A primeira derrota do Benfica na Liga Portuguesa, surgida na sequência de uma série de maus resultados e más exibições, gerou uma onda de instabilidade dentro e fora do clube da Luz.
Quando se é grande é assim mesmo. Grandes euforias por pequenas coisas, grandes depressões ao mínimo percalço. É claro que muitos anos sem ganhar títulos em nada ajudam a alterar este estado de espírito, exacerbadamente expresso logo que se antevê nova frustração no horizonte.
A generalidade dos analistas volta-se para os jogadores, culpando-os de pouca entrega e pouca ambição no jogo da Trofa, o que de resto está em linha com as notícias que dão conta da insatisfação de Rui Costa e Luís Filipe Vieira com o desempenho de alguns deles. Há também quem responsabilize o treinador, acusando-o de não ter ainda percebido bem o seu plantel e o próprio futebol português.
Tenho para mim que ninguém está inocente nesta história. Jogadores, treinador e SAD repartem culpas, ainda que eu pense que a coisa não estará talvez assim tão mal como parece – ao fim e ao cabo o Benfica está a um ponto da liderança, apenas perdeu uma vez, e tem o objectivo do título perfeitamente em aberto.
Vamos por partes:
SAD/Rui Costa:Por muita simpatia que nos mereça a figura de Rui Costa, por grande que seja o seu benfiquismo, sua experiência e seu profissionalismo, há que reconhecer que o plantel do Benfica tem alguns desequilíbrios, sejam eles resultantes de erros de análise ou apostas de excessivo risco, levadas a cabo, em última análise, pelo seu director desportivo.

Não gostaria de nomear ninguém, pois este é o plantel com que o Benfica tem de terminar a época. Parece-me contudo que foi negligenciado um aspecto fundamental, e que se prende com o perfil atlético dos jogadores contratados e dispensados.
Muitas vezes me tenho lembrado de Petit, da sua generosidade, da sua regularidade. Rodriguez era também um dos mais combativos. Para além do próprio Rui Costa, que mesmo em final de carreira deixava a pele em campo. Em troca chegaram jogadores tecnicamente dotados, mas macios, atreitos a lesões, e conhecidos pela irregularidade do seu rendimento.
Por outro lado foi feita uma aposta clara numa equipa de ataque, voltada para o espectáculo, com artistas em série e muitos avançados. Ora é dos livros que uma equipa ganhadora se constrói de trás para a frente, e o plantel do Benfica não oferece, sejamos claros, soluções de grande consistência defensiva.
Por fim, creio que foram feitas demasiadas mudanças, algumas das quais escusadas. Já falei de Petit, podia falar de Nuno Assis, Nelson ou Luís Filipe (jogadores portugueses, familiarizados com o clube e com o campeonato). Se verificarmos que muitas das novas aquisições pouco utilizadas foram, percebemos que não haveria necessidade de (uma vez mais) revolucionar o grupo de forma tão drástica.
Rui Costa é muito inteligente, e de certo aprenderá com os erros. Tem neste momento um grande desafio pela frente que é juntar os cacos de um balneário que parece partido, descrente e intranquilo.
Confio nele.
Quique Flores:É simpático, tem um discurso interessante e parecia ser um disciplinador.
Nos últimos tempos tenho ficado com algumas dúvidas a respeito deste último aspecto, pois quando o presidente e o director são obrigados a intervir no balneário, a fotografia do treinador não sai muito favorecida.
Também no aspecto técnico-táctico não tenho compreendido algumas das suas opções, nomeadamente a constante mudança do onze; a insistência num modelo de jogo tipicamente espanhol para um campeonato tão específico como o português; a utilização de Ruben Amorim na ala direita quando faz falta no meio; ou o encostar de Léo (e Quim); para além de algumas substituições menos conseguidas.

Mas há que convir que a sua missão era, e é, extremamente difícil. Orientar um clube com a dimensão do Benfica, que não ganha nada há várias temporadas; onde entram e saem, ano após ano (neste defeso também), dezenas de jogadores; com uma pressão mediática tremenda; com o peso de um investimento ímpar; e com um plantel com algumas lacunas, é uma tarefa quase hercúlea. Exigir-lhe milagres não é justo, e se for campeão é mais ou menos disso que estamos a falar.
Creio pois que o maior erro que o Benfica cometeria neste momento seria pôr em causa o seu treinador. Afinal de contas passaram pela Luz Artur Jorge, Paulo Autuori, Manuel José, Jesualdo Ferreira, José Mourinho, Jupp Heynckes, Graeme Souness, José António Camacho, Fernando Santos, Ronald Koeman e nenhum foi campeão, acabando todos eles (mais ou menos) injustamente responsabilizados por problemas estruturais ainda não totalmente debelados, e que impediram o Benfica de vencer ao longo dos últimos 15 anos. A excepção foi Trappatoni, e mesmo esse acabou empurrado, após uma época em que foi insistentemente assobiado por adeptos com um grau de exigência muito acima do que o clube pode oferecer num novo tempo, e numa nova realidade.
Jogadores:
Se toda a estrutura do futebol benfiquista parece ser unânime em apontar o dedo ao desempenho de alguns jogadores, quem sou eu, que não vejo os treinos, que não estou no balneário, para defender o contrário. Se há algum, ou alguns, que não dão tudo o que podem nos treinos e/ou nos jogos, devem ser chamados à razão, e castigados se for caso disso.
Não se pode todavia confundir aquilo que é o perfil futebolístico de determinados atletas, com o seu maior ou menor empenho. Não se pode pedir a um artista como Aimar ou Di Maria que lute pela bola da mesma forma como faz, por exemplo, Maxi Pereira. Cada jogador tem as suas características, e quando se constrói um plantel, ou quando se escala um onze, há que medir todos esses equilíbrios.
Há também vários casos de gritante inexperiência no plantel benfiquista. Di Maria, Sidnei, David Luíz, Binya, Miguel Vítor, Felipe Bastos e Urreta são apenas alguns. Não é justo, por exemplo, crucificar Binya pela mão da Trofa, pois trata-se de um jogador ainda em crescimento – que por sinal parece ser dos que dá tudo o que pode e sabe. Confundir isto com menor empenho é um erro, e pode abalar irremediavelmente a confiança dos atletas, devastando a equipa.
Alguns, se calhar, não são tão bons como se dizia. Mas disso não têm eles culpa.
Adeptos:Se pensavam que se livravam, enganam-se!
Embora na Trofa o apoio(durante o jogo) tenha sido grande, já houve situações e ocasiões esta época em que os
benfiquistas (ou alguns deles) não fizeram o que podiam e deviam para ajudar a equipa. O grau de exigência na Luz é perfeitamente absurdo, e mantém incompreensíveis
reminiscências do tempo do Eusébio, o que contribui para intranquilizar os jogadores e prejudicar o seu rendimento. Num momento como este, há que manter a cabeça fria, e deixar os responsáveis actuar, sem pressões nem precipitações, não cabendo a quem está de fora criar ainda mais instabilidade. Tomara que me engane, mas o ambiente no próximo domingo vai ser pior do que jogar em Braga. E depois, quem perde somos todos nós...
Em suma, o que me parece importante neste momento é que todos remem para o mesmo lado. O Benfica está a um ponto do primeiro lugar, depende apenas de si, não perdia para o campeonato havia oito meses, e tem neste ano - fruto sobretudo de um decréscimo portista e de alguma estagnação sportinguista - uma oportunidade de ouro para voltar aos títulos. Ainda há tempo de a não desperdiçar.