DUAS DOSES DE ESPERANÇA, UMA DE PREOCUPAÇÃO



Se, antes do jogo, me dessem um papel a assinar com o resultado de 2-1, provavelmente tê-lo-ia assinado.

As circunstâncias não favoreciam o Benfica. Lesões, cansaço e quebra anímica, eram motivos que me faziam desconfiar de um resultado positivo, sobretudo porque do outro lado estava uma equipa que não perdera nos 12 jogos anteriores, e se apresentava com energia e disponibilidade reforçadas face à oportunidade de escrever história. Defrontavam-se, em suma, o melhor Sp.Braga, e o mais débil Benfica da temporada. Por tudo isso, aqui atribuí ligeiro favoritismo à equipa de Domingos Paciência.

Terminado o jogo, uma vitória tangencial (com um golo sofrido) sabe a pouco para aquilo que se passou em campo. Direi mesmo que o Benfica terá perdido uma boa oportunidade de sentenciar a eliminatória, dada a superioridade que conseguiu mostrar durante a maior parte do tempo de jogo, e, sobretudo, dada uma surpreendente fragilidade bracarense – quer na total inoperância do seu ataque, quer nos pouco usuais brindes concedidos pela sua linha defensiva.

Foi essa submissão do Sp.Braga que convidou o Benfica a impor o estilo de jogo que mais gosta, permitindo-lhe lançar-se na busca do golo, e iludir os problemas que ultimamente tem patenteado nas transições defensivas (agravados pelas limitações físicas da grande parte dos seus jogadores), aspecto que os minhotos raramente puseram à prova. Um Sp.Braga mais atrevido no contra-ataque (como eu esperava, e temia) teria certamente causado muito maiores danos a uma equipa que partiu para este jogo em clara crise de confiança.

Não quero com isto desvalorizar a exibição benfiquista. Os encarnados tiveram o mérito de limpar a cabeça, puxar dos galões, e, com muita humildade, lutaram bravamente contra um certo fatalismo que pareciam ter pela frente. Não realizaram uma prestação plasticamente muito conseguida, mas mostraram uma capacidade competitiva notável, ganhando claramente o duelo emocional. Partem, por isso, em vantagem para uma segunda-mão que, todavia, se apresenta ainda extremamente difícil.

Se o Benfica partia, no meu ponto de vista, com 45% de hipóteses de se apurar para a final, neste momento terá invertido o cenário para 55%. É pouco, mas pode ser decisivo.
No ponto de vista individual, há que destacar a exibição de Óscar Cardozo (duas bolas ao poste, e dois golos, um deles anulado), que terá feito engolir em seco as injustas críticas que tantas vezes lhe têm sido feitas. Aimar também esteve em grande plano, lamentando-se aquele minuto fatídico, que além de possibilitar o golo de Vandinho, o deixou fora da partida de Braga. Roberto, pelo contrário, voltou a falhar, pois creio que podia ter feito mais, precisamente no lance do golo sofrido. Saviola é um estranho caso de inconsequência, parecendo debilitado fisica e animicamente.

O árbitro não teve qualquer influência no resultado, mas mostrou algumas hesitações difíceis de aceitar a este nível.

De hoje a uma semana, em Braga, será o jogo da vida de muita gente. Talvez da minha também.



PS: Sou insuspeito de apreciar o FC Porto, mas, caramba, só um cego é que não vê: está ali uma das melhores equipas de sempre do futebol português.

TERRA PROMETIDA


17 anos depois, o Benfica está de novo numas meias-finais europeias.

A ocasião é histórica, e a carreira de outros clubes portugueses não pode menorizar, de modo algum, aquilo que esta meia-final significa para o Benfica. Independentemente do que façam FC Porto e Sp.Braga, o percurso dos encarnados até agora já terá de ser considerado bom, poderá ser excelente caso consiga o acesso à final, e maravilhoso se vier a erguer o troféu.

Meias-finais europeias não se disputam todos os dias, nem todos os anos, nem todas as décadas. De 1972 a 1981, nem uma. De 1994 até hoje, também zero. O Sporting só disputou quatro em todo o seu historial, o FC Porto apenas cinco, e o Sp.Braga está agora a estrear-se. Só uma grande falta de cultura desportiva poderá negligenciar estes factos. Aconteça o que acontecer, vai pois escrever-se história na Luz.

Lamentavelmente, esta meia-final apanha o Benfica num dos momentos mais delicados da época. Os défices de confiança resultantes da eliminatória da Taça, e a onda de lesões que aflige o plantel, são motivos para temer o pior. Paralelamente, o Sp.Braga apresenta-se com grande fulgor, cavalgando uma sequência de excelentes resultados, abrilhantados com óptimas exibições.

A experiência internacional do Benfica, e o conhecimento que Jorge Jesus tem da equipa minhota, podem ser armas importantes. Mas se tivesse de atribuir favoritismo a esta eliminatória, dá-lo-ia, ainda que ligeiramente, à equipa de Domingos Paciência.

No Dragão, o FC Porto é claramente favorito, pelo que se antevê uma final 100% portuguesa. Será que a UEFA prefere o mediatismo de um Benfica-FC Porto? Ou privilegia os aspectos de segurança, e gostaria mais de ter um Sp.Braga-FC Porto? Essa opção pode pesar no subconsciente de muita gente, a começar pelo quase desconhecido árbitro escocês.

É altura de começar a roer as unhas, e sentir o nervoso miudinho dos grandes jogos. 1-0 bastaria para eu sair do estádio muito feliz. Mas até um 0-0 pode não ser mau de todo, se tivermos em conta que, com esse resultado, nenhum empate eliminaria o Benfica na segunda-mão. A equipa encarnada deve contudo entrar em campo preparada para todas as circunstâncias do jogo, entre as quais, obviamente, a eventualidade de sofrer um golo. Ir para Braga em desvantagem é que pode ser bastante perigoso.

Equipa provável: Roberto, Maxi Pereira, Luisão, Jardel, Fábio Coentrão, Javi Garcia, Carlos Martins, Aimar, Gaitán, Saviola e Cardozo.
…e que Deus os ajude!


PS: O desejo desportivo que eu pedi para 2011 era, como aqui recordo, a presença na final de Dublin. Está a dois passos de se concretizar.

DEMASIADAS VÍTIMAS!

Porque será que os clubes que trazem políticas e regionalismos para o futebol, instrumentalizando-o, acham que todos os meios servem para vencer?

O Barcelona tem uma grande equipa, tem, sobretudo, um excepcional jogador (o "tiqui-taca" sem Messi seria um mero exercício exibicionista de ineficácia), mas a sua carreira na Champions, desde há uns anos para cá, merecia ser investigada. Estes são apenas os jogos que a minha memória imediata alcança, onde arbitragens descaradas levaram os catalães ao colo.

SIMPATIAS...

Se não me falha a matemática, 19 mais 29 somam 48, e 96 são precisamente o dobro de 48.


Por muita simpatia que possa ter por Fabrizio Miccoli e Pedro Mantorras, todos os seus golos somados são apenas metade daqueles que Óscar Cardozo já marcou pelo Benfica. Falo apenas de jogos oficiais.

Creio que os pontas-de-lança se analisam por números. Assim sendo, sou levado a concluir que o paraguaio vale o dobro daquilo que valem o angolano e o italiano juntos, precisamente dois dos maiores ídolos das bancadas da Luz na última década. Heresia? Não creio. Apenas a constatação dos factos...e das injustiças.

Ou aqueles que assobiam “Tacuára” - desconfio que os mesmos que ficavam histéricos com as entradas de Mantorras em campo, e se deliciavam com as chicuelinas inconsequentes do actual jogador do Palermo - não entendem a função de um ponta-de-lança, não entendem que há jogadores com maior e menor mobilidade natural, não sabem o que é eficácia, e não percebem nada de futebol, ou então sou eu que estou aqui a mais.

JOGOS PARA A ETERNIDADE (18) - Meias-finais europeias

O regresso do Benfica, 17 anos depois, a uma meia-final europeia, traz à memória outros tempos, e outras meias-finais.~



Desde que despertei para o futebol (algures por 1976), já tive o privilégio de ver o meu clube disputar seis meias-finais europeias (esta será a sétima), e serão justamente esses momentos – pode dizer-se que, de glória - que irei recordar em mais um número da rubrica “Jogos para a Eternidade”.



Viajemos pois no tempo, começando por Abril de 1981 (tinha eu onze aninhos).







CARL ZEISS JENA, Taça das Taças 1980-81
A primeira presença do Benfica numa meia-final que a minha memória alcança, data de 1981.
O treinador era o húngaro Lajos Baroti, e a equipa encarnada constituída por jogadores de grande classe, e não menos carisma, como Bento, Pietra, Humberto Coelho, Carlos Manuel, Alves, Shéu, Chalana ou Nené.



Nssa temporada foi extremamente bem sucedida, com vitórias no Campeonato, Taça de Portugal e Supertaça, além do brilhante percurso europeu que agora recordo. Foi uma época marcante para mim, pois foi em Setembro de 1980 que vi o meu primeiro jogo do Benfica no Estádio da Luz, justamente para a Taça das Taças, diante do Altay Izmir da Turquia, data que já evoquei nesta rubrica.


Foi essa eliminatória que iniciou o bonito percurso que levaria o Benfica até às meias finais, após ultrapassar adversários como o Dínamo de Zagreb (na altura uma potência do futebol de leste europeu), o Malmoe (finalista da Taça dos Campeões dois anos antes), e o Fortuna de Dusseldorf (finalista da Taça das Taças, também em 1978-79). Além do jogo que presenciei no estádio, recordo, com particular estima, o encontro da segunda-mão frente ao Malmoe - na primeira-mão o Benfica perdera 1-0, e Bento sofrera, enfim, um golo, depois de um recorde de muitos minutos com as redes invioláveis -, em que Nené marcou dois golos de penálti já na segunda-parte, e a partida de Dusseldorf, uma das primeiras do Benfica que me recordo de ver na TV (antes dela, creio que apenas vira um Bayern-Benfica de 1976), disputada numa quarta-feira de Carnaval, e que terminou com um empate a dois.



Chegados às meias-finais, os encarnados tinham pela frente aquilo que se esperava ser uma pêra doce: os alemães de leste do Carl Zeiss Jena. Toda a gente aguardava então uma final entre Benfica e Feyenoord, mas a verdade é que a conquista do troféu seria decidida, pelo contrário, entre Carl Zeiss e Dínamo de Tbilisi, com vitória dos bielorrussos.



A eliminatória ficou logo marcada pelo jogo da primeira-mão, em que aos 10 minutos de jogo já o Benfica perdia por 2-0, não conseguindo, nos restantes 80, obter qualquer golo. Curiosamente, recordo essa partida com menor nitidez que as anteriores, mas lembro-me que foi também transmitida pela RTP.



Já o encontro da segunda-mão, na Luz, está bem vivo na minha memória. Ouvi o relato fechado na cozinha da casa dos meus avós, onde passava as férias da Páscoa. À distância de trinta anos, é possível perceber que a confiança na vitória não tinha ficado abalada pela derrota na RDA. Recordo a mobilização que esse jogo representou, e o destaque que a comunicação social lhe deu, com as capas dos jornais desportivos a pedir a final. Sem pesquisar, recordo grande parte dos nomes da equipa adversária: assim de repente…Grapenthin, Bauer, Schnuphase, Vogel, Bielau e Raab.



Um golo solitário de Reinaldo não chegou para a remontada. Mas ainda andei aos saltos pela casa quando, a poucos minutos do fim, a voz de António Pedro (não sei se ainda será vivo) gritou um segundo golo do Benfica que não chegou a existir.



No fim, foi a frustração total. A oportunidade de ouro de ver o meu clube vencer uma competição europeia, tinha-se gorado.



A vitória no Campeonato (5-1 ao Vitória de Setúbal na penúltima jornada), e na Taça (3-1 ao FC Porto no Jamor, com três golos de Nené, e três assistências de Shéu), trariam os sorrisos de volta.



A equipa era a seguinte: Bento, Veloso, Humberto, Laranjeira, Pietra, Carlos Manuel, Alves, Sheu, Chalana, Nené e Reinaldo.







UNIVERSITATEA CRAIOVA, Taça UEFA 1982-83
Dois anos decorridos, e o Benfica estava de volta a umas meias-finais, desta vez na Taça Uefa, e desta vez com melhor sorte.



A época foi ainda mais fantástica que a de 1980-81. Foi a primeira de Eriksson em Portugal, e além de Campeonato, Taça, e final da UEFA, o futebol praticado foi absolutamente esmagador. Não sendo dos tempos de Eusébio, terá sido esta, porventura, a melhor equipa que me lembro do Benfica alguma vez apresentar.



O percurso até à meia-final foi imaculado, com vitórias em casa e fora em quase todos os jogos. Betis, Lokeren, Zurique, e, particularmente, Roma, foram as estações percorridas. O jogo de Roma (vitória no Olímpico por 1-2) constituiu provavelmente uma das melhores exibições de sempre do Benfica. Tem, da minha parte, uma história pitoresca para contar, e já aqui o recordei também.



Infelizmente não vi nenhuma partida ao vivo em toda a caminhada. Aquando da 1ª mão da meia-final, disputada na Luz, creio que cheguei a chorar por o meu pai não me ter levado. Ouvi o relato precisamente nas mesmas circunstâncias que o do jogo com o Carl Zeiss dois anos antes: em férias de Páscoa, fechado na cozinha dos meus avós.



O adversário era também de leste, era também teoricamente acessível, mas vinha da Roménia e chamava-se Universitatea Craiova. Recordo também alguns nomes, como o guarda-redes Lung, bem como Ungureanu, Ticleanu, e, sobretudo, o avançado Camataru, que viria a estar mais de uma vez na iminência de se transferir para o Benfica. O resultado foi um comprometedor 0-0.



A segunda-mão (soube-o mais tarde) terá sido uma das partidas disputadas em condições mais adversas de todo o historial europeu do Benfica. Ainda há pouco tempo, numa roda em que estive, Fernando Chalana recordava esse jogo, e lembrava tudo aquilo que os romenos fizeram para desconcentrar e amedrontar a equipa encarnada. Desde uma fanfarra à volta do hotel durante toda a noite, a perseguições ao autocarro, arremesso de objectos, tentativas de agressão, e um clima de terror dentro e fora do estádio. Só uma equipa com grande personalidade reagiria a tudo aquilo, e o Benfica de Eriksson era, na verdade, uma das melhores equipas europeias da altura.



Um frango de Manuel Bento ainda fez temer o pior. Mas Zoran Filipovic, numa época particularmente concretizadora (foi o melhor marcador dessa edição da Taça Uefa, anotando, por exemplo, os dois golos de Roma), marcaria, já na segunda parte, o golo que garantia o apuramento. Até ao fim foi preciso sofrer bastante, mas o pássaro já não fugiu. Uma tarde que jamais esquecerei.



15 anos depois, o Benfica voltava a uma final europeia. A primeira do pós-Eusébio. A primeira da minha vida.



Equipa: Bento, Pietra, Humberto, Bastos Lopes, Veloso, Carlos Manuel, Sheu, Stromberg, Chalana, Nené e Filipovic.







STEAUA DE BUCARESTE, Taça dos Campeões 1987-88
Não me irei alongar muito sobre um jogo ao qual dediquei precisamente o primeiro episódio desta rubrica – o que é, desde logo, significativo daquilo que ele representou para mim, e para toda a minha geração.



Foi a primeira meia-final que assisti ao vivo, depois de uma primeira-mão vista numa tarde de quarta-feira, em casa, junto de alguns colegas que convidei (em ano de caloiro, tinha a sorte de estudar na cidade onde vivia, e muitos colegas de turma, oriundos dos quatro cantos do país, e devotos das mais variadas cores clubistas, não dispunham de televisão nos seus quartos alugados).



0-0 em Bucareste, 2-0 em Lisboa, com dois golos de Rui Águas, e uma festa imensa vivida por 135 mil pessoas nas bancadas, nas escadas, nos corredores, a encherem como um ovo o antigo Estádio da Luz.



Este foi, durante anos, o jogo da minha vida. Está tudo dito.
Equipa: Silvino, Veloso, Mozer, Dito, Álvaro, Elzo, Sheu, Diamantino, Pacheco, Rui Águas e Magnusson.







MARSELHA, Taça dos Campeões 1989-90
A final de Estugarda parecera uma oportunidade única, desperdiçada ingloriamente. Após tantos anos de ausência, ninguém supunha que o Benfica voltasse tão cedo a repetir uma final da Taça dos Campeões Europeus. O que é certo é que, apenas dois anos volvidos, e lá estava o Glorioso em Viena, para discutir com o Milan o título europeu.



A equipa era substancialmente mais forte que a de Estugarda. Chegara Eriksson para o comando técnico, bem como jogadores de grande classe como os internacionais brasileiros Ricardo Gomes, Aldair e Valdo, e ainda Jonas Thern ou Vítor Paneira. O Milan também era muito mais forte que o PSV, e a coisa não correu bem. Mas não é da final que quero falar.



A exuberante época europeia do Benfica contrastou com a irregularidade num campeonato muito marcado pelas más arbitragens, numa altura em que o “sistema” estava já muito bem implementado. Em termos europeus, o Benfica chegou às meias-finais com um impressionante balanço de 6 jogos, 6 vitórias, e 19-1 (!!!) em golos. Os adversários não eram de topo, mas à excepção do modesto Derry City, também não se pode dizer que fossem brindes, pois num tempo em que a lei Bosman era ainda uma miragem, e os jogadores de leste raramente saiam para o Ocidente, os campeões da Hungria (Honved), e da União Soviética (Dniepre) seriam sempre opositores a respeitar.



Para as meias-finais calhou o Marselha (onde jogavam, entre outros, Mozer, Waddle, Deschamps e Papin), equipa que procurava por todos os meios (todos mesmo), chegar a um grande título internacional, objectivo que conseguiria concretizar três anos mais tarde.



A primeira-mão começou muito bem, com um golo do excêntrico Lima, de cabeça, na sequência de um canto. Contudo, o Marselha reagiu com todas as suas forças, virou rapidamente o resultado, e seguiu-se um autêntico massacre. A segunda-parte foi um vendaval de oportunidades para os franceses, a que Silvino foi correspondendo como pôde, realizando talvez uma das melhores exibições da sua carreira. Mas foi a sorte, a imensa sorte, que impediu o Benfica de sair do Velodróme com um resultado pesado e impossível de reverter.



Na Luz repetiu-se o clima de dois anos antes. Grande enchente, grande vibração. O estádio levara já as primeiras cadeiras, e a lotação diminuíra. Não estavam 135 mil como no jogo com o Steaua, mas talvez umas 100/105 mil, e, com bilhetes caríssimos (estávamos em 1990, e recordo-me de haver entradas a preço oficial de 15 contos, ou seja, 75 euros), esta partida bateu todos os recordes de receita no país.



O jogo foi fraquinho. O Marselha defendia a vantagem, e o Benfica não parecia capaz de impor o seu ritmo. A oito minutos do fim as coisas estavam muito complicadas, com o 0-0 a favorecer os franceses. Até que chegou um daqueles momentos que aparecerá sempre em qualquer livro de história benfiquista: a célebre mão de Vata.



Eu estava no estádio, situado na bancada lateral precisamente no enfiamento do lance. Pois confesso, e juro por tudo o que há de mais sagrado, que só em casa, muitas horas depois, viria a saber que o golo fora obtido com a mão. No momento em que vi a bola entrar na baliza, não pensei em mais nada. O estádio mergulhou numa loucura total, talvez apenas comparável aos momentos que se seguiram ao golo de Luisão a Ricardo, no campeonato do ano de Trappatoni.



Os instantes finais foram de algum sofrimento, com o livre perigoso assinalado a favor do Marselha. Mas o jogo terminou com a vitória do Benfica, e pessoas aos saltos por todo o lado, abraçadas umas às outras, como eu nunca tinha visto até então.



Se o clima inicial do jogo com o Steaua talvez tenha sido ainda mais entusiasmante, a verdade é que o golo obtido nos últimos minutos ofereceu a ponta final da partida com o Marselha uma dose de euforia suplementar, inigualável durante muitos anos. Foram seguramente os oito minutos mais vibrantes que me recordo de ter vivido no antigo estádio.



Equipa: Silvino, José Carlos, Ricardo, Aldaír, Veloso, Jonas Thern, Vítor Paneira, Valdo, Pacheco, Magnusson e Lima.









BARCELONA, Taça dos Campeões 1991-92
Muitos questionarão o facto deste jogo aqui figurar, pois o mesmo não foi exactamente uma meia-final.



Na verdade, tratou-se da última jornada da fase de grupos da primeira edição da Champions League, grupos esses (dois) que apuravam precisamente os finalistas, depois de algumas eliminatórias prévias. Foi nesta época que o Benfica conseguiu a épica vitória em Londres, diante do Arsenal (1-3), numa partida electrizante, com prolongamento, na qual Isaías terá feito a melhor exibição de toda a carreira, e na qual Rui Costa se estreou como titular na equipa principal. Esse triunfo, no mítico Highbury Park, valeria precisamente a passagem à fase de grupos, onde oito equipas discutiriam, em duas poules separadas, o acesso directo à final.



Do grupo do Benfica constavam ainda o Sparta de Praga, o Dínamo de Kiev, e o Barcelona de Cruyff, grande favorito (favoritismo que, de resto, confirmaria, ao apurar-se para a final, e ao vencê-la em Wembley diante da Sampdória, naquele que foi o primeiro título europeu do clube catalão). Foi também no primeiro jogo deste grupo, em Kiev, que Rui Águas se lesionou de forma arrepiante (fractura exposta). Derrota inglória nessa partida, empate a zero em casa diante do Barça, e dois empates na dupla jornada frente aos checos do Sparta, pareciam traçar o destino do Benfica na prova. Mas uma robusta vitória sobre o Dínamo de Kiev na Luz (5-0), e uma conjugação favorável de resultados de terceiros, trouxe de novo a esperança aos homens de Eriksson.




À entrada da última jornada, a classificação trazia o Barcelona em primeiro, com 7 pontos, o Benfica em segundo com 5, e por fim as duas equipas de leste, ambas com 4 pontos, e já fora das contas do apuramento. As vitórias ainda valiam apenas dois pontos, mas o empate entre Benfica e Barcelona na Luz (a que me lembro de assistir) fazia com que um triunfo encarnado em Camp Nou garantisse vantagem no confronto directo entre ambos, e apurasse o Benfica para Wembley. Ou seja, ganhando este jogo, o Benfica estaria na final. Mais meia-final que isto, não há.




É preciso dizer que, em 1988, o Benfica tinha chegado à final da Taça dos Campeões, em 1990 tinha repetido o feito, e agora, novamente com um ano de permeio, tinha oportunidade para voltar a marcar presença no jogo decisivo. Mas se nessas duas temporadas precisou de vitórias caseiras sobre Steaua de Bucareste e Marselha, agora precisava de vencer em…Barcelona.




Aconteceu aquilo que se esperava. Em apenas 20 minutos, Stoichkov fez gato-sapato do lateral-direito José Carlos, e o Barça chegou a 2-0. Um golo de César Brito, já na segunda parte, nem daria para alimentar a esperança. De notar que Paulo Sousa realizou então uma das suas melhores exibições com a camisola do Benfica, saltando nessa noite para a ribalta do futebol internacional, onde faria uma carreira de grande sucesso.




O Benfica acabou o grupo em terceiro lugar (o Sparta ganhou o último jogo), mas esta partida de Camp Nou foi uma verdadeira, ainda que pouco esperançosa, meia-final.




Equipa: Neno, José Carlos, Rui Bento, Paulo Madeira, Veloso, Paulo Sousa, Jonas Thern, Vítor Paneira, Rui Costa, Isaías e Yuran.





PARMA, Taça das Taças 1993-94
Era altura em que, de dois em dois anos, o Benfica lá estava a brilhar na Europa. Final em 1988, final em 1990, meia-final em 1992, e nova meia-final em 1994. Longe estávamos então de imaginar, que só 17 anos, e Vale e Azevedo depois, os encarnados voltariam ao galarim internacional.




Voltemos ao passado. Designadamente ao ano dos 3-6 em Alvalade, e dos não menos inesquecíveis 4-4 de Leverkusen. Foi justamente essa noite épica a qualificar o Benfica para as meias-finais da Taça das Taças.




Vale a pena lembrar um pouco desse jogo. A primeira-mão trouxera um cinzento 1-1 na Luz, com um golo de Isaías no último minuto a evitar a derrota. Ao quarto-de-hora da segunda-parte do jogo de Leverkusen, os alemães venciam por 2-0, e tudo parecia definido. A meia-hora que se seguiu entrou para a eternidade como um dos mais empolgantes jogos de toda a história do Benfica. Num ápice, golos de Abel Xavier, João Pinto e Kulkov viram o resultado, dando vantagem, aparentemente confortável, aos comandados de Toni. Já nos últimos dez minutos, dois golos de rajada voltam a colocar os alemães na frente, parecendo sentenciar uma derrota inglória. Novo golo de Kulkov, a quatro minutos do fim, estabelece o 4-4. Uhff, até cansa só de lembrar. Que alegria! Que festa!




E aí estava o Benfica na meia-final, onde tinha por opositor o então fortíssimo Parma de Itália, país que na altura dominava o panorama futebolístico internacional.




A equipa italiana tinha vários internacionais, entre os quais as estrelas Zola (depois jogaria no Chelsea), Thomas Brolin (sueco), Sensini (argentino) e Faustino Asprilla (colombiano, e um dos melhores jogadores do mundo nessa temporada). O guarda-redes era Bucci, que estaria em foco na eliminatória.




A primeira-mão foi na Luz, e fez recordar as grandes enchentes das épocas anteriores. Mais de 100 mil devotos (eu, naturalmente, também não faltei) criaram um clima inesquecível de apoio ao Benfica. E os encarnados corresponderam com uma grande exibição.




Não havia ainda muito tempo de jogo, e já Rui Costa isolava Isaías para o primeiro golo da noite. Pouco depois, Zola empatou para o Parma, colocando um cubo de gelo nas emoções portuguesas. Já no início da segunda parte, foi o jovem maestro a recolocar o Benfica na frente do marcador, para alguns minutos mais tarde Vítor Paneira desperdiçar uma grande penalidade (defesa de Bucci), que elevaria a contagem para 3-1. Pelo meio, muitas oportunidades perdidas, e uma grande exibição de Yuran. No fim, um magro 2-1 a saber a pouco para tanto futebol.




A segunda-mão, no Ennio Tardini, foi marcada pela expulsão precoce de Mozer, que viu dois cartões amarelos ainda na primeira meia-hora de jogo. O Benfica foi resistindo, e mesmo com dez, a um quarto de hora do fim mantinha a sua magra vantagem construída em Lisboa. Um golo de Sensini seria fatal, e os encarnados, muito desgastados por uma longa época, não mais conseguiram ameaçar as redes contrárias.




O destino ditou uma eliminação inglória, perante um adversário que, pelo que se havia visto, sobretudo na Luz, estava ao alcance do Benfica.




Equipa: Neno, Veloso, Mozer, Hélder, Schwarz, Kulkov, Vítor Paneira, Rui Costa, João Pinto, Yuran e Isaías.




Seguiu-se um período de trevas. Nas três temporadas seguintes o Benfica ainda chegaria aos quartos-de-final por duas vezes. Mas o valeeazevedismo deitou tudo a perder, e quase matou o próprio clube.




Com um futebol muito diferente, com competições totalmente reformuladas, o Benfica volta agora, passados todos estes anos, a uma meia-final. Que seja para ganhar.

REALISMO

O problema do Benfica não é desta época. O problema do Benfica não é dos últimos oito anos. Na verdade, o problema do Benfica não é… nenhum.


Existe é um clube que há quase trinta anos, por várias vias, dentro e fora dos campos (e há aspectos que terão de continuar a ser denunciados), assumiu a hegemonia do futebol português, e que hoje se situa num plano desportivo consideravelmente mais elevado que os encarnados.


Não adianta clamar por milagres, nem esperar por varinhas mágicas. Para o Benfica voltar a ser a principal força desportiva do futebol português, terá de continuar a lutar, a prosseguir o seu caminho, sem precipitações, nem angústias existenciais ridículas. Com humildade, tranquilidade, união e perseverança, talvez possa lá chegar dentro de alguns anos. Sobretudo se olhar mais para si, e menos para o rival (que nalguns quadrantes do benfiquismo começa a transformar-se numa estúpida obsessão). Sobretudo se puxar pelas suas principais armas: a capacidade de mobilização, a popularidade, a paixão. Sobretudo se não desvalorizar o que tem, e o que ganha, e não hipervalorizar aquilo que perde.


Ser derrotado por um dos melhores Portos de todos os tempos, não é humilhação para nenhuma equipa do mundo. Pode ser tristeza, pode ser desilusão, mas só envergonha os irrealistas. Para a realidade do Benfica actual, lutar pelo acesso a uma final europeia, ter assegurado presença nas pré-eliminatórias da próxima Champions League, e ter erguido um troféu oficial, já traduz uma temporada razoável – havendo ainda a esperança de a mesma se poder vir a tornar histórica, com uma inédita conquista europeia a abrilhantá-la.



Alguns poderão continuar a cantar de alto, ou pretender que o Benfica, só por ser Benfica, terá de se superiorizar por decreto a todos os adversários, acusando de falta de exigência quem lhes chama a atenção para a …realidade. Esses, apenas contribuem para o adiar de um Benfica verdadeiramente hegemónico.

FLASH

Ao ver os jogadores do Benfica erguerem a Taça da Liga, ladeados por uma equipa vestida de amarelo, sonhei por momentos que estava sentado nas bancadas de Dublin, e que o Benfica acabara de vencer o Villarreal, conquistando a Liga Europa.

A VERGONHA DO BENFICA SÃO... ELES!

Lamento, mas eu é que tenho vergonha que o meu clube também albergue adeptos como estes.




É gente ridícula e estúpida como esta, que, pela sua incapacidade de entender as coisas como são, e pela pressão negativa que frequentemente colocam sobre jogadores e técnicos (favorecendo adversários e fazendo sorrir rivais), não permite ao Benfica alcançar o sucesso desportivo que a sua dimensão justificaria.




E já agora, se o Luisão me quiser dar a sua camisola, eu, como muitos milhares, ou milhões de benfiquistas, saberemos agradecê-la devidamente.

UMA GRANDE VITÓRIA, POIS CLARO!

Uma final, qualquer que ela seja, vale por si só.


Ninguém se lembrará de questionar as boas ou más exibições das equipas que venceram as finais dos vários Mundiais ou das várias competições europeias, e muito menos a correspondente alegria dos seus adeptos, pois o que fica para a história é o resultado - que em qualquer final consome, por si, tudo aquilo que tiver ficado para trás.


Acresce que, neste caso, o Benfica venceu uma competição em que participaram todas as equipas profissionais do país, e onde, por exemplo, Sporting e FC Porto, ficaram afastados da final, seguramente contra a sua própria vontade. Não foi só na noite de Coimbra que a Taça da Liga se definiu, mas sim nos vários jogos que se disputaram desde Janeiro, no conjunto dos quais os encarnados foram, inquestionavelmente, a melhor equipa da prova.


Muitos tenderão agora a desvalorizar a Taça da Liga, como desvalorizariam a Taça de Portugal se o Benfica a pudesse ganhar. Digo o que sempre disse: são competições praticamente iguais, quer quanto ao grau de dificuldade que apresentam, quer quanto ao mediatismo que têm, reconhecendo naturalmente uma ligeira supremacia da Taça de Portugal em virtude de questões de tradição histórica. Se a derrota na Taça de Portugal representou uma enorme frustração (e representou), esta vitória, de forma análoga, não pode deixar de significar uma grata alegria, e é lamentável que alguns benfiquistas assim não a entendam, como se percebia nos comentários à saída do estádio.


Ou seja, a vitória do Benfica na Taça da Liga é uma grande vitória, que deve ser comemorada a preceito. É pena que não se lhe possam juntar outras, mas isso não são contas deste rosário. O que está em causa é a final de ontem, e nessa, mesmo com uma segunda parte plasticamente sofrível (em que os nervos provenientes das bancadas nada ajudaram), os encarnados justificaram a vitória, e o troféu, garantindo o tri.


Diga-se, a própósito, que só em dois dos últimos oito anos o Benfica não conquistou títulos (2006-07 e 2007-08). Esse é um dado que não pode ser subestimado, particularmente numa altura em que, por causa de uns simples 10 minutos de um jogo com o FC Porto, parece haver benfiquistas capazes de tudo pôr em causa.


Voltando a Coimbra – onde estive com todo o gosto, numa jornada de grande promoção da festa do futebol – deve dizer-se que a primeira parte mostrou um Benfica solto, e aparentemente de cabeça limpa, a justificar plenamente a vantagem. Um penálti por assinalar sobre Saviola até poderia ter valido números mais amplos.


Só na segunda parte, após o auto-golo, os nervos primeiro, e o cansaço depois, se apoderaram da equipa, fazendo-a vacilar, e deixando aquela imagem final de sofrimento. Aí sim, sentiu-se a derrota de quarta-feira, ocorrida apenas algumas dezenas de horas antes - de forma particularmente dramática, como se sabe, e não adianta mais recordar.


Importa dizer que um Benfica como o daqueles últimos minutos dificilmente estará na final da Liga Europa. O Sp.Braga é mais forte que o Paços, e saberá aproveitar toda aquela fragilidade de outra forma. Como ainda faltam alguns dias, será de esperar que o Benfica se apresente fisicamente muito mais disponível, e o triunfo agora alcançado poderá também contribuir para uma maior tranquilidade anímica.


É importante que os adeptos façam a sua parte, e se deixem de esperas e assobios completamente despropositados – o Benfica perdeu, na quarta-feira, com uma das melhores equipas europeias da actualidade, que por acaso é o seu rival -, e saibam ajudar os jogadores a recuperar a confiança.

Individualmente gostaria de destacar Moreira (por motivos óbvios), mas também a disponibilidade de Fábio Coentrão e Jara. Javi Garcia também esteve em bom plano. Cardozo, pelo contrário, esteve bastante infeliz. Não mais infeliz que Saviola (perante quem os adeptos têm, sabe-se lá porquê, uma muito maior tolerância).

É importante perceber que o paraguaio não está lá para jogar, mas sim para marcar. Quando teve Di Maria e Ramires nas alas, e um grande Aimar e um grande Saviola na retaguarda, marcou 40 golos. Agora a coisa está naturalmente mais difícil, mas só uma parte da responsabilidade lhe poderemos atribuir.


Pedro Poença esteve mal no penálti perdoado ao Paços, mas como ainda não revi o jogo na tv (o estranho horário da Liga obrigou-me a chegar a casa perto das 04.00 da manhã), deixarei outras opiniões para mais tarde, se tal se justificar.


Uma palavra de simpatia ao Paços de Ferreira, quer à equipa quer aos adeptos, que ajudaram a fazer desta final um momento de enorme desportivismo. Assim deveria ser sempre o futebol.


Para já, há que saborear esta conquista.

AGORA É ISTO QUE INTERESSA!

O onze a apresentar deveria ser, por vários motivos, o mesmo de quarta-feira passada - onde, é preciso dizê-lo, os jogadores deram tudo o que tinham.

O FC Porto, neste momento, é melhor, e quem não entender isso não entende nada do que aconteceu, do que está a acontecer, e pode colocar em causa tudo o que ainda pode vir a acontecer - nesta e na próxima época.

ESTADO DE CHOQUE





Acredite no que lhe digo, caro leitor. Eu falava verdade quando desvalorizei a Supertaça no início da época, afirmando tratar-se de um troféu menor. Eu falava verdade quando passei por cima dos 5-0, realçando que se haviam perdido apenas três pontos, e que a goleada era um mero dado estatístico. Eu falava verdade quando me confessei indiferente aos festejos do FC Porto na Luz, relativos a um campeonato decidido muito tempo antes.


Eu também falo verdade agora, caro leitor, quando, sem ter ainda conseguido pregar olho, confesso a minha profunda desolação com a derrota desta noite - seguramente uma das mais difíceis de engolir em trinta anos que já levo a ver futebol.


Interrogo-me como o desporto pode ser assim tão cruel. Interrogo-me sobre o que ando aqui a fazer, sobre o dinheiro que gasto em bilhetes, em canais de televisão pagos, em quotas, em lugares cativos, em deslocações, sobre o tempo que perco a escrever, para depois passar por momentos como este. Tenho plena consciência de que os verdadeiros problemas da vida são outros, mas se o futebol é um brinquedo de emoções, essas emoções (embora necessariamente passageiras) são bem reais, e fazem-nos sofrer a sério.


Nos últimos anos não me recordo de um jogo tão trágico para o Benfica. Não só foi desperdiçada uma vantagem significativa trazida de uma brilhante primeira-mão, como tal acabou por suceder de forma dramática, em poucos minutos, numa altura em que, confesso, já não me passava pela cabeça não ir ao Jamor. Tudo frente ao grande rival, numa época, e num momento, em que era necessária uma manifestação de força competitiva capaz de afastar alguns fantasmas. O Benfica viu gorar-se a possibilidade de terminar a temporada em festa, com um troféu nas mãos, bem como a hipótese de marcar presença na próxima Supertaça. Um verdadeiro jackpot de horrores.

Esta dolorosa derrota representa um pesadelo para os benfiquistas, e um murro no estômago de uma equipa que, é preciso dizê-lo, ainda tem muito para ganhar. Não sei que consequências poderá trazer para o futuro próximo, mas, honestamente, temo o pior.


Durante uma hora de jogo, as coisas pareciam relativamente controladas. O FC Porto tinha maior iniciativa ofensiva, o que era normal. O Benfica procurava, a espaços, lançar contra-ataques, o que também era normal. Uma oportunidade de golo para cada lado, e poucos mais motivos de interesse, completavam a guião que parecia prenunciar uma noite, também ela normal, com o Benfica - ganhando, empatando, ou mesmo perdendo tangencialmente - a seguir em frente rumo ao Jamor.


Ao contrário do que eu próprio previra na Benfica TV na antevisão ao jogo, o perigo não esteve nos primeiros minutos. A partida começou fechada, e o tempo foi passando com naturalidade. O primeiro golo, já algo tardio, modificou, então sim, todos os parâmetros até aí verificados. Veio ao de cima a extraordinária capacidade do FC Porto, revitalizada com o tónico de que necessitava. Veio ao de cima, no reverso da medalha, a fragilidade emocional que a equipa encarnada tem revelado durante a época, sempre que se vê em situações de pressão. Em Eindhoven teve sorte, esta noite teve azar. Três golos em dez minutos viraram do avesso a história da eliminatória, e puseram o Benfica de gatas.


Paradoxalmente, foi a partir daí que se viu o melhor Benfica. Com o golo obtido a dez minutos do final renasceu alguma esperança (voltei a sentar-me, depois de me preparar para sair). Num dos lances imediatos, Aimar (já em campo) quase fabricava o 2-3, que seria épico. Mas o tempo era curto, e o FC Porto raramente vacila. Quando o jogo terminou, já eu estava no elevador rumo ao parque de estacionamento. Sem conseguir sequer chorar.


Analisar as causas técnico-tácticas da derrota seria um exercício penoso, e inconsequente. Não houve erros tácticos, ou estratégicos que explicassem o descontrolo emocional que se seguiu ao golo de Moutinho. É futebol, dir-me-ão os mais frios. É fatalidade, dir-me-ão os restantes.


A arbitragem esteve francamente mal, e o primeiro prejudicado foi o Benfica, pois o golo de Hulk é obtido em claro fora-de-jogo. O penálti também é duvidoso, bem como muitas das outras faltas mal assinaladas e por assinalar que foram ocorrendo ao longo dos noventa minutos.
Ao contrário do que ocorreu no campeonato (onde não houve uma só, mas um conjunto de arbitragens que, cirurgicamente, condicionou a prova desde início), não creio que se devam procurar aí as causas da derrota. Por isso, e também por tudo o que se viu no relvado, sou agora obrigado a curvar-me resignadamente, e a reconhecer que o FC Porto mereceu amplamente passar esta eliminatória, merece estar na final, e é, neste momento, muito melhor equipa que o Benfica.


O mundo não acabou, e a temporada futebolística também não. A Taça da Liga está à porta, e pode ser uma boa terapia para recuperar do trauma vivido esta noite. Depois vem o prato principal: a Liga Europa (muito mais importante, diga-se, do que qualquer uma das duas taças). Depois do que se viu hoje, ninguém poderá exigir a este Benfica que ganhe uma eventual final contra este FC Porto. Por estranho que pareça isso até pode afastar alguma pressão da equipa, que se deve concentrar apenas na possibilidade de ultrapassar o Sp.Braga, e voltar, 21 anos depois, a uma grande final internacional. O resto se verá.


Para já, Coimbra, onde se espera, antes de mais, que os adeptos não abandonem os jogadores. Eu estarei lá, vou disposto a festejar uma vitória, e a esquecer o que se passou hoje. Como disse acima, ao contrário dos verdadeiros problemas da vida, os desgostos do futebol passam depressa. Este também vai passar.

UM ONZE DE COMBATE

Roberto, porque a coisa pode ter de se decidir nos penáltis.

Sidnei, porque é rápido, tem bom jogo de cabeça, e, até ver, parece-me melhor jogador que Jardel.

Do meio-campo para a frente não há, infelizmente, muitas opções (talvez apenas Jara, para o lado esquerdo, mas só se o jogo estiver a correr mal). As lesões de Salvio e Gaitán não podiam ter calhado em pior altura.

Quanto ao árbitro, creio que Olegário Benquerença seria bem pior. Xistra é apenas um mero incompetente, que em Braga até foi injustamente responsabilizado por uma decisão do auxiliar (que felizmente não estará neste jogo).

JOGO PERIGOSO

"Não seria preciso dizer muito mais do está já escrito aqui ao lado, para se perceber como a partida da próxima quarta-feira, relativa à Taça de Portugal, poderá tornar-se dramaticamente traiçoeira, caso não seja encarada por todos nós (e incluo sócios e adeptos) como aquilo que verdadeiramente é: um grande clássico, carregado de rivalidade, onde tudo pode acontecer.


É um facto que o resultado trazido do Dragão deixa margem para algum optimismo. Estamos em vantagem, e vamos decidir o apuramento em nossa casa. Mas os dois golos obtidos podem revelar-se insuficientes se o Benfica a eles se encostar, pois não tenhamos dúvidas que o nosso adversário vai fazer o que pode e o que não pode para, mais do que vencer a Taça, não deixar que sejamos nós a vencê-la.


Um golo nos momentos iniciais (e sabemos como eles entram normalmente nas partidas, procurando explorar as primeiras hesitações do outro lado) pode transformar este jogo num desafio à coragem e a resistência com efeitos imprevisíveis, e a única forma de o evitar será mantendo os níveis de concentração elevados, e entrando em campo como se o resultado estivesse a zero.


Até me arrepio quando oiço dizer que esta meia-final está quase ganha. Faltam noventa minutos diante de um adversário que nos odeia muito para além do orgulho que tem em si próprio. E não esqueçamos que temos de contar com o pouco fiável desempenho de uma equipa de arbitragem nomeada por uma FPF cujo poder e influência passa demasiado por Lourenço Pinto e pela AF Porto. Creio serem argumentos suficientes para olhar esta partida, senão com apreensão, ao menos com o respeito das grandes ocasiões.


Aos adeptos cabe encher o estádio, e, sempre dentro dos parâmetros da civilidade que é própria do Benfica, criar um clima vibrante de paixão, que empurre os nossos jogadores para a vitória, e tente condicionar o desempenho dos rivais.


Só com uma equipa mentalizada para as dificuldades que tem por diante, e com adeptos mobilizados para a apoiar, será possível chegar ao Jamor."


LF, Jornal "O Benfica", 15/04/2011

DESPIR O RIVAL

"Trinta anos de práticas subterrâneas, de corrupção desportiva, de manobrismo, de cinismo e de mentira, empurraram o FC Porto para o sucesso e para os títulos. Seria fastidioso voltar a descrever métodos que todos pudemos ouvir nas escutas do Apito Dourado, lembrar episódios a que todos assistimos nos estádios deste país, ou manifestar desconfianças acerca de aspectos nunca devidamente investigados – como sejam os relativos a jogadores emprestados a equipas adversárias, pré-contratados a estas, ou comprometidos de forma pouco transparente, como sejam os relacionados com complexas teias físicas, médicas e biológicas acerca das quais modalidades como o ciclismo (de que sou fã, e acompanho em pormenor) nos vão ensinando um pouco. O FC Porto de Pinto da Costa é, na verdade, um compêndio de atropelos às regras e ao desportivismo. É um monstro que obscurece, há tempo demais, o desporto português. É lama que envergonha muitos cidadãos do Porto, e do norte do país em geral.

Mas se toda esta camada de podridão ensombra os êxitos desportivos daquele clube, ela não esgota, há que dizê-lo com honestidade, a panóplia de razões que estão por detrás desses êxitos. Para além de uma metodologia de desrespeito pelas leis e pela ética desportiva, o FC Porto evidencia também, no outro lado da moeda das suas vitórias, aspectos que merecem, senão admiração (tratando-se de quem se trata, a palavra seria forte e despropositada), pelo menos alguma atenção, de modo a que, por um lado, não nos deixemos surpreender por eles – e se não conhecermos bem os nossos adversários, nomeadamente aqueles que são os seus pontos fortes, mais difícil será batê-los -, e por outro, consigamos igualmente saber usá-los na nossa casa, e em nosso favor. Se práticas corruptoras recusamos liminarmente utilizar, nessas outras vertentes podemos, e devemos, saber extrair proveito, pois aí é de futebol que se trata. É dessas que passo a falar.

Olhando para o plantel do FC Porto, ressalta desde logo à vista a planta física da generalidade dos seus jogadores. Hulk, Guarin, Maicon, Fernando, Varela, entre outros exemplos, são senhores de uma morfologia atlética impressionante, e que contrasta com a da generalidade das equipas portuguesas. Esse é um dos itens em que o FC Porto encontra vantagens, pois num futebol como o português, onde abundam equipas fechadas e combativas, ser capaz de manter supremacia nos momentos em que a dimensão física dos jogos dita leis é aspecto nada despiciendo. Aliás, se verificarmos bem, essa tipicidade estende-se muitas vezes às restantes modalidades, onde os dragões apresentam sistematicamente equipas altas e muito musculadas, naquilo que parece ser uma regra da casa.

Outro padrão que também encontramos nas equipas portistas é a manutenção de uma filosofia de jogo constante de época para época, onde - na humildade da minha opinião de treinador de bancada - me parece que a capacidade de pressão e recuperação da bola, e a forma de retirar espaços para os adversários pensarem o jogo (assente numa grande disponibilidade táctica de todos os elementos, e numa rigorosa cobertura do terreno de jogo e respectivas compensações) são a principal alavanca. Com Jorge Jesus, o Benfica tem mantido também alguma estabilidade táctica, podendo acentuá-la nas próximas temporadas.

Mas há ainda outro plano em que o FC Porto pode, e deve, ser analisado, sem pruridos, nem complexos ou cegueiras que em nada nos beneficiam. A força mental revelada genericamente pelos jogadores azuis-e-brancos é digna de realce, e configura, indesmentivelmente, uma das suas principais vantagens comparativas – pelo menos de entre aquelas que poderemos considerar como virtuosas.

É normal que certas derrotas afectem o ânimo das equipas. É também frequente que vitórias mais convincentes possam conduzir a algum deslumbramento. Pois o FC Porto parece ser totalmente insensível a esse tipo de factores, aparentando a mesma entrega e disponibilidade mental em todos os momentos da época, e em todos os momentos de cada jogo. Este é um crédito que, em boa fé, não lhe poderemos negar.

Não sei como tal é conseguido. Mas desconfio que o discurso regionalista e fanatizante que preenche toda a cultura do clube não seja alheio a essa espécie de suplemento de alma, que tanto os ajuda a ganhar. Não sendo possível trespassa-lo de forma ligeira para um clube de matriz universalista como o Benfica, teremos de encontrar rapidamente formas de, também nós, alimentar, na mesma medida, a galvanização e concentração incessantes dos nossos atletas, de modo a que entrem em campo, semana a semana, com a sua agressividade competitiva sempre nos limites máximos. Isto se queremos efectivamente alcançar uma hegemonia consistente e sustentável, que deixe para trás o FC Porto, mesmo nos terrenos onde ele é mais forte.

É claro que todas as boas intenções poderão esbarrar nos Benquerenças e Cardinais deste mundo. Mas quando, para lá do nosso proverbial talento, da nossa alma grandiosa, da nossa cultura universalista, do nosso subliminar espírito de glória, conseguirmos estabelecer também uma vincada superioridade em parâmetros, do âmbito da licitude (somente nesses!), que hoje caracterizam o principal rival, estaremos certamente mais perto de passar por cima daqueles efeitos paralelos, conseguindo assim, igualmente, reforçar a nossa voz de indignação face aos mesmos. Estaremos então, creio, mais perto de vencer."


LF, Jornal "O Benfica", 15/04/2011

A HISTÓRIA AJUDA


BLUFF, É CLARO!

Ele diz que a Taça não é objectivo.


A Taça, por si só, talvez até nem fosse. Mas retirar ao Benfica as hipóteses de conquistar troféus é, não apenas um objectivo, mas o objectivo supremo de Pinto da Costa e do FC Porto.


Por isso mesmo, a equipa azul-e-branca entrará na Luz empenhada em fazer o jogo do ano, sabendo que um eventual tri-benfiquista (Taça da Liga, Taça de Portugal e Liga Europa), reduzirá a escombros o seu campeonatozito nacional tão tristemente conquistado.


Por isso mesmo, estão a tentar adormecer a equipa encarnada, procurando surpreendê-la.


Espero que ninguém caia neste canto da sereia. O jogo vai ser duríssimo, e só um grande Benfica chegará à final.

OS NÚMEROS DE UMA FRAUDE

Oito pontos retirados directamente ao Benfica:





- três frente à Académica, na 1ª jornada (Cosme Machado)




- um na Choupana, na 2ª jornada (Pedro Proença)




- três em Guimarães, na 4ª jornada (Olegário Benquerença)




- um em Braga, na 22ª jornada (Carlos Xistra)





Oito pontos oferecidos ao FC Porto:





- dois na Figueira da Foz, na 1ª jornada (Paulo Baptista)




- dois em Vila do Conde, na 3ª jornada (Jorge Sousa)




- dois frente ao Sp.Braga, na 4ª jornada (Pedro Proença)




- dois frente ao V.Setúbal, na 13ª jornada (Elmano Santos)




- dois frente ao Sporting, na 27ª jornada (Soares Dias)




- (prejudicado em dois pontos no jogo de Alvalade)






Além destes jogos, de que quase todos se lembrarão, houve inúmeros lances cuja influência nos resultados finais não é possível aquilatar, como sejam:




- penáltis por assinalar contra o FC Porto (mãos de Rolando com a Académica e na Choupana; agarrão de Fucile em Guimarães)




- penáltis por assinalar a favor do Benfica (rasteira a Saviola nos Barreiros, mão de jogador do Beira-Mar em Aveiro, corte com a mão de defesa do Marítimo na Luz, e mais dois penáltis em Coimbra)




- penáltis mal marcados a favor do FC Porto (alegada mão de David Simão na Mata Real)




- penáltis mal marcados contra o Benfica (alegada mão de Coentrão na Luz contra o Rio Ave)




- golos limpos anulados ao Benfica (Javi Garcia em Setúbal, Saviola na Luz com o V.Guimarães e Aimar na Luz com o Beira-Mar)


Ou seja, contas por alto, o Benfica estaria neste momento a três pontos da liderança, mesmo colocando a hipótese académica (e algo absurda) de, em plena luta pelo título, ter perdido na Figueira da Foz, ter empatado em casa com o Portimonense, e - porque não acrescentar - ter perdido na Luz com o FC Porto.




Dados suficientes para concluir que esta Liga não vale nada, está totalmente subvertida, e o seu vencedor, independentemente de ter jogado bem ou mal, deveria ter vergonha de erguer o troféu.




Roubaram o campeonato ao Benfica. Espero que amanhã não lhe roubem também a Taça.

IMBECILIDADES

Não é Mourinho quem quer.

Os resultados não são tudo, até porque, em certos clubes, com muita gente a ajudar, é bastante mais fácil vencer.

As declarações de André Villas-Boas após o jogo com o Sporting são cretinas e inaceitáveis, e só estranho que os responsáveis do clube de Alvalade não tenham sabido responder à altura.

Há “mind-games” que têm alguma piada. Há outros que são meras confissões de recalcados complexos de menoridade social. A diferença é grande.

É também por isso que enquanto José Mourinho é apenas um embirrante, André Villas-Boas não passa de um imbecil.

POBRE LIGA

Semana a semana, o campeonato lá se vai arrastando penosamente até a um final que parece nunca mais chegar.

O título ficou decidido em Setembro. Três arbitragens devastadoras para o Benfica, e outras tantas cirurgicamente favorecedoras do FC Porto, cavaram uma distância que muito dificilmente poderia ser revertida. A partir daí, só a conjugação de um super-Benfica com o FC Porto menor, poderia alterar o rumo traçado. Não aconteceu, nem uma coisa, nem outra. O consequente empolgamento (e também qualidade) do conjunto portista fez o resto.

Por mim ter-se-ia entregue o troféu ao FC Porto logo à quarta jornada, poupando os portugueses a este longo e penoso embuste.

Não adianta muito voltar a publicar a classificação real. Desde Braga (há seis jornadas atrás) o Benfica desistiu (e bem) de lutar. Não faz sentido considerar uma diferença de pontos onde entrem jogos com as características do Naval-Benfica, ou do Benfica-Portimonense. Com outra classificação de base, seriam seguramente partidas bem diferentes daquilo que foram.

Nesta jornada houve dois erros gravíssimos. Não pelas suas consequências, mas antes pela clareza das situações. Falo do golo anulado a Aimar, e do penálti perdoado a Rolando. Para efeitos estatísticos, diga-se que se tratou do sexto (!!) golo mal anulado ao Benfica, e do sexto (!!) penálti por assinalar contra o FC Porto. No caso da mão de Rolando, mais grave que o próprio erro do árbitro, foi o espantoso comentário que ouvimos, incrédulos, a José Alberto Costa na Sport Tv. Chega a ser intrigante como alguém, depois de ver as várias repetições televisivas, consegue achar que aquele lance não é merecedor de grande penalidade. Mas, enfim, se há coisa em que a Sport Tv nunca se distinguiu foi na qualidade dos seus comentadores e convidados (ter Pedro Henriques como comentador das noites europeias é algo que deveria envergonhar uma estação detentora dos direitos dessas provas).

Não irei dizer muito mais acerca dos dois jogos. Nem sequer fui à Luz, e do que vi da tarde-noite televisiva realçaria apenas as exibições individuais de Carlos Martins, Falcão e Rui Patrício.

Num fim-de-semana com pouco interesse competitivo, nem um atípico e quase insignificante Real Madrid-Barcelona se salvou. Na quarta-feira regressa o futebol a doer.

O MAIS "B" POSSÍVEL

Colocar os suplentes, para além de uma exigência de calendário, é também uma forma de afirmar o desprezo por uma competição adulterada desde o início.