ERROS FATAIS, ADEUS CONSUMADO

Tinha dito aqui que este era um jogo em que não se poderiam cometer erros. Tinha pedido aqui uma grande exibição de Cristiano Ronaldo. Não aconteceu nem uma nem outra dessas coisas, e se a elas juntarmos um erro crasso do árbitro no terceiro golo alemão, chegamos facilmente às razões de uma derrota.
Acho uma certa graça às análises que tenho ouvido, a todas as teorias estratégicas e tácticas que, na penumbra das evidências, explicariam o motivo pelo qual Portugal não venceu a Alemanha. É um facto que a ausência forçada de Torsten Frings fez com que Joachim Low aproveitasse para alterar o seu sistema de jogo, e é também verdade que essa inesperada alteração, nos momentos iniciais, surpreendeu a equipa portuguesa. Mas se esse facto poderá explicar os primeiros dez minutos de maior predominância alemã na partida, de nada serve se tentarmos colá-lo ao que se passou daí em diante.
A diferença entre as duas equipas. A verdadeira e única diferença, que se revelou fatal, e que normalmente está associada a este tipo de jogos – a eliminar, em fases adiantadas de grandes competições, e entre equipas equilibradas -, foi que Portugal cometeu erros básicos na sua defensiva, e a Alemanha não. Por isso a Alemanha está nas meias-finais e Portugal volta para casa. É assim o futebol, é assim que se definem os grandes campeões, são assim os Europeus e os Mundiais, e foi também assim – no detalhe, no erro – que a equipa nacional fez a carreira que fez em 2004 e 2006.
No primeiro golo, Pepe – mal posicionado - e Bosingwa correram desde o meio campo ao lado de Podolski e deixaram-no cruzar tranquilamente para a área. Aí apareceu Schweinsteiger, que Paulo Ferreira num momento de desconcentração deixou fugir, voltando a bater Ricardo. Um golo em dois tempos evitável, num momento em que Portugal dava mostras de equilibrar o duelo táctico, e tinha acabado de construir, num lance de João Moutinho, a primeira ocasião de perigo.
O segundo e terceiro golos são quase iguais, e já nos jogos anteriores, nomeadamente com a República Checa, a equipa nacional tinha dado mostras de grandes fragilidades naquele tipo de lance. Pode-se discutir se a marcação nas bolas paradas deveria ser feita à zona ou homem-a-homem, mas na verdade o que se viu, ou melhor dizendo, o que se não viu, foi qualquer tipo de marcação criteriosa e coerente, parecendo cada jogador desconhecer a missão que tinha para cumprir. Pode-se lembrar aqui o facto de Ricardo Carvalho e Pepe terem feito, até ao Europeu, apenas dois jogos juntos, pode-se apontar o péssimo momento de forma de Paulo Ferreira e de Ricardo – mal em ambos os lances -, a baixa estatura dos homens do meio-campo, ou ainda lembrar Costinha e Jorge Andrade. No meio de tudo isto estará a verdade.
Todos nós adoramos as fintas de Ronaldo, as arrancadas de Simão, a magia de Deco, mas uma equipa que denota tamanha fragilidade em tão importante capítulo do jogo como os lances de bola parada, dificilmente poderá pretender ser campeã. Na primeira fase, algo ainda podia ser (e foi) disfarçado, a partir dos quartos-de-final, com adversários bem mais fortes, seria necessária outra consistência. Estas falhas acabaram por trair o bom jogo ofensivo de Portugal – marcou dois e criou mais algumas oportunidades -, a super-exibição de Deco, a alma generalizadamente evidenciada por todos os jogadores, que mostraram bem o quanto queriam vencer este jogo, diante de uma Alemanha forte, é certo, mas com alguma permeabilidades – por exemplo nas alas Portugal foi rei e senhor -que poderiam fazer dela um adversário ultrapassável.
Nos minutos finais, após o golo de Hélder Postiga, ainda acreditei num milagre de N. Srª do Caravaggio. Portugal dominava então o jogo em absoluto, a Alemanha dificilmente respirava, e a sensação que fica é a de que se a partida durasse mais dez minutos o empate iria acabar por aparecer. E num eventual prolongamento, os sete dias de recuperação poderiam vir a ditar leis.
O árbitro apitou, Portugal perdeu. É um absurdo falar de fracasso ou mesmo inêxito. A selecção nacional cumpriu neste Europeu a sua obrigação – que era passar a primeira fase – e caiu de pé frente a uma selecção tri-campeã mundial e tri-campeã europeia. Não teve a sorte de outras ocasiões, e no momento decisivo não conseguiu esconder as suas principais debilidades. Mas ficar entre os oito melhores da Europa não pode ser vergonha para ninguém, e só os “maus” hábitos criados pelos portugueses nos últimos anos, em que a presença em fases adiantadas de grandes competições se banalizou e fez esquecer toda a pobre e longa história das décadas anteriores, podem agora deixar-nos um amargo sabor a frustração. É bom sinal.

No plano individual há que destacar a fabulosa exibição de Deco, que de todo não merecia ver-se fora do Europeu. O mágico, com a frescura de toda uma época a meio gás, apareceu em grande nesta prova, e particularmente no jogo de ontem espalhou pelo relvado toda a sua classe, realizando uma das melhores exibições que lhe vi nos últimos anos. Foi claramente o melhor jogador português no jogo e em todo o Europeu
Pena foi que Cristiano Ronaldo, de quem tanto se esperava, tenha desperdiçado a hipótese de se afirmar como um jogador aparte no panorama futebolístico mundial. Frente à Alemanha, quando seria necessário um grande Ronaldo, o Ronaldo das melhores tardes de Old Trafford, ele não apareceu, andando, por entre marcações cerradas, quase sempre escondido do jogo. Como aqui disse ontem, seria este o momento para Ronaldo se evidenciar como o “melhor do mundo”. Ainda é jovem e terá alguns Mundiais e Europeus para brilhar, mas é bom que ele próprio entenda que não é com golos ao Bolton ou a Reading que ficará na história do futebol. E todos sabemos que dispõe de todas as condições para ficar.
Nuno Gomes esteve muito bem, parecendo algo precipitada a sua saída. O avançado benfiquista mostrou que está vivo, e que dele ainda se pode esperar alguma coisa, assim mantenha os índices de motivação e empenho que patenteou nestes três jogos. Nani entrou muito bem, Simão esteve também em bom plano, e Postiga marcou. Não foi no ataque que Portugal perdeu o jogo.
Cá atrás o panorama foi bem diferente. Ricardo falhou clamorosamente no segundo e terceiro golo, confirmando um momento de forma bastante complicado – e agora sem Scolari, e com o regresso de Quim, deverá ter os dias contados na baliza da selecção -, Bosingwa esteve demasiado desconcentrado em momentos chave, Pepe foi uma sombra do grande jogador da primeira fase, Ricardo Carvalho perdeu-se na descrição das falhas colectivas, Paulo Ferreira mostrou-se, uma vez mais, um erro de casting nesta selecção, revelando-se o elo mais fraco da equipa – o lateral deixou a sua marca no primeiro e no terceiro golos alemães, embora com a atenuante de neste último ter sido claramente empurrado por Ballack.
Petit esteve em plano discreto, João Moutinho saiu lesionado quando prometia uma boa exibição, e Raul Meireles pouco trouxe ao jogo, sendo contudo de saudar a forma como tentou o golo de meia-distância.

Falta falar do árbitro. Ao contrário de outras ocasiões – Euro 2000, Mundial 2002 ou Mundial 2006 – em que todo o Portugal muito se queixou das arbitragens, responsabilizando-as, injustamente, pelo afastamento das respectivas competições, desta vez há mesmo reais razões de queixa. O golo de Ballack é precedido de falta, uma falta clara que o juiz sueco tinha obrigação de ter visto. Este lance foi determinante para o desenrolar da partida, até porque ocorreu num momento em que Portugal ameaçava fortemente alcançar o empate – e até foi obtido com o único ponta-de-lança alemão fora do relvado -, e daí em diante tudo poderia ser diferente. Foi um balde de gelo nas ambições lusas, e como tal bem se pode afirmar que a arbitragem de Fjortfeld influenciou clara o objectivamente o resultado. Se um lance daqueles resolvesse um jogo grande da nossa liga…

MOSTRA COMO É !

É nestas alturas que se define o curso da história, e que a divindade faz as suas escolhas. Foi em momentos como este que Maradona, Pelé, Platini ou Eusébio entraram para a eternidade do futebol. É num momento como este que Cristiano Ronaldo o pode agora fazer.
Força Cristiano ! Mostra hoje que és o melhor do mundo !

NOTAS DE EURO

ITÁLIA- Já vai sendo um hábito os italianos qualificarem-se in-extremis, mesmo sem jogarem praticamente nada. De agora em diante ninguém duvide que são grandes candidatos ao título. Mesmo sem Pirlo e Gattuso. Mesmo sem que Donadoni tenha ainda acertado num onze-base.
Não tive o gosto de os ver eliminados, que seja com a Espanha.
FRANÇA- Uma equipa totalmente fora de prazo, velha e cansada. Desde o primeiro jogo se percebeu que esta França joga ao ritmo dos 36 anos de Thuram e Makelele. Henry já não é o que era e, sobretudo, Zidane acabou. O fim de uma era. Adeus Domenech, até nunca mais !
ROMÉNIA- Estranha segunda parte, sem ambição, sem garra, sem alma, frente a uma Holanda de segunda. Queria mesmo qualificar-se ?
ESPANHA- Azar. Depois de um apuramento imaculado, tem pela frente a campeã do mundo. Terá de haver muita Espanha para vermos Fernando Torres, Iniesta, Villa e Xavi nas meias finais.
RÚSSIA- Se Ibrahimovic não me estragar as contas, aposto nos russos para as meias-finais. Com Pavlyuchenko em grande, e Arshavin de regresso, a equipa de Hiddink tem boas condições para seguir em frente.
QUALIDADE DO FUTEBOL- Muito boa. De uma forma geral os jogos têm sido entusiasmantes, e surpreendentemente intensos para final de época. Embora a média de golos seja inferior a 2004, a qualidade deste Euro não fica atrás do "nosso", e fica bem acima da que genericamente se viu no último Mundial.
PODOLSKI- Ou é bluff, ou a Alemanha terá uma grande baixa diante de Portugal. Além dele, Frings também está em dúvida. Regressa Schweinsteigger, talvez para a titularidade.

Lealdades
e
Conselhos

EI-LOS, OS ALEMÃES

A jornada de ontem confirmou a Alemanha como adversário de Portugal nos quartos-de-final do Euro 2008.
À partida, no plano teórico, seria o adversário a evitar de entre o lote de equipas que faziam parte do grupo B. Pela sua história, pela sua tradição, pela qualidade dos seus jogadores, a Manschaft é sempre uma equipa temível qualquer que seja a competição que dispute. Uma Áustria, mesmo jogando em casa, ou uma Polónia, mesmo tendo-nos vencido na fase de qualificação, seriam certamente mais apetecíveis, e permitiriam olhar para esta eliminatória com um optimismo, eu diria, mais exuberante.
Não creio todavia que esta Alemanha seja propriamente um papão. Embora se trate de uma equipa organizada, fisicamente dotada, e recheada de jogadores, senão brilhantes, pelo menos competentes, a selecção germânica não tem sido nestes últimos anos a equipa implacável que fez com que um dia o antigo avançado inglês Gary Lineker descrevesse o futebol como um jogo de onze contra onze em que no fim ganhavam os alemães. Desde 1996, ainda com Matthaus e Klinsmann entre outros, que a Alemanha não ganha qualquer competição, embora, é certo, tenha estado no pódio dos últimos dois mundiais. Mesmo a nível de clubes, o futebol alemão perdeu a força que tinha em finais do século passado, não apresentando hoje, à excepção do Bayern de Munique, mais qualquer clube verdadeiramente capaz de ombrear com os melhores do velho continente. Há seis anos que não vemos qualquer clube alemão numa final europeia, enquanto no mesmo período F.C.Porto por duas vezes, e Sporting por uma (além da selecção nacional), conseguiram lá chegar.A selecção alemã que temos visto neste Europeu é uma boa equipa, com processos de jogo bem assimilados, mas à qual falta alguma imaginação. Tem lacunas óbvias, a começar na dupla de centrais, e mesmo no plano atlético não parece ao nível das selecções que no passado impressionavam o mundo – lembremo-nos de Hrubesch, Briegel, Rumennigge entre outros, e perceberemos bem a diferença.
É um adversário de respeito, pode muito bem eliminar-nos, mas não é, de modo algum, inacessível, nem mesmo a uma selecção nacional com os problemas que Portugal também tem, nomeadamente na baliza, no lado esquerdo da defesa e no centro do ataque, como tem sido reiteradamente apontado pela generalidade dos observadores independentes, nem mesmo levando em conta que Low deverá proceder a alguns ajustamentos no onze inicial, dotando-o de maior equilíbrio e verticalidade - designadamente com a entrada de Hitzlsperger para o lado esquerdo do meio-campo, permitindo a Ballack maior liberdade ofensiva, e colocando Podolski (em muito boa forma) bem junto a Klose na frente de ataque.Não me parece que fosse mais fácil para Portugal desembaraçar-se da atrevida e estimulante Croácia que se viu nestes três jogos – até pela imprevisibilidade do se futebol -, do que desta Alemanha, que entusiasmou e assustou na primeira ronda diante da modesta Polónia, mas depois se cingiu a uma qualificação meramente burocrática, sem perfume nem encanto. Aliás, olhando à história das presenças portuguesas em fases finais de Europeus e Mundiais, verifica-se que a nossa selecção costuma dar-se bem com selecções da aristocracia do futebol mundial (venceu em fases finais Inglaterra, Holanda, Alemanha, Brasil e Espanha, algumas delas mais de uma vez), vacilando frequentemente diante de nomes menos sonantes e quando menos se espera (Coreia do Sul, Estados Unidos, Marrocos, Polónia, República Checa e…Grécia).
Por tudo isto, devo dizer que estou optimista para este confronto. Penso que Portugal não tem menos hipóteses com esta Alemanha do que tinha, por exemplo, com a Inglaterra em 2004 e 2006. Vai ser certamente um jogo sofrido, não existirão facilidades, mas acredito que a força mental dos jogadores portugueses os empurre para aquilo que necessitam de fazer, e que, mais do que brilhar, mais do que deslumbrar, se consubstancia em não cometer erros. É neste particular que se vai jogar a presença nas meias-finais: quem cometer menos erros vencerá.
A selecção portuguesa, desde que é orientada por Scolari, tem-nos dados provas sucessivas de estar preparada para enfrentar estes momentos de forma adequada. Depois de amanhã em Basileia, definir-se-á se este vai ou não ser um Europeu para marcar na história do futebol português, ao lado dos de 1984, 2000 e 2004, ou se pelo contrário irá deixar um sabor a desilusão, mesmo que relativa – a obrigação está cumprida, o que vier a mais é ganho.
Vamos acreditar, vamos confiar.
Força Portugal !!!

Equipas prováveis:
PORTUGAL- Ricardo, Bosingwa, Pepe, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Petit, João Moutinho, Deco, Simão Sabrosa, Nuno Gomes e Cristiano Ronaldo
ALEMANHA- Lehmann, Friedrich, Metzelder, Mertesacker, Lahm, Frings, Fritz, Hitzlsperger, Ballack, Klose e Podolski

AS CONTAS DOS GRUPOS C e D

GRUPO C
HOLANDA: Apurada em primeiro lugar do grupo
ROMÉNIA: Apura-se se...
a) vencer
b) empatar e França e Itália também empatarem
c) perder por menos de três golos e França e Itália empatarem a zero
ITÁLIA: Apura-se se...
a) vencer e Roménia não vencer
b) empatar com golos e Roménia perder
c) empatar a zero e Roménia perder por três ou mais golos
FRANÇA: Apura-se se...
a) vencer e Roménia não vencer
GRUPO D
ESPANHA: Apurada em primeiro lugar do grupo
SUÉCIA: Apura-se se empatar ou vencer a Rússia
RÚSSIA: Apura-se se vencer a Suécia
GRÉCIA: Eliminada

A MINHA ESCOLHA PARA SELECCIONADOR

O ONZE IDEAL PROVISÓRIO "VEDETA DA BOLA"

GUARDA-REDES: Van der Sar (Holanda)
DEFESAS: Lahm (Alemanha), Pepe (Portugal, Goian (Roménia) e Pranjic (Croácia)
MÉDIOS: Sneijder (Holanda), Modric (Croácia), Deco (Portugal) e Turan (Turquia)
AVANÇADOS: Pavlyuchenko (Rússia) e Villa (Espanha)

ALINHAMENTO - Quartos-de-final

PORTUGAL - Alemanha, Áustria ou Polónia

CROÁCIA - TURQUIA

HOLANDA - Suécia ou Rússia

ESPANHA - Roménia, Itália ou França

OS MELHORES DO EURO

MELHORES ATAQUES: Holanda 7 e Espanha 6
MELHORES DEFESAS: Holanda, Croácia e Roménia 1
MELHORES MARCADORES: Villa 4, Podolski 3 e Yakin 3
MELHORES JOGOS: República Checa-Turquia, Holanda-França e Holanda-Itália
MELHORES GOLOS: Ibrahimovic (contra a Grécia), Sneijder (contra a Itália) e Nihat (contra a Rep.Checa)
MELHORES JOGADORES: Sneijder, Deco, Modric, Villa e Pavlyuchenko
TOTAL DE GOLOS: 46
MÉDIA DE GOLOS POR JOGO: 2,55

OLHAR EM FRENTE

A inócua derrota de Portugal no terceiro jogo da fase de grupos diante da anfitriã Suiça, provou uma vez mais que as equipas de Scolari, com uma extraordinária força mental sempre que postas sob pressão, vacilam quando o que está em jogo não se lhes afigura suficientemente estimulante – veja-se toda a fase de preparação para o Euro 2004, veja-se o jogo de terceiro e quarto lugar do Mundial da Alemanha, veja-se por fim os últimos jogos particulares antes deste Europeu.
Situando-se no plano psicológico - nomeadamente na capacidade de fazer a equipa reagir perante situações adversas - reconhecidamente a principal virtude do técnico brasileiro, quando o jogo é a feijões parece haver algo que não funciona, quer da parte dos receptores, quer talvez também da parte do emissor. Preparados para, de faca nos dentes, enfrentar jogos de vida ou de morte, os jogadores de Scolari parecem não conseguir baixar os índices de intensidade de forma equilibrada, acabando vergados a prestações fracas e resultados negativos quando lhes falta o suplemento de dramatismo de que necessitam para expandir todas as suas capacidades. Esta é provavelmente uma das razões para o decepcionante desempenho da equipa nacional na noite de ontem, que culminou com uma derrota justa e inapelável, por mais motivos de queixa que tenham existido – e existiram - quanto à arbitragem.
Mas não só no plano motivacional se encontram os motivos desta derrota. Na verdade, é quase impossível ser bem sucedido no futebol de alta competição colocando em campo onze jogadores que nunca haviam jogado juntos, e cujas linguagens futebolísticas careçam de compatibilização. Sem automatismos, sem rotinas colectivas, o conjunto torna-se claramente inferior à soma das onze individualidades, que nesse contexto acabam por ser levadas a procurar em si próprias soluções que o colectivo não é capaz de oferecer.
Não quer isto dizer que não concorde com a poupança de esforços implementada por Scolari. Pelo contrário, aceito perfeitamente que se aposte tudo nos momentos verdadeiramente decisivos, e num fim de época desgastante se permita aos principais trunfos um descanso retemperador. Não entendi até foi porque motivo jogou Paulo Ferreira – que ia acabando expulso -, Pepe e mesmo Ricardo. Mas também não poderei deixar de questionar, se era mesmo necessária a colocação de alguns titulares, porque não manter a dupla de centrais conferindo-lhe mais minutos de mecanização ?
Com todos estes aspectos a pesar no desempenho português, foram ainda assim da selecção nacional as melhores oportunidades de golo durante os primeiros dois terços da partida. Pepe desviou para a barra um poderoso remate de meia-distância, Nani sofreu um penálti e mais tarde atirou uma bola ao poste, Postiga marcou um golo mal anulado e falhou outro de baliza aberta, Quaresma optou por cruzar quando tinha tudo para procurar o golo, entre outros lances de maior ou menor perigo junto da baliza helvética.~
Na ponta final do desafio, Portugal não conseguiu todavia suster o maior ímpeto de uma selecção Suiça fortemente determinada em limpar a imagem deixada nos dois primeiros jogos. Um erro defensivo proporcionou o primeiro golo a Yakin, e pouco depois uma grande penalidade (bem assinalada) fechou as contas da partida.
Se este jogo servia também para aquilatar de que elementos Scolari se poderá socorrer na (s) próxima (s) ronda (s), resultou claro, antes de mais, que o onze base das jornadas anteriores está muito bem formado. Quaresma, com uma bela oportunidade para brilhar, mostrou não estar no seu melhor, Miguel Veloso não se adaptou às funções de médio de transição, Raul Meireles pouco se viu, Postiga foi demasiado perdulário, Miguel foi uma unidade a menos. Salvou-se Nani, no meu ponto de vista o melhor português em campo, mostrando merecer talvez mais algum tempo de utilização nos jogos a doer.
Foi pena, sobretudo para os milhares de emigrantes portugueses na Suiça, que a selecção nacional não tenha podido dar-lhes mais uma alegria, esta seguramente de paladar muito especial. Mas as circunstâncias são o que são, Portugal perdeu e deve apontar todas as suas baterias para o combate da próxima quinta-feira, ao que tudo indica, com a poderosa Alemanha. Aí sim se verá se este Europeu fica ou não a marcar a história do futebol português – uma presença nas meias-finais será um êxito, uma derrota nos quartos nem por isso.

RETRATOS DE GENEBRA (5)

Um pontapé de canto na fase do sofrimento

RETRATOS DE GENEBRA (4)

Fase do jogo com Moutinho e Paulo Ferreira em primeiro plano

RETRATOS DE GENEBRA (3)

Soam os hinos

RETRATOS DE GENEBRA (2)

Os jogadores portugueses aquecem

RETRATOS DE GENEBRA (1)

Aspecto exterior do Stade de Genève

QUERO LÁ SABER...

Numa altura em que as minhas atenções estão inteiramente voltadas para o Euro-2008 e para a selecção portuguesa, não irei perder muito tempo a comentar as decisões ou indecisões da UEFA sobre os casos de corrupção no futebol português.
Irei esperar tranquilamente que o processo chegue ao fim, na convicção de que, como já afirmei, o Benfica tem desportivamente pouco a ganhar com uma presença na Liga dos Campeões desta época (bem como com a consequente ausência do F.C.Porto). Este é um caso que, assim sendo, pouco ou nada me preocupa enquanto benfiquista, e ainda menos enquanto português.
Lamento contudo que alguns dos meus compatriotas não consigam despir as camisolas, nem mesmo nos momentos em que tal mais se justificaria. Um olhar por alguns blogues - nomeadamente a norte - deixa-me perplexo, e até algo envergonhado pelo lixo que o meu país também produz. Enfim, no meio de 10 milhões, talvez seja natural a existência de algumas dezenas de bestas...

FRAGILIDADES TORNEADAS; APURAMENTO MERECIDO

A enorme satisfação causada pela vitória sobre a República Checa e pelo apuramento para os quartos-de-final não deve iludir aquilo que se viu ontem no relvado de Genebra. Portugal esteve longe de realizar uma exibição deslumbrante, demonstrou ter ainda muitas arestas para limar – mormente nos aspectos defensivos -, e viveu sobretudo do brilho das suas estrelas, com Deco desta vez a fazer de mestre de cerimónias, e Ronaldo a dar-se a cheirar neste Euro 2008, numa tarde em que Pepe voltou a mostrar-se um verdadeiro imperador na defesa da equipa.
É verdade que a condição física da nossa selecção parece bastante recomendável, e que a atitude competitiva dos jogadores tem sido - e foi mais uma vez - absolutamente irrepreensível. Nestes dois aspectos alicerçou-se também parte da vitória de ontem. Mas erros defensivos, perdas de bola com a equipa balanceada para a frente, má cobertura de alguns espaços (inclusivamente dentro da área), permeabilidade nas bolas paradas, entre outras fragilidades exibidas pelo onze nacional – Ricardo e Paulo Ferreira ainda não “entraram” no Euro -, sobretudo ao longo da primeira parte, não podem deixar de constituir um forte sinal de alerta, pois a partir dos quartos-de-final é nesse tipo de situações que normalmente se decide o destino das equipas, separando-se então as que não cometem erros – candidatas aos títulos – e as restantes.
O resultado de 3-1 reflecte a superioridade portuguesa, mascarando todavia o sofrimento sentido até ao minuto noventa, quando Quaresma empurrou para a baliza mais um “golo” de Ronaldo. Ao intervalo a igualdade justificava-se, e temia-se até o segundo golo checo, dada a desinspiração da equipa de Scolari. Depois do 2-1, vários foram os calafrios causados junto da baliza de Ricardo, pelo menos na óptica de quem a cada bola bombeada para a cabeça do entrado Koller sentia um arrepio no estômago. Mas na verdade esta equipa checa tem já pouco a ver com a de Nedved, Poborsky, Rosicky e...Koller um pouco mais jovem.
A vitória da Turquia acabou por servir na perfeição os propósitos nacionais, fazendo do último jogo do grupo uma mera formalidade.

A sensação de poder apoiar Portugal ao vivo num momento como este e no estrangeiro – ainda que Genebra deixe a sensação de se estar em casa, tal o número, por exemplo, de bandeiras portuguesas nas janelas – é indiscritível. Num dia verdadeiramente primaveril, o sentimento de comunhão nacional, de orgulho na nossa equipa e no nosso país, paralelamente com o convívio festivo estabelecido com os checos (também em grande número, e com muito mais cerveja) faz com que os momentos vividos se tornem seguramente inesquecíveis.
Motivo de orgulho é também a comparação que poderei estabelecer entre o Euro 2004, com uma organização primorosa, e este, com alguns aspectos menos conseguidos, ainda que a análise se tenha que cingir a esta cidade e a este estádio.Foi também um dia de encontros. Uns agradáveis – com Toni, com quem troquei umas palavras sobre o Benfica, com José Peseiro, com quem falei sobre a sua carreira – outros com pessoas que preferia fossem checas como Laurentino Dias ou Fernando Madureira dos Super Dragões, este último a quem desconhecia tamanha veia patriótica. Hermínio Loureiro, Joaquim Oliveira, Jorge Coroado, Eusébio, Quim, foram também algumas figuras do futebol português com que me foi cruzando ao longo desta bela jornada.
PS: A notícia da ida de Scolari para Londres deixa-me preocupado. Quer quanto ao presente - não poderia o timing ter sido outro ? - quer sobretudo quanto ao futuro.
Ou a FPF tem condições para contratar um Marcelo Lippi, ou provavelmente teremos que nos voltar a habituar a outro tipo de resultados.

FANTAAASTICO !

Começar melhor era impossível. Uma vitória clara, uma grande exibição e toda a confiança renovada, numa jornada que mostrou que Portugal é inequivocamente a melhor equipa do seu grupo.
Depois de uma fase de apuramento periclitante, e de alguns jogos particulares menos conseguidos, foi até de certa forma surpreendente o modo categórico e brilhante com que a equipa nacional se exibiu, o sentido colectivo que foi capaz de patentear, e a evidente superioridade que manifestou, face a um adversário forte, como o são praticamente todas as selecções presentes nesta fase final. Não se esperaria tão grande articulação de conjunto, tanta frescura física (Petit e Moutinho, por exemplo, correram e lutaram como heróis) e tanta segurança em todos os capítulos do jogo.
Desde o primeiro minuto que Portugal tomou conta da partida, instalou-se no meio-campo turco e os lances de perigo foram surgindo. Uma bola no poste e um golo anulado foram os momentos em que Portugal esteve mais perto do golo, mas não foram os únicos lances de perigo da equipa nacional. Nos segundos quarenta e cinco minutos o domínio português ainda se intensificou mais. A pressão da equipa de Scolari tornou-se asfixiante, as segundas bolas eram constantemente conquistadas por um meio campo em alta voltagem, e o golo tornava-se cada vez mais uma questão de tempo. Mas sabe-se como o desperdício se torna por vezes implacavelmente ingrato, e a bola parecia efectivamente não querer entrar na baliza turca. Até que Pepe, após primorosa assistência de Nuno Gomes, conseguiu enfim marcar, tranquilizando dez milhões de almas. Estava reposta alguma justiça no marcador, ainda que a ampla superioridade lusa justificasse mais golos. Até final, Nuno Gomes (com uma excelente exibição à qual faltou apenas um golo) voltou a estar perto de marcar com um desvio de cabeça para a trave, e pouco depois foi Nani a rematar com perigo, após magnífico lance individual.
Faltava apenas aparecer um homem. Aquele de quem todos mais esperavam. Foi já no tempo de desconto que Ronaldo, numa arrancada com a sua marca pelo lado esquerdo, desmarcou João Moutinho na área, e este com um pormenor de grande classe deixou Raul Meireles de cara com o golo. O portista não perdoou, e acabou com o jogo da melhor forma para as cores nacionais.A força da nossa selecção foi o colectivismo e a concentração competitiva – uma marca que Scolari imprime como poucos. No plano individual todos estiveram bem, com particular destaque para Pepe, João Moutinho, Nuno Gomes e Bosingwa. A espaços Deco também brilhou. Apenas Paulo Ferreira teve algumas hesitações, mas sempre sem consequências para a baliza de Ricardo. Cristiano Ronaldo teve alguns momentos de classe, mas todos nós esperamos naturalmente muito mais dele.
Quanto à arbitragem, esteve bem no golo anulado a Pepe na primeira parte. De resto não gostei de alguma permissividade disciplinar, nem da quantidade de faltas assinaladas, que ainda assim não comprometeu a qualidade de um belo jogo de futebol.
Agora venha a República Checa, que nesta primeira jornada pouco mostrou além de uma grande felicidade. VEDETA DA BOLA estará em Genève para contar tudo sobre esta partida, que poderá praticamente decidir o apuramento de Portugal para os quartos-de-final.Viva Portugal !!!

ATRÁS DE UMA BOLA

Em alturas de grandes competições futebolísticas internacionais, o panorama mediático é no nosso país, ainda mais do que o normal, inundado de futebol. Em reacção a essa presença massiva e hegemónica, sempre se levantam vozes discordantes, procurando teorizar acerca daquilo que representa o fenómeno futebolístico, sua força, seu mediatismo, sua representatividade, afirmando, de forma mais ou menos ostentiva, que ele não constitui mais que uma zelada forma de alienação. Foi assim antes, durante e depois do Euro 2004, aquando do Mundial da Alemanha, e agora, em vésperas de se iniciar o Euro 2008, a história repete-se. Sou e sempre fui, desde que me conheço, um fervoroso, incondicional, radical e apaixonado adepto do futebol. Ainda não sabia ler já via jogos, olhava embevecidamente para as fotografias que saiam nos jornais desportivos, para os cromos que já coleccionava, e algumas das primeiras palavras que soube pronunciar foram seguramente “Bola” e “Benfica” – o meu clube ! Eu não escolhi o futebol, foi ele que, de forma avassaladora, me escolheu a mim, muito por influência do meu pai, mas também pelo fascínio das suas cores, das suas movimentações, de toda uma estética incomparável e única, de uma emoção sempre renovada e intensa, de uma incerteza excitante e dramática. Antes de gostar de música, de cinema, de teatro ou literatura, foi de futebol que eu gostei. É algo que faz parte de mim desde as mais remotas profundezas do meu ser. Aprendi as cores pelos clubes, aprendi os números pelas costas dos jogadores, aprendi geografia pelas cidades e países que conhecia do futebol, e até aprendi francês a tentar arduamente ler a revista “Onze”, de qualidade gráfica então pouco vista em Portugal, e que desde os sete anos de idade o meu pai me comprava mensalmente. Hoje gosto de Maradona como gosto de Wagner, admiro Pelé como admiro Munch, delicio-me com uma jogada de Ronaldo como com um momento literário de Saramago. Não são realidades antagónicas, são antes complementares. Complementarmente ilustrativas da força da natureza humana em vertentes diferentes das suas inesgotáveis capacidades.
Mas, como poderia alguém assim libertar-se, mesmo que porventura o quisesse, de um fenómeno que, de tão densamente arreigado, quase transcende a sua própria identidade? Tratar-se-á efectivamente de uma alienação? Essa dúvida, que já me assaltou o espírito por várias ocasiões, tem-me levado a uma reflexão sobre de que se trata afinal este jogo e este espectáculo.
É importante dizer desde logo que independentemente de quaisquer juízos de valor que se possam fazer acerca do futebol, não restam dúvidas de que ele marcará indelevelmente a história universal como uma das manifestações lúdicas mais aglutinadoras desde que a humanidade é conhecida. Mas justificará essa popularidade uma tão grande e sufocante presença nos media? Nesta temática há que distinguir duas vertentes distintas. Se os seus críticos apenas pretendem demonstrar que o futebol é demasiado mediatizado por antagonismo com manifestações artísticas de outras naturezas, terei de dizer que não posso estar mais de acordo – de facto a boa música, o teatro, a pintura, e a literatura, são em absoluto descartadas por uma comunicação social ávida e exclusivamente empenhada em garantir receitas imediatas, esquivando-se sistematicamente ao seu mais importante papel, o de mola impulsionadora do crescimento cultural de um povo. Mas se por outro lado o objectivo for demonstrar que o fenómeno futebolístico envolve, procura ou proporciona uma alienação perniciosa para os cidadãos ou para um país, cuja ideia adjacente o aponta como um espectáculo menor, então não poderei de modo algum aceitar a crítica, mau grado saber que ele já vestiu também, ocasionalmente, esse fato – ocasiões que interpreto mais como fruto de uma instrumentalização alheia do que uma alienação própria, e que revelam a enorme força que lhe é e foi conferida por todos os poderes. A relevância dos jogos com bola ao longo da História é testemunhada por inúmeros factos. Recordo que Homero na sua “Odisseia” ou Shakespeare em “Rei Lear”, por exemplo, já faziam referências ao jogo da bola. Sabe-se que a alta nobreza urbana italiana se divertia com o calcio (uma espécie de pré-futebol) das ruas na idade média. Se mais fosse necessário, diria que o futebol existe há mais tempo que o cinema, e que começou a ser praticado e cresceu sem que existissem ainda aviões, televisores ou automóveis, não podendo obviamente nessa época ser entendido como alienante. Acusadas desse “crime” foram aliás, ao longo da história, variadas manifestações culturais que hoje são unanimemente aclamadas como eruditas.O futebol pode de facto constituir, e constitui, um escape para vidas sofridas e sem futuro. Mas, será essa sua vertente assim tão reprovável ? Droga ou alcool não são eles mesmos escapes cujo lugar pode ser deixado, em parte que seja, ao futebol ? Substituir-se-á ele às dificuldades, problemas e ambições das populações mais desfavorecidas, ou servirá tão somente para lhes devolver o prazer de sonhar, de festejar, de alcançar, mesmo que pela via da imaginação e da paixão, aquilo que a vida lhes nega quotidianamente?

O futebol é um poderoso berço de identidades. Não é a vida, mas pode muito bem fazer parte dela, eventualmente como uma espécie de suplemento vitamínico emocional. Este belo jogo é de facto um brinquedo de emoções, extremamente estimulante e salutar, excepto naturalmente quando essas emoções resultam em ódio ou violência. É uma arte – que diferença existe afinal entre um bailado e uma partida de futebol de alto nível ? – com um colorido e uma movimentação de contornos estéticos absolutamente inegáveis. Se procurarmos comparar o futebol com qualquer realização estética, chegaremos rapidamente à conclusão que por muito que esta eleve valores humanos diversos como o amor, a amizade, a inteligência, a rectidão, a honestidade, também o futebol contempla os que toma como seus, sejam eles a coragem, força, ambição, solidariedade, companheirismo, a honra ou outros. A beleza plástica da movimentação dos jogadores no relvado, a forma hábil como conduzem a bola, os cânticos nas bancadas, os festejos dos golos ou a densidade dramática dos rostos ouvindo os hinos, conferem o elemento estético necessário para que se possa afirmar que o futebol também tem, inquestionavelmente, uma forte componente artística. Também relevante é o elevadíssimo espírito democrático e colectivo que se verifica num campo de futebol. Não há maestros, não há protagonistas nem figurantes. São vinte e dois homens e uma bola, todos iguais perante ela, e onde só o talento, a coragem, o espírito de luta e capacidade de combate os divide. Num tempo em que o utilitarismo individualista dita todas as regras, esta componente não é nada despicienda para ilustrar a força positiva que emana de um jogo de futebol, e também, quiçá, explicar porque é que ele faz movimentar tanta gente em todo o globo. Mas os méritos do desporto rei não se esgotam nestas facetas. Há que lhe conferir também o dom de, sendo uma representação alegórica da guerra, satisfazer de forma inócua o instintivo traço guerreiro imanente à nossa espécie, não esquecendo que se trata, em muitos países, talvez do mais eficaz promotor de patriotismo dos tempos modernos, nos quais uma globalização impiedosa tudo revolve, tudo destrói, tudo nivela. Um dos argumentos que suportam os ataques de alguns intelectuais da nossa praça ao desporto rei prendem-se com o facto de outros países não lhe darem supostamente o mesmo destaque. Não é de todo verdade. Se olharmos à Espanha, à Itália e a muitos outros países da Europa como Grécia ou Turquia, o panorama não difere substancialmente do nosso (embora os seus telejornais não tenham hora e meia como cá). Na América Latina o entusiasmo em volta dos jogos ainda é maior e mais fanatizado, sobretudo se olharmos aos casos do Brasil (onde em 1950 dezenas de pessoas se suicidaram a seguir à derrota do Brasil na final do campeonato do mundo que organizou) e Argentina (sobretudo desde Maradona). Em África são decretados feriados nacionais pelas vitórias de algumas selecções, e mesmo na Ásia, em países como o Irão, Coreia ou Arábia Saudita, o fanatismo com que são encarados certos jogos e certas competições, sobretudo quando estão por detrás aspectos políticos, não pára de crescer. Em todos os países, mais ou menos fanatizados, mesmo nos Estados Unidos, a influencia do futebol continua em acelerado processo ascendente. Além de tudo o resto, o futebol é também hoje uma poderosa industria, com interessantes aspectos de análise de domínio económico-financeiro. Por tudo isto – mesmo que com respeito por quem, ainda assim, o consegue ignorar -, permitam-me que, com toda a paixão, e com muita gratidão, solte um sonoro ”Viva o futebol !”, e termine com as quadras com que homenageio esta minha tão grande paixão:

BEM NO FUNDO DE MIM

Aos teus pés rendido nasci,
sem escolha, nem dó ou piedade.
Pela rádio o mundo eu ouvi.
Sonhava acordado, na verdade.

As cores, os sons, a magia,
de um estádio cheio e vibrante,
em busca de momentos de euforia,
na graça de um jogo cintilante.

És escola, amigo, paraíso,
também dor, ansiedade e desalento.
És tudo, até que chega o aviso,
que a vida é bem mais do que um momento.

Ensinaste-me a crescer, também a amar
as cores dum clube, a bandeira de um país.
Sempre que te vejo na relva dançar,
Os olhos me saltam, assim sou feliz.

Mais do que um desporto, mais do que um jogo.
Mais do que um poema, mais do que o sol.
És furiosa paixão à prova de fogo,
Meu querido, doce e amado futebol
.

LF 2006

NOTA: Este texto havia sido publicado antes do Mundial 2006, e foi agora adaptado à ocasião. Os versos são da mesma altura.

VEDETA DA BOLA NA SUÍÇA COM A SELECÇÃO

Ficou ontem assegurado que VEDETA DA BOLA irá marcar presença no Campeonato da Europa, designadamente no jogo Portugal-República Checa da segunda jornada, a realizar na próxima quarta-feira em Genève.
É provável que a crónica do referido jogo se venha a atrasar um pouco - a chegada a Lisboa será já de madrugada -, mas em contrapartida, VDB estará depois em condições de oferecer aos leitores uma reportagem mais abrangente sobre o jogo, e o ambiente em redor da selecção e do Europeu.

UM PEQUENO ASSOMO DE JUSTIÇA

A confirmar-se em segunda instância a decisão hoje tomada pela UEFA, estaremos perante um acto de justiça, independentemente de quem com ele possa beneficiar directa ou indirectamente. Na verdade, devo dizer que não esperava outra coisa da entidade que tutela o futebol europeu, a qual já por diversas vezes demonstrou não brincar com as leis, como no nosso país tem sido, infelizmente, habitual observarmos.
Como disse na altura, a penalização de seis pontos atribuída pela CD da Liga mais não foi, no meu ponto de vista, do que uma forma de colocar airosamente uma pedra sobre o tema, sem na realidade punir desportivamente – e de forma severa como se justificava, entenda-se descida de divisão, tal como, perante os mesmos regulamentos, sucedeu ao Boavista - aquilo que, pelas escutas, e para além das questiúnculas processuais levantadas, se afigurou desde logo óbvio a qualquer observador isento.
O F.C.Porto viciou resultados em 2004, como o havia feito de forma sistemática desde os anos oitenta, prove-se isso em tribunal ou não. Beneficiou ao longo de décadas de uma envolvente de arbitragem claramente protectora que lhe valeu vitórias e títulos, independentemente da qualidade das equipas que foi tendo. Quem tem memória e sentido de observação não precisa de escutas para o concluir, e assim, neste contexto, o Apito Dourado apenas pecou por tardio e parcelar.
No caso concreto dos jogos investigados no âmbito do referido processo, ficou inequivocamente provado que Pinto da Costa recebeu em sua casa o árbitro nomeado para o Beira-Mar-F.C.Porto da jornada seguinte (ao contrário do que se diz, importante para o título), e que a trio de juízes do F.C.Porto-E.Amadora (no início da segunda volta, quando os portistas tinham apenas cinco pontos de vantagem e teriam ainda de se deslocar a Alvalade e à Luz) se envolveu numa orgia com prostitutas a expensas de representantes do clube. Isto para mim, como decerto para qualquer pessoa isenta, é mais do que suficiente para uma penalização forte e exemplar. Se os regulamentos saíram antes ou depois, se as escutas foram formalmente legais ou não, são aspectos que manifestamente nada me interessam. Defender-se um clube que viciou a verdade desportiva com base em argumentos daquele tipo só pode revelar fanatismo, má-fé ou ignorância. Se ainda entendo que os advogados o façam, não é lícito aos adeptos, e muito menos à comunicação social, enveredar por esse penoso e ridículo caminho.
Sabemos como funciona a nossa justiça, e como se comportam por norma muitos dos nossos juristas. Creio que em instâncias europeias esses hábitos processuais, essas manobras dilatórias, essa espuma de impunidade não colherá, e o F.C.Porto ficará mesmo arredado das provas europeias como, pelo comportamento do seu presidente, agora, no passado recente, e desde sempre, plenamente se justifica.
Independentemente de tudo o que acabei de escrever, mantenho a opinião que expressei há alguns dias, segundo a qual o Benfica pouco tem a ganhar desportivamente com uma participação na Champions League deste ano. O clube precisa de tranquilidade, precisa de formar uma equipa para o futuro, e o seu envolvimento europeu ao mais alto nível poderá desviá-lo da rota de prioridades que tem necessariamente de estabelecer.
Deste modo, o sentimento que me assalta não é de qualquer espécie de euforia, mas sim de mera satisfação por ver penalizado quem manifestamente o merece, ainda que continue a entender que este castigo – para nem falar no da Liga - fica muito aquém daquilo que anos e anos de corrupção e tráfico de influências justificariam. Sinto-me pois, salvaguardando as devidas distâncias, como a família de um assassinado que olha em tribunal resignada para os vinte anos de cadeia apanhados pelo criminoso – sem motivos para festejar, mas com o orgulho coberto por uma leve sensação de justiça. De uma pequena gota de justiça. A justiça possível.
Anexo:

JOGOS PARA A ETERNIDADE (15) - Europeu de 1984

Inicia-se no próximo sábado o 13º Campeonato da Europa de Futebol.
Respeitando rigorosamente a periodicidade com que foi instituído – de quatro em quatro anos -, desde 1960 que esta competição foi progressivamente ganhando força até se transformar naquilo que é hoje: pouco menos que um verdadeiro Mundial, havendo até quem defenda ser o Euro mais exigente que a própria prova da FIFA, dado o grande equilíbrio entre as selecções normalmente apuradas.
Das edições anteriores recordo-me de sete, precisamente desde 1980, tinha eu dez anos.
Apesar de ter uma memória difusa de um Bayern de Munique-Benfica disputado em Março de 1976, não me recordo, nem ao de leve, do Europeu disputado três meses depois em Belgrado, o tal em que Panenka inventou uma forma diferente de marcar penáltis, que Postiga e Zidane décadas depois repetiriam com sucesso. O primeiro campeonato que me lembro, e já razoavelmente bem – vivera já antes as emoções do Mundial de 1978 -, é pois o de 1980 disputado numa Itália mergulhada no “Totonero”, uma espécie de Calciocaos dos anos setenta. Não tive a noção na altura, mas vim a perceber depois ter sido esse um dos piores europeus de sempre. Estádios vazios, futebol defensivo, violência nas bancadas, de nada faltou ao Itália 80. Venceu a Alemanha de Rummenigge, Schuster e Matthaus (que se estreava), numa final pobre diante de uma improvável Bélgica.
O Europeu que mais me marcou foi obviamente o de 2004 - pela carreira da selecção nacional, pelo inolvidável ambiente de festa gerado no país, e pelo facto de o ter vivido de perto com presença em vários estádios. Mas o primeiro Europeu que me tocou verdadeiramente, como de resto a toda a minha geração, foi o de França em 1984, no qual a equipa nacional conseguiu uma participação brilhante, ficando a apenas cinco minutos de uma final, que durante mais de setenta anos fugiu ao futebol português. Este épico torneio constituiu a segunda presença da história da selecção nacional numa grande prova internacional, depois da saga dos “Magriços” dezoito anos antes. A qualificação para a fase final foi naturalmente difícil, para mais num grupo fortíssimo do qual faziam parte Polónia (terceira classificada no Mundial anterior) e a URSS, finalista de três (60, 64, 72) das seis edições até aí disputadas. A Finlândia fechava o grupo e na altura não tinha futebol para entrar nas contas do apuramento.
A chave da qualificação portuguesa acabou por ser a dupla vitória frente aos polacos (2-1 numa bela tarde de domingo na Luz e, sobretudo, 1-0 numa noite de nevoeiro em Chorzow com um golo de Carlos Manuel), que permitiu chegar à última jornada, em casa frente à URSS, em condições de passar, mesmo depois da copiosa derrota em Moscovo por 5-0, que custou a substituição do seleccionador Otto Glória por uma comissão técnica constituída por Fernando Cabrita, António Morais, Toni e José Augusto. No último jogo, em Novembro de 1983 perante um Estádio da Luz praticamente cheio, um golo solitário de Jordão, na transformação de uma grande penalidade bem cavada por Chalana, pôs o país em festa. Dezoito anos depois dos “Magriços”, dois anos antes de “Saltillo”, aí estava Portugal, com um conjunto brilhante de jogadores, mas uma organização fora de campo ainda rudimentar, a disputar uma prova importante diante dos melhores.Efectivamente a selecção nacional de então tinha grandes jogadores. Bento, Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Diamantino, Chalana, Nené, Gomes e Jordão, eram apenas alguns dos nomes que se destacavam de toda uma geração que nunca tinha tido tão boa oportunidade para brilhar - pelo menos ao nível de selecção pois Benfica e F.C.Porto tinham sido finalistas europeus pouco antes. Faltava todavia ao futebol português uma estrutura técnica e dirigente que pudesse garantir o rigor de um trabalho sólido e coerente. Neste âmbito tudo era ainda muito amador, funcionando na base da carolice de uns quantos, situação que se revelou devastadora dois anos depois em Saltillo.

Neste Europeu terão desde logo surgido alguns problemas, nomeadamente fruto da extrema rivalidade já então existente entre Porto e Benfica, com a agravante de a quase totalidade dos seleccionados pertencer a esses dois clubes (ao contrário do que se veio a verificar mais tarde, com a emigração massiva dos melhores jogadores portugueses) e não existir uma liderança técnica reconhecida por todos. Na verdade António Morais era o técnico dos jogadores do F.C.Porto, enquanto Toni era o dos do Benfica, e Cabrita apenas procurava apaziguar os ânimos.
Nos jogos de preparação antes da prova ficou no ar alguma preocupação. Derrota no Jamor por 2-3 com a Jugoslávia, e empate no Luxemburgo adensaram duvidas sobre o que podia Portugal fazer num grupo em que teria de se haver com Espanha e Alemanha, para além da estreante Roménia.
Mas no primeiro jogo, diante dos germânicos, a alma portuguesa gritou bem alto que estava disposta a entrar para a história. Contra os campeões europeus e vice-campeões do mundo, Portugal impôs um empate a zero, num jogo em que até desfrutou de algumas boas ocasiões para marcar. Para a época, empatar com a Alemanha era um estrondoso êxito, e abria as melhores perspectivas.
A equipa apresentada, num cauteloso 4-5-1, seria repetida no segundo jogo, e teria poucas alterações até final. Bento, João Pinto, Lima Pereira, Eurico, Álvaro, Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Frasco, Sousa, Chalana e Jordão. Além destes onze, só Gomes e Diamantino viriam por uma vez a alcançar a titularidade.
Faltei às aulas para ir ver o jogo a casa. O ano lectivo estava no fim, tinha faltas para dar, e aproveitei-as até aos limites nos dias dos principais jogos da tarde. Julgo que as férias grandes terão começado durante a competição.
A sensação de ver aqueles equipamentos vermelho-verde vivos, novinhos em folha, a entrar no estádio de Estrasburgo, numa era em que a televisão a cores ainda era uma jovem novidade, ficará para sempre marcada na minha memória. Não sou do tempo do Mundial 66, e aquela era a primeira ocasião em que podia ver a selecção do meu país, pela qual sempre nutri grande carinho, a jogar num grande palco.
No segundo jogo, disputado em Marselha num domingo de intensa trovoada no nosso país – que durante a tarde me deixou em pânico por faltar a electricidade, colocando em risco a possibilidade de ver o jogo -, a nossa selecção colocou-se em vantagem perante a Espanha já na segunda parte com um magnífico golo de Sousa, mas não conseguiu segurar o resultado, pois o temível goleador Santillana, num ressalto dentro da área, acabou por estabelecer a igualdade. Chalana realizou uma exibição soberba, começando neste dia a destacar-se verdadeiramente como a grande estrela da equipa portuguesa.
Portugal entrava para a última jornada com a necessidade imperiosa de vencer a Roménia, e sob um manto de críticas pela atitude demasiado defensiva adoptada nos primeiros jogos, sobretudo diante da Espanha, onde se esperava mais alguma audácia. Muitas das críticas passavam pela não utilização de Fernando Gomes no ataque, e pelo reforço do meio-campo com cinco médios, na altura considerado um total exagero.
Para o jogo com a Roménia em Nantes, a comissão técnica fez a vontade aos críticos, colocando Fernando Gomes ao lado de Jordão no ataque luso. Teria pois que sair um médio, e aí é que o caldo se entornou. As pressões de F.C.Porto e Benfica eram muitas, o balneário estava totalmente dividido em dois, e a dúvida que se punha era entre Carlos Manuel ou Jaime Pacheco. Decidiu-se pelo primeiro.

As coisas começaram mal, com a lesão de Chalana, já muito claramente o jogador em melhor forma, logo na alvorada do desafio, e que o obrigou a sair de maca. Temeu-se o pior, mas o pequeno genial ainda reservava muito futebol para esta prova.
Seria outro benfiquista, Nené, saltado do banco já na fase de desespero, a marcar o golo decisivo a nove minutos do fim da partida. Cruzamento do lado direito, e Nené com o sentido de oportunidade que lhe era característico, atirou à meia volta para dentro da baliza romena, ponde em delírio os emigrantes portugueses presentes – nesse tempo poucos eram os que se poderiam deslocar de Portugal a França para ver futebol. Ao mesmo tempo, no Parque dos Príncipes, um golo do central Maceda em cima do minuto noventa, eliminava surpreendentemente a Alemanha, guindando assim os dois países ibéricos à presença nas meias-finais.
Nessa mesma quarta-feira, outro tema dominava a actualidade do país. Tinha sido desmantelada a rede bombista FP-25, e detidos os seus alegados responsáveis, entre os quais o até então prestigiado Otelo Saraiva de Carvalho. A passagem de Portugal às meias-finais não terá pois merecido o destaque mediático que os dias de hoje normalmente conferem a feitos dessa natureza. Ainda assim foi causa de grande felicidade de todos os que de perto viviam o fenómeno desportivo, e a presença da selecção no Euro. De certa forma era o reviver da saga dos “Magriços”, agora com o pseudónimo de “Patrícios”.
Mas este Euro estava destinado a ser de algum modo acidentado para mim. Depois de ter de faltar às aulas no primeiro jogo, depois de me ver sem electricidade em casa poucas horas antes do segundo, eis que no sábado das meias-finais frente à anfitriã França partiu-se a antena da televisão.
Foi de grande angústia toda essa tarde, sem saber em que condições poderia ver o jogo. Acabei por o ver a preto e branco, e com o ecrã cheio de “chuva”. Mas vi-o.
A França, além de jogar em casa, era a melhor equipa da prova. Dispunha de uma equipa formatada desde o Mundial de 1978, e que no Espanha 82 atingira as meias-finais, sendo apenas derrotada, de forma dramática, no desempate por penáltis frente à Alemanha, numa noite de Sevilha que os franceses demoraram dezasseis anos a digerir. A equipa gaulesa, orientada pelo experiente Michel Hidalgo, contava com um super-Platini – hoje presidente da Uefa - na sua melhor forma de sempre, e que aliava uma capacidade técnica fora do comum, com uma notória liderança em campo e com uma veia goleadora impacável. O “dez” da Juventus marcou nove golos em cinco jogos (!), e foi a grande figura da prova, pedindo meças àquilo que Maradona viria a fazer dois anos depois no Mundial do México, onde de resto Platini voltou também a brilhar.
Para além de Platini, brilhavam no meio-campo francês Giresse e Tigana, dois artistas que eram protegidos pelo operário Luís Fernandez. Um dos melhores meio-campos de que há memória no futebol europeu das últimas décadas.
O jogo com Portugal no Velodrome de Marselha foi inesquecível, e ficará na história como um dos melhores de sempre dos campeonatos da Europa. Foi decidido no último minuto do prolongamento, depois de duas horas de grande emoção, intensidade e espectáculo.
Na equipa portuguesa deu-se a entrada de Diamantino para o lugar de Gomes, e de Jaime Pacheco para o lugar de Carlos Manuel, trocas mais uma vez envoltas em azedas polémicas dentro do grupo. Veja-se a preocupação que havia com os equilíbrios entre Benfica e F.C.Porto, sem a qual é difícil imaginar onde poderia ter chegado este conjunto de brilhantes jogadores portugueses.
Até meio da segunda parte do tempo regulamentar o domínio foi totalmente francês. Num livre directo em que todos esperavam o remate de Platini, Domergue diparou para o fundo da baliza de Bento pouco depois dos vinte minutos de jogo. Daí em diante assistiu-se a um vendaval de ataque da equipa da casa, com o guardião do Benfica a realizar seguramente uma das melhores exibições da sua carreira.
Como quem não marca sofre, Portugal acabaria por chegar ao empate, contra a corrente do jogo, após um cruzamento primoroso de Chalana, ao qual Jordão, sozinho na área, correspondeu com um cabeceamento perfeito batendo Joel Bats. Por portas e travessas, estava reposta a igualdade que nos levaria a um inesperado prolongamento, não sem que antes Fernando Gomes, entrado no segundo tempo juntamente com Nené, tenha tido nos pés a oportunidade de tudo decidir.
No prolongamento, dado o adiantamento dos franceses, o jogo tornou-se cada vez mais partido e espectacular. Ainda nos primeiros quinze minutos, Chalana entra em dribles sucessivos pela direita, cruza para o segundo poste, onde Jordão, falhando aparentemente o remate, acaba caprichosamente por colocar a bola no ângulo superior da baliza francesa, colocando Portugal em vantagem, e calando o Velodrome.
Contra todas as previsões e expectativas, Portugal via-se a poucos minutos de alcançar o momento mais alto da sua história futebolística, com uma presença numa final de uma grande competição internacional.
Ainda antes da mudança de campos, Nené, desmarcado uma vez mais por Chalana, isolou-se diante de Bats, e por muito pouco não fez o 1-3 que arrumaria a questão.A segunda parte do prolongamento foi penosa para Portugal, que sem capacidade física para resistir à avalanche gaulesa foi perdendo bolas sucessivas e foi-se remetendo às imediações da sua área. Faltavam apenas seis minutos para segurar a magra vantagem, quando Domerge, novamente ele, aproveitou uma confusão na área portuguesa para repor a igualdade. O lateral-esquerdo Domergue, que nem era normalmente titular, marcou nessa tarde-noite os dois únicos golos da sua carreira internacional.

Tudo parecia então ir para penáltis, mas a força dos franceses, impulsionados por um público cada vez mais entusiasta, acabou por lhes valer o terceiro golo, a um minutos do final. Tigana arrancou pela direita, foi deixando adversários prostrados no relvado, e cruzou para a pequena área onde Platini não perdoou, colocando a França na final.
O desespero tomou conta dos portugueses. A imagem de seis ou sete jogadores estatelados na relva é a prova evidente de que a diferença neste jogo se acabou por fazer pela capacidade física e ritmo competitivo das duas equipas. Seja como for, perder uma oportunidade daquelas para disputar uma final, daquela forma, foi absolutamente dramático. Esta derrota foi das maiores tristezas que tive com a selecção nacional.
A poderosa equipa francesa seguiu para a final, onde venceria a Espanha com alguma sorte – e ajuda do árbitro. Olhando à competição no seu todo, foi a França a melhor equipa. Portugal deixou boa imagem, mas não estava ainda, por diversos motivos, à altura de lutar por um título.
Este jogo e este Europeu ficaram contudo a marcar brilhantes páginas da história da selecção nacional.Chalana e Jordão foram os que mais alto brilharam, conseguindo o extremo benfiquista uma milionária transferência para o Bordéus, onde com Tigana, Giresse e outros, chegaria às meias-finais da Taça dos Campeões da época seguinte. Depois, as lesões comprometeram-lhe o resto da carreira.

PORTUGAL NO EUROPEU

TODOS OS JOGOS DE PORTUGAL NAS FASES FINAIS DE EUROPEUS:
FRANÇA 1984
Gr. Alemanha 0-0
Gr. Espanha 1-1 (Sousa)
Gr. Roménia 1-0 (Nené)
1/2 França 2-3 (ap) (Jordão 2)
INGLATERRA 1996
Gr. Dinamarca 1-1 (Sá Pinto)
Gr. Turquia 1-0 (Fernando Couto)
Gr. Croácia 3-0 (Luís Figo, João Vieira Pinto e Domingos)
1/4 Rep.Checa 0-1
BÉLGICA/HOLANDA 2000
Gr. Inglaterra 3-2 (Luís Figo, João Vieira Pinto e Nuno Gomes)
Gr. Roménia 1-0 (Costinha)
Gr. Alemanha 3-0 (Sérgio Conceição 3)
1/4 Turquia 2-0 (Nuno Gomes 2)
1/2 França 1-2 (ap) (Nuno Gomes)
PORTUGAL 2004
Gr. Grécia 1-2 (Cristiano Ronaldo)
Gr. Rússia 2-0 (Maniche e Rui Costa)
Gr. Espanha 1-0 (Nuno Gomes)
1/4 Inglaterra 2-2 (vgp) (Hélder Postiga e Rui Costa)
1/2 Holanda 2-1 (Cristiano Ronaldo e Maniche)
Final Grécia 0-1
SUÍÇA/ÁUSTRIA 2008
Gr. Turquia ?-?
Gr. Rep.Checa ?-?
Gr. Suiça ?-?

JOGOS 19
VITÓRIAS 10
EMPATES 4
DERROTAS 5
GOLOS 27-16
MELHOR MARCADOR Nuno Gomes 5 golos

UM EUROPEU, UMA FIGURA














ACTUALIDADES (EXTRA EURO)

FUTEBOL FORMAÇÃO: Estive no Seixal neste domingo a acompanhar o jogo de iniciados entre o Benfica e o V.Guimarães. Perante bancadas quase repletas, o empate a zero final não deslustra a boa partida a que se assistiu, e mantém o Benfica a depender apenas de si próprio para conquistar o título, a duas jornadas do fim. Aliás também em Juniores e Juvenis o panorama é semelhante, com as equipas encarnadas a discutirem palmo a palmo o título com Sporting e F.C.Porto respectivamente. Na partida a que assisti, destaque para algumas jovens águias, como o lateral-direito e capitão Pedro Almeida (muita classe e personalidade), o médio Toni Sá (bons pés, excelente planta física, mas terá de ganhar mais visão de jogo), o extremo Rui Silva (excelentes pés, mas algo individualista) e o ponta de lança Bakary (muito bom a abrir espaços e a entrar pelas alas, mas com carências na finalização).
HÉLDER POSTIGA: A sua transferência para o Sporting surpreendeu quase toda a gente, incluindo de certo os próprios adeptos do clube da Alvalade.
Tenho para mim que, mais que um negócio desportivo, estamos perante um facto político: uma oportunista aproximação entre F.C.Porto e Sporting.
Como quase sempre tem acontecido desde há décadas, quando o F.C.Porto e Pinto da Costa se sentem acossados, é para o Sporting que se voltam, e é este a dar-lhe as mãos. Os leões, mais do que procurarem vencer, parecem por vezes apenas se preocupar em garantir que o rival Benfica perca, aspecto para o qual o F.C.Porto surge como parceiro ideal. Foi assim quando estalou o Apito Dourado, parece ser assim agora que o dossier corrupção está em cima da mesa da Uefa.
Estranha forma de vida, como dizia a fadista.
Quanto a Postiga propriamente, não me parece que adiante muito ao Sporting nem atrase muito ao F.C.Porto…
YEBDA, JABBOUR, GALINSKI E DENIS: Cheguei a acreditar que a lógica de contratações do Benfica para a nova época fosse enfim mudar, incidindo cirurgicamente em três ou quatro reforços de qualidade indiscutível, preferencialmente portugueses, ou ao menos identificados com o futebol português. Assim foi anunciado, e os nomes de Ricardo Rocha, Marco Caneira, João Pereira, Zé Castro, Tiago, Hugo Viana, Carlos Martins, entre outros correspondiam a esse perfil.
Afinal tudo indica que o caminho seja outro. Que seja aquele que tem sido seguido em anos anteriores, com os resultados que se conhecem.
Quem é Yebda ? Quem é Jabbour ? Quem é Denis ? Quem é Galinski ? Que sabem eles do Benfica ou do campeonato português ? Serão mais alguns para comer marisco e desfrutar do sol de Cascais ? Ou para acabar as noites no Elefante Branco ? Como se pode esperar vencer campeonatos ao F.C.Porto com jogadores assim ? Quem manda afinal no Benfica ?
TAÇA LIBERTADORES: Como nem tudo o que luz é “euro”, esta semana teremos, ainda que tarde e a más horas, a segunda mão das meias-finais da Taça Libertadores. Como prato forte joga-se no Maracanã um Fluminense-Boca Juniors (2-2 na primeira mão), que é uma verdadeira final antecipada da competição. A outra meia-final é discutida entre Quito do Equador e América do México. Terça e quarta à noite na Sport Tv.
CARLOS ALHINHO: Quando despertei para o futebol, Alhinho era defesa-central do Benfica e da selecção nacional. Antes havia passado por Sporting e F.C.Porto, em temporadas que a minha memória já não alcança.
Foi um dos cromos das minhas colecções de criança. Um dos meus ídolos da altura, como o eram todos os jogadores do meu clube, de Bento a Humberto Coelho, de Toni a Chalana, de Sheu a Nené. Foi com tristeza que soube da sua morte, ainda por cima em circunstâncias trágicas.
Fica a referência à memórica de uma figura de topo do futebol português dos anos setenta.

UM BOM ENSAIO

O ensaio geral da selecção nacional diante da Geórgia correu bem, e terá correspondido aos objectivos que Scolari tinha definido para o mesmo.
Pouco se pode esperar deste tipo de partidas. Normalmente pretende-se apenas que os jogadores não percam o ritmo competitivo, que tenham oportunidade de ensaiar um ou outro lance – nomeadamente de bola parada -, e que ganhem confiança para os jogos a doer. Além de que, não o esqueçamos, o público de Viseu não mereceria ver partir a selecção sem poder desfrutar de um momento de festa como decerto se viveu no sábado passado na cidade de Viriato.
Quanto à equipa a apresentar no início do Europeu, quase tudo parece definido. Na baliza Ricardo continuará a marcar presença, no centro da defesa Pepe e Ricardo Carvalho constituem a dupla eleita, no meio-campo Petit e Moutinho conquistaram definitivamente o lugar, e na frente Nuno Gomes e Simão também estão de pedra e cal. Da equipa que VDB aqui tinha proposto, apenas Quim e Nani ficaram de fora, embora no caso do ala, a frescura exibida por Simão me tenha de certo modo deixado convencido da sua eventual maior utilidade. Dito de outro modo, se voltasse hoje a fazer a equipa talvez trocasse apenas de guarda-redes, o que não significa que me sinta inseguro com Ricardo na baliza.
A primeira parte do jogo foi, com aquele onze, razoavelmente conseguida, muito embora não fosse de esperar uma exibição demasiado forçada – o que de resto não deixaria até de acarretar algum risco. No segundo tempo, com as alterações efectuadas a equipa ressentiu-se. Quaresma, Meireles e Miguel Veloso ter-se-ão preocupado em demasia com o seu protagonismo e Scolari não deixou passar isso em claro, referindo-se no final a jogadores com pouco sentido colectivo. Se alguma dúvida ainda persistia quanto ao estatuto (de suplentes) destes jogadores, este aspecto dissipou-as por completo. Do segundo tempo ressaltou apenas a boa exibição de Miguel, embora não seja crível que possa, para já, roubar o lugar a Bosingwa, até porque a Geórgia não pôs muito à prova a estrutura defensiva da equipa portuguesa.
Cristiano Ronaldo exibiu-se em clara poupança de esforços, o que é perfeitamente natural face ao desgaste que leva acumulado, e à importância que tem na equipa. Este tipo de estágios, em final de época, com quilómetros e quilómetros de futebol nas pernas, quer-se o mais dócil possível, e há que entender a forma como os jogadores mais sacrificados aparentemente se passeiam nos treinos e nos jogos de preparação. Acompanhei de perto o estágio para o Mundial 2006, pude contrastar as respostas físicas nas sessões de trabalho e depois na competição, e sei do que estou a falar.
Agora, já na Suiça, há que assegurar que a última etapa da preparação decorra com êxito. Apoio não falta, e certamente vontade de ganhar também não.
Viva Portugal !