MAIS FINAL QUE MEIA ; A antevisão de um derby apaixonante

Para Sporting e Benfica está a chegar a hora da verdade. Afastados há muito do título, eliminados das provas internacionais, os rivais da Segunda Circular têm amanhã a derradeira oportunidade de manter acesa a esperança na conquista de um troféu.
Quis o destino que esta meia-final se apresentasse assim com a cara de uma verdadeira final, na qual angústias e depressões de uma época atribulada poderão ser aliviadas ou mesmo suprimidas para quem vença, e os fantasmas da instabilidade e da crise profunda cairão sobre a cabeça dos derrotados.
Esta é a possibilidade de salvação. Sim, salvação, pois uma Taça de Portugal não é propriamente um Torneio do Guadiana. É a segunda mais importante competição futebolística de qualquer país, tem o peso de toda uma tradição, além de que abre a possibilidade de terminar a época em júbilo, ao fim e ao cabo a razão de ser do futebol, e de tanto dele gostarmos.
Para Sporting, mas sobretudo para o Benfica - cujas expectativas para a temporada eram bem mais elevadas - este é pois um jogo de vida ou de morte. Ou ainda mais que isso...
Vejamos o que nos pode reservar:
O DERBY
A história dos derbys lisboetas tem já aproximadamente um século de existência, e muitos episódios interessantes de contar. Ou não fosse este o mais tradicional confronto do nosso futebol, e traduzisse a mais genuína (eu acrescentaria salutar) rivalidade que o desporto português desde sempre produziu.
Já aqui falei das memórias com que Benficas-Sportings e Sportings-Benficas me foram marcando ao longo das três décadas que levo de seguidor apaixonado do fenómeno futebolístico. Muitas alegrias, grandes desilusões – felizmente mais aqueles do que estas. Sempre muito entusiasmo, sempre a mesma paixão.
Apesar da conjuntural hegemonia portista, bastará olharmos para a maior parte das mesas de matraquilhos espalhadas pelo país (sobretudo a sul), para percebermos que Benfica e Sporting são os emblemas que melhor definem o ser português, como se de cara ou coroa de uma mesma moeda se tratassem. Rivais desde que nasceram, vizinhos desde há muitas décadas, representantes das duas cores da bandeira portuguesa, Benfica e Sporting sempre foram como que dois irmãos desavindos em luta pela herança. Uma luta sem tréguas, mas quase sempre dentro dos limites daquilo que deve constituir uma saudável rivalidade desportiva.
Um Benfica-Sporting ou um Sporting-Benfica nunca é pois apenas mais um. É sempre “aquele”, seja ele o do penalti do Jardel, o do golo do Luisão ou o do hat-trick de João Pinto. Trata-se de facto de um fenómeno apaixonante, onde para além do combate futebolístico, se verifica um interessante choque cultural e identitário. É sem dúvida o derby dos derbys em Portugal, e um dos mais significativos na Europa.
O de amanhã tem ainda a particularidade de não admitir empate, o que inegavelmente o tempera de forma ainda mais saborosa.

A HISTÓRIA
Para a Taça de Portugal - e centremo-nos nela até porque é, nos dias que correm e com a questão do título nacional morta e enterrada, a competição rainha do futebol português – os dois colossos da capital portuguesa já se encontraram em 17 eliminatórias e 8 finais. Tudo somado, 32 jogos entre ambos, com a ligeira vantagem a pender para os de Alvalade (16-14) – bem ao contrário do que sucede em jogos do campeonato.
Se olharmos apenas para os jogos disputados em Alvalade, a vantagem leonina torna-se mesmo avassaladora (9-2), o que não deixa de se revestir de alguma estranheza, sobretudo se tivermos em conta que as vitórias benfiquistas ocorreram em eliminatórias a duas mãos, que até acabaram, contas feitas, por sorrir aos leões. Vale isto por dizer que o Benfica nunca eliminou o Sporting em Alvalade.
Contrariando a tendência verificada nas eliminatórias, das oito finais entre ambos, o Benfica venceu seis, o que significa que para os encarnados, olhando à história, talvez tivesse sido melhor defrontar o Sporting apenas no Jamor.
Deixando de lado as finais e a sua natureza peculiar, de entre todas as eliminatórias que me recordo, duas houve que gostaria de salientar. Uma por ser a primeira que a minha memória alcança - derrota copiosa por 3-0 com três golos do brasileiro Manoel-, e outra pelos números finais – 5-0 na Luz em 1986, com cinco minutos finais arrasadores do Benfica.
A primeira delas disputou-se em Março de 1977. Treinava o Benfica John Mortimore, que se viria a sagrar campeão dois meses depois. A época começara justamente em Alvalade, numa noite de sábado, com uma derrota do Benfica por 3-0, num jogo em que o público era tanto que chegava a ocupar partes do relvado, o que obrigou a adiar a hora do início da partida.
Nem queria acreditar quando, ainda na minha mais tenra infância, ao segundo Sporting-Benfica o resultado se repetiria: 3-0. Cheguei a pensar que todos os Sportings-Benficas acabariam assim, com derrotas copiosas por três golos sem resposta. Felizmente estava enganado…
Neste jogo da Taça, disputado numa bela tarde de domingo, o Benfica alinhou com Bento, Pietra, Barros, Eurico, Alberto, Toni, Shéu, Vítor Martins, Chalana, Nené e Nelinho. O Sporting terá apresentado um onze semelhante a este: Matos (nestes anos o Sporting chegou a apresentar cinco guarda-redes diferentes em cinco derbys sucessivos, Damas, Conhé, Valter, Matos e Botelho), Da Costa, Zezinho, José Mendes, Inácio, Fraguito, Baltasar, Marinho, Manuel Fernandes, Manoel e Keita.
O brasileiro Manoel fez o jogo da sua vida, apontando três golos e dando a eliminatória ao Sporting, à semelhança aliás do que acontecera na época anterior (1-0 após prolongamento, golo de Libânio), e do que sucederia na seguinte (3-1, dois golos de Manuel Fernandes, um de Keita, com Humberto Coelho a reduzir para o Benfica já na ponta final do desafio).
Em 1985-86, novamente com Mortimore a comandar a equipa, o Benfica conseguiu a maior goleada de sempre em derbys da Taça de Portugal. Jogava-se para os quartos-de-final numa tarde chuvosa de quarta-feira no Estádio da Luz.
Tive de faltar às aulas para ouvir o relato, e valeu bem a pena. 5-0 foi o resultado, com golos de Rui Águas, Álvaro, Vando e Manniche (2). Aos 84 minutos o Benfica vencia por 2-0, mas os últimos instantes foram penosos para os leões.
O Benfica alinhou com Bento, Pietra, Oliveira, Samuel, Álvaro, Carlos Manuel, Shéu, Diamantino, Vando, Rui Águas e Manniche. No Sporting jogavam Damas, Gabriel, Morato, Venâncio, Virgílio, Romeu, Oceano, Jaime Pacheco, Sousa, Manuel Fernandes e Jordão.
A vingança seria servida nessa mesma época, quando na Luz, no primeiro derby a que assisti ao vivo, o Sporting roubou o título ao Benfica vencendo por 1-2, e beneficiando o F.C.Porto, num jogo que indirectamente acabou por proporcionar o título europeu aos dragões no ano seguinte. Tinham razão de ser as lágrimas vertidas nas escadarias do terceiro anel recém inaugurado.
No ano seguinte aconteceria o 7-1, e depois uma sequência de muitas vitórias do Benfica. É também de vingança que se escreve a história dos derbys.

Estive presente nas duas últimas eliminatórias entre Benfica e Sporting, ambas na Luz: 1-3 em 2000, e 3-3 (vitória do Benfica por penáltis) em 2005, esta em condições bastante difíceis (uma valente gripe em noite gelada de Janeiro). Uma vitória para cada lado, portanto.
Amanhã será a terceira. Ver-se-á então para que prato pende esta balança.

AS CIRCUNSTÂNCIAS
Sporting e Benfica já se viram frente a frente em 17 eliminatórias na história da Taça de Portugal, mas poucas delas terão envolvido o grau de dramatismo que encerra o jogo de amanhã.
Particularmente para o Benfica, mais do que salvar a época, trata-se mesmo de salvar a face, sendo que uma eventual derrota nesta partida poderá fazer desabar todo o frágil edifício do futebol encarnado, de tão periclitante ele se encontra.
É o jogo do ano para o Benfica. É mesmo um jogo que pode marcar o fim de uma era, não se sabendo até que ponto o clube estará preparado para aguentar o choque de uma possível derrota, nem havendo certezas sobre as suas eventuais consequências.
Se há um homem que tem neste momento a cabeça no cepo, ele chama-se Luís Filipe Vieira. Vai ser para o presidente benfiquista que a ira dos adeptos naturalmente se voltará em caso de derrota, ou não fosse ele responsável pela construção (destruição?) de um plantel que considerou o melhor dos últimos dez anos, e pelo despedimento precipitado e injusto de dois treinadores só nesta temporada, sem que daí se tenham visto quaisquer resultados práticos.
Embora os leões não tenham muito que se orgulhar do que fizeram em 2007-08, ainda assim venceram a Supertaça, foram mais longe que os encarnados na Uefa, e seguem em melhores condições de conseguir um apuramento para a Champions, isto para além das diferenças de orçamento e, sobretudo, de investimento, que os separaram desde logo na estruturação dos respectivos plantéis. Uma eventual derrota, por dolorosa que seja, será seguramente bem mais tolerada no mundo sportinguista do que no reino das águias, até porque em Alvalade, nem treinador, nem direcção parecem ter o seu futuro ameaçado por esta partida, nem mesmo eventualmente pelo desfecho global da temporada.

AS EQUIPAS
Tanto Benfica como Sporting não deverão apresentar muitas surpresas no seu onze inicial.
Ao ataque dos leões deverá seguramente regressar o montenegrino Vukcevic, enquanto que na lateral esquerda, desde que em condições físicas, Grimi deverá ser titular. Romagnoli, poupado frente ao Leixões, deve também voltar ao onze.
Anderson Polga, lesionado, parece fora destas contas.Fernando Chalana, mau grado a hecatombe ocorrida diante da Académica, deve apostar num onze próximo do que disputou os últimos jogos, embora a utilização de Nuno Assis não seja de desprezar. Sairia da equipa nesse caso Nuno Gomes, a menos que Cardozo não recuperasse até à hora do jogo da mazela que o fez sair mais cedo da partida da última sexta-feira, cenário que para já parece afastado. Não deverá ser esta a opção, mas eu faria regressar Edcarlos ao centro da defesa de modo a permitir a incorporação de Katsouranis na meia direita do meio-campo. O central brasileiro já deu mostras de bastante insegurança pelo chão, mas é forte no jogo aéreo, e com a lesão de David Luíz não há grandes alternativas. Por outro lado, Katso aparenta uma clara desmotivação, ao que poderá não ser totalmente alheia a sua deslocação para o eixo da defesa.

AS ESTRELAS
Independentemente daquilo que tenha sido o rendimento recente das equipas, Sporting e Benfica dispõem nos seus plantéis de jogadores de inegável qualidade, capazes de, a qualquer momento, proporcionar grandes espectáculos.
Entre os leões destacaria Anderson Polga (que provavelmente estará ausente deste derby por lesão), Miguel Veloso, João Moutinho, Simon Vukcevic e Liedson. Sobretudo o “levezinho”, tem sido um verdadeiro talismã para o Sporting em jogos diante dos encarnados, e parece ter recuperado nas últimas semanas a sua melhor forma, facto de que a equipa tem beneficiado a olhos vistos.
Do lado do Benfica, as grandes figuras são o guarda-redes Quim, os defesas Luisão e Léo, os médios Petit e Cristian Rodriguez, e o ponta-de-lança paraguaio Óscar Cardozo. Mas de entre as águias emerge sem duvida Rui Costa, como o verdadeiro patrão da equipa. O “maestro”, com pés de veludo, não só é aquele que (de longe) maior qualidade técnica possui, como também se faz valer da sua experiência, construída ao longo de anos e anos de futebol internacional ao mais alto nível. É ainda uma verdadeira bandeira da mística benfiquista, interpretando-a em campo, com bola e sem ela.

OS GOLEADORES
Liedson no Sporting e Cardozo no Benfica são os homens de quem mais se esperam golos. O “Levezinho” já apontou 22 nesta temporada, ao passo que “Tacuara” leva 20. Um e outro têm decidido diversos jogos, e ninguém se admiraria que viesse a ser um deles a decidir o de amanhã.

O JOGO
Um derby é, por definição, imprevisível. Quaisquer que seja a situação momentânea dos clubes, estas são ocasiões em que todos se agigantam, todos querem vencer, e acabam por ser quase sempre meros detalhes a definir para que lado pende a vitória. Até se costuma dizer que a equipa que se encontra em pior momento leva frequentemente a melhor, teoria alicerçada em anos e anos de resultados inesperados.
Não é contudo (apenas) por isso que me atrevo a atribuir um ligeiríssimo favoritismo ao Benfica, mesmo podendo com isso surpreender de algum modo os leitores. Faço-o essencialmente por duas razões, uma antropo-histórica, e outra técnico-táctica.
No primeiro caso tenho como um dado mais ou menos adquirido que o Benfica reage melhor à pressão psicológica de um momento decisivo do que o Sporting, algo que se foi percebendo sobretudo ao longo das últimas décadas. Quando se trata de grandes decisões entre os dois (como é o caso), os êxitos tem invariavelmente pendido para o lado encarnado – finais de Taça (87, 96), decisões de campeonato (94, 05), decisões de segundo lugar (04) etc. -, ao que não será alheia a extrema juventude das equipas apresentadas pelos leões, mormente desde que o maná da sua formação começou a dar frutos; bem como algum exacerbar de rivalidades do lado do Sporting, que o leva muitas vezes a enfrentar o Benfica com os joelhos trémulos – algo que, diga-se, tem acontecido com o Benfica face ao F.C.Porto.
Por outro lado, se olharmos aos poucos momentos em que a águia voou alto em 2007-08, verificamos que Copenhaga, Donetsk, Guimarães e Alvalade têm em comum três aspectos: o grande dramatismo que envolveu cada uma dessas partidas, o facto de terem sido disputadas fora de casa, e de todas elas surgirem na sequência de anteriores resultados negativos. Ora nem mais nem menos que o panorama que temos face a esta meia-final.
Jogadores como Nuno Gomes, Luisão, Petit, Quim, Katsouranis, Léo ou Rui Costa (todos previsivelmente titulares) atravessam já fases de carreira em que a pressão dos grandes momentos pouco ou nada se lhes faz sentir. O mesmo não se poderá dizer de Rui Patrício, Miguel Veloso, João Moutinho, Pereirinha ou Yannick Djaló, e num jogo com a natureza deste, num momento de decisão absoluta, este é um factor que pode pesar bastante.
Também no aspecto técnico-táctico o Benfica pode levar alguma vantagem.
Se nos lembrarmos de todo o percurso dos encarnados ao longo da época, verificamos que os grandes desaires ocorreram em casa. Se o Benfica tivesse ganho todos os jogos disputados na Luz comandaria o campeonato, pois fora de portas tem um registo bastante apreciável, conseguindo mais pontos na condição de visitante (24), que na de visitado (21). Até nas provas europeias o Benfica soçobrou em sua casa – na Champions perdendo com o Shakhtar, e na Uefa com o Getafe. As melhores exibições – além das quatro acima referidas, há que englobar a do Bessa – sucederam em jogos longe do seu reduto. E tudo isto não acontece por acaso.

Efectivamente a equipa benfiquista está talhada para jogar com espaço livre à sua frente. Tanto Cardozo como Nuno Gomes rendem mais sem marcações demasiado pressionantes, Rodriguez ou Di Maria são jogadores de bola no pé e metros para correr, o próprio Rui Costa, fruto das já naturais limitações de ordem física, brilha mais quando vê menos adversários à sua volta. A jogar diante de adversários com uma postura competitiva mais audaciosa (fora de casa), as individualidades do Benfica sobressaem com outro fulgor, e os resultados não mentem.
Todas as dificuldades do Benfica nesta temporada se têm centrado nas deficiências ao nível da construção (sobretudo logo desde a sua primeira fase), o que se sente dramaticamente nos jogos em casa diante de adversários mais fechados. Ou seja, se em termos de processo ofensivo o Benfica vacila, já quando é chamado a um futebol de contenção, de cobertura de espaços e transições rápidas para as costas das defesas contrárias, a equipa rende, ganha e até já tem conseguido encantar. Em Alvalade o jogo terá quase seguramente estas características, ou seja, a menos que o Sporting se coloque muito cedo em vantagem, deveremos ter um jogo precisamente à medida deste Benfica.
É claro que tudo isto é susceptível de ficar de pantanas, quer por via de um detalhe – um golo cedo, uma expulsão -, quer pelo peso psicológico que este último resultado possa ter tido na mente dos jogadores encarnados, e que neste momento ainda não é avaliável. Mas uma antevisão a um jogo desta natureza tem forçosamente que partir sempre de alguns axiomas, que durante os noventa minutos podem perfeitamente não se verificar. Se assim não fosse, se, numa lógica positivista nos limitássemos apenas ao que é palpável e objectivo, pouco haveria para escrever antes de uma partida para a qual o que menos existe são certezas.
Espera-se também do clássico de Alvalade que seja naturalmente um bom espectáculo, uma noite empolgante, e que a arbitragem não seja protagonista, algo a que infelizmente os últimos derbys não têm conseguido fugir. Se derby sem casos não é derby, ao menos que o vencedor não deixe dúvidas quanto à transparência da sua vitória.
E já agora, se me permitem, que o vencedor seja o Benfica.

A ILUSTRAÇÃO
Para abrir o apetite, fica aqui o vídeo do último combate entre os rivais a contar para a Taça de Portugal. 3-3 na Luz, vitória do Benfica por penáltis - curiosamente depois de uma derrota em casa com o Beira Mar por 0-2 - grande espectáculo e alguma polémica. Enfim …um derby como deve ser !

Benfica-Sporting, 3-3 2004-05
Retirado de http://www.memoriagloriosa.blogspot.com/

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

Dois lances merecem reparo nesta ronda. No Bonfim o segundo golo portista foi precedido de falta – Mariano ajeitou a bola com a mão -, o que, num resultado de 1-2 implica a perda de dois pontos. Por outro lado, em Alvalade, o golo invalidado a Liedson tratou-se de um erro do auxiliar - vendo as imagens em câmara lenta percebe-se que o dianteiro brasileiro está em linha no momento do passe.
Cabe aqui um parêntesis para dizer que, muito embora o Vitória de Guimarães não esteja representado nesta rubrica – ninguém adivinharia no início da época a fantástica carreira efectuada pelo conjunto de Cajuda -, nem por isso têm passado despercebidos os inúmeros erros de arbitragem que, na maioria das vezes, o têm beneficiado. Recordo por exemplo o golo ao V.Setúbal logo na primeira jornada - obtido na sequência de uma falta clara sobre o guarda-redes sadino -, o golo fora-de-jogo marcado ao Sporting, um penalti perdoado no jogo de Paços, e agora mais um golo irregular no jogo com o Boavista.
Eis como ficou a classificação dos três grandes após a 26ª jornada:
F.C.PORTO 62
Benfica 52
Sporting 48

VEDETA DA JORNADA

LUÍS AGUIAR: Podia ter escolhido qualquer outro jogador da Académica, tal foi a exuberante demonstração de qualidade colectiva com que os estudantes brindaram a Luz. Na opção por destacar Luís Aguiar, leia-se também uma forma de chamar a atenção para a quantidade e qualidade de jogadores que o F.C.Porto tem espalhados pelos vários clubes do primeiro e do segundo escalão, o que para além das diferentes interpretações que possamos ter, não deixa de ser mais um sinal da força portista no panorama actual do futebol português. Pitbull, Bruno Gama, Paulo Machado, Vieirinha, Alan, Diogo Valente, Fernando, Ivanildo, Ezequias, sem falar de Ibson, Postiga ou Renteria, são exemplos de uma política desportiva que não deixa nada ao acaso. Mesmo levando em linha de conta as suas consequências orçamentais.

FORÇA AÉREA

Fortemente motivado pelo desaire do rival Benfica, o Sporting desta vez não falhou. Com uma vitória por 2-0 diante do Leixões trepou para o terceiro lugar da tabela, e manteve firme a candidatura à qualificação directa para a Champions League que, a concretizar-se, será a terceira consecutiva.
Os leões valeram-se de dois lances de bola parada concretizados de cabeça por Tonel e Liedson para resolver o jogo, depois de uma primeira parte sofrível, durante a qual algumas oportunidades desperdiçadas pelos homens de Matosinhos puseram Alvalade em sobressalto. Destaque ainda para um golo mal anulado a Liedson, num lance que, diga-se, só as repetições televisivas esclarecem cabalmente.
Olhando ao calendário de V.Guimarães, Sporting e Benfica, parece óbvio que todo o favoritismo para a conquista do segundo lugar deva ser endereçado à equipa de Paulo Bento. Lembre-se que recebe Marítimo e Boavista, e desloca-se a Leiria e Paços de Ferreira, ou seja, quatro jogos perfeitamente acessíveis, ao contrário de Benfica e V.Guimarães que têm ambos, por exemplo, que defrontar o F.C.Porto.
O Benfica, com três pontos de distância para vimaranenses, e um para leões, embora matematicamente mantenha todas as hipóteses em aberto, muito dificilmente recuperará a vice-liderança onde permaneceu jornadas a fio. Esta última semana foi devastadora para as aspirações encarnadas, e vendo as coisas com realismo, até por aquilo que têm mostrado em campo, os comandados de Fernando Chalana poder-se-ão dar por felizes caso consigam ainda conter os danos, alcançando o terceiro lugar e a presença na pré-eliminatória de Agosto.
Recorde-se a propósito que José António Camacho deixou o Benfica com seis pontos de vantagem sobre o Sporting, e que Fernando Santos ficou, na época transacta, a dois pontos do título…

NOITE NEGRA

Poucas palavras haverá para descrever o que se passou esta noite na Luz.
Após uma exibição bastante conseguida no Bessa, nada fazia prever que o Benfica, poucos dias depois e com tanto ainda para decidir, se apresentasse neste jogo de forma tão desastrada.
O golo infantil sofrido nos primeiros instantes fez-se sentir nos níveis de confiança de uma equipa que não mais se encontrou, e que se revelou totalmente incapaz de reagir ao destino que cedo se começou a desenhar. A partir do segundo golo tudo se complicou ainda mais, e a segunda parte foi absolutamente penosa para os encarnados, num dia em que nem Rui Costa conseguiu manter um nível aceitável.
Só dentro do balneário benfiquista se poderão encontrar os verdadeiros motivos para o que sucedeu. Não é explicável no futebol altamente profissional que se sofram golos através de falhas como as desta noite. Nem que se jogue de forma tão pouco combativa, como se de um treino se tratasse.
O Benfica despediu-se muito provavelmente da possibilidade de segurar o segundo lugar, e terá mesmo comprometido o terceiro. Até poderá eventualmente fazer bem ao Benfica passar um ano fora da Champions League, e assim centrar as suas atenções totalmente no campeonato, podendo obter daí alguma vantagem. Mas muita coisa terá de ser alterada. Muita mesmo.
Uma delas é interiorizar que nenhuma equipa pode almejar a títulos quando mais de metade dos seus jogadores, ou não sabe, ou não quer defender. Os campeões constroem-se de trás para a frente, e este Benfica, quando perde a bola, tem a solidez de um papagaio de papel. Se juntarmos a isso uma reiterada e preocupante ineficácia concretizadora, só por milagre se pode esperar chegar ao sucesso.
Muitos artistas, muitos egos, muitas figuras, mas total ausência de uma ideia de futebol colectivo, total ausência de um conjunto minimamente articulado. Algo que não me parece ser da exclusiva responsabilidade de Camacho ou Chalana, mas passar também pela idiossincrasia futebolística e mental de muitos dos futebolistas do plantel.
A poucos dias de um jogo em Alvalade que ainda poderá ajudar a salvar a época, não é a altura oportuna para relembrar tudo o que de errado foi feito no Benfica 2007-08. Mais tarde esse balanço terá que ser feito, e as responsabilidades não poderão morrer solteiras.
Mas Alvalade dirá também até que ponto estes jogadores, estes profissionais - ou grande parte deles - merecem mesmo envergar a camisola do Benfica. Veremos aí se o entendem, se o sentem e se o querem.
Numa semana marcada pelas polémicas em redor da arbitragem, torna-se quase irónico que Paulo Baptista tenha sido um dos melhores em campo. Antes assim.

ADEUS EUROPA !

Acabou-se o sonho europeu do Sporting.
A última equipa portuguesa nas provas europeias foi eliminada em casa, pondo fim a uma época internacional na qual ficaram patentes algumas das fragilidades do actual futebol português. F.C.Porto, Benfica e Sporting foram, todos eles, afastados por conjuntos de segunda linha, deixando no ar a suspeita de alguma incapacidade para se baterem com os melhores, algo que ainda há um par de anos atrás não parecia assim tão evidente.
Olhando ao que se passou nesta eliminatória, há que dizer que ao Sporting faltou também a dose de felicidade normalmente necessária para se chegar longe neste tipo de competição. A equipa leonina fez um jogo razoável, construiu oportunidades, mas acabou por pagar caro o facto de não ter marcado em Glasgow, o que lhe toldou de certo modo a estratégia e o espírito.
Partindo de 0-0 Paulo Bento sabia que um golo do adversário valia o dobro, logo os riscos deveriam ser calculados. Assim sendo, o Sporting fez o que tinha de fazer: entrou com paciência, esperando numa eventual oportunidade, chegar à necessária vantagem.
Com o nulo a manter-se e o Rangers a revelar-se pouco audacioso, os leões entraram para a segunda parte com maior agressividade. Durante alguns minutos pareceram capazes de subjugar a equipa escocesa, e o golo parecia então apenas uma questão de tempo.
Seria todavia o Rangers a marcar. Num contra-ataque rápido em que beneficiou de um desentendimento entre Miguel Veloso e Gladstone, o perigoso Darcheville bateu Rui Patrício. Foi um duro golpe, do qual a jovem equipa do Sporting não mais se recompôs. O tempo que restava não era já muito, e os leões tinham então de marcar dois golos para seguir em frente.
Ainda houve algumas oportunidades. Paulo Bento arriscou tudo, mas a sorte estava decididamente com os britânicos, que em mais um contra-ataque, já com o jogo totalmente partido, acabaram por marcar pela segunda vez e selar a eliminatória.
Pode-se argumentar que uma estratégia inicial de maior risco poderia ter rendido outros frutos, ou pelo menos teria dado mais tempo para recuperar de uma eventual desvantagem. Mas diga-se que, objectivamente, foi quando a equipa mais atacou que sofreu os dois golos, e foi na primeira parte – período que abordou com maior calculismo - que dispôs da melhor ocasião para marcar, no cabeceamento de Liedson ao poste. É assim o futebol, e tudo o que se possa agora dizer ou escrever sobre a forma como Paulo Bento preparou o jogo, esbarrará invariavelmente na parede da especulação.
Para as meias finais segue assim o Rangers, que irá defrontar a poderosa Fiorentina, enquanto o Bayern de Munique - depois de uma dramática recuperação em Getafe, onde a cinco minutos do final do prolongamento perdia por 3-1 - medirá forças com o emergente Zenit de São Petersburgo. Alemães e italianos são naturalmente os favoritos.

ONZE LEÕES À CONQUISTA DA EUROPA

CHAMPIONS SEM SURPRESAS

A segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões não trouxe surpresas, confirmando o apuramento de Barcelona, Manchester United e Chelsea, que, com maior ou menor dificuldade, se desembaraçaram dos seus adversários. As maiores dúvidas residiam em Anfield Road e, na verdade, o espectáculo proporcionado uma vez mais por Liverpool e Arsenal esteve à altura de todas as expectativas.
Partindo da desvantagem do golo sofrido em casa, os “Gunners” entraram em campo decididos a dar a volta ao texto. Durante um largo período da partida assistiu-se a um autêntico festival ofensivo da equipa de Arséne Wenger, um pouco à semelhança do que havia sido capaz de fazer em San Siro diante do Milan. Apesar de ter chegado por duas vezes à vantagem na eliminatória (0-1 e 2-2), o Arsenal ver-se-ia traído nos últimos instantes pela menor experiência internacional dos seus jogadores, ficando assim afastado de uma prova na qual, pelo brilhantismo reiteradamente demonstrado, bela beleza plástica do seu futebol, bem merecia ter chegado mais longe.
Da noite europeia de Anfield há ainda que destacar os maravilhosos golos de Fernando Torres – eventualmente o melhor ponta de lança do mundo na actualidade -, e de Adebayor, este na sequência de um excepcional lance individual de Theo Walcott, a fazer lembrar o Diego Maradona dos melhores tempos.
Para as meias finais teremos pois, pelo segundo ano consecutivo, três conjuntos ingleses e um “intruso”. Chelsea e Liverpool encontram-se pela terceira vez em quatro anos nesta fase da prova, com a história a pender invariavelmente para os “Reds”, ao passo que um fortíssimo Manchester United se apresenta como claro favorito para o confronto com um Barcelona em crise de identidade. Mas sabendo-se como o futebol tantas vezes escapa aos ditames da lógica ou da tradição, sobretudo quando a categoria dos intervenientes deixa espaço a todas as possibilidades, o melhor é mesmo esperar para saber quem serão os finalistas.
Veja-se, a propósito, como ficou o top-ten de sempre da prova, após esta eliminatória:

(CRITÉRIO: presença 1 pt, vitória 3 pts, empate 1 pt, eliminatória 1 pt, final 10 pts e título 20 pts)

ORA DIGAM LÁ QUE NÃO LHE FICA BEM A CAMISOLA...

Sabe-se como muitas vezes as estatísticas são manipuláveis. Mas é também inegável que, em certos aspectos, os números revelam uma força clara e indesmentível.
Escrevi aqui em mais de uma ocasião que Lucílio Baptista era um árbitro próximo do Sporting. Mais do que um estado de alma, tinha na memória muitas das suas actuações, antes e depois de se ter visto envolvido no processo Apito Dourado. Lembro a propósito, um dos posts mais antigos de VDB, publicado em Abril de 2006, onde sugeri um "Stromp" para o juiz setubalense, justamente a propósito de uma preciosa intervenção sua na decisão do apuramento directo para a Champions dessa época, que como se sabe acabou por sorrir ao…Sporting.
No insuspeito Record de hoje, um interessante artigo de João Querido Manha traduz a minha memória e o meu estado de alma em números. Em números verdadeiramente arrasadores, e que mostram bem como as coincidências se aparentam frequentemente com sombrias e preocupantes realidades.
Nos últimos sete jogos do Benfica que Lucílio Baptista apitou, nem uma única vitória os encarnados alcançaram! É ele também o árbitro que mais penaltis assinalou contra o Benfica, e que mais assinalou a favor do Sporting. A proporção é dramaticamente reveladora: 5 a favor e 6 contra as águias, 8-2 nos jogos dos leões (!?!) O número de expulsões é também espantoso: Lucílio expulsou 8 jogadores do Benfica e 5 adversários, enquanto que apenas mostrou três cartões vermelhos a sportinguistas, expulsando 10 (!!) jogadores de equipas adversárias.
Os números falam por si. E mais do que confirmarem aquilo que se já notava a olho nu, deixam no ar uma interrogação: porque motivo foi ele nomeado para este jogo no Bessa ?
Quando se sabe que Vítor Pereira e Hermínio Loureiro são ambos sportinguistas (o primeiro recebeu inclusivamente um emblema de ouro há pouco tempo), que o clube leonino faz parte da direcção da Liga de Clubes, e que Benfica e Sporting estão na luta pelo valioso segundo lugar do campeonato organizado justamente por esse organismo, ou me engano muito ou temos aqui mais uma das coincidências em que o futebol português tem sido, infelizmente, fértil.

VINTE ANOS DE MENTIRA DE A a Z

A justiça do título conquistado pelo F.C.Porto nesta época de 2007-08 é inatacável. Embora beneficiando de dez golos irregulares ao longo da prova - Sporting, U.Leiria (3), P.Ferreira (2), Boavista, Leixões e Belenenses (2) -, cinco expulsões perdoadas (três delas a Bruno Alves em Matosinhos, Alvalade e Amadora, uma a Quaresma e outra a Lisandro nos Barreiros), e pese ainda os treze penáltis subtraídos ao Benfica e descritos em post anterior, tem que se admitir a maior regularidade exibicional dos portistas, a sua maior coesão, e o brilhantismo de alguns dos seus jogadores - nomeadamente os argentinos Lucho e Lisandro, que realizaram uma temporada extraordinária.
Efectivamente, mesmo sendo - respeitando a "tradição" - a equipa mais beneficiada da competição, tem que se dizer que o F.C.Porto foi também o melhor conjunto e, sobretudo, que não teve culpa dos erros de águias e leões, que cedo se suicidaram neste campeonato quer dentro quer fora das quatro linhas, com erros crassos de gestão desportiva próprios do mais cândido amadorismo. Sem interferências de arbitragem possivelmente a festa não tinha ainda sido feita, mas, mais jornada menos jornada, a equipa de Jesualdo confirmaria o merecido título, até porque muitos dos lances referidos (embora nem todos) ocorreram em jogos nos quais os portistas acabaram por vencer folgadamente.
Isto todavia não apaga, nem pode branquear, todo o caminho histórico percorrido pelos dragões até aqui, designadamente desde o momento em que Jorge Nuno Pinto da Costa assumiu o poder – do F.C.Porto e do futebol português.
Desde os anos oitenta muitos foram os casos, muitas foram as suspeitas. Quando vieram a público as escutas do Apito Dourado quase ninguém foi apanhado de surpresa, pois toda a gente mais ou menos ligada ao futebol sabia o que se passava. Tratando-se de situações difíceis de comprovar, e conhecendo-se a rede de influências e interdependências ardilosamente construída ao longo de duas décadas, tornava-se (e torna-se) difícil ver a justiça chegar a bom porto, para mais conhecendo-se a sua dramática lentidão e ineficácia, verificada nestes e noutros casos no nosso país.
No momento em que se vão julgar em tribunal um F.C.Porto-E.Amadora e um Beira Mar-F.C.Porto, disputados na melhor temporada de sempre dos dragões (com uma grande equipa e um grande treinador), é importante que se perceba que o problema está muito longe de se esgotar nesses dois episódios, nem eles serão certamente os mais relevantes de uma história repleta de mentira, corrupção e tráfico de influências. Pelo contrário, o que deve ser entendido das escutas – mesmo que o tribunal não o possa ou consiga fazer - é um panorama de subversão total e absoluta de uma lógica competitiva de isenção e transparência, que foi sendo a base para benefício de uns e prejuízo de outros, ao longo de muitas temporadas, e que valeu títulos, dinheiro, prestígio europeu, numa espiral que ainda hoje condiciona e subverte a hierarquia competitiva do futebol português.
É em nome da preservação dessa memória que este texto é publicado. É no fundo o repescar de um conjunto de episódios, factos e, nalguns casos, apenas rumores, que por si pouco poderiam representar, mas que em conjunto reflectem uma realidade à qual não podemos fugir, e a qual ninguém de bom senso deverá ignorar ou fingir que não existe ou existiu. Mesmo que, por questões processuais, a justiça acabe por não conseguir desempenhar o seu papel, a verdade não poderá ser esquecida nem branqueada, pois o que está em julgamento não é mais que a ponta de um iceberg escondendo uma sórdida teia de podridão que alicerçou o futebol português ao longo de mais de vinte anos. É importante que nos lembremos, a cada momento, a cada fim-de-semana, a cada jogo, como é que o F.C.Porto se tornou na máquina de vitórias que hoje é, não desfazendo, obviamente, da qualidade e profissionalismo de muitos dos jogadores e técnicos que passaram pelo clube, e aos quais provavelmente até terá escapado muito do lixo arrecadado nas traseiras dos seus triunfos.
Fica pois aqui, de A a Z, a memória de duas décadas de mentira:

A de ACÁCIO – Pouca gente se lembrará deste nome. Trata-se de um guarda-redes brasileiro que passou com discrição pelo Tirsense e pelo Beira Mar, e que só depois de regressar ao Brasil tomou a liberdade de falar sobre a sua aventura europeia. Confessou então que recebera pressões e propostas diversas para facilitar uma vitória do F.C.Porto em Aveiro, que valia (e valeu) o título nacional de 1993. O caso foi pouco falado, vivia-se ainda um clima de medo pré-Apito Dourado. Mas a recordação das suas declarações e desse campeonato permanecem bem vivas no meu espírito. Só não sei se foi nessa ocasião que, também em Aveiro, o jornalista Carlos Pinhão foi barbaramente agredido por elementos ligados ao F.C.Porto.
Uns anos antes havia sido o belga Cadorin, avançado do Portimonense, a acusar o empresário Luciano D’Onófrio de lhe prometer um bom contrato (em Portugal ou no estrangeiro), caso fizesse um penálti nos primeiros minutos de um Portimonense-F.C.Porto (“depois jogas normalmente”, ter-lhe-á dito). Com a saída do belga do futebol português, o caso acabou por morrer.

B de BENQUERENÇA – Olegário Benquerença protagonizou duas das mais escandalosas actuações da arbitragem portuguesa dos últimos anos. Na Luz, em Outubro de 2004, dois meses antes da detenção de Pinto da Costa, o árbitro leiriense e o seu assistente Luís Tavares foram os únicos que não viram (mais alguns que não quiseram ver…) uma bola rematada por Petit ser retirada de dentro da baliza portista por um desesperado Vítor Baía. No mesmo jogo já havia feito vista grossa a uma claríssima grande penalidade de Seitaridis sobre Karadas (que daria expulsão do grego no início da segunda parte), e mostrado um vermelho injusto a Nuno Gomes, que havia sido barbaramente agredido por Pepe. Um ano depois, em jogo da Taça de Portugal, foi o Sporting a vítima deste benemérito portista de longa data. Com mais uma exibição de “luxo”, Benquerença colocou os leões fora da Taça, poupando penáltis, e expulsando jogadores até achar necessário. Já antes de 2004 era um árbitro polémico, com arbitragens invariavelmente favoráveis aos portistas. Talvez por isso viu as portas de uma carreira internacional de sucesso serem-lhe escancaradas e, não se sabe bem como, poderá até estar no Euro 2008.

C de CALHEIROS – Os irmãos Calheiros – quem não se recorda dos gémeos e barbudos fiscais de linha, ladeando Carlos, o irmão mais velho – foram umas das muitas figuras sinistras da arbitragem portuguesa da década de noventa. Recordo particularmente um inacreditável penalti assinalado nas Antas por suposta falta de Mozer no empate 3-3 de 1993-94, bem como um jogo em Aveiro, na época anterior, concretamente na tarde soalheira de 16-5-1993, em que expulsou Yuran e Pacheco por supostas palavras, possibilitando a vitória ao Beira Mar, e dando o título ao F.C.Porto - que à mesma hora via um tal de Marques da Silva, do Funchal, expulsar estranhamente dois jogadores do Desp. Chaves e assinalar um penálti escandaloso que lhe permitiu virar o marcador para de 0-1 para 2-1 na difícil visita a Trás-os-Montes, quando águias e dragões seguiam, a três jornadas do fim, empatados em pontos. Mais do que essa e outras actuações, sempre em benefício dos mesmos, este trio ficou famoso pela célebre viagem ao Brasil, feita através da agência de Joaquim Oliveira, e paga pelo F.C.Porto. A investigação deste caso nunca foi devidamente feita. Com a PJ do Porto e o próprio MP aparentemente alinhados com o sistema, foi difícil durante muitos anos (e continua a sê-lo) avançar pelos caminhos da verdade.
Ao pé destes meninos, Calabote era possivelmente apenas um ingénuo aprendiz – e diga-se que o suposto e empolado caso Calabote, nos anos cinquenta, redundou apenas num título para o…F.C.Porto.

D de DUDA – Foi um dos meus primeiros contactos com a suja realidade do futebol português das últimas décadas. Jogava-se, já em plena segunda volta, a liderança do campeonato numa tarde chuvosa na Luz – foi este o célebre jogo em que Toni saiu a chorar por ter involuntariamente partido a perna de Marco Aurélio. O Benfica vencia por 1-0 desde os primeiros minutos com um golo de João Alves, mas já na ponta final do desafio, em recarga a um livre defendido por Bento, o brasileiro Duda em claríssimo fora de jogo empatou a partida. O F.C.Porto de Pedroto, e já com Pinto da Costa no departamento de futebol, seria campeão.
No ano antes, já o F.C.Porto tinha alcançado o título através de um livre duvidoso à entrada da área, que lhe possibilitou por intermédio de Ademir o empate (1-1) frente ao Benfica nos últimos minutos de um jogo nas Antas, em que estivera em desvantagem desde o terceiro minuto com um auto-golo de Simões, e em que se vira a barra devolver uma bola cabeceada por Humberto Coelho. Bento fora expulso na jornada anterior, jogando Fidalgo na baliza encarnada. Era o início de uma longa e podre história.

E de EXPULSÕES – A dualidade de critérios nos jogos do F.C.Porto foi desde os anos setenta uma constante. Todo o anti-jogo lhes foi sempre permitido (recordo por exemplo os empates a zero na Luz em 1989, 1990 e 1993), as agressões de Frasco, Fernando Couto, Paulinho Santos e Jorge Costa raramente foram punidas – este último quando se sentia pressionado atirava-se para o chão e punha assim fim aos lances -, mas aquilo que talvez tenha sido o emblema desta realidade foram as sistemáticas expulsões de jogadores encarnados sempre que jogavam frente aos portistas. Nos últimos vinte anos foram mostrados 23 (!!!) cartões vermelhos a jogadores do Benfica em clássicos com o F.C.Porto para todas as competições. A saber, e por ordem alfabética: Abel Xavier 94-95, Dimas 94-95, Eder 02-03, Escalona 99-00, Hélder 94-95, Isaías 91-92, João Pinto 94-95, 97-98 e 98-99, Miguel 02-03, Mozer 92-93, Nuno Gomes 04-05, Nelo 94-95, Pacheco 88-89, Ricardo Rocha 02-03 e 03-04, Ricardo Gomes 95-96, Rojas 99-00, Rui Bento 91-92, Tahar 96-97, Vítor Paneira 94-95, Veloso 87-88 e Yuran 92-93. Para se ter uma ideia da força deste número, digamos que nos oitenta anos de história anteriores (1907 a 1987) foram expulsos apenas 10 jogadores do Benfica em jogos com o F.C.Porto, ou seja, em apenas vinte anos foram expulsos mais do dobro dos que haviam sido em toda a restante história do futebol português. Este tem sido um aspecto fulcral da perseguição ao Benfica e da protecção ao F.C.Porto, e que muitas vezes impediu outros resultados, nomeadamente a norte, onde a maioria daquelas expulsões teve lugar. Por vezes foi também em vésperas de deslocações às Antas que as expulsões cirurgicamente ocorreram. Foi o caso de Preud’Homme,em 1995-96, e Miccoli no ano passado, curiosamente dois grandes jogadores que nunca haviam sido expulsos em Portugal, e nunca voltaram a sê-lo depois dessas ocasiões.
Também os penáltis marcados a favor do F.C.Porto e subtraídos ao Benfica foram uma constante nas deslocações às Antas (por exemplo 89-90, 92-93, 93-94 no primeiro caso; 91-92 no segundo). Mas até na Luz, em jogo decisivo para o título de 1991-92 isso aconteceu, com o marcador a ser aberto já a meio da segunda parte num lance fora da área entre Rui Bento e Rui Filipe, que valeu o primeiro golo portista e a expulsão do benfiquista. O F.C.Porto, a jogar contra dez, venceria por 2-3. O árbitro era Fortunato Azevedo, que já na primeira volta subtraíra uma grande penalidade ao Benfica e expulsara Isaías, em jogo que terminou empatado a zero.
Os golos anulados a Kandaurov em 1997-98, e Amaral em 1994-95, além do caso Benquerença em 2004-05, também são dignos de figurar neste negro registo de clara e inequívoca parcialidade. Sem falar nas célebres defesas de Vítor Baía fora da área, sem cartão nem punição.

F de FAMALICÃO – Foi um dos muitos escândalos da era Lourenço Pinto/Laureano Gonçalves (fim de oitentas princípio de noventas) – a pior de todas na arbitragem portuguesa. Com o campeonato de 1992-93 ao rubro, o F.C.Porto deslocou-se ao então difícil recinto do Famalicão. Quase seis minutos depois da hora, o árbitro José Guimaro - mais tarde condenado por corrupção no caso Leça - arquitectou um absurdo penálti para dar a vitória ao F.C. Porto. João Pinto converteu e o F.C.Porto, com estas e outras (ver Acácio e lembrar o penálti de Rui Bento sobre Rui Filipe na Luz), alcançou um dos títulos mais nebulosos da história do futebol português.

G de GERALDÃO – O central brasileiro Geraldão, bem como o lateral esquerdo internacional Branco, eram especialistas na cobrança de livres directos. Como tal, as arbitragens mostravam-se extremamente zelosas sempre que algum jogador portista caía nas imediações da área (e eram muitos a fazê-lo de forma deliberada), assinalando de pronto livres que frequentemente acabavam em golos. O F.C.Porto do início da década de noventa venceu muitos jogos assim. Recordo um Benfica-F.C.Porto de 1990 em que foi assinalada perto de uma dezena de livres nas imediações da área encarnada, quase todos simulados. Por sorte, nesse dia Geraldão estava com a pontaria desafinada, e o resultado acabou em branco. Mas o título voou para norte…

H de HILÁRIO – Tal como Acácio e Cadorin, o agora guarda-redes do Chelsea foi outra das figuras sobre a qual se ouviram rumores de possível suborno ou pressão quando defendia, por empréstimo do F.C.Porto, as redes do Estrela da Amadora. Neste caso não foi o próprio a assumir, mas sim terceiros a acusar. Foi uma história que também acabou por morrer nos silêncios do medo. Nos últimos anos falou-se também de Rolando do Belenenses, eternamente apalavrado com os dragões.
Ao longo dos últimos tempos muitos têm sido também os jogadores emprestados pelo F.C.Porto a clubes da primeira divisão (situação que deveria ser proibida), conseguindo com isso atirar algum charme para cima dos seus dirigentes - sempre conveniente na hora das contratações - e simultaneamente amaciar adversários. Durante muitos anos os clubes da Associação de Futebol do Porto (Leça, Leixões, Tirsense, Penafiel, Varzim, Rio Ave, Salgueiros, Paços de Ferreira, etc) foram a este nível verdadeiros parceiros do F.C.Porto na sua rota rumo ao domínio, a bem ou a mal, do futebol português. Isso notava-se com clareza nos resultados e nas exibições. E de certo modo ainda nota, caso estejamos bem atentos.
Nesta mesma edição da liga, o F.C.Porto tem jogadores emprestados a Sp.Braga, Belenenses, Leixões, V.Guimarães, V.Setúbal, Académica e E.Amadora. Também U.Leiria e Marítimo têm tido relações privilegiadas com os dragões, sem contar a Liga de Honra, território quase todo submerso na rede de interdependências criada pelo F.C.Porto e seus próximos, ou não tivesse sido ela criada mesmo para esse efeito. O Alverca foi filial do Benfica (embora depois tenha servido para retirar jogadores como Deco da Luz e vender-lhe monos a preços de luxo), mas a satelização de clubes da primeira divisão tem sido ao longo dos anos uma das armas do F.C.Porto. Alguns clubes chegaram a receber quase meia equipa emprestada pelos dragões. Refira-se ainda que a quantidade de treinadores ex-jogadores portistas, conotados com o F.C.Porto e imbuídos da cultura do clube, orientando clubes da liga principal nos últimos anos, é extraordinariamente vasta: Carlos Carvalhal (que ainda na Taça da Liga festejou um golo virando-se para o banco encarnado e gritando f....s d. p...), Carlos Brito, Jaime Pacheco, Jorge Costa, Domingos Paciência, António Sousa, António Conceição, José Mota, Augusto Inácio, Eurico Gomes, Octávio Machado, António Oliveira, Rodolfo Reis, Paulo Alves, José Alberto Costa, para referir apenas os que me vêm no imediato à memória. Se em muitos destes casos seria injusto especular acerca do menor empenho das equipas, percebeu-se quase sempre, por exemplo nas flash-inteviews, um pudor extremo em falar de arbitragens nos jogos contra os dragões, e uma fúria incontida caso os supostos prejuízos se dessem com outros clubes, designadamente o Benfica.

I de ISIDORO RODRIGUES – Este árbitro viseense foi um verdadeiro Benquerença da década de noventa. Muitos foram os jogos em que beneficiou o “seu” F.C.Porto, e sobretudo aqueles em que prejudicou o Benfica, bastas vezes sem sequer se preocupar com as aparências. Recordo com particularidade um Benfica-Boavista (1995-96) em que Isidoro virou o resultado quase sozinho, expulsando três jogadores do Benfica (entre os quais João Pinto), assinalando um penálti fantasma e validando um golo em fora-de-jogo; bem como um Varzim-Benfica para a primeira jornada de 2001-02, em que o árbitro só apitou para o final do jogo quando o Varzim chegou ao empate, nove (!!) minutos depois da hora, e já depois de ter expulsado os benfiquistas Cabral e Porfírio, e marcado o penáltizinho da ordem, começando a liquidar desde logo as aspirações benfiquistas numa época em que muito apostavam (contratações de Simão, Drulovic, Zahovic, Mantorras etc).

J de JOÃO ROSA – Estava-se em 1985-86 e o campeonato seguia animado com a luta Benfica-F.C.Porto na frente da tabela. Este árbitro eborense foi nomeado para um Salgueiros-Benfica, no qual acabou por apenas não meter a bola dentro da baliza dos da Luz com as suas próprias mãos. De resto fez tudo para o Benfica perder pontos, acabando por “conseguir” um empate a um golo. O sistema estava a atingir o auge dos seus tempos mais tenebrosos.
Outro Rosa, mas este Santos (embora apenas de nome…), foi também figura de proa do sistema que construiu a hierarquia do futebol português que hoje temos. Uma vez em Loulé, permitiu a marcação de um livre sem ter apitado nem os jogadores algarvios terem formado barreira. Esse lance valeu uma eliminatória da taça para o F.C.Porto. Hoje continua a fazer alguns favores aos dragões, comentando arbitragem no jornal “O Jogo”.

K de KANDAUROV – Seria necessário muita pesquisa ou imaginação para encontrar na história do desporto-rei um golo anulado tão limpo como o que este médio ucraniano marcou no Estádio das Antas em 1997-98, num jogo que poderia dar novo rumo a esse campeonato. O F.C.Porto venceu por 2-0, golos de Artur, depois de se ver dominado na maior parte do tempo, fruto, sobretudo, de uma grande exibição de Poborsky, que se estreava de águia ao peito. Uma arbitragem ultra-tendenciosa de António Costa não permitiu a vitória encarnada.
Outro golo limpo anulado igualmente célebre foi na Supertaça de 1994-95, também nas Antas (onde, assim, se tornava naturalmente difícil marcar), ao extremo campeão de Riad, Amaral. Isto para não falar uma vez mais em Benquerença.

L de LOURENÇO PINTO –O advogado de Valentim Loureiro no início do caso Apito Dourado, o homem que avisou Pinto da Costa das buscas a sua casa e lhe permitiu a fuga, foi, por surreal que pareça, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF no início dos anos noventa, por indicação (claro!) da Associação de Futebol do Porto, presidida por o recentemente falecido Adriano Pinto, e que, sendo maioritária, pôde sempre optar por manter na sua “posse” aquele “precioso” instrumento, em detrimento até mesmo da própria presidência da FPF (que deixava para Lisboa, mas que praticamente só tratava da selecção nacional). Os seus tempos foram dos piores da história da arbitragem portuguesa e valeram vários títulos ao F.C.Porto, que tão bem protegido nem precisava de jogar muito para vencer. Com equipas onde pontificavam Vlk, Bandeirinha, Tozé, Paulinho César, Kiki, Raudnei, Barriga ou António Carlos, conseguiu vencer campeonatos ao Benfica de Paulo Sousa, Rui Costa, João Pinto, Vítor Paneira, Futre, Isaías, Mozer etc. Lourenço Pinto teve pois o efeito de um verdadeiro Maradona no campeonato português. Laureano Gonçalves e Fernando Marques seguir-lhe-iam o exemplo. Sobre Pinto de Sousa não é necessário acrescentar muito mais aquilo que tem sido veiculado no âmbito do Apito Dourado.
O caso Francisco Silva – que se terá autonomizado do sistema, depois de ser um dos seus principais interpretes – é algo que merecia ser melhor estudado e investigado, e no qual talvez se encontrassem algumas das origens de todo este tenebroso caminho. O juiz algarvio terá sido, nas suas próprias palavras, “tramado” por Lourenço Pinto - certamente por saber demais -, vendo-se assim irradiado da arbitragem. Recorde-se que foi apanhado com um cheque na mão num balneário de Penafiel.

M de MAIA – Quando vejo toda a polémica em torno do Estoril-Benfica de 2005, disputado no Algarve, e me lembro da quantidade de jogos que o F.C.Porto disputou fora de casa na…Maia, até me dá vontade de rir. Com o pretexto das transmissões televisivas – negociadas pela Olivedesportos – o Estádio Municipal da Maia, um bocadinho mais perto das Antas que o Algarve da Luz, serviu para diversas equipas “receberem” o F.C.Porto. Os resultados eram óbvios, e suponho que os portistas nunca tenham perdido um ponto que fosse nessas “deslocações”. Com Damásio na presidência do Benfica, estes eram aspectos que passavam totalmente em claro. Pinto da Costa e o F.C.Porto agradeciam. Foram os anos do “penta”.

N de NORTE – O povo do norte tem sangue na guelra. Para o melhor o para o pior. Nas Antas, por exemplo, não eram só os jogadores e os árbitros que tinham de enfrentar a pressão de figuras como o Guarda Abel (que exibia armas em pleno túnel de acesso aos balneários), ou os simpáticos “Super Dragões”. Também os jornalistas sofreram na pele sempre que revelaram a coragem de afrontar o super-poder tentacular e mafioso que por ali reinava. Lembro-me de um célebre F.C.Porto-Nacional, em que foram os próprios repórteres televisivos a serem objecto da fúria dos adeptos, sem que ninguém lhes tivesse valido, qual território sem lei, qual fanatismo elevado aos máximos limites .
Fala-se também aqui da agressão a Carlos Pinhão, das ameaças de morte a João Santos e Gaspar Ramos, e podia-se falar das agressões a Marinho Neves, a Ricardo Bexiga, a Rui Santos e a muitos outros anónimos que, como inclusivamente eu próprio, já foram objecto de ameaças várias.
Noutras modalidades, esta pressão intimidatória tem sido e continua a ser uma das armas dos dragões que, ao contrário do que se passa em Lisboa, parecem contar no seu território com forças policiais domesticadas (para além do MP, da PJ, também a PSP lá parece funcionar de forma diferente). No Hóquei em Patins já caíram petardos na cabeça de jogadores do Benfica, sem que tivesse acontecido nada. No Basquetebol ainda no ano passado houve distúrbios que passaram impunes.
O ódio a Lisboa foi sempre uma matriz de Pinto da Costa e do seu F.C.Porto, mistificando o facto de haver muitos benfiquistas no norte, e o Benfica não ser, longe disso, representativo exclusivo da capital portuguesa, onde existem dois clubes grandes. Na verdade, esse ódio – de consequências por apurar na coesão do nosso pequeno país – não foi mais que um instrumento de aglutinação de tropas e manutenção e endeusamento de um poder com laivos fascizantes quanto ao seu fanatismo. Isto virou-se sempre contra a selecção nacional, a qual foi amplamente penalizada pelo desprezo e/ou instrumentalização de que foi alvo. Até chegar Scolari.

O de OLIVEIRAS – Juntamente com o irmão António, Joaquim Oliveira foi elemento determinante na consolidação do poder portista. Ainda hoje o clube da Luz tem as suas transmissões televisivas extremamente sub-avaliadas, face à popularidade e audiências de que desfruta. Faz-me alguma confusão Joaquim Oliveira ser accionista de referência da SAD benfiquista, e ninguém se preocupar muito com isso.
Já o irmão António (o do caso Paula, dos carimbos falsificados no caso N’Dinga, e das polémicas do Coreia-Japão), ex jogador e treinador do clube portista, protagonizou em 1992 um episódio curioso e revelador. Treinava o Gil Vicente e na primeira volta, nas Antas, fez entrar um tal de Remko Boere a um minuto do fim com o resultado em branco. Esse jogador, que quase nunca havia jogado na equipa, nesse minuto apenas fez um penálti caricato e recebeu ordem de expulsão. O F.C.Porto venceu 1-0. Na segunda volta, em Barcelos, com o F.C.Porto já campeão, o Gil venceu por 2-1 e salvou-se da descida à segunda divisão. Tudo em família portanto…

P de PROSTITUTAS – Já muito antes de rebentar o Apito Dourado se ouvia falar de orgias de prostitutas com árbitros. Até na segunda divisão isso acontecia, e quem conheça pessoalmente alguém ligado à arbitragem facilmente perceberá do que estou a falar. Marinho Neves também já havia falado dessa realidade, muitos anos antes de António Araújo entrar no mundo do futebol, e de se ouvir falar em Apito Dourado.
O envolvimento com prostitutas é uma forma de pressão extremamente eficaz. Se por um lado premeia e vicia, por outro permite sempre chantagear, mantendo nas mãos, quais marionetas, quem por uma vez cai nessa rede, nomeadamente através de câmaras de filmar ocultas. Estando muitas das casas de alterne da zona do grande Porto ligadas a Reinaldo Teles, é fácil perceber a potencialidade deste esquema.

Q de QUINHENTINHOS – Por falar nele, Reinaldo Teles tem passado estranhamente pelo meio dos pingos da chuva do processo Apito Dourado. Mas foi ele que apareceu ligado ao célebre caso dos “quinhentinhos” em finais dos anos noventa, numa conversa ouvida no âmbito do caso Guímaro, e que nunca foi devidamente esclarecida. Outro dos casos que se perderam na impunidade com que toda esta temática se debateu ao longo dos anos. Sobre ele, há também quem diga que parte do dinheiro da venda de Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira foi para pagar dívidas pessoais no casino de Espinho. Mas isso são contas de outro rosário e pouco interessam ao caso.

R de RAÇA – A equipa do F.C.Porto sempre foi admirada pela sua raça, mas algumas foram as vozes que, à boca pequena, se referiram à natureza dessa “raça”. Luciano d’Onofrio, o bruxo “brasileirinho” e sobretudo o Dr.Domingos Gomes, talvez saibam mais do que a generalidade dos adeptos acerca da capacidade competitiva com que os jogadores do F.C.Porto sempre se apresentaram em campo, mesmo quando muitos deles não apresentavam os mesmos índices, nem pela selecção, nem quando saíam para outros clubes. O Dr. Domingos Gomes era, e é, um dos grandes especialistas europeus em (anti) dopagem, e os jogadores portistas tinham, nos anos noventa, fama de levar frascos dentro dos bolsos do roupão, já cheios, para o controlo anti-doping.

S de SPORTING – Sempre me pareceu incompreensível o posicionamento do Sporting em toda esta história. O clube de Alvalade sempre se queixou, e muito,das arbitragensm, nunca percebendo, ou não querendo perceber, onde estava realmente a origem do problema. Apenas Dias da Cunha pareceu a dado passo ter entendido tudo, mas acabou escorraçado da presidência do clube, muito fruto de um pacto que estabelecera com o Benfica a este propósito, e que foi muito mal aceite em Alvalade pelos ortodoxos da rivalidade lisboeta.
O Sporting, seus adeptos, e muitos dos seus dirigentes, na cegueira de uma fratricida rivalidade com o Benfica, sempre olharam de lado tudo o que se pudesse parecer com corrupção, mas não envolvesse o clube da Luz. Se o Apito Dourado tem atingido o Benfica, outro galo certamente cantaria, pois ferir o Benfica era tudo o que muitos sportinguistas mais quereriam, mesmo não tendo o clube da Luz vencido mais que um campeonato nos últimos catorze anos. Sendo com o Porto, pouco lhes pareceu interessar. Aliás, suspeito que cada vez mais as vitórias portistas vão sendo compartilhadas pelos leões – só pelo prazer de ver o odiado Benfica perder -, bastando olhar ao que se passou e Lisboa nas comemorações deste tri.
Compreende-se de algum modo a questão emocional, mas esta postura não encerra qualquer tipo de racionalidade, acabando por ser responsável, por omissão, por muito do que tem sido o futebol português. Exemplo disto foi a época 2004-05, em que com Pinto da Costa no banco dos réus, o Sporting e as suas vozes, ao invés de aproveitarem a ocasião para, juntamente com o Benfica, varrerem de vez toda a porcaria do futebol português, viraram agulhas para um rol de acusações ao Benfica, a Vieira e a Veiga, que acabou por beneficiar objectivamente o F.C.Porto, num momento em que este estava verdadeiramente de gatas, e em risco de tão depressa se não levantar. Resultado: o Benfica foi igualmente campeão, e o F.C.Porto reergueu-se, conquistando este tri, não sobrando nada para Alvalade.
Os sportinguistas deveriam reflectir sobre isto: Em 1982 o Sporting era claramente o segundo maior clube português, agora é claramente o terceiro…

T de TÍTULOS – Se o título de 2003-04, com Mourinho, foi de justiça indiscutível, mau grado as investigações terem incidido sobre essa época, outros houve em que as coisas não foram assim tão cristalinas. 85-86, 89-90, 91-92 e 92-93 foram temporadas em que a verdade desportiva foi completamente adulterada, e em que o campeão deveria ter sido, tem que se dizer, o Benfica. No final dos anos 90, já com o poder sedimentado, e fruto da desorganização interna do Benfica, a facilidade com que o F.C.Porto chegou ao penta não permite afirmar que, sem sistema, não fosse igualmente campeão. Mas a embalagem já era grande. Neste século as coisas melhoraram ligeiramente, mas ainda assim, as épocas de 2001-02 e 2002-03, talvez por haver um maior temor do Benfica pós-Vale e Azevedo, foram épocas de mentira. Lembram-se do Benfica-Sporting 2-2 apitado por Duarte Gomes (o afilhado de Guilherme Aguiar, então director executivo da Liga), ou do Boavista-Benfica 1-0 da semana seguinte apitado por Pedro Proença, em que Simão foi abalroado dentro da área sem que nada acontecesse ?.
A estratégia foi nesta fase sempre a mesma: beneficiar o F.C.Porto e prejudicar o Benfica nas primeiras dez jornadas (em que com menos dramatismo as coisas passavam melhor…), ganhar vantagem, e assim desmobilizar adversários e galvanizar acólitos. Quase sempre deu bons resultados.

U de ÚLTIMOS TEMPOS – A partir de 2004, fruto das vicissitudes do Apito Dourado, a situação melhorou consideravelmente. A incompetência dos árbitros naturalmente não desapareceu por magia, mas passou a haver a sensação de errarem para todos os lados de forma menos discriminada. Contudo, na época de 2004-05, a pressão anti-benfiquista e a respectiva tentativa de condicionamento foi tanta, que por pouco não tinha retirado o título aos encarnados na época de Benquerença, da roubalheira de Penafiel (Pedro Proença não quis ver quatro grandes penalidades !!), do penalti por marcar em Coimbra sobre Sokota, do golo limpo anulado a Nuno Gomes frente ao Marítimo com o resultado em 3-3, do agarrão pelas costas a Nuno Gomes com o Belenenses, do golo sofrido directamente de livre indirecto contra o Nacional, do penálti fantasma marcado por Jorge Sousa em Guimarães num salto de Romeu com Luisão, do penálti sobre Geovanni em Setúbal não assinalado com o resultado ainda em branco, e por outro lado, nos jogos dos dragões, de uma expulsão surrealista de Juninho Petrolina num jogo contra o Belenenses ainda na primeira parte, do golo de Fabiano nos Barreiros dois metros fora-de-jogo, do golo também off-side de McCarthy ao Penafiel em casa, do golo validado após falta de Jorge Costa sobre Ricardo no Porto-Sporting, das agressões impunes de McCarthy, Fabiano, Costinha e Jorge Costa, do penálti escamoteado a Lourenço no Restelo, do domínio com a mão de McCarthy no golo ao Rio Ave, etc etc.
Em 2006-07 o campeão podia ter sido o Sporting, não fosse o golo com a mão do Paços de Ferreira em Alvalade, e em 2007-08, caso os seis pontos tivessem sido retirados em tempo útil aos portistas, o campeonato poderia ter sido outro. Isto no pressuposto que o clube de Pinto da Costa não tinha descido à segunda divisão na época 2005-06, como teria acontecido se estivéssemos em Itália, França, Espanha, Alemanha ou Inglaterra, e a nossa justiça não tivesse um “quê” de tanzaniana.
Destaque nestas últimas épocas para as arbitragens do portuense Paulo Costa. Uma na Amadora há dois anos, e uma na Luz recentemente com o Leixões, em que ficou demonstrado existirem ainda resquícios de um tempo que se julgava já passado. Lucílio Baptista, particularmente nos dois últimos domingos, também mostrou algum zelo em deixar essa ideia bem vincada.

V de VERY-LIGHT – O termo entrou na história na sequência da final da Taça de 1995-96, em que um adepto irresponsável atirou um para a bancada oposta, matando um adepto do Sporting. Sem a mesma gravidade humana, mas com influência desportiva acrescida, houve um caso nas Antas (pois claro), pouco tempo depois, que raia o surrealismo. No momento da marcação de um penálti contra o Farense, com o resultado a zero, cai um very-light perto da cabeça do guarda-redes nigeriano Peter Rufai. Com ele total e naturalmente desconcentrado, Domingos atirou para o fundo da baliza e o árbitro validou inacreditavelmente o golo, perante os protestos dos atónitos jogadores algarvios. Este caso simboliza o motivo porque técnicos estrangeiros respeitados como Camacho, Koeman ou Trapattoni, sempre disseram ver o F.C.Porto ser muito “respeitado” nos estádios portugueses.
Nas Antas aliás passava-se de tudo. Em 1991 no jogo decisivo para o título, os jogadores do Benfica foram obrigados a equipar-se nos corredores, pois o balneário tinha sido empestado de um estranho cheiro aparentemente tóxico. Nesse dia o presidente João Santos e Gaspar Ramos foram ameaçados de morte pelo guarda-Abel, e a comitiva benfiquista foi apedrejada logo desde a saída do hotel, o que aliás era comum sempre que se deslocava ao Porto – ao contrário, diga-se, do que acontece em Lisboa, onde os jogadores do F.C.Porto se passeiam a pé livremente nas imediações do hotel Altis onde costumam pernoitar.

X de XISTRA – É um dos artistas da nova vaga. Nas últimas épocas realizou na Luz uma das arbitragens mais escandalosas de que me lembro ultimamente, em jogo do Benfica frente ao Estrela da Amadora no qual expulsou de forma alarve Miccoli, impedindo-o de jogar no Estádio do Dragão na jornada seguinte. Na época anterior viu e assinalou de forma anedótica um penálti a favor do F.C.Porto, quando um jogador do Marítimo cortou com a cabeça uma bola que ia para a baliza. O lance seria corrigido pelo árbitro auxiliar, mas mostrou bem porque é que Xistra começa por X.
Y de YURAN - Serguei Yuran, assim como Kulkov, Pedro Henriques, Panduru, Fernando Mendes, Silvino, Eurico, Maniche, Jankauskas, Dito, Rui Águas, Cândido Costa, Ovchinikov, Deco, Caju, Fonseca, Eduardo Luís, Romeu, Hugo Leal, Sokota, Paulo Santos, Sousa, Kenedy e alguns outros, foram jogadores que, nos últimos trinta e cinco anos, depois de alinharem no Benfica, se tranferiram para o F.C.Porto, nalguns dos casos em circunstâncias mais ou menos estranhas. Se a Deco ou Rui Águas o clube nortenho naturalmente pretendeu pela sua qualidade futebolística, outros há naquele lote que ninguém compreendia muito bem porque motivo eram contratados, suscitando a desconfiança mesmo entre os adeptos portistas.
Essas aquisições explicam-se à luz de uma estratégia que procurava um conhecimento privilegiado daquilo que constituia o interior do balneário rival. Contratando ano após ano um elemento do Benfica (mesmo que uma "estrela" como Caju ou Panduru), a estrutura portista mantinha-se por dentro de tudo o que se ia passando no Benfica, podendo assim explorar melhor, dentro e fora dos relvados, as eventuais fragilidades detectadas.
Com José Veiga, e as contratações de João Manuel Pinto, Argel, Drulovic, Zahovic, Marco Ferreira, Rodolfo Moura etc, tentou-se fazer algo semelhante no Benfica. Mas os resultados não foram aparentemente tão conseguidos.

Z de ZÉ PRATAS – Zé Pratas é da minha terra e é bom rapaz. Não creio que tenha estado alguma vez directa e decididamente ligado a corrupção, e talvez por isso nunca chegou a internacional. Chamo-o para aqui por me recordar de uma Supertaça disputada em Coimbra, na qual após assinalar um penálti, Fernando Couto correu metade do campo atrás dele, e ele sempre a recuar, a recuar, sem que sentisse força para tomar a atitude que se exigia: expulsar o irmão da actual directora executiva da Liga de Clubes.
Essa imagem, define bem o ambiente que se vivia no futebol português da altura. Como uma imagem vale mais que mil palavras (foto no início do post), essa espelhou bem o que era o medo e o poder. O medo terá entretanto desaparecido, mas o poder ainda prevalece. Até quando ?

ANEXO:
Golpe de Estádio” de MARINHO NEVES, devidamente "traduzido":

VEDETA DA JORNADA

YANNICK DJALÓ: As verdadeiras vedetas desta jornada foram Lucílio Baptista e Bruno Paixão. Mas como já tudo foi dito sobre eles, aproveito aqui para destacar este jovem sportinguista que, depois de meses lesionado, apareceu irreconhecível - quer no visual, quer no futebol. Quatro golos marcados em três jogos, e a promessa de um futuro risonho.

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

Já quase tudo ficou dito no post anterior.
Recapitulando: em Alvalade um golo inacreditavelmente anulado ao Braga não chega para corrigir a pontuação, embora na prática o jogo pudesse ter sido bem diferente caso Bruno Paixão estivesse de olhos abertos quando Matheus cabeceou para a baliza. No Bessa três penáltis por assinalar, dois para o Benfica e um (mais duvidoso) para o Boavista, uma expulsão correcta, e um penálti bem assinalado. No balanço, três pontos para os encarnados.
Do F.C.Porto-Estrela apenas vi os golos.
Sem erros de arbitragem, o segundo lugar podia também estar já definido:
F.C.PORTO 61
Benfica 52
Sporting 45

FRAUDE !!!


Numa jornada determinante para a questão do segundo lugar, eis que a arbitragem voltou a dar sinais de pretender tomar o protagonismo nesta Liga.
Não sei se se trata de premiar o silêncio no decurso de todas as incidências do caso Apito Dourado, ou se é efeito do constante queixume de Paulo Bento e dos adeptos, mas a verdade é que desde há algumas jornadas o Sporting parece estar a ser levado em ombros para a Champions League, algo que o seu presidente já considerou ser o objectivo principal da equipa. De mansinho, queixa aqui, choro ali, clube representado na direcção da liga, clube da simpatia do presidente da liga e do presidente do respectivo conselho de arbitragem, a protecção de que neste momento beneficia o Sporting chega a ser escandalosa.
É impressionante o conjunto de situações em que, sobretudo ao longo desta segunda volta, os leões têm saído beneficiados. Desde o golo fora-de-jogo frente ao F.C.Porto, às grandes penalidades fantasma contra Nacional e E.Amadora (deste resultando a expulsão do guarda-redes Nelson), passando pelo penálti cometido por Grimi no Bonfim e não assinalado, culminando agora neste golo invalidado de forma grotesca por Bruno Paixão ao Sp.Braga, numa altura em que o jogo poderia ter tomado outro rumo, o Sporting bem pode chorar... mas de alegria e alívio, pois há anos que não dispunha de tamanha protecção.
Pior que esta sequência de casos, só mesmo aquilo que tem acontecido nos jogos do Benfica. Apenas na segunda volta, em dez jornadas, conto já sete (!!!) grandes penalidades por assinalar a favor dos encarnados (treze em toda a Liga !!!), e nem uma só assinalada, nem bem, nem mal, no mesmo período ! Junte-se ainda um golo limpo anulado a Nuno Gomes no jogo frente ao Leixões, o penálti ridículo favorecendo o Paços de Ferreira, a um campo inclinado por Vasco Santos no jogo com o União de Leiria, e temos o motivo pelo qual os encarnados não asseguraram ainda a presença na Liga dos Campeões. Aceito que um ou outro daqueles sete penáltis pudessem ser discutíveis, mas na dúvida, nota-se inegavelmente o intuito claro de não marcar nada a favorecer a equipa benfiquista, e de apitar a tudo o que possa servir para a derrotar.
Esta pode ter sido uma jornada decisiva, conforme disse no início. A perspectiva de entrar no estádio do Dragão com uma vantagem de quatro pontos sobre o Sporting seria de extrema importância para o Benfica, pelo que podia tornar-se muito complicado fazer um resultado pior que os leões nesta ronda. Pois foi isso mesmo que aconteceu. Os erros crassos e estranhos dos dois árbitros setubalenses subverteram tudo, e temos neste momento, objectivamente, o Sporting como principal favorito na luta para o segundo lugar.
No meio de tudo isto quase não resta espaço nem vontade de falar de futebol. De dizer por exemplo que os encarnados realizaram a melhor exibição da temporada e mereciam claramente os três pontos. De dizer que o losango é, sem sombra de dúvida, o sistema a que este plantel melhor responde, e que a jogar assim ainda resta esperança de conseguir, caso deixem, alguma coisa nesta temporada. Tudo isto foi destroçado por Lucílio Baptista, justamente um dos árbitros tradicionalmente mais conotados com os leões, o que me fez temer desde logo a sua nomeação para uma jornada como esta.
Chalana tem razão. Luís Filipe Vieira também. Até Rui Costa perdeu naturalmente a cabeça. Havia até motivos para serem bem mais duros, mas entende-se o receio dos castigos. É preciso dizer bem alto que o rei vai nu. Ao contrário do que pensava, a postura de “calimero” parece estar a dar resultados, e o campeonato ameaça seriamente ficar subvertido.
Mais valia entregar logo cinco milhões de euros a Soares Franco, e jogar-se de forma limpa até ao fim. Pelo menos salvaguardava-se o espectáculo. Assim é que não !
PS: Infelizmente não disponho de imagens ou meios técnicos para compilar estes lances e apresentá-los todos. Deixo o desafio aos especialistas (por exemplo o Bakero), para que exponham tudo isto, de modo a manter bem acesa a luz da memória, e desmascarar o embuste em que se está a tornar este campeonato.

F.C.PORTO CAMPEÃO

Tal como se esperava, o F.C.Porto festejou o seu 23º título nacional neste sábado.
Independentemente do que venha a suceder no âmbito do processo Apito Dourado, deve dizer-se que os dragões merecem este triunfo, pois foram de facto a melhor e a mais regular equipa ao longo da prova. Nem sempre foram brilhantes, é certo, e beneficiaram da quebra simultânea de Benfica e Sporting que, talvez como em nenhuma outra época na história, coincidiram numa constante mediocridade, que os foi afastando cada vez mais da luta pelo título. Mas é claro que Jesualdo e os seus jogadores não têm culpa disso, e fazendo o seu trabalho com rigor (independentemente de uma ajuda aqui ou ali, não o esqueçamos), acabaram por conquistar merecidamente o campeonato, que cedo se transformou num verdadeiro passeio triunfal.
Bosingwa, Bruno Alves, Paulo Assunção, Lucho Gonzalez, Quaresma e Lisandro Lopez foram os principais destaques da equipa azul e branca. Recordemos que três deles estiveram perto de sair na pré-temporada, mas sagazmente a direcção portista soube segurá-los e manter a equipa forte e coesa, garantindo o título e a valorização do plantel e de cada atleta. Eis um modelo de gestão desportiva a que sou obrigado a tirar o chapéu.
Balanço de títulos:
BENFICA 31
F.C.Porto 23
Sporting 18
Belenenses 1
Boavista 1

CAMINHO ABERTO

Com o empate de ontem no Ibrox Park, pode dizer-se que o Sporting passou a assumir o favoritismo da eliminatória. Um empate fora nunca é mau, nuns quartos-de-final de uma competição europeia e num ambiente difícil como aquele, mais saboroso se torna.
A equipa de Paulo Bento não foi brilhante a atacar, mas foi sempre muito sólida a defender, manietando durante grande parte do tempo o jogo dos escoceses. Nos momentos finais o Sporting poderia mesmo ter marcado ganhando assim uma vantagem ainda mais expressiva na eliminatóra, o que, diga-se, também não seria justo para com o futebol corajoso e lutador dos britânicos.
Toda a defesa leonina esteve quase perfeita, e no meio-campo Moutinho e Miguel Veloso também brilharam, sobretudo nos momentos em que era necessário defender. O Sporting conseguiu usar nesta partida uma das armas que mais eficazmente utilizou na época passada, quando ficou à beira de ser campeão: as transições defensivas rápidas e consequentes, cortando espaços e linhas de passe aos adversários, não os deixando pensar nem executar.
Pese embora este bom resultado, e o favoritismo que o Sporting tem do seu lado a partir de agora, o apuramento está longe de ser um facto consumado. O Rangers (ao contrário do rival Celtic) tem feito excelentes resultados jogando fora de casa. É uma equipa que defende bem e é rápida no contra-ataque. O Sporting, não podendo deixar de tomar a iniciativa de jogo - só a vitória lhe interessa -, terá de ser muito cauteloso e paciente, pois um golo sofrido pode ser-lhe fatal.
Nos outros jogos da ronda houve surpresa em Leverkusen, com a copiosa derrota do Bayer diante do emergente e pujante Zenit de Dirk Advocaat, e também em Munique, onde o Getafe (carrasco do Benfica) impôs um empate a um ao grande favorito da prova. Esta equipa espanhola, orientada por Brian Laudrup, com orçamento superior a Benfica e Sporting, está na final da Taça do Rei pelo segundo ano consecutivo, disputa a primeira metade da tabela na liga espanhola, e parece agora bem encaminhada para as meias-finais da Taça Uefa. Quem disse que era um adversário fácil...

FORÇA LEÕES !!

POESIA NO EMIRATES

O segundo dia dos quartos-de-final da Liga dos Campeões trouxe finalmente um grande espectáculo. Arsenal e Liverpool proporcionaram um dos melhores jogos de futebol que vi nesta época, ao ponto de me entristecer com o apito final do árbitro – estaria com gosto a noite toda a ver jogar assim…
Num estádio lindo e com um ambiente que se percebia fabuloso, o Liverpool foi igual a si próprio. Uma segurança defensiva notável e eficácia quanto baste na frente, bem ao estilo de Rafa Benitez que, recorde-se, disputou duas finais nos últimos três anos de Champions.
Quanto ao Arsenal haverá poucas palavras para definir a beleza do seu futebol. Os Gunners podem não vir a ser campeões europeus, nem mesmo nacionais – revelam por vezes algum romantismo nas suas transições -, mas são a equipa que mais me encheu o olho em toda esta temporada. O futebol do conjunto londrino é caracterizado por um jogo extremamente fluido, jogado rente à relva e de pé para pé, a uma velocidade impressionante, em que se destaca um meio-campo espantoso de técnica, rapidez de execução e coordenação colectiva comandado por um Fabregas de grande nível (atenção à Espanha no Euro), bem coadjuvado por Hleb e Flamini. Na frente Adebayor, apesar do golo marcado, parece em quebra de forma, o que se faz sentir na eficácia ofensiva da equipa. Mas, com mais ou menos golos, a qualidade estética do futebol colectivo do Arsenal é impressionante, e será uma pena caso venha a ser eliminado.
Até ao intervalo o jogo foi equilibrado, com ligeira superioridade arsenalista. O empate a um dava contudo ao Liverpool aquilo que queria: uma vantagem para gerir. Gerrard, com um lance individual de génio assistiu o toque final de Kuyt, respondendo assim ao golo de Adebayor de cabeça dois minutos antes.
A segunda parte foi um festival do Arsenal, sem que todavia as redes de Reina chegassem a ser violadas. Oportunidades em série, grandes defesas, um domínio avassalador, com esporádicos (embora perigosos) contra-ataques do Liverpool. Houve até um lance caricato em que o dinamarquês Bendtner tirou, ele mesmo, a bola sobre o risco de golo, evitando o 2-1 para a sua equipa. O árbitro também não ajudou a equipa de Arséne Wenger, perdoando uma grande penalidade clara por derrube de Hleb na área.
Para a segunda mão espera-se outro jogo de deuses na catedral de Anfield Road. Com este resultado, e pela sua maior experiência, o Liverpool é favorito. Mas sem ter nada contra a equipa de Benitez (bem pelo contrário), pelo estilo de jogo de uma e outra equipa, gostaria mais de ver este Arsenal chegar longe. Arsenal-Manchester United seria a minha final de sonho.

No outro jogo da ronda – que os estapafúrdios critérios da Sport Tv me impediram de ver na integra -, o Fenerbahce superiorizou-se de forma surpreendente ao Chelsea, com o golo da vitória a ser marcado pelo ex-sportinguista Deivid num pontapé fantástico de bem longe da área. O golo marcado fora (curiosamente um auto-golo do mesmo Deivid), deixa todavia a eliminatória em aberto para Stanford Bridge. Mas o Chelsea terá de se acautelar, pois esta equipa turca já revelou ser capaz de causar danos.

FAVORITOS GANHAM VANTAGEM

Manchester United e Barcelona, triunfando fora de casa em Roma e Gelsenkirchen respectivamente, deram um passo de gigante com vista à passagem às meias-finais da Liga dos Campeões. Destaque para Cristiano Ronaldo - que marcou mais um golo, isolando-se na liderança na tabela dos goleadores da Champions League -, e para o jovem Bojan - que anotou o tento solitário da vitória catalã, assumindo-se como um valor emergente do futebol internacional da actualidade.
Os espectáculos proporcionados deixaram um pouco a desejar, mas entende-se que nesta fase da prova, e com uma segunda mão por disputar, a tendência para o risco seja quase inexistente.
Da derrota da Roma (depois da eliminação do Milan aos pés do Arsenal), fica também a curiosidade de se verificar uma clara superioridade do futebol inglês diante do italiano, quando sabemos que face a um e a outro, as equipas portuguesas têm normalmente sortes bem diferentes. Um interessante dado para estudo.
Hoje jogam Arsenal-Liverpool e Fenerbahce-Chelsea. Lamentavelmente a Sport Tv não repetirá em diferido nenhum dos encontros, obrigando o espectador a optar por apenas um deles.

BRINCADEIRA

Como se aperceberam, VEDETA DA BOLA decidiu ontem brincar com o dia da mentira, informando que passaria a suporte de papel.
A boa disposição também faz falta, e o sentido de humor é algo a que o mundo do futebol não deve permanecer alheio. Mesmo quando nele há mais motivos para chorar do que para rir...

GOOD FELLAS !

Quando vi as primeiras páginas dos diários desportivos de hoje, pensei estar perante uma brincadeira do dia da mentira. O facto de se repetir a notícia em todos eles fez-me porém acreditar tratar-se de uma verdade, mais uma das tristes verdades do futebol português.
Aproveitando cirurgicamente um momento em que o F.C.Porto leva considerável vantagem na tabela classificativa, a Comissão Disciplinar da Liga de Clubes tomou finalmente uma decisão sobre o processo Apito Dourado, sendo que a mesma poderá reflectir-se na perda de seis pontos pelos dragões, ou seja, nesta altura, objectivamente e alarvemente, em coisa nenhuma.
Devo confessar que não foi nada que me não passasse pela cabeça desde há algum tempo. Talvez a Pinto da Costa e a Jesualdo Ferreira também tenha passado. Talvez tenham até participado directa ou indirectamente nesta decisão. Se não o fizeram, pelo menos parece.
É de facto inacreditável que a C.D. da Liga, reconhecendo naturalmente a evidência factual das escutas, escolha um momento como este para aplicar uma pena que, à boa maneira de Lampedusa, apenas parece fazer alguma coisa para que tudo fique na mesma. Nem dois meses antes, quando a vantagem portista era (no início de Fevereiro) de apenas oito pontos, nem dois meses depois, quando, terminado o campeonato a penalização transitaria para 2008-09, então sim já com algum efeito, por muito ténue e ligeiro que fosse.
Se nos querem fazer a todos de parvos, não o vão conseguir. É preciso que alguém denuncie esta escandalosa e tenebrosa maquinação. Nem descida de divisão, nem retirada de títulos, nem início de campeonato com pontuações negativas. Apenas seis inócuos pontinhos num campeonato já arrumado.
Afinal corromper árbitros, falsear resultados, transformar o futebol numa siciliana espiral de corrupção e tráfico de influências, vale o mesmo (ou menos) que utilizar por lapso um jogador indevidamente inscrito, como no caso do Belenenses.
É o retrato do nosso futebol, e infelizmente o retrato do nosso país. É por estas e por outras que o nosso país permanece longe do grau de desenvolvimento daqueles com quem nos gostamos de comparar.

VEDETA EM PAPEL

VEDETA DA BOLA vai passar a ser o quarto diário desportivo do país.
Há muito que estava pensada esta possibilidade, e a crescente audiência nos últimos meses foi a gota de água que este projecto necessitava para arrancar.
Assim, a partir de amanhã, terá nas bancas um novo diário desportivo. Não perca.

SERVILISMO, OPORTUNISMO E OUTRAS CANALHICES

Mais do que na hora das derrotas, é nos momentos de vitória que se conhece e evidencia o carácter das pessoas. Saber ganhar é difícil e só está ao alcance de poucos, sendo pelo contrário muitos aqueles que, talvez por vencer não fazer parte do seu código genético mais profundo, facilmente se deslumbram com os efémeros holofotes da glória. Parece ser o caso de Jesualdo Ferreira.
O técnico portista chegou aos 60 anos sem qualquer título no palmarés, tornando-se campeão apenas num clube onde, por múltiplas razões que não vêm agora ao caso, quase todos o foram. No Benfica - onde tomou o cargo após uma facada nas costas de Toni, que fora desde sempre o seu padrinho futebolístico - foi um dos poucos em toda a história a deixar o clube fora das competições europeias, protagonizando também a humilhante eliminação caseira diante do Gondomar para a Taça de Portugal – algo que de resto repetiu no Dragão com o Atlético e já esta época em Fátima para a Taça da Liga. Recorde-se a diferença competitiva que o Benfica apresentou com Camacho (ele mesmo) na altura em que Jesualdo saiu da Luz, ganhando jogos a fio, chegando ao segundo lugar e à vitória na Taça de Portugal de 2002-03, num plantel que contava, entre outros, com Miguel, Ricardo Rocha, Tiago, Petit, Simão, Zahovic e Nuno Gomes, e ao qual o transmontano, por manifesta incompetência, não havia sido capaz de dar cor.
Creio que neste momento, fosse o técnico portista Jesualdo, Paulo Bento, Camacho, Adriaanse, Peseiro, Koeman, Fernado Santos, Cajuda ou até Chalana, o F.C.Porto não deixaria de se sagrar campeão, sendo o treinador, manifestamente, um elemento pouco mais que neutro no seio da oleada máquina portista. A fraca qualidade de futebol apresentada, as frustrantes eliminações europeias, as dificuldades enfrentadas no ano passado, ponderadas face a um orçamento maior que todos os restantes em Portugal, fazem-me pensar convictamente que Jesualdo pouco acrescenta ao F.C.Porto, onde chegou, lembre-se, após virar as costas ao Boavista com quem se tinha acabado de comprometer. Ou seja, tenho para mim que o Porto será campeão apesar de Jesualdo Ferreira e nunca devido a ele.
Talvez por tudo isto, o técnico portista seja um daqueles que não sabe ganhar. Em bicos de pés, vestindo com vigor a camisola de “cristão-novo”, afastou-se de uma postura profissional para passar a falar de coisas que não percebe e de que não necessitava tomar parte. Mostra desrespeito pela sua carreira passada – fraca mas supõe-se que honesta -, cuspindo no prato onde quase sempre comeu, como muito pertinentemente Nuno Gomes o acusou no último clássico entre Benfica e Porto.
Depois de teorizar sobre o Apito Dourado, de se queixar da imprensa, foi agora a vez de ironizar sobre a qualidade do campeonato (este e anteriores), lançando uma vez mais uma farpa àquele que parece agora ser o seu alvo preferencial: o Benfica, onde trabalhou várias anos da sua carreira, e onde, mesmo como adjunto, quase nada conquistou (se não estou em erro, apenas o campeonato de 88-89).
Compreende-se que queira agradar a Pinto da Costa, que ao fim e ao cabo o resgatou a uma carreira marcada pela mediocridade para fazer dele campeão, talvez no intuito de uma vez mais provar a eficácia portista enquanto máquina independente dos caprichos e das vontades de qualquer treinador. Mas se tivesse carácter, se fosse efectivamente um ganhador – senão enquanto técnico de futebol, pelo menos enquanto homem -, Jesualdo Ferreira teria aqui a ocasião de o demonstrar. Falhou redondamente.
Para além da sua antipatia já antes conhecida, irá certamente em breve deixar o futebol com uma imagem de recalcamento, de oportunismo, de lambebotismo, e enfim de frustração, que muitos adeptos não irão esquecer.
E até me arrepio de pensar que José Mourinho não voltou para o Benfica por sua causa…