COMEÇA CEDO...
Ainda estamos em Março, e já a lista de reforços do Benfica para 2009-10, segundo os jornais, ascende a vinte (!!) nomes, ou seja, quase um plantel completo."O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso !" BILL SHANKLY
Ainda estamos em Março, e já a lista de reforços do Benfica para 2009-10, segundo os jornais, ascende a vinte (!!) nomes, ou seja, quase um plantel completo.
Mas para além do folhetim presidencial, o que parece principalmente estar em causa é mais uma subliminar tentativa de uma certa linha de poder no Sporting (a que eu chamaria Roquettista) para diminuir o carácter democrático dos estatutos do clube. Só um cego é que não vê – e creio haver alguma cegueira entre os sportinguistas - que o que está em cima da mesa é a eliminação, a médio prazo, do pendor associativo do clube para reforço do seu carácter empresarial, o que, além de todas as reservas que a mim – caso se tratasse do meu clube – me provocaria, parece andar em contra-ciclo com a tendência política e económica dominante no mundo pós crise financeira.
Há muito que um certo Sporting – elitista, banqueiro, engravatado - sonha com um clube totalmente empresarializado, com capital maioritariamente privado (de quem ??), com administração altamente remunerada, e com uma gestão imune a Assembleias Gerais de sócios em transe ou a interferências de claques e afins. Do outro lado está o Sporting popular, dos adeptos espalhados pelo país, das claques apaixonadas, de quem gostava mais de ter um Pavilhão para Hóquei e Basquete do que um Holmes Place, de quem olha para os lados e não vê ninguém seguir por aquele caminho em Portugal (nem o ecletista e popular Benfica, nem mesmo o vitorioso Porto), e teme – a meu ver com razão – que essa privatização sirva mais para encher os bolsos de alguns accionistas do que para encher a sala de troféus do clube.
A mim pouco me interessa o futuro do Sporting. Mas, olhando a coisa desde o outro lado da Segunda Circular, talvez fosse bom ver os leões entrar por esse caminho sem retorno. Se por um lado duvido que fossem bem sucedidos, por outro tal serviria de vacina para evitar que alguma vez na Luz se pensasse em semelhante coisa.
Mas, pelo que se viu em Santarém, nem isso acontece, nem o contrário. Tudo vai continuar como até aqui, com instabilidade, acusações e indefinição. Valha-lhes o Paulo Bento e o Liedson…
Não adianta dourar a pílula. Agora só um milagre poderá permitir à selecção nacional estar presente no Mundial.
Ganhar à Suécia era a última oportunidade que tínhamos de reverter uma qualificação já de si muito complicada. O empate a zero não passa pois, na prática, de uma derrota, e coloca a equipa das quinas à beira de um dos seus maiores fracassos das últimas décadas, justamente pela mão daquele que muitos consideravam o seu providencial salvador.
Portugal, ontem, até produziu alguns momentos agradáveis de futebol. Mas se por um lado voltou a revelar a ineficácia que já lhe valeu três empates a zero consecutivos, por outro, não se poderá desenquadrar este jogo dos últimos e penosos meses da equipa, que ainda não conseguiu objectivamente nada – nem um bom resultado, nem um jogo totalmente conseguido -, desde que Luíz Felipe Scolari a deixou.
A total inoperância revelada diante das balizas faz lembrar os tempos de Pedroto, que dizia faltarem trinta metros ao futebol português. É verdade que, à excepção de Pauleta, poucos foram os que daí para cá se afirmaram como verdadeiros goleadores. Mas se um desses poucos ainda joga e Queiroz faz que não o vê, mais grave ainda é, durante uma hora de um jogo em que só a vitória interessava, a equipa portuguesa, recheada com quatro defesas-centrais, insistir no erro de jogar sem um único ponta-de-lança, mau ou bom, forte ou fraco, alto ou baixo, velho ou novo.
Mas o problema de Portugal não se resume a um sistema táctico nem a uma ou outra opção individual. Os equívocos de Queiroz têm sido muitos, e começaram desde logo ao pretender, arrogantemente, introduzir alterações de fundo à filosofia que tão bons resultados tinha dado nos anos anteriores, alegadamente com o objectivo de – agora sim – ser campeão do mundo (!!). O novo seleccionador desmantelou uma base coesa e ganhadora, para em cima dela colocar o nada. Afastou jogadores experientes e integrados na alma da selecção, para em lugar deles convocar jovens avulso sem referências nem credenciais (ontem a dada altura, quando as câmaras filmaram o banco nacional, tive dificuldades em reconhecer alguns suplentes). Multiplicou experiências que só ele pareceu entender, e que nunca conseguiu justificar. Utilizou critérios pouco ou nada coerentes (prescindindo de jogadores por não serem momentaneamente titulares nos clubes, para depois convocar jogadores sem um único jogo oficial completo nas respectivas carreiras). Abdicou do presente invocando construir um futuro – coisa que é, no futebol, como na vida, na política ou na economia, quase sempre um mau princípio. Perdeu ambos, perdendo-se também a si próprio pelo meio.
Queiroz saberá certamente muito de metodologias de treino, de aspectos científicos relacionados com a motricidade, mas não entende nada do que se passa dentro das linhas de um campo, e provavelmente também não sabe como gerir e motivar um balneário de jogadores profissionais. A sua carreira fala por si, com despedimentos sucessivos à frente do Sporting, do Real Madrid, da selecção sul-africana, e com três (com esta) qualificações falhadas à frente da nossa selecção. Em Manchester foi vivendo tranquilamente na sombra de Alex Ferguson, pouco ou nada se notando, quer a sua entrada, quer a sua saída do clube.
Pode parecer embirração, mas na verdade nada tenho contra o professor. Reconheço-lhe méritos na formação de jovens e na organização de retaguarda. Acho-o uma pessoa educada e gosto de o ouvir falar. Muito gostaria de ser ainda obrigado, pelos factos, a desmentir tudo isto, e ver Portugal na África do Sul em 2010. Infelizmente não acredito. Já pouco acreditava, e ontem tive a prova definitiva.
É uma pena que a jogadores como Cristiano Ronaldo, Deco, Pepe, Ricardo Carvalho, Bosingwa ou Simão seja negada a oportunidade de se exibirem na maior montra do futebol internacional, aquela onde se escreve a história do desporto-rei, aquela onde os homens se tornam deuses. A culpa não é deles, que correram e lutaram quanto puderam, nem é do público português que voltou a encher um estádio para apoiar a equipa. Dentro de uma semana, com o campeonato nacional de volta, ninguém mais se vai lembrar da qualificação para o Mundial. Mas ao contrário de qualquer penálti mal assinalado num qualquer relvado do país, este sim é um problema grave, que a todos deveria merecer reflexão. OUTROS JOGOS DA JORNADA: Malta-Dinamarca e Albânia-Hungria
LUCÍLIO BAPTISTA – Foi o grande protagonista da novela. Errou, como muitas vezes ao longo da carreira, mas desta vez penalizando o Sporting, e logo numa final com o Benfica (uii…). Voltou a errar no dia seguinte, aceitando uma entrevista televisiva para a qual não estava manifestamente preparado.
Tenho para mim que Lucílio Baptista terá ficado com dúvidas no lance do David Luíz, ocorrido pouco antes, e não quis correr riscos de deixar dois penáltis por assinalar contra a mesma equipa. É claro que muitas das decisões dos árbitros são tomadas por intuição – só por ingenuidade o poderemos negar – e o que é certo é que ninguém pode afirmar com honestidade que teve certezas antes de ver as repetições televisivas. Mas as justificações dadas pelo árbitro não o ajudaram nada.
Viu, com este jogo, a sua carreira posta em causa, mas nenhum dos grandes clubes irá chorar uma lágrima por ele.
PEDRO SILVA – O que ele fez não tem perdão, e só a má consciência de Lucílio Baptista o poderá poupar a uma punição exemplar.
Compreende-se o seu desespero, e até se entenderia a destemperada reacção inicial. Mas, passada mais de meia hora, fazer novo número de circo atirando a medalha ao ar, desrespeitando liga, espectadores, patrocinadores, adversários e colegas, já é mais difícil de aceitar.
Três mesinhos sem jogar só lhe fariam bem, e talvez percebesse que um profissional de futebol tem responsabilidades éticas e de comportamento que não pode nunca pôr de lado. Veja-se o comportamento de Yebda no jogo do Dragão, e perceba-se a diferença.
PAULO BENTO – Desde que o vi ter o desplante de vociferar contra uma arbitragem numa flash interview, apenas cinco minutos depois de Moutinho rasteirar impunemente Adu dentro da área do Sporting num dos últimos derbies na Luz, perdi todo o respeito pelas suas considerações sobre o tema. Nunca disfarçou – nem muito menos agora – que, conhecendo bem o futebol português, utiliza os microfones para tentar influenciar as arbitragens futuras, e foi ele o único treinador que falou das mesmas antes ainda de se iniciar o campeonato. Foi ele também o único personagem desta história a falar objectivamente do segundo lugar, como que a pedi-lo em jeito de indemnização.
A sua voz não tem pois credibilidade alguma em matéria de arbitragem, e está mais do que gasta. É um excelente treinador, mas devia falar menos.
QUIQUE FLORES – Se o tenho criticado pelo comportamento da equipa em campo, a sua atitude fora dele é absolutamente exemplar.
Tem, como ninguém, a autoridade moral de levantar a taça sem baixar a cabeça, pois nunca, desde que está em Portugal, falou de qualquer arbitragem. E motivos não lhe faltaram.
LIEDSON – Acabou por ser, de entre as vozes leoninas, o que mais ponderação teve no que disse. Lamentou o prejuízo, mas, mesmo falando a quente, foi capaz de olhar para a frente e não só para trás. Uma postura surpreendente de quem, no passado, nem sempre primou pelo desportivismo.
DI MARIA – No meio do caldeirão criado, chegou a pedir-se um castigo para o jovem argentino por ter reclamado um penálti que as repetições vieram depois a demonstrar não existir.
Só quem nunca tenha visto futebol, ou queira fazer dos outros parvos, pode afirmar tal coisa, como se simular faltas fosse o mesmo que reclamá-las.
SOARES FRANCO – Nunca perdeu a compostura, o que abona em seu favor. Excedeu-se nas palavras, mas isso percebe-se face à frustração que, como todos os sportinguistas, naturalmente sentiu, e também à conjuntura leonina – vésperas de congresso, período eleitorial, naufrágio europeu etc.
Errou ao exigir uma reacção a quem não tinha nada para dizer: Luís Filipe Vieira. Mas errou sobretudo ao confundir questões estruturais (presença na Liga, credibilização do futebol etc) com um simples penálti mal assinalado.
ADEPTOS DO SPORTING – Entende-se a sua revolta, pois ninguém gosta de ser prejudicado pelas arbitragens, sobretudo numa final contra um rival.
Não quiseram entender porém, na sua cegueira clubista, que o erro cometido foi absolutamente normal, e igual a tantos outros que acontecem em vários estádios de vários países.
Os que têm presença no espaço mediático (Dias Ferreira, Eduardo Barroso, Rui Oliveira e Costa etc) reagiram de forma ainda mais violenta do que se esperava. As suas vozes valem o que valem, mas os disparates foram tantos que acabaram por marcar a semana pelo ridículo. Desde pedir a repetição do jogo (!!??!!), até indemnizações, tudo foi lançado para o ar.
COMUNICAÇÃO SOCIAL – Aproveitou a polémica para aumentar as vendas – até o nosso VEDETA DA BOLA bateu recordes… -, o que é legítimo. Mas aqui e ali abusou um pouco, sobretudo quando deixou que certos jornalistas dessem largas às suas parciais opiniões, ora em reportagens, ora em noticiários que se queriam isentos.
Sondagens a sugerir a repetição do jogo vão ficar como um dos momentos mais caricatos dos programas desportivos da nossa televisão nos últimos tempos.
JOÃO GABRIEL – Não consegue evitar um certo ar de malandreco-que-acaba-de-fazer-uma-partida-sem-ser-apanhado. Mas a verdade é que, de tudo o que ele disse, eu apenas não subscreveria a questão do segundo e do primeiro lugares – na verdade, jogavam os dois para o primeiro, mas vão inevitavelmente lutar pelo segundo.
A taça ao seu lado também era escusada, mas entende-se o objectivo – mostrar, e bem, que o Benfica não tem vergonha de a ter conquistado.
HERMÍNIO LOUREIRO – É uma pessoa estimável, e tem desenvolvido grandes esforços para lavar a cara ao futebol profissional português. Não merecia isto.
As suas declarações foram certeiras, mas a caldeira já estava a ferver demasiado. Sai deste folhetim como o mais injustiçado de todos os que, de algum modo, o protagonizaram. Ainda por cima, coitado, é sportinguista…
RUI COSTA – Colocou água na fervura, evidenciando a classe a que nos habituou quando estava nos relvados, e que mantém, agora fora deles.
Disse entender a frustração, mas apelou à calma e criticou exageros. Pode-se dizer que é fácil ter calma quando se ganha, mas… o que poderia mais ele fazer?
CARLOS MARTINS – Li toda a sua entrevista, e concluí que a manchete feita a partir da mesma é manifestamente abusiva. Não desrespeitou minimamente o Sporting, que julgo ser o seu clube de coração.Enquanto profissional, fez o que devia, e o que os benfiquistas dele esperam.
SÁ PINTO - Só faltava mesmo este vir atear ainda mais o fogo. Ele que sempre foi um exemplo de desportivismo. Ele que agrediu um seleccionador. Ele que terminou a carreira como merecia - com um cartão vermelho.
A TAÇA – Se em polémica se tornou uma autêntica bomba, a verdade é que a Carlsberg Cup tomou entre nós, para o bem e para o mal, um mediatismo comparável a uma final da Liga dos Campeões. Foi, como eu suspeitava, um dos momentos futebolísticos do ano, senão mesmo o principal de todos eles.
Terá que acertar os seus regulamentos mas, pelas pessoas que arrastou, pela visibilidade que teve, pela importância que assumiu, ficou a certeza de que tem tudo para se tornar uma competição de referência do futebol português.
VÍTOR PEREIRA – É sportinguista, é emblema de ouro, e é, creio, uma pessoa séria. Tem feito algumas nomeações difíceis de entender – e esta foi uma delas -, mas não tenho dúvidas de que põe as melhores intenções no trabalho que faz.
Neste caso particular, talvez lhe tivesse ficado bem uma declaração pública, até para proteger o árbitro (completamente imolado nas chamas da comunicação social).
LUÍS FILIPE VIEIRA – Esteve bem ao não falar, pois não haveria nada para dizer.
Não comemorou efusivamente – o que poderia ser mal interpretado -, mas, seguramente, não se esperaria que fosse pedir desculpas por um crime que não cometeu.
Ele até tinha criticado Lucílio antes do jogo…
As situações são diferentes. Em 2005, as polémicas em torno da arbitragem foram totalmente forjadas e ardilosamente construídas, não encontrando qualquer paralelo com o que efectivamente se passava nos relvados. Agora, nesta final, há de facto razões de queixa por parte do Sporting, que não justificam, todavia, o autêntico Carnaval mediático a que se tem assistido.
Acredito que, nos tempos de Manuel Damásio e Vale e Azevedo, muitos adeptos rivais se tenham convencido que o Benfica estava irremediavelmente condenado à decadência. O projecto Roquette apontava para isso mesmo, sustentando, na sua lógica empresarial, que o mercado português apenas suportava dois grandes clubes, pelo que leões e dragões teriam de se unir e deixar o Benfica fora dessa carruagem, leia-se, da discussão dos títulos e das presenças europeias. Não sou eu que o digo, foi João Rocha, ex-presidente do clube de Alvalade, que o denunciou, sem que ninguém o tenha alguma vez desmentido.
Talvez por isso, talvez por se terem passado sete anos (1996-2003) sem que a equipa da Luz tenha mostrado sequer capacidade para discutir qualquer troféu, todos se foram convencendo que o Benfica não mais voltaria a emergir do seu prolongado marasmo competitivo, e deixaria todo o espaço para as conquistas dos seus adversários – ainda que só um deles efectivamente ganhasse com frequência.
Acontece que a força do Benfica, do seu gigantismo, da sua enorme massa adepta, de uma gestão mais criteriosa e profissional, permitiu-lhe ultrapassar esse período, voltando, a partir de 2004, com maior ou menor sucesso, a posicionar-se na rota da discussão dos títulos. Cada vitória do Benfica é pois, neste contexto, um enorme revés no sonho, que alguns alimentavam, de ver o Glorioso reduzido a cinzas, belenensizado ou boavistizado, longe das luzes da ribalta, envolto nas sombras do definhamento. Cada triunfo dos encarnados acerta como um enorme murro no nariz desse projecto e dessas intenções. Por isso, tanta frustração desperta.
Dispondo de um espaço comunicacional totalmente desproporcionado face ao peso social que efectivamente têm, Sporting e F.C.Porto aproveitam para, em primeiro lugar, tentar descredibilizar os triunfos benfiquistas – quer ao nível da arbitragem, quer ao nível do merecimento em campo -, e em segundo, procurar evitar que eles se traduzam numa mola impulsionadora de novas conquistas, que no fundo sabem ter razões para temer. Na verdade, enquanto o Benfica dispõe de uma clara e absoluta maioria dos adeptos do futebol, vê-se no espaço mediático reduzido a um terço (ou menos) da representatividade, o que possibilita toda esta estratégia de pressão, descredibilização e condicionamento.
O resultado é esta nuvem de polémica que se cria sobre cada triunfo do Benfica, que é, com alguma perspicácia, facilmente desmontável, mas acaba por contagiar alguns benfiquistas menos atentos. Esse é o principal perigo para o clube da Luz – não o que os outros gritam e berram, mas o que alguns dos seus próprios associados e adeptos são levados a pensar, fruto de toda a mistificação em que são esmagadoramente envolvidos.
Porque não vender o horroroso edifício da Rua da Constituição, e transferir a sede para Lisboa? Provavelmente ninguém voltaria a ser agredido à saída ou à entrada, provavelmente haveria muito maior tranquilidade para trabalhar, sem ameaças, sem pressões tipo siciliano, sem arruaceirismos bolhoenses.
Não percebo aliás – ou se calhar até percebo…- porque motivo a Liga, sendo um organismo de âmbito nacional, não tem a sua sede na capital do país como seria lógico e natural. Se o objectivo era apenas descentralizar, porque não tê-la colocado em cidades do interior como Guarda, Portalegre, Castelo Branco ou Évora, que são tão capitais de distrito como o Porto?
Era pois uma boa altura para esta alarveirice – bem à moda dos sinistros anos noventa – ser enfim reparada, e a sede do organismo que comanda o nosso futebol profissional tomar o seu lugar na capital do país. Seria, além do mais, um bonito e simbólico acto de um novo tempo, no qual a corrupção, o tráfico de influências e o crime já não escrevem sozinhos as regras do futebol português.
Fica o desafio.
- O Sporting era, até ontem, o único dos três grandes a fazer parte da direcção da Liga de Clubes.
- O Presidente da mesma entidade é confesso sportinguista.
- O Presidente da Comissão de Arbitragem é sócio do Sporting desde que nasceu, tendo recebido, há cerca de um ano, o emblema de ouro do clube de Alvalade.
- O Presidente do Conselho de Administração da empresa que patrocina a Taça da Liga é sportinguista ferrenho.
- O árbitro da final é simpatizante do Sporting, e conhecido por ter beneficiado os leões em várias ocasiões, como aliás se prova pelo seu histórico.
- O Sporting tem sido, no presente campeonato (que Paulo Bento começou a tentar condicionar dois dias antes da primeira jornada), de entre os três grandes, o clube mais directamente beneficiado por decisões de arbitragem, como se pode ver pelo arquivo da classificação real.
- Ao contrário do que tem feito crer (com algum sucesso) na opinião pública, o Sporting tem tido ao longo dos últimos anos variadíssimas situações de benefício claro, a cujos rivais não têm dado a décima parte do significado ou amplitude mediática.
O que quer afinal o Sporting?
É verdade que existiu um erro, e que esse erro (só esclarecido através das repetições televisivas) acabou por prejudicar os leões, sendo todavia abusivo dizer-se que perderam a taça exclusivamente por causa dele. Mas, nunca se terão visto erros semelhantes ou mais graves que este? Porquê todo este carnaval mediático? Será que os árbitros só podem errar a favor do Sporting, e que na dúvida o têm sempre que proteger? Será cegueira ou esperteza saloia? A resposta só pode ser uma, e foi dada ontem na conferência de imprensa que decorreu na Luz.
Trata-se de algo que já está profundamente enraizado na cultura do clube de Alvalade, que vem sendo alimentado desde os tempos de José Roquette, e que teve finalmente, no sábado, o seu tão ansiado zénite - o Sporting ver-se directamente prejudicado num jogo frente ao Benfica, o que lhe vai permitir polir vigorosamente a sua teoria da perseguição nos próximos tempos, arremessando as farpas ao mais odiado rival.
Trata-se de algo que só é possível dado o desproporcionado espaço mediático o Sporting ocupa na comunicação social – tendo menos de 20% dos adeptos, dispõe de mais de 33% do espaço de opinião televisivo, e de redacções inteiras que lhe são simpáticas - para além de uma clara preponderância em franjas do poder económico que lhe permitem amplificar extraordinariamente a sua voz, com sondagens a sugerir a repetição do jogo (!?!), com aberturas de telejornal, com, enfim, todo um desfilar de declarações de pessoas “muito importantes”, que do alto da sua bem falante influência se esmeram a teorizar sobre algo que, pela sua aleatoriedade, no fundo lhes escapa, tão habituados que estão a toda a espécie de privilégios dentro e fora do futebol.
Trata-se de algo a que o Benfica e os seus adeptos não têm conseguido reagir com a energia devida, nem sempre percebendo que, mesmo com 60% dos adeptos, não conseguem dispor de mais de 33% do espaço mediático (as bombásticas capas de jornal de nada servem, e por vezes só desestabilizam), vendo-se sistematicamente em clara e penosa minoria, dado o matemático alinhamento de F.C.Porto e Sporting sempre que estão em causa questões polémicas que, de algum modo, o podem beliscar.
Se a Taça da Liga ficou decidida no sábado, o segundo lugar do campeonato terá ficado decidido no domingo e na segunda-feira. Esse sim é o verdadeiro problema. Essa sim foi a grande vitória que o Sporting conseguiu neste fim-de-semana. A sua estratégia terá por isso resultado em pleno.
PS: No meio de toda esta fanfarra, custa-me ver benfiquistas embarcados nas lanchas da mistificação, como que receando assumir a conquista de um troféu que, jogando bem ou mal, foi conquistado nos penáltis, com as defesas de Quim e com os remates de Cardozo, David Luíz e Carlos Martins. Custa-me que sejam os próprios adeptos do Benfica a não perceber o que está em causa, deixando-se levar em cantos de sereia que os vão adormecendo e neutralizando.
Quando os benfiquistas forem capazes de reconhecer a sua própria força, nada mais será como antes. Enquanto isso não suceder haverá alguém a rir-se, e todos nós sabemos bem quem é.
Não oiçam nem leiam mais nada sobre as incidências este jogo. Deixemo-los a falar sozinhos.
À hora dos "Dias Seguintes", dos "Bolas Redondas" e dos "Prolongamentos", bebam uma Carslberg fresquinha e saboreiem a doce conquista deste importante troféu. Se puderem, revejam o jogo - em particular os penáltis e a festa da vitória - ao som de uma boa música.
Por mais que tentem, não nos vão roubar a alegria do triunfo.
VIVA O BENFICA, GRANDE VENCEDOR DA II TAÇA DA LIGA !!! PS1: "Que existe mão é um facto, resta saber se é intencional!" - Repórter Nuno Luz da SIC, antes de ser exibida qualquer repetição. PS2: "Por aqui não dá para ver" - Comentador José Augusto Marques da SIC, após ser exibida a primeira repetição.
PS3: "Não me lixem!" - LF após observar toda a mistificação criada em redor de uma arbitragem igual a tantas outras.
Após uma noite de emoções fortes, o Benfica conseguiu regressar aos títulos, levantando finalmente um troféu após três anos e meio de jejum, e devolvendo assim alguma tranquilidade ao plantel, à equipa técnica e à sua generosa massa adepta – que ontem deu mais uma demonstração de grande fidelidade, preenchendo dois terços do estádio do Algarve.
Numa final entre duas equipas tão equilibradas, é difícil falar em merecimentos. Por vezes um dos contendores superioriza-se, noutras ocasiões (a maioria) é o equilíbrio a ditar as leis. Na noite algarvia Benfica e Sporting equivaleram-se em futebol jogado e em oportunidades de golo, sendo a decisão por penáltis a mais óbvia dado o que se vira ao longo dos noventa minutos.
A constituição da equipa do Benfica foi de algum modo surpreendente, mas logo nos primeiros instantes se percebeu que às alterações de nomes não correspondia uma transformação táctica significativa. Aimar fazia de Reyes, Reyes fazia de Amorim, Amorim fazia de Yebda, e Nuno Gomes fazia de Aimar. O mesmo sistema, o mesmo modelo, os mesmos problemas, aqui e ali disfarçados, como quase sempre, pela capacidade individual dos intérpretes.
Logo aos quatro minutos, Nuno Gomes podia ter colocado a equipa da Luz em vantagem. Ainda na primeira parte seria David Luíz a negar o golo a Liedson, após saída mal calculada de Quim. Um ou outro remate perigoso (Reyes, Maxi, Vukcevic), e pouco mais havia para contar ao intervalo. O zero a zero era então o retrato fiel do que se passara em campo. Estávamos perante um jogo assim-assim, com mais vontade do que qualidade, com faltas sucessivas, sem grandes requintes técnicos, o que é bastante comum nas mais grandes finais, onde pouco se arrisca e o medo de perder suplanta a ambição de ganhar.
A segunda parte começou com o golo do Sporting. Entre duas equipas com os nervos em franja e navegando nas águas da crise, quem sofresse o primeiro golo teria certamente muitas dificuldades em dar a volta aos acontecimentos. Seguiram-se pois, com naturalidade, momentos de algum desnorte benfiquista, e de uma maior clarividência leonina. Esperava-se o segundo golo do Sporting, mas o que é certo é que, pouco a pouco, sobretudo através de lances de bola parada, o Benfica foi reequilibrando a partida. Num desses momentos Miguel Vítor cabeceou à trave, naquela que terá sido a maior oportunidade de golo de toda a segunda parte.
A um quarto de hora do fim surgiu o momento mais polémico do jogo, quando Lucílio Baptista, iludido pelo movimento de Pedro Silva, assinalou o penálti que Reyes não desperdiçou. Com a igualdade restabelecida, e o Sporting reduzido a dez unidades, as coisas inverteram-se – os leões praticamente prescindiram de atacar, e foi o Benfica a procurar mais a vitória, sem contudo construir grandes oportunidades para marcar.
Soou o apito final, e a decisão por grandes penalidades acabou por sorrir à equipa que teve mais sorte e mais mérito. Depois de estar em desvantagem Quim emergiu como o homem da noite, defendendo três penáltis e garantindo a conquista de um troféu para este Benfica 2008-09.
Muito se vai falar de Lucílio Baptista nos próximos dias - muito mais, certamente, do que se tivesse sido o Sporting o prejudicado. O árbitro setubalense errou no lance do penálti, como errara alguns minutos antes ao não expulsar Anderson Polga com o segundo cartão amarelo (e ninguém sabe o que seria a última meia hora de jogo com o Benfica em vantagem numérica).
Não poderei deixar de dizer que no estádio, mesmo situando-me no perfeito enfiamento do lance, não tive, naquele momento, qualquer certeza de não ter havido penálti, tal como certezas não tiveram dois sportinguistas que estavam na fila acima de mim, que só depois de uma troca de SMS se manifestaram. Desafio pois os adeptos do Sporting a reflectirem um pouco, e pensarem se tinham alguma certeza definitiva sobre o lance antes de ver as repetições.
Se de entre o lote de árbitros da Liga eu tivesse de escolher um para a final de amanhã, o último seria, seguramente, Lucílio Baptista.






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