O HOMEM QUE NÃO TINHA JEITO PARA VIVER

Inegavelmente, um dos maiores vultos da literatura portuguesa contemporânea. Um homem difícil, angustiado, mas de uma densidade humana imensa. 
Julgo possuir toda a sua obra na minha biblioteca pessoal. Embora alguns livros tivessem ficado por ler, em eterna e longa lista de espera (poderá ser agora...), li os suficientes para conhecer e apreciar a sua prosa esteticamente brilhante, e de uma honestidade até aos limites mais absurdos. No fundo, todos os seus romances parecem o mesmo - um longo desabafo, mais ou menos ostensivo, sobre os seus próprios fantasmas (muitos deles adquiridos na guerra colonial, outros num contexto familiar em que se terá desviado dos padrões para os quais, na sua juventude, o empurravam).
Apesar de ele próprio desconsiderar as sua crónicas, creio tratar-se, porventura, do maior cronista português de sempre. Aconselho vivamente.
Na dicotomia Lobo Antunes-Saramago, sempre fui, confesso, mais saramaguiano. Nas artes e nas letras não é, porém, necessário ser exclusivo. Entre os escritores portugueses que, digamos, ainda apanhei vivos, se um deles era o número um, o outro seria o número dois. E ambos estão na mesma galeria intemporal de Pessoa, Camilo, Eça ou Camões. No meu paladar pessoal, acima de qualquer um desses.
Uma vez autografou-me um livro, na Feira de Lisboa. Terá demorado mais de dois minutos a fazê-lo, sem sequer olhar para mim, sem dizer uma palavra. Não tomei isso como uma atitude de antipatia. Sim como uma manifestação de quem tinha tanto a correr e a decorrer na sua própria cabeça que por vezes lhe escasseava o tempo para olhar o que ficava do lado de fora. O que tinha a dizer, o que tinha a mostrar - e era muito, e era tudo - fazia-o nos livros. Não tinha, como ele próprio dizia, jeito para viver.
Trago-o para aqui porque era, também, um grande benfiquista. Dos que, em tempos, ia ao estádio, sofria e vibrava com os jogos. Há algumas menções ao Benfica nos seus livros. E até praticou hóquei em patins com as cores do clube nas camadas jovens. Um exemplo, como Camus, como Galeano, como outros, de que a mais elevada intelectualidade pode conviver com a irracionalidade da paixão futebolística. Afinal de contas, a humanidade expressa-se em diferentes dimensões, que não se contrapõem - complementam-se.
Homens como António Lobo Antunes não morrem. 

SANGUE DE CAVALO

Vejo a meia-final da Taça de Portugal, e acho difícil ao Benfica, ou a qualquer equipa portuguesa (e não só), vencer estes dois. Ambos repletos de jogadores tecnicamente banais (com algumas excepções, naturalmente), mas todos eles com a frescura física de um pássaro, e com a agressividade competitiva de um boi. Certas caras, filmadas em grande plano durante o jogo, se as visse na rua mudava de passeio.
Já agora, com uma arbitragem em linha: valeu tudo menos tirar olhos. Nem na Libertadores. 
O resultado? Era o que menos me interessava. Foi decidido pelo futuro Bota de Outo - que agora já não é o sueco. Se venderem este, os sportinguistas não devem preocupar-se. No próximo ano vem outro bota de ouro qualquer. Deve ser da camisola...
Vou divertir-me a ver a segunda mão. Daqui a vários meses.

PRONTOS PARA O CLÁSSICO

Num grande jogo de futebol (nem parecia a liga portuguesa), no terreno daquela que é, quanto a mim, a quinta melhor equipa do campeonato, o Benfica conseguiu passar, e manter vivo o sonho do título. 
Não se esperavam facilidades. E assim foi: uma vitória arrancada a ferros, mas justa e, sobretudo,  muito importante. 
Na antecâmara de uma jornada que tem um Braga-Sporting e um Benfica-Porto, era absolutamente proíbido perder pontos. A exibição encarnada não foi deslumbrante, foi necessário vestir o fato-macaco, mas isso ficou a dever-se em grande parte à tenaz oposição do Gil Vicente. A equipa de César Peixoto, bem orientada e com excelentes executantes, tornou a vida difícil ao Benfica, jogou para ganhar (não para o pontinho), e discutiu o resultado até ao último fôlego. 
Não destacaria nenhuma individualidade. Mas não queria deixar de lamentar o momento de Pavlidis, que luta, tenta, mas vai-lhe saindo tudo mal, e já não esconde alguma ansiedade. Quem sabe mostra outra cara, a sua melhor cara, no "Clássico"? Há cerca de um ano fez um hat-trick ao FC Porto. Que seja um bom prenúncio. Já agora, com Aursnes em campo.

DECISÃO 1

Decisão 1: Barcelos. A decisão 2 será na Luz com o FC Porto.
Não se decide a vitória no campeonato. Pode decidir-se, sim, a perda do campeonato. 
Qualquer esperança que ainda subsista no título, passa necessariamente por vencer estes dois jogos. E, ainda assim, ficar a quatro pontos do primeiro lugar. Enfim, manter a esperança.
Dois jogos extremamente difíceis. Primeiro no campo da equipa revelação desta Liga, e depois um "Clássico" na Luz contra um FC Porto que praticamente não sofre golos e para quem um empate não é mau de todo.
Onze para o Minho: Trubin, Dedic, Tomás, Otamendi, Dahl, Aursnes, Rios, Barreiro, Rafa, Pavlidis e Schjelderup. A fórmula Madrid.