Taça, foi a soberba temporada que o FC Porto realizou. Omitir esta realidade seria esconder a cabeça na areia. Eles foram melhores, e ali, entre muitos aspectos negativos que conhecemos, há também muita coisa que podemos aprender. Desde logo que o futebol, antes de ser uma arte, é um desporto, onde os mais fortes, mais atléticos e mais vigorosos normalmente vencem."

LF no Jornal "O Benfica" de 27/05/2011

A MINHA HOMENAGEM