
Por mais panos quentes que se coloquem sobre a situação, a verdade é só uma: Portugal, depois deste empate, está praticamente afastado do primeiro lugar do grupo – o único que dá acesso directo ao Mundial – e fica inclusivamente em sérias dificuldades para alcançar o segundo, e assim chegar ao play-off de repescagem.
Parece impossível, mas esta é a situação em que a selecção nacional se colocou depois de, em quatro jornadas, somente ter conseguido vencer Malta, e de, em dois jogos em casa, apenas ter alcançado um mísero ponto.
Já aqui disse muita coisa a propósito desta equipa e deste treinador aquando da inacreditável derrota com a Dinamarca em Alvalade. Na altura falei daquilo que Portugal perdera com a saída de Scolari, numa fase em que muitos ainda desconfiavam do que para outros – entre os quais eu próprio - era uma absoluta evidência. Não vale a pena perder muito tempo a repeti-lo, até porque a simples comparação entre os dois técnicos se afigura um exercício cada vez mais absurdo, para além, claro, da sua total inutilidade.
No entanto, ao encetar uma análise a este jogo e à situação classificativa por ele deixada, é impossível ignorar os erros primários cometidos por Queirós em quase todos os parâmetros daquilo que são as suas atribuições enquanto técnico nacional.
Não sei o que quer dizer Carlos Queirós quando afirma estar a construir uma grande equipa. Para quando ? Pelos vistos alguém terá de lhe dizer que estamos quase a meio da fase de apuramento para um Mundial, e que há mais de dez anos não falhamos qualquer grande competição.
As suas declarações antes e depois dos jogos são, ou despropositadas, ou totalmente inócuas, revelando-se incapaz de mobilizar jogadores e público. As suas opções técnicas são extremamente voláteis e quase sempre incompreensíveis, parecendo por vezes fazer tudo ao contrário daquilo que deve ser feito. Em campo, a equipa surge sem alma, sem coesão, sem organização, sem nada.
Como será possível vencer com um treinador assim ?
Não tenho qualquer embirração particular contra Queirós, com quem nunca falei, e a quem respeito pelo seu brilhante passado enquanto técnico de formação. Desejo-lhe naturalmente, e enquanto responsável pela selecção nacional, o maior sucesso. Mas não consigo passar ao lado daquilo que me parece ser uma dramática realidade, que começa a estar bem à vista de todos: a sua escolha foi um logro, e começa a cair, em cima de todos nós, a máscara que lhe foi sendo desenhada ao longo de muitos anos passados debaixo do guarda chuva de Alex Ferguson.

No jogo com a Albânia tudo foi demasiado mau. Desde a exótica constituição inicial da equipa, passando pelas prestações individuais de quase todos os jogadores – Ronaldo assim dificilmente ganhará a eleição da FIFA -, pela absoluta inexistência de qualquer ideia de futebol colectivo, pelas substituições e respectivo timing, pelos assobios do público, pela reacção de Ronaldo aos mesmos, pelo abandono de Madail, até à conferência de imprensa final. Tudo foi triste. Tudo foi fado. O triste fado português que, depois de um curto interregno, nos volta a atormentar de novo.
Este frustrante empate ter-se-á começado a desenhar ainda antes do próprio dia do jogo, designadamente com as declarações proferidas pelo seleccionador na véspera. Lembrar que Portugal nunca ganhou nenhuma grande competição, não revela qualquer tipo de sentido de oportunidade quando se está em dificuldades numa fase de apuramento. Aliás Queirós, enquanto seleccionador principal, já falhou, ele próprio, duas qualificações, parecendo caminhar a passos largos para a terceira, o que se não é um record anda certamente lá perto. Falar, neste contexto, de um título mundial – foi isso objectivamente que ele disse - parece tão anedótico como irresponsável.
No que diz respeito ao onze escolhido, não consigo entender como, perante tantas ausências de jogadores influentes, Queirós prescinde daquele que é claramente o mais experiente de todos (Nuno Gomes), justamente num tipo de jogo bastante adequado às suas características. Não entendo também como, jogando em casa e tendo de abrir o ataque, não dispondo de Simão, o seleccionador deixou Nani e Quaresma simultaneamente no banco para dar a titularidade a um Danny completamente deslocado da sua habitual posição, que é a de médio de construção.
Olhando globalmente para a prestação da selecção nacional, a imagem que fica é de uma incapacidade colectiva gritante. O meio campo não funcionou, o ataque foi, durante a maior parte do tempo de jogo, quase inexistente, as individualidades nunca emergiram.
Perante tudo isto, quase não surpreende que Portugal não tenha ido além de um empate contra dez empenhados albaneses, que, pasme-se, até tiveram oportunidades para chegar à vitória.
E pronto. À boa maneira das décadas de setenta e oitenta, aí estamos nós de calculadora em punho. Aí estamos nós à beira de, após vários anos, voltarmos a falhar o apuramento para uma grande competição. Matematicamente tudo é possível, mas, pelo que se viu até agora, “este” Portugal dificilmente terá condições para ganhar todos os jogos até final, condição agora necessária para estar na África do Sul em 2010.
Oxalá seja eu a estar enganado.